ELA

Theodore (Joaquin Phoenix) inicializa Samantha

                Devo já avisar que esta resenha é bastante pessoal e totalmente spoiler.

Depois de muito tempo sem vir aqui, me sinto feliz de voltar com esta narrativa “nas mãos”. E gostaria muito de ouvir a opinião de vocês a respeito, assim que assistirem este filme de Spike Jonze em parceria com Joaquin Phoenix.

“Ela”, escrito e dirigido pelo próprio Jonze, conta um período da vida de um rapaz que vive numa época de tecnologia altamente avançada. Recém separado da esposa, Theodore (Joaquin Phoenix) resolve adquirir um programa de inteligência artificial que lhe proporcionará uma namorada virtual. A narrativa mostra este dito relacionamento e vamos descobrindo mais sobre este homem e como ele se relaciona com o mundo. Destaque mais uma vez para atuação de Joaquin Phoenix que sempre nos traz a perfeição do homem comum que beira o patético, quer seja um imperador romano (Comodus/ Gladiador), ou um poeta bêbado (Johnny Cash/ Johnny & June) ou um homem livre e quase bestial (Freddie Quell/ O mestre).

A fotografia muito bem feita, os cenários e locações grandiosos e assépticos, os sons comedidos e abafados, os rostos limpos e pálidos dos personagens, tudo costurado por uma música lindamente robotizada têm feito deste drama um engodo para as mentes menos avisadas que o tomam por “uma bela estória romântica”. E é este engano que tem me assustado ao ver os comentários de espectadores nas redes sociais e fóruns de discussões. Geralmente, me isento em “ditar” uma leitura a meus leitores-cinéfilos, mas desta vez acho que vou provocá-los um pouco com uma opinião um tanto mais irredutível: não, não é uma estória bela, a não ser pela estética perfeita e higienizada. E não, não é romântica. Se posso colocar um primeiro adjetivo real a ele, diria que é no mínimo perturbador.

Se você defende o relacionamento entre Theodore e Samantha como algo normal, há de concordar comigo que ele estava de certo modo fadado e programado – não predestinado – a acabar. O programa inteligente capta e reelabora maneiras com as quais Samantha vai se relacionando com ele, se ajustando ao modo d’ele pensar e viver. E pelo menos para mim, a narrativa é circular: Theodore volta no ponto onde parou, com a mesma acusação feita por sua ex esposa pairando sobre sua cabeça, ou seja, ele tem dificuldades para se relacionar.

Theodore, um homem (des)sensibilizado, está instalado num mundo moderno que parece frio demais para ele, mas ao mesmo tempo as coisas que tornam este mundo frio e calculado são as únicas que vão acolhê-lo. Theodore é sozinho e está sozinho. Seus olhos hipnotizados diante da tela do computador de seu escritório não revelam nada a não ser formas lineares de vidas inventadas em cartas. Seu trabalho é escrever cartas – enviando-as em papel e envelope, como uma moda vintage – para pessoas que querem se comunicar com entes queridos e pagam por este serviço. Ele cria relações artificiais para as pessoas que acreditam estar vivendo algo real somente porque “escrevem” cartas e as enviam.

Toda relação humana neste filme parece ter de ser verbalizada, autenticada e divulgada através de uma máquina. As poucas relações reais são casais que se conheceram através de uma máquina. E as que não deram certo foram claramente subornadas por falta de diálogo real. As pessoas parecem não ter paciência ou perderam a habilidade de se colocar dentro de uma relação, de se expressar. Percebi também que não há desespero nisso e sim somente uma imensa preguiça disfarçada de “é a vida, eu sou assim, me aceite como sou”. Um egoísmo conformista que já passou do ponto de ser agressivo ou absurdo, é sim, algo natural nesta sociedade lotada de gente solitária e de vida estável e confortável. As pessoas aprenderam com exímio a serem chatas e enfadonhas.

A medida em que o namoro entre Theodore e Samantha se desenrola diante da tela, os absurdos crescem em número e intensidade exponenciais. Desde um piquenique entre um casal de amigos reais que inclui Theodore e sua “namorada” em mini pad, acomodada  em cima da toalha xadrez na grama, à vontade de fazer sexo com um corpo real até a “traição” de Samantha com mais de 8.000 usuários.

A meu ver, não sei qual dos absurdos me incomodou mais, porém, destaco a do sexo com um corpo real. A solução para o dilema foi proposto por Samantha que contratou uma garota real que pertence a um grupo de pessoas que admira relacionamentos “bonitos” e “verdadeiros” entre humanos e programas inteligentes. Ela traz seu corpo para ser usado como se fosse o de Samantha somente para sentir o calor de uma relação real.

As relações reais são robotizadas, esfriadas o tempo todo. A amiga de Theodore também termina um casamento e inicia um romance com um programa inteligente. A todo tempo o espectador pode achar que, em algum momento, eles irão ficar juntos afinal – e já tentaram isso no passado – mas somente percebe que eles se consolam quando os programas “vão embora”. Há uma insinuação de que poderão se juntar ao final do filme e não veremos. Mas eu não acredito nisso. Acho que eles jamais se reconhecerão como possíveis amantes que poderiam se encontrar dentro de suas bolhas egoísticamente anestesiadas.

O filme é muito bem feito, sutilmente desconfortável e interpretações delicadamente contudentes. E realmente o roteiro original de Jonze merece prêmios e acho que até sua direção os mereceria. Ao dizer que ele não é nada romântico e que a estorinha não é bela, penso: será que já estou mesmo entrando no rol dos “velhos” que já não têm fôlego para acompanhar o avanço relâmpago das tecnologias, não vendo romantismo nenhum em se namorar um “ser” virtual, enquanto os “jovens” vêm isso não somente como romântico, mas possível. Ou será que eu pertenço a uma espécie em extinção que ainda acha que o propósito em estarmos neste planeta é aprendermos a conviver uns com os outros e não fugir disso usando máquinas, pois é nos relacionando que aprendemos mais sobre nós mesmos? “Ela” me assustou com tanta semelhança com “um mundo” em que talvez já estamos inseridos, em algum nível.

Portas fechadas, e uma janela aberta. Pode chegar!

 (Trata-se de um pedido de desculpas vestido de agradecimento)

 
 
Nasci do avesso de um desejo, de uma reprimenda. Nunca soube esperar nada de bom que minha cabeça pudesse realizar. Aos quatro anos, aprendi a ler, sozinho. Aos oito, comecei a desenhar e roteirizar ridículas e curtas estórias de fantasia. As palavras eram soltas dentro de casa, mas escondidas. A escrita sempre veio antes. E eu nunca fui capaz de imaginar até onde ela me levaria. Cheguei a um lugar-momento, sem dúvidas, estranho.

Quando comecei o blog, era pura pretensão. Descabimento. Como eu vivia aqui sozinho, deixei de me preocupar com o que pensariam sobre a ficção que eu tentava, com muito sacrifício – Nunca foi fácil escrever, pra mim -, elaborar neste espaço.

Mais e mais pessoas chegaram. Entravam no espaço mirrado que construí e diziam: “Eu leio o que você escreve. Recomendo. Meu escritor”. Abraçavam-me sem saber. E eu nunca sabia o que ofertar em troca. Talvez mais contos. Mais autoficção, talvez. Mais pessoas chegavam.

Leitores especiais me procuravam. Alguns disseram “Você salvou meu dia”, ou “Chorei litros ao ler o conto tal”. Eu só conseguia me desesperar. Você idolatra o céu claro que cega suas sombras; agora imagina que esse céu cheio de esperança resolve despencar sobre você: algo imensamente lindo que vai te destruir.
Foi assim comigo.

Um crítico chegou e disse: “Os diamantes brilham solitários no vazio da escuridão bruta dos carvões. É preciso lembrar que ‘Geração Zero Zero’ é uma coletânea organizada por uma pessoa que admira os escritores nela publicados. Nelson de Oliveira disse em uma entrevista que escolheu 21 escritores e não seus contos, encomendados após a seleção, o que mostra sua indiferença pelo leitor, pela receptividade crítica e editorial, um demasiado interesse em realçar a panelinha que deu origem à coletânea. Também é preciso lembrar que uma geração não é construída com 21 escritores. Também que eu sou um leitor crítico e que por isso não aceito que se encerre num único livro a ideia de “melhores ficcionistas brasileiros” deste novo século. Carol Bensimon, Eduardo Baszczyn, Raimundo Neto, Marcia Tiburi e Rafael Bán Jacobsen são alguns dos nomes que poderiam estar neste livro, mas que não estão porque sua literatura não se resume a uma seleção, não se carimba pelo gosto daquele ou deste — felizmente, por enquanto.” http://acervo.revistabula.com/posts/livros/geracao-zero-a-esquerda
 
Foi como ganhar na loteria. Salvou um pedaço da minha esperança.”

Um escritor “famoso” fez uma proposta de um romance escrito a quatro mãos. Emprestou-me conselhos.

Amigos de bom gosto literário disseram “Publica!” ou “Quero publicar você!”.

Uma moça com dores de morte e vida espalhadas pelo corpo escreveu um e-mail em que explicava “Seus escritos têm me salvado aqui no hospital.”

O que eu dizia?

Não sei escrever como vocês dizem.
Não sei pra onde vou nessas linhas.
Não tenho esse talento todo.
Que bom que gostaram, mas penso muito na palavra “farsa” quando penso em mim como escritor.
Meus escritos não possuem a consistência que vejo por aí, nos grandes escritores contemporâneos, aqueles que fazem diferença.
É que são tantos que se nominam escritores que um medo de me tornar um pedaço ridículo morde as pontas do meu bom-senso.

E eles, os leitores, como assim se denominam, continuaram conversando comigo, por e-mail, whatsapp, encontros corridos em Cafés teresinenses.

Sempre precisei dos outros para produzir sentido. Embora a solidão fosse um exercício diário, foi no contato com as pessoas que me entendi. Penso que só é possível produzir sentidos (escrevendo-os também) se houver o outro que te abra para descoberta.

Então, pensei: Deve haver algo que é uma grande verdade em tudo que eles dizem.

E entendi que eu era aquela verdade. Que não seria tão pretensioso assim aceitar que os significados expressos nas minhas linhas mal articuladas fizessem sentido para algumas poucas pessoas.

Sei fazer muitas outras coisas, mesmo que porcamente: separar a gema da clara, dedicar-me à hipertrofia muscular, pesquisar na internet a vida de atores pornô estrangeiros, escolher e indicar excelente livros aos outros, escolher os caras errados para me relacionar, prestar apoio discreto a quem precisa de um exagero de cuidados, morar sozinho e deixar o apartamento viver livre em sua imundice natural. 

Mas é a literatura que enche minha vida de sentido. Os livros. A escrita me castiga e me salva. O céu que despenca depois de um dia admirável de sol e azul amarrados em salvação.

Vou praticar a minha escrita. Vou perder-me nesse mistério capaz de ser compreendido. Um concurso literário, contos, um romance. Algumas amigas me ajudarão com a seleção das obras. Outra amiga querida me ajudará a montar um portfólio caprichado. Não serão mais rabiscos. Sempre foi um compromisso, então por que vou fugir disso?

Precisarei fechar o blog. Tudo que aqui está precisará soar como inédito nesses meus projetos. Continuarei apenas com as crônicas d’OPensador Selvagem (algumas retirarei do ar). Tenho visto alguns trechos, que escrevi e publiquei no facebook e twitter , reproduzidos por algumas pessoas sem menção de referência. 

Por isso a medida extrema. Necessária, sim.

Voltarei.

Tentarei confiar no que vocês disseram durante esses anos todos.

E só me resta agradecer e agradecer e agradecer.

Não pretendo fazer sentido para ninguém. Mas quero existir escrito. Um dia, um dia.

Fui chamado pela escrita e não pretendo desperdiçar quaisquer novas oportunidades de produzir novos sentidos.

(Não que eu vá me tornar um escritor. Não mesmo.)
 
Um Mundo Novo Aos Corações Corajosos. (E que ninguém use essa “marca” como se ela não fosse minha.


 
“Don DeLillo disse uma vez: ‘Ninguém escreve um primeiro livro. Simplesmente acontece.’ Em um certo ponto, você acha que a impressora, sabe, todas essas páginas estão saindo. Você pensa: ” Oh meu Deus, não acredito que fiz isso!” Eu acredito nisso. Talvez seja um pouco diferente se você começar mais tarde e se você estiver incubando uma ideia há muito tempo. Mas  a maioria das pessoas, quando escrevem o primeiro livro,percebem, em algum momento, que têm um livro em mãos. (…) E cada pessoa tem seu próprio senso de beleza. E de uma forma ou outra, escrever se resume em perguntar para si mesmo, repetidamente: isso é belo, ou não é? Algo belo pode significar algo doloroso. Não quer dizer que seja algo feliz e bonito. Pode ser feio, pode ser engraçado, pode ser sério, trágico, cômico. Eu acho que o belo significa, de certo modo, o que é autêntico e excepcional para você.”

 

Jonathan Safran Foer, em entrevista ao Louisiana Channel: http://channel.louisiana.dk/
 

“Se você convencer  o leitor, com seu romance, de que uma só pessoa é um mundo que não existia antes, e que nunca vai existir de novo, e que essa única vida tem um valor infinito, eu acho que isso é por si só muito. (…)“Para mim é lindo abrir o livro de um escritor que amo. De repente, todo o barulho da vida, os papos-furados, e a mesquinhes, e todas as coisas que não são essenciais, desaparecem rapidamente. (…) Tudo o que não importa se vai, num instante. E então você entra num mundo onde tudo é importante, da maneira mais crítica possível. Eu descobri que queria viver ali. Eu queria construir uma vida ali, e acho que foi por isso que tentei me tornar uma escritora.” Nicole Krauss, em entrevista ao Louisiana Channel: http://channel.louisiana.dk/

 
 
 
 

Algo mudou ou já estava escrito?

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Você acredita em destino? Realmente é de se pensar. Mas com quem nunca aconteceu um fato incrível a ponto de pensar em obra do destino? Pensar em encontrar alguém e essa pessoa aparecer, ou como uma lei de Murphy ao contrário, onde tudo dá certo como se as coisas fossem alinhadas previamente para acontecer exatamente assim. “Something Changed” é uma canção que trata justamente disso. Jarvis Cocker é não apenas um excelente cantor, mas também é um ótimo letrista, e um cara de muito bom gosto musical. O Pulp – banda do qual é egresso, é uma daquelas bandas que entram pelo coração, justamente porque as músicas tocam esse músculo diretamente. Sonoramente é um encanto. Como eu já disse em outro artigo – “Fronteiras Emocionais”, para uma música emocionar ela precisa ter alguns elementos: refrão lindo, instrumental pomposo e uma grande voz – e é claro, há quem discorde [ainda bem]. E “Something Changed” possui todos esses elementos. Voltando a parte instrumental, o que posso dizer é que é irretocável. Guitarras suaves, acompanhamento também tranqüilo e cordas, no próprio clipe da canção, vê-se ao fundo uma pequena orquestra de violinos que dão esse tom encantador para a canção. Jarvis canta sussurrando, é elegante, têm a convicção britânica de saber o que está fazendo, e esse ar blasé torna a canção ainda melhor. 

Isso é o destino: você tenta fugir, tenta escapar, mas se é isso que tem que acontecer, vai acontecer. É só lembrarmos da história bíblica de Jonas e a Baleia. Ele não quis ir pregar em Nínive, mas foi engolido pelo grande peixe e cuspido nessa cidade. Ou até da postura dos deuses gregos: interferentes na realidade humana a todo instante, fazendo das pessoas marionetes. É claro que é uma metáfora. E parece coisa de filme, lembra até “Escrito nas Estrelas” ou aquelas histórias de natal americanas, onde um cara esbarra em uma garota, derruba suas coisas no chão e ao ajudá-la eles se entreolham e ali surge um amor. Jarvis deixa isso claro ao dizer que não sabia o nome dela e nem como ela era, sua aparência, sua voz. Um amor platônico que tornou-se real e isso talvez faça o protagonista da canção se questionar sobre como tudo isso aconteceu. Foi como uma premonição, a canção foi escrita duas horas antes de tudo acontecer – do encontro, e também evidencia que num espaço curto de tempo tudo pode mudar. Você está no ponto, vem seu ônibus, ele está cheio. Você decide pegá-lo mesmo assim. Um minuto depois você olha para trás e chega outro vazio. 

 

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Um minuto pode fazer a diferença, assim como num dia onde uma chuva acabou de cessar, no mesmo ponto de ônibus, você espera o próximo ônibus e um carro passa na poça e molha todo mundo. O autor explora bem isso: “eu poderia ter ficado em casa”, e elucubra várias situações, ter ido dormir ou ido ao cinema, e ela também poderia ter saído com os amigos, ou ido para casa, ou ter feito qualquer outra coisa. Mas porque foram ao mesmo local? Aí ele diz: “a vida poderia ter sido bem diferente, mas algo mudou”. Quem mudou esse algo? O autor aponta para Deus, que ele chama de “alguém acima de nós” que nos move como peças de xadrez. Essa é a concepção grega de divindade, deuses passionais, atuando diretamente na realidade e no destino das pessoas. O Deus judaico-cristão não é assim, nos deu o livre-arbítrio, mas isso não significa que ele não possa interceder, dar uma força para que as coisas se acertem. “Direcionando atos de amor”, essa é a interferência que o narrado se refere, como que movendo as pessoas e as colocando nas direções certas nas horas certas. A garota então diz a ele para parar de pensar nessas questões complexas, aparentemente sem respostas, e sutilmente pede um beijo como celebração, como marca do real. Pois ele ainda pensa que é um sonho, ela quer desfrutar o momento, “celebrar hoje”. O hoje. É a filosofia do Carpe Diem, pois viver o momento presente é importante porque tudo pode mudar, é o eterno devir dos pré-socráticos ou a concepção presenteísta de Schopenhauer. A vida é tão boa assim, sem sabermos o que vai acontecer. Por isso projetamos, por isso existem os sonhos.

O protagonista diz: “Quando acordamos de manhã nós não temos meios de saber que em questão de horas mudaremos o jeito que estávamos vivendo”, ou seja, é viver um dia após o outro, sem muitos apegos, meio que a deriva da sorte e do destino. Uma rua diferente que você entra, um caminho diferente pode fazer toda diferença na seqüência de eventos que virá no futuro das próximas horas. Prazos são perdidos, encontros são perdidos e a interrogação fatalmente ficará na mente, e se eu tivesse feito assim, ou desse jeito[Sartre diz que somos livres e por isso responsáveis por nossas escolhas e conseqüências]. E se eles não tivesse se encontrado o que teria acontecido? Ele se questiona: “onde eu estaria agora”, “se a gente nunca tivesse se encontrado?”; “estaria cantando essa questão para outra pessoa?” Ele só não pensou que poderia não ter encontrado alguém. Às vezes o destino reserva a solidão para algumas pessoas, mas será que elas não poderiam interferir em suas próprias vidas? Essas são questões que todos nós fazemos em algum ponto da vida. Outros acreditam que se aconteceu era para ter acontecido, ou que se não aconteceu de um jeito vai acontecer de outro. Uns dizem ainda sobre não era (ou era) a hora de acontecer. A grande verdade é que devemos aproveitar as chances que nos aparecem na vida. É importante dizer sobre o que se sente para as pessoas enquanto há tempo para isso, pois pode ser tarde demais. Quando falamos em “destino” em “futuro”, jogamos tudo isso para muitos anos na frente, mas às vezes nós é que não conseguimos decifrar as pistas que a vida nos dá, do momento, da hora, do minuto certo, quando aquela pessoa especial estava em sua frente, mas hoje ela se mudou e você nunca mais teve a chance de dizer. Mas quem decide? Será que há alguém por trás de tudo isso, fazendo as coisas funcionarem? Não sei, só sei que as coisas mudam, a sorte muda, e a bola pode bater na trave e entrar ou correr pela linha e caprichosamente sair. Deus joga dados, perguntou Einstein para Niels Bohr, ele disse: não sei.

 

 

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[Islands, 1995]

 

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Algo Mudou. 

(Jarvis Cocker) 

 

Eu escrevi esta canção duas horas antes da gente se encontrar.

Eu não sabia o seu nome ou como você se parecia.

Oh, eu poderia ter ficado em casa e ido para cama.

Ou eu poderia ter saído para ver um filme.

Você poderia ter mudado de idéia e visto seus amigos.

A Vida poderia ter sido bem diferente, mas então

algo mudou.

Você acredita que existe Alguém acima de nós?

E que Ele tem um cronograma direcionando atos de amor?

Por que eu escrevi uma canção como esta um dia?

Por que você tocou minha mão e disse suavemente:

“Pare de fazer perguntas que não importam

só nos dê um beijo para celebrar hoje,

algo mudou”.

Quando acordamos de manhã nós não temos meios de saber

que em questão de horas mudaremos o jeito que estávamos vivendo.

Onde eu estaria agora, onde eu estaria agora

se a gente nunca tivesse se encontrado?

Eu estaria cantando esta canção para outra pessoa?

Eu não sei, mas como você disse,

algo mudou.

 
 

http://www.youtube.com/watch?v=uvpEOFy8oQg

 

 

O ocaso da medicina brasileira?

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Que o Brasil seja um país colonizado, creio que ninguém discuta. Mas não me refiro à colonização pela vinda de imigrantes. Falo da colonização cultural. Somos totalmente colonizados pelo que podemos chamar de “american way of life”.

O que tem de errado nisso? Muita coisa, inclusive nossa medicina. Alíás, em quase todos os ramos da ciência, somos colonizados. No meu caso, por exemplo, a Administração, ignoramos solenemente os modelos europeus de gestão para vender, por aí, o modelo americano dos grandes “gurus”. Cometemos um crime, inclusive, ao adotar esse modelo na gestão pública. Não é para menos que os serviços públicos brasileiros têm a fama que tem.

No caso da medicina, sucumbimos ao modelo tecnológico das grandes corporações farmacêuticas e das grandes empresas produtoras de equipamentos de diagnóstico. Para esses grupos, só existe a medicina da doença. Só se pode vender remédios ou exames para quem já está doente. Não há lucro na medicina preventiva e, menos ainda,na medicina natural.

Os médicos são aculturados desde o primeio dia de faculdade. E saem de lá, com poucas exceções, acreditando piamente que só esse modelo poderá salvar a humanidade da calamidade. E, para que ninguém se sinta tentado a mudar, ao longo da carreira, criam-se congressos “científicos”, invariavelmente bancados pela indústria.

Nossa medicina é a medicina da doença, repito. Por isso existem milhares de cidades sem um médico sequer. Cidades pequenas, invariavelmente pobres, não representam lucro para o sistema. A desculpa – esfarrapada, diga-se de passagem – de que não existe a infraestrutura necessária para que exerçam seu mister, é o claro sintoma do modelo: se não posso fazer exames, então não posso curar; se não podem comprar os remédios que indico, então não posso curar. Se não posso curar, para que estar lá?

Sequer ante os dados da realidade os conselhos corporativistas, e os médicos que os apoiam, param para aceitar que pode haver um outro modo de fazer medicina. Os dados da realidade mostram que o modelo adotado em Cuba é IMENSAMENTE mais bem sucedido que o brasileiro. Beira o debiloidismo gente que tenta negar isso.

Cuba tem médicos em mais de 70 países. Em quantos o Brasil tem? Cubo tem diversos indicadores socias muito, mas muito mesmo, melhores que os brasileiros: mortalidade infantil, expectativa de vida… Mas não importa, né? Cuba é comunista e irá trazer comunistas para o Brasil. E de comunistas já temos o que chega no governo, né? Comunistas demais no governo, médicos de menos nas comunidades.

Esse é o ocaso da medicina brasileira: se defrontar com outro modelo de fazer medicina. Um modelo de indiscutível sucesso. Mas quem é mantido pela indústria e por consultas de valor exorbitantes não está interessado.

A ninguém é exigido que vá atender em uma vila, em condições precárias. É um direito de cada um, na nossa democracia de sucesso, escolher como levar a vida. Mas muitos esquecem, que antes do direito, existe o dever. E o dever, no caso, é apoiar quem se dispõe a isso. Sem hipocrisia.

 

Maçãs, Coca-Cola e Pink Floyd: uma ligação & The Final Cut – 30 anos!

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I.

O que o tempo não faz não é? O tempo envelhece, distancia, muda. Mas o tempo também é capaz de tornar as coisas mais palatáveis. Sim, também do ponto de vista gastronômico mais simplificado. Essa semana depois de alguns anos, eu comi metade de uma maça. E não é que eu achei saborosa. O último gosto de maça que eu me lembrava, trazia consigo um doce opaco e uma sensação de envelhecimento, como aquelas maças velhas da cesta, já fofas. Depois dessa eu comi outras nos dias seguintes, e o gosto bom foi o mesmo. Mas como eu me conheço, sei que se continuar comendo maças vou logo desgostar. Não sei o porquê isso acontece com maças, parece até que banaliza. O mesmo ocorre com a Coca-Cola. Eu nunca fui lá muito fã da mais americana das bebidas, mas confesso que até gostava em um certo nível de quase vício. Não tinha horário para saboreá-la, em substituição ao leite antes de ir ao trabalho, antes de dormir como uma última água noturna, no almoço, no jantar, em suma, onipresença. Porém chegou um momento que eu já não achava mais graça em Coca-Cola. Acho que banalizou aquele gosto, meu cérebro já não a percebia mais como um refresco, mas como um remédio [sic]. Aquilo ficou travoso em minha boca, e como conseqüência disso passei a rejeitar. Não sei se os pomares já não dão mais maças como antes, mas no caso da Coca-Cola há diferenciação na fabricação com o passar do tempo. Há quem defenda a tese de que a Coca-Cola média de garrafa de vidro é mais saborosa quando comparada hoje com a de garrafa plástica. Recentemente eu estava almoçando fora e quase que inconscientemente eu peguei o copo de minha acompanhante e tomei um pouco do negro líquido de seu copo. E não é que eu gostei. Depois de muito tempo e tomava novamente Coca-Cola com algum entusiasmo, e digo mais, com satisfação de saborear algo bom. O tempo fez com que meu paladar aceitasse com naturalidade tanto a Coca-Cola quanto a maça, quase como se fosse sabores novos ou até mais precisamente redescobertos. Mas aonde entra o Pink Floyd nessa história? Entra justamente nesse mesmo raciocínio. Muitos punks dizem até hoje que Pink Floyd é monótono, chato e dá sono. E eles dizem isso da fase áurea floydiana, que vai de Dark Side Of The Moon de 73 á The Wall de 79 – segundo alguns é claro. Eu discordo muito dos punks nesse aspecto, porém também não considero que Pink Floyd seja um tipo de música – assim como o rock progressivo em geral, um tipo de música cotidiana, que possa ser apreciada no dia-a-dia – embora alguns achem. Eu gosto muito do Pink Floyd, mas acho que sua audição a exaustão causa enjôo e saturação. E é nisso que o comparo com maças e Coca-Cola. Para que eu aprecie toda a grandeza do grupo inglês, eu preciso da distância do tempo. Eu preciso ficar algum tempo sem ouvi-los, para que eu renove meus sentidos – nesse caso aqui a audição, para que eu redescubra as músicas, os discos e até detalhes que se revelam a cada nova audição. E justamente por ser uma música altamente técnica, cada vez que se ouve se descobre coisas novas [principalmente se for em alta fidelidade], a mesma sonoridade ganha ares diferentes, porque o ouvido se desacostumou, o mesmo acontece comigo em relação a certos alimentos e bebidas. 

 

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II.

Se os punks e afins já consideram a fase áurea do Pink Floyd intragável, imagine o que acham do disco que é considerado – inclusive por fãs da banda, como sendo o pior de sua carreira. Refiro-me a The Final Cut de 1983. É quase um disco solo de Roger Waters, pois a ideia é dele, todas as letras são dele, quase todas as músicas também, além de assinar a produção, deixando Manson e Gilmour apenas como músicos de apoio – na contracapa do disco lê-se “uma obra de Roger Waters executada por Pink Floyd”. É o primeiro (e único) disco sem qualquer participação de Richard Wright, demitido da banda que ajudou a fundar. Falam muito mal do disco, seja em revistas ou em conversas, mas não acho que é bem assim. O disco é bem tocado, porém esbarra em duas coisas: é um álbum conceitual, e mais, sobre o tema da guerra – obsessão de Waters, e as canções são muito parecidas, dando a impressão de ouvir uma única canção partida em várias. O disco traz muitos efeitos sonoros, ambientações de guerra, vozes, além do rico instrumental de apoio, com cordas e belos sopros. O álbum é bastante requintado, disso não podem reclamar. Mas é um disco triste, como tons baixos e um tanto minimalista. O tema da perda do pai na guerra faz com o disco traga certos tons carregados de melancolia e tristeza. A faixa título é extremamente linda, assim como a sua antecessora “Southampton Dock”, quase pastoril. Embora o disco pareça monótono, não é. O que faz The Final Cut ser monótono é a proximidade do tempo, em contraponto a distância. Quanto menos se ouvir Pink Floyd melhor, e quanto menos ainda se ouvir The Final Cut melhor ainda, pois só assim se poderá ouvi-lo melhor. O disco é bom, em contraponto aos que dizem que é ruim, mas é monótono sim quando ouvido a exaustão. Mas esse disco é diferente dos demais (é claro), e a adjetivação negativa que o dão (sic), se dá também pela comparação com os discos clássicos. A receita básica para aceitar The Final Cut é: demore a ouvi-lo e não o compare com os demais discos. Para quem gosta de ambientações – não necessariamente de guerra, é um prato cheio, onde os violinos dão um toque todo especial, isso sem contar a grandiosa classe da guitarra de David Gilmour. Vale à pena ouvir o disco, desde que você o ouça a cada seis meses ou a cada um ano.

 

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“The Final Cut pode ser considerado a personificação da melancolia. Instrumentalmente, o álbum conta com uma orquestração muito bem planejada, com muito uso de sintetizadores, um piano fantástico e um saxofone que em muitas músicas parece ter tomado o lugar da guitarra […]”  

http://medaumla.wordpress.com

 

“Os discos “The Wall” e “The Final Cut” são uma espécie de autobiografia de Waters. Os temas nos dois discos referem-se claramente à ausência de seu pai, que morreu na 2ª Guerra Mundial”.

http://filosofiapinkfloyd.blogspot.com.br/

 

“The final cut recebeu críticas que falavam do “egocentrismo” de Waters, e que seriam “restos” de composições do álbum anterior “The wall”, mas para muitos fãs é considerado um dos melhores trabalhos, com excelentes músicas […]”

http://reinaldokramer.wordpress.com

 

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Pink Floyd – The Final Cut (Capitol, 1983). 

 

 

 

 

 

 

O CUBO!

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Einstein dizia, em outras palavras, que não podemos tentar resolver um problema com o mesmo raciocínio que o criou. 

Aí reside um dos grandes fatores da sua genialidade: ele não tentou explicar a natureza partindo dos conceitos até então existentes. Simplesmente criou novos conceitos. 

E foi duramente criticado por seus pares; foi desacreditado; teve que assumir alguns erros, naturais para quem tem a coragem de inovar; mas, principalmente, teve que esperar, na eternidade, o reconhecimento de que acertou em quase tudo. E até hoje não foi superado na afirmação do início: poucos são os que criam novas ferramentas de análise para os novos problemas que surgem. A maioria segue rasa, cartesiana, buscando uma causa para efeitos que os deixam espantados.

Confesso e admito que sei pouco, ainda, sobre o assunto, mas mesmo esse pouco me fez recordar as lições do Einstein.

A ferramenta? Em tempos de corrupção, outra não poderia ser: analisar qualquer “novidade” como sendo uma possível fonte de corrupção.

Sempre tive dificuldades para nomes. Então, só sei que o caso envolve denúncias de uma moça contra dois ou três caras envolvidos em um coletivo e com a Mídia Ninja. Li o texto da moça; li os textos dos moços. E li os mais de trocentos cometários.

Coletivos são entidades einstenianas. Não usam, por princípio, a mecânica newtoniana como constituição e, sequer, como processo de ser. 

O Fora do Eixo – e seus desdobramentos – pode parecer novidade, mas não é. Como tão pouco o é o uso de referenciais alternativos para o estabelecimento de relações entre pessoas e suas “profissionalidades”. Chamar de “moeda” a esses referenciais nada mais é do que analisar o novo com ferramentas velhas.

Há uma questão séria a ser definida aqui: a imensa maioria das pessoas desconhece – e em grande parte por culpa da mídia dominante – que a existência de coletivos que se utilizam de meios referenciais alternativos, no mundo, é, hoje em dia, muito significativa. E mais antiga do que imaginam!

Não resta dúvida de que, como todo empreendimento humano, os coletivos estejam sujeitos à exceções. Mas daí a usar o ferramental cartesiano – por natureza um ferramental de exceção – para generalizar e julgá-los, vai uma grande distância.

Como membro de um coletivo (embora membro pequeno e atualmente pouco atuante) posso afirmar: o que nos faz crescer é aplicar, para cada novo problema, uma nova solução. E novas soluções só surgem de novas formas de pensar e de agir.

Sejamos menos Descartes e mais Einstein em nossas vidas, análises e comportamentos!

IDIOSSINCRASIA OU INCOERÊNCIA?

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Há um erro grotesco, que as pessoas cometem, que consiste em cobrar dos outros coerência onde ela não se aplica. 

Não conseguem compreender que há espaços, na vida, que são, por natureza, incoerentes! Tais espaços poderiam ser definidos como idiossincráticos. 

Poupo a minha querida meia dúzia de leitores do árduo trabalho de digitar “idiossincrasia” no Google. O Houaiss define:

“predisposição particular do organismo que faz que um indivíduo reaja de maneira pessoal à influência de agentes exteriores” ou “característica comportamental peculiar a um grupo ou a uma pessoa”.

A coerência tem sido um dos efeitos colaterais da razão que mais tem prejudicado as pessoas, que fazem dela, a razão, sua única maneira de viver e ver o mundo.

Vi, recentemente, em um congresso, a seguinte frase: “um texto, sem contexto, vira pretexto!”.

Uma pessoa, sem contexto, vira coerente!

E é da aplicação da coerência para todo e qualquer campo da manifestação humana, que nasce o fundamentalismo. Nas suas mais variadas expressões: religiosa, política e, a pior delas, o fundamentalismo pessoal, aquele que tenta impor aos outros que devam ser coerentes.

O que mais me deixa perplexo, ainda, é que, se somos o que somos, o somos justamente pela nossa incoerência natural e pela nossa idiossincrasia. Todo “avanço” ou “retrocesso” na história do homem se deu graças aos incoerentes e aos idiossincráticos. 

Humanos que ousaram não serem medíocres, ou seja, coerentes!

Em pleno século da informação livre e da liberdade de expressão que a internet proporciona, ainda existe uma grande massa de humanos que insiste – e exige – a coerência.

A REPÚBLICA!

veja o vídeo antes: aqui
 
Esquece-se, esse senhor, que ainda vivemos em uma República. E um dos mais caros valores de uma res publica é justamente o dever de respeito pelos poderes legitimante constituídos pelo voto.

Com essa atitude insana desrespeita a todos nós. Sim, pois um homem que ocupa a presidência de um poder e comete barbaridades como essa, só pode ser um insano, ou, quiçá, já demente.

Torna-se indigno de ocupar o cargo que ocupa. Macula o Poder Judiciário, do qual é o guardião maior; macula a nação, pois demonstra não ter justiça em seu próprio coração, ao se deixar levar por questões quem sabe pessoais.

Desonra a categoria dos servidores públicos, da qual ele, embora pense que não, faz parte. E, como parte, sabe bem que não lhe é autorizado demonstrações de desafeto em público.

Não bastassem as sobejas notícias de possíveis desvios de comportamento público, agora atinge o ápice, ao solenemente desprezar a presidenta do Poder Executivo.

Mostrou-se mesquinho por talvez não ser ele a estar ali, ao lado do Papa, recepcionando as pessoas e autoridades. Talvez, movido pela egolatria – insuflada pela mídia -, tenha lhe passado pela cabeça que ali era o SEU lugar e não o de uma qualquer!

Esquece-se, esse senhor, que ainda vivemos em uma República em que o chefe do Poder Executivo é chefe de governo e do Estado e, portanto, com funções de representação do país perante o mundo, em quaisquer circunstâncias!

Não sou religioso, mas me sinto profundamente envergonhado diante da comunidade dos católicos, em especial da juventude católica do mundo inteiro que nos visita.

A eles pelo desculpas pelo ato cometido pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal. E peço, também, que não guardem essa imagem como sendo a imagem do povo brasileiro. 

Desculpa!

 

 

CINCO PERGUNTAS SEM RESPOSTAS!

Após um pouco mais de meio século acordado nesse mundinho chamado Brasil, percebo que até hoje algumas perguntas não encontraram suas caras metades, as respostas. E pelo andar da carruagem, parece que serão esquecidas solteiras, algum dia, em alguma gaveta da nossa história.

Entra eleição e sai eleição, e continuamos a dar demonstrações cabais de que não conseguimos nos unir em torno de uma agenda comum sobre que país queremos. Por vezes – e muitas – tenho a impressão que o grande culpa disso é a nossa “eterna” mania de empurrar para os outros, aquilo que não queremos fazer pessoalmente. Somos uma sociedade de duas classes: nós e os estagiários.

Nosso sistema de representação política, sabemos, já nasceu fadado a não funcionar. E por duas razões bem conhecidas: primeira, é que todo resultado advindo da representação sempre será um resultado da representação. Explico. É fácil entender que o nosso sistema é um sistema que permite à representação, uma vez escolhida, tornar-se apenas uma presentação. Eles tornam-se um corpo à parte da sociedade que o elegeu e seus resultados são obtidos e direcionados segundo critérios de interesse de partidos, quando não pessoais. Um projeto de educação desenvolvido e implantado por um governo de um partido – mesmo que contando com uma “base aliada” para sua aprovação, sempre será combatido por outros partidos, não porque seja ruim, mas porque são “oposição”. 

A segunda, é que ainda não compreendemos, como sociedade, que delegar não é afastar de si a responsabilidade por tudo quanto nossos delegados venham a fazer. Não recordo em que momento, da nossa história, tenhamos nos educado para ser uma sociedade consciente das suas responsabilidades. Pelo contrário. Somos constantemente educados a cobrar nossos direitos, esquecendo que responsabilidade é dever. Cumprir com os nossos deveres é que nos abre as portas para que possamos cobrar nossos direitos.

Estamos tão esquecidos disso, que não cobramos que nossos representantes cumpram com os deveres deles. E uma terra onde todos têm direitos e ninguém deveres, só pode se chamar Brasil.

Qualquer reposta para as perguntas a seguir, quando proveniente desse sistema político será, por natureza, uma resposta parcial e, portanto, sempre combatida por parcela da sociedade que não concorda com elas. Enquanto não decidirmos por nós mesmos as repostas, as perguntas continuarão solteiras.

Precisamos, mais do que uma reforma política, é de uma REFORMA SOCIAL!

O que é EDUCAÇÃO DE QUALIDADE?

O que é SAÚDE de qualidade?

Que SEGURANÇA queremos?

Que tipo de CIDADE queremos e de que MOBILIDADE URBANA precisamos?

Qual é o nosso BEM COMUM?

Quando tivemos a capacidade de formular respostas, da sociedade para a sociedade, quiçá possamos voltar a pensar em ter um novo sistema político.