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Mês: fevereiro 2012

O Paradoxo de Jevons e a questão da eficiência

A ecologia não é apenas a preocupação com as energias renováveis. Ela propõe também mudança de mentalidade, de vida”.Edgar Morin (FSP, 29/07/2011) O Paradoxo de Jevons (ou efeito bumerangue – rebound effect) é uma expressão usada para descrever o fato de que o aperfeiçoamento tecnológico ao aumentar a eficiência com a qual se usa um recurso ou se produz um bem econômico, o mais provável é que aumente a demanda desse recurso ou produto. Este fenômeno foi observado pelo economista britânico William Stanley Jevons (1835-1882), que escreveu em 1865 o livro “O Problema do Carvão”, observando que os motores mais eficientes da Revolução Industrial ao invés de reduzir, aumentaram o uso total do carvão: “É um completo engano supor que um uso mais eficiente dos combustíveis implicará numa redução do seu consumo. A verdade é precisamente o oposto” (p. 123). O Paradoxo de Jevons é útil para realçar o fato de que à medida que as novas tecnologias conseguem elevar a eficiência de um dado recurso natural, o seu uso total pode aumentar ao invés de diminuir. Um exemplo deste fenômeno está na maior eficiência dos motores a combustão da industria automobilistica, já que os carros do século XXI são muito mais econômicos no uso do combustível do que os modelos da década de 1970, mas o consumo global de gasolina não parou de aumentar. O mesmo pode acontecer...

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Houaiss: o fundo do poço é sempre mais embaixo!

Causa espanto, para não dizer outra coisa, em todos os seres minimamente dotados de certa racionalidade, a notícia de que o procurador da República de Uberlândia/MG, Cléber Eustáquio Neves, tenha entrado com “uma ação contra a Editora Objetiva e o Instituto Antônio Houaiss para a imediata retirada de circulação, suspensão de tiragem, venda e distribuição das edições do Dicionário Houaiss, que contêm expressões pejorativas e preconceituosas relativas aos ciganos.” (Portal Terra). É sabido que membros do Ministério Público, diante de reclamações/queixas de cidadãos, podem indeferir, de plano, a instauração de procedimento investigatório. Claro que de forma fundamentada, de tal sorte que permita ao cidadão recorrer da decisão ao Cosnelho Superior. Tudo depende do conteúdo da narrativa do fato e do quanto esta narrativa está acompanhada de elementos que a tornem, ao menos, verossímel. É do juízo do membro do MP decidir se há elementos suficientes na narrativa do fato para que proceda as diligências iniciais e, convicto, dê as sequências previstas em lei ou normativa interna do MP. No caso, as diligências iniciais seriam nada mais nada menos que a simples leitura do verbete apontado pelo cidadão. Tudo o que ocorreu após entrou na seara dos “juízos de valores”. Concordou o procurador, com sinceridade ou não, que um dicionário poderia significar que “Ninguém duvida da veracidade do que ali encontra. Sequer questiona. Pelo contrário. Aquele sentido, extremamente pejorativo, será...

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A máquina de Turing

Alan Mathison Turing, (1919-1954), matemático inglês, foi considerado o idealizador de um computador por ter definido os conceitos básicos de uma máquina destinada a operar em grande velocidade conjuntos numéricos finitos muito extensos. Esses conjuntos deviam ser elaborados em programas de acordo com a estrutura da máquina de modo a poderem entrar em um “estado passivo” onde todas as suas funções estariam prontas para serem acionadas em “estados ativos”. Portanto com Turing teve início a construção dos computadores eletrônicos, as máquinas do nosso tempo, que se tornam cada vez mais sofisticadas numa evolução irreversível. A propósito cito a opinião do físico e matemático Roger Penrose vemcedor com Sephen Hawking do Prémio Wolf, no seu livro “Emperor’s New Mind”, (traduzido para o português em 1993 pela editora Campus, Rio de Janeiro, sob o título “A Mente Nova do Rei”): ‘Há alguma coisa quase aterrorizadora nesse ritmo de desenvolvimento. Os computadores já são capazes de realizar numerosas tarefas que, antes, eram província exclusiva do pensamento humano, com velocidade e precisão que ultrapassam, muito, qualquer coisa que um ser humano possa realizar”. Partilho da mesma opinião e reconheço que os computadores, atualmente, comandam as nossas vidas e de certo modo tornamo-nos escravos dessas máquinas criadas por nós. Apenas como exemplo vejamos a última novidade dos computadores, o “touch screen” que integra sensores na tela e softwares para interpretar os comandos do usuário....

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Pioneiras sufragistas brasileiras e a conquista do voto feminino

No dia 24 de fevereiro de 2012 o Brasil comemorou os 80 anos da conquista do direito de voto feminino. O direito de voto das mulheres foi assegurado pelo Decreto 21.076, de 24/02/1932, assinado por Getúlio Vargas, no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro. O artigo 2º dizia: “É eleitor o cidadão maior de 21 anos, sem distinção de sexo, alistado na forma deste Código”. Inicialmente o voto feminino não era obrigatório, conforme o artigo 121: “Os homens maiores de sessenta anos e as mulheres em qualquer idade podem isentar-se de qualquer obrigação ou serviço de natureza eleitoral”. A obrigatoriedade do voto das mulheres ocorreu a partir de 1946. Muitas mulheres (e alguns homens) contribuiram para a conquista do voto feminino no Brasil. Neste artigo, pretendo destacar apenas quatro mulheres que foram fundamentais na luta sufragista: duas do Rio Grande do Norte (RN) e duas de Minas Gerais (MG). Celina Guimarães Vianna (1890-1972), nasceu na cidade de Natal, no Rio Grande do Norte e se tornou a primeira mulher eleitora do Brasil, ao dar entrada com uma petição requerendo a inclussão de seu nome na lista eleitoral da cidade de Mossoró, RN, com base em Lei Estadual, de 25 de outubro de 1927. Luíza Alzira Soriano Teixeira (1897-1963) nasceu no município de Jardim dos Anjicos, RN, e foi eleita com 60% dos votos para a prefeitura de Lajes,...

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A rouquidão do clichê

Considerando ou não estudos e teorias hegelianas, cartesianas e afins, é quase como um senso comum o assumir dois lados – maniqueístas – de uma situação, sociedade ou relação social. Os fracos e oprimidos diante dos inescrupulosos, usurpadores e maléficos não se prendem as fábulas, charges e histórias em quadrinho; são elementos incorporados, quase arquetipicamente, no inconsciente da sociedade ocidental. Assim como a grande mídia ou as instituições tradicionais do capitalismo utilizam deste célebre artificio para defender seus interesses e até lucrar, o outro lado também acaba se valendo disso de uma forma bem interessante. Quando se estuda ou se observa assuntos delicados, polêmicos ou que envolvam relações desiguais – entre capitalistas e minorias, por exemplo – esta quiralidade entre os lados do maniqueísmo acaba se definindo. Muitas lutas, guerras ou julgamentos precoces se deram, e se dão, sob este prisma, mas é simples esquecer que o comportamento descarado é praticado em ambas as faces, o convexo e o côncavo da situação, ou bem e mal. Se formos para um aspecto filosófico da coisa, em sentido mais moderno, nos esbarramos com o niilismo da terminologia bem e mal. Dentro deste encontro a noção da construção social dos termos se funde não só com a construção etimológica das palavras; mas também com a construção social baseada nos julgamentos e avaliações dos poderes. Neste ponto não se pode limitar a consideração...

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