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Mês: setembro 2011

Sexista e discriminatória

Há momentos em que, por mais que não queiramos, a estupidez humana realmente se torna mais que infinita, como dizia Einstein. É o recente caso do comercial estrelado por Gisele Bündchen para a fábrica de lingeries Hope. Nem bem começou a ser veiculada, já é alvo de ataques do fundamentalismo. E da pior espécie de fundamentalismo, aquele que se encobre sob a capa das “políticas públicas de proteção…”. Deveríamos esperar – ao menos penso que é o que se espera – de alguém que foi alçada ao posto de Ministra da República, mesmo que apenas chefe de uma Secretaria com status de ministério, que usasse de um atributo fundamental (e que parece em falta no Brasil) que é a ponderação. Ponderar é refletir, buscar o equilíbrio. Ponderar requer calma e, principalmente, analisar todos – ao menos um número grande – os aspectos envolvidos, inclusive o EFETIVO impacto que a campanha teria no público. Mas parece que não foi isso que a Ministra fez. Tomada de impulsos quixotescos na sua batalha em defesa da honra e da dignidade das mulheres brasileiras, sequer ponderou que os efeitos seriam mínimos, pois é de máximos que nossa sociedade anda farta: máximo de pobreza, máximo de corrupção, máximo de falta de segurança e de saúde… E, também importante, sequer ponderou que somos um povo formado por 76% de analfabetos funcionais, que mal e porcamente...

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As mães de Chico Xavier

    AS MÃES DE CHICO XAVIER – Glauber Filho e Halder Gomes   Enquanto a tempestade sacudia os Alpes suíços, Victor Frankenstein, ou o moderno Prometeu, teimava em continuar sua experiência no estúdio fétido. Exausto e febril, ele está completamente surdo aos avisos da Natureza que esbraveja contra sua tentativa de se igualar a Deus. Raios e trovões somam-se aos impulsos elétricos que chegam à Criatura, o líquido amniótico borbulha como as águas da chuva que ele vê pela janela. O momento crucial desta narrativa traz ao cume o conceito romântico da relação do indivíduo com a Natureza. Esta intensa Einfühlung pela Natureza nas narrativas românticas vai além da simples empatia, na verdade, chega à total identificação, como observado por Schelling – mencionado por mim em outro texto no Pensador Selvagem Cinema espírita. O espírito humano é a quintessência da natureza e a natureza é a manifestação do espírito humano, não somos separados. Em As mães de Chico Xavier de Glauber Filho e Halder Gomes mais uma vez esta característica romântica está presente. A simbiose entre a Natureza e os seres humanos ultrapassa a simples analogia e nos traz, além de imagens arrebatadoras, a sincronicidade dos eventos, como a nos falar sobre a eternidade da vida. No início do filme as imagens da água e uma nebulosidade se misturam e ao abri-la vemos pai e filho pescando num lindo lago;...

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Contabilizar o custo da poluição

Durante muito tempo (e ainda hoje) o mundo buscou o crescimento econômico a qualquer custo. A idéia do desenvolvimentismo virou programa eleitoral de políticos que sempre ressaltam os benefícios, mas não contabilizam adequadamente os seus malefícios. Tradicionalmente, o grau de desenvolvimento se mede pela estrutura e o valor do Produto Interno Bruto (PIB). A contabilidade nacional calcula o PIB pela soma do preço de todos os bens e serviços (em termos de valor agregado) produzidos em um determinado território. Todo o alumínio ou o cimento produzido no país entra no cálculo do PIB, porém a poluição gerada por estas atividades industriais não são contabilizadas. Bens superfluos como os diversos tipos de bebidas alcoólicas, assim como suas propagandas machistas, entram com valor positivo no PIB, embora estas bebidas sejam responsáveis por grande parte das mortes em decorrência da violência interpessoal ou em choques de veículos no país. Em geral, governos em nível local, estadual e nacional comemoram os empregos e impostos gerados por uma fábrica de cerveja ou aguardente, mas não contabilizam nas contas nacionais as vidas subtraídas decorrentes da cirrose, das brigas de bar, da violência sexual e doméstica e dos acidentes de trânsito. Por exemplo, entra no PIB como investimento os recursos gastos por uma firma ou pessoa física quando desmata (e queima) uma grande área de Cerrado, Mata Atlântica ou Floresta Amazônica para plantar pasto e criar...

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A sensibilidade e a inocência do mal: Hitler, Korn e Black Box Recorder.

  O argumento desse artigo é de que “o mal pode ser sutil e sensível”. A idéia é que uma coisa ruim pode se travestir de inofensiva, como nas armadilhas dos desenhos animados – é só lembrarmos de Coiote e Papa-léguas, quantas vezes o Coiote montou armadilhas para o Papa-léguas lhe oferecendo alpiste (sua comida preferida)? Era uma coisa boa com uma má intenção por trás. Num mundo de aparências como o nosso, não é prudente acreditarmos em tudo o que é belo e bom – (Platão diz que tudo que é belo é bom), quantos casos já não ouvimos de pessoas que param na estrada fingindo estar com problemas mecânicos no carro, alguém para pra ajudar e é surpreendido por um assalto. Ou ainda, pessoas que se oferecem para ajudar idosos para no final assaltá-los, ou até matá-los. A beleza pode esconder muitas coisas, e a bondade muito excessiva também, afinal porque será que existem ditados como “por fora bela viola, por dentro pão bolorento” e “quando a esmola é demais o santo desconfia”? A banda norte-americana Korn e a inglesa Black Box Recorder se utilizaram desses recursos em seus discos de estréia. Da capa a algumas canções, é tudo inofensivo – há diálogos com o mundo infantil, com a inocência, para que as más intenções não sejam percebidas, pois quem irá desconfiar de algo belo e sutil...

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Quem tem medo de Simone de Beauvoir?

Recentemente, tenho lido e ouvido muitos julgamentos, de teor e tom questionáveis, a Simone de Beauvoir. E essas acusações suscitam uma pergunta: por que sua figura e seu pensamento incomodam tanto? Sua bissexualidade, vários e várias amantes, a recusa do casamento e da maternidade, a liberdade e independência em um mundo cada vez mais conservador poderiam ser uma resposta. Mas a considero simplista e insatisfatória. Simone de Beauvoir nasceu há 113 anos. Suas obras mais influentes foram escritas entre os anos 1940 e meados dos anos 1970. O Segundo Sexo, seu livro mais importante, foi publicado em 1949. Lá se vão mais de 60 anos. Mas tantas décadas parecem não ter sido suficientes para que sua obra fosse compreendida e criticada com propriedade. Ainda hoje, muitas pessoas se recusam a ler Simone de Beauvoir porque ela era “uma libertina”. E repetem-se afirmações forjadas para atribuir a ela tudo aquilo contra o que ela lutou no plano das ideias e no plano da ação. Acusam-na de submissão, de dependência, de pregar o feminismo para as outras mulheres e não praticá-lo.   Essa resistência a Simone de Beauvoir esbarra em questões mais profundas sobre nossa sociedade: a condição da mulher, especificamente a mulher intelectual; a relação entre a experiência vivida e a escrita da memória com a subjetividade; as expectativas que recaem sobre os intelectuais. Tentarei abordar brevemente, e de forma não...

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