Ctrl-Alt-DC

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Geoff Johns e Jim Lee, dois dos principais chefões da DC Comics, anunciaram na última semana que a editora reiniciará toda a sua cronologia. (Pois é, de novo). Como seria de se esperar, o anúncio fez fóruns e listas de discussão por todo o mundo entrarem em polvorosa – mas, por incrível que pareça, esta é a parte menos relevante do comunicado.

Primeiro, porque de alguns anos pra cá reboots tornaram-se prática frequente nas grandes editoras. Só a DC usou o Ctrl-Alt-Del editorial pelo menos três vezes, e a Marvel volta e meia lança uma nova linha recontando como Peter Parker foi mordido pela aranha radioativa – ou geneticamente modificada, segundo as mais recentes releituras.

Além do óbvio fato de que nenhum fã gosta de ver anos e anos de histórias passando a ser ignorados de uma hora pra outra, ainda temos o agravante de que essas mudanças nunca duram muito tempo. Não demora a surgir um escritor interessado em revisitar alguma história que havia sido esquecida, tudo volta à mesma  bagunça…e toca começar do zero outra vez.

A chefia das grandes editoras por vezes me parece um técnico de informática ruim, daqueles cuja resposta-padrão para qualquer problema mais complicado é “vai ter que formatar”. A suposta explicação para este ciclo de reinícios é sempre a de simplificar as histórias e atrair novos leitores. OK. Isso podia até ser verdade quando Crise nas Infinitas Terras foi lançada, época em que novas contradições cronológicas chegavam às comic shops todos os meses – mas, por mais que as histórias atuais pareçam confusas, é realmente necessário esquecer tudo que já foi feito?

Se bem que especulações dão conta de que não seria simplesmente um reinício ao estilo “esqueçam tudo que aconteceu”. Ninguém na DC quer comentar o que realmente está acontecendo até que setembro chegue, o que pessoalmente só me deixa com algumas das possibilidades levantadas – Terra paralela, Ano Um de todos os títulos, ampliação da Linha Earth One…

Outro ponto importante é o anúncio de que, daqui pra frente, todos os títulos da DC serão lançados simultaneamente nas versões impressa e digital. Há quem veja nisso um sinal de que a editora deve, a longo prazo, abandonar as vendas de revistas mensais em comic shops, preferindo focar nos encadernados.

Tendo a DC dado um passo tão ousado, quanto tempo vai demorar para que a Marvel, que já vinha experimentando no campo das HQs digitais, vá pelo mesmo caminho? Quanto tempo até que o público não precise mais ir às comic shops mensalmente, forçando estas lojas a (tentar) sobreviver de vender encadernados e colecionáveis? Teremos uma massa de falências de lojas de quadrinhos a caminho?

Talvez pensando nisso, a DC lançará as edições digitais pelo mesmo preço das impressas – criando uma espécie de “reserva de mercado” para as revistas. As edições digitais, porém, ficarão mais baratas ao completarem um mês do lançamento, tornando o material antigo mais acessível. O duro é que fazem isso bem depois de rebootar o universo inteiro…

Finalizo transcrevendo aqui uma externação de raiva que passei a semana repetindo no Twitter: observem atentamente a imagem que ilustra esta coluna. TODO MUNDO tem a mesma maledetta gola alta com corte em V na frente – inclusive a Mulher-Maravilha, que usa tomara-que-caia! Quem foi que disse pro Jim Lee que ele era um bom designer de uniformes?

Saga do Clone Redux

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Eu comecei a ler quadrinhos numa época difícil: os anos 90. Com a ascensão da Image e a explosão dos colecionáveis, as editoras de quadrinhos resolveram investir em reformulações cada vez mais absurdas para manter o interesse do público.

A perfeita síntese desse período é a Saga do Clone do Homem-Aranha. A trama tornou-se lendária pelas mudanças estapafúrdias, e arrastou-se por dois longos anos durante os quais muitos fãs simplesmente perderam a perspectiva de ver uma conclusão.

Mas Tom DeFalco, um dos idealizadores e principais defensores da trama, sempre afirmou que não devia ter sido assim. Segundo ele, as diversas mudanças de comando pelas quais a Marvel passou na época fizeram com que as coisas saíssem do controle, e a saga tornou-se tão rocambolesca que os editores admitiram não saber como encerrá-la.

Recentemente, DeFalco foi convidado a produzir uma minissérie que enfim mostraria sua ideia original para a Saga do Clone. Esta minissérie foi recentemente publicada no Brasil, na mensal A Teia do Homem-Aranha, e vamos analisá-la a partir de agora.

Para começar, a enrolação de outrora dá lugar a um roteiro direto e rápido – tão direto e tão rápido, aliás, que até parece mal escrito, especialmente para quem não acompanhou a história original. Para quem acompanhou, a impressão é de um resumo com mudanças em alguns pontos-chave, muito semelhante a um O Que Aconteceria Se?

A história ganha mais alguns pontos por fugir do Peter Parker depressivo que vimos durante boa parte dos anos 90, preferindo usar sua tradicional personalidade de otimista azarado. E, se a Saga do Clone original foi o paraíso das pontas soltas, aqui não demoramos a descobrir o que está havendo e de quem são os planos. Claro que logo se revela que que há um mestre-por-trás-do-mestre, mas isso é até bom: ao menos sabemos que a história começa com um propósito final a ser alcançado. Um propósito muito clichê, tudo bem, mas um propósito.

Mas eu sei o que você está se perguntando: a Saga do Clone teria sido melhor se tivesse sido assim? Bem, teria sido menos confusa e causado menos falso impacto, o que já é alguma coisa – mas não comprem pensando que a revisão transformou a Saga do Clone na Última Caçada de Kraven. Vários dos principais buracos da trama original não são explicados mesmo na nova versão, deixando a dúvida se foram ganchos para futuras aventuras ou simplesmente lapsos. Segundo a visão original de DeFalco, a história provavelmente seria um arco comum apresentando novos personagens coadjuvantes, e não um trauma para uma geração.

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Blackest Night, black as coal

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Quando eu disse que confiava em Geoff Johns, não foi sem motivo.

Toda a fase do roteirista à frente do título do Lanterna Verde culminou numa espetacular minissérie em oito partes, cujo final chegou na última semana às bancas brasileiras.

A Noite Mais Densa representa um momento crucial não só na vida dos Lanternas Verdes e demais equivalentes de outras cores, como também de todo o universo DC. Este aumento de amplitude em relação ao plano original sem dúvida deveu-se ao grande sucesso alcançado por Johns, que transformou o Lanterna no título mais vendido e elogiado da editora. E, dada a proposta da saga – um ataque da encarnação da morte, através de avatares que controlam os corpos dos falecidos – até que isso faz sentido.

bnww A história se tornou de toda a DC a tal ponto que o próprio Hal Jordan chega a “sumir” da minissérie principal em alguns momentos, deixando o estrelato para personagens de segundo e terceiro escalão, como Mera e Eléktron. Mais um ponto para Johns, que conseguiu entender a essência e motivação não só dos Lanternas de várias cores como de outros ícones da editora, como Lex Luthor e a Mulher-Maravilha. Ironicamente, os dois principais símbolos da editora – Super-Homem e Batman – aparecem pouco, apesar de terem papeis mais importantes em segundo plano (especialmente o Batman).

Como seria de se esperar, a saga teve interligações com todos os títulos da editora, mas ao contrário do que geralmente acontece isso não foi um problema. Estas histórias foram em sua maioria fechadas, deixando o desenvolvimento da história principal para a minissérie. Trocando em miúdos: não é preciso ler todos os lançamentos relacionados para entender o que está acontecendo. Eu mesmo pulei vários tie-ins, aliás.

Outra grande parte deste sucesso se deve ao desenhista brasileiro Ivan Reis, que fez na Noite seu melhor trabalho. Já famoso por seu belo traço e seus grandes paineis dignos do lendário George Pérez, Reis transforma cada página da minissérie num “filme de terror com super-heróis”. A morte espreita em cada página com os Lanternas Negros, de modo quase palpável.

E, se o terror é mais psicológico do que explícito, há pouquíssima enrolação (toma essa, Brian Bendis!), já que Johns explica as dúvidas do leitor de forma simples e direta. Por que super-heróis ressuscitam a toda hora? O que motivou Abin Sur a vir para a Terra? Por que nosso planeta demorou tanto para ter contato com alienígenas, e ainda mais para ter um representante na Tropa dos Lanternas Verdes? As respostas a estas perguntas têm papel fundamental na conclusão da trama, e são dadas de modo tão claro e objetivo que inspiram a clássica pergunta: como ninguém pensou nisso antes?

No fim, A Noite Mais Densa cria novas possibilidades para quase todo o universo DC – e levou a editora ao topo das listas de mais vendidas por quase toda a sua duração, abrindo caminho para que Johns se tornasse um dos mais importantes executivos da editora. Tudo bem, é difícil acreditar que ninguém mais voltará à vida na DC, como a história anuncia em sua conclusão – mas vamos jogar com as regras atuais enquanto elas não são mudadas.

PS: vejam só que ironia: Barry Allen funciona muito bem como sidekick de seu velho amigo Hal Jordan. Talvez seja para isso que o trouxeram de volta, afinal.

O Geraldinho ficou órfão

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(ilustração de Giorgio)

Já faz uma semana que Marisales está triste.

Pois Glauquito, um dos bandoleiros mais famosos do sertão do Viejo México, faleceu vítima de um louco que invadiu sua casa.

Ainda tentamos todos entender o que aconteceu, dada a peculiaridade e brutalidade da situação – para não citar a dificuldade em absorver que, tal como aconteceu com John Lennon trinta anos atrás, perdemos um gênio para a insanidade de um assassino.

Ainda não acreditamos que não teremos mais Geraldão, Geraldinho, Dona Marta, Ozetês, Zé do Apocalipse, Casal Neuras e tantas outras brilhantes criações. Como bem disseram: foi uma chacina, não um assassinato.

O que resta de consolo é pensar que Glauco foi encontrar Henfil, Jack Kirby, Gil Kane, Hermes Tadeu, Mike Wieringo e tantos outros mestres do traço no céu, e que toda a sua obra e genialidade estão disponíveis para nós.

Obrigado por tudo, mestre Glauco.

Dois parabéns e uma vaia para a Panini

Dezembro me trouxe três surpresas nas duas revistas em quadrinhos nacionais que eu tenho comprado regularmente. Duas delas foram muito boas, mas a terceira foi BEM ruim.

Comecemos pela mensal mais bacana da DC no Brasil, a do Lanterna Verde. Seguindo com os preparativos para a Noite Mais Densa, a edição deste mês traz o especial Final Crisis: Rage of the Red Lanterns. Ao contrário do que possa parecer à primeira vista, achei acertadíssima a decisão de publicar esta história na revista de linha do personagem. Afinal, a despeito de citar a Crise Final em seu título, esta trama não tem nada a ver com a saga. Bem, na verdade ela cita muito en passant alguns acontecimentos do começo da série de Grant Morrison, mas a ligação alardeada na edição nacional fica só na capa.

É uma história importantíssima, contudo, para quem está acompanhando as aventuras do Lanterna Verde, e não só para marcar a volta da revista à cronologia presente depois de sete meses lendo a versão definitiva da origem do herói – pelo menos até a próxima reformulação no universo DC. Aqui vemos a ascensão de mais duas tropas, e a descoberta de que o arquivilão Sinestro terá papel fundamental no futuro da série.

O segundo acerto da Panini é uma atração que estreia em janeiro na mesma revista (que, a propósito, bem poderia perder o desnecessário “Dimensão DC” da capa): a minissérie Os Últimos Dias do Homem-Animal, de Gerry Conway e Chris Batista. Material de qualidade, com um personagem bacana, mantendo o alto nível da publicação – que ainda tem as aventuras do Gladiador Dourado, a melhor revista que você não está lendo.

Como nem só de bons momentos é feita a vida, porém, tenho que dar um puxão de orelha na Panini pela interrupção (ainda que temporária, como anunciado) na publicação da oitava temporada de Buffy, a Caça-Vampiros. Confesso não ter acompanhado a série na TV (calma que eu chego lá, gente. Tá na lista), mas nem por isso deixei de virar fã da caçadora de monstros criada por Joss Whedon. Além do mais, só por ter criado uma nova proposta em transmídia o título já valia ao menos uma olhada. Mas vem cá…uma revista de cem páginas como a do Lanterna custa R$ 7,50, e cinquenta centavos a menos compram 40% menos quadrinhos no título da Buffy…que bélgica de matemática é essa?