Portas fechadas, e uma janela aberta. Pode chegar!

 (Trata-se de um pedido de desculpas vestido de agradecimento)

 
 
Nasci do avesso de um desejo, de uma reprimenda. Nunca soube esperar nada de bom que minha cabeça pudesse realizar. Aos quatro anos, aprendi a ler, sozinho. Aos oito, comecei a desenhar e roteirizar ridículas e curtas estórias de fantasia. As palavras eram soltas dentro de casa, mas escondidas. A escrita sempre veio antes. E eu nunca fui capaz de imaginar até onde ela me levaria. Cheguei a um lugar-momento, sem dúvidas, estranho.

Quando comecei o blog, era pura pretensão. Descabimento. Como eu vivia aqui sozinho, deixei de me preocupar com o que pensariam sobre a ficção que eu tentava, com muito sacrifício – Nunca foi fácil escrever, pra mim -, elaborar neste espaço.

Mais e mais pessoas chegaram. Entravam no espaço mirrado que construí e diziam: “Eu leio o que você escreve. Recomendo. Meu escritor”. Abraçavam-me sem saber. E eu nunca sabia o que ofertar em troca. Talvez mais contos. Mais autoficção, talvez. Mais pessoas chegavam.

Leitores especiais me procuravam. Alguns disseram “Você salvou meu dia”, ou “Chorei litros ao ler o conto tal”. Eu só conseguia me desesperar. Você idolatra o céu claro que cega suas sombras; agora imagina que esse céu cheio de esperança resolve despencar sobre você: algo imensamente lindo que vai te destruir.
Foi assim comigo.

Um crítico chegou e disse: “Os diamantes brilham solitários no vazio da escuridão bruta dos carvões. É preciso lembrar que ‘Geração Zero Zero’ é uma coletânea organizada por uma pessoa que admira os escritores nela publicados. Nelson de Oliveira disse em uma entrevista que escolheu 21 escritores e não seus contos, encomendados após a seleção, o que mostra sua indiferença pelo leitor, pela receptividade crítica e editorial, um demasiado interesse em realçar a panelinha que deu origem à coletânea. Também é preciso lembrar que uma geração não é construída com 21 escritores. Também que eu sou um leitor crítico e que por isso não aceito que se encerre num único livro a ideia de “melhores ficcionistas brasileiros” deste novo século. Carol Bensimon, Eduardo Baszczyn, Raimundo Neto, Marcia Tiburi e Rafael Bán Jacobsen são alguns dos nomes que poderiam estar neste livro, mas que não estão porque sua literatura não se resume a uma seleção, não se carimba pelo gosto daquele ou deste — felizmente, por enquanto.” http://acervo.revistabula.com/posts/livros/geracao-zero-a-esquerda
 
Foi como ganhar na loteria. Salvou um pedaço da minha esperança.”

Um escritor “famoso” fez uma proposta de um romance escrito a quatro mãos. Emprestou-me conselhos.

Amigos de bom gosto literário disseram “Publica!” ou “Quero publicar você!”.

Uma moça com dores de morte e vida espalhadas pelo corpo escreveu um e-mail em que explicava “Seus escritos têm me salvado aqui no hospital.”

O que eu dizia?

Não sei escrever como vocês dizem.
Não sei pra onde vou nessas linhas.
Não tenho esse talento todo.
Que bom que gostaram, mas penso muito na palavra “farsa” quando penso em mim como escritor.
Meus escritos não possuem a consistência que vejo por aí, nos grandes escritores contemporâneos, aqueles que fazem diferença.
É que são tantos que se nominam escritores que um medo de me tornar um pedaço ridículo morde as pontas do meu bom-senso.

E eles, os leitores, como assim se denominam, continuaram conversando comigo, por e-mail, whatsapp, encontros corridos em Cafés teresinenses.

Sempre precisei dos outros para produzir sentido. Embora a solidão fosse um exercício diário, foi no contato com as pessoas que me entendi. Penso que só é possível produzir sentidos (escrevendo-os também) se houver o outro que te abra para descoberta.

Então, pensei: Deve haver algo que é uma grande verdade em tudo que eles dizem.

E entendi que eu era aquela verdade. Que não seria tão pretensioso assim aceitar que os significados expressos nas minhas linhas mal articuladas fizessem sentido para algumas poucas pessoas.

Sei fazer muitas outras coisas, mesmo que porcamente: separar a gema da clara, dedicar-me à hipertrofia muscular, pesquisar na internet a vida de atores pornô estrangeiros, escolher e indicar excelente livros aos outros, escolher os caras errados para me relacionar, prestar apoio discreto a quem precisa de um exagero de cuidados, morar sozinho e deixar o apartamento viver livre em sua imundice natural. 

Mas é a literatura que enche minha vida de sentido. Os livros. A escrita me castiga e me salva. O céu que despenca depois de um dia admirável de sol e azul amarrados em salvação.

Vou praticar a minha escrita. Vou perder-me nesse mistério capaz de ser compreendido. Um concurso literário, contos, um romance. Algumas amigas me ajudarão com a seleção das obras. Outra amiga querida me ajudará a montar um portfólio caprichado. Não serão mais rabiscos. Sempre foi um compromisso, então por que vou fugir disso?

Precisarei fechar o blog. Tudo que aqui está precisará soar como inédito nesses meus projetos. Continuarei apenas com as crônicas d’OPensador Selvagem (algumas retirarei do ar). Tenho visto alguns trechos, que escrevi e publiquei no facebook e twitter , reproduzidos por algumas pessoas sem menção de referência. 

Por isso a medida extrema. Necessária, sim.

Voltarei.

Tentarei confiar no que vocês disseram durante esses anos todos.

E só me resta agradecer e agradecer e agradecer.

Não pretendo fazer sentido para ninguém. Mas quero existir escrito. Um dia, um dia.

Fui chamado pela escrita e não pretendo desperdiçar quaisquer novas oportunidades de produzir novos sentidos.

(Não que eu vá me tornar um escritor. Não mesmo.)
 
Um Mundo Novo Aos Corações Corajosos. (E que ninguém use essa “marca” como se ela não fosse minha.


 
“Don DeLillo disse uma vez: ‘Ninguém escreve um primeiro livro. Simplesmente acontece.’ Em um certo ponto, você acha que a impressora, sabe, todas essas páginas estão saindo. Você pensa: ” Oh meu Deus, não acredito que fiz isso!” Eu acredito nisso. Talvez seja um pouco diferente se você começar mais tarde e se você estiver incubando uma ideia há muito tempo. Mas  a maioria das pessoas, quando escrevem o primeiro livro,percebem, em algum momento, que têm um livro em mãos. (…) E cada pessoa tem seu próprio senso de beleza. E de uma forma ou outra, escrever se resume em perguntar para si mesmo, repetidamente: isso é belo, ou não é? Algo belo pode significar algo doloroso. Não quer dizer que seja algo feliz e bonito. Pode ser feio, pode ser engraçado, pode ser sério, trágico, cômico. Eu acho que o belo significa, de certo modo, o que é autêntico e excepcional para você.”

 

Jonathan Safran Foer, em entrevista ao Louisiana Channel: http://channel.louisiana.dk/
 

“Se você convencer  o leitor, com seu romance, de que uma só pessoa é um mundo que não existia antes, e que nunca vai existir de novo, e que essa única vida tem um valor infinito, eu acho que isso é por si só muito. (…)“Para mim é lindo abrir o livro de um escritor que amo. De repente, todo o barulho da vida, os papos-furados, e a mesquinhes, e todas as coisas que não são essenciais, desaparecem rapidamente. (…) Tudo o que não importa se vai, num instante. E então você entra num mundo onde tudo é importante, da maneira mais crítica possível. Eu descobri que queria viver ali. Eu queria construir uma vida ali, e acho que foi por isso que tentei me tornar uma escritora.” Nicole Krauss, em entrevista ao Louisiana Channel: http://channel.louisiana.dk/

 
 
 
 

O amor finito e o começo brando das escolhas dignas.

Como se gosta tanto de alguém – quando o sol do amor recente queimava pra valer o que era menor e fraco – e hoje, quando o outro está decidido do novo amor, simplesmente não se sente mais nada? Como é possível superar tanta dor em tão pouco tempo sem o estranhamento de ter que construir uma defesa intransponível que nos exclui de todas as outras possibilidades de nos fazer feliz em outros momentos?

A luz negra, que tornava tudo assombroso, branco e afetado, disfarçava a natureza dos homens que se entregavam ao desejo de ser outro, de ter outra coisa além de si, de possuir o controle da vida e da noite, de superar apegos fracassados que se calaram e engoliram a beleza de ter nas mãos dignidade e amor próprio.

O ex-atual do outro fazia da noite sua perseguição deprimente em minha direção, procurando meus olhos, minhas escolhas, talvez buscando entender por quê eu: ele é tão torto, de altura fingida, tão fácil, dispensável, de cabelos amargos, olhos obtusos, uma oleosidade alvoroçada que parece fulgor de mentira. E esqueceu-se de viver o respeito por si e por seu velho novo amor. Se ele soubesse que meu desejo nem morava mais ali naqueles olhos invertidos, nem naquele local.

Foi libertador observar de longe aquela procura perturbadora e o desespero insaciável dos quais eu me livrei, e que agora impregnavam os movimentos e o tamanho daquele outro homem. Cada vez menor, talvez ele tentasse justificar o início da nova velha relação, o recomeço seu de cada dia, a reconquista que não vai ser diferente, a luz oscilante em curto-circuito no final de um percurso sombrio que o outro faz questão de simular.

Também já havia andado como o outro. Passos curtos, tentando esconder a desmesura; também esperei que nossas mãos se encontrassem apaixonadas, que o frio não passasse de engano, que os cuidados chegassem repentinos, que os olhos e a boca falassem a mesma língua, que ele entendesse que minhas palavras não esmagavam sua sensibilidade calculada, que não tentasse mastigar mistérios que não existiam no meu corpo, na minha vida, na minha busca.

[Alterado pelas forças que só a compaixão recém descoberta é capaz de promover, com os cuidados de nublar quaisquer gestos idiotas ou que beirem a uma busca não resolvida, encarei o ex-atual para que ele se contaminasse com a audácia insolente que produzíamos, e que o tempo em suspensão nos tocasse, e ele buscasse uma resposta, ou tirasse suas conclusões de maneira mágica e como melhor lhe conviesse: EU NÃO PRECISO VIVER ALGO QUE TORNA DEGRADANTE O SIMPLES ATO DE BEM QUERER. Ele estava apaixonado outra vez pela incerteza que o tornava tolo.]

E meu amor não aconteceu outra vez, como algumas pessoas esperavam.

Esperei meu coração dizer Sim Sim Sim, e eu correria para a declaração ao infinito de que o amor não acaba assim, não se entrega tão facilmente, resiste bravamente, recupera-se das torrentes das ofensas e da vaidade. Mas não. Meu coração ficou rindo, gargalhando, agradecido pela liberdade que acabara de descobrir. Eu pedi Vamos, Coração, o que você sente? Quanto você ainda suporta?

A resposta veio num voo silencioso de compaixão e respeito, e eu entendi que a superação veio limpa, inteira, minha maré alta, meu pôr do sol sem medidas, minhas roseiras sem espinhos, o toque e o acalento, amar-me, o despropósito da raiva que me transformava na possibilidade de amar mais e outros e cada vez mais quem tivesse consistência em suas escolhas, que não fizesse da vida o apocalipse a cada tristeza ou desentendimento.

Estava faltando algo. Não eram os olhos luminosos de antes, que combatiam minha solidão, cheios de amor recíproco que eu esperava; aqueles que encontrei no início.

Eu nunca havia desistido de alguém como daquela vez.

Os toques não tinham mais energia, abandonavam a singularidade da sua diferença antes mesmo do suor sinalizar a ansiedade de estar em outro corpo. A alegria em escalas de cinza. Eu ensaiava minhas preferências, chamava-o de meu amor apenas com a memória, sem entender o que isso significava. Tentava recordar o começo, intensificar as necessidades, forçar o corpo, todas as células, a queimar de espontânea paixão. Como no início. Mas não se ressuscita um amor assim, estalando os dedos, tragando insegurança.

E nada aconteceu.

Meu coração sem amarras ou com insípida raiva saltou para as vontades seguintes. Superado.

[Aquela vontade insuficiente de me querer inteiramente (de aceitar minhas cobranças motivadas pelos resquícios de amor passado) foi condescendente com o término da relação em desgaste que se anunciava desde então. Nossa maneira saudável de se articular ardia a cada movimento: se eu dizia querer a proximidade para que os detalhes do amor se tornassem uma existência particular e suficiente era entendido que o que era por mim oferecido se tornaria algo monstruoso dali a alguns dias quando os abismos de ausência começassem a engolir o desejo de satisfazer sua vingança envaidecida. Tudo era grande e pesado. Como se meu amor fosse leviano.]

Recaídas são erros repetidos às vezes. E eu estava livre e inteiro. Feliz e satisfeito. Colorido, sem entre linhas, desarmado. Pela primeira escolha certa, por não ter acreditado desde o primeiro beijo com gosto de eternidade que não combinávamos tanto, que eu era o amor, e do outro lado ele era a busca. Pela aposta no outro amor futuro que sempre está para chegar.

Nada mais.

O passado é cheio de infernos.

Fiquei recheado de medo. Frio. Um vento seco dizendo que a vida é mesmo cheia de gente estranha que não sabe o que quer.

Não sei ao certo o porquê do medo (de não estar me reconhecendo por ter esquecido tão rápido algo que era pra ter sido importante?), mas é como se eu tivesse temperado uma história que tendia ao fracasso desde a primeira entrega.

Como se eu fosse desses homens dissimulados, estreitos, que correm riscos sem acreditar nos próprios abismos. Como se tudo tivesse sido pouco e, comportando na palma da mão, pudesse ser desperdiçado ou jogado fora. Como se azul fosse palidez arrependida. Como se fosse um desdenhar alternativo das coisas que não faziam sentido, das nossas diferenças, dos erros, das desculpas, dos enganos.

Em todos os cantos que eu me instalava a atenção do ex-atual do outro estavam lá. Não entendia também. Uma fiscalização da própria insegurança, e não do amor que nascia pra eles.

Não, o amor não acaba. As nossas pessoas preferidas é que mudam, somem, fingem, fogem, são esquecidas, superadas, outras aparecem. Mas o amor não acaba dentro da gente, algumas pessoas é que morrem e se afogam nos defeitos que são revelados a cada ex namorado que sangra, a cada amigo que reconhece a idiotice arrogante de quem não saber o que quer, de quem não sabe o que é, de quem aumenta os precipícios do dia a dia com suas lágrimas de arrependimento, testemunhando calado o fim de suas possibilidades, pois de dez entre dez dos conhecidos que fingem compreensão suportam por piedade suas descompensações exageradas e mesquinhas.

E não existia mais a falta de antes, porque, quando mesmo de mãos coladas há uma ausência, o amor torna-se uma limitação e quando sentimentos extraordinários são cercados com limites, então o fim é o próximo gosto.

[Não era uma guerra, o nazismo, um muro, ou o fim do amor. Era só algo bom que não deu certo, que foi respeitado, entendido, e esquecido. Não houve armas, nem bombas. Só um fim, e o recomeço de uma vida]

E descubro que o amanhã é nosso melhor amor necessário.

Meu coração, hoje, sopra uma brisa fina, branda, em fim de tarde. Manso. Apaziguado. Observa o começo de tudo que ainda é realmente importante.

E agora eu não estou só.

Estou comigo.


 

 


 

Sobre amizades coaguladas e conceitos vencidos


Amizade é um bicho estranhamente necessário. Se correr, ela te pega. Se ficar, ela te preenche. Quem tem amigo sabe como pequenos momentos de partilha e gargalhadas sobre temas banais de mínimas resoluções são capazes de aplacar dores insuportáveis.
 
Sempre precisei de bons amigos que soubessem executar sua presença com competência. Eles vinham com seus detalhes infantis fazer parte da minha carência de filho único. Dividíamos jogos, revistas, livros, sorrisos. Mamãe preparava uma sopa mais colorida que suculenta para garantir que nossa amizade estivesse bem nutrida. Quando os assuntos de adulto foram infiltrando-se na minha consciência adolescente, e uma sombra corrosiva de inadequação começou a invadir minha disposição para uma vida comum, os amigos estavam lá para compartilhar carnavais insuportáveis, programas de TV medíocres e minha morna tentativa de buscar a indiferença; eles também estavam lá (lado, dentro, próximos e profundos) quando eu não conseguia parar de chorar por tudo que não dava certo. Eu estava me tornando uma área alagada com emoções venenosas; mas eles sabiam como mergulhar em mim. 
 
Mas claro que é preciso definir termos e adequar expectativas. A expectativa é aquela força iluminada e também amaldiçoada que te faz esperar sempre mais do que é pequeno e, às vezes, infrutífero. Nem todas as pessoas que dividem com você risadas e opiniões forçadas e pretensiosas sobre seus próprios (e questionáveis) talentos é um grande amigo seu. Eu tenho Sete Grandes Amigos. Uma categoria que inventei quando o peito armazenava tormentas. São categorias de assuntos importantes que comecei a elaborar ainda criança, quando entendi que nem todas as pessoas que experimentam com você uma mesma existência desordenada e um afago ou outro por carência serão seus amigos. Os outros cinco ou seis que entendo presentes também são importantes, com a mesma clareza audaciosa de uma vela de sete dias em noites cheias de breu. 
 
Perdi bons pedaços de tempo responsabilizando outras pessoas por erros que foram meus, culpando-as pelas rejeições que acumulei, atribuindo à minha mãe, por exemplo, o fracasso dos meus sonhos. Eu preciso assumir parcelas de responsabilidade sobre a minha vida, não? Comecei a entender que os tentáculos pegajosos de crenças absurdamente disfuncionais impossibilitavam modestas realizações que me fariam mais satisfeito. Aceitar o incerto, que não há nada que dure por tanto tempo assim, que eu jamais conseguirei ter controle de uma vida cheia de reviravoltas e acontecimentos despadronizados, e que tudo é uma questão de conceito: Não foi algo doce de pôr na ponta da língua para declarar que a vida pode ser mais aceitável. Entendi que vestir a velha e amedrontada fantasia da autocomiseração e apontar as afiadas armas da culpabilização configuram-se um erro dentro de outros erros. 
 
A rejeição é um conceito que eu experimento. Qualquer duelo de olhares caprichosos é motivo de ansiedade para mim. Nada que cause um abalo sísmico na minha capacidade de permanecer com eixos íntegros e dignos. No final da batalha de vaidade, porém, um ferido baixa a guarda e desiste da iniciativa: minha autoestima. Se o cara para quem eu olhava é um escroto vaidoso que alimenta sua arrogância divina com minha tentativa de pertencer ao anoitecer de sua beleza? Claro que não. Os sujeitos não são ruins porque fazem escolhas diferentes da sua, porque possuem perspectivas de outras cores. Acho que talvez você não admita não ser escolhido. Não? Ora, o fato, quem sabe, é que não somos compatíveis com outras pessoas, que não nos adequamos ao ideal de relacionamento do outro, não nos encaixamos na ilusão simpática daquelas pessoas que não nos quiseram, e isso não quer dizer que seremos eternamente rejeitados. (Uma imagem da sua velhice solitária impregnada de naftalina e sorriso cansados, dividindo a cadeira com um gato divorciado de sua independência felina e vendo novelas repetidas deve ter aparecido no meio das suas catástrofes imaginárias. Talvez.)
 
Mergulhei nas águas caudalosas e valentes do reconhecimento de novas necessidades e omissões anteriores, como avaliar minas terrestres em áreas perigosas de países de herança explosiva. Não precisei elaborar uma lista, que seria extensa se estivesse no papel. Bastou uma redefinição de conceitos, intolerâncias, movimentos imprecisos de aceitar qualquer pessoa como um bom partido que completaria meus vazios.
 
Comecei a perceber que a rejeição talvez nem exista; o que permanece é a ideia de que há rejeição em todo canto. E isso é uma construção. O caminho para o conceito de amizade tem os mesmos desvios. Encontramos pessoas que sustentam crenças absolutamente diferentes sobre ser um bom amigo e manter o vínculo. Conheço uma moça que com receio de que um afastamento começasse a brotar no canteiro encantado de uma amizade singela e respeitosa adubada com honestidade, fidelidade e disposição para aceitar deslizes e emoções profundas que ela mantinha, resolveu conceder o título de madrinha de seu filho à amiga: A outra ajudaria a cuidar do filho e elas permaneceriam assim respeitando o amor que salva. O nome disso? Compromisso. Firmar compromisso não é um laço para enfeite, que desatado revela a beleza de algo que será consumido ou acumulado em pilhas nos depósitos de antiguidades do coração. Compromisso é um nó apertado para guardar um segredo, uma mágica, uma salvação.
 
Um dos problemas é (claro que minha percepção é caolha, já que sou um solteirão irremediável): algumas pessoas não estão interessandas em Pessoas, mas, a qualquer custo, começar um relacionamento (e terminá-lo o mais rápido possível, porque o tempo é pouco para conhecer muita gente). Aceita-se humilhação pública, degradação moral, abuso físico e psicológico. Existe uma falta que não cicatriza e um pavor em assumir a solidão como estado; olham para a solteirice como uma maldição que se repetirá até o fim do amor, uma praga que infesta as possibilidades de ser feliz por outros termos. Se há falta, está lá a tentativa, desesperada para alguns, de preenchê-la.
 
E então começa o derramamento de sangue, um verdadeiro massacre de sentimentos importantes, o soterramento de relações frágeis já na sua concepção, inícios fragilizados, capengas, pálidos; vejo algumas pessoas buscando quase sem ar, no topo do seu Everest do Amor que Ainda Existe, Alguém que permaneça mais um dia, rarefeitos em suas certezas de pertencer àquela pessoa que se apresentou ontem, está em dúvidas hoje e talvez não fique até amanhã. Está vencido para alguns sujeitos: O tempo de repensar a vida e os conceitos sobre a constituição da vida, e usar horas vagas para refletir sobre posturas fraturadas num conjunto de decisões arrogantes e sujas. O namoro vem como termo de salvação: Ou você assina e salva sua sanidade, ou estará dentro de uma clausura modorrenta que é a solteirice. 

É interessante ainda observar como o Amor parece tornar as pessoas mais maduras. Aqueles mesmo amigos de antes agora estão mais centrados porque estão namorando. Eles asseguram que há uma mudança forte e quase palpável, como se fosse possível observar o movimento da alteração de padrões. A ideia vigorante parece ser: Se estou namorando, há amor, se há amor significa que fui capaz de derrubar barreiras e superar limitações, portanto Sou maduro. E aí vem outro problema: Os amigos solteiros. Ora, se você está solteiro, há algo de errado com você. Você JAMAIS entenderá as escolhas, as deixas irônicas, as críticas armadas, as ausências coaguladas. Os solteiros passam a ser aquele ponto de conflito, aquelas almas incompreensíveis que cutucam o amor com vara curta, e possuem a energia de um demônio esbaforido lutando contra o alto-astral do amor permanente; Os Namorandos: políticos de Esquerda que aderiram aos ternos caros da Direita.
 
(Já dei minha opinião sobre a solidão aqui ó!).
 
Sujeitos em estado de amor atuante com seus namoros permanentes não possuem um coração mais complacente e uma inteligência mais eficaz. Nem os solteiros. Todos são sujeitos de significados e de reestruturações. São criaturas da falta, mordidas todos os dias pela insatisfação e recusa para entender e aceitar que não teremos controle e certeza sobre o amor do outro e quanto tempo ele apreciará continuar amparando nossas necessidades. É tudo apenas uma questão de perspectiva.
 
No entanto, é preciso coragem para redefinir padrões de funcionamento, organizar expectativas e crenças mais ajustadas sobre tudo. Inclusive sobre Amigos. Será necessária uma dose continental de bom senso. É quando você tentará perceber todas as iniciativas falhas (de aproximação e afastamento) que te mantiveram equivocado e até ridículo em todos os seus anos turbulentos de disparates e deslizamentos. 
 
Muito cômodo para muitas pessoas simplesmente sustentar ausências e distâncias. Muito prático e conveniente o conhecido “Se quiser, apareça” sem uma iniciativa madura de manter a permanência de um amigo, de um amor, do trabalho que satisfaz, de alguém que poderia demorar mais um pouco. Amigos que namoram costumam esvaziar uma postura mais consciente de colocar-se no lugar do amigo solteiro: Sempre é falta de compreensão do amigo solteiro: “Ah! Ele quer sumir?… Ok. Eu tenho meu namorado mesmo!”. Não há nada que dure para sempre: O amor de outrora, por exemplo; nem os conceitos permanecem os mesmos, nem a pretensão e o engodo de sustentar amizade borrada.
 
Nem todo mundo é honesto o suficiente para aceitar sua parcela de responsabilidade dentro das coisas que ficam e dentro das coisas que partem.
 
Mas claro que isso é apenas uma divagação (ou difamação?) inconsistente, já que eu não tenho um namoro na minha agenda de compromissos. Afinal:
 
Raimundo, você não vai entender. Você é solteiro.
 
 

 

A composição dos atos mínimos


A vida hoje exige pedaços cada vez maiores de cada um, de cada coisa (ato, pessoa e objeto). As declarações estão se tornando mais caras: declarações de amor, de bem querer, de desistir, de preferir amanhã o que não se pode ter agora, de permanecer ausente, de precisar de uma proximidade sufocante; declarações de Aniversário, Natal, Ano Novo. Declarações reproduzidas, programadas, incansavelmente pesquisadas na internet. Não se pensa no outro como conteúdo singular. A mesma declaração para qualquer pessoa disponível. A repetição da palavra sem sentido.

Os presentes são grandes, coloridos, roem o valor do bolso e esvaziam a honestidade dos sentimentos. Pessoas que passaram o ano construindo uma indevassável e descomunal muralha de intolerância tentam acentuar a gravidade da maldade escorada em todas as suas atitudes: Um cartão de natal, um abraço opaco. Elas não sabem como recomeçar. Preferem o valor das coisas (ato, pessoa e objeto) à delicadeza que é reconhecer equívocos e aceitar particularidades. 
 
Algumas pessoas desistem do próprio entendimento. Elas não olham para cima pelos pedaços calmos de nuvens que espalham sombras redondas. Não entendem que dentro do peito tem céu. Buscam salvação no valor, no preço, na marca, na facilidade de ter por perto alguém que não precisa ser nada parecido com o que satisfaz sua decência.
 
O natal está quebrado. O amor agora é vidro. E os homens são papel picado ao vento.
 
 
 
E a vida é cheia de atos mínimos que salvam. E poucos executam. Quando digo imensidão o que vem a sua cabeça? A grandeza das coisas não reside no tamanho delas, mas na execução do ato que as compõe, que as constitui, nos espaços que podem ser alimentados, na fome que pode ser preenchida com detalhes.

Alguns gestos sustentam-se nas sombras que projetam, são máculas destoantes presas ao comportamento de alguns homens e mulheres que buscam uma grandiosidade inalcançável. 
 
Não existirá história de amor (histórias de natal, de regresso, de união) sem rascunhos. Poucos aceitam algum risco, correm em direção ao incerto. Correr riscos? Nem pensar. Como andar por linhas tortas sem perder o equilíbrio?
 
Não é um dia de morte. Não é um dia para acreditar nas coisas que não deram certo. O ano todo foi constituído de fragmentos de pequenos desastres. O nosso. Pequenos incidentes que riscaram a dignidade e que não ajudaram na escolha que se seguiu. Ficamos amarrados e desajeitados à expectativa de que enormidades surjam à nossa frente e invadam a costa do nosso porto vazio: que não houvesse discordâncias, que o dinheiro triplicasse seu poder, que o chefe fechasse o ódio e insatisfação dentro de sua arrogância, que o amor viesse inteiro e magnífico, próximo, e repleto de uma majestade inconfundível que não aceita falhas e desvios. 
 
Esperamos um mundo novo começar. 
 
Esquecemos do mesmo mundo, nosso, que sobrevive com minudências. 
 
O amor é um fragmento de bem querer que precisa de tempo para surgir enquanto continente. Ele não se move. Nós vamos até ele.
 
 Amor ancorado em fantasia não vai a lugar algum.
 
Então construa uma árvore de natal dentro dos olhos, e enxergue a vida perdida de alguém que você aceita: Aqui está o Natal. Aí está o futuro
 
 
 

As Raízes do Fim (Reflexões sobre A árvore da vida e Melancolia)

 
“A Árvore da Vida” (Terrence Malick, EUA, 2011),
“A Árvore da Vida” (Terrence Malick, EUA, 2011),
 
“A Árvore da Vida” (Terrence Malick, EUA, 2011)
 
 
 
 
 
[Impressões sobre “A Árvore da Vida” (T“A Árvore da Vida” (Terrence Malick, EUA, 2011)errence Malick, EUA, 2011), “2001: Uma Odisséia no Espaço” (Stanley Kubrick, 1968) “Koyaanisqatsi”  (Godfrey Reggio, EUA, 1982), “Melancholia” (DIN/EUA, Lars von Trier, 2011.)]

“Sempre houve inquietação dentro de mim. E sempre haverá.” Tree of Life, 2011
 
 
 
(Faça-se a luz.)

Quem me conhece (a fundo, no lugar dos ecos que se parecem com exagero, água gelada e musgo) sabe da minha paixão por livros e filmes. E sabe como isso me impregna, e como os percebo como experiências, possibilidades de reflexão. Entendo o mínimo saudável sobre cinema e literatura, o que é suficiente para sugerir dicas cheias de arrazoamentos. Sou sutil dentro da minha decadência: você talvez veja os desalinhos nas minhas fantasias, mas não encontrará o ponto de desmanche e descostura.

Aprendi a ter silêncio e sufoco desde cedo. Cedinho. Quando a madrugada mastigava minha saúde. Presenciar bons livros e filmes é exercício de silêncio que ajuda a tecer significados mais honestos. Edgar Morin chama os livros de “Experiências de vida.”

Não sou ensaísta. Ou cronista. Muito menos contista. Toda esta cor (Vê?) é pretensão. Ensaio uma decência medida entre os dedos apenas. E crônica em mim existe apenas a insuperável capacidade de não entender quase nada sobre tudo. Meus clichês e repetições são crônicos que não rendem boas crônicas.

Arrisco-me na escrita porque não há outro risco a correr. A não ser caminhar para o Adiante do outro. Quem não risca, não arrisca. Ou Vice, Verso. Não é?

Sei de filmes que carrego dentro dos olhos até hoje. Outro dia (anos vencidos) um personagem de um dos meus contos disse pra mim “Enxergo todas as coisas que te deixaram boa impressão quando você olha através de mim.” Foi a maneira mais lírica pela qual alguém se desviou da minha investida. Valeu a reflexão. 

Mas bons filmes são aqueles que despertam uma revelação de mim de minuto a minuto.

Quando experimentei “Koyaanisqatsi”, as palavras que tentaram descrevê-lo me engoliram. Fiquei perdido em todas as construções e cenas desvendadas. Um outro organismo feito de música (Philip Glass) e imagem acenou, torceu as mãos dentro do peito. Lembrei da minha primeira doença, e como aquilo sugeria derrota e recomeço. Ver toda a vida que aquele documentário sugeria foi como minha primeira doença mínima: A vida é do tamanho que acreditamos que ela possa parecer.

(O que é o tempo e a vida? Por dentro ou por fora?)

Sou o tipo de cara idiota que reflete sobre os pousos mansos do vento dentro da minha felicidade, sobre finais de tarde chuvosos como toques divinos para acalmar minha ânsia de viver um pouco mais até o dia seguinte. Filmes como os de Terrence Malick, como exemplo, me permitem esse movimento: dentro e fora.

Existem filmes que despertam grandezas. “A Árvore da Vida”, Koyaanisqatsi, Melancolia: um golpe sobre suas certezas sobre cinema. Poesias musicadas. 

Em “A Árvore da Vida” surge um movimento de alteridade. Um reconhecimento dos detalhes que são nossos quando só é possível começar em outros sujeitos. O amor, a fé, o perdão, o entendimento do que ainda pode ser nosso, se iniciam nas sutilezas de Malick. Não sei mesmo se Malick é sutil em algum dos seus planos. Porque existe em todos os planos uma inexaurível fonte de arrebatamento. Dá pra sentir a alma trincando; não como desastre, mas como libertação. Uma composição harmônica de atos mínimos e surpreendentemente grandiosos. A vida só se torna repetida porque acreditamos no destino como uma programação que não nos insere. A vida, na verdade, pode ser do tamanho que acreditamos que ela deve ser: ou cabe dentro do peito ou comporta no mundo ao redor.

Há o homem que tenta vagar dentro da dúvida: Sean Penn desaparece dentro da própria presença. Há o homem que se manifesta rígido na proximidade da calamidade: Brad Pitt encerra a contradição do homem bom que ama o próximo num plano em que o amor próprio pode ser questionado, quando nas vias da natureza, todos os animais sobrevivem sem entender de amor e espera.

O Texas (Alguém mais viu Wim Wenders soprando solidão nos ventos texanos?) em Malick é qualquer lugar que não procura resposta: só existe. O dedilhar do tempo dentro da música que sentimos lá no fundo. 

Existe uma voz narrando o silêncio. Uma busca ditando a inconformidade. Talvez seja o Deus de cada um, o amor que não pode acabar, que não aceita o fim.

É como se fosse exigido de nós algo maior que a própria capacidade da consciência para receber esse tipo de filme.

(Alguns considerarão um exagero. Eu nunca quis simplificar minhas experiências. Mantenho-me vivo pela resistência de todos os meus “dramas”, tentativas de não aceitar tudo como me é entregue.)

Não há linearidade. As linhas do poema de Malick não correm paralelas. Dão voltas num mesmo sentido. Existem quebras necessárias que não desorganizam a reflexão. Como na vida. Criamos a rotina e, com o tempo (o inventado também por nós), vamos caminhando para dentro dela numa letargia inescrupulosa.

Contemplam-se questões elevadas sobre o próprio fim (Será?) a partir dos diálogos que não acontecem. Os personagens se se questionam sobre o sentido de tudo, conversando com seus botões, mas despindo-se do desejo de permanecer intactos, desfiando a inquietude diante de respostas que não se apresentam e revelando a fragilidade da vida e do recomeço.

É um filme de contemplação. Uma trilha sonora que ajuda a reconstituir destroços de apocalipses íntimos; aqueles que sentimos diante de ameaças incomuns ao nosso pertencimento físico, corpóreo. O que ameaça o que você traz por dentro? O amor que talvez não comece amanhã? A morte que chega em poucos segundos de anos de expectativa e preparação? Quando um estalar de dedos não é suficiente para todas as palmas que você realiza esperando o tempo não passar.

As imagens vão se dando as mãos. E fluem. É aí que nos lembramos de “2001: Uma Odisséia no Espaço”, quando Kubrick nos entrega outra sinfonia. Não são filmes que se encaixam; apenas ajudam-se como complementos de reflexão. Como todos os abandonos românticos que vivemos desde sempre: ajudam-nos a entender de amor-próprio: pela reformulação de conceitos sobre o que se torna essencial numa vida tão curta. 

Em Malick é como se o homem buscasse a humanidade através do metafísico, mas fugindo dele próprio. Há amor e redenção. Passos extraordinários de amor e perda. 

As falhas que nos tornam humanos costumam ser colocadas para dentro, dentro do que não pode ser relevado em nós. O silêncio deixa de ser honestidade e adquire a potência de uma mentira deslavada. Reside em muitos a busca da bondade, ou a manutenção da aparência do que é bom, quando não sustentar certeza sobre que caminho seguir não nos torna errantes. Agarrar-se ao metafísico em busca de humanidade é uma opção, mas não salva o homem de qualquer desastre. É uma experiência, não uma solução para o fim. 

Os primeiros organismos do mundo se movimentam no questionamento da mãe que perdeu o filho de dezenove anos. O universo e os mares de fogo, ondas grossas de vermelho vivo começam a explodir. E depois o silêncio.  O universo em seu movimento de começo. O fim do filho não se explica pelo começo do mundo; talvez uma relação entre aceitação e mistério.

Existem filmes de enormidade, que se movem para dentro e para fora. São pequenas vitórias particulares que a nossa compreensão necessita investigar. Como a fé. Um pulo num abismo qualquer, um movimento que abraça o êxtase e a transcendência. Malick propõe: Ou você transborda, ou limita-se à simplicidade de filmes de entendimento pronto. Há uma explosão de vida nos personagens que precisa ser contida. A vida durará até amanhã realmente? Se ela durará assim, então posso esperar por tudo, alimentar rancores, deixar que algumas indecisões mordam minha falta de esperança?

A busca pela resposta (sobre como não perder todos que amamos e a própria existência) é através do que é sideral em nós. E abre-se uma pergunta maior dentro das perguntas originais. A fé brilha no salto, na entrega; a certeza apaga a busca.

Sussurro quando não consigo declarar em voz alta a necessidade. Sussurro é prática da alma. As vozes em Malick são sussurrantes. O silêncio que se enraíza, as folhas que dançam presas ao dedilhar do vento, revela que a natureza é um símbolo de poder. Não há outra meio de experimentar libertação a não ser contemplar? 

O espaço que mora na obra de Malick só poderá ser preenchido pelos sentidos do espectador. Um silêncio macio que abraça a inquietude de quem aprecia ou critica.

Tais filmes são uma sinfonia acalentadora de significados angustiados que a consciência absorve: o som transforma-se em luz, e as certezas se desfazem em questionamentos. São filmes-pergunta.

“Melancolia” é o fim de algo que já começou, mas não se sabe quando. Duas mulheres entendem o fim do mundo em perspectivas diferentes. Elas são dois planetas que se chocarão em breve, mas que ainda é um mistério. O casamento termina para as duas num desastre: duas desistências-limite. O apocalipse está guardado em cada uma delas. Quando vi “Melancolia”, lembre de Malick. O começo e o fim do mundo em “A Árvore da Vida” são imensos, mas inacreditavelmente discretos, como em “Melancolia”. Não é possível enxergar como tudo termina, pessoas gritando, caos. Não há desespero. Apenas a espera. (E como é a sua vida? É diferente disso?).

Todas as metáforas presentes não desnudam significados, acrescenta-os. Uma sobreposição, sem substituição, de sentidos. 

Você pode até não gostar, mas não sairá ileso. O golpe, mesmo tangente, causará uma ardência. Algo coagulará em você: A curiosidade para ver “Cinzas no Paraíso” (1978), “Além da Linha Vermelha” (1998), “Terra de Ninguém” (1973) e “O Novo Mundo” (2005), ou a preparação para desistir do dom que é pensar sobre tudo o que você desconhece.

(E fez-se a luz. E a consciência do fim.)

 

Sob(re estupro) o Domínio do Medo*

Estupro das Filhas de Leucipo por Peter Paul Rubens

Pintura: Estupro das Filhas de Leucipo por Peter Paul Rubens

 

 

(Trato de impressões. Sem cortes profundos nem muitos temperos. Responsabilidade adoça a vida. Enxergo, sim, a falta de cores em algumas práticas violentas, e deixo-me levar pelas impressões. É com empatia, imaginação, compreensão e bom senso que escrevo. Impossível evitar ter pretensão nas margens de tudo; não estou cego. Se soar pretensioso peço desculpas. Mas tento ver por dentro. Com muito esforço. Permito-me uma viagem dolorosa… Não deixa de ser uma verdade tudo aquilo que se imagina).


Não sei se uma mulher, um homem ou uma criança – e os deixo assim indefinidos – conseguiriam ser os mesmos depois de uma agressão sexual. No entanto, não deveria espantar a ninguém se todas as flores, quaisquer flores, ao redor e as mais próximas dessas vítimas, começassem a perder o visco, ou regredir; semente ou broto sem coragem voltando ao começo, quando nada ainda era início; quando ainda não havia culpa.

As músicas tornam-se abafadas, se conseguem ser ouvidas. O sangue caminha em refluxo, borbulhando, movido à tristeza e desencanto. Foram mil braços, os agressores. Um desejo corrupto, sujo, a comprometer o desejo do outro. As lágrimas percorrem o corpo para purificar, limpar pequenos pedaços; uma gota a cada ameaça. A alegria enferruja em poucos minutos, enquanto durar o ato; um desastre de poucos minutos.

O silêncio é uma ferida. A dor é uma tempestade de fogo, por dentro; existem chances de que tudo – a mesma dor, as lembranças, as palavras secas, as mãos pesadas, o monstro corruptor – seja superado. Como? Quase improvável que um vazio que surge nas vítimas de tal violência como fruto da perversão, ou mais que isso, seja preenchido; é esconder sujeira grossa e cruel embaixo dos tapetes.
 
A impressão que tenho é que acontece um eclipse a cada meio-dia, que todas as estrelas desistem de enfeitar e mergulham nas profundezas do rio mais próximo.

Os conteúdos foram arrancados, e o corpo precisará de novos significados. Impossível apoiar-se apenas em amenidades para seguir adiante. Engole-se um punhado de areia grossa a cada tentativa.

O olhar alheio, e o próprio, são aterrorizantes. Carrega o poder de parar o tempo passado, uma cena, a mesma que desperta ódio, culpa. As lembranças renovam as marcas, engrumecem o sangue, o pouco que resta. Os sorrisos escondem-se nos dedos dos pés, ou nas partes que não foram violadas.
 
O corpo arma-se de estresse após o trauma.A capacidade de amar e perdoar foi arrastada para fora, à força, com golpes de perversidade. Sexo volta a ser tabu, fonte de indecência. A esclerótica escurece de culpa e ressentimento. É vingança o que faz os ossos estalarem. Os velhos conteúdos misturam-se ao caos. Vão e voltam. Vão e voltam. Vão e voltam. Entram e saem.

O corpo, que adquire placas, couraças para cada medo, estremece e faz surgir um terremoto a cada recordação.
 
Qualquer alegria é induzida; as satisfações são plásticas; as cores são emprestadas. Sob a pele, no fundo, se existia alma, inicia-se o nascimento de um Outro, de pura dor e esperança, agarrado na incerteza de que todos, mais do que eles, superem, e que os monstros capazes de destruir uma existência, descubram, livres de si, que o inferno aceita encomendas e orações de inocentes.


* Reflexões a partir da película: Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, Reino Unido/EUA, 1971), filme de Sam Peckinpah.
 
 

Fogo-fátuo

 As cebolas refogavam, nos giros da frigideira, e o frango empanado dançava gorduroso do centro para as beiradas. Passei a colher na manteiga, e derramei na mistura que fritava. Temperei tudo com minha solidão, e concentrei-me nos pedacinhos que douravam lambuzados. Subitamente resolvi queimar a mão também. E esqueci-me do juízo por poucos segundos. Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!

Ninguém pediu silêncio. Não havia ninguém para roubar aquele sofrimento, que me emprestasse algum sossego. 

O calor resolveu contribuir com sua presença, e eu com meu grito afiado, cortando o ar em pedacinhos, fiz do meu presente neurótico uma mistura extática e sofrida e girei com meus escândalos de liquidificador defeituoso, cuspindo uma raiva elétrica e consistente, cheio de sistemas comprometidos.

A dor estava fora da programação. Falo daquela dor vermelha, cheirando a vida queimada. Pois esta outra dor, de falta de amor e atenção, de vida que não tem mais rumo, de sol que se transformou em vela de sete dias, de beijos nos olhos que não voltarão, da paixão com os dias contados, de esperar a morte nossa de cada dia parar de acontecer, ahhhhhhhhh! Esta dor eu carrego no corpo todo, e é seca, pesa em meus olhos, e me distancia de qualquer sujeito com tons resolvidos. Agora tenho para onde olhar, e continuar com a dúvida se é de vida ou morte essa ferida.
 
Então decidi me desligar.

Passei pomada pra sarar rapidinho, no peito; senti uma ardência com gemidos (a salvação às vezes chega pastosa); depois lavei a mão doída, limpei a outra dor encarnada, cheio de misericórdia, e usando o resto da pomada, besuntei a mão, e o resto do meu dia, com felicidade.

O sono chegou manso à medida que me senti salvo. Sonhei com pessoas de peito aberto e corações que piscavam alucinados, coloridos. E era possível fazer trocas justas, dignas, ou encontrar seu Você Nasceu Pra Minha Vida Ser Completa em lugares específicos, até em bares chamados Pântano. Bastava que houvesse encaixe, uma adequação, um click e pronto. Conexão.

Quando acordei (e o sono ainda se agarrava a meu corpo, escorrendo de meus olhos apaixonados por alguém que nunca aconteceu precisamente em mim), monstros-bolha haviam surgido e armado uma guarnição em meus dedos, e cheios de si, dominadores, me emprestaram a ridicularia do desastre que é um pateta na cozinha e uma mão esturricada, banhado a fogo e desatenção.

Olhando para a determinação cor-de-rosa da minha fisiologia, o pink-carne-viva que se tornou uma pequena porção do corpo, comecei a entender que a dor chegou, em 2º grau, e me deixou estranhamente imerso numa necessidade nova e assustadora, só pra me expor. O desejo veio assim queimando tudo, e sempre dá um jeito de incendiar qualquer mentira.

Foi assim que ardi, entregando-me à verdade, deixando de lado a crença obstinada de que o amor só existirá inventado.

Não é qualquer um que me fará feliz. Minha vida não se trata de uma orgia sentimental, ainda que inflamável. Conheço tudo o que sinto, e se não tem nome é só por omissão mesmo, porque não falta comprometimento para acreditar no amor e na entrega. E vou me repetir, como os passos que dou todos os dias. E precisarei de outra entrega, como a minha.

Que alguém coloque a mão no fogo por mim. E as cascas da insegurança membranosa que revestem meus mínimos acessos de desesparança poderão ser destruídas, e algo renascido, cru, descamado e vívido poderá ser revelado, que desistirá de fugir da próxima tentativa de ser o mesmo dentro de qualquer solidão amigável.

Como fazem os homens e mulheres que me transformaram nesta tocha afetuosa e compassiva que não tem luz própria, e que tem um amor em combustão.
Preciso, sim, do combustível que eles trazem nos olhos e no peito.

E foi a natureza reativa da necessidade ilimitada que me assustou. Primeiro uma fumaça dulcificada, depois as chamas. Chamando você. E tudo que eu não soube querer aos poucos, e devagar. E acredite, não vou incinerar você com isso tudo.

Sei apenas que já não estou mais cru para o novo amor que chegar. Nem passei do ponto.

Com a temperatura adequada, espero o calor da próxima entrega.
 
 
 

A você que pediu para fazer parte da minha vida outra vez

 “Finalmente, algumas pessoas têm tanto medo de ser rejeitadas ou abandonadas que nem mesmo entrarão em um relacionamento: ‘Se não tenho vínculo, não sou rejeitado (…) Outra forma problemática de lidar com [abandonos imaginários] é não se envolver profundamente. Essa estratégia esquiva e distanciadora é geralmente inconsciente, mas de modo geral se reflete em pessoas que buscam relacionamentos superficiais e sem significado. Essas pessoas podem dizer: ‘Ainda não conheci a pessoas certa’ ou ‘Não sei realmente se estou apaixonado’. Mas o que em geral acontece é que a pessoa tem tanto medo de rejeição íntima que evita se aproximar de alguém.” Robert Leahy, “E se quem eu amo me abandonar, Como lidar com as preocupações, p.176.


 
 

Como um vulcão ativo ardendo inflamado dentro do peito, recebi sua decisão de que não ficaria. Paixão de dois meses, foi bom enquanto durou, amanhã é um novo dia: queimei inconsolável. Ardi invocando os deuses dos milagres que salvam, que eles arrancassem dos braços de outros homens aquele que não me desejou por mais tempo.
 
A retórica destrói homens apaixonados, vai lacerando cada pedaço da esperança vital que nos torna pura angústia: Por que não eu?
 
Não tenho tantas qualidades: cheiro de terra alagada, olhos de despreparo, a pele de desespero iminente e chocolate amargo, o coração cheio compromissos que não existem, a boca profundamente lotada de verdades que não deveriam ser ditas, pois eu revelo quando quero, gosto, preciso, uso, distorço, improviso, desmereço, alivio, alimento, quando carrego para frente as despedidas que me estilhaçam. Não há algo mais parecido comigo no fim de uma relação que um copo de vidro estilhaçado no centro de um enorme galpão abandonado: destruído e escondido.
 
Quando o fim tornou-se próximo, caminhei leve. Passos de desconforto, após abandonos reais, me dão a impressão de que posso afundar em qualquer rigidez, descobrir crateras, realizar desastres, causar abalos cínicos na propriedade segura que alguns homens possuem de exercitar sua vaidade.
 
Sim, porque existem homens que nunca escolheram alguém realmente, que optaram por sua vaidade ou capacidade de sempre conquistar mais alguém com sua qualidade irrevogável de “Sou para uma vida a dois”. Não se apaixonaram ou amaram uma determinada intenção, um homem. Desejaram apenas. (Como você.) O que amam mesmo é a conquista: Em cada canto há sempre um homem, há sempre uma escolha querendo minhas escolhas, buscando meu amor, minha vida. E você não teve escrúpulos quando afirmou toda essa sua vaidade na minha frente.
Mas homens assim abandonam-se sem perceber, mil vezes e sozinhos.
 
Eu não saberia conquistar alguém em cada estado: os líquidos, eu sempre busquei os líquidos: que se derramam cientes que poderão, quando o amor crescer, se tornar personagens sólidos numa vida repleta de possibilidades. E o conflito, se surgir, evaporará suas formas deprimentes de tentar desistir, para logo em seguida, alcançar um céu inventado na hora do sonho bom, depois acumular-se em nuvens de otimismo e precipitar-se no mar plácido que é uma vida de amor-a-dois com humildade e escolha.
 
Já escolhi alguns poucos. Só nunca pedi que ficassem. Mas escolhi. No entanto, foram desmedidamente vaidosos. Argumentaram e raciocinaram sobre o amor, sobre parceiros que não duraram, sobre belezas conquistadas, como se amar fosse apenas isto: nunca estar vulnerável. 
 
Cedi para ser esquecido. É que o fato de se estar disponível para alguém não significa que ele fará parte de sua vida e te escolherá para viver dentro dele.
 
O que você não entendeu:
 
Paixão não dura a vida toda se não quisermos. E mesmo platônica, pode ser uma realidade.
 
E se eu disse Eu Te Amo, foi amor. Não existiam nuvens carregadas que escondessem a alegria disponível pra te receber sem tempestades.
 
Mas passou. Bastou eu decidir que não valia a pena querer sozinho. Pois não sustento um querer tão grande de mãos vazias.
 
Desapareci pra você. Só luto quando encontro aliados no compromisso. Solidão não vence desafios, mas permite conquistas.
 
Nunca me desesperei por amor. E se eu dissesse que insisti para alguém ficar comigo ou me entreguei apaixonado quando não houve o mínimo de reciprocidade, eu estaria mentindo.
 
Do outro lado deverá existir alguém que me receberá, alguém que me escolherá: com tudo o que me tornei. Você esteve sozinho mesmo estando comigo.
 
Não busco criaturas que esperam apenas Alguém que se encaixe em sua soberba, seja ele músculo ou futuro e sucesso.
 
Espero alguém que tenha escolhido meu nome, minha vida, sem vaidade, e que encarará minha escolha como um mundo novo. Viveremos juntos: dor, passado e gargalhadas.
 
Então entendi que se você partiu e não me escolheu, é porque não era o homem da minha vida. 
 
E talvez eu viva mais vinte e sete anos sozinho. Mas será com a consciência livre de remorsos e confusão, um claro e ensolarado dia de domingo, pois se existiu um homem que buscou o amor, mostrou-se disponível, aceitou sacrifícios, rompeu limites, sem perder seu valor, ou desistir de amigos e familiares, seguro de si, este alguém está aqui: Raimundo Neto.
 
 

Crônica do Vigésimo Nono Aniversário e meus recomeços

 
“Mundo mundo vasto mundo, 
se eu me chamasse Raimundo 
Seria uma rima, não seria uma solução. 
Mundo mundo vasto mundo 
mais vasto é meu coração.”
C.Drummond de Andrade
 
 
 
 

Não deixei para ter a vida nas mãos apenas agora.

Não a vida toda, inteira, cheia de tudo aquilo que achamos que podemos fazer por nós e pelos outros: controle. Boa parte dela está fora do nosso poder de resolução. Segurei nas mãos apenas aquele pedacinho de vida que está bem na frente das nossas possibilidades e fazemos de conta que não depende da gente.

Fujo dos detalhes caros em diversões vencidas; meus amigos me ensinaram que com bem pouco é possível voltar a viver.

Sou dos tipos que contemplam o pôr do sol, sim. Faço hora-extra na hora do almoço para, no fim da tarde, sair mais cedo, colocar no mp4 músicas que enchem minha alma de grandes sonhos, e correr 7,8,9,10 km numa direção que parece até inventada porque no final das contas o lugar que me espera não é ainda  aquele no qual eu gostaria de estar com vinte e nove anos. Mas é o que existe agora. Entendo que aceitar a realidade é um bom primeiro passo para que as mudanças façam parte dos nossos planos.

Fico quieto sentindo as direções do vento. Fecho os olhos. Há uma voz bem estranha me dizendo que felicidade é ter pequenas doses de grandes amigos; experimentar amores fajutos que não servem para o futuro; ajudar pessoas que você não conhece bem, mas que te chamam de anjo, amigo, perfeito, compromissado; parar um pouco e correr sem direção; deixar o sol enfeitar o fundo dos olhos com uma luz que vem de longe e que por mais que os cientistas expliquem, ainda tem um teor mágico; falar com estranhos; rir para estranhos; tatuar nome de anjos no peito e hieróglifos egípcios nas costas.

Aceito minha estranheza como nunca. Deixei amigos e paixões passarem, aqueles que não me escolheram. Todos aqueles que não me quiseram me fizeram um grande favor: ajudaram-me a encontrar um desconhecimento perfeito para o meu futuro: o de ser cada vez mais eu. Meu. Todo meu.

Aceito minhas chatices escondidas em tons nerds-claro como poucos. A literatura me salvou dos desagrados de não poder ser mais com tão pouco que me era oferecido.

Carreguei nas costas dores de pais, tios, avós; dores que eram muito grandes para quem não sustentava o próprio peso sozinho. Eu precisava de apoio, porque o mundo girava e eu sentia aquele descompasso como o fim do mundo. O mundo dizia que eu o tinha nas mãos, e que todos os erros, os meus, me ajudariam a chegar aos vinte e nove anos assim: um “anjo” torto, mas bem menor que Torquato ou Drummond.

Aprendi a inventar minhas soluções. Mamãe sentia dores horríveis nos rins. Gritava possuída por uma sensação que se não fosse insuportável, talvez significasse que de boa atriz ela tinha muito mais que a histeria de inventar catástrofes. Não sabia o que fazer. Meus poderes já não eram mais os mesmos: não conseguia controlar mais o tempo; os objetos não obedeciam meus comandos; e o espelho dizia uma verdade feia e assustadora: adolescentes são pinturas mal elaboradas de Dali. A única coisa que podia fazer era dar a mão à mamãe para que ela a apertasse até a dor passar. E eu me entregava, e sentia dores conjugadas: a dela sofrida, e a minha de não saber como se manda uma dor embora.

Foi assim que aprendi a permanecer na vida das pessoas. Quando eu não tinha o que oferecer (presentes caros, surpresas dignas, viagens memoráveis), só me restava doar palavras e permanecer. Permanecer. Permanecer. Ofereci meus ombros para carregar mais pesos, mais agonias; e a isto chamo de compartilhar.

Não tive medo de entregar rosas com fragmentos de poemas; escrever contos livremente inspirados em verdades que só existiam nas poucas linhas dos meus cadernos; esperar a brisa de qualquer fim de tarde chegar e me dizer que a vida vale à pena; sair de casa e esperar a chuva chegar; inventar corridas insanas só para aguardar o sol se por e fazer uma oração que salvaguardasse bondade, amizade, amores, abraços confortáveis, escolhas dignas, honestidade.

Não espero o fim se anunciar para começar a viver.

Hoje, entendo que é preciso aceitar toda e qualquer incerteza do amanhã. Não fico sentado esperando o mundo me amparar com vinte e nove anos. Nado contra a maré até agora; e ainda conheço profundidades que não têm inocência alguma; são experiências.

A décima terceira ruga não se transformou no meu próximo precipício.

Não caio mais dentro dos meus equívocos como se estivesse sem saída.

É assim que chego aos meus 29 anos: pequeno, mas seguro do que sei sobre mim, e incerto sobre tudo o que homens e mulheres podem se tornar na minha vida.

Não, não estou falando do Retorno de Saturno.

Estou falando do meu recomeço.

De volta à minha vida.

Mundo mundo , vasto mundo: se não sou uma rima perfeita,

Aceito-me como parte da minha solução.

 

 

O caminho da solidão e os passos curtos do amor

 Reflexões a partir de Rilke (Cartas ao jovem poeta), Zigmunt Bauman (Amor Líquido) e Aaron Beck (Terapia Cognitiva).

 

“Por isso é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto, ruidoso e acidental, em que ele acontece como vindo de fora.” Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, L & PM Pocket.

 

Outro dia, vi um amigo lamentar a solidão com grande pesar. Foram suspiros e agonizantes lamentações de quem tem a saúde mental por um fio delicado de alguma paixão não correspondida do passado e alguma eminente catástrofe escrita no futuro. Tudo por causa do Dia dos Namorados. Em seguida, agora em Agosto, o ouvir gemer em sofreguidão terminal de quem tem a vida ameaçada por doenças purulentas quando se aproximou o Dia do Solteiro. Ainda não liguei para saber notícias, mas pesquisei em alguns sites de relacionamento e um Nick em particular me chamou a atenção: Solteirão_Desesperado_Agoniza quer conhecer você, quase qualquer pessoa.

A internet vem funcionando para alguns como a salvaguarda de relações já fragilizadas, ou acentuação desses vítreos contatos (porque são delicados e não transparentes). Nos labirintos impessoais dela percorrem pessoas existindo com “intenção de ser”, que existem enquanto ideia. Reduzem e aperfeiçoam características irrelevantes, aprimoram mentiras divertidas, entregam o corpo para corromper o grande esforço que parece ser acreditar num relacionamento saudável, ou possível, ou, no mínimo, satisfatório. Então, as expectativas são aceleradas e tentam se tornar reais, encaixando-se forçosamente num espaço (estas ausências que só aumentam quando usamos o desespero de amarmos quem não queremos para preenchê-los) apertado que não comporta nem mesmo seus próprios mistérios. Quem procura desesperadamente quase qualquer amor parte para revelações propositadas numa comunicação desenfreada cujo conteúdo é etéreo, vago, como se falassem de amor-fumaça esperando o início de alguma fagulha. 

Na internet, a capacidade de reinventar-se, ou inventar-se pela primeira vez, é proporcional à oferta de novos produtos a serem adquiridos. Assim, o “amor verdadeiro”, o real, aparentemente intocável, permanece intacto; a impressão é que por não ter dado certo da primeira vez (ou de todas as outras seguintes) não foi verdadeiro, e assim não foi real.

Os solteiros costumam ser injustamente rotulados de inseguros crônicos que, para não afundarem nas profundezas de uma decepção ou rejeição (apenas possível rejeição), evitam relacionamentos ou aproximações com homens e/ou mulheres (ou objetos e bichos que berram). Um solteiro não é uma ilha no pacífico com um vulcão adormecido com amargura e dor borbulhando aquecidas; solteirice ainda pode ser uma escolha, um momento de procurar um outro caminho, de experimentar com os amigos a contemplação de uma vida nova, de repensar valores e conceitos que foram plantadas antes de nem entenderem o que é amor.

Talvez os solteiros estejam buscando investimentos mais apropriados, algo que mantenha o desconforto questionável que pode ser “estar sozinho”, no entanto, continuam a sustentar um bom senso adequado para preparar sua solidão dentro de movimento calmamente decente que é apreciar outra solidão. A solteirice deveria ajudar o sujeito a despender mais tempo, reflexão com recheio de afeto, e não aceitar formulações sobre amor, família, amizade, futuro, emprestadas.

A solidão não será aflitiva se trouxer consigo a possibilidade de reflexão sobre ela própria. Da mesma forma que estar triste só será o massacre de um futuro se não tiver um valor de aprendizado, se não for encarado como um aviso importante de que mudanças precisam ser avaliadas.

Entendi cedo que minha solidão (como oportunidade, não como catástrofe) é um resgate do amor-próprio que deixei morrer em todas as iniciativas românticas falhas que presenciei.  Não foram desastres; apenas diferenças. Ninguém sabe ao certo qual a coisa certa a fazer (que palavras usar, que carinhos iniciar, em que horários deixar o coração ceder, que declarações não nos tornará um amontoado de esperas histéricas e ressecadas), nem o tamanho do presente que se tornará um passado seguinte, a história que não começou, pois “namoro”, “relacionamento perfeito”, “amor” são conceitos formulados e dependem do que cada um pensa sobre eles; depende do entendemos deles.

Ou vai me dizer que você não tem aquele amigo que questiona a função dele no mundo, o sentido íntimo do seu valor no universo só porque chegou o Dia dos Namorados e ele está solteiro?

Procurar o amor ainda é aceitar permanecer sozinho com os próprios mistérios dentro da liberdade de outra solidão apenas compartilhada; uma solidão com repetição de equívocos possíveis, e que permitem o abandono de padrões antigos, formas vencidas de interpretar a vida.

Solidão também é amor enquanto descoberta; é abrir os olhos para uma preparação: a preparação de algo único que recebe em si outras alheias possibilidades, e que se altera, que se permite mudanças esclarecidas, livres, e sempre abertas a outras mudanças.

Penso que, ao contrário do que alguns pensam, solidão não é o abrigo úmido para decepções e frustrações insuperáveis que alguns carregam como fardo. Solidão é, sim, um vasto campo aquecido por decisões preparadas com maturidade e contestações dedicadas que correm livres como redemoinhos espertos que desarrumam a firmeza de qualquer natureza sem arrancar-lhe a beleza.

Tentar inúmeras vezes o amor que se desgasta em nós, cegamente, sem questionar-se, não é uma iniciativa que leva ao sucesso. A ideia de que cada vez que se tenta um novo amor prepara-se com eficiência para o amor seguinte não significa sucesso nas tentativas que virão, pois, na verdade, cada amor que virá, será novo, em outro contexto, e por isso diferente. As águas que lavarão seu amor estacionado no fundo do seu rio turvo serão outras. 

Neste ponto, a questão que merece certa consideração são namoros engatilhados como defesas contra a solidão. Na busca do “ser apenas um com o outro” encaramos a solidão como a próxima guerra que abalará nosso futuro, e então nos preparamos para o combate. Organizamos as linhas de frente com uma armadura de discernimento frágil, carregamo-nos de uma munição pesada de “aceitar a qualquer custo o que vier” e entramos em campo minado, esquecendo, porém, as armadilhas de insatisfação escondida, ainda na superfície de nossas escolhas, que explodirão quando o outro, este que aceitamos como íntimo, mas não único, discorda de nós, não faz ou aceita as escolhas que sustentamos, ou prefere Paula Fernandes ao invés dos concertos de Bach. E vamos sacrificando diálogos que salvam, fuzilando qualquer possibilidade de ajustamento e entendimento. Evitamos a solidão e ainda assim aceleramos um desastre íntimo. 

Penso ainda que o elemento assustador na solidão seja a novidade; é amargar fora das expectativas alimentadas pelos doces conceitos dos outros.

O deprimente “Só é feliz quem namora, então não posso ser feliz sozinho” se torna o eco dos desesperados caindo eternamente no poço sem fundo da solidão que eles não entendem. Não suportamos o desconhecido que cresce em nós rumo ao amanhã, este bicho chamado futuro que vem como mistério e que tentamos decifrá-lo e dominá-lo com a convicção forçada com que tentamos adequar nossa ideia de amor às convenções.

Não me refiro a uma solidão fechada em si, que engole depois de ferozes mordidas nosso amor-próprio (amor-próprio que está longe de ser aquela emboscada que muitos criam enquanto brava resistência ao amor de outras pessoas) e capacidade de compartilhar individualidades, abrindo mão de um compromisso palpável com aqueles que pretendemos apreciar por muito mais tempo. 

Expectativas irreais acerca de um relacionamento ou avaliações negativas extremadas a respeito de ser sozinho podem influenciar em suas atitudes com a solidão. Então, ela pode transformar-se numa repetição de equívocos, quando deveria ser um estado que muda de forma e cor dependendo das iniciativas de quem o experimenta.

(Não quero limitar a ideia de solidão à solteirice. Pois não existem os solteiros convictos que experimentam outras solteirices com o desapego como ferramenta incontestável tanto para regular sua segurança como para ajustar sua sociabilidade?)

Então a tristeza, o amor, a solidão, a decepção não vêm de fora, dos outros; são desconhecimentos que fixaram residência em nós; só não conseguimos precisar o local da morada, não descobrimos que porta escolher para presenciar a revelação, que chave procurar. O futuro, a vida nova, o amor, a solidão: são de dentro pra fora.

Estar sozinho pode ser um exercício. Uma escolha passageira que pode favorecer uma mudança permanente. Dependendo do ponto de vista.

Estar sozinho é um dos caminhos que podemos traçar com sossego, paciência e uma esperança realista até o amor chegar renovado e satisfatório.

(Solteirão_Desesperado_Agoniza acrescenta a seu status: Minha solidão diz que cansou de ser sozinha. Quer outra solidão só pra ela. Todinha.)