ELA

Theodore (Joaquin Phoenix) inicializa Samantha

                Devo já avisar que esta resenha é bastante pessoal e totalmente spoiler.

Depois de muito tempo sem vir aqui, me sinto feliz de voltar com esta narrativa “nas mãos”. E gostaria muito de ouvir a opinião de vocês a respeito, assim que assistirem este filme de Spike Jonze em parceria com Joaquin Phoenix.

“Ela”, escrito e dirigido pelo próprio Jonze, conta um período da vida de um rapaz que vive numa época de tecnologia altamente avançada. Recém separado da esposa, Theodore (Joaquin Phoenix) resolve adquirir um programa de inteligência artificial que lhe proporcionará uma namorada virtual. A narrativa mostra este dito relacionamento e vamos descobrindo mais sobre este homem e como ele se relaciona com o mundo. Destaque mais uma vez para atuação de Joaquin Phoenix que sempre nos traz a perfeição do homem comum que beira o patético, quer seja um imperador romano (Comodus/ Gladiador), ou um poeta bêbado (Johnny Cash/ Johnny & June) ou um homem livre e quase bestial (Freddie Quell/ O mestre).

A fotografia muito bem feita, os cenários e locações grandiosos e assépticos, os sons comedidos e abafados, os rostos limpos e pálidos dos personagens, tudo costurado por uma música lindamente robotizada têm feito deste drama um engodo para as mentes menos avisadas que o tomam por “uma bela estória romântica”. E é este engano que tem me assustado ao ver os comentários de espectadores nas redes sociais e fóruns de discussões. Geralmente, me isento em “ditar” uma leitura a meus leitores-cinéfilos, mas desta vez acho que vou provocá-los um pouco com uma opinião um tanto mais irredutível: não, não é uma estória bela, a não ser pela estética perfeita e higienizada. E não, não é romântica. Se posso colocar um primeiro adjetivo real a ele, diria que é no mínimo perturbador.

Se você defende o relacionamento entre Theodore e Samantha como algo normal, há de concordar comigo que ele estava de certo modo fadado e programado – não predestinado – a acabar. O programa inteligente capta e reelabora maneiras com as quais Samantha vai se relacionando com ele, se ajustando ao modo d’ele pensar e viver. E pelo menos para mim, a narrativa é circular: Theodore volta no ponto onde parou, com a mesma acusação feita por sua ex esposa pairando sobre sua cabeça, ou seja, ele tem dificuldades para se relacionar.

Theodore, um homem (des)sensibilizado, está instalado num mundo moderno que parece frio demais para ele, mas ao mesmo tempo as coisas que tornam este mundo frio e calculado são as únicas que vão acolhê-lo. Theodore é sozinho e está sozinho. Seus olhos hipnotizados diante da tela do computador de seu escritório não revelam nada a não ser formas lineares de vidas inventadas em cartas. Seu trabalho é escrever cartas – enviando-as em papel e envelope, como uma moda vintage – para pessoas que querem se comunicar com entes queridos e pagam por este serviço. Ele cria relações artificiais para as pessoas que acreditam estar vivendo algo real somente porque “escrevem” cartas e as enviam.

Toda relação humana neste filme parece ter de ser verbalizada, autenticada e divulgada através de uma máquina. As poucas relações reais são casais que se conheceram através de uma máquina. E as que não deram certo foram claramente subornadas por falta de diálogo real. As pessoas parecem não ter paciência ou perderam a habilidade de se colocar dentro de uma relação, de se expressar. Percebi também que não há desespero nisso e sim somente uma imensa preguiça disfarçada de “é a vida, eu sou assim, me aceite como sou”. Um egoísmo conformista que já passou do ponto de ser agressivo ou absurdo, é sim, algo natural nesta sociedade lotada de gente solitária e de vida estável e confortável. As pessoas aprenderam com exímio a serem chatas e enfadonhas.

A medida em que o namoro entre Theodore e Samantha se desenrola diante da tela, os absurdos crescem em número e intensidade exponenciais. Desde um piquenique entre um casal de amigos reais que inclui Theodore e sua “namorada” em mini pad, acomodada  em cima da toalha xadrez na grama, à vontade de fazer sexo com um corpo real até a “traição” de Samantha com mais de 8.000 usuários.

A meu ver, não sei qual dos absurdos me incomodou mais, porém, destaco a do sexo com um corpo real. A solução para o dilema foi proposto por Samantha que contratou uma garota real que pertence a um grupo de pessoas que admira relacionamentos “bonitos” e “verdadeiros” entre humanos e programas inteligentes. Ela traz seu corpo para ser usado como se fosse o de Samantha somente para sentir o calor de uma relação real.

As relações reais são robotizadas, esfriadas o tempo todo. A amiga de Theodore também termina um casamento e inicia um romance com um programa inteligente. A todo tempo o espectador pode achar que, em algum momento, eles irão ficar juntos afinal – e já tentaram isso no passado – mas somente percebe que eles se consolam quando os programas “vão embora”. Há uma insinuação de que poderão se juntar ao final do filme e não veremos. Mas eu não acredito nisso. Acho que eles jamais se reconhecerão como possíveis amantes que poderiam se encontrar dentro de suas bolhas egoísticamente anestesiadas.

O filme é muito bem feito, sutilmente desconfortável e interpretações delicadamente contudentes. E realmente o roteiro original de Jonze merece prêmios e acho que até sua direção os mereceria. Ao dizer que ele não é nada romântico e que a estorinha não é bela, penso: será que já estou mesmo entrando no rol dos “velhos” que já não têm fôlego para acompanhar o avanço relâmpago das tecnologias, não vendo romantismo nenhum em se namorar um “ser” virtual, enquanto os “jovens” vêm isso não somente como romântico, mas possível. Ou será que eu pertenço a uma espécie em extinção que ainda acha que o propósito em estarmos neste planeta é aprendermos a conviver uns com os outros e não fugir disso usando máquinas, pois é nos relacionando que aprendemos mais sobre nós mesmos? “Ela” me assustou com tanta semelhança com “um mundo” em que talvez já estamos inseridos, em algum nível.

Rock of ages – Cheesy Rock & Tom Cruise

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 Não vai marcar época, muito menos será divisor de águas. Nem sei se será lembrado. Não posso afirmar se vai virar “cult” no futuro, mas não é e nem será um clássico. Contudo, talvez as pessoas se lembrem de Tom Cruise como Stacee Jaxx… Talvez…

 

A historinha é sofrível como em quase todos os musicais. Dois jovens tentando ser cantores em Los Angeles, Hollywood. Uma mocinha do interior chega na cidade grande e dá de cara com o amor de sua vida, um cantor frustado que trabalha num bar tradicionalmente rock and roll. As aventuras desses dois são regadas a hits antigos misturados com refrões de algo que soa como novo – adivinha qual dos dois a gente gosta mais? – passa pela falta de confiança em si e uma gang de puritanas que querem acabar com o bar. E termina… Bem, você já deve adivinhar como termina, nem vou dar spoiler.

 

A mocinha é uma loirinha com uma voz de pato estridente, chata pra encrenca. Claudia Abreu com sua Chayene daria uma escovada de verde e amarelo nela! E seu namoradinho imberbe e photoshopiado quase canta bem, se não se preocupasse tanto com seu gloss. Os coroas poderiam ter salvo o filme – Catherine Zeta Jones já está acostumada a cantar, faz bem, interpreta; Alec Baldwin surpreende com uma voz interessantemente gutural; Paul Giamatti poderia ter sido melhor explorado… – mas não se iludam, pois este não é e nem chega perto de “Mama Mia”. O sucesso de “Mama Mia” foi justamente esse: colocando os coroas para cantar algo da geração deles e os jovens só de fora, acompanhando.

 

Em Rock of Ages eles tentaram fazer um revival pra chamar os velhos e colcaram dois pirralhos que mais pareciam ter saído de High School Musical ou Glee para atrair os jovens, mas percebi que no final ninguém se identifica totalmente com nenhum dos dois e o espectador fica órfão no meio do caminho. Aliás, o casalsinho principal nem sofre, quer dizer, sofre, mas estão sempre rindo. Não consegui saber a diferença de quando riam ou quando choravam, pra ser bem sincera. E por falar em não entender alguém, eu ainda não saquei qual é a do Russel Brand (ex-Katy Perry, que essa sim, apesar de chata, sabe o que faz e pra que veio). Ele é classificado em busca da internete como “comediante” – nunca ri com nada que ele tenha feito até agora! – e como “inglês”… Ele faz um sotaque inglês tão forçado que chega dar vergonha alheia e consegue se tornar um esteriótipo de si mesmo! Porém, o personagem de Baldwin e de Brand rendem uma coisinha engraçada no final…

A história vira uma balbúrdia medíocre, uma gritaria de rock sem roll e ofende até mesmo o cheesy rock, metendo o tal do saxofone no meio! Ninguém faz sentido ali e o único personagem que fala algo que presta em algumas frases soltas é o Stacee Jaxx mesmo, e olha que ele é considerado o “lesado”. Tentam salvar a coisa chamando a poderosa Mary J. Blidge, mas não dá tempo de curtirmos ela, pois ela nem dá um groove, só se joga na gritaria.

Em “Rock of Ages” a surpresa é dele, aliás, é ele, mesmo não sendo o protagonista. Ele canta sim e não é ruim. Sua voz aguda casou bem com cheesy rock dos anos 80. Tom Cruise com seu corpão malhado (5.0, hein? Colocando muito meninão de 20 anos no chinelo!), seu cabelo sempre impecável também ficaram perfeitos na caracterização. Mesmo forçando a sensualidade (não adianta, ele é frio, não tem jeito) ficou bem de novo, como os tipos roqueiros daquela década, porque eles eram mesmo afetados. Sua voz nasalizada ao falar é compensada pelos bonitos “s” que pronuncia e sua lombar está em dia, obrigada! Há muitos cambrés! O take em que ele entra em cena é bom, impactante. O momento alto é Tom cantando “Pour some sugar on me” do Def Leppard. E ele até parece dar um riff de guitarra! Não sei ao certo, estou com preguiça de pesquisar, desculpa.

Não botava fé em Tom Cruise na década de 80, quando ele surgiu. Eu já curtia Johnny Depp, River Phoenix, Gary Oldman, os bonitos novos beatniks underground. E aquele rapaz de beleza de estátua grega, lindo, mas frio, simpático, mas nada sensual, na minha opinião não venceria a década e só faria menos de uma dezena de filminhos para jovens mocinhas apaixonadas. Mas ele insistiu, venceu a dislexia e seguiu se arriscando. Mesmo assim só fui respeitá-lo depois de “Entrevista com Vampiro” e aí pensei: “Epa! Espera. Tom Cruise se expôs, acho que vem coisa interessante por aí”. Antes ele já tinha recebido elogios por “4 de julho”, mas eu não acreditei… Depois de vários desafios que ele demonstrou ter coragem de enfrentar, passei a gostar dele. Ele não é um espanto em atuação, porém tem gente por aí com menos tempo de estrada, mais badalação do que ele, e nenhum talento. Ele é persistente, se arrisca e não perde a pose.

Talvez possa-se até lamentar em não ver o Tom Cruise cantando mais no filme, contudo concluí: acho que isso não foi possível e eles podem ter pensado em não “gastar” todas as cartas da manga sobre o moço. Brincadeirinha! Acho que não era necessário, de verdade… Ah, mas tem mais uma coisa que gostei no filme: o batom que a mocinha usa. Lembrei-me de um que tive na adolescência, o único que tive até hoje da Helena Rubstein e foi maravilhoso! Ainda me lembro do cheiro daquele batom rosa! 

Bem, é um filme pra se ver comendo pipoca – e isso pra mim não é sinal de algo bom, ok? – mas em casa. Se quiser realmente ver, espera sair em DVD, Tela Quente ou SBT.

 

 

 

 

As mães de Chico Xavier

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AS MÃES DE CHICO XAVIER – Glauber Filho e Halder Gomes

 

Enquanto a tempestade sacudia os Alpes suíços, Victor Frankenstein, ou o moderno Prometeu, teimava em continuar sua experiência no estúdio fétido. Exausto e febril, ele está completamente surdo aos avisos da Natureza que esbraveja contra sua tentativa de se igualar a Deus. Raios e trovões somam-se aos impulsos elétricos que chegam à Criatura, o líquido amniótico borbulha como as águas da chuva que ele vê pela janela. O momento crucial desta narrativa traz ao cume o conceito romântico da relação do indivíduo com a Natureza.

Esta intensa Einfühlung pela Natureza nas narrativas românticas vai além da simples empatia, na verdade, chega à total identificação, como observado por Schelling – mencionado por mim em outro texto no Pensador Selvagem Cinema espírita. O espírito humano é a quintessência da natureza e a natureza é a manifestação do espírito humano, não somos separados.

Em As mães de Chico Xavier de Glauber Filho e Halder Gomes mais uma vez esta característica romântica está presente. A simbiose entre a Natureza e os seres humanos ultrapassa a simples analogia e nos traz, além de imagens arrebatadoras, a sincronicidade dos eventos, como a nos falar sobre a eternidade da vida. No início do filme as imagens da água e uma nebulosidade se misturam e ao abri-la vemos pai e filho pescando num lindo lago; o peixe pescado pelo rapaz, que nem queria estar ali, é seguido de comentário do pai: “você deveria aproveitar mais estes momentos” o qual é ignorado pelo filho. A presença da natureza trazendo um prazer simples não comove o rapaz que não está em harmonia com ela e ele será o próximo fisgado.

A natureza é personagem no filme, como anunciadora ou companheira: a tempestade que cai quando o rapaz é deixado na clínica, o céu que muda a cada acontecimento, as pedrinhas do rio que a mãe guarda com carinho, os pássaros que cantam na porta da escolinha de Theo, os grilos na Casa da Prece de Chico. Incluso o silêncio recheado destes sons naturais tão bem colocados e pontuados faz da narrativa um convite para irmos mais fundo na reflexão. Bem diferente das afobações e necessidades de sustos de outros filmes que falam de desencarnados por aí.

Mesmo sendo, como dito pelo próprio Glauber, um filme que homenageou o centenário de Chico Xavier, não me pareceu um filme doutrinário, mesmo com referências ao Cristianismo (como nas imagens dos peixes) e na prática da caridade kardecista. É ainda um filme em si, uma ficção baseada em fatos reais, mas que com certeza pode ser apreciada por quem não segue os preceitos ali somente mencionados. O entrelace dos personagens, suas experiências, alegrias e dores são humanas e é o que se ressalta no enredo. É como disse Glauber: é um legado e uma produção ligados a causas sociais e humanitárias como vemos nos créditos, mas também é uma obra de arte.

Seu ritmo leve e cadenciado e sua simplicidade profunda lembram as narrativas cinematográficas iranianas, tais como: “A maçã” de Samira Makhmalbaf ou “O balão branco” de Jafar Panahi, só que com mais sofisticação. Este toque fino está, por exemplo, na maneira em que os acidentes foram mostrados: nada de rios de sangue saindo da tela, nada de ver em que estado ficou o corpo, não somente porque a ênfase é o espírito e a passagem, mas também porque o importante ali não é chocar. São mortes que emocionam, mas não massacram a paz do espectador e talvez por isso mesmo doam um tantinho mais…

A sincronicidade que une os personagens faz da narrativa algo mais comovente e próximo a algo com que o espectador pode se identificar rapidamente, já que parece ser assim conosco quando o trágico acontece. O irmão que ouve de Karl sobre Chico Xavier e morre em seguida; Karl que vê em sua ilha de edição cenas do acidente em que estava o irmão; a professorinha que queria abortar e ouve de Elisa como é ter um amor incondicional de mãe.

Outros pontos que colocam este filme fora do alcance das marcações que poderiam podá-lo e mais próximo de um estilo definido de Glauber/Haulder foi o cuidado no figurino e ambientação, mesmo que saibamos que ocorria nos anos 90, para que soasse com algo atemporal, que nos leva e levará os futuros espectadores a sentir esta linda mensagem como eterna. Assim como os closes para captar as emoções dos personagens e os olhos! Ah, os olhos das mães! Nada mais a comentar sobre estes últimos…

Como conversei com Stephanie Celentano em breve bate papo sobre o (talvez) cinema espírita, não me sinto segura para dizer que este já é um gênero cinematográfico brasileiro, mas com certeza é brasileiro. E pode ser um subgênero do que vemos alguns já chamar de cinema transcendental. De qualquer forma, com ou sem rótulos, é um filme lindo, perspicaz, sutil, elegante, profundo sem ser pretencioso. Eleva a alma pelo que diz e pelo o que mostra.

 

 

 

 

Flores vivas para Harold & Maude

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“Harold and Maude” (em português “Ensina-me a viver”) é um clássico dos anos 70, obviamente de sucesso perpetuado até nossos dias. Todo cinéfilo que se preze já assistiu, o cinéfilo “wannabe” tem de ver. E os que nem são tão fanáticos por cinema também podem se aventurar, pois é garantido uma mensagem de vida, ou no mínimo um suspiro e um riso.

O diretor Hal Ashby, um dos meus favoritos (fez um dos filmes que estão na minha lista dos “melhores de todos os tempos” – Muito além do jardim), praticamente inventou a categoria “comédia romântica” com este filme. Seu humor ácido está presente, mas a doçura aliada à intensidade dos intérpretes nos emociona e não de um jeito piegas. É tocante, mas não te sufoca. Te faz pensar, mas não te dá um sermão. Te conquista, mas te liberta.

Harold é um jovem rico, bem criado por uma mãe bem intencionada, mas que não consegue passar a alegria de vida que ela sente para o filho. Harold parece sofrer de uma suposta falta de atenção da mãe. E desenvolveu um gosto mórbido em presenciar funerais e destruições, além de fingir suicídios para tentar impressionar a mãe.

Maude é uma mulher de quase 80 anos que aprendeu a tirar as melhores coisas da vida, se entregando totalmente e se desapegando do que não interessa. Encontra Harold nos funerais e começam uma amizade que vira amor verdadeiro. Se casam, mas Harold não sabe a cartada final de Maude, sempre cheia de surpresas…

Na primeira vez que Maude puxa papo com Harold em um funeral ela diz: “flores negras, são flores mortas. Quem manda flores mortas a um funeral?” Seu ponto de vista sempre colorido e alegre das coisas vai contaminando Harold, que sempre se veste formalmente e de cores escuras. Cada frase de Maude é um ensinamento para ele – assim como para o espectador – e poderia fazer parte de um (bom) livro de meditações diárias.

Enquanto a relação de Harold com a mãe vai se deteriorando, com Maude ele vai se despindo de seu soturnismo e encontra uma outra perspectiva das coisas. Maude na sua sábia adquirida inocência vai questionando suavemente as crenças negativas de Harold, sem ofendê-lo e assim fazendo-o ver o quanto ele está sendo infantil e esquecendo de realmente viver.

Mas sabe? É tudo muito sutil, você conclui essas coisas, o filme na verdade não fala isso claramente. É um recurso que cada dia que passa o cinema popular vai perdendo. Muitos filmes hoje em dia tem a “boa intenção” de passar uma mensagem bonita e reflexiva, mas acaba por mastigar demais isso nos diálogos. E não são somente nos filmes americanos mais pop que isso acontece, viu? É uma tendência mundial. Por isso “Harold and Maude” é também especial, já que é acessível, numa linguagem popular, cômica, mas não nivela-se por baixo.

Os diálogos entre Harold and Maude são dignos de uma inversão de Krishna e Parvati! A cada observação de Harold um comentário louco, porém cheio de intrincadas significações sai da boca de Maude, como as flores que ela adora. Nada é pessoal, nada é técnico, é só a maneira como ela vê o mundo. Por exemplo, há um momento em que podemos ver a rigidez de Harold no apego das coisas e o contrário em Maude, quando ela comenta: “Tente algo novo todos os dias, pois vivemos para descobrir que nada é definitivo”. E ele responde: “Você parece fazer parecer como se fosse (definitivo)”.

Maude pergunta a Harold como ele gosta de se divertir além de ir a funerais. E ele a leva num desmanche de casas e carros. Ela não o critica, vai com ele e faz um piquenique com ele ali mesmo. E depois ela o leva pra ver o que ela gosta de fazer: ver plantas desabrocharem! As flores, as árvores, os brotos, a transformação da vida a fascina! Enquanto que a morte atrai a Harold.

Harold casa-se com a morte, já que Maude está no limite para encontrar o ceifeiro. Mas é no momento em que ele vê a morte de verdade – e não as que ele inventava para mãe e via nos funerais – é que ele realmente se liberta para a vida que o espera, não mais que um segundo para atrasos!

Tudo é muito bonito neste filme: a suavidade e a ironia esperta com que o tema é tratado. O charme de um filme retrô, com um figurino lindíssimo que acompanha o tema e a personalidade dos personagens. As cores em Maude e na sua casa; e a figura longuilínea de Harold, vestido de preto contrastando com paredes brancas são deveras imagens muito marcantes. E um detalhe muito bonito é que Harold, enquanto muda atittude diante da vida, vai clareando as cores de sua roupa. E o clima em volta dele também. De chuva a sol.

E para não aprontar mais spoilers do que já fiz aqui (mesmo assim vale a pena ver este filme indispensável) termino esta breve resenha com um diálogo dos amantes, a quem ofereço flores de apreciação:

Harold: Maude, você reza?

Maude: Não. Me comunico.

Harold: Com Deus?

Maude: Não. Com a vida…

NOSSO LAR

Este corpo nada mais é do que uma veste. E pressinto que você leitor desta resenha ou espectador do novo fenômeno de público em cinema no Brasil, Nosso Lar, deva concordar com isto, mesmo não seguindo a doutrina espírita.

Tive uma preocupação ao assistir um filme tão esperado e tão comentado: como seria possível contar uma narrativa a princípio impregnada de conceitos tão únicos e não parecer doutrinário? Como transformar uma história tão linda e comovente em uma estória que pudesse refletir conceitos universais e ao mesmo tempo entreter?

Wagner de Assis e sua equipe em minha opinião conseguiram tal façanha! Sei que aqueles que se familiarizam com o Kardescismo e conceito de reencarnação possam inferir mais significados no filme em comparação com quem não os conheça. Porém, Nosso Lar consegue um perfeito equilíbrio entre o comprometimento de uma mensagem – com a clara subjetividade na escolha do enredo – e a recusa em subestimar o espectador.

Aliás, isso é algo que parte das pessoas, entre elas críticos especializados e espectadores, ainda teimam em fazer: achar que a grande massa que assisti a um filme é completamente ingênua, boba e influenciável. Já temos em praticamente em quase todo cantinho do mundo, uma cultura de espectadores, e isso vem se delineando desde o século 19. O fato de Nosso Lar valorizar a capacidade do espectador em  inferir significado em seu enredo sem didatismo a meu ver é que faz dele um sucesso imediato, aproximando-o de qualquer outro filme estrangeiro que toca em assunto parecido (vide Os Outros, Visões, Espíritos, Amor Além da Vida, O Orfanato, entre tantos outros).

Nem preciso comentar a qualidade técnica do filme, como: fotografia, figurino, cenários, edição de som. Já sabemos como espectadores experientes que isso há tempos é constante em filmes nacionais… Certo? Há ali uma lembrança dos desenhos de Gustav Doré sobre a Divina Comédia de Dante Alighieri nos ambientes onde esteve André Luiz (como houve em Amor Além da Vida, por exemplo)  E antes de vê-lo, esta também foi uma segunda preocupação minha: por ser um filme tão bem acabado tecnicamente e de co-produção com a 20 Century Fox do Brasil, poderia ele perder a identidade brasileira? Isso não aconteceu.

Nosso Lar é bem brasileiro e percebi este traço não na língua, nem no tema, mas sim na atuação dos atores: há já de nosso uma marcação e entonação típica de encenação em filmes nacionais. Atores em maioria de formação teatral, com linguagem corporal inconfundível, pontuação de fala e profundidade de olhares que é realmente comovente.

E fica para todos que o assistem nem tanto a certeza numa outra vida, ou em várias outras, mas simplesmente conceitos universais admirados por todas as pessoas que querem uma vida melhor, tais como: o trabalho que edifica, a boa convivência, a luta contra a hipocrisia, o cuidar de si mesmo, o respeito aos laços que se criam com seus relacionamentos, o amor e a compaixão e a preocupação com a comuna em que se vive. E o que fica tanto para incrédulos e crédulos que sim, este corpo é uma veste, que você deve tratar com respeito, mas o que fica são suas obras, ordinárias ou extraordinárias.

Se você conseguiu ver filmes estrangeiros que passaram conceitos que você não acredita, por que não fazê-lo com o filme nacional que acima de tudo é técnica e artisticamente excelente? E se acredita, prestigie sim o cinema nacional. Ah, e leve o pacote de lençinhos, acho que você vai precisar…

 

Cinema espírita

 

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             Há tempos me corroem as formas-pensamento, na tortura ímpar de buscar, encontrar e talvez humildemente definir com alguma clareza o fenômeno narrativo que venho observando no cinema nacional. Não que este não tivesse já a narrativa um tanto definida e característica, porém onde um povo ainda tem sua identidade em formação, como definir suas formas narrativas em um só pilar? Seria isso possível até mesmo nas nações com a suposta identidade (aparentemente) coesa?

            Comentei em um outro sítio virtual, o vislumbre de uma singular forma narrativa brasileira cinematográfica para filmes de terror quando rendi minha leitura ao filme “O fim da picada” de Christian Saghaard. Mesmo ali constatei a necessidade de passar revisão em aspectos culturais que desembocam na forma narrativa em geral e mais especificamente na cinematográfica. E não posso me isentar do fato de que, além desta minha inerente e quase compulsiva mania geneticista de ir à cata da origem de tudo, minha formação acadêmica em análise de literatura e cinema e adaptações e versões que se intercambiam é primordial no que vou discorrer agora.

            Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que não proponho discutir aqui aspectos religiosos, tão somente os técnicos e de entretenimento e como se dá a expressão artística da nossa realidade, como faço com qualquer outro filme. Minhas convicções pessoais não estão em debate e mesmo sabendo que a visão subjetiva e a objetiva andam juntas, volto sempre ao ponto onde a arte nos encontra.

            Assisti a ambos Bezerra de Menezes: o diário de um espírito de Glauber Filho e Chico Xavier de Daniel Filho e se me delineou algumas semelhanças entre eles que me fizeram chegar as seguintes conclusões prematuras: um ritmo mais lento do que de costume, mais contemplativo, com uma trilha sonora quase minimalista (a de Bezerra assinada por Ítalo Menezes e a de Chico por Egberto Gismonti) e uma edição de som que ajudam na elaboração de um clima mais introspectivo. Esse ritmo nos remete até a um tom europeizado – e não que eu ache precisemos deste tipo de rendição – somente em termos de uma referência a você, leitor. Um silêncio que fala mais alto do que os diálogos, mais forte em Bezerra do que em Chico, conduzindo os personagens ao ponto exato da proposta do enredo. Fotografia e qualidade de imagens bonitas o suficiente para passar a simplicidade dos ambientes em que estiveram os atuantes das estórias e ao mesmo tempo a grandeza e singularidade das paisagens brasileiras. Sem essa ambientação, a meu ver, não haveria a necessária identificação do espectador. Há que trazê-lo à imagem da terra em comum para que a empatia aconteça. Aliás, as cores de Bezerra retratando o árido Ceará e a penumbra espírita que envolvia o protagonista são tocantes. E o arranjo de luzes e sombras de Chico mostrando as diferentes épocas em que viveu Xavier é realmente impressionante.

            Alguns já esboçaram um desinteresse por Chico Xavier por este ter sido dirigido por Daniel Filho e em parte produzido pela Globo Filmes. Porém, eu considero que mesmo com este dado, o filme contém o perfil disso que estou tentando conceituar tanto quanto Bezerra de Menezes, mesmo tendo tido este último um aspecto mais cult do que o primeiro, perdoem-me o rótulo. É que não gosto de rótulos, apesar de reconhecer que alguns se fazem necessários às vezes. E acho que Chico mesmo tendo tido um tom mais pop, cumpriu bem seu papel, não ficando parecido com novela global. Ambos os filmes foram produzidos por grandes empresas nacionais de fomento, incluindo a ONG Estação da Luz e têm altíssima qualidade e perfeita e inovadora pós-produção.

            O conceito deste tão ainda novo do que eu ouso chamar de cinema espírita carrega em si esse ritmo vagaroso, esse tom de voz baixo avesso ao carnavalesco, mas que também é parte de nós como povo. Traz essa figuração grandiosa da Natureza que nos é própria e cabe aos assuntos espiritualizados. Esse ar bucólico e retrô além de charmoso não é somente proposital, remete ao cheiro de livros velhos que também é parte do cotidiano de outros brasileiros que vivem esta realidade expressa pelo cinema. Acha tudo um tanto romântico?

            Não está errado! A literatura espírita é fruto do Romantismo, o movimento artístico filosófico do século 19, onde surgiu Allan Kardec, na França. Ao buscarmos as raízes do Romantismo vemos características, como: misticismo, espiritualidade, emotividade, vida em comuna ao mesmo tempo a valorização do herói (geralmente uma pessoa solitária), volta a qualquer passado, incluindo a reencarnação e o conceito de carma. E uma total empatia com a Natureza por ver e sentir que é parte dela. Aliás, Schelling dizia: a Natureza é o Espírito visível e o Espírito é a Natureza invisível.

O discurso espírita é de cheio romântico, abarcando o vocabulário sentimental, eloqüente e às vezes dramático. A ênfase nas emoções e nas descrições de ambientes paradisíacos, com personagens tanto angelicais como diabólicos, os antes chamados pares de opostos da dualidade carnal sempre presente na descrição das categorias e níveis espirituais. O realce à evolução individual de cada um (o herói solitário), mas que só reconhece sua missão dentro do seu papel e valor na comunidade.

            Não é de se espantar, que agora em nosso presente, o romantismo reapareça com força na literatura e no cinema abrindo espaço para reviver o gótico, o mágico, o místico, em narrativas como O senhor dos anéis, a saga de Harry Potter, Brumas de Avalon ou as aventuras dos personagens de Paulo Coelho.

            Por esses aspectos e motivos, o cinema espírita têm tudo para se tornar uma categoria na narrativa cinematográfica nacional, não somente por retratar parte do que somos – um povo espiritualizado, onde a doutrina espírita kardecista floresceu e encontrou solo fértil – mas também por estarmos num nível cada vez mais atualizado e tecnicamente bom e preciso, artisticamente falando. E vejo que a literatura espírita tem material abundante para roteiros que podem retratar muita beleza artística, independente das mensagens de cunho espiritualista, pois há público para ambos, e grande!

            Aguardo a estréia de Nosso Lar dirigido por Wagner de Assis com co-produção da Fox do Brasil. É baseado no livro espírita de mesmo nome psicografado por Chico Xavier em nome de André Luiz. O enredo é sobre as experiências de André Luiz na comunidade astral Nosso Lar. A produção promete ser impactante, romântica e com efeitos especiais muito bonitos. E a trilha sonora é de Philip Glass. Prometo voltar aqui e fazer uma resenha especial sobre Nosso Lar e relatar se também este filme carregará os aspectos do cinema espírita.

 

A hora do chá está chegando: Alice de Burton-Depp

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         A estréia internacional de Alice no País das Maravilhas está um arraso em termos de arrecadação. Foi o único até agora que tirou Avatar do primeiro lugar nas bilheterias, nas primeiras semanas pelo menos.

 

         E segurem aí as novidades: Burton resolveu fazer um roteiro totalmente diferente, ou seja, o livro de Carroll é somente a inspiração. Alice já está com 19 anos e volta ao País das Maravilhas e descobre que a Rainha de Copas dominou tudo por lá. E será convidada a ajudar nisso, a despeito de suas (eternas) dúvidas.

 

         Outro ponto muito interessante é a relação de Alice com o Chapeleiro Maluco. Criou-se entre eles uma cooperação fraternal, uma amizade íntima.

 

         E pelas palavras de Johnny Depp que faz o Chapeleiro, este personagem vem agora com suas emoções à flor da pele como maluco que é! Ao contrário do Chapeleiro do livro que mais parece um maluco deprimido, na minha leitura.

 

         Teria Tim Burton reinventado Alice com mais idade para fugir do debate extremamente chato sobre pedofilia (insistência de alguns teóricos, sobre o livro de Caroll)?

 

         Estaria Alice descobrindo o amor romântico e por isso lutará com a Rainha de Copas (a metáfora da paixão na leitura de tarô)?

 

         Aguardem a estréia do filme e voltem aqui para descermos este túnel juntos!

 

 

Preciosa

 

 

Preciosa ou Yes, nós temos favela é um filme que realmente não vai ser neutro no sentimento do espectador: você pode amá-lo, mas também odiá-lo, achar pretensioso, ou simplório, ou boçal ou genial, ou ainda algo no limbo de tudo isso.

Olhe, vou ser bem sincera: eu fiquei no limbo. Se você me perguntar de supetão “e aí? Você viu Preciosa? O que achou?”, eu direi “Opa! Filme bom!”. Mas eu sei que há muito mais a dizer sobre ele do que simplesmente “bom”, tanto sobre aspectos positivos quanto negativos.

Como sempre debato com quem lê minhas resenhas eu tento me isentar em escrever sobre filmes que não gostei. Não que eu não tenha gostado deste, mas serei obrigada a falar do que me incomodou neste filme e não é fácil de diagnosticar porque é sutil. Há algo na condução deste roteiro que me deixou com a pulga atrás da orelha, naquilo que resvalaria a pieguice. E como Preciosa eu comecei a sonhar como seria o mesmo filme na mão da iraniana Samira Makhmalbaf (de “A maçã”), por exemplo… Talvez não houvesse essa intenção de forçar a amizade (e o chôro) do espectador, com ângulos exagerados de Preciosa e seu rosto imperfeito, da sujeira em que vive e da sua professora com cara de coitada. No filme de Samira, a câmera e a narrativa se mantêm neutras, quase como um reality show artístico sem perder o limite da ficção – você continua consciente de que são atores diante da câmera e que estão representando, ou seja, mise-em-scéne perfeita! – e nem por isso deixa de se emocionar de maneira honesta.

Contudo, posso destacar as técnicas simples de narrativa, como as lindas e engraçadas passagens em que Preciosa devaneia e são bastante necessárias já que a vida ali é bem dura. Tenha certeza de que você, no lugar de Preciosa, talvez devaneasse também… Ou se tornaria um psicopata e mataria a todos fuzilados! Destaco também a interpretação das atrizes dentro desta proposta de como sofrem as mulheres em periferia e de que modo elas acabam se unindo para se ajudarem.

Não chega a ter um toque feminista chato, mas o mundo feminino ali retratado tem sua beleza e mazelas ressaltadas de modo convincente e tocante. Gabourey Sidebe dá realmente um show de interpretação e parece que somente ela ali tem aquela dose mais contida de emoção que eu gostaria. E por incrível que pareça ela é uma atriz de primeira viagem, quase como os atores não-profissionais de Samira Makhmalbaf. Somente Gabourey realmente me comoveu no filme, de verter lágrimas mesmo. Ah, sim, Mariah Carey surpreende mesmo mal saindo da cadeira onde está, ok? Eu gostei de vê-la atuando.

Acho que a emoção que Preciosa lhe trará vai estar intimamente ligada com o nível de contato que você espectador já teve com o tipo de contexto exposto ali. Eu me lembrei de uma fase emocionante da minha vida como professora de redação em uma universidade federal a um grupo do que o campus resolveu chamar de alunos de origem popular. Ali eu os ajudaria a escrever um texto sobre a trajetória deles até chegar à universidade, que seria publicado num livro, resultado de um projeto que eles participavam para terem bolsa de estudo. Eu escutei e li tantas histórias de luta, de superação, de frustração, indignação e vitória que me emocionava a cada parágrafo que eu tentava corrigir. Aprendi muito mais com aqueles jovens do que ensinei e as biografias deles jamais me sairão da memória… E por isso chorei muito no filme, por lembrar dessa minha experiência também.

Não posso julgar o que os outros sentem, mas não sei se a moça alta e maquiada, cheia de jóias, que cheirava a um perfume extremamente doce e carregava inúmeras sacolas de grife ao meu lado sentia o mesmo que eu. Pois a observei rindo com a mão na boca e cutucando a mãe ao lado toda vez que a câmera fechava o foco em Preciosa, enquanto ninguém mais ria e muitos outros soluçavam como eu na sala do cinema…

Sherlock Holmes de Guy Ritchie

 

Meu adorado século 19 e seus montes de roupa… As ruas fedorentas e lamacentas da capital do mundo, dentro do reino onde o sol nunca se punha. Aquelas mentes ainda ferventes de pensamento iluminista, mas já conduzindo corpos exaustos e viciados, e almas paranóicas e depressivas. A minha adorada Londres em seu apogeu fétido e maquinário, xenofóbica e violenta aparece ali diante dos meus olhos pasmos sob as unhas de Guy Ritchie, muito bem modernamente pensada.

Nesse cenário impecável, um dos personagens mais queridos e conhecidos do mundo, Sherlock Holmes, encarnado por aquele homem já tão íntimo das sombras: Robert Downey Jr. Seu amigo-irmão Watson vem moldado por um quase irreconhecível Jude Law! Uma boa dupla, uma excelente química!

Não entro em discussões sobre fidelidade quando o assunto é filme adaptado da literatura. Mas sei que a referência é inevitável, portanto só direi que, a meu ver, Sherlock Holmes não deixa de ser o detetive racional e esperto das estórias de Conan Doyle nessa versão de Ritchie. De maneira alguma! Downey Jr convence no sotaque RP, no olhar inteligente, na eloqüência e na arrogância. Contudo, imprime um ar vagabundo diferente de outras interpretações e bastante charmoso.

Parece ser marca já de Ritchie que seus protagonistas sejam assim maltrapilhos e atraentes, bagaceiros mesmo, assim como a grande escola escocesa da kinetic câmera. Por falar nisso, os efeitos especiais são fascinantes e imagino que as estórias de aventura das literaturas de todo mundo, assim como as dos deuses e heróis do Olimpo e da Bíblia estavam somente esperando a tecnologia cinematográfica chegar a esse ponto para serem contadas com tanta precisão!

A narrativa escolhida por Ritchie e os roteiristas dá uma outra nuance a Holmes. Não posso afirmar que mais condizente com a “realidade” das estórias de Doyle, mas pelo menos mais inteligível pra nós, deste século. Mostrar Holmes como um ser londrino altamente refinado e que nunca aparece desalinhado mesmo com a afirmação de ser viciado em cocaína injetável e ópio, talvez parecesse no mínimo entediante para as cabecinhas já doutrinadas de espectadores de cinema. A podridão do Sherlock de Downey Jr nos fala mais de perto de uma maneira quase “sindical” (barbudinho rebelde e genial em tempos ditatoriais) e esse contraste com o Watson de Law, que é conscientemente cúmplice e crítico de Holmes, nos faz pensar que se eles fossem de verdade… Poderiam ser assim mesmo!

 

O humor inglês, rápido e irônico, e as interjeições onomatopéicas como “humpf” “hu” do sotaque londrino estão bem marcadas, assim como a típica misoginia deste povo. A espiã (?) Adler, uma namoradinha de Holmes, tem papel importante no filme, mas foi aqui que Ritchie talvez tenha “falhado”… Adler aparece somente em uma das estórias de Conan Doyle e de relance. A tentativa de Ritchie em ser politicamente correto com relação aos gêneros me pareceu forçada e não consigo decidir se por causa do mal acabamento da personagem ou pela falta de talento (não de beleza) da atriz, ou quem sabe as duas coisas… Ou seja, uma peça totalmente descartável, bem diferente da noiva de Watson.

A trilha sonora mais perto de algo que soe como “tribal” me remete mais rapidamente a minha Londres de ideal Romântico, mas de dogmas Vitorianos. As saídas escondidas dos prédios, a fog (ah, minha fiel companheira, a fog londrina!) e as sociedades secretas e as teorias conspiratórias estão todas lá compondo o mosaico daquilo que seria um pouco o futuro de todos nós, aqui no Ocidente. E nas mãos do mesmo Guy Ritchie de sempre. Aliás, que bom que ele “voltou”!