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Mês: fevereiro 2011

O caso dos ciclistas de Porto Alegre

Uma das artes mais difíceis para os seres humanos é a de evitar fazer julgamentos apressados, movidos pelas emoções que as situações despertam. Ter paciência para esperar que todas as circunstâncias apareçam, para daí então, realizar um julgamento o mais racional possível, está cada vez mais complicado. Tentei fazer fazer isso no caso do atropelamento dos ciclistas, ocorrido semana passada em Porto Alegre, apesar de ter ficado, como todo mundo, extremamente chocado, revoltado e impossibilitado de entender como alguém teve a capacidade de fazer aquilo. O primeiro apelo para a razão é de que o motorista do veículo estivesse drogado ou alcoolizado. Sumiu três dias para evitar o flagrante e a comprovação do estado alterado. Mas eis que a família e o advogado contratado para defendê-lo se apressam. Em matéria de hoje, 28/02, no portal ClicRBS (aqui) dizem que ele teria agido em “legítima defesa”, pois “ameaçavam virar o caro”. Que fez tudo isso em defesa do filho de 15 anos (uma “criança”, como consta na notícia). Diz a mãe da “criança”: “Tudo começou com ciclistas que até aparecem nas imagens. Eles quebraram os vidros, bateram no carro. Ele buzinou e saiu, só porque tinha uma criança, meu filho de 15 anos, junto. Não botou por cima, senão tinha matado todo mundo. Ele fugiu das agressões”. Coincidência, o fato ocorreu na rua José do Patrocínio quase esquina com a...

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A China desafia a esquerda mundial

O mundo está passando por uma grande mudança na hegemonia mundial. Os EUA estão perdendo a liderança internacional e a China está assumindo a primeira posição entre os países mais ricos (em tamanho do PIB) e de maior influência na dinâmica econômica e política mundial. Desde os tempos da Guerra Fria a esquerda mundial se acostumou a denunciar os Estados Unidos como o país que se beneficia dos acordos de Breton Woods (1944), que domina a moeda internacional, que mais influencia o comércio mundial, que mais investe nos demais países, que atua com grandes empresas multinacionais, que apoia regimes ditatoriais (como a ditadura de Mubarrak no Egito, a família Saudi na Arábia Saudita, etc), que mais polui o meio ambiente e mais contribui para o aquecimento global, etc. Porém, os EUA – com seus imensos déficits gêmeors – não estão perdendo apenas a hegemonia econômica internacional, estão perdendo também o papel de inimigo número 1 das esquerdas (mesmo que muitas correntes ditas “revolucionárias” ainda não tenham percebido). A China – mesmo sendo comandada pelo partido comunista – pouco a pouco tem se tornado alvo da crítica das esquerdas e dos setores nacionalistas de inúmeros países. A maior crítica vem acontecendo em função das crescentes exportações para todos os quadrantes do globo. É geral a reclamação dos setores sindicais reclamando contra a perda de empregos em função da concorrência “desleal”...

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Geraldo Flach (1945-2011)

  Estive pesquisando esta semana sobre a repercussão na mídia digital da morte do músico Geraldo Flach.   Eu fiquei sabendo de sua morte através de uma crônica de Arthur de Faria na Zero Hora, e fui arrebatado por uma grande tristeza.   Em diversos portais da internet encontrei uma breve nota que algum órgão de imprensa escreveu dando um resumo da sua vida num parágrafo e citando 3 ou 4 músicas que ele escreveu para cantores famosos, sem fazer muita referência sobre a colaboração real de sua obra instrumental para a música Brasileira. Aquele mesmo release frio e resumido foi repetido por todos os portais mais importantes da internet brasileira, quase como uma obrigação de publicar alguma coisa, mas sem saber o que dizer…   Uma página que me chamou a atenção foi o caderno “cotidiano” da Folha, que deu um relato muito próprio daquele caderno,  narrando uns fatos de modo sutil, uma abordagem bem “cotidiana” para a vida dele, mas que não me deixou satisfeito. Fica uma coisa assim, nas entrelinhas: “Oh… a morte, esta coisa tão cotidiana… todos nós chegaremos lá um dia… O cidadão comum que morreu hoje foi Geraldo Flach.”   Parece que a passagem deste grande monstro-mestre do jazz e fusion e da criação instrumental Brasileira seria apenas mais um fato “cotidiano” que teria passado despercebido de todos, se não fosse minimamente comovente....

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Desigualdades reversas de genero

Com as transições urbana e demográfica, o Brasil passou por uma onda de despatriarcalização, representada por uma longa mudança institucional que propiciou uma disrupção dos privilégios masculinos na família e na sociedade e a concessão de crescentes direitos às esposas e aos filhos. As regras de casamento e de parceria sexual se diversificaram e se tornaram mais equitativas no tocante às relações de gênero, entendidas de maneira não binária. Os casais com filhos deixaram de ser maioria absoluta dos arranjos domiciliares e cresceu o percentual de casais sem filhos, famílias monoparentais, coabitação marital (inclusive do mesmo sexo) e pessoas vivendo sozinhas. A transformação mais marcante do século XX – e que sintetiza as mudanças sociais, econômicas e demográficas – foi a alteração da presença da mulher de coadjuvante das decisões familiares para protagonista da sociedade em termos globais e institucionais, embora a situação esteja longe da paridade. Em uma perspectiva de longo prazo, o Brasil vem apresentando avanços sociais e nas relações de gênero nas áreas de saúde, educação, esportes, mídia, etc. Nestas áreas as desigualdades de gênero se reduziram bastante ou houve reversão do hiato de gênero (gender gap), como na educação. Na política os ganhos foram menores, pois embora as mulheres tenham se tornado maioria do eleitorado, ainda possuem uma das mais baixas presenças no parlamento entre os países da América Latina. Mas a vitória de Dilma...

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O quebra-cabeça da felicidade

Há alguns dias, tive com alguns amigos uma discussão que começou a partir deste vídeo, que mostra como os distúrbios psiquiátricos são banalizados pelo marketing das indústrias de medicamentos. Essa banalização consiste, entre outras coisas, como declara um dos entrevistados, em garantir o maior número de consumidores possível para as drogas psiquiátricas, convencendo pessoas saudáveis de que elas necessitam dessas drogas para terem uma vida mais satisfatória. E as indústrias farmacêuticas disseminam “informações” – na verdade, propagandas disfarçadas – sobre os sintomas das doenças e as drogas com poder de “curá-las”. Jornais, TVs, revistas, livros, todas as mídias entram no ciclo. O vídeo fala sobre vários transtornos e medicamentos, mas a conversa acabou se concentrando na depressão, talvez por ser o transtorno mais comumente diagnosticado e também o mais “trabalhado” pela mídia. Além, é claro, de praticamente todos nós conhecermos alguém que já foi diagnosticado, correta ou incorretamente, como deprimido. É claro que existem casos em que o medicamento deve ser prescrito para tratar esses distúrbios. Antidepressivos, por exemplo, que agem diretamente sobre a resposta da serotonina no cérebro, são necessários para pacientes que têm problemas no equilíbrio desse neurotransmissor. Essas pessoas sofrem e enfrentam uma trajetória que vai do diagnóstico difícil ao tratamento medicamentoso complexo, envolvendo a descoberta de dosagens e drogas adequadas, diversas recaídas, crises, sofrimento, preconceito, a alteração da química cerebral e a convivência com incapacidades...

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