El callejero: Pedro Juan Gutierrez

A literatura cubana pós-revolução viveu uma larga pausa produtiva. Quer dizer, ainda que o regime de Fidel Castro proporcionasse inúmeros concursos de poesia e novela, os textos quase que invariavelmente se perdiam numa excessiva carga ideológica que anulava o literário a favor da exaltação histórica e social. As obras que fugiam a isso, como sabemos bem, pertenciam a escritores em situação de exílio.

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Oscar Wilde

A minha vida de leitora, como a de todos que lêem, está repleta de historietas. Bobas algumas, é verdade, mas sempre aventuras. Com o tempo e com o acúmulo de “leituras necessárias”, às vezes é bom lembrar os primeiros deslumbramentos literários, as decepções narrativas (superadas), ou a curiosidade suplantando o texto. Estes foram, respectivamente, meus encontros com Os doze trabalhos de Hércules, de Monteiro Lobato; “a história que não levava a nada” Dom Casmurro, de Machado; e uma introdução a O retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Esta introdução em particular me interessou muito por uma razão simples: o crítico que felizmente não lembro o nome, fazia tantas referencias ao “Caso Oscar Wilde” sem dizer a que vinha que quase tive uma urticária de curiosidade. Por que o julgaram e que comportamento indecoroso teria impetrado este escritor?
Pesquisei em vários livros – que não foram tantos assim – e nada ou sempre essa coisa de meias palavras para falar de Wilde. Só estava claro que eram perversões sexuais, tema incrivelmente aliciante para uma adolescente curiosa. E não havia internet. Porém, havia muita outra coisa a fazer e precisei adiar minha pesquisa wildeana. Mais tarde, quando um livro de poemas de Wilde caiu em minhas mãos, sua sexualidade já não me importava mais. Estava adulta e infelizmente menos curiosa, mas, felizmente, menos preconceituosa.
Não quero justificar Wilde como maldito. Aliás, não pretendo mais fazer isso, a menos que seja absolutamente necessário. Depois de tantos artigos, isso está explícito nos autores deste espaço. Deve bastar falar de literatura…
Poeta, prosador, ensaísta, Oscar Wilde (1854-1900) frequenta as altas esferas sociais, torna-se nome requisitado tanto em festas quanto em estritas rodas artísticas, professor requisitado, literato de grande acuidade. Tanta visibilidade pode ser glória e decadência na moralista Inglaterra vitoriana. Wilde conhece os dois lados desta moeda.
A decadência, porém, continua dando fôlego a ele. Na prisão, nascem A balada do Cárcere de Reading e De profundis. Salomé, uma das peças importantes de sua carreira dramática, também é dessa época. Contudo, Wilde é, sobretudo, um esteticista.
O esteticismo, surgido como nova concepção do belo artístico no século XIX, encontra, em Oscar Wilde, a legitimação e o apuro. Em Dorian Gray, o autor canoniza o belo ao mesmo tempo em que vaticina a impossibilidade de atingir-se a perfeição estética. Ao ler contos como A rosa e o rouxinol, O príncipe feliz ou O aniversário da infanta, por exemplo, não chego a ver um contista excepcional, mas ao longo desses mesmos textos, outra vez emerge a discussão sobre o conceito do belo, agora de maneira menos centrada que em Dorian Gray, porém mais próximo à idéia de belo como modo de vida. E mais uma vez, no entanto, o belo se esboroa…
Coerentemente, o dandismo é a obra e o próprio Wilde: a sofisticação ao vestir, a boêmia, o mal, o “pecado”. Como chegar ao belo – absoluto, talvez – sem experimentar tudo isso?
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PSs:
Recomendo a leitura de A verdade sobre as máscaras – apontamentos sobre a ilusão, instigante ensaio de Wilde sobre Shakespeare, texto fácil de encontrar e que nos faz chegar perto do conceito de belo de Wilde.
Recentemente, obras de Wilde foram adaptadas para o cinema: A liga extraordinária, A importância de se chamar Ernest, e O marido ideal, sendo o primeiro uma péssima idéia hollywoodiana e os outros, duas deliciosas comédias inglesas. A primeira adaptação de A importância… é dos anos 50.

Cruz e Sousa

Cruz e Sousa

Os malditos são os que podem contradizer o que a “elite intelectual", ou o bom-gosto, ou a crítica ou o senso comum diz ou percebe. Porém, o preço que pagam por isso nem sempre chega ao patamar da vida boêmia e outsider elegida por livre espontânea vontade. Exemplo perfeito disso está no simbolismo brasileiro.

O decadentismo em terras tupiniquins não teve a aura romântica (em sentido ideológico), ou poetas correndo descabelados pelas ruas, entre doses de ópio e bebedeiras memoráveis. Mas teve loucura, lirismo e a indefectível ambientação onírica.

De certa maneira, Cruz e Sousa, Alphonsus de Guimaraens e Augusto dos Anjos (que não sei ao certo se pode estar aqui) fizeram uma suave contraposição à objetividade de fin de siécle e aos inícios da Belle Époque, empolgada com novas descobertas e as promessas de progresso econômico e social. Na contramão, os simbolistas trazem misticismo e espiritualidade, em franca fuga à realidade que para eles parece não fazer eco à poesia. É uma viagem ao mundo invisível e impalpável do ser humano e, para dar corpo a essa travessia espiritualizada, buscam uma linguagem nem sempre clara, mas sempre sugestiva e simbólica.

Cruz e Sousa enche a poesia brasileira de musicalidade e de sensações em que não faz falta a análise da palavra, mas a capacidade de sentir. O eu lírico, no entanto, é muito do poeta. Não me parece que haja uma forma de determinar que sentimento é aquele que nos está envolvendo porque é de uma particularidade tão absolutamente subjetiva que só podemos juntar a ele nossa própria subjetividade para poder jogar assim o jogo poético.

O simbolismo brasileiro está em Cruz e Sousa. Ele é a representação absoluta da estética no país. Maldito por quê? Por não existir num contexto em que só a elite que repetia versos à náusea podia elevar-se. A existência de Cruz e Sousa foi um constante intento de sair de um atoleiro de desgraça sociais e econômicas que dizimariam sua família e afinal a ele também. Simplesmente não existiu, mas insistia em estar lá.

Costuma-se dizer que sua predileção por cores e formas que remetem ao branco é uma espécie de ânsia por um ideal branco ou algo assim. Pouco acredito nisso. Basta ver como se encadeia a poesia de Cruz e Sousa para perceber que essa insistência no branco atende antes a fantasmagoria, ao etéreo e ao onírico que a um projeto de branqueamento. Mas talvez me equivoque. Afinal, num país e numa época de racismo feroz, ter a cor adequada equivaleria a poder aspirar ao reconhecimento. Mas, como sempre, acho que a poesia é tudo e ponto. Que seu poeta seja maldito, isso sim me interessa porque resulta numa excelente maneira de discutir a maravilhosa resistência artística que, ainda que tarde, termina por vencer a mediocridade.

Dostoievski

Dostoievski é maldito? Essa pergunta não é retórica. Muito menos didática. Realmente fico me perguntando se posso colocá-lo neste espaço e em que nível posso qualificá-lo como maldito. Principalmente pelo atrevimento que significa falar deste russo pra lá de complicado.
Antes de começar este texto sobre Fiódor Dostoievski (1821-1881), tive vontade de simplesmente colocar toda a primeira parte de Memórias do subsolo e deixar que isso fosse tudo. E realmente o é. Eu sou um homem doenteUm homem mau. Um homem desagradável. Cito de memória. Venho tentando escrever de maneira que além de, digamos, “homenagear” os escritores malditos, também situá-los nesse âmbito e, a partir daí, prestar meu culto, de certa forma. Só por isso posso falar de Dostoievski, um escritor que li muito e devagar, mas que é um enigma absoluto para mim. De certa forma, me custa um pouco “desvendar” seu texto. Às vezes, os acadêmicos, temos a pretensão de achar que vamos ir tão fundo que não restará mistério, apesar de dizer que nenhum grande escrito é totalmente decifrado.
Já falei de outros abismos aqui, do poço sem fundo em que somos jogados, quando iniciamos a jornada de uma obra que nos toma, mais do que alicia. Essa é minha história de leitura de Dostoievski. Todas suas obras foram pegas e relegadas por mim, pegas outra vez e relegadas de novo. Até a necessidade de ler se tornar inadiável. Este russo nunca faz com que eu me sinta bem. Talvez seja perda de tempo dizer que é um dos romancistas mais importantes da literatura universal, falar do seus vícios, da escritura febril que exercia para pagar dívidas de jogo, as fases de sua obra entre genial e esquecível, o fenômeno realista. Porém, sabemos que Dostoievski está na profundidade com que vasculhou o mais fundo dos nossos corações e mente e o quanto está imbricado com Nieschtze e Freud. Mas não é novidade que os grandes escritores são também grandes filósofos. Dostoievski não foge à regra, sendo considerado inclusive o fundador do existencialismo. Lendo o seguinte trecho de Memórias do subsolo, pouco se precisa justificar essa denominação:
O homem seja ele quem for, sempre e em toda parte gostou de agir a seu bel-prazer e nunca segundo lhe ordenaram a razão e o interesse; pode-se desejar ir contra a própria vantagem e, às vezes, decididamente se deve (isto já é uma idéia minha). Uma vontade que seja nossa, livre, um capricho nosso, ainda que dos mais absurdos, a nossa própria imaginação, mesmo quando excitada até a loucura – tudo isto constitui aquela vantagem que deixei de citar, que não se enquadra em nenhuma classificação, e devido à qual todos os sistemas e teorias se desmancham continuamente, com todos os diabos! E de onde concluíram todos esses sabichões que o homem precisa de não sei que vontade normal, virtuosa? Como foi que imaginaram que ele, obrigatoriamente, precisa de uma vontade sensata, vantajosa? O homem precisa unicamente de uma vontade independente, custe o que custar essa independência e leve aonde levar…
A angústia do protagonista de Memórias aparece igualmente em Raskolnikov, nos irmãos Karamazov, na idiotice de Míchkin ou na obsessão destrutiva de Nastácia, na dubiedade bem intencionada de Rogójin (sim, adoro O idiota, obra que me fez conhecer Dosta). É a certeza de necessitar fazer algo, mas fazê-lo significa chegar à dissecação. E agora, que há?
O realismo dostoievskiano é puro. Se, por um lado, delineia a sociedade, acusa, expõe, por outro sua análise psicológica, tão cara à estética realista, se afasta do distanciamento do analista que mira a seu paciente. O narrador de Dostoievski está ali, sentido e fazendo sentir profundamente o drama de seus homens e mulheres. Mas também desce tão fundo que igualmente temos de deixar o confortável divã de onde vemos as personagens. Com Dostoievski elas deixam de passar na nossa frente. O realismo humano não é um filme que canaliza nossas dores. Somos também a angústia e a pergunta. Dostoievski é uma estética por si.
Certo, isso não o faz maldito. Para isso está sua vida e o modo de dizer. O que me ocorre é que me parece redutor agora colocá-lo em qualquer sistema. Então, que se saiba que assim se pode vê-lo. E ponto. Se acaso acham que não pode ser assim, terão de voltar a ler o excerto logo acima.
No Brasil, as melhores traduções de Dostoievski têm sido as de Boris Schnaiderman.

Para leitores de Poe e Baudelaire

 

 

 

Enfim chego a Baudelaire. Charles Baudelaire (1821-1867) necessitaria muitos artigos para dizer-se o mínimo sobre ele. Não por acaso, apesar de ser o mais original dos malditos, seu mentor era justamente Poe. Paradoxalmente, Poe só existe pela ação do simbolista francês que o revelou para a crítica e o público. Ou seja, há uma relação de gênese estética entre eles, se me perdoam a expressão esnobe.

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Chatterton: o pai da maldição romântica

A biografia de Chatertton é de extensão pífia. 17 anos de farsa e de verdade absoluta. Que dizer de um poeta que mentiu sobre ser poeta?

Ainda assim, Thomas Chatterton (1752-1770) – recentemente recordado pela voz de Seu Jorge no CD Cru – é a máxima referência aos românticos, talvez por cumprir à risca a regra da precocidade em viver, criar e morrer. Vive vertiginosamente desde os cinco anos, quando fica órfão de pai. Autodidata, sente que a leitura vai permitir que ascenda socialmente. E não mede esforços para provar sua teoria. Mas essa mesma leitura dá a ele a chave do embuste. Ele se especializa em falsários literários. Cria escritores com a mesma facilidade com que os faz comunicar-se entre si. A crítica baba por seus textos e claro que por isso também lhe dá o golpe final. Das mãos de Chatterton sai a figura de um religioso medieval, Rowles, "autor" resgatado por nosso maldito que com isso nos apresenta o primeiro heteronômio literário.

Chatterton é o ficcionista dos ficcionistas. Se reinventou tanto e a tantos que passa a viver na espécie de mundo paralelo. Estava sempre criando, montando histórias para permitir uma nova ficcionalização. Talvez pareça ousado dizer-se isso, mas Chatterton é precursor inclusive do texto borgiano quando se pensa neste como aquele que aproxima a literatura da física quântica ao criar situações dentro da situação, num processo labiríntico, ainda que, no caso de Thomas, seja bastante ingênuo.

Mais ousada ainda, declaro aqui que Goethe é uma farsa. Explico. Os suicídios provocados por Werther nos jovens setecentistas são nada perto do que o suicídio de um só homem provoca em toda uma estética literária. Sim, sim, parece pouco. Estou exagerando. É que Chatterton me encanta. Talvez seja o único maldito realmente mau caráter da literatura. Aliás, que literatura? Aí vem outra ironia. Postumamente, seus escritos (realmente seus) foram considerados geniais pela crítica.

Perfeito.

PS: Este artigo é curto. Coerentemente.

Emily

           O Romantismo se inventou, se patenteou e foi êxito absoluto. A obra romântica permite ao sujeito poeta extravasar até o limite do impossível. É o exercício do desejo escondido que pode ser canalizado para verso e prosa, que pede morte, escuridão e todo o sentimento que se possa carregar. Mas reparem no paradoxo: se o sentimento pode expor-se sem reserva – porque a época o permite – onde sobra espaço para a maldição?

Então o sujeito romântico se auto-exila, blasé, blasé… e cria essa maravilhosa atitude de amar inconteste, de sofrer inevitavelmente e de descrer sempre da vida, pois há uma incompatibilidade entre o ser e o estar. E a morte, então, pode se tornar uma espécie de noiva, a mais esperada.
Mas, enquanto a amada não chega, as noites ébrias são um cálido paliativo.
***
Há vários tipos de maldição, mas principalmente duas que não se excluem necessariamente: a maldição que grita, composta por aqueles cuja vida, às vezes, é mais importante que a poesia, e a maldição que se constitui principalmente no isolamento, na transgressão, na impossibilidade de “fazer parte”.
A base do escritor maldito é observada pelo simbolista Paul Verlaine que escreve, em 1888, Os poetas malditos, numa auto-referência estendida também a Rimbaud, Mallarmé e dois ou três mais. Esta lista de nomes se ampliou bastante, mas o que importa é o sentido que o poeta dá ao termo: poeta precoce que renega os valores da sociedade e muitas vezes vem a morrer antes de ter seu talento reconhecido, etc.
Bom, já se sabe disso, mas neste caso preciso relembrar, pois só assim posso falar de Emily Dickinson, uma romântica que extrapola o Romantismo e que, assim como Poe, Whitman, Blake, para falar só de norte-americanos, está além de qualquer estética estabelecida.
Faz pouco estive num debate sobre ela. Nunca havia lido além de meia dúzia de poemas que me tocaram pouco. Então, o que essa moça insípida da Nova Inglaterra faz neste espaço sobre escritores malditos? Bom, qualquer pessoa que conheça e aprecie a obra de Dickinson deve estar me chamando de tonta agora. Eu mesma penso isso.
Depois de ler um longo e apurado estudo sobre a poeta, fiquei literalmente estática com a contundência do seu texto. Não, contundência não é uma palavra boa. Poderia ser se se falasse da obra como um todo, mas não da maneira como Emily escreve, como algo que mal se toca.
Pois é isso: Emily não é Verlaine, nem Rimbaud, nem Baudelaire. Mas poderia. Outra vez se pode falar sobre ser mulher em determinadas épocas – sem qualquer ranço de estudo de gênero. Sem a liberdade de varar noites entre copos e orgias, as mulheres malditas geralmente são malditas porque escrevem. Simples assim.
Imagine-se uma jovem de família rica e tradicional que se isola para escrever em pleno século XIX. Há, inclusive, teorias que consideram que o fato de haver se isolado foi a origem de sua escritura. Parece banal, mas isso significa dizer, no caso, que sem o isolamento, ou a bolha que ela criou para si, não conheceríamos jamais Emily como poeta. Sua crescente sensibilidade – que beira ao autismo – exigiu isolamento e o isolamento fez nascer a artista.
Higginson, umas das poucas pessoas que teve acesso ao mundo privado de Emily, dizia que ela o assustava. A mim assusta também. Tremendamente. Seu hermetismo, tão coerente com sua psique – se reveste de tantas capas que a poesia pode parecer superficial numa primeira olhada. Aí se lê mais uma vez. E outra. E outra. E então aparece o abismo.
Não sei se dá pra separar a vida de Emily de sua obra. Mas, por outro lado, ler o pouco que há sobre ela é ler o sujeito lírico (ou o autor implícito se consideramos suas cartas). Mas no fim, tudo é literatura e tudo é incrível na obra dickinsoniana.
E, sejamos coerentes, que escritor maldito prescinde a vida da escritura?
 

Poe: entre a biografia e a obra

Que escrever sobre Edgar Allan Poe (1809-1849), como escritor maldito, que já não tenha sido dito? Bem, como não tenho de ser professora neste espaço, posso falar simplesmente sobre minha entrada no universo poeano. Isso deve fazer séculos, numa felizmente extinta adolescência – época de predisposição à maldição. E lá estava Ligéia, atravessando paredes e sonhos de um narrador atormentado. À Ligéia seguiu-se outra preciosidade: O gato preto, e aí O corvo e todo o “bestiário” de Poe.

Sobretudo, ele foi o primeiro escritor na minha ingênua crença na humanidade e no amor que falou de paixões e casamentos que se dissipam no tédio do cotidiano e chegam ao submundo do ódio. Não dava para entender aquilo. Como o fascínio por alguém tão prontamente se transformava em algo insano? Ademais, minha idéia de romantismo era uma idéia relacionada ao amor incondicional. Ainda não conhecia o mal-du-siécle. Mas não faria diferença, pois Poe, apesar de ser um ícone romântico, extrapola os estereótipos. Como todo bom escritor maldito.

Poe foi o autor das brumas, da alucinação, da morte, mas também da lógica detetivesca e da composição literária. Mas não vou falar de sua poesia nem de seus contos. Vou falar da sua ironia toda posta em um texto chamado A filosofia da composição, obra essencial à poética do texto literário.

Ali, Poe rompe paulatinamente com uma idéia cara ao Romantismo: a inspiração. No artigo, comenta seu poema mais festejado, O corvo. Cruelmente – ao menos para uma leitora apaixonada como eu – desmitifica a dor do sujeito-lírico. Para o poeta, ocorre um erro crasso no modo como geralmente é construída a ficcionalidade: encher de descrições, diálogos e comentários autorais qualquer vazio que haja no texto. Poe prefere crer em efeito. Ou seja, em atingir o leitor, partindo daquilo que supostamente lhe faz tocar a alma. E com isso, ministra uma das melhores aulas de teoria literária que já tive na vida.

Edgar Allan Poe continua sendo assunto pra muita gente. Desde que Baudelaire o descobriu, há mais de um século e meio, a crítica vem seguindo a sua trilha, logrando um êxito editorial que, se fosse vivo, provavelmente perderia no jogo. Ainda que a biografia dele interesse pouco – falamos de literatura – Poe tem se mostrado quase nada ao longo do tempo. Sim, conhecemos sua vida de bebida, drogas, desavenças, desenganos. Mas sempre sinto que nenhum estudo realmente penetra biograficamente para além do escândalo.

Poe é o mais original dos malditos. Diferente dos românticos, não criou para si uma aura idealista e nefelibata. Era só ele desde sempre. Não buscou correntes ou mentores ou parcerias literárias. Seguiu sempre sozinho. Na verdade, lutando para estar sozinho. Cinco minutos pensando nele e percebemos que é a própria carta roubada.

 

 

Mesmo que minha adolescência esteja muito longe, Poe ainda me impressiona.

Voltarei a falar dele. Seguramente.

Não tem saída.

Sylvia – like a frog in autumn

Ser mulher, poeta e maldita é definitivamente uma maldição em si. Principalmente se falamos dos anos 40 e 50 entre Estados Unidos e Londres. Conta a lenda que Sylvia Plath (1931-1963) escreveu seu primeiro poema aos oito anos de idade, mesma época da morte de seu pai. Antes dos dezessete anos, já sofria as primeiras crises e buscava a morte pela primeira vez.

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Sade e os infortúnios da escritura maldita

Sade (1740 -1814) é o mais incômodo, desagradável e assustador dos escritores malditos. Leio suas obras entre o nojo e o fascínio, o terror e a curiosidade. Mas leio. O ritual que impõe a suas vítimas se estabelece entre o Eros e tánatos – óbvio – mas também busca o tártaro, dependendo do quanto suas personagens e leitores são capazes de atravessar as trevas, acompanhando a filosofia de alcova de Sade.

Sabemos que a vida de Sade foi marcada por prisões, perdas financeiras, momentos de lucidez e de loucura. Claro está que o conceito de loucura só cabe se ignora-se o próprio Sade e entra-se no racionalismo moral que faça ver como alheio o processo de busca pelas origens da paixão desse autor fascinante. O sexo, na ótica de Donatien Alphonse François de Sade, é um exercício constante de perversão ou, mais precisamente, de conhecer os limites da tal relação entre tánatos e Eros.

Porém, o que me interessa com freqüência em seu texto é a metalinguagem narrativa que cria. A violação continuada de Justine, por exemplo, coincide com uma narração ininterrupta que equivale ás vezes ao próprio clímax da personagem. Sade é um apaixonado pelo sexo e a perversão, numa absoluta simplificação. Mas é também um fascinante narrador.

Literatura de alcova e de cochichos, seus textos vem recebendo atenção renovada nos últimos anos. O filme de Philip Kaufman, de 2000, contribuiu para que o autor acedesse ao grande público, embora o mesmo filme tenha o perigoso viés de transformar o fascínio pela tara em simples tara.

Sade foi leitura de Baudelaire – o maldito-mor – de Flaubert, de Cortázar, de Salvador Dalí, de Bataille. Atenção tão distinta já é uma boa razão para ler.

Se uma das principais marcas da maldição literária é a marginalidade ou a incompreensão entre os seus, Sade cumpre essa “regra” à risca. No entanto, entre o frenesi sádico e a vontade de destruição de si – palavras de Georges Bataille – Sade é, sobretudo, um poeta de escritura muito menos aleatória e egocêntrica do que possa parecer. Sade é o escritor da Queda da Bastilha. Ninguém representa tão bem, nas letras, esse momento da Revolução Francesa.

Simultaneamente, Sade é o menos artista dos artistas. Uma obra sua dificilmente sobrevive ao crivo da crítica literária. E isso nada tem a ver com a temática. Também a filosofia esbarra em contradições gritantes, principalmente as de cunho teológico.

Ainda assim, ele permanece, adjetivando e mitificando-se. Sua entrada no mundo acadêmico o legitima pouco a pouco. Dificilmente se tornará leitura recomendada para estudantes incautos, mas já faz parte de um panteão. É justo lembrar que a contemporaneidade aprecia dar lugar ao deslocado como se fossemos capazes de compreender o que os outros negligenciaram.

De qualquer modo, se prestamos atenção, podemos ouvir, ao longe, a gostosa gargalhada desse incansável tecedor de excessos.