Acaso, beleza e Kundera: um pequeno epílogo.

Este artigo tem tudo (e ao mesmo tempo nada) a ver com música.

Foi Kundera quem disse, em seu “A Insustentável Leveza do Ser”, que a vida do homem é regida pelo seu senso de beleza. Este é um pensamento fascinante; se examinarmos as conseqüências lógicas deste aforismo, nos depararemos com situações bastante verossímeis. Certos acontecimentos em nossas vidas seriam perfeitamente justificáveis sob a ótica do norteamento estético.

O indivíduo pode enxergar o que quiser no acaso; o acaso é aberto a possibilidades subjetivas de especulação, diferentemente dos fatos que ocorrem por necessidade. Você pega um ônibus por necessidade; se no seu cotidiano uma mulher estonteante de repente te oferecer uma carona, isto pode ser enxergado como destino, sorte ou qualquer outra coisa que você queira.

Nisso, a pessoa projeta no acaso todos os seus ideais estéticos. Em uma situação onde um empregado é despedido subitamente pelo seu chefe babaca, pessoas com sensos estéticos diferentes enxergam coisas diferentes: para o indivíduo que tem como ideal estético o sofrimento e a subordinação como bússola moral, tal acontecimento é uma tragédia; para aqueles que sonham em mandar o chefe à merda, que se sentem seduzidos com comportamentos ousados e heróicos, é uma oportunidade.

Esta idéia tem relação direta com o tema de meus dois artigos anteriores, que tratavam da função da arte*. A arte poderia ser um veículo para o aprimoramento estético. Este aprimoramento seria fundamental dentro da visão de mundo de um personagem como o descrito por Kundera em seu livro; nosso senso de beleza seria o principal responsável pelo direcionamento que damos à vida. Pessoalmente, eu acho os personagens de Kundera muito verossímeis, e esta idéia do norteamento estético me agradou muito.

E a pergunta que não quer calar é: até que ponto as decisões que você toma na sua vida estão relacionadas ao seu ideal estético? O que te seduz mais, a leveza ou o peso?

 

*: você pode ler os artigos anteriores aqui: http://opensadorselvagem.org/arte-e-entretenimento/musica-desconcertante/para-que-serve-a-musica-parte-1 e aqui: http://opensadorselvagem.org/arte-e-entretenimento/musica-desconcertante/para-que-serve-a-musica-parte-2

Para quê serve a música – Parte 2

Na semana passada, eu finalizava a composição de uma peça e ouvi uma pergunta (não foi a primeira vez e com certeza não será a última) que na minha opinião revela-se sintomática de um impasse entre o artista e seu público (se é que podemos afirmar que ainda existe um público).

A pergunta foi: “qual é o objetivo disso?”

Se esta pergunta fosse direcionada a mim há 5 anos atrás, eu a tomaria como uma ofensa: “o que este cara está querendo dizer com isso? Que meu trabalho é inútil? Que música é inútil? Quero dar uma porrada nele. Grrr”.

Para ser honesto, dependendo do tipo de pessoa que me pergunta isso (e do tom de voz), eu realmente fico com vontade de falar umas coisas deselegantes. Porém, a pessoa que me fez esta pergunta realmente estava curiosa, querendo entender que tipo de motivação faz uma pessoa dedicar parte de seu tempo livre a ficar rabiscando um pedaço de papel (considerando que não haverá retorno financeiro e nem mesmo intérpretes para tocar a música).

A resposta é: porque é preciso. É necessário. Agora, necessário à sociedade? Claro que não, a sociedade não está nem aí para a arte. Não é necessário para ninguém, exceto para o artista. O processo criativo, para mim, está inevitavelmente ligado a uma sensação de inconformismo, a uma necessidade de ouvir uma música que não existe (ou que ainda não foi escutada). Se procuramos por esta música e ela não pode ser encontrada em coleções, discografias, partituras ou bibliotecas, temos que escrevê-la.

Isto vai de encontro com uma diretriz didática na qual eu acredito: aprender música é aprender a ouvir música. A notação, técnicas instrumentais e a teoria elementar são apenas técnicas. Há quem acredite que aprender música é aprender somente a técnica. Então, aprender uma língua estrangeira é aprender somente as palavras? Parece correto à primeira vista, mas só se aprende uma língua nova se você estiver submerso no ambiente onde se fala aquela língua. Você aprende ouvindo. (É claro que a técnica faz parte do aprendizado, mas não constitui a totalidade do conteúdo que deve ser aprendido).

Música também se aprende ouvindo. Na verdade, é óbvio, é tão óbvio que dá vontade de pintar isso num zepelim e sobrevoar Copacabana.

Para quê serve a música, enfim? A música cumpre a mesma função que as pirâmides, a literatura, as pinturas rupestres, os esboços de Da Vinci, a formulação da teoria da relatividade e as partidas de xadrez: essas coisas todas são o patrimônio intelectual da humanidade. Todas estas obras refletem a inteligência do seu tempo. A obra de arte deve ser valorizada porque ela imortaliza uma fração do pensamento de quem a produz. E imortaliza o tempo.

A inteligência de Eistein perdura, mesmo que Eistein não exista mais. Assim como a inteligência de Da Vinci, Mozart, Goethe, Platão, Haydn, Gesualdo. É a inteligência desses indivíduos que enriquece o legado do homem. É esta inteligência que apreciamos em suas obras, não as “biografias romanceadas”.

É por isso que devemos produzir arte apoiados na razão. A emoção pode fazer parte do processo criativo, mas são diretrizes racionais que devem engendrar uma obra. A obra de arte precisa ser um produto de nosso tempo; ela representará a nossa era no futuro.

Vamos ilustrar este pensamento da seguinte maneira: imagine que o homem sumiu da face da Terra (digamos, em 10.000 anos) e só sobraram as obras de arte. Estamos partindo do princípio de que os deuses que governam o destino do mundo gostam mais da arte do que dos homens, e por isso deixaram as obras serem conservadas. Então ETs descem na Terra e decifram as obras: peças de Beethoven, Stravinsky, Bach, Monteverdi… filmes de Hitchcock e Chaplin… o Werther de Goethe, Memórias Póstumas de Machado de Assis…

Os ETs datam as obras e pensam: “cacildis!* Aqui viveu um povinho cabuloso nesses períodos que a gente está catalogando”. Então, de repente, eles descobrem as obras do final do século XX e início do século XXI…

E aí? O que será que eles vão pensar de nós?

Você pode supor que eles nos achariam uns xexelentos por causa das porcarias de cultura de massa que eles encontrariam. Então, que tal dar uma chance à arte contemporânea? Procure conhecer a música de seu tempo. Ou a arte de seu tempo, tanto faz. Veja se esta arte te representa. Se não te representa, crie algo que manifeste a sua expressão. Estude para ter os meios (e a técnica) para isso, se for necessário. E prepare-se para produzir muita coisa ruim antes de sair algo que preste.

 

Para quê serve a música – Parte 1

Tudo na vida cumpre um propósito. E qual seria a função da música? Qual é o parafuso correspondente à arte musical nas engrenagens do maquinário maluco que é a nossa realidade?

 

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