Sobre Darwin e a religião

“Fatos falsos são extremamente prejudiciosos para o progresso da ciência porque eles duram por muito tempo; por outro lado, visões errôneas, se baseadas em alguma evidência, fazem pouco mal já que todos tem um saudável prazer em provar sua falsidade” – Charles Darwin
É realmente curioso como a minha inocência sempre me engana. Eu imaginava viver em um mundo aonde a grande maioria das pessoas já aceitasse algumas das idéias básicas que a ciência tem a nos ensinar, mas de tempos em tempos eu provo que estou errado. Eu estou passando por mais uma destas épocas, as quais eu intitulo carinhosamente de “sessões masoquistas”, que nada mais são do que períodos de sofrimento agudo, que ocorrem quando eu faço pesquisas sobre diversos assuntos que eu pensava já serem esclarecidos para o público geral. O darwinismo é um bom exemplo.
Eu não sou um ateu convicto, ou ao menos na forma como a maioria dos ateus são. A grande maioria deles usam argumentos que eu simplesmente não posso concordar para contestar a existência de algum deus, e estes argumentos facilmente cruzam a barreira que nos separa do dogmatismo. Diversos americanos aderiram a esta onda chamada “Novo Ateísmo”
http://pt.wikipedia.org/wiki/Antite%C3%ADsmo
, e eu não consigo olhar para eles de outra forma a não ser como uma matilha. Existem alguns programas aonde cristãos ligam para discutir religião com apresentadores ateus, e estes últimos sempre saem com um ar superior. Risadas e táticas extremamente sujas para ganhar discussões são empregadas sem a menor vergonha. O ponto mais importante desta história, e que todos sabem, é que não é possível convencer um religioso de que ele está errado. Simples assim. Não se convence porque este é um assunto aonde a lógica não se aplica, de acordo com o religioso, e quaisquer argumentos utilizados serão como gritos ecoando no deserto. E esta vontade de “converter as pessoas ao ateísmo” é extremamente semelhante à atitude que os mesmos criticam na posição da Igreja.
Por outro lado, digo com a mais clara convicção: o deus cristão não existe, tampouco o deus muçulmano, assim como Zeus. E eu espero que ninguém aqui se choque com isso (ou não se choque muito), esta idéia já é bem antiga (vide “O Anticristo”,
http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Anticristo
de Frederich Nietzsche, que hoje em dia é um livro água-com-açúcar de cento e tantos anos de idade). Argumentos não faltam, e eu realmente não irei insistir neste ponto. Dependendo do debate que poderá ser aberto nos comentários, eu escreverei a este respeito no meu próximo texto, mas voltando, eu não tenho a certeza de que um ser criador, ou seres criadores, existam, e é por PURA CONVICÇÃO que eu, pessoalmente, penso ser esta a nossa única existência. Não sei provar isto, mas parece que a nossa mente gosta de ter controle sobre as coisas, e é por isto que é tão difícil viver com um grande ponto de interrogação como forma de motivação. É realmente doloroso pensar que estamos aqui por acaso, sozinhos e vulneráveis, e que os nossa existência não é nada mais do que a mera consequência de certas leis naturais. Mas ainda assim esta é a minha mais profunda convicção. “O niilismo mora na porta ao lado”, alguém pode dizer. Pois talvez este niilismo já seja um companheiro de quarto.
De qualquer forma, pensava eu, sejam vocês cristãos, ateus ou testemunhas de jeová, todos sabemos que o mundo NÃO foi criado há seis mil anos atrás, todos sabemos que o no princípio não era o verbo, mas sim formas primitivas de vida. Existem um trilhão de bilhões de provas para a teoria evolucionária, e uma tarde num museu de história natural poderia mudar qualquer pessoa. Mas não é isto que eu encontrei nestes últimos dias… o que eu encontrei foi uma legião de fanáticos postando textos, vídeos, publicando livros a favor do criacionismo. Sim, a teoria de que um ser todo poderoso criou tudo em seis dias, inclusive os fósseis (que devem ter sido enterrados de propósito somente para gerar este tipo de controvérsia e, portanto, selecionar os bons cristãos). Os fatos que eu encontrei são realmente horrorizantes…
Sete estados americanos, por exemplo, proibem que um ateu assuma um cargo político (óbviamente a constituição americana é soberana sobre a dos estados, e esta prevê a igualdade entre crenças). Apenas cerca de 12% dos americanos votariam num presidente ateu, e todos os outros grupos de minorias (negros, mulheres, homossexuais) ficaram à frente na pesquisa. Uma reedição comemorativa do livro “A origem das espécies” foi lançado nos EUA e 50.000 cópias foram distribuidas gratuitamente em várias Universidades, mas com um prefácio de 50 páginas escrito por estes dois sabichões aqui.
http://www.youtube.com/watch?v=2z-OLG0KyR4&feature=related
E como provar a existência dos cocos ou das jacas? Chocante é o mínimo que pode ser dito sobre isto. E o que podemos dizer, por exemplo, sobre este diálogo (são atores que montaram o texto todo com citações retiradas de foruns cristãos), ou então sobre esta cena real de um lar pacífico cristão?
Diálogo
http://www.youtube.com/watch?v=qO9IPoAdct8
Mãe louca
http://www.youtube.com/watch?v=T2KBLQOaUrQ&feature=rec-fresh+div-r-18
Também não aceito um cientificismo cego. O método científico, que sempre me pareceu como algo simples de se entender e rasoável, não é tão facilmente entendido pelo grande público, mas este ainda assim insiste em usá-lo. Nada me enoja mais do que alguns documentários religiosos nos quais alguns pseudo-cientistas “provam” que Darwin estava errado. Eu não vou nem comentar sobre a prova em si, mas sim sobre o provar: não eram eles mesmos quem sempre condenaram a “arrogância científica”? E cá estou eu batendo na mesma tecla novamente… Aqui estamos nós em pleno século XXI tendo que engolir este tipo de coisas. E isto tudo somente me entristece profundamente… Fuçando na minha memória (e também no banco de dados do OPS!), eu encontrei um comentário que eu fiz no blog do Milton Ribeiro
http://miltonribeiro.opsblog.org/
há cerca de um ano atrás, e sob o qual eu ainda hoje assinaria.
“Este é um dos grandes problemas contemporâneos, penso: somos demais esclarecidos, e por isto não conseguimos nos agarrar a nada. Condenamos a religião, mas desejamos uma segurança existencial, ao mesmo tempo que condenamos a racionalidade – mas não nos permitimos sermos demais emotivos; nos apegamos à arte, mas sabemos que mesmo a defesa mais hábil desta está baseada em vicissitudes; podemos convenser muita gente, mas não nos convencemos mais… não acreditamos que nossos trabalhos sejam os mais importantes nem que nossas vidas foram trilhadas pelo único caminho correto. Único caminho? Somos relativistas, somos ‘livres’. E, na minha opnião, o preço da liberdade é muito alto. Eu já não tenho forças para condenar a existência de tipos como este, e não por falta de paciência para discutir, mas por não conseguir acreditar que vivo de uma maneira mais legítima do que eles.”
“Fatos falsos são extremamente prejudiciais para o progresso da ciência porque eles duram por muito tempo; por outro lado, visões errôneas, se baseadas em alguma evidência, fazem pouco mal já que todos tem um saudável prazer em provar sua falsidade” Charles Darwin
É realmente curioso como a minha inocência sempre me engana. Eu imaginava viver em um mundo aonde a grande maioria das pessoas já aceitasse algumas das idéias básicas que a ciência tem a nos ensinar, mas de tempos em tempos eu posso comprovar como estou errado. Eu estou passando por mais uma destas épocas, as quais eu intitulo carinhosamente de “sessões masoquistas”, que nada mais são do que períodos de sofrimento agudo, que ocorrem quando eu faço pesquisas sobre diversos assuntos que eu pensava já serem esclarecidos para o público geral. O darwinismo é um bom exemplo destes.
Eu não sou um ateu convicto, ou ao menos da forma como a maioria dos ateus são. A grande maioria deles usam argumentos com os quais eu simplesmente não posso concordar para contestar a existência de algum deus, e estes argumentos chegam perto de cruzar a barreira que nos separa do dogmatismo. Diversos americanos e europeus tem aderido a esta corrente de pensamento chamada “Novo Ateísmo“, e eu não consigo olhar para eles de outra forma a não ser como uma matilha. Os Novos Ateus são caracterizados pelo combate a qualquer tipo de crença. Nos EUA, por exemplo, existe um programa aonde cristãos ligam para discutir religião com apresentadores ateus, e estes últimos sempre saem com um ar superior. Risadas e táticas extremamente sujas para ganhar discussões são empregadas sem a menor vergonha. O ponto mais importante desta história, e que todos sabem, é que não é possível convencer um religioso de que ele está errado. Simples assim. Não se convence porque este é um assunto aonde a lógica não se aplica, de acordo com o religioso, e quaisquer argumentos utilizados serão como gritos ecoando no deserto. E esta vontade de “converter as pessoas ao ateísmo” é extremamente semelhante à atitude que os mesmos criticam na posição da Igreja.
Por outro lado, digo com a mais clara convicção: o deus cristão não existe; tampouco o deus muçulmano, assim como Zeus. E eu espero que ninguém aqui se choque com isso (ou não se choque muito), afinal de contas esta ideia já é bem antiga (vide “O Anticristo“, de Frederich Nietzsche, que hoje em dia é um livro água-com-açúcar de cento e tantos anos de idade). Argumentos não faltam, e eu realmente não irei insistir neste ponto. Dependendo do debate que poderá ser aberto nos comentários, eu escreverei a este respeito no meu próximo texto, mas voltando, eu não tenho a certeza de que um ser criador, ou seres criadores, existam, e é por PURA CONVICÇÃO que eu, pessoalmente, penso ser esta a nossa única existência. Não sei provar isto, mas parece que a nossa mente gosta de ter controle sobre as coisas, e é por isto que é tão difícil viver com um grande ponto de interrogação como forma de motivação. Eu me vejo muito mais próximo do agnosticismo, mas minha cabeça tende a acreditar que o fim é o fim, e ponto final. É realmente doloroso pensar que estamos aqui por acaso, sozinhos e vulneráveis, e que os nossa existência não é nada mais do que a mera consequência de certas leis naturais. Mas ainda assim esta é a minha mais profunda convicção. “O niilismo mora na porta ao lado”, alguém pode dizer. Pois talvez este niilismo já seja um companheiro de quarto.
De qualquer forma, pensava eu, sejam vocês cristãos, ateus ou testemunhas de jeová, todos sabemos que o mundo NÃO foi criado há seis mil anos atrás, todos sabemos que o no princípio não era o verbo, mas sim formas primitivas de vida. Existem um trilhão de bilhões de provas para a teoria evolucionista, e uma tarde num museu de história natural poderia mudar qualquer pessoa. Mas não é isto que eu encontrei nestes últimos dias… o que eu encontrei foi uma legião de fanáticos postando textos e vídeos na internet, e publicando livros a favor do criacionismo. Sim, a teoria de que um ser todo poderoso criou tudo em seis dias, inclusive os fósseis (que devem ter sido enterrados de propósito somente para gerar este tipo de controvérsia e, portanto, selecionar os bons cristãos). Os fatos que eu encontrei são realmente aterrorizantes…
Sete estados americanos, por exemplo, proibem que um ateu assuma um cargo político (obviamente a constituição americana é soberana sobre a dos estados, e esta prevê a igualdade entre crenças). Apenas cerca de 12% dos americanos votariam num presidente ateu, e todos os outros grupos de minorias (negros, mulheres, homossexuais) ficaram à frente na pesquisa. Uma reedição comemorativa do livro “A origem das espécies” foi lançado nos EUA e 50.000 cópias foram distribuidas gratuitamente em várias Universidades, mas com um prefácio de 50 páginas escrito por estes dois sabichões aqui. E como provar a existência dos cocos ou das jacas? Chocante é o mínimo que pode ser dito sobre isto. E o que podemos dizer, por exemplo, sobre este diálogo (são atores que montaram o texto todo com citações retiradas de foruns cristãos), ou então sobre esta cena real de um lar pacífico cristão?
criacionismo
Charge retirada do Sizenando
Também não aceito um cientificismo cego. O método científico, que sempre me pareceu como algo simples de se entender e aceitar, não é tão facilmente entendido pelo grande público, mas este ainda assim insiste em usá-lo. Nada me enoja mais do que os argumentos que alguns pseudo-cientistas usam para “provar” que Darwin estava errado. Eu não vou nem comentar sobre as provas que eles usam em si, mas sim sobre “o provar”: não eram eles mesmos quem sempre condenaram a “arrogância científica” e o método científico? E cá estou eu batendo na mesma tecla novamente… Aqui estamos nós em pleno século XXI tendo que engolir este tipo de coisas. E isto tudo somente me entristece profundamente…Fuçando na minha memória (e também no banco de dados do OPS!), eu encontrei um comentário que eu fiz no blog do Milton Ribeiro há cerca de um ano atrás. Deixando de lado a extrapolação inicial para todos os contemporâneos, eu ainda assino embaixo disto aqui:
“Este é um dos grandes problemas contemporâneos, penso: somos demais esclarecidos, e por isto não conseguimos nos agarrar a nada. Condenamos a religião, mas desejamos uma segurança existencial, ao mesmo tempo que condenamos a racionalidade – mas não nos permitimos sermos demais emotivos; nos apegamos à arte, mas sabemos que mesmo a defesa mais hábil desta está baseada em vicissitudes; podemos convencer muita gente, mas não nos convencemos mais… não acreditamos que nossos trabalhos sejam os mais importantes nem que nossas vidas foram trilhadas pelo único caminho correto. Único caminho? Somos relativistas, somos ‘livres’. E, na minha opinião, o preço da liberdade é muito alto. Eu já não tenho forças para condenar a existência de tipos como este, e não por falta de paciência para discutir, mas por não conseguir acreditar que vivo de uma maneira mais legítima do que eles.”

Sobre a inveja

“Se não podemos escrever com a beleza com que Mozart escrevia, ao menos tentemos escrever com a sua pureza.” – Johannes Brahms

Obviamente Brahms se referia à arte da composição, e não à da escrita propriamente dita. Mas não há nada melhor do que começar um texto sobre Wolfgang Amadeus Mozart do que com um jogo de palavras, tal como ele fazia frequentemente em suas cartas. A motivação para este texto surgiu quando eu revi o fantástico filme “Amadeus”, dirigido por Miloš Forman em 1984. O filme é baseado na adaptação feita por Sir Peter Shaffer à partir de uma pequena peça de Aleksander Pushkin, chamada “Mozart e Salieri”. Mas comecemos com o realismo e então passemos ao romance.

Wolfie nasceu em 27 de janeiro de 1756 em Salzburg. Desde muito cedo tornou-se evidente o seu grande talento para música, algo que seu pai Leopold, violinista e compositor, não demorou a notar. Leopold fez excursões e mais excursões pela Europa com seu filho. Seu pai foi seu primeiro e único professor, ensinando ao jovem Mozart tanto música quanto línguas e outros variados assuntos. Mozart compôs sua primeira peça para piano aos cinco anos, sua primeira sonata aos seis, sua primeira sinfonia aos oito e sua primeira ópera aos onze.

Sua música possui uma fluência inigualável. Mozart não dá sustos, Mozart rema, mas ao mesmo tempo é contrastante na medida correta, nunca sendo óbvio. Esta é a minha honesta opnião sobre a sua música, e eu assino embaixo da frase já citada por Brahms. Wolfie, ao contrário da crença popular, compôs muitas obras trágicas. O que dizer de seu Requiem, ou do Don Giovanni, ou da Sinfonia No.25 ou mesmo da ária “Der Hölle Rache kocht in meinem Herze”, da sua Flauta Mágica? Também ao contrário do que está na boca do povo, Mozart possui obras difíceis de se ouvir, ou ao menos foram para a “seleta audiência” de seu tempo, e não é à toa que este morreu completamente pobre. Tentem encarar os primeiros compassos do seu Quarteto de Cordas No.19 “Dissonâncias”.

Mozart foi um grande inovador, elevando o classicismo ao seu auge. Com seu temperamento brincalhão, entrou para a história como o primeiro compositor a usar a técnica da politonalidade na sua hilária “Piada Musical”, K.522, ou com o seus minuetos que eram criados ao jogar-se dados. Foi talvez o primeiro compositor a utilizar o conceito de série, algo notado por Arnold Schoenberg em uma de suas cartas.

Vamos então falar da ficção. “Amadeus” não é uma biografia e, aliás, passa muito longe disto. Muitas das frases atribuídas a Mozart no filme são falsas, bem como grande parte da sua personalidade e, obviamente, a trama é completamente fictícia. Apesar destes poréns (e que grandes poréns), o filme é excelente. Este filme não deve ser visto como uma biografia, mas sim como uma obra-prima sobre a inveja e o orgulho. Mozart é, neste caso, irrelevante, e o filme poderia se passar em um cenário completamente diferente. Mozart não é o centro do filme, tampouco Salieri, tampouco a sociedade vienense do século dezoito, e é por não notar isto que muitas pessoas odeiam este filme.

A personalidade de Wolfie era muito bem humorada, talvez às vezes vulgar, mas não tão exagerada como o filme mostra. Mozart era capaz de escrever coisas como:

“Eu me importo muito pouco com Salzburg e nem um pouco com o arcebispo: eu cago em ambos.” – em uma carta ao seu pai

Mas não é simplesmente assim que ele é retratado no filme. O Mozart hollywoodiano possui uma risada histérica e patética, uma personalidade egoísta e nada o emociona além da sua música, algo que não pode ser provado por nenhuma carta sua ou de terceiros.

E o pobre Antonio Salieri? Salieri foi um músico com uma carreira invejável, sendo talvez o favorito em Vienna no seu tempo. Seus grande mérito foi como professor, ensinando nomes como os de Beethoven e Liszt. Salieri retornou do seu silencioso esquecimento para se tornar um grande vilão.

Mas nada disto me incomoda, justamente pelo filme ser uma obra prima sobre estes sentimentos baixos. As atuações são impecáveis, e o velho Salieri, à beira da loucura por sua inveja e seu arrependimento, é realmente tocante. A visão de um Mozart infantil vem da cabeça de Salieri já velho e louco, e é sob esta ótica que temos que assistir ao filme: o Mozart ali retratado não é, necessariamente e, provavelmente, como ele foi. Com pitadas de humor, Forman leva o filme com uma elegância extraordinária. E o grande argumento de seus críticos, de que o filme iria denigrir as imagens de Mozart e Salieri, pode ser respondido com uma simples frase: quem é que se importa com Mozart e Salieri?

Bem, as pessoas que ouvem Mozart para “relaxar” não irão sofrer dano algum se acreditarem em tudo o que o filme diz. E alguém que ouve música de maneira séria provavelmente saiba muito da biografica deste compositor. Então os chatos, e superficiais, voltam ao ataque, e dizem: “E Salieri? Ele ficará para a história como um vilão!”. E eu respondo: quem foi Antonio Salieri? Como você soube da sua existência? Salieri só entrou para a história por conta deste filme, e ponto final.

Enfim, eu recomendo este filme à todos vocês. Para dar um exemplo da maestria com que Forman mistura humor com tragicidade, dêem uma olhada neste pequeno trecho do filme, fazendo o favor de desculpar as legendas em neerlandês. Vale a pena notar que “Amadeus” foi filmado quase inteiramente em Praga, e todas as cenas de dentro do teatro foram filmadas no famoso Teatro Nacional de Praga, aonde Mozart estreiou seu Don Giovanni. Então assistam ao filme e deixem os seus comentários por aqui.

* * *

Caros amigos, uma pequena nota antes de terminar – depois de um longo silêncio eu volto a escrever algumas linhas por aqui. O motivo do meu silêncio é razoavelmente nobre: eu me inscrevi para o exame da Academia de Música de Praga, o qual ocorre no final de janeiro. Não é nada fácil ser aprovado para estudar nesta instituição, e os exames são famosos por serem muito difíceis. Eu preciso estudar quatro peças ao piano, finalizar meu quarteto de corda e iniciar (e terminar) uma abertura orquestral, além de revisar composições antigas. E como se não bastasse, o exame será em tcheco, idioma o qual eu falo tão bem quanto a Leticia (sem acento) Wierzchowski fala o espanhol. Pois por isso eu continuarei um tanto ausente até fevereiro, quando eu espero poder ter minha vida normal de volta. Até lá, vocês podem contar com uma ou outra resenha aqui no OPS!, mas sem a frequência semanal de publicações que eu até então vinha tendo.

Um pouco de poesia (mais uma adicionada)

Pessoal, eu estive viajando nestes últimos dias e não tive tempo de preparar um artigo. Deixo vocês então na companhia de dois poetas depressivos tchecos, os quais eu traduzi o melhor que pude. Espero que vocês gostem. Volto na semana que vem, grande abraço a todos!

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Sobre ovelhas, natação e Roberto Carlos

Muito bem, muito bem, o Praguejando está de volta ao ar com o seu conteúdo de sempre. O último post, sobre Hamlet, foi uma exceção, e que, pelo visto, não agradou muito vocês. Mas hoje eu pretendo escrever sobre coisas divertidas, então apertem os cintos e vamos lá.

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A busca por um Hamlet definitivo

Praguejar, ou não praguejar: eis a questão. Eu, mais uma vez, irei discumprir algumas promessas feitas aqui. Sim, eu sei que eu comentei sobre os assuntos das próximas resenhas no post anterior, mas estes assuntos serão adiados pois hoje quero escrever sobre algo diferente. Sempre me vem à cabeça alguns temas que não envolvem Praga, e hoje eu resolvi não me importar mais com isto. Se alguém por aqui achar isto ruim, basta ligar para o nosso SAC (agora aonde vocês encontram este telefone é um grande mistério). Hoje eu vou falar sobre Shakespeare, e mais precisamente, sobre Hamlet. Eu tive uma overdose com a história do príncipe da Dinamarca nestes últimos tempos, tendo lido umas três traduções diferentes e assistido a alguns filmes também. Comecemos pelas traduções então.

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Impressões sobre a terra do box de vidro

Caros amigos,

Após um longo recesso, esta coluna está de volta. Mesmo depois de tomar muita caipirinha por preço justo, eu acabei voltando para o Velho Mundo, de onde pretendo continuar a escrever com a mesma regularidade de antes (textos novos todos os domingos). Eu sei que prometi escrever alguma coisinha enquanto eu estivesse no Brasil, mas como todos sabem, aquele calor em pleno inverno, as já citadas caipirinhas e o bando de amigos impossibilitaram tal tarefa. Mas prometo então escrever um texto bacana agora sobre as minhas impressões desta viagem para o Brasil, para compensar mais esta dívida.

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A arte da propaganda

Caros amigos,

Escrever no Praguejando vem sendo um dos meus grandes prazeres. Eu fui realmente pego de surpresa com o convite do pessoal do OPS!, e eu confesso que estava muito inseguro no começo. Nunca tinha escrito nada, além de poeminhas bobos na adolescência. Mas o que mais me surpreendeu aqui foi o sucesso que esta coluna está fazendo! Alguns dos meus textos estão chegando quase aos setecentos acessos, um número realmente impressionante. Eu estava muito receoso sobre escrever a respeito da República Tcheca e de Praga, já que este não é o assunto mais interessante do mundo para a grande maioria das pessoas. Então, todos vocês, fiquem com o meu mais sincero agradecimento.

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Da confiança e do perdão

Em 1918, após vários anos de opressão por parte do Império Austro-Húngaro, o sonho do estado tcheco autônomo se torna realidade. Eis o início da história moderna da República Tcheca. Este estado, chamado de Primeira República Tchecoeslovaca, tinha Praga como capital e o tcheco e o eslovaco como línguas oficiais. Nesta época, a região da Boêmia, aonde Praga se encontra, era a região mais rica e industrializada do Império Austro-Húngaro, e uma das dez mais ricas do mundo. A Tchecoeslováquia era um país promissor mas, como todos sabem, as coisas não aconteceram como era esperado.

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Cimrman e a mentira

"Por que, na vida cotidiana, os homens normalmente dizem a verdade? – Não porque um deus tenha proibido a mentira, certamente. Mas, em primeiro lugar, porque é mais cômodo; pois a mentira exige invenção, dissimulação e memória." – F.Nietzsche

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Considerações sociais

Os tchecos são pessoas peculiares e a sua maneira de agir em sociedade surpreende este escriba brasileiro. Eu já falei muito sobre o choque cultural que eu tive quando me mudei para Praga, mas hoje irei contar algumas histórias exemplificando melhor o que se passa por aqui. Os tchecos não são simplesmente tímidos; são calados e desconfiados, e qualquer tipo de contato com alguém na rua é sempre recebido com uma cara de surpresa, mesmo que este seja apenas um simples pedido de informações. Isto se deve, em parte, ao fato de o país ter sido invadido pelos nazistas e, posteriormente, pelos comunistas. As pessoas mais velhas parecem ainda não enxergar que a sociedade atual é mais livre do que a de seu tempo, mesmo vinte anos depois da saída dos russos, e, aparentemente, ainda tem medo de serem entregues como traidores a algum tribunal russo.

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