Uma família plural, complexa e diversa

Censo 2010. Uma família plural, complexa e diversa. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi

Entrevistas IHU – Segunda, 29 de outubro de 2012
http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/515013

“A sociedade brasileira mudou em termos demográficos e na composição plural das relações familiares. Os diferenciais de gênero e de geração são fundamentais para se compreender a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo”, afirmam o/a pesquisador/a.

Indagados a respeito das principais conclusões a que chegaram em relação à família brasileira no estudo recente que realizaram com base no censo de 2010, José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, dizem que a primeira grande mudança foi a redução do arranjo majoritário formado por casais (núcleo duplo) com filhos. “Em números aproximados, este tipo de família estava presente em cerca de dois terços (66%) dos domicílios, em 1980, mas caiu para algo próximo de 50% em 2010. Isso aconteceu porque os pais, tendo menor número de filhos e maior esperança de vida, vivem mais tempo na fase do ‘ninho vazio’, pois os filhos tendem a sair da casa de seus progenitores para formar uma nova família, para morar sozinhos ou para formar arranjos domiciliares com pessoas não parentes”, frisam.

Para eles, o casamento é praticamente um evento universal no Brasil, mas somente se considerarmos todos os tipos de matrimônio. “Em 1970, 65% dos casamentos aconteciam no civil e no religioso, 14% somente no civil, 14% só no religioso e 7% eram uniões consensuais. Em 2010, o casamento no civil e religioso caiu para 43%, só no civil aumentou para 17%, só no religioso caiu para 3% e as uniões consensuais subiram para 37%”.

José Eustáquio Diniz Alves é doutor em Demografia e professor da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE.

Suzana Cavenaghi é doutora em Demografia e professora da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE. Os entrevistados esclarecem que nesta entrevista apresentam seus pontos de vista em caráter pessoal.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais foram as principais mudanças ocorridas na sociedade brasileira nas últimas décadas?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O Brasil passou por grandes transformações econômicas e sociais no século XX, deixando de ser uma sociedade predominantemente rural e agrária, para se tornar uma sociedade urbana com predominância econômica da indústria e do setor de serviços. Nas últimas décadas, houve mobilidade ocupacional, espacial e social, assim como a construção de uma sociedade de consumo de massa. As relações entre as classes mudaram e o Brasil se tornou uma democracia política e cultural (mesmo com as diversas limitações). A transição demográfica reduziu as taxas de mortalidade infantil, aumentou a esperança de vida e reduziu as taxas de fecundidade. Isso provocou uma mudança da estrutura etária e o Brasil está deixando de ser um país com alta predominância de jovens para se tornar um país com elevada proporção de idosos. Houve também uma mudança das relações de gênero com maior empoderamento das mulheres e um lento, mas contínuo, processo de despatriarcalização da sociedade. Tais transformações tiveram um grande impacto sobre a forma de estruturação das famílias e sobre a dinâmica dos arranjos domiciliares.

IHU On-Line – Como essas transformações econômicas, sociais e demográficas afetaram a organização das famílias brasileiras?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O primeiro e maior impacto foi sobre o tamanho dos arranjos familiares. A família numerosa, que era muito adaptada às condições da sociedade rural, quando havia ampla disponibilidade de terras, deixou de ser funcional na sociedade urbana, onde a inserção dos filhos na produção econômica passa pela intermediação do mercado de trabalho e pelos filtros das exigências educacionais e dos padrões de produtividade da economia urbano-industrial. A formalização do emprego ocorreu juntamente com a ampliação da cobertura da previdência social. Neste processo de mudança do modelo centrado na família ao sistema de inserção produtiva e proteção social público e institucional, há uma tendência de aumento do custo dos filhos e de redução dos seus benefícios. Como teoriza o demógrafo australiano John Caldwell, estas transformações provocam uma reversão do “fluxo intergeracional de riqueza”. Os filhos deixam de ser “a galinha dos ovos de ouro” dos pais e passam a acumular maiores custos econômicos e a reduzir os benefícios. Isso modifica o regime de fecundidade e a dinâmica entre as velhas e as jovens gerações. Também abre espaço para novas formas de organização dos arranjos domiciliares, ao mesmo tempo em que diminui o peso social das famílias tradicionais.

IHU On-Line – Quais as principais conclusões a que vocês chegaram em relação à família brasileira no estudo recente que realizaram com base no censo de 2010?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – A primeira grande mudança foi a redução do arranjo majoritário formado por casais (núcleo duplo) com filhos. Em números aproximados, esse tipo de família estava presente em cerca de dois terços (66%) dos domicílios, em 1980, mas caiu para algo próximo de 50% em 2010. Isso aconteceu porque os pais, tendo menor número de filhos e maior esperança de vida, vivem mais tempo na fase do “ninho vazio”, pois os filhos tendem a sair da casa de seus progenitores para formar uma nova família, para morar sozinhos ou para formar arranjos domiciliares com pessoas não parentes.

Casais sem filhos

A segunda mudança – de maneira complementar à primeira – foi o aumento do arranjo formado apenaspelos casais sem filhos e sem outros parentes, que passou de 12% em 1980 para 15% em 2010.

Arranjo monoparental feminino

A terceira alteração foi o aumento do arranjo monoparental feminino (núcleo simples, formado por mães com filhos), que passou de 11,5% em 1980 para 15,3% em 2010.

Arranjo monoparental masculino

A quarta modificação foi também o aumento – ainda que de uma base menor – do arranjo monoparental masculino (núcleo simples, formado por homens com filhos), que passou de 0,8% em 1980 para 2,2% em 2010.

Mulheres morando sozinhas

A quinta transformação foi o crescimento do número de mulheres morando sozinhas, que passou de 2,8% em 1980 para 6,2% em 2010.

Homens morando sozinhos

A sexta foi o crescimento do número de homens morando sozinhos, que passou de 3% em 1980 para 6,5% em 2010. E, finalmente, a sétima mudança aconteceu com a redução do percentual de famílias compostas e extensas (casais, filhos, parentes e agregados) que caiu de 4,8% para 2,2% no mesmo período.

IHU On-Line – As famílias unipessoais são as que mais crescem?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Sim. Mas não é correto usar o termo “famílias unipessoais”, pois, de acordo com a definição das Organizações das Nações Unidas – ONU, uma família é formada por pelo menos duas pessoas e seus membros devem estar relacionados por meio de relações de consanguinidade (parentesco), adoção ou casamento. Dessa forma, pessoas morando sozinhas podem ser definidas como “arranjo unipessoal”, “domicílio unipessoal” ou simplesmente “pessoas morando sozinhas”.

Solidão

De fato, o número de pessoas morando sozinhas tem crescido e deve aumentar ainda mais com o processo de envelhecimento da população. Houve também certa mudança de perfil. No passado, havia uma clara diferenciação geracional e de gênero entre as pessoas morando sozinhas no Brasil, pois entre os homens predominavam aqueles com idade entre 30 e 59 anos, enquanto entre as mulheres em domicílios unipessoais predominavam aquelas acima de 60 anos. Atualmente tem crescido o número de mulheres entre 30 e 59 anos morando sozinhas. Geralmente são as que optam por uma carreira profissional e declinam ou retardam a “carreira” da maternidade.

IHU On-Line – Famílias e domicílios são conceitos equivalentes?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Não. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE define o domicílio como o local estruturalmente separado e independente que serve de habitação a uma ou mais pessoas. Existem vários tipos de habitação, como os domicílios particulares e coletivos, domicílios permanentes e improvisados, etc. A maior parte dos dados coletados do censo se refere aos domicílios particulares permanentes ocupados. Nestes domicílios pode haver famílias nucleares (com núcleo duplo ou núcleo simples), famílias estendidas (com um ou mais de um núcleo familiar e outros parentes) ou famílias compostas (núcleo familiar com parentes e outras pessoas não aparentadas). Pessoas sem laços de parentesco e sem relacionamento afetivo, mas morando juntas (tipo uma república de estudantes), são classificadas como arranjo não familiar pela metodologia da ONU. O número de arranjos não familiares é pequeno, mas cresceu na última década no Brasil. Deve-se ressaltar que até o censo 2000 era possível identificar diretamente as chamadas famílias conviventes, por meio das perguntas sobre as relações de parentesco dos moradores com os responsáveis do domicílio e da família. Mas, no censo 2010, a convivência só pode ser obtida de forma indireta e aproximada.

IHU On-Line – Qual é o tipo de família que mais sofre com as situações de pobreza?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Sem dúvida são as famílias monoparentais femininas, especialmente aquelas com filhos pequenos. Por exemplo, a maioria dos beneficiados do programa Bolsa Família é constituída por este tipo de arranjo. Isso acontece porque é muito difícil para uma mãe combinar, ao mesmo tempo, as funções de provedora e cuidadora. As mães com filhos menores de 15 anos e sem cônjuge não conseguem ter uma inserção integral e permanente no mercado de trabalho, pois precisam dedicar muito tempo às questões de alimentação, saúde, educação e cuidados dos filhos e da moradia. Como resultado, recebem salários mais baixos e precisam dividir uma renda baixa com seus dependentes. Acabam caindo na “armadilha da pobreza” e não conseguem romper com o ciclo intergeracional da pobreza. Nesses casos, além dos direitos básicos de cidadania, o governo deveria promover políticas de conciliação entre trabalho e família, intermediando condições de emprego mais favoráveis e equipamentos públicos para o cuidado dos filhos, como creches, restaurantes e lavanderias coletivos, escola em tempo integral, etc.

IHU On-Line – Que tipo de realidade social se reflete diante do crescimento de casos em que os membros do casal trabalham e decidem não ter filhos?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – De regra, são os casais sem filhos que apresentam renda média domiciliar per capita mais elevada. Um caso particular são os casais sem filhos com marido e esposa participando do mercado de trabalho. Nos Estados Unidos, esses tipos de casais são chamados de Dinc (sigla para Double Income No Children); no Brasil esse acrônimo significa: Duplo Ingresso Nenhuma Criança. O número de famílias Dinc estava em torno de um milhão de casais em 2000 e chegou a 2,8 milhões de casais. Portanto, em 2011 os Dincs somavam 5 milhões e 600 mil pessoas no Brasil. Eles possuem maior poder de consumo e, proporcionalmente, optam por morar em apartamentos nas grandes metrópoles. Praticamente não existem casais Dinc entre os beneficiários do Bolsa Família, pois duas pessoas com renda de um salário mínimo cada um, morando juntas, são classificadas como membros da “nova classe média”. Em geral, o casal Dinc apresenta alta mobilidade social, mas é um tipo de família não procriativa, que reforça a tendência nacional para uma taxa de fecundidade média abaixo do nível de reposição.

IHU On-Line – Como entender que quanto maior o número de filhos, menor o tempo que os maridos dedicam aos afazeres domésticos?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Os dados mostram que existe um forte descompromisso dos homens com o trabalho doméstico. Isso vem desde a época em que Paulo Prado definiu a família patriarcal brasileira como “Pai soturno, mulher submissa, filhos aterrados”. Na divisão do uso do tempo entre os cônjuges, em geral os homens se dedicam mais às atividades produtivas (e remuneradas) e as mulheres se dedicam mais às atividades reprodutivas (e não remuneradas). Isso acontece mesmo nas famílias em que as mulheres trabalham fora e são penalizadas com a dupla jornada. A alocação desigual do tempo é mais acentuada nas famílias tradicionais onde existe uma rígida divisão sexual do trabalho, onde os homens fazem o papel de provedores e as mulheres o papel de cuidadoras. Paradoxalmente, quando o trabalho doméstico diminui a contribuição relativa do esposo aumenta, mas quando os afazeres da reprodução aumentam muito o custo recai sobre as esposas. Isso indica que o maior número de filhos reforça a tradicional divisão sexual do trabalho, com o homem se concentrando na luta pelo “ganha pão” e a mulher assumindo os encargos da casa, da cozinha e dos cuidados dos filhos.

IHU On-Line – O casamento ainda pode ser considerado um anseio universal e um evento para toda a vida?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O casamento é praticamente um evento universal no Brasil, mas somente se considerarmos todos os tipos de matrimônio. Em 1970, 65% dos casamentos aconteciam no civil e no religioso, 14% somente no civil, 14% só no religioso e 7% eram uniões consensuais. Em 2010, o casamento no civil e religioso caiu para 43%, só no civil aumentou para 17%, só no religioso caiu para 3% e as uniões consensuais subiram para 37%.

Casamentos inconstantes

Mas os casamentos ficaram mais instáveis. Nos últimos 40 anos cresceu o número de separações e divórcios. Consequentemente, cresceu o número de recasamentos, especialmente para o caso dos homens. Na pirâmide brasileira existe um superávit de mulheres acima dos 25 anos, pois há uma sobremortalidade masculina por causas externas entre os jovens (especialmente homicídios e acidentes de trânsito). No total, há um excedente de mais de 5 milhões de mulheres na população brasileira e a proporção daquelas sem um companheiro aumenta com a idade, pois, para agravar o desequilíbrio, os homens se casam com mulheres mais jovens. Existe, portanto, um diferencial de gênero e de idade no chamado “mercado matrimonial” brasileiro e um número muito grande de mulheres não encontra companheiro de outro sexo para casamento.

IHU On-Line – Em que medida o aumento das separações e dos divórcios interfere nas mudanças das estruturas familiares?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – Interfere, por exemplo, na formação das chamadas famílias reconstituídas, que são cada vez mais frequentes no cenário nacional. Crescem as famílias em que tanto o marido como a esposa trazem para a nova união os filhos de casamentos anteriores, vindo a se somar com novos filhos que surgem do novo enlace. De repente se juntam filhos, enteados, irmãos, madrasta, padrasto, ex-esposo, ex-esposa e diversos avós. Costuma-se dar o nome de “família mosaico” ao arranjo familiar em que os filhos do casal compõem um quadro formado por irmãos, meio-irmãos e não irmãos, pois os filhos de união (ou uniões) anteriores do marido e da esposa não são irmãos, mas ambos são meio-irmãos dos novos filhos do casal. Dessa forma, nem todos os membros da “família mosaico” são parentes entre si, mas todos têm um grau de parentesco com a prole resultante da união do casal reconstituído. A “família mosaico” é apenas mais um tipo de arranjo familiar dentre o leque de arranjos possíveis, em uma sociedade cada vez mais marcada pela pluralidade e por dinâmicas inovadores, que vão além do modelo padrão.

IHU On-Line – E os novos arranjos, tais como famílias homoafetivas e famílias poliafetivas?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – O Brasil ainda não possui dados suficientes para traçar a evolução destes arranjos. O censo demográfico de 2010, conduzido pelo IBGE, abriu, pela primeira vez, a possibilidade dos casais do mesmo sexo, que moram no mesmo domicilio, serem considerados um núcleo familiar. Os dados indicaram a presença de cerca de 60 mil casais formados por pessoas do mesmo sexo e um deles se declarou como chefe. Mas, se os casais moram em casas diferentes ou nenhum deles se declarou como chefe, não foram identificados pelo censo. As mulheres são maioria nos arranjos homoafetivos, inclusive na homoparentalidade. Portanto, já existem crianças com dupla “maternidade” ou dupla “paternidade”. Também não foi levantada a informação sobre orientação sexual.

Famílias poliafetivas

As famílias poliafetivas se referem aos arranjos familiares cujo núcleo não é monogâmico. São os “casais de 3” ou o “casal de n pessoas”. Pode ser um arranjo formado por um homem e duas mulheres, uma mulher e dois homens (Uma Dona Flor de verdade) ou qualquer outro tipo de arranjo envolvendo mais de duas pessoas no núcleo familiar. Mas o censo não levantou múltiplos relacionamentos. A história mostra que a poligamia e a poliandria sempre existiram de forma mais ou menos velada. A novidade agora é que estes tipos de arranjos estão sendo visibilizados e estão sendo objeto de busca de base legal para serem reconhecidos na legislação brasileira. Existem, inclusive, as famílias poliafetivas cujos membros possuem poliorientação sexual.

IHU On-Line – Em que consiste “a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo”?

José Eustáquio Diniz Alves e Suzana Cavenaghi – De modo geral, pode-se afirmar que o modelo hegemônico de família nuclear era formado por um homem e uma mulher que se uniam em um matrimônio por toda a vida e praticavam sexo com finalidade generativa. Esse modelo de família tinha como base o casal heterossexual, ele mais alto e um pouco mais velho, com maior escolaridade, já com um emprego ou independência financeira e ela mais baixa, mais jovem, com menor escolaridade e voltada para a vida privada de dona de casa ou com emprego extradoméstico com flexibilidade e tempo parcial. Esse modelo de família trazia embutida uma forte desigualdade de gênero. A menor autonomia das mulheres na família era geralmente reforçada pela desigualdade social, em especial pela baixa taxa de atividade laboral e pela segregação no mercado de trabalho. O menor poder, a autoridade e o prestígio feminino decorriam da desigualdade de acesso e de controle sobre os diversos recursos econômicos, sociais e culturais. Contudo, esta “família padrão” começou a ruir na mesma época do fim da padronização fordista de produção, ou seja, com a revolução sexual dos anos de 1960, com a disponibilidade de métodos contraceptivos, a entrada crescente da mulher no mercado de trabalho, a reversão do hiato de gênero na educação e a aceitação mais ampla de novos arranjos familiares. Cresceu o número de domicílios comandados por mulheres. Em grande parte, isso se deve ao processo de empoderamento feminino, mas, em outros casos, a chefia feminina é decorrência da ausência do cônjuge e da falta de responsabilização dos pais (homens) com os filhos.

Mudança da sociedade brasileira

As transformações socioeconômicas e as mudanças ideacionais ocorridas nos campos ético, religioso e cultural levaram a uma maior autonomia individual e a uma mudança na relação custo/benefício entre as gerações. A idade média da primeira relação sexual diminuiu e moças e rapazes passaram a ter relações sexuais com mais frequência antes do casamento. Cresceu o número de filhos nascidos fora do casamento (inclusive na gravidez na adolescência). Aumentaram a guarda compartilhada e o número de crianças que vivem em duas casas. Cresceram as famílias homoafetivas e tem entrado na discussão a formalização dos arranjos poliafetivos. Sem dúvida, a sociedade brasileira mudou em termos demográficos e na composição plural das relações familiares. Os diferenciais de gênero e de geração são fundamentais para se compreender a complexidade e a diversidade das relações familiares do Brasil contemporâneo.

Dê um passo à frente quem for mulher (*)

 (*) Texto elaborado em parceria com a escritora Ana Cecília Romeu do Blog Humoremconto

“Não meça o trabalho até que o dia tenha acabado… e o trabalho concluído.” (Elizabeth Barrett Browning autora de  Sonnets from the Portuguese – 1847) 

Elizabeth Barret conhecia as peças de Shakespeare e outras obras clássicas antes dos 10 anos de idade, mas era apenas uma poetisa emotiva da época vitoriana. Talvez nunca percebesse que poderíamos ser agentes de nós mesmos, como pilotos de nosso próprio avião, assumindo o controle, definindo rumos, por meio da distinção dos desejos, em objetivos ou caprichos. 

Drummond poetizou a mulher de inúmeras formas, mas a diferença não está no gênero, mas na capacidade dessa mulher em olhar um caminho à direita; e outro à esquerda, e poder optar independente, pelo que parecer mais atraente no momento até onde a vista alcança. 

A mulher vanguardista pode ser interpretada como protótipo da gata borralheira, idealizada como uma mulher desprendida no ato de doar, de ofertar carinho. 

A mulher ao longo do tempo foi discriminada por razões de diferenças biológicas, sendo-lhes atribuído um papel social restrito à esfera da vida doméstica. Todavia com as mudanças sociais, a atuação do movimento feminista introduzindo a perspectiva de gênero, a diferença entre homens e mulheres ganhou nova dimensão: a cultural.  Sendo possível distinguir o que é um mero desejo, de um desejo que se transforma em um objetivo de vida, mesmo que sem maiores pretensões ou que represente uma pequena passagem de tempo.   

Mesmo considerando a inserção da mulher no contexto urbano, ainda é notória a reduzida representação feminina em várias esferas. A fragilidade dos salários, os indicadores de violência doméstica, a mulher objeto, a compatibilização da cultura machista com as leis, entre tantas outras evidências disso. 

Neste período em que encontramos inúmeras possibilidades que podem nos transformar de Borralheiras a Cinderelas num escorregar de mouse, o gênero e a beleza ainda são igualmente utilizados para designar as relações sociais entre os sexos. Essa discussão revela que o estudo do gênero sempre serviu para desmitificar ideias construídas sobre os papéis adequados aos homens e às mulheres.  E assim, lembrando a frase de Simone de Beauvoir: “não se nasce mulher, torna-se mulher”.  

À mulher é exigido o equilíbrio de relacionamentos que já estão esfacelados, onde houve mudanças e que talvez não devam ser mesmo eternos, isso mesclando à complexidade feminina que incorpora todo o cardápio de princesas: Bella, Cinderela, Branca de Neve, a Fiona, mas também a madrasta má, suas filhas, até o espelho mágico e o tapete do Aladim. 

Confinadas e multifacetadas, mais exigidas e fortes emocionalmente que os homens, talvez por isso, permitindo-se ser a madrasta má de vez em quando. Versáteis, pois cabem vários papéis ao longo da vida, até para quem não é mãe, mas é tia; para quem está desempregada, mas é do lar. 

Pensar em vanguarda é entender a ditadura do ‘sejam melhores em tudo’: tão interessante como a princesa, mas forte como a madrasta. Mas que deseja um Tiago Lacerda, embora pareça só existir os Shereks. Nesse contexto, ainda se faz presente a figura do Mr. Magoo (personagem-detetive, com grave deficiência visual) procurando a Mulher Maravilha, ou seja, exigindo uma super-heroína, embora não ‘veja’ a ponto de reconhecer ou valorizar uma. A verdade é que sapato de cristal quebra e não é confortável. 

Por um lado, sair da vanguarda nas relações amorosas pode significar passar a vida inteira substituindo o protagonista da estória, se repetindo na sessão da tarde por vontade ou falta de opção. Acreditando naqueles que pareçam confiáveis, repetindo o refrão de que ‘é preciso confiar’, mesmo quando o cara pede um tempo. Não percebe o amor à contra-gotas, a granel ou em doses homeopáticas. 

Por outro, existe a vanguardista que não se conforma com ‘tanto faz’, nunca reclama se não há luz no inferno ou acredita no céu enfeitado, apenas entende o estado das reticências, do ponto final e dos complementos. Não lamenta a solidão em seus escritos, nem agoniza suspiros sobre o fim: jamais prevê a catástrofe.  Tem conduta simples, rápida, pronta, entende o fim, e parece disposta a se libertar. Agir dessa forma, pode ser a crença no amor, sem ter certeza da alma gêmea como eterna ou única possibilidade: um tanto da nossa vida é reciclada, algumas coisas tiradas e outras vêm em acréscimo, inclusive nos sentimentos, e isso não altera a força par, mas pode alterar a dança dos casais. 

Dê um passo à frente quem for mulher. Dê um passo à frente quem busca a dignidade que a realização traz. A realização de ser independente na escolha, mesmo que com erros e incertezas, tristezas ou felicidades, mas com rumo certo: apenas, um passo à frente.
 

Morre o Solitário George: daparece mais uma espécie em Galápagos

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O Solitário George morreu no dia 24 de junho de 2012, dois dias depois do término da Rio + 20. Era o último indivíduo, macho, da subespécie “Chelonoidis nigra abingdoni” de tartarugas gigantes. Lonesome George (nome em inglês) foi descoberto na Ilha de Pinta, no arquipélago de Galápagos, em 1972. Ele era o “Último dos Moicanos”, ou seja, ele era o último exemplar da sua espécie.

O solitário George tornou-se parte de um programa de procriação no Parque Nacional de Galápagos. Durante 15 anos, ele viveu ao lado de uma tartaruga fêmea vinda de um vulcão próximo. Houve acasalamento, mas os ovos não eram férteis. Da mesma forma, ele compartilhou seu espaço com tartarugas fêmeas da Ilha de Espanhola, mas foi biologicamente incapaz de procriar e deixar descendentes.

As tartarugas eram abundantes no arquipélago de Galápagos até o século XIX. As suas diferenças físicas foram um dos elementos usados por Charles Darwin para formular a Teoria da Evolução. Cada ilha de Galápagos tinha a sua espécie própria de tartaruga terrestre. As espécies se diferenciavam à medida em que se adaptavam às condições naturais de cada ilha, propiciando uma riqueza biológica sem comparação.

Mas a maravilha da evolução foi interrompida por uma “espécie invasora” que começou a caçar os indefesos animais, não só para o consumo da carne, mas também para o uso energético. Quito, Guayaquil e outras cidades do Equador utilizavam o óleo de tartaruga para iluminar as casas e as ruas da civilização humana. Como as tartarugas fêmeas eram menores e mais fáceis de carregar, elas foram dizimadas primeiro.

O Solitário George era o símbolo que servia de denúncia contra uma matança indiscriminada que reduziu a biodiversidade de Galápagos. Ele foi o último exemplar vivo de uma espécie que foi vítima do crime de ecocídio. Mas, infelizmente, ele não foi o último mártir, pois este crime continua fazendo milhares de vítimas pelo mundo afora. Para salvar as espécies e a biodiversidade o ecocídio precisa ser erradicado, antes que seja tarde.

Há exatamente um ano, estive no arquipélago de Galápagos e conheci o Solitário George. Foi muito triste ver um indivíduo solitário e centenário, vivendo isolado num parque, sabendo que suas companheiras foram mortas por conta da ganância humana. É muito triste receber a notícia de que este indivíduo morreu e mais uma espécie foi extinta. É mais triste ainda saber que este não será o último solitário a morrer e que diversas outras espécies estão sendo desaparecendo e trilhando o mesmo destino, com a mesma causa mortis.

O relatório Planeta Vivo e as projeções da Pegada Ecológica

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Um dos componentes centrais do relatório Planeta Vivo, da WWF, é a pegada ecológica, que é uma medida utilizada para avaliar a demanda que o ser humano exerce sobre a biosfera (nas diversas escalas), comparando a quantidade de recursos naturais renováveis que as pessoas estão consumindo em comparação com a capacidade de regeneração da Terra ou a sua biocapacidade, medida em área de terra efetivamente disponível para a produção dos recursos naturais renováveis e a absorção das emissões de CO2. A metodologia considera os impactos humanos nas áreas construídas (built-up land), pesqueiros (fishing), florestas (forest), pastagens (grazing), áreas de cultivo (cropland) e carbono (carbon).

Até meados da década de 1970 a humanidade vivia dentro dos limites renováveis do Planeta. Mas, a partir daí, a pegada ecológica da população mundial foi crescendo continuamente na medida em que crescia o número de habitantes e a renda per capita. Em 1961, a pegada ecológica per capita era de 2,4 hectares globais (gha) e a população mundial era de 3,1 bilhões de habitantes, sendo a biocapacidade per capita de 3,7 gha. Desta forma, a humanidade estava utilizando 63% da capacidade regenerativa da Terra, havendo sustentabilidade ambiental. Em 1975, a pegada ecológica e a biocapacidade per capita, respectivamente, passaram para 2,8 gha e 2,9 gha e a população mundial chegou a 4,1 bilhões de habitantes. A humanidade estava usando 97% da capacidade de regeneração, ainda cabendo dentro de um Planeta. A partir desta data as atividades antrópicas ultrapassaram os limites biológicos da Terra.

Em 2008 (último dado disponível) a pegada ecológica per capita ficou em 2,7 gha, a biocapacidade em 1,8 gha e a população chegou a 6,75 bilhões de habitantes. Portanto a humanidade estava usando 1,5 planetas, ou seja, um planeta e meio em 2008. Nota-se que a pegada ecológica per capita não cresceu nas últimas 3 décadas, mas sim o número de habitantes do globo.

As projeções do relatório Planeta Vivo, da WWF, indicam que a humanidade estará utilizando 2 Planetas em 2030 (com 8,3 bilhões de habitantes) e cerca de 3 Planetas em 2050 (com 9,3 bilhões de habitantes). Os maiores fatores para o crescimento da pegada ecológica serão na emissão de carbono, nas áreas de cultivo e nas áreas de pastagem. Portanto, quase 2 planetas, em 2050, serão necessários apenas para absorver a quantidade de CO2 emitido pelas atividades antrópicas, em todas as suas dimensões.

Uma alternativa para reduzir a pegada ecológica é diminuir o uso de combustíveis fósseis e passar a usar fontes renováveis, como energia eólica, solar, geotérmica, das ondas, etc. Mas não basta alterar apenas a matriz energética, pois é preciso construir prédios sustentáveis, dar prioridade ao transporte coletivo, revolucionar a produção pecuária, com a captura de metano, incentivar a dieta vegetariana, fazer uma agricultura menos petroficada, com menos agrotóxicos e mais orgânica, apoiar a aquacultura, além de caminhar rumo a uma sociedade do conhecimento baseada em bens e serviços imateriais e intangíveis.

O fato é que já existe uma discrepância de 50% entre o padrão de vida da humanidade e a capacidade de regeneração da Terra. O ser humano está consumindo o capital natural (acumulado no solo e no sub-solo) ao mesmo tempo que degrada as fontes de vida e aquece o Planeta. Este caminho é insustentável pois a Terra é apenas um planeta e não três, como será a demanda da população mundial em 2050. A se manter esse rumo, o mundo vai dar com os burros n’água (salgada).

As borboletas e o desapego

Acabo de ler um livro, escrito por Jorge Luís Borges em 1949, mas reeditado em 2012 pela Companhia das Letras, “Aleph”, considerado uma das suas melhores obras. Destaco uma das frases que melhor acomoda à aceitação  das coisas perdidas entre  imagens da lembrança quando nem mais restam as palavras: “Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias. Mais que um decifrador ou um vingador, mais que um sacerdote do deus, é um encarcerado”.

 

Outra reflexão, em um segundo trecho, me infundiu em uma espécie de vertigem ao apego: “Essa vida é nova para ele, e às vezes atroz, mas já está em seu sangue, pois, assim como os homens de outras nações veneram e pressentem o mar, assim nós (também o homem que entretece estes símbolos) ansiamos pela planície interminável que ressoa sob os cascos”.

Lembro-me de uma estória que me foi contada quando criança sobre o motivo do elefante no circo ficar quieto e não se soltar da estaca cravada no solo, mesmo sendo grande e forte. O motivo era elementar, talvez irônico, pois com a força que tinha, poderia derrubar não só a estaca, mas o local inteiro. Todavia, simplesmente, aceitava o seu destino e não escapava porque tinha sido preso à estaca ainda muito pequeno. Talvez, tenha tentando se soltar quando pequeno, mas recuou, pois a estaca era muito pesada. E, assim, amarrado na estaca, aprendeu a esperar eternamente a hora do espetáculo.

 Entendo que, assim como o elefante, nos sobra pouca identidade ou desejo de uma vida porque o desapego só acontece contra a vontade e nada escapa a perfeição da lassidão da espera. Após a luta contra o presente, o que resta é a realidade. Diria uma batalha de desfechos e contradições dispensáveis.

 Sempre quando lembro a estória, penso em lembranças desnecessárias ou revoltas imperfeitas. Daquele momento em diante, o apego  é  oco e solitário, pois existe a restrição de ser além do que se é. Envolve-se com a simplicidade do que restou. Não existe, além dos fatos, independente do que se sente.

Diria que temos dificuldade a qualquer ato que remonte a desmontagem de uma árvore de natal ou mesmo a renegar a cegueira do amor fantasiado. Na maioria das vezes vivenciamos relações que não fazem mais sentido, mas ficamos lá como se tudo se bastasse em um balanço patrimonial, segurando as despesas do desentendimento, ampliando as receitas da paciência e esperando o patrimônio liquido da estabilidade. Só enxergamos  o lucro absolutamente necessário.

Somos tão renitentes a estridência inesperada do fim que cerramos os punhos ao sinal de qualquer aviso para limpar o guarda-roupa, andar a fila, procurar um novo emprego, trocar o carro ou virar a contramäo. Nos arrasamos em lágrimas como parodia à nossa teimosia  em seguir buscando a possibilidade do sempre, apenas, para esquecer-se de se despedir. Vive-se da memória da terra, do sonho, do objeto,  do amor,  da relação, da segurança, da estabilidade ou do emprego perdido e não se consegue encontrar o próprio destino. E como esquecendo Mario Quintana, não nos lembramos de nos bastar.

Por um lado, é como se estivéssemos colorindo a rotina e limitássemos qualquer possibilidade de enxergar as ondas inesperadas na vida para que seja plenamente possível, viver por um milésimo de segundo a mais. Por outro, a mania de achar que o outro é a única ou a última esperança, deixa longo o caminho para se acostumar com a ausência, com o luto e  com a reconstrução de um novo endereço.

Quando se apega a algo que só traz intensidade à injustiça das dores passadas, erra-se sem encontrar água, deixando o caminho ao arbítrio do cavalo de terceiro. Abre-se um labirinto com intrincadas e confusas circunstâncias, impossíveis de alcançar a melhor maneira de preencher a existência. Não se trata apenas de fechar ciclos, mas de sermos incapazes de recuperar o abrigo das cavernas. Aperfeiçomaos aos mitos.

Assim, perdem-se o fôlego e a paz quando não se desiste da fixação de parar o vento para manter o outono que ainda não aprendeu a esperar o inverno. Seria como ficar no topo do monte e evitar ceder espaço para noite, com contradições e apegos, não se abrindo ao diferente universo. Bastaria não cruzar as ruas que não deveriam ser mencionadas nos jornais de ontem, mas por estarmos cansados e despreparados, a dor caminha por uma rua de mão única.

E mesmo quando o amor já está  morto, permanece-se amando querumbins no lugar de nos rendermos a verdade de que somos o que temos. Esperamos a volta das borboletas, olhando com o desdém a mariposa, e depois com temor, como se o tempo não pudesse refazer o que perdemos. Como se a permanência fosse o nosso destino.

De forma verossímil por retratar a dualidade de todos nós, o apego nos inibe perante a busca da plenitude da mudança, descrita na frase da música do Gabriel o Pensador: “Muda, que quando a gente muda, o mundo muda com a gente.”

Somos alérgicos as novas possibilidades, sejam elas, emocionais, pessoais ou funcionais, desconfiamos do genérico da loratadina. Bastaria segurar as emoções do romantismo, não se prendendo aos fragmentos de um passado despedaçado, a uma máquina de escrever enferrujada, a um moletom manchado ou a uma caneta tinteiro. 

Imaginamos até  o novo, mas preferimos gestos mindlinianos, pois preferirmos sermos enganados pelo contrato sob judice a fechar o balanço, a aceitar o som estrondoso do não.

No final, acreditando em sina, destino ou benção da irrelevância ilusória, procuramos rever o filme com o intuito de notar sinais desapercebidos,  mas nem sempre voltamos à encruzilhada anterior ou desembocamos em outro olhar.

E nessa dificuldade de esperar o próximo instante, não saímos de casa, não deixamos as portas abertas  e a coisa vivida não figura como fantasma, mas espanta o futuro. Fazemos do drama o sentido, da propriedade a certeza e, por mais que se tente escapar da dúvida, deixamos o próximo passo sem imaginação.

Logo, o apego seria um cárcere profundo. No firmamento do desapego material ou emocional há mudança de pele, pois se descarta o acúmulo das batalhas ainda divididas, mesmo aquelas que não tiveram inscrição de hábito ou se tornaram fraudes.

Mas, podemos ser titulares do destino e transformar as lavras do coração em borboletas. E sempre lembrar que as borboletas duram no máximo 24 horas, tempo suficiente para o acasalamento de seus ovos, não se alimentando, sendo efêmeras, alias desapegadas. Como disse Rubem Alves: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses” .

O meu desejo é que  as nossas borboletas não se sintam pressionadas a voltar, desabrochando de um modo ou de outro, sem dar sobrevida à dor.

Entendimentos iniciais

Como esta coluna busca mostrar aspectos semelhantes nas lutas sociais por um mundo melhor, vou começa-la apresentando uma série de fatos aparentemente desconexos, que estão ligados uns aos outros a partir da visão de mundo que compartilham.

O argumento que sustento é que o principal inimigo para a mudança social é a falta de consciência do objeto de lutas, que deveria ser lutar contra o sistema. Farei isto através de pesquisas científicas e de textos de diversos autores da literatura os pontos de convergência entre os diversos movimentos sociais. A sua luta é nossa luta, a luta de praticamente o mundo inteiro. Desamarrar nós (-nos) é minha eu topia.

O movimento Fora Yeda que marcou a união de diversas categorias de servidores públicos em uma única causa e diversos outros movimentos sociais, tais como Utopia e Luta e MST. Enquanto alguns aderiram a causa devido a morte de um ativista do MST, outros pelo sucateamento do estado e outros ainda por denúncias de desvios de verba e caixa dois de campanha existentes envolvendo a governadora.
A hidrelétrica Belo Monte está sendo construída em uma área que vai alagar um grande território indígena no Xingu. Porquê esta é uma questão para você?
Nos últimos meses, o mundo vem sendo sacudido pela crise de endividamento dos países europeus que tem derrubado bolsas e governos. Será que tem alguma coisa que você pode ou deve fazer em relação a isto?

A Presidente Dilma Rousseff convocou uma reunião no dia 22 de março de 2012 para tratar da economia do País, foram convidados 28 (vinte e oito) empresários. Cerca de trinta, eu disse trinta pessoas define o futuro da economia da sexta economia do planeta… disponível em . Acesso em 5/04/12. Será que você (e os outros cerca de duzentos milhões de brasileiros) não deveria ser convocado para esta reunião?

Mais um sem-terra assassinado em Pernambuco. O segundo em apenas duas semanas:
O MST acredita que o assassinato de Pedro Bruno tenha sido uma retaliação à reocupação do engenho Pereira Grande, que ocorreu na madrugada de ontem (01/04). O engenho Pereira grande pertence à Usina Estreliana, e é uma das áreas mais emblemáticas de conflitos de terra no estado de Pernambuco.
A área foi declarada de interesse social para fins de reforma agrária em novembro de 2003, mas depois de uma série de recursos impetrados, a Usina conseguiu barrar o processo de desapropriação quando a Ministra Ellen Gracie, então Presidente do Supremo Tribunal Federal, que havia dado imissão de posse da área ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) uma semana antes, revê sua decisão e determina que a imissão de posse e o seguimento da ação de desapropriação só poderão se dar após o julgamento final do processo. O caso está, desde então, pendente na Justiça.
Ainda recai sobre a Usina Estreliana vários crimes trabalhistas. Em janeiro de 2010, o proprietário da usina, Gustavo Costa de Albuquerque Maranhão, que havia sido denunciado pelo Ministério Público Federal (MPF), foi condenado, a quatro anos e meio de reclusão, por deixar de repassar ao INSS, durante 18 meses, as contribuições previdenciárias recolhidas no valor de mais de R$ 600 mil de seus empregados. Disponível em Acesso em 5/04/2012.

Como nós podemos evitar mais assassinatos como este?

Entender que o sistema no qual vivemos é o responsável por estas e muitas outras mazelas e que a luta do outro é a nossa luta é uma das questões primordiais para que cada um dos protestos seja mais bem ouvido e tornar mais fácil a concretização de um mundo melhor.
 

Os paradoxos do câmbio (des)valorizado

Existe uma idéia geral de que a taxa de câmbio da China está desvalorizada em relação ao Euro,  ao Dólare e também ao Real. Já a taxa de câmbio do Brasil está valorizada em relação a maioria das moedas internacionais. Isto vai se refletir em déficits comerciais em alguns países e superávits em outros.
Mas as contas externas dos países dependem de outros fatores de competitividade. A taxa de câmbio explica muita coisa, mas não explica tudo.
Os Estados Unidos da América (EUA) é o país com os maiores e mais persistentes déficits na balança comercial, apresentando um montante de US$ 700 bilhões, em 2010. Os EUA tiveram déficits com quase todos os países do mundo e somente com a China o déficit foi de quase US$ 300 bilhões em 2010. Isto seria a comprovação de que a moeda chinesa estaria subvalorizada.
Porém, existem outros fatores afetando estas relações. Por exemplo, o Brasil tem apresentado superávits constantes com a China nos últimos anos, mas apresentou déficit comercial com os EUA. Pela lógica do valor da taxa de câmbio, deveria ser o contrário, ou seja, o Brasil deveria ter déficit com a China e não com os EUA.
Além disto, a China embora tenha superávit com a maioria dos países industrializados do Ocidente, tem déficit comercial com o Japão e a Coréia do Sul. Ou seja, para estes países asiáticos o chamado “câmbio desvalorizado” da China não funciona para gerar superávit comercial.
A China também tem grande superávit comercial com os países da Zona do Euro. Mas com a Alemanha existe uma maior equilíbrio no comércio bilateral. Neste caso, mesmo tendo a mesma moeda da França e da Itália, a Alemanha consegue competitividade nas trocas comerciais com a China.
Na verdade, muito da reclamação americana em relação à manipulação cambial por parte da China tem a ver com ao alto nível de consumo e o baixo nível de investimento dos EUA, que são economicamente insustentáveis. O problema do desemprego nos EUA se deve mais à política macroeconômica interna do que a uma manipulação do Yuan, mesmo porque o desemprego americano cresceu no mesmo período que houve uma certa valorização do Yuan.
O Brasil deveria aprender a lição e modificar a sua política macroeconômica, pois juros elevados e baixas taxas de investimento vão no mesmo sentido da perda de competitividade dos EUA e dificultam a transformação do atual modelo de desenvolvimento.
O câmbio brasileiro valorizado – tendo em vista a baixa competitividade internacional – pode até elevar o valor do PIB e tornar a economia brasileira a 6ª ou 5ª do mundo, mas não é uma política compatível no longo prazo no sentido de fazer o páis ficar sustentável em termos sociais e ambientais.
Existe uma idéia geral de que a taxa de câmbio da China está desvalorizada em relação ao Euro,  ao Dólare e também ao Real. Já a taxa de câmbio do Brasil está valorizada em relação a maioria das moedas internacionais. Isto vai se refletir em déficits comerciais em alguns países e superávits em outros.
Mas as contas externas dos países dependem de outros fatores de competitividade. A taxa de câmbio explica muita coisa, mas não explica tudo.
Os Estados Unidos da América (EUA) é o país com os maiores e mais persistentes déficits na balança comercial, apresentando um montante de US$ 700 bilhões, em 2010. Os EUA tiveram déficits com quase todos os países do mundo e somente com a China o déficit foi de quase US$ 300 bilhões em 2010. Isto seria a comprovação de que a moeda chinesa estaria subvalorizada.
Porém, existem outros fatores afetando estas relações. Por exemplo, o Brasil tem apresentado superávits constantes com a China nos últimos anos, mas apresentou déficit comercial com os EUA. Pela lógica do valor da taxa de câmbio, deveria ser o contrário, ou seja, o Brasil deveria ter déficit com a China e não com os EUA.
Além disto, a China embora tenha superávit com a maioria dos países industrializados do Ocidente, tem déficit comercial com o Japão e a Coréia do Sul. Ou seja, para estes países asiáticos o chamado “câmbio desvalorizado” da China não funciona para gerar superávit comercial.
A China também tem grande superávit comercial com os países da Zona do Euro. Mas com a Alemanha existe uma maior equilíbrio no comércio bilateral. Neste caso, mesmo tendo a mesma moeda da França e da Itália, a Alemanha consegue competitividade nas trocas comerciais com a China.
Na verdade, muito da reclamação americana em relação à manipulação cambial por parte da China tem a ver com ao alto nível de consumo e o baixo nível de investimento dos EUA, que são economicamente insustentáveis. O problema do desemprego nos EUA se deve mais à política macroeconômica interna do que a uma manipulação do Yuan, mesmo porque o desemprego americano cresceu no mesmo período que houve uma certa valorização do Yuan.
O Brasil deveria aprender a lição e modificar a sua política macroeconômica, pois juros elevados e baixas taxas de investimento vão no mesmo sentido da perda de competitividade dos EUA e dificultam a transformação do atual modelo de desenvolvimento.
O câmbio brasileiro valorizado – tendo em vista a baixa competitividade internacional – pode até elevar o valor do PIB e tornar a economia brasileira a 6ª ou 5ª do mundo, mas não é uma política compatível no longo prazo no sentido de fazer o páis ficar sustentável em termos sociais e ambientais.