Deus é brasileiro?

A presidente Dilma Rousseff, primeira chefe de Estado a ser recebida pelo papa Francisco após a missa inaugural do pontífice, dia 20 de março de 2013, brincou que os argentinos têm sorte pela escolha de um papa de seu país. Contudo, disse: “mas Deus é brasileiro”.

Esta brincadeira faz parte de uma idéia geral, amplamente difundida na sociedade brasileira, de que o Brasil é um país abençoado por Deus, não só pelas suas riquezas e belezas naturais, mas também pelo alegria e espírito cordial de seu povo. Ou melhor, se diz que “Deus é brasileiro”, como se o “Criador do Universo” tivesse nascido em terras tupiniquins e tivesse predileção por este cantinho do Universo.

De modo nada humilde, os brasileiros ao invés de se mostrarem fiéis para com Deus e “servos do Senhor”, de acordo com os princípios da mística cristã, simplesmente consideram que Deus é um conterâneo que está aí para proteger o Brasil e os brasileiros.

Esta inversão do dogma, reflete uma postura brasileira de que as necessidades do povo vão ser atendidas por um Pai misericordioso e que o esforço individual e a responsabilidade pessoal  são atitudes secundárias diante da abundância de recursos naturais e da bondade divina. Afinal somos da mesma família, ou no máximo vizinhos, de Deus.

Não deixa de ser uma brincadeira ridícula. Mas está concepção brasileira perde para a postura argentina onde, mesmo antes de terem o primeiro Papa das Américas, as pessoas achavam que se não são deuses, pelo menos possuem um Deus vivo, que se chama Diego Armando.

 

A população de Singapura em 2100

Singapura é um pequeno país tropical, mas economicamente rico e com excelente qualidade de vida de seus cidadãos. O país é uma Cidade-Estado, de 700 km2 (menor do que o tamanho da cidade do Rio de Janeiro) composta por 63 ilhas, separado da Malásia pelo Estreito de Johor e separado da Indonésia pelo Estreito de Singapura. A maior parte da população é composta por chineses, seguidos de malaios e indianos.

O país foi criado como entreposto comercial da Companhia das Índias Orientais por Sir Stamford Raffles em 1819 e se tornou um colônia britânica.  Durante a Segunda Guerra Mundial foi invadido pelo Japão, mas voltou ao domínio britânico após a derrota japonesa. Conseguiu a independência em 1959 (mesmo ano da Revolução Cubana), mas se juntou à Malasia e só se tornou um Estado totalmente independente em 1965.

Embora nunca tenha sido um país miserável, Singapura era bastante pobre e tinha, no quinquênio 1950-55, uma mortalidade infantil de 61 por mil, uma esperança de vida ao nascer de 60 anos e Taxa de Fecundidade Total (TFT) de 6,6 filhos por mulher. Mas em poucas décadas Singapura deu a volta por cima e atualmente apresenta indicadores econômicos e sociais melhores, por exemplo, do que os dos Estados Unidos. Segundo dados do FMI a renda per capita de Singapura (em poder de paridade de compra – ppp), em 2012, era de 61,5 mil dólares, contra 50,2 mil dólares dos EUA.

No quinquênio 2005-10 Singapura tinha uma mortalidade infantil de somente 1,6 por mil e uma esperança de vida ao nascer de 81 anos, contra números respectivos de 6,8 por mil e 78 anos, nos Estados Unidos. Em 2012 o desemprego estava em 2% em Singapura contra 8% nos EUA, além do primeiro ter altos superávits comerciais e baixo endivadamento. O Banco Mundial considera Singapura como o melhor lugar no mundo para se fazer negócios, superando, desta forma, os EUA e os países da Europa.

Singapura tem algumas semelhanças pontuais com Cuba, pois ambos são países insulares, com populações relativamente pequenas, foram governadas por partido único, com regimes autoritários, tiveram forte presença do Estado e fizeram suas “revoluções” em 1959. Porém, para os ideólogos do desenvolvimentismo, o sucesso econômico e social de Singapura é sem igual.

A população de Singapura era de 1 milhão de habitantes em 1950, chegou a 5 milhões em 2010. A divisão de população da ONU estima, na hipotese média, uma população de 6,1 milhões de pessoas em 2050 e 5,6 milhões em 2100. Na hipótese baixa, Singapura teria 5,4  milhões em 2050 e 3,6 milhões em 2100. Nos últimos 50 anos a maior parte do crescimento demográfico ocorreu devido à imigração. Em 1950, a densidade demográfica de Singapura era de 1.496 habitantes por km2, passando para  7.447 hab/km2, em 2010 e podendo ultrapassar 8 mil hab/km2,  na segunda metade do século XXI.

A taxa de fecundidade total (TFT) era de 6,6 filhos por mulher no quinquênio 1950-55 e em menos de 25 anos já apresentava taxas abaixo do nível de reposição. Em 2005-10 a TFT estava em somente 1,25 filhos por mulher. Mesmo que esta taxa suba um pouco nas próximas décadas o crescimento populacional só será mantido com o fluxo positivo de migrantes. O número anual de nascimentos estava em 54 mil no início da década de 1950 e caiu para 41 mil no quinquênio 2005-10, número muito baixo para o tamanho da população. A esperança de vida era de 60 anos em 1950, passou para 81 anos em 2010 e deve ultrapassar 90 anos em 2100 (uma das maiores do mundo).

Embora Singapura seja um local altamente urbanizado, metade do seu território é coberto por vegetação e o país tem investido no planejamento urbano, no transporte coletivo, na agricultura urbana e em projetos verdes, como o aterro sanitário de Pulau Semakau que é considerado um dos mais modernos do mundo.

Mas o modelo econômico e social de Singapura, com seu alto nível de consumo – embora promova alto padrão de vida e educação para seus habitantes – não é generalizável para o resto do globo, pois o país possui um grande déficit ecológico. Segundo o relatório Planeta Vivo, da WWF, a pegada ecológica per capita era de 6,1 hectares globais (gha) para uma biocapacidade de apenas 0,02 gha. Portanto, Singapura depende da biocapacidade excedente de alguns país do mundo.

Singapura soube tirar proveito de suas vantagens comparativas e construir um país altamente eficiente em termos econômicos e com Índice de Gini (47,3) da distribuição de renda menor do que a maioria dos países em desenvolvimento. Mas o estilo de vida do povo de Singapura não é auto sustentável em termos ambientais. Muitos países querem copiar o modelo da pequena ilha asiática, mas este alto padrão de vida não é generalizável, sendo inatingível para os mais de 7 bilhões de habitantes do mundo.

 

Desenvolvimento econômico: mito ou realidade?

O eminente economista brasileiro Celso Furtado, no livro “O mito do desenvolvimento econômico”, considerava que os países da periferia do sistema capitalista seriam incapazes de reproduzir o padrão de consumo dos países ricos, pois o padrão de desenvolvimento afluente não seria generalizável para a maioria da população mundial:

(…) que acontecerá se o desenvolvimento econômico, para o qual estão sendo mobilizados todos os povos da terra, chegar         efetivamente a concretizar-se, isto é, se as atuais formas de vida dos povos ricos chegam efetivamente a universalizar-se? A resposta a essa pergunta é clara, sem ambiguidades: se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem (ou alternativamente, o custo do controle da poluição seria tão elevado) que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso (Furtado,1974, p. 19).

O custo, em termos de depredação do mundo físico, desse estilo de vida, é de tal forma elevado que toda tentativa de generalizá-lo levaria inexoravelmente ao colapso de toda uma civilização, pondo em risco as possibilidades de sobrevivência da espécie humana. (…)  a ideia de que os povos pobres podem algum dia desfrutar das formas de vida dos atuais povos ricos – é simplesmente irrealizável. Sabemos agora de forma irrefutável que as economias da periferia nunca serão desenvolvidas, no sentido de similares às economias que formam o atual centro do sistema capitalista. (…)  Cabe, portanto, afirmar que a ideia de desenvolvimento econômico é um simples mito (Furtado, 1974, p. 75).

Estas palavras foram publicadas em 1974, ano em que a população mundial atingiu 4 bilhões de pessoas e os países desenvolvidos tinham menos de um bilhão de habitantes. Para Celso Furtado, o desenvolvimento seria uma realidade para os países do Primeiro Mundo, mas um mito inalcançavel para os países do Terceiro Mundo, pois com a pressão sobre os recursos naturais não haveria como satisfazer toda a demanda global.

Contudo, o desenvolvimento econômico – baseado na ampliação dos níveis de consumo conspícuo –continuou crescendo e se ampliando, mesmo depois da crise do petróleo da década de 1970. De 1974 a 2012 o PIB mundial cresceu 3,5 vezes (dados de Angus Maddison), enquanto a população mundial passou de 4 bilhões para 7,1 bilhões de habitantes, sendo que a “novidade dos anos 2000 foi o crescimento mais rápido dos países emergentes” (Alves, 2013). Nos países em desenvolvimento a esperança de vida ao nascer passou de 55 anos em 1970 para 66 anos em 2010 e a mortalidade infantil caiu de 105 mortes por mil nascimentos para 50 por mil, no mesmo período. Houve também avanços na educação e nas moradias.

Desta forma, o crescimento econômico mais acelerado dos países em desenvolvimento tem possibilitado o crescimento da chamada “nova classe média emergente”. Por exemplo, o estudo da firma de consultoria Mckinsey “Winning the $30 trillion decathlon: going for gold in emerging markets” (2012) mostra os avanços no aumento do mercado consumidor global, tendo sido publicado para mostrar para as empresas produtoras de bens industrializados e serviços como conquistar os novos consumidores das novas classes com poder de compra no mundo.

Utilizando o critério de renda mínima de 10 dólares diários (em poder de paridade de compra – ppp), a McKinsey calcula que a “classe consumidora” era de 300 milhões de pessoas, em 1950, representando 12% da população mundial de 2,5 bilhões de habitantes. Em 1970 – pouco antes da publicação do livro de Celso Furtado, a “classe consumidora” era de 900 milhões de pessoas, representando 25% da população mundial de 3,7 bilhões de habitantes. Em 2010, a “classe consumidora” chegou a 2,4 bilhões de pessoas (quase o tamanho de toda a população mundial em 1950), representando 35% da população mundial de 6,8 bilhões de habitantes. Em 1974 havia pouco mais de 300 milhões de automóveis (carros, caminhões e ônibus) no mundo, passando para 1 bilhão em 2010 e devendo chegar a 1,5 bilhão de automóveis em 2025, cinco vezes mais veículos nas ruas e estradas em 50 anos.

Para 2025, a projeção da McKinsey é que a “classe consumidora” atinja 4,2 bilhões de pessoas, representando 53% da população mundial projetada para 7,9 bilhões de habitantes. Portanto, as estimativas apontam para uma “nova classe média mundial” superior a 50% da população global de 2025, número maior do que toda a população do Planeta em 1974, quando Celso Furtado escreveu o seu livro sobre o mito do desenvolvimento econômico.

Em termos de valores, o consumo mundial em 2010, calculado pela McKinsey, era de 38 trilhões de dólares, sendo 26 trilhões nos países desenvolvidos e 12 trilhões nos países emergentes. Mas para 2025, estima-se o consumo mundial de 64 trilhões de dólares sendo quase a metade (30 trilhões) para os países em desenvolvimento. Portanto, a “nova classe média emergente”, dos países antigamente definidos como Terceiro Mundo, terá um poder de consumo maior do que o montante atual da capacidade de compra dos consumidores dos países desenvolvidos. Os 30 trilhões de dólares das “classes consumidoras” dos países periféricos, previstos para 2025, será maior do que todo o PIB mundial em 1974.

As grandes empresas dos Estados Unidos, Europa, Japão e Coreia do Sul estão de olho neste amplo mercado consumidor. Mesmo as empresas dos BRICS também estão lutando para conquistar fatias crescentes deste mercado. A China tem usado parte de suas reservas internacionais de 3,3 trilhões de dólares para apoiar a expansão de suas empresas. A Índia tem dado todo o apoio aos seus grandes conglomerados – como a Tata Motors.

Ou seja, a competição é grande para abocanhar pedaços desta multidão de consumidores, ávidos por comprar habitação, água potável, banheiro, saneamento e produtos de limpeza e higiene, luz elétrica, geladeira, TV, DVD, CD, TV-HD, fogão, máquina de lavar roupa, móveis, microonda, moto, bicicleta, carro, relógio, roupa, comida industrializada, telefone, celular, TV a cabo, internet, educação, saude, lazer, viagens, etc.

Portanto, parece que Celso Furtado estava errado ao considerar o desenvolvimento econômico mundial e o acesso ao consumo conspícuo um fato inalcançavel e um mito. O relatório do Índice de Desenvolvimento Humano 2013, do PNUD, mostra que foram os países do sul que mais tiveram ganhos no IDH. A parcela da população mundial que vive na situação de extrema pobreza caiu pela metade – de 43% em 1990 para 21% em 2010. O relatório também prevê que até o final da próxima década a maior parte das pessoas de classe média estarão vivendo em países antes considerados pobres.

A expansão do capitalismo chegou a níveis inimagináveis e a “classe consumidora” deverá ser maioria da população mundial até 2025 (não só a McKinsey, mas outras firmas de consultoria internacional, como a Goldman Sachs e a PwC, também fazem projeções semelhantes). A expansão do consumo mundial em países como China, Índia, Indonésia, Vietnam e Turquia já é uma realidade e só tende a crescer, pois une o desejo de lucro das empresas com a vontade de consumir das pessoas.

Todavia, parece que, infelizmente, Celso Furtado estava certo ao dizer: “se tal acontecesse, a pressão sobre os recursos não renováveis e a poluição do meio ambiente seriam de tal ordem (ou alternativamente, o custo do controle da poluição seria tão elevado) que o sistema econômico mundial entraria necessariamente em colapso”. O progresso humano tem provocado o regresso ambiental. Assim, a realidade tem sido mais forte do que o mito, para a tristeza da Mãe Natureza que tem pagado um preço muito alto para sustentar a generalização do consumo entre setores crescentes da crescente população mundial.

Referências:

FURTADO, C.  O mito do desenvolvimento econômico. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1974

ALVES, J.E.D. Progresso humano e regresso ambiental. Ecodebate, Rio de Janeiro, 2012

http://www.ecodebate.com.br/2012/06/20/progresso-humano-e-regresso-ambiental-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, J.E.D. Países ricos perdem a maioria no PIB mundial em 2013, Ecodebate, Rio de Janeiro, 2013

http://www.ecodebate.com.br/2013/01/09/paises-ricos-perdem-a-maioria-no-pib-mundial-em-2013-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, J.E.D.  G7 versus E7: a vez dos países emergentes? Ecodebate, Rio de Janeiro, 2013

http://www.ecodebate.com.br/2013/03/06/g7-versus-e7-a-vez-dos-paises-emergentes-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

ALVES, J.E.D. A redução das desigualdades de renda entre as regiões do mundo. Ecodebate, RJ, 2013

http://www.ecodebate.com.br/2013/03/15/a-reducao-das-desigualdades-e-a-convergencia-de-renda-entre-as-regioes-do-mundo-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/

McKINSEY. Winning the $30 trillion decathlon: going for gold in emerging markets, 2012.

http://www.mckinseyquarterly.com/Winning_the_30_trillion_decathlon_Going_for_gold_in_emerging_markets_3002

 

A redução das desigualdades e a convergência de renda entre as regiões do mundo

Existem muitos conflitos e muitas injustiças no mundo. São tantas as dificuldades e os problemas, especialmente na área ambiental, que algumas novas tendências positivas ficam ofuscadas. No plano internacional, a novidade recente é que o hiato de renda entre as economias avançadas (desenvolvidas ou Primeiro Mundo) e as economias emergentes (em desenvolvimento ou Terceiro Mundo) está diminuindo.

Nos anos de 1980, a crise econômica internacional e o aumento dos juros nos Estados Unidos (durante o governo Ronald Reagan) provocou um declínio da renda per capita na maioria dos países pobres do mundo. Em consequência, houve aumento das desigualdades de renda entre as nações. Em 1989, a renda per capita (em poder de paridade de compra – ppp) dos países desenvolvidos era mais de 10 vezes superior à renda per capita dos países em desenvolvimento, segundo dados do Fundo Monetário Internacional – FMI.

Porém, desde o início dos anos de 1990, houve um processo de redução das desigualdades, pois o fator de multiplicação caiu para pouco mais de 8 vezes na última década do século XX. Este fator chegou pela primeira vez abaixo de 8 vezes em 2005 e caiu rapidamente nos anos seguintes, ficando abaixo de 6 vezes em 2012. Esta tendência de desconcentração deve prosseguir em 2013 e nos próximos anos, pois as economias maduras estão em crise e economias emergentes – como China e Índia – ainda continuam crescendo num ritmo bem superior.

É claro que existem extremos, quando se compara, por exemplo, a renda per capita dos EUA e de alguns países ao Sul do Sahara. Mas com o maior crescimento dos países em desenvolvimento a renda mundial apresenta um processo de convergência, embora a igualdade, provavelmente, nunca seja alcançada. Estas novas tendências foram tratadas no livro The Next Convergence: The Future of Economic Growth in a Multispeed World, do prêmio Nobel de economia de 2001, Michael Spence. Na mesma linha foi escrito o livro de Kishore Mahbubani, em 2013.

Um dos lados positivos deste processo de convergência da renda é a redução da pobreza do mundo. Segundo dados do Banco Mundial – que utiliza como referência uma linha de renda de 1,25 dólares por dia (em poder de paridade de compra – ppp)- houve uma redução absoluta e relativa da extrema pobreza no mundo. Em 1981, existiam quase dois bilhões (1,938 bilhão) de pessoas pobres (representando 52,2% da população), caindo para 1,909 bilhão, em 1990 (43,1% da população), para 1,743 bilhão (34%) em 1999 e para 1,289 bilhão de pessoas em 2008, representando 22,4% da população dos países em desenvolvimento.

A maior redução da pobreza aconteceu exatamente entre 2003 e 2008, quando também houve redução das desigualdades internacionais de renda. Mas como os países em desenvolvimento (ou emergentes ou do Terceiro Mundo) continuam crescendo em ritmo mais elevado, a probreza continua caindo na segunda década do século XXI, como aponta o programa do governo Dilma: “O fim da miséria é só um começo”. Embora pobreza extrema seja considerado apenas R$ 70,00 per capita por mês ou US$ 1,25 por dia.

Um outro lado, muito comemorado pelos governos, pelas empresas e pelas consultorias internacionais é o aumento da classe média e do poder de consumo de parcelas crescentes da população mundial. Estudo da McKinsey Global Institute, de 2012, mostra que a classe média mundial (aquela com mais de 10 dólares diários, chamada de “classe consumidora”) era de 0,3 bilhão de pessoas em 1950, de  1,2 bilhão de pessoas em 1990, passou para 2,4 bilhões em 2010 e deve chegar a 4,2 bilhões de pessoas, em 2025. Nesta data, o percentual de consumidores da “classe média” mundial será maior, pela primeira vez, do que a parcela dos menos consumidores (aqueles com renda inferior a US$ 10 diários).

A redução da pobreza e o crescimento da classe média mundial poderiam ser fatores de grande comemoração se acontecesse fora do quadro de reprodução do padrão de produção de bens materiais e descartáveis que só reforçam a cultura consumista no mundo. Evidentemente que as populações pobres do mundo devem ter o direito de escolher o que comprar e consumir. As Conferências Internacionais da ONU consideram o Desenvolvimento um direito dos povos.

Mas o que tem acontecido é desenvolvimento tem sido usado como sinônimo de consumo e o predomínio da produção de bens industrializados das grandes corporações internacionais visam muito mais o lucro do que a qualidade de vida das populações e do meio ambiente. Por meio de campanhas de publicidade milionárias as principais marcas de produtos internacionais vão impondo o seu domínio pelo mundo afora. Porém, o consumo de 4,2 bilhões de pessoas, com renda igual ou superior a US$ 10 por dia, exige uma quantidade de matérias-primas e energia que é incompatível com a sustentabilidade ambiental.

O ideal é que houvesse crescimento da renda com mudança no padrão de consumo, pois, se os países emergentes simplesmente mimetizarem o estilo de vida das economias avançadas, os limites da natureza serão ultrapassados e a perda será geral. Em termos de justiça social, não basta apenas ampliar o padrão de consumo. É preciso reduzir o impacto das atividades antrópicas.

O desenvolvimento dos países do Terceiro Mundo e a redução das desigualdades internacionais de renda poderia ser uma novidade alvissareira se houvesse um relacionamento harmônico com o meio ambiente. Porém, tem acontecido o contrário, pois a ampliação da renda e do mercado de consumo tem ocorrido no sentido de ampliar a compra de produtos que geram mais lucros e poluição do que satisfação para a sociedade e proteção para o meio ambiente.

O crescimento da concentração de CO2 e as mudanças climáticas

Em 2008, o ambientalista Bill McKibben fundou a 350.org, um movimento internacional para unir o mundo em torno de soluções para a crise climática. A idéia da 350.org é estimular um conjunto de ações coordenadas que possa pressionar as autoridades mundiais sobre a necessidade do comprometimento político com a redução da emissão de gases de efeito estufa (GEE). A cifra 350 é uma referência a 350 ppm (partes por milhão) de CO2.  O número é considerado o limiar de segurança para a quantidade de dióxido de carbono na atmosfera, um índice capaz de evitar uma mudança climática galopante.

As Conferências Internacionais sobre mudanças climáticas (as COPs) chegaram ao consenso de que  2o C (dois graus centígrados) é o nível de aquecimento global considerado “suportável”, segundo análises científicas. Para tanto, seria necessário reduzir os níveis de emissão de GEE e reduzir a concentração de CO2 na atmosfera para 350 ppm.

Porém, não é isto que está acontecendo. Segundo a National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), dos Estados Unidos, os níveis de dióxido de carbono na atmosfera saltaram 2,67 partes por milhão (ppm) em 2012, para o montante récorde de 395 ppm. O registro do ano passado só ficou atrás do aumento de 2,93 ppm ocorrido em 1998. Tudo indica que chegaremos a 400 ppm até 2015, o que é um número extremamente crítico.

O principal fator para o crescimento da concentração de CO2 na biosfera foi o aumento do uso de combustíveis fósseis, especialmente nos países em desenvolvimento, como a China e a Índia. As queimadas na Amazônia também contribuiram. Desta forma, as perspectivas da 350.org e as possibilidades de manter o aquecimento global abaixo de 2º C  estão desaparecendo.

Um trabalho publicado na revista Science estimou a temperatura global no período geológico chamado de Holoceno, que teve início há cerca de 11 mil anos. Neste período de estabilidade do clima a população mundial passou de menos de 5 milhões de habitantes, no começo do Holoceno, para 1 bilhão de habitantes por volta de 1800. Todavia, o impacto das atividades antrópicas foi pequeno nestes milênios.

Segundo o estudo, a Terra passou por um período de aquecimento que começou há cerca de 11 mil anos e durante 1,5 mil anos, o planeta esquentou cerca de 0,6º C, para se estabilizar durante cerca de 5.000 anos. Todavia, 5,5 mil anos atrás, começou um novo processo de esfriamento, o que ficou conhecido como a “pequena era do gelo”, quando o Planeta ficou 0,7º C mais frio.

Contudo, as tendências se inverteram há 200 anos, com o início da Revolução Industrial e Energética (uso de combustíveis fósseis). O aumento da emissão de GEE fez o Planeta se esquentar nos últimos 200 anos, quando a população passou de 1 bilhão para mais de 7 bilhões de habitantes e a economia cresceu cerca de 90 vezes neste período. Por conta disto, já existem cientistas dizendo que começamos uma nova era geológica, chamada de Antropoceno, ou seja, uma época em que o ser humano passou a influir na composição química da atmosfera e dos oceanos, consequentemente, alterando o equilíbrio dos ecossistemas da Terra.

Há muitas incertezas sobre a magnitude das projeções das mudanças climáticas. De qualquer forma, se nada for feito e se as COPs (Conferências das Partes) não chegarem a um acordo viável, o aquecimento global vai continuar nas próximas décadas, elevando a probabilidade de atingiremos, até 2100, o período mais quente dos últimos 11 mil anos. As consequências podem ser catastróficas. Segundo o princípio da precaução é melhor prevenir do que remediar no futuro. As futuras gerações e a biodiversidade não vão perdoar os erros e o egoísmo das gerações atuais.

Referências:
The Guardian. Large rise in CO2 emissions sounds climate change alarm, 08/03/2013
http://www.guardian.co.uk/environment/2013/mar/08/hawaii-climate-change-second-greatest-annual-rise-emissions
Joe Romm. Bombshell: Recent Warming Is ‘Amazing And Atypical’ And Poised To Destroy Stable Climate That Enabled Civilization, 8/03/2013
http://thinkprogress.org/climate/2013/03/08/1691411/bombshell-recent-warming-is-amazing-and-atypical-and-poised-to-destroy-stable-climate-that-made-civilization-possible/?mobile=nc
350.org
http://350.org/en/mission

Aumento da longevidade, eutanásia e maus tratos aos idosos

Por séculos o ser humano busca o elixir da juventude. Mas só nos últimos 200 anos a esperança de vida da humanidade vem crescendo de maneiro consistente. A esperança de vida média do mundo estava por volta de 30 anos em 1900. Em 1950 chegou a 47 anos e atingiu 68 anos em 2010. Foi um ganho de 28 anos na esperança de vida em 110 anos. Ou seja, houve em média, um ganho de um ano na esperança de vida a cada 3 anos no calendário. Ou seja, entre 1900 e 2010 houve um ganho de 3,4 anos na esperança de vida a cada década.

Porém, os ganhos na esperança de vida ocorreram devido à diminuição da mortalidade infantil e ao aumeno da longevidade devido à redução da mortalidade em idades adultas. Os ganhos de mortaliade infantil tendem a ser cada vez menores, pois as taxas já estão baixas na maior parte dos países de renda média e alta. Nestes países, os ganhos na esperança de vida só podem ocorrer predominantemente nas idades mais avançadas. As apostas são na evolução da medicina.

Estudo publicado por cientistas dos Estados Unidos na revista Nature Cell Biology, em 2013, sugere que uma proteína originalmente associada à divisão celular pode estender a longevidade em mamíferos. Durante a divisão de uma célula, o material genético compactado sob a forma de cromossomos precisa ser duplicado e distribuído em partes iguais entre as duas células que estão sendo geradas. Para que a distribuição dos cromossomos ocorra sem erros, os mamíferos desenvolveram um mecanismo de vigilância, chamado de ‘checkpoint mitótico’. BubR1 é um dos componentes desse ponto de checagem e ajuda a orquestrar a separação dos cromossomos durante a mitose. A partir destes estudos, levantou-se a hipótese de que a ausência de BubR1 poderia contribuir para o envelhecimento biológico. Desta forma, o estudo sugere que a alta presença de BubR1 protege contra o câncer, atenua a deterioração relacionada com a idade de tecidos específicos e prolonga a vida, muito provavelmente por atenuar a instabilidade cromossômica.

Esta foi a lógica que prevaleceu durante os séculos XIX e XX, pois o desenvolvimento econômico e os avanços médicos garantiram uma grande redução da mortalidade infantil e um grande aumento da esperança de vida. O aumento da longevidade das pessoas é fundamental para o aumento da produtividade econômica, pois o aumento da experiência e o retorno dos níveis mais elevados de educação só acontecem com a elevação do tempo de vida dedicado ao trabalho e ao avanço social.

Porém, os avanços da longevidade no século XXI tem ocorrido em idades muito avançadas, por exemplo, acima de 80 anos. São avanços em uma população já aposentada e que não vai se traduzir necessariamente em retornos sociais. O aumento do custo dos tratamentos de saúde da população idosa já tem se traduzido em situações constrangedoras.

Em janeiro de 2013 o ministro das finanças do Japão, Taro Aso, disse que: “os idosos deveriam morrer mais cedo, para reduzir os custos que o Estado têm para que cuidar deles”. Evidentemente, depois da repercussão negativa, teve que pedir desculpas.

No Brasil, ganhou grande repercussão o caso da médica Virginia Soares, que foi presa e acusada de homicídio qualificado enquanto trabalhava na UTI do Hospital Evangélico de Curitiba. A ordem era esvaziar os leitos da UTI e acelerar a morte dos pacientes. Parece que este caso está associado com a obtenção de lucro em hospitais que funcionam com máquinas geradoras de receitas financeiras e não de cuidado dos pacientes.

Além deste caso, existem diversas matérias divulgadas na mídia mostrando casos de violência contra os idosos por parte de filhos e de cuidadores. Sem falar, da falta de boas instituições de permanência de longo prazo para os idosos. O número de domicílios coletivos para idosos é muito pequeno no Brasil.

Evidentemente, existem casos de pacientes crônicos em que se justifica o desligamento dos aparelhos e a adoção da eutanásia. Mas isto precisa ser bem regulamentado e discutido na sociedade e nas famílias, sendo uma questão delicada na relação entre as gerações.

Todavia, o envelhecimento populacional e o aumento da razão de dependência de idosos coloca a questão de como cuidar das velhas gerações e de como lidar com os impactos econômicos de uma população cada vez mais idosa, mas fora das atividades econômicas mais produtivas.

O fato concreto é que os ganhos da esperança de vida estão diminuindo e o custo social do envelhecimento populacional está aumentando. O futuro pode estar apontando para uma estagnação da esperança de vida e para uma redução do crescimento econômico e até mesmo da qualidade de vida em uma sociedade com dificuldades de incrementar a produtividade do trabalho.

 

A população da Alemanha em 2100

A população da atual Alemanha (Oriental e Ocidental) era de 68,4 milhões de habitantes em 1950 (enquanto havia 52 milhões de brasileiros) e chegou ao seu pico máximo de 82,54 milhões em 2005. Portanto, teve um pequeno crescimento depois da derrota na Segunda Guerra Mundial e iniciou uma fase de decrescimento a partir de 2005, pois em 2010 a população alemã caiu ligeiramente para 82,3 milhões de habitantes. A divisão de população da ONU estima, para o ano de 2050, uma população de 84 milhões na hipótese alta, de 74,8 milhões na hipótese média e de 66,2 milhões na hipótese baixa. Para o final do século as hipóteses são: 108,6 milhões de habitantes, na hipótese alta, de 70,4 milhões, na média, e somente 43 milhões na hipótese baixa. Ou seja, a Alemanha pode ter uma população em 2100 bem menor do que aquela que possuia em 1950.

A densidade demográfica da Alemanha era de 192 habitantes por km2, em 1950, passou para 231 hab/km2 em 2010 e deve cair para 197 hab/km2, na projeção média para 2100.

O declínio da população alemã decorre das baixas taxas de fecundidade total (TFT). Durante a Segunda Guerra, o nazismo  incentivou o aumento da fecundidade por meio da sigla “KKK”: Kinder, Küche, Kirche (crianças, cozinha, igreja). Mas depois da derrota alemã, o tamanho das famílias caiu e as mulheres já apresentavam uma média de somente 2,2 filhos no quinquênio 1950-55. Vinte anos depois a fecundidade já estava abaixo do nível de reposição e continuou caindo até o limite mínimo de 1,3 filho por mulher no quinquênio 1990-95. No quinquênio 2005-10 a TFT alemã estava em 1,4 filho por mulher. A divisão de população da ONU acredita que as taxas de fecundidade vão voltar a aumentar até atingir o nível de reposição (2,1 filhos por mulher) no final do atual século. Mas mesmo com as taxas de fecundidade voltando a subir, a população vai continuar caindo, porém, pode cair mais ou menos dependendo da recuperação do número de filhos das famílias. O número de nascimentos caiu de 1,1 milhão em 1950 para 690 mil em 2010.

A Alemanha, juntamente com o Japão, foi um dos países que apresentaram uma das maiores taxas de crescimento econômico e social após 1950, aproveitando de forma exemplar a fase propícia da estrutura etária que, em geral, fornece um bônus demográfico, quando há investimentos corretos em educação, saúde e mercado de trabalho. Mas também passou por um rápido processo de envelhecimento, pois a idade mediana da população estava em 35 anos em 1950, passou para 44 anos em 2010 e deve chegar a 50 anos em 2050, um recorde histórico de baixa, pois nunca houve tão poucos nascimentos anuais.

A Alemanha tinha uma taxa de mortalidade infantil de 51 mortes de crianças antes de completar um ano de idade por mil nascimentos, no quinquênio 1950-55 e conseguiu fazer um feito histórico com a redução para 3,7 mortes para cada mil nascimentos, uma das mais baixas do mundo. Para o quinquênio 2045-50 estima-se uma taxa de 2,5 por mil. Esta espetacular queda da mortalidade infantil teve papel fundamental para tornar a esperança de vida da população alelmã uma das maiores do mundo. No quinquênio 1950-55 os moradores da alemanhã viviam em média 67,5 anos e atingiram uma esperança de vida de 79,8 anos no quinquênio 2005-10.

Segundo o relatório Planeta Vivo de 2012, da WWF, a população alemã tinha uma pegada ecológica de 4,57 hectares globais (gha) em 2008, para uma biocapacidade de somente 1,95 gha. Isto quer dizer que o país do Portão de Brandeburgo tem um déficit ambiental de cerca de 150%.

Neste sentido, uma diminuição da população alemã no século XXI pode ser muito positivo para a redução do déficit ambiental do país. Mas apenas a diminuição do número de ambitantes não resolve o problema da pegada ecológica. O país tem feito um esforço muito grande para mudar a matriz energética para fontes limpas e renováveis. A Alemanha, que é a base econômica da União Europeia, pode dar um bom exemplo se conseguir liderar o caminho para uma economia de baixo carbono.

 

G7 versus E7: a vez dos países emergentes?

A empresa de consultoria PricewaterhouseCoopers (PwC) tem publicado regularmente um estudo com cenáros sobre a situação da economia mundial em 2050 (World in 2050). Em geral, os cenários são muito otimistas e apontam para um elevado crescimento econômico na primeira metade do século XXI e para a redução das desigualdades econômicas entre os países, pois os maiores incrementos devem acontecer nos países subdesenvolvidos ou emergentes (Terceiro Mundo).

Durante a segunda metade do século XX os sete maiores países capitalistas (G7 = Estados Unidos, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá) dominavam o cenário econômico e político do mundo. Porém, tudo indica que a dinâmica econômica da primeira metade do século XXI será dominada pelos sete maiores países emergentes (E7 = China, Índia, Brasil, Rússia, Indonésia, México e Turquia). A ultrapassagem  da emergência deve acontecer em 2017, quando os 7 países emergentes (E7) devem superar o tamanho da economia dos 7 maiores países desenvolvidos, o chamado G7.

No estudo anterior da PwC, de 2011, o Produto Interno Bruto (PIB ou GDP em inglês) dos 14 maiores países do mundo projetados (em poder de paridade de compra – ppp) para 2050 era de: China $ 59,5 trilhões; Índia $ 43,2 trilhões; EUA $ 37,9 trilhões; Brasil $ 9,8 trilhões; Japão $ 7,7 trilhões; Rússia $ 7,6 trilhões; México $ 6,7 trilhões; Indonésia $ 6,2 trilhões; Alemanha $ 5,7 trilhões; Reino Unido $ 5,6 trilhões; França $ 5,3 trilhões; Turquia $ 5,2 trilhões; Itália $ 3,8 trilhões; Canadá $ 3,3 trilhões.

Porém, este cenário super otimista já foi reduzido com as novas projeções de 2013, que, embora ainda muito otimista, são um pouco menos favoráveis do que há dois anos. As novas projeções para os 14 países em 2050 (em poder de paridade de compra – ppp) são: China $ 53,9 trilhões; EUA $ 37,9 trilhões; Índia $ 34,7 trilhões; Brasil $ 8,8 trilhões; Japão $ 8,1 trilhões; Rússia $ 8,0 trilhões; México $ 7,4 trilhões; Indonésia $ 6,3 trilhões; Alemanha $ 5,8 trilhões; França $ 5,7 trilhões;  Reino Unido $ 5,6 trilhões; Turquia $ 5,0 trilhões; Itália $ 3,9 trilhões; Canadá $ 3,5 trilhões.

As projeções da PwC (2013) apontam para um PIB (em ppp), em 2050, de $ 124,1 trilhões para o E7 e de $ 70,5 trilhões para o G7. Ou seja, os países emergentes, do E7, teriam uma economia quase o dobro das atuais lideres das economias desenvolvidads, o G7. A diferença mais significativa entre as projeções de 2001 e 2013 da PwC foi a redução das taxas de crescimento da Índia que estava em segundo lugar no estudo anterior, mas ficou atrás dos Estados Unidos (EUA) na projeção mais recente. O Brasil também teve uma redução de cerca de 1 trilhão de dólares no PIB, entre uma projeção e outra, mas se manteria em quarto lugar do ranking, em 2050. Em ambas projeções, a China passa os EUA em 2017 e se torna a maior economia do mundo a partir desta data.

Para se ter idéia do que tudo isto representa em termos globais, o PIB mundial (em ppp) era de $ 42 trilhões de dólares no ano 2000. Isto significa que só o G7 teria, em 2050, um PIB quase o dobro do tamanho do PIB mundial na virada do milênio, enquanto os sete países do E7 teria um PIB quase 3 vezes maior do que aquele que o mundo tinha em 2000. As projeções da PwC indicam uma possibilidade potencial de crescimento do PIB, mas nada garante que vão ocorrer de fato. O mais provável é que, de tempos em tempos, se faça as correções no sentido de ajustar o PIB potencial ao PIB real.

As projeções da PwC trazem embutidas um crescimento do PIB mundial de quase 6 vezes na primeira metade do século XXI. Porém, no padrão atual, este fato significaria que a Pegada Ecológica iria superar a Biocapacidade da Terra em mais de 6 vezes, ou dito de outra forma, precisaríamos de 6 Planetas para dar conta deste PIB tão inchado em 2050.

O fato é que o rápido crescimento dos países emergentes (e mais populosos) poderia ser um fato positivo para os cenários de redução das desigualdades internacionais de renda e para a redução da pobreza. Todavia, resta saber se haverá bases materiais para uma expansão econômica tão rápida e, se neste período, o meio ambiente e a biodiversidade irão fornecer os recursos naturais necessários ou, numa hipótese não aventada pela PwC, irão entrar em colapso. Quem viver verá!

 

MIST e BRICS

Os grandes bancos de investimento estão sempre inventando novidades para atrair clientes para suas carteiras de negócios. Inventar acrônimos parece um exercício que tem feito sucesso na mídia e conqistado clientes.

Mas será que estes acrônimos formam grupos de países com alguma homogeneidade ou são apenas formas de criar novos mercados para o setor financeiro e seus clientes?

Os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) tiveram um desempenho muito diferenciado em 2012. O PIB da China cresceu 7,8%, da Índia 5%, Rússia 3,6%, África do Sul 2,5% e o Brasil somente 0,9%.

Enquanto isto, a nova sensação são as nações chamadas de MIST — México, Indonésia, Coreia do Sul e Turquia. Estes são os maiores mercados do fundo Goldman Sachs N-11 Equity Fund. Em 2012, o PIB da Indonésia cresceu 6,2%, do México 3,9%, da Turquia 3% e da Coréia do Sul 2%.

O fato é que os países “emergentes” (ou do Terceiro Mundo) estão crescendo mais rapidamente do que os países desenvolvidos. A União Européia teverecessão, em 2102, de -0,5% e os Estados Unidos cresceu somente 2,1%, ritmo incapaz de reverter as altas taxas de desemprego.

O quadro da economia internacional é muito incerto. O Fundo Monetário Internacional prevê um crescimento de 2,9% em 2013. Mas este número pode ser menor na medida em que se aprofunda a crise na Europa e o corte nos gastos públicos se aprofunda nos Estados Unidos.

Portanto, mesmo com os BRICS ou os MIST, a conjuntura mundial não passa firmeza para os defensores do desenvolvimento. O baixo crescimento do PIB brasileiro, em 2012, mesmo com suas particularidades, pode ser um símbolo de uma nova era de baixo desempenho. O decrescimento do ritmo do crescimento econômico continua e tende a se generalisar.

Mudança de hegemonia religiosa: o Brasil vai seguir os passos de Seropédica?

O Brasil está passando por profundas mudanças no perfil religioso da população. Tem diminuido o número de pessoas que se declaram católicas, ao mesmo tempo que crescem aqueles que se declaram evangélicos, espíritas, testemunhas de Jeová, sem religão, etc.

Mas estas mudanças acontecem de maneira muito diferenciada. Em artigos anteriores, mostramos que a cidade de Chuí, no Rio Grande do Sul, tem maioria de pessoas sem religão. Já as cidades de Macuco e São José de Ubá, ambas no estado do Rio de Janeiro, apresentaram crescimento dos católicos, ao contrário dos outros 90 municípios fluminenses que tiveram redução do percentual de católicos entre 2000 e 2010.

Neste presente artigo, trataremos do caso da cidade de Seropédica (sede da Universidade Rural – UFRRJ), situada no pé da Serra das Araras, no Rio de Janeiro. Até inicio dos anos de 1990, Seropédica fazia parte do município de Itaguaí. No censo demográfico de 1991, Itaguai tinha 55% de pessoas que se declaravam católicas e 21% de evangélicos. Portanto, os católicos eram maioria da população. Porém a perda de católicos nos anos seguintes foi muito grande em ambas as cidades.

Em Seropédica, houve quase um empate no ano 2000, com os evangélicos atingindo 35,9% e os católicos 38,8% (mas entre as crianças e jovens de 0 a 14 anos houve ultrapassagem dos evangélicos). As outras religões perfaziam um percentual de 5,3% e os sem religião 20,1%. Na primeira década do século XXI a mudança continuou de maneira acelerada entre a população total do município, com os católicos caindo para 27,4% em 2010, os evangélicos subindo para 44%, as outras religiões para 6,3% e os sem religião subindo para 22,3%.

Nota-se que a queda maior dos católicos aconteceu entre os jovens e as mulheres. Na população (masculina e feminina) de 0-14 anos de idade os católicos tinham só 21,7% em 2010, perdendo para os sem religião que perfaziam 23,1% e os evangélicos que alcançaram 49,9%. Entre as mulheres os católicos eram 25,6% em 2010 e entre as mulheres de 0-14 anos eram apenas 19,9%. Portanto, entre 1991 e 2010, os católicos de Seropédica cairam de mais de 50% para cerca de um quarto (25%). Foi uma perda muito acelerada e que parece que não vai ser interrompida imediatamente, pois os católicos estão mais representados entre os idosos e os evangélicos mais representados entre as mulheres em período reprodutivo e as novas gerações. Independentemente da migração interreligiosa, haverá mudança apenas por conta da inércia demográfica.

Esta situação, provavelmente, vai ser discutida pelo novo papa e durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), que vai reunir milhões de jovens católicos do mundo inteiro na capital fluminense, em julho de 2013. A Santa Sé está preocupada com a perda de hegemonia no maior país católico do mundo. Segundo o censo demográfico 2010 o percentual de católicos tinha caido para menos de dois terços no Brasil e para menos de 50% no estado do Rio de Janeiro. E a perda de fiéis tem sido maior entre as mulheres e jovens. Tocar o coração dos jovens é essencial para a hierarquia católica.

No bojo desta atividade da JMJ, a Igreja brasileira iniciou o processo de beatificação da menina carioca Odetinha (1930-1939). Abriu-se um processo para a comprovação dos milagres da jovem rica – que nasceu no mesmo ano da Revolução de 1930 – e que ajudava os pobres da região metropolitana do Rio. Naquela época, mais de 95% da população se declarava católica. Parece que a Arquidiocese do Rio pretende fazer de Odetinha uma inspiração para os jovens atuais. Será que vai conseguir?

Os próximos meses vão ser muito movimentados na igreja católica mundial e carioca. A igreja católica não tem conseguido se livrar dos escândalos de pedofilia, dos problemas com o banco do Vaticano e da luta interna revelada pelo chamado “Vatileaks”, conforme mostra reportagem da revista Der Spiegel. Ou como disse o próprio Papa Bento XVI na missa de quarta-feira de cinzas: “a Igreja está desfigurada pelas divisões em seu corpo eclesiástico”.

Estas são questões que precisam ser bem esclarecidas para os jovens e para todas as sociedades cristãs. Mas uma instituição tão forte e antiga como a Igreja Católica provavelmente não vai deixar de buscar uma solução para os seus maiores desafios. Como afirmou o teólogo brasileiro, Mário França: “A igreja muda ou acaba”. Provavelmente a igreja católica vai buscar novos rumos para se adaptar a este mundo pós-moderno. Porém, para a Santa Sé, o novo caminho a ser trilhado, certamente, não terá como modelo este adotado pelo município de Seropédica.

Referências:
ALVES, JED, BARROS, LFW, CAVENAGHI, S. A dinâmica das filiações religiosas no Brasil entre 2000 e 2010: diversificação e processo de mudança de hegemonia, ABEP, Águas de Lindóia, novembro de 2012
http://174.121.79.98/~naotembr/anais/files/PE3%5B903%5D.pdf
ALVES, JED. Chuí: a capital brasileira dos sem religião. Ecodebate, Rio de Janeiro, 06/02/2013
http://www.ecodebate.com.br/2013/02/06/chui-a-capital-brasileira-dos-sem-religiao-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/
HANS-JÜRGEN SCHLAMP. Diminishing Strength: Weakness and Vatican Intrigues Plagued Pope. Der Spiegel
http://www.spiegel.de/international/europe/benedict-xvi-announces-resignation-for-health-reasons-a-882701.html