O ocaso da medicina brasileira?

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Que o Brasil seja um país colonizado, creio que ninguém discuta. Mas não me refiro à colonização pela vinda de imigrantes. Falo da colonização cultural. Somos totalmente colonizados pelo que podemos chamar de “american way of life”.

O que tem de errado nisso? Muita coisa, inclusive nossa medicina. Alíás, em quase todos os ramos da ciência, somos colonizados. No meu caso, por exemplo, a Administração, ignoramos solenemente os modelos europeus de gestão para vender, por aí, o modelo americano dos grandes “gurus”. Cometemos um crime, inclusive, ao adotar esse modelo na gestão pública. Não é para menos que os serviços públicos brasileiros têm a fama que tem.

No caso da medicina, sucumbimos ao modelo tecnológico das grandes corporações farmacêuticas e das grandes empresas produtoras de equipamentos de diagnóstico. Para esses grupos, só existe a medicina da doença. Só se pode vender remédios ou exames para quem já está doente. Não há lucro na medicina preventiva e, menos ainda,na medicina natural.

Os médicos são aculturados desde o primeio dia de faculdade. E saem de lá, com poucas exceções, acreditando piamente que só esse modelo poderá salvar a humanidade da calamidade. E, para que ninguém se sinta tentado a mudar, ao longo da carreira, criam-se congressos “científicos”, invariavelmente bancados pela indústria.

Nossa medicina é a medicina da doença, repito. Por isso existem milhares de cidades sem um médico sequer. Cidades pequenas, invariavelmente pobres, não representam lucro para o sistema. A desculpa – esfarrapada, diga-se de passagem – de que não existe a infraestrutura necessária para que exerçam seu mister, é o claro sintoma do modelo: se não posso fazer exames, então não posso curar; se não podem comprar os remédios que indico, então não posso curar. Se não posso curar, para que estar lá?

Sequer ante os dados da realidade os conselhos corporativistas, e os médicos que os apoiam, param para aceitar que pode haver um outro modo de fazer medicina. Os dados da realidade mostram que o modelo adotado em Cuba é IMENSAMENTE mais bem sucedido que o brasileiro. Beira o debiloidismo gente que tenta negar isso.

Cuba tem médicos em mais de 70 países. Em quantos o Brasil tem? Cubo tem diversos indicadores socias muito, mas muito mesmo, melhores que os brasileiros: mortalidade infantil, expectativa de vida… Mas não importa, né? Cuba é comunista e irá trazer comunistas para o Brasil. E de comunistas já temos o que chega no governo, né? Comunistas demais no governo, médicos de menos nas comunidades.

Esse é o ocaso da medicina brasileira: se defrontar com outro modelo de fazer medicina. Um modelo de indiscutível sucesso. Mas quem é mantido pela indústria e por consultas de valor exorbitantes não está interessado.

A ninguém é exigido que vá atender em uma vila, em condições precárias. É um direito de cada um, na nossa democracia de sucesso, escolher como levar a vida. Mas muitos esquecem, que antes do direito, existe o dever. E o dever, no caso, é apoiar quem se dispõe a isso. Sem hipocrisia.

 

O CUBO!

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Einstein dizia, em outras palavras, que não podemos tentar resolver um problema com o mesmo raciocínio que o criou. 

Aí reside um dos grandes fatores da sua genialidade: ele não tentou explicar a natureza partindo dos conceitos até então existentes. Simplesmente criou novos conceitos. 

E foi duramente criticado por seus pares; foi desacreditado; teve que assumir alguns erros, naturais para quem tem a coragem de inovar; mas, principalmente, teve que esperar, na eternidade, o reconhecimento de que acertou em quase tudo. E até hoje não foi superado na afirmação do início: poucos são os que criam novas ferramentas de análise para os novos problemas que surgem. A maioria segue rasa, cartesiana, buscando uma causa para efeitos que os deixam espantados.

Confesso e admito que sei pouco, ainda, sobre o assunto, mas mesmo esse pouco me fez recordar as lições do Einstein.

A ferramenta? Em tempos de corrupção, outra não poderia ser: analisar qualquer “novidade” como sendo uma possível fonte de corrupção.

Sempre tive dificuldades para nomes. Então, só sei que o caso envolve denúncias de uma moça contra dois ou três caras envolvidos em um coletivo e com a Mídia Ninja. Li o texto da moça; li os textos dos moços. E li os mais de trocentos cometários.

Coletivos são entidades einstenianas. Não usam, por princípio, a mecânica newtoniana como constituição e, sequer, como processo de ser. 

O Fora do Eixo – e seus desdobramentos – pode parecer novidade, mas não é. Como tão pouco o é o uso de referenciais alternativos para o estabelecimento de relações entre pessoas e suas “profissionalidades”. Chamar de “moeda” a esses referenciais nada mais é do que analisar o novo com ferramentas velhas.

Há uma questão séria a ser definida aqui: a imensa maioria das pessoas desconhece – e em grande parte por culpa da mídia dominante – que a existência de coletivos que se utilizam de meios referenciais alternativos, no mundo, é, hoje em dia, muito significativa. E mais antiga do que imaginam!

Não resta dúvida de que, como todo empreendimento humano, os coletivos estejam sujeitos à exceções. Mas daí a usar o ferramental cartesiano – por natureza um ferramental de exceção – para generalizar e julgá-los, vai uma grande distância.

Como membro de um coletivo (embora membro pequeno e atualmente pouco atuante) posso afirmar: o que nos faz crescer é aplicar, para cada novo problema, uma nova solução. E novas soluções só surgem de novas formas de pensar e de agir.

Sejamos menos Descartes e mais Einstein em nossas vidas, análises e comportamentos!

IDIOSSINCRASIA OU INCOERÊNCIA?

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Há um erro grotesco, que as pessoas cometem, que consiste em cobrar dos outros coerência onde ela não se aplica. 

Não conseguem compreender que há espaços, na vida, que são, por natureza, incoerentes! Tais espaços poderiam ser definidos como idiossincráticos. 

Poupo a minha querida meia dúzia de leitores do árduo trabalho de digitar “idiossincrasia” no Google. O Houaiss define:

“predisposição particular do organismo que faz que um indivíduo reaja de maneira pessoal à influência de agentes exteriores” ou “característica comportamental peculiar a um grupo ou a uma pessoa”.

A coerência tem sido um dos efeitos colaterais da razão que mais tem prejudicado as pessoas, que fazem dela, a razão, sua única maneira de viver e ver o mundo.

Vi, recentemente, em um congresso, a seguinte frase: “um texto, sem contexto, vira pretexto!”.

Uma pessoa, sem contexto, vira coerente!

E é da aplicação da coerência para todo e qualquer campo da manifestação humana, que nasce o fundamentalismo. Nas suas mais variadas expressões: religiosa, política e, a pior delas, o fundamentalismo pessoal, aquele que tenta impor aos outros que devam ser coerentes.

O que mais me deixa perplexo, ainda, é que, se somos o que somos, o somos justamente pela nossa incoerência natural e pela nossa idiossincrasia. Todo “avanço” ou “retrocesso” na história do homem se deu graças aos incoerentes e aos idiossincráticos. 

Humanos que ousaram não serem medíocres, ou seja, coerentes!

Em pleno século da informação livre e da liberdade de expressão que a internet proporciona, ainda existe uma grande massa de humanos que insiste – e exige – a coerência.

A REPÚBLICA!

veja o vídeo antes: aqui
 
Esquece-se, esse senhor, que ainda vivemos em uma República. E um dos mais caros valores de uma res publica é justamente o dever de respeito pelos poderes legitimante constituídos pelo voto.

Com essa atitude insana desrespeita a todos nós. Sim, pois um homem que ocupa a presidência de um poder e comete barbaridades como essa, só pode ser um insano, ou, quiçá, já demente.

Torna-se indigno de ocupar o cargo que ocupa. Macula o Poder Judiciário, do qual é o guardião maior; macula a nação, pois demonstra não ter justiça em seu próprio coração, ao se deixar levar por questões quem sabe pessoais.

Desonra a categoria dos servidores públicos, da qual ele, embora pense que não, faz parte. E, como parte, sabe bem que não lhe é autorizado demonstrações de desafeto em público.

Não bastassem as sobejas notícias de possíveis desvios de comportamento público, agora atinge o ápice, ao solenemente desprezar a presidenta do Poder Executivo.

Mostrou-se mesquinho por talvez não ser ele a estar ali, ao lado do Papa, recepcionando as pessoas e autoridades. Talvez, movido pela egolatria – insuflada pela mídia -, tenha lhe passado pela cabeça que ali era o SEU lugar e não o de uma qualquer!

Esquece-se, esse senhor, que ainda vivemos em uma República em que o chefe do Poder Executivo é chefe de governo e do Estado e, portanto, com funções de representação do país perante o mundo, em quaisquer circunstâncias!

Não sou religioso, mas me sinto profundamente envergonhado diante da comunidade dos católicos, em especial da juventude católica do mundo inteiro que nos visita.

A eles pelo desculpas pelo ato cometido pelo Presidente do Supremo Tribunal Federal. E peço, também, que não guardem essa imagem como sendo a imagem do povo brasileiro. 

Desculpa!

 

 

CINCO PERGUNTAS SEM RESPOSTAS!

Após um pouco mais de meio século acordado nesse mundinho chamado Brasil, percebo que até hoje algumas perguntas não encontraram suas caras metades, as respostas. E pelo andar da carruagem, parece que serão esquecidas solteiras, algum dia, em alguma gaveta da nossa história.

Entra eleição e sai eleição, e continuamos a dar demonstrações cabais de que não conseguimos nos unir em torno de uma agenda comum sobre que país queremos. Por vezes – e muitas – tenho a impressão que o grande culpa disso é a nossa “eterna” mania de empurrar para os outros, aquilo que não queremos fazer pessoalmente. Somos uma sociedade de duas classes: nós e os estagiários.

Nosso sistema de representação política, sabemos, já nasceu fadado a não funcionar. E por duas razões bem conhecidas: primeira, é que todo resultado advindo da representação sempre será um resultado da representação. Explico. É fácil entender que o nosso sistema é um sistema que permite à representação, uma vez escolhida, tornar-se apenas uma presentação. Eles tornam-se um corpo à parte da sociedade que o elegeu e seus resultados são obtidos e direcionados segundo critérios de interesse de partidos, quando não pessoais. Um projeto de educação desenvolvido e implantado por um governo de um partido – mesmo que contando com uma “base aliada” para sua aprovação, sempre será combatido por outros partidos, não porque seja ruim, mas porque são “oposição”. 

A segunda, é que ainda não compreendemos, como sociedade, que delegar não é afastar de si a responsabilidade por tudo quanto nossos delegados venham a fazer. Não recordo em que momento, da nossa história, tenhamos nos educado para ser uma sociedade consciente das suas responsabilidades. Pelo contrário. Somos constantemente educados a cobrar nossos direitos, esquecendo que responsabilidade é dever. Cumprir com os nossos deveres é que nos abre as portas para que possamos cobrar nossos direitos.

Estamos tão esquecidos disso, que não cobramos que nossos representantes cumpram com os deveres deles. E uma terra onde todos têm direitos e ninguém deveres, só pode se chamar Brasil.

Qualquer reposta para as perguntas a seguir, quando proveniente desse sistema político será, por natureza, uma resposta parcial e, portanto, sempre combatida por parcela da sociedade que não concorda com elas. Enquanto não decidirmos por nós mesmos as repostas, as perguntas continuarão solteiras.

Precisamos, mais do que uma reforma política, é de uma REFORMA SOCIAL!

O que é EDUCAÇÃO DE QUALIDADE?

O que é SAÚDE de qualidade?

Que SEGURANÇA queremos?

Que tipo de CIDADE queremos e de que MOBILIDADE URBANA precisamos?

Qual é o nosso BEM COMUM?

Quando tivemos a capacidade de formular respostas, da sociedade para a sociedade, quiçá possamos voltar a pensar em ter um novo sistema político.

Meus 20 centavos sobre junho2013: o ocaso da politica brasileira.

Poucos devem ser os que ainda realmente se sentem representados pelo Poder Legislativo. Congresso, Assembleias e Câmaras, Brasil afora, há já algum tempo dão repetidas mostras de que estão completamente dissociados do povo que elege seus membros.

E não importa o lado. De uma forma ou de outra, conseguem desagradar a gregos e a troianos. Inúmeras são as situações e estão tão presentes na memória de todos, que sequer é necessário fazer um rol.

Não temos mais partidos. PT, PSDB, PPS, DEM, PP, PDT, PSD, PTB, PSB e sigam até as 32 siglas que temos, transformaram-se em estruturas de suporte para pessoas. O que se vê, nesses tempos de pré-eleição, são nomes. Mais nada. E não importa o lado, seguem desagradando a gregos e a troianos. Digladiam-se como se o Brasil fosse um grande Coliseu. E, pior de tudo, pensam que estão agradando.

Há anos mantêm a reforma política ardilosamente em banho-maria. Sabem que, em assim agindo, estão se protegendo e mantendo o domínio da vontade popular. Sabiam! Até junho.

O que não foram capazes de saber, por estarem totalmente fechados em si e afastados do povo, é que, também há anos, desenvolve-se a percepção de que eles não mais representam o que o povo quer. A percepção de que estão lá apenas por si ou por seus partidos, mas não mais para representar. 

A história nos dá vários exemplos do que acontece quando o sentimento de representação acaba nas pessoas. É só uma questão de tempo.

Não foi o passe livre (apenas um estopim), ou situações pontuais, como a PEC37 ou, ainda, o uso das redes sociais que fizeram o povo ir para as ruas. 

A única mensagem capaz de unir de forma espontânea as pessoas e levá-las às ruas, com muito pouca “convocação”, foi a percepção de que tinham um sentimento em comum: para esses pessoas – e mesmo para os que ficaram em casa – o que as uniu foi o sentimento de que não são mais representados. E, de forma muito natural e como era de se esperar, a percepção amplia-se para o Poder Executivo.

Os sinais estão claros, só os políticos seguem cegos a eles. O ocaso se aproxima. E de forma inexorável, não apenas porque o povo queira, mas, e mais importante, porque eles, os políticos, seguem cavando a sepultura desse modelo de política que temos.

O povo não precisa ir a Delfos para saber o que está acontecendo no Brasil. Ao povo caberá apenas empurrá-los para dentro da sepultura já cavada!

A história só se repete porque os homens nada aprendem com a história.

Eles são apenas corporativistas defendendo os seus!

 altNo dia 09 de julho o Sindicato Médico do Rio Grande do Sul publicou apedido acusando a Presidenta Dilma de fazer demagogia com o programa Mais Médicos, visando apenas a reeleição. Elencaram alguns tópicos e, dentre eles, aparece o que eles realmente querem:

“2. […] Falta uma carreira de estado a semelhança de juízes e promotores para interiorizá-los.

No dia 3, durante o programa Conversas Cruzadas, da TVCOM, o presidente já havia se manifestado nesse sentido:

“Argollo lembrou que entregou em mãos ao governador Tarso Genro proposta de projeto de lei criando de carreira de Estado para médicos há mais de um ano, semelhante à carreira de juiz e promotor.“A proposta do SIMERS é que o ingresso seja por concurso público; com plano de cargos, carreira e vencimentos; e salário digno. “O juiz não escolhe para onde vai, ele é mandado para uma cidade pequena e sabe disso quando faz o concurso. O mesmo ocorrerá com o médico, que será remetido para um município distante. A gente tem dito, não é preciso inventar a roda. Não precisa trazer banana do Paraguai para fazer merenda escolar”, afirmou. “

Não quero crer que o presidente do Simers não saiba o que é uma carreira de estado. Em todos os casos, vamos recordar:

“As Carreiras Típicas de Estado são aquelas que exercem atribuições relacionadas à expressão do Poder Estatal, não possuindo, portanto, correspondência no setor privado. Integram o núcleo estratégico do Estado, requerendo, por isso, maior capacitação e responsabilidade. Estão previstas no artigo 247 da Constituição Federal.

“As carreiras consideradas típicas de Estado são as relacionadas às atividades de Fiscalização Agropecuária, Tributária e de Relação de Trabalho, Arrecadação, Finanças e Controle, Gestão Pública, Segurança Pública, Diplomacia, Advocacia Pública, Defensoria Pública, Regulação, Política Monetária, Planejamento e Orçamento Federal, Magistratura e o Ministério Público.”

Partindo da hipótese do absurdo, de que o exercício da medicina, por via estatal, pode ser considerada uma carreira relacionada “à expressão do Poder Estatal”, por que não poderão poderão, também, as carreiras do magistério, dos profissionais do meio ambiente, dos psicólogos, dos enfermeiros… E, quiçá, até a minha, a dos administradores?

Por que não querem aceitar os R$10.000,00 oferecidos? Por algumas razões muito simples. A primeira delas é que, querendo a equiparação com magistrados e promotores, ganhariam bem mais do que isso.

A segunda, que não tem aparecido, são as chamadas PRERROGATIVAS: inamovibilidade, vitaliciedade, irredutibilidade de vencimentos e perda do cargo apenas por sentença judicial transitada em julgado.

A experiência que conheço, como servidor público, é que médicos concursados acabam por conseguir redução de horário para poderem continuar com seus consultórios e atendimentos em hospitais.

Eis o ponto: na verdade, aproveitam-se do momento para alçar bocas às tetas do Estado.

Razão assiste ao sindicato, convenhamos. Afinal, é para isso que eles existem, para serem corporativistas e defenderem os seus!

(fontes: página do simers e do Fonacate)

“PODE, O PT?” Considerações sobre um texto do Governador Tarso Genro.

 O governador Tarso Genro, em artigo publicado hoje, 13/07/13, no blog “rsurgente” (http://rsurgente.wordpress.com/2013/07/13/para-o-gigante-ja-acordado-caminhar-melhor/) faz algumas considerações acerca de questões de ordem programática, como possível composição para o próximo governo (“Hoje seria necessário, portanto – para que o próximo governo não seja um governo de crise – desenhar as alianças a partir de um programa claro, não confeccionar as alianças para daí resolver o que fazer”).

Termina o texto perguntando: “Pode, o PT?”

Estivesse eu na pele do governador e outra teria sido a minha pergunta: o que é, afinal, o PT?

A pergunta me parece pertinente em vista do que escrevi em 27/12/2012: “Quando uma ideologia perde os jovens, quem perde é a ideologia” (http://ochato.opsblog.org/2012/12/27/quando-uma-ideologia-perde-os-jovens-quem-perde-e-a-ideologia/), nem antes, inclusive, de que alguém pudesse imaginar que o Junho2013 fosse acontecer.

O próprio governador aponta, mesmo que brevemente, a questão ao dizer que “As mobilizações ocorrem quando têm bases na vida diária das pessoas e no seu anseio efetivo por mudanças”. 

Quem mantém a existência do PT é o governo com suas ações. E mesmo que se diga que as ações de governo são aquelas previstas no programa do PT, o povo apenas percebe as mudanças ocorridas e, por isso, segue votando, no governo.

Se a oposição conservadora e neoliberal resolver abraçar a causa social, o governo atual perde. Com ou sem PT. Se o governo se dá ao direito de ser pragmático na governabilidade, o povo também. Qualquer um que mantenha a atual situação do país, ganha as eleições de 2014.

E com mais facilidade, ainda, se pensarmos na ponta oposta: os abandonados pela ideologia, os jovens e os não tão jovens que estão nas ruas protestando. A “base da vida diária” dessas pessoas tem sido uma total indiferenciação entre o que seja uma ideologia de esquerda e uma de direita.

O Partido dos Trabalhadores nasceu maior que a classe dos trabalhadores. Também nasceu como partido da vanguarda intelectual, partido dos estudantes, partido de todos quantos, na base da vida diária, enxergava nele um norte ideológico, o possível mundo novo melhor.

Havia amor, porque havia identificação. Quem hoje se identifica? Não os que estão na rua. 

O governador fala em “Formar as alianças com um programa capaz de dar um novo impulso ao iniciado em 2002: fundos específicos e vinculados para a reforma agrária; para a mobilidade e o transporte coletivo urbano; para a saúde pública e a educação, com os percentuais do PIB respectivos – crescendo ano a ano – para cada setor, vislumbrando o ponto ótimo à médio prazo. Colocar, assim, explicitamente em lugar dependente, os demais compromissos orçamentários e inverter, desta forma, a hierarquia orçamentária atual, que tem na dívida e não no povo, o seu fator determinante”.

Com o devido respeito, mas um típico discurso que qualquer um pode fazer. É um discurso programático e não ideológico. E é pela falta de uma ideologia que as pessoas vêm abandonando o PT.

Se perguntarmos a quem está nas ruas o que significa ser de esquerda, garanto que um mínimo, dentre os milhões, saberia explicar. 

A esquerda se perdeu. O PT parece estar se perdendo da esquerda. O mundo está perdendo a esquerda. Torna-se imperioso o que diz o governador: “É preciso, para que isso ocorra, que o PT como partido majoritário da esquerda, volte a ser um partido-sujeito, de governo, de luta e de movimento.”

Que volte a ter uma ideologia clara para todos, não apenas para os seus membros. A juventude está perdida e pragmática? Quando o maior partido de esquerda se perde e se torna pragmático, não se pode esperar outra coisa!

Pode, o PT? No andar da carruagem, temo em aceitar e dizer que não, não poderá o PT!

Por que ainda somos um país subdesenvolvido?

Quando era criança, ouvia dizer que o Brasil era um país do Terceiro Mundo. As crianças de hoje talvez não aprendam isso na escola, então vale recordar que o mundo era dividido em 3 grandes “mundos”: o primeiro, formado pelos países capitalistas desenvolvidos; o segundo, pelos países comunistas que integravam – por bem ou por mal – a também famosa Cortina de Ferro. E havia o resto. E nós éramos o resto.  Os subdesenvolvidos e os totalmente pobres, longe de qualquer tipo de desenvolvimento. Seja lá qual fosse o critério.
 
Mais tarde, já um jovem “jovem”, vi o Brasil ser chamado de “país em desenvolvimento”. Foi um tempo de orgulho. Afinal, deixamos de ser subdesenvolvidos e passamos a ter esperança, pois “em desenvolvimento” nos passa a ideia de que um dia seremos desenvolvidos.
 
Agora, um jovem “senhor” (se me permitem a auto classificação), ouço dizer que o Brasil é um país “emergente”.
 
Afinal, o que será necessário fazer para que recebamos, em definitivo, o título de “país desenvolvido”, se já somos a sexta maior economia do mundo?
 
Falta uma coisa tão simples, mas que parece ser de difícil aplicação. Falta que sejamos donos do Brasil. Mas como ser dono de algo que não existe? E aí entendo porque até hoje ainda somos um país subdesenvolvido.
 
Insistimos muito em usar a expressão “sociedade”, como se fossemos uma. Não somos. Sociedade, por definição, implica na existência de um conjunto mínimo de objetivos comuns entre as pessoas que (com)partilham o espaço e o tempo. O que chamamos de Brasil não passa de um amontoado de grupos, cada qual defendendo os seus objetivos. Objetivos esses, via de regra, antagônicos.
 
Traduzindo para o português castiço: nunca na história tivemos uma agenda comum.
 
Falei em amontoado de grupos, mas na realidade existem apenas dois: os donos e o resto. E o que nos torna subdesenvolvidos é que, em meio ao resto, existe uma porção, que mesmo sabendo que nunca chegará a ser dona, insiste em comportar-se como tal. E uma das características mais importantes desse comportamento, é que alardeiam, aos quatro cantos, que não existem mais classes e que, portanto, não pode existir luta de classes no Brasil. Bobinhos. Perguntem aos donos se eles não se consideram uma classe.
 
O que vemos hoje nada mais é do que aquilo que sempre aconteceu na história: quem deveria ter uma agenda comum, o resto, segue dividido. E agora mais ainda, depois que os últimos dois governos deram início a uma política de “engrossar” essa camada do resto, que também pretende ser “dona”. Os donos seguem fazendo o que sempre fizeram: jogando o resto contra o resto.
 
Quem está nas ruas é a tal da classe média. E o resto do resto! Alguma dúvida? A expressão “estudantes” traduz tudo: foram estudantes os “cara pintada” do Collor; são estudantes que reclamam da passagem do transporte.
 
E vejam que coincidência: é aos estudantes que está sendo oferecido o passe livre! Ao resto do resto, os donos oferecem cacetes e gás lacrimogêneo. São gangues, dizem. Vileiros e favelados que se aproveitam da ocasião para furtar tênis e roupas de grife (!). Ainda não chegaram nos supermercados. Sinal que, ao menos, fome parece não existir nas vilas e favelas.
 
Que retorno a sexta maior economia do mundo dá para os seus cidadãos? Não poderá jamais dar algum, enquanto os donos forem os donos dos serviços públicos a serem oferecidos ao resto. Os serviços públicos brasileiros são de péssima qualidade? São! E por uma única razão: o serviço público brasileiro tem dono.  Mas a tal classe média do resto prefere falar mal dos servidores, esquecendo que grande parte dessa classe é formada por servidores públicos. Sequer nisso há uma agenda comum.
 
Enquanto a classe média brasileira não entender e aceitar que é o resto, seguiremos sendo um “país” subdesenvolvido!

Brasil, um país hediondo?

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Segundo o Houaiss, hediondo é um adjetivo que significa: “que apresenta deformidade; que causa horror; repulsivo, horrível”; pode, por derivação, adquirir um sentido figurado: “que provoca reação de grande indignação moral; ignóbil, pavoroso, repulsivo”; pode, ainda, representar algo “que é sórdido, depravado, imundo”.
 
Na esteira das ações que estão sendo tomadas de afogadilho para satisfazer o clamor popular, o Senado acaba de aprovar projeto de lei que torna a corrupção um crime hediondo.
 
Foram definidos, com tal, os crimes de corrupção ativa e passiva, concussão (obter vantagem indevida em razão da função exercida), peculato (funcionário público que se apropria de dinheiro ou bens públicos ou particulares em razão do cargo) e excesso de exação (funcionário público que cobra indevidamente impostos ou serviços oferecidos gratuitamente pelo Estado).
 
Mas a coisa não parou por aí. Segundo as notícias, o relator do projeto, Senador Álvaro Dias acatou emenda do senador José Sarney (PMDB-AP) para incluir homicídio simples na categoria de crimes hediondos. A alegação do Senador é de que crimes praticados contra a vida estão entre os mais graves, não podendo ficar de fora.
 
Já não estava 100% convencido da hediondez da corrupção e correlatos, mesmo se tomada a acepção derivada de que esses crimes provocam uma grande indignação moral. Tenho que já existem leis suficientes para punir esses crimes. Torná-los hediondos não terá o condão de afastar as duas questões mais graves:
 
(1) sob os pretextos constitucionais da “ampla defesa” e do “devido processo legal”, o sistema processual brasileiro é cheio de falhas, de modo que, hediondo ou não, os corruptos, hediondos ou não, continuarão livres;
 
(2) o sistema de controles administrativos é absolutamente inoperante contra quem pretenda exercer a corrupção, seja ela ativa ou passiva.
 
Qualificar esses crimes como hediondos não significa mudar a lei, não significa mudar o sistema processual e, menos ainda, mudar o sistema de controle administrativo.
 
Precisamos, mais que soluções de conjuntura – aquelas ditadas pelo horror que nos causa a morte de mais de 200 pessoas em um incêndio, ou pela ânsia de ver políticos presos -, precisamos de soluções estruturais.
 
Precisamos reformar o ESTADO brasileiro. A estrutura do nosso país. E estrutura política, a estrutura tributária, a estrutura social, a estrutura administrativa.
 
Pena que somos um país onde até homicídio simples será crime hediondo. Não temos sequer estrutura para dar conta desse crime, mesmo ele não sendo hediondo, imagina na copa!