Uma última pergunta – Entrevista com Augusto Patrini

Algumas pessoas enviaram-me mensagens dizendo que a entrevista com Augusto Patrini ficou com um “gosto de quero mais”. Ele, então, nos respondeu mais uma pergunta:


[Paty] 1. Com o passar dos anos a mobilização GLBT vem crescendo. Com este crescimento, aumentaram os festivais, as mostras, os filmes, vídeos e diversas outras formas de manifestações artísticas que retratam este universo. Como vc enxerga estes crescimentos? Como eles auxiliam no processo de politização do movimento GLBT? Estas obras, um modo de instigar na sociedade uma maior compreensão deste universo dantes extremamente marginalizado?

 

[Augusto] Sinceramente penso que estes festivais de cinema LGBT, do tipo do MixBrasil, pouco contribuem para a melhoria da qualidade de vida da população LGBT no Brasil. Acho mesmo, em particular no caso específico do MixBrasil, que são apenas mais uma manifestação da “espetacularização” da vida, e da comercialização-absorção das manifestações artísticas realmente legítimas. Essas manifestações do “Espetáculo” no sentido que deu Guy Debord em seu célebre livro “A Sociedade do Espetáculo” de 1967 não contribuem em nada para a politização das comunidades humanas, incluídas aí a LGBT, mas ao contrário são mecanismos de promoção do esvaziamento, da fragmentação e da despolitização. Neste tipo de festival não importa a expressão artística, e a qualidade das representações sócio-estéticas, mas apenas o caráter comercial e, principalmente, consumista. Estes festivais comerciais e “espetacularizados”, assim como as grandes exposições, manifestações histéricas de um vazio sócio-psicológico, empobrecem e retiram das obras de arte que apresentam seus possíveis elementos críticos e contestatórios.

 

Talvez a única importância do MixBrasil em particular seja dar alguma visibilidade a expressão homoafetiva dentro de uma sociedade heteronormativa, violenta e repressora como é a brasileira. Entretanto, na forma em que vem acontecendo nos últimos anos tornou-se somente a manifestação do gueto homossexual expandido – o que acaba criando uma falsa e enganosa sensação de liberdade. Essa sensação de falsa liberdade é extremamente prejudicial para a luta dos direitos da comunidade LGBT. Não vejo com bons olhos a “comercialização” da luta por direitos civis e políticos da comunidade LGBT, penso mesmo que o chamado “pink money” é antes um obstáculo para a conquista da liberdade e igualdade do que um fator positivo. O chamado pink money vive justamente do fato terrível que LGBTs precisam nesta sociedade heteronormativa “esconder-se” ou “proteger-se”, ou permanecer um uma “zona de conforto em que contem com uma sensação de falsa-liberdade – em lugares, festivais, shows, peças ou “espetáculos” que carreguem o rótulo “Gay”. Ou seja, o pink money só existe porque existe o preconceito, a homofobia e a discriminação. Quando não existir mais homofobia, não existirão mais festivais ou boates gays, já que a expressão homoatetica será cotidiana e muito mais presente em manifestações midiáticas e artísticas.

 

Além disso, sejamos sinceros, a qualidade dos filmes selecionados por esse festival (Mixbrasil) em particular, é sofrível – com pouquíssimas exceções. Encarnar-se como gay ou lésbico, não é garantia de qualidade estética para nenhum tipo de obra de arte, e não seria diferente para o caso do cinema. Infelizmente a qualidade das manifestações “artísticas” que auto-rotulam como gays – literatura ou filmes – é em termos qualitativos pouco significativa.

Entrevista realizada com Rodrigo Bouillet – Coordenador de Rede do Cine Mais Cultura

Entrevista realizada com Rodrigo Bouillet, Coordenador de Rede do Cine Mais Cultura. Realizada dia 23 de novembro de 2010.

 

[Paty] 1. Como começou seu interesse pelo cinema?

 

[Rodrigo] Não foi um começo glorioso, indo a um cinema de rua de mil lugares assistir algum filme que se tornaria um grande clássico de início de anos 80. Minha dieta cinematográfica até a faculdade sempre consistiu em muita (muita!) Sessão da Tarde e raras idas ao cinema ver algum filme americano de aventura ou terror. Eu só fui surpreendido pelo cinema quando entrei na Universidade Federal Fluminense (UFF). No curso de Publicidade (depois eu fiz Cinema), logo no primeiro semestre, havia uma matéria de tronco comum das habilitações de Comunicação onde o Professor Antonio Serra pediu aos alunos um estudo comparativo entre “Terra em Transe” (filme de Glauber Rocha, do ano de 1967) e “Vidas Secas” (filme de Nelson Pereira dos Santos, do ano de 1963). Foram duas exibições e a aula era de 8 da manhã ao meio-dia. Foi onde tudo mudou. Foi onde vi que podia se fazer, pensar outras coisas com o cinema, e resolvi cair de cabeça nessa história de imagem em movimento.

 

[Paty] 2. Já participou de cineclube antes de ingressar na faculdade de cinema?

 

[Rodrigo] Nem sabia que isso existia. Conheci dentro da faculdade.

 

[Paty] 3. E sua articulação direta no movimento cineclubista, surgiu como?


[Rodrigo] Na faculdade, participei de um cineclube em 2002, projeto do Professor Tunico Amâncio. Fora da faculdade comecei a participar em 2003, no Cineclube Tela Brasilis, com exibições na Cinemateca do MAM-RJ. Neste mesmo ano de 2003, teve a Jornada Cineclubista de rearticulação. Eu não fui, tava totalmente por fora.

Em 2004, teve a primeira Jornada Nacional Cineclubista de fato após uns 15 ou 20 anos sem nenhum encontro deste tipo. Naquele momento as primeiras informações passaram a chegar via e-mail, o número de cineclubes aumentava, as reuniões no Rio entre cineclubistas tornavam-se mais freqüentes, os cineclubistas que foram à Jornada estavam muito entusiasmados e procuravam outros cineclubistas para passar as informações e, por fim, foi fundada a ASCINE-RJ (Associação de Cineclubes do Rio de Janeiro).

Era louco para participar das reuniões da ASCINE-RJ, mas meu cineclube não tinha uma postura clara sobre o que queria ou como poderia colaborar com o movimento cineclubista organizado. No finalzinho de 2005, acertamos os ponteiros internamente e passei a freqüentar os encontros.

Em 2006 fui à jornada nacional (de cineclubes). Até então, a ASCINE-RJ existia como fórum, mas não como Associação. Quero dizer, não tinha diretoria, etc. Voltamos (da jornada cineclubista) com muito gás para tocar a Associação para a frente. Em agosto do mesmo ano já fazia parte da diretoria provisória, como Diretor Administrativo.

Em abril de 2007 fiz parte da primeira diretoria de fato, aí como Diretor Geral. Não cheguei a completar o período de 2 anos, pois em setembro de 2008 fui convidado a participar da ação Cine Mais Cultura, do MinC.

 

[Paty] 4. Toda organização tem fragilidades, quais são os pontos mais frágeis no movimento cineclubista nacional hoje?

 

[Rodrigo] Vejo como maior fragilidade o movimento ter se articulado de cima pra baixo. É engraçado pensar que essa mesma característica foi quem possibilitou toda a reorganização. Afinal, em 2003, como reunir antigos e novos cineclubistas concentrados em poucas iniciativas em algumas das capitais do país, mas sem comunicação entre si? Enfim, tudo tem que começar de algum lugar, não é?

 

Toda preocupação do pessoal da “velha guarda”, de forma muito legítima, foi alargar a base e gerar um conforto para essa base operar. Veio a Programadora Brasil, em 2006. Teve um edital pra equipamento de cineclube, sem coordenadoria ou acompanhamento, no mesmo ano de 2006. Em 2008 veio o Cine Mais Cultura, com equipamentos, oficina, filmes, acompanhamento, enfim, o combo completo. Veio a campanha dos direitos do público. Houve uma grande luta na parte da revisão dos direitos autorais, que o cineclubismo teve grande influencia nesta revisão.

Hoje em dia, existem os cineclubes sem apoio de políticas públicas, como existem os diretamente beneficiados. Tem também os pontos de cultura que exibem e que ganham equipamento multimídia. Existem, também, as praticas cineclubistas que não são cineclubes, como SESC, SESI, centros culturais. Digo isto porque a organização nestas práticas cineclubistas não existe com uma autonomia de organização e programação, é um funcionário que está à frente da ação.

Assim sendo, o alargamento da base com um relativo conforto de exibição deixou o movimento cineclubista grande, disperso, com diversas iniciativas que não estão dialogando. Há várias dificuldades físicas e virtuais a contornar. Acredito que, atualmente, o desafio seja criar algum jeito de juntar essa galera e fazer com que se comuniquem, fazer com que haja ações conjuntas. Há um pequeno grupo de toda essa massa que está conseguindo se encontrar e conversar. Enfim, tudo normal, é algo que se conquista passo a passo.

Além de tornar essa grade quantidade de cineclubes mais organizada, outro desafio do movimento é torná-la mais comprometida com o processo interno de valorização e politização do próprio movimento. O CNC (Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros) assim como as Federações e Associações estaduais, as poucas que existem, têm estatutos. Existe um corpo, uma diretoria e filiados. Acaba que estes estatutos demandam muito da diretoria. Contudo, não há instrumentos estatutários ou de regimento interno que engaje, que dê deveres ao filiado de colaborar com a diretoria. Não existe instrumento que faça com que o filiado beneficiado seja obrigado a colaborar com os esforços do coletivo, justamente para lutar pela manutenção desses mesmos benefícios. Qualquer coisa que exista só garante os deveres à diretoria, ficando tudo em suas costas.

 

[Paty] 5. Algum comentário sobre o ECAD e a nova lei de direitos autorais?

 

[Rodrigo] A consulta pública a proposta da nova Lei do Direito Autoral já encerrou. Então, mobilize seu Deputado Federal, seu Parlamentar, porque o bicho vai pegar no Congresso.


[Paty] 6. Quer deixar algum recado?

 

[Rodrigo] Esse negócio do equipamento de exibição chegar até diversos tipos de grupos, de lugares tão distantes das capitais, sendo que muitos destes grupos nunca praticaram cineclubismo antes de serem contemplados por um edital (como uma associação de moradores, por exemplo), é algo fenomenal. Qualquer um poder organizar seu cineclube, tornar-se protagonista, integrar-se a uma rota de comunicação e apoio, de articulação da cidade, do estado e do país que comporta interesses distintos que se somam, constituindo uma grande frente cidadã.

Acho que, no momento, a grande missão é tornar o movimento mais bem informado sobre as possibilidades de mudanças estruturais do cineclubismo, do audiovisual e da cultura no Brasil para, a partir daí, revisarmos todos os nossos conceitos, pois cada nova contribuição que chega faz a roda continuar a girar.

 

“Uma ideia e um coelho” – Sobre o roteiro cinematográfico

Olá! Desculpem, demorei a escrever. Demorei, mas voltei! 😉

Prometi no texto anterior uma conversa sobre o processo de criação do roteiro cinematográfico. É isto que trago aqui, porém com um olhar tão simples quanto breve.

 

Segue o texto:

 

“Uma ideia e um coelho” – Sobre o roteiro cinematográfico

 

Cinema é, dentre diversas coisas, um modo de estender em imagens nossa paixão: contar histórias sem temer o que se é, ter o mundo como fonte inesgotável de temas e personagens, abstrai-lo como alimento para nossas produções diversas, absorver detalhes para que de um ponto nasça uma ideia que se propaga em letras, palavras, sentenças, cenas e histórias. Uma utopia deliciosa e inocente, onde, muitas vezes, cada gota de suor é um sussurro do mundo. E é onde muitos de nós, roteiristas, espera retirar da cartola um coelho grande e criativo, único e filmável. Enfrentamos manuais diversos, conferências, seminários, cursos, pesquisas e uma fé inesgotável no conhecimento da técnica e na magia pura da ilusão.

Obviamente isto também envolve quedas e desilusões, mas tudo faz parte do jogo, ou não?! Mesmo com o coelho em mãos sabemos que fazer cinema é contar com um resultado final não exato, independente da originalidade (e até mesmo qualidade) da história.

O roteiro é um conto que, para ser imagem, necessita de uma equipe múltipla e dedicada, que efetiva a transmigração do texto escrito para texto imagético e sonoro. Se o resultado é fidedigno ao que se pretendia, é outra história.

Ponto chave para desencadear uma ideia é, antes de tudo, refletir sobre e entender seu encadeamento lógico, saber o que se faz e para quem (equipe e espectadores).

Muitas são as obras escritas com uma elaboração quase crível, casando com uma suposta construção crítica da ideia inicial, mas que não deixam de compreender o processo de produção e construção da magia cinematográfica. Teoricamente prontas para serem retiradas da cartola e estregues para a filmagem, faltam retornar devagar onde tudo começou e, de forma honesta, repensar como aquilo foi parar onde está, e realmente perceber o caminho que fez para se desenvolver daquele modo, dominando para onde aponta e por que aponta em determinadas direções.

Sabemos que muitos roteiros vão ser filmados sem passar por isto, porém as falhas e brechas na história, se não forem propositais, causam um ruido, dando a entender que o espectador é então tratado como um desigual, alguém incapaz de acompanhar e compreender as brechas e falhas causados por descuidos.

Deve-se perceber que, além da ideia que se desenvolve, e de tê-la trabalhado direcionada à execução, (tenha esta palavra a conotação que tiver), o trabalho com a memória do criador, com a inovação, deve sim andar em conjunto com a crítica e a reflexão, para que a materialização daquilo que o mundo faz com que atravesse nossas mentes e mundos não fique banal e sem bases concretas.

 

Na próxima, iremos continuar esta conversa. 😉

Até lá.

Sobre o roteiro cinematográfico – Parte Primeira: “Uma ideia e um coelho”

 

Para debatermos melhor o processo de produção de um roteiro cinematográfico, dividimos nosso texto em partes e temas específicos.

 

Segue a primeira parte:

 

Sobre o roteiro cinematográfico – Parte Primeira: “Uma ideia e um coelho”

 

Teoricamente, um bom filme deriva de um bom roteiro, nascido de uma boa ideia. Mas, porém, todavia, contudo, fazer cinema não é um processo matemático, é uma cadeia lógica, técnica, e seu resultado final não é previsível e, muito menos, calculável.

Escrever sem ter medo do que se é, ter o mundo como fonte inesgotável, como alimento para nossas produções diversas. De um ponto nasce uma ideia que se propaga em letras, palavras, sentenças. Agora, como estendê-las em imagens? Mais que sussurros do mundo, muitos roteiristas, especialmente alguns estreantes, esperam retirar da cartola um coelho grande e criativo, único e filmável. Manuais diversos se espalham pela internet, sítios (sites), textos, livros, palestras, debates, conferências refletem sobre este processo que é o nascedouro de um filme. Mas, para elaborar um roteiro, deve-se crer mais no conhecimento da técnica do que na magia pura e na ilusão.

Um aspirante a roteirista que procure um aspecto extremamente literal em suas obras, produzindo algo lindo, belo e romanceco, encontrará uma palavra simples, que pode barrar seu roteiro: inexecutável.

Uma ideia boa não faz um bom filme, ela sustenta todas obras de qualidade, porém não é seu único alicerce. O ponto inicial se recria através, e a partir, da ideia central, que, bem trabalhada, desenvolvida e desenhada, cria uma determinada história que será pensada, repensada e trilhada pelo roteirista, que conduzirá seu trabalho para a equipe responsável pela produção e pós produção do filme. Este, que dantes existia apenas no papel, prepara-se para envolver cada uma de suas amarras às tarefas da equipe de produção, aos olhos dos diretores, ao trabalho dos atores, aos detalhes do cinematógrafista, enfim, passará por diversas mãos, horários, escalas e prazos.

Para que seu conto sera realmente transcrito em imagens, deve ser visto como, além de um processo criativo, um trabalho técnico.

Desenhar e imaginar o encantamento imagético e sonoro, possuir o conhecimento de todo o processo cinematográfico, ter critérios e bom senso é que faz a magia acontecer.

Onde realmente vão parar aquelas páginas? Em que irão se transformar os detalhes descritos por mim?

Você observa o mundo, recolhe materiais de pesquisa, se tranca em universos diversos a cada escrita, revisa, repassa, transforma, passa sua produção textual-técnica para frente. Se o resultado é fidedigno ao que você pretendia, é outra história.

E, além do conhecimento do processo técnico, onde entra a poética inspiração? Ah, a inspiração é algo que vê como casável com a criatividade e o suor. Esquece-se de que, para tê-los a seu favor, deve-se sim compreender a significação de cada um desses termos. O que é inspiração? Como a encontro? Criatividade é um conceito palpável? Onde e com quem ela está? Suor se dá em que processo da pesquisa? Cada um terá uma resposta diversa, mas buscá-la é essencial.

Refletir sobre sua produção escrita, entendendo seu encadeamento lógico e executável, saber o que se faz e para quem, são os caminhos óbvios do “como?”.

Podemos um dia tirar o coelho da cartola, quem sabe, podemos contar até com a sorte, mas nenhuma delas se fará útil sem uma real compreensão de como o contexto da magia de faz e como o universo cinematográfico se dá.

Muitas são as obras escritas com uma elaboração crível e executável, casando com uma construção crítica da ideia inicial, compreendendo o processo de produção e construção da magia cinematográfica, prontas para serem retiradas da cartola e estregues para a filmagem. Porém, muitas faltam retornar devagar onde tudo começou, repensar onde e como aquilo foi parar onde está, repensar como aquilo se desenvolveu daquele modo, dominando para onde aponta e por que aponta em determinadas direções.

Mais que desenvolver uma história, deve-se trabalhá-la direcionada à execução, tenha esta palavra a conotação que tiver.

 

Na próxima, iremos conversar um pouco sobre como a memória entra no processo criativo e qual sua relação com o “fazer diferente”. Até lá.

 

 

Cinema e Política – Entrevista com Augusto Patrini

Realizamos uma breve entrevista virtual com o historiador Augusto Patrini Menna Barreto Gomes. Encaminhamos a ele três perguntas breves e sucintas sobre cinema e política, estas seguem abaixo, juntamente às respostas:

 

[Paty] 1.  Gostaria que me falasse quais relações possíveis você vê entre cinema e política?

[Augusto] Penso que na medida em que tudo tem um conteúdo político, todo cinema é político, inclusive aqueles filmes considerados de entretenimento, diversão ou de baixa qualidade. Filmes para o grande público “vendem”, assim como os filmes “engajados” idéias políticas e concepções de mundo, geralmente atreladas ao pensamento hegemônico e ao funcionamento do sistema social e econômico vigente. É muito importante para o sistema dominante vender aos grupos sociais e indivíduos, seu modo de vida, e garantir a aceitação passiva dos mecanismos de manipulação e aprisionamento (trabalho, consumo etc)

Já os chamados filmes engajados são filmes que pretendem evidenciar estes mecanismos de manipulação, opressão e/ou exploração. Partem de um ponto de vista eminentemente crítico para levar as pessoas que o assistem a uma reflexão crítica.

 

[Paty] 2.   Quais as diferenças entre estas e cinema panfletário?

[Augusto]  Penso que a diferença entre cinema político e cinema panfletário é justamente que o primeiro partindo de uma perspectiva crítica não tenta impor uma visão de mundo, mas fazer com que as pessoas pensem autonomamente. Já o cinema panfletário pretende “provar” ou impor uma verdade.

 

[Paty] 3.   Quais encadeamentos tais obras podem desenvolver na sociedade?

[Augusto] Assim como o mundo material atua sobre o mundo das idéias, as idéias e suas representações atuam sobre o mundo econômico e social. Cinema, assim como idéias, pode estimular o pensamento crítico, propor transformações e alterar cenários. No limite, todo tipo de cinema ou representação traz conseqüência para o mundo cultural e social.  

 

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Augusto Patrini Menna Barreto Gomes

 

“É Historiador pela USP (2009), comunicólogo e jornalista pela UTP (2002). Mestrando na USP em História Social, na área de Teoria e filosofia da História.Também atua na área de história da cultura intelectual. Tem cursos em língua, cultura e história francesas na Université de Caen. Possui os diplomas DALF e DELF. Atua como tradutor Francês/Português, professor de francês e pesquisador em História Social e Teoria da História. Tem experiência na área de tradução (Francês/português) História e jornalismo com ênfase em tradução, História das Idéias intelectuais na América Latina e Europa e Teoria da História. Atuou principalmente nos seguintes temas: Teoria da História, História da Cultura, Idéias e História Intelectual e das Idéias (PIBIC)França, Tradução, México, Argentina, Brasil, América Latina, História Contemporânea. Atualmente tem interesse em Tradução, Teoria da História, História Intelectual e da Cultura, com ênfase interdisciplinar, e especial interesse por Teorias e filosofias da História e História da Cultura Intelectual.”

(Fonte: CNPQ)

 

Para mais informações sobre o entrevistado: http://www.augustopatrini.com.br/#

 

Na próxima postagem, debateremos o processo de criação do roteiro cinematográfico.

Até lá!

O prazer e o conhecimento

 

Adentrar em um universo alheio ao que se está, acompanhar pessoas, ideias e histórias, muitas vezes, avessas ao que se acredita, observar vivências pessoais de alguém que não se conhece, ver e ouvir pontos ligados à intimidade de um ser e se deliciar com cada momento. Observar em busca do prazer. Sim, falo, aqui, do observador/espectador cinematográfico em seu ponto inicial, que é sua curiosidade de voyeur, que alcança um gozo ao observar o outro.

Um acompanhar que envolve os sentidos da visão e da audição, que proporciona um prazer que vai além do que o próprio espectador possa catalogar. Diferente do gozo sexual, segue caminhos que não conseguem se repetir, mas também preenche razões momentâneas que podem se estender a longo prazo, cria vínculos passionais e engaja razões que ultrapassam barreiras físicas e sociais.

Ao apreender determinado momento alheio, aquele que observa o externo, pode se engajar no que é inerente ao seu próprio ser e estar.

E como a dor também pode se transformar em uma forma de deleite, há aqueles que buscam observar a notoriedade do passivo, do gestual agressivo, da extrema catarse violenta e da explicitação de um ato de tortura. A aversão ao ativo também existe na concepção ideológica, na construção de pudores e na reafirmação de pré conceitos pré estabelecidos socialmente. Há um vínculo entre o agir e o ser o objeto de ação, que o observador casa em sua memória, conflitando pudores e desejos.

Esse flerte existente com a tela possibilita a aproximação do espectador com aqueles que ele não pode tocar, mas ao qual se sente apoderado por, como se houvesse estabelecido um processo de encantamento e conquista. Uma proximidade que se estabelece no ver e que possibilita a concretização de desejos, o despertar de outros, a criação de estímulos controversos e até contrários aos que o observador se acostumou. O tatear estabelecido pela imagem e som, proporciona o deleite , o envolvimento que leva a diversos momentos de apreensão e apreciação, onde toda a experiência se transforma em gozo.

Não encare esta leitura como algo ligado a aparatos sexualizados, apenas como uma forma de ver os aspectos que englobam essa simples frase: “você vê, e gosta do que vê!”.

Assim com toda a experiência de compreensão cinematográfica, o espectador, aquele que se põe diante de uma história, devora a tela de uma forma encantadora, que, aos poucos, aquele que estuda e critica pode perder. Aonde está o prazer do olhar ao se destrinchar sobre uma escrita crítica? Como fomos perdendo nossa inocência encantadora ao nos depararmos com aquelas narrativas? Pensar o cinema não pode fugir do encanto, mas, assim como o homem amadurece em suas relações interpessoais ao longo dos anos, o crítico e o estudioso cinematográfico deve olhar de forma madura, mas não com um desejo abalado, e é neste desejo que se encontra a inocência.

Ver sem se focar na podridão do todo, mas sem descartar sua existência. Existem propostas fílmicas aquém e além do prazer, onde o crítico deve, de certa forma, se entregar ao seu voyer amadurecido e desencantado, dando-lhe uma segunda chance de manifestação. Onde o prazer possa se manifestar com o conhecimento, são essas críticas que busco e são essas leituras que eu defendo.

 

 

Para a próxima postagem teremos

uma entrevista com

um historiador, onde iremos debater

sobre cinema e política.

 

Até lá.

 

 

Quadros Inexistentes

Participação informal, direta e breve é a que terei aqui hoje, porém, procurarei, de forma simples,
convidar o leitor a refletir, novamente, sobre o que é perecível. Falarei sobre telas, quadros que se
foram, imagens e pontos que se perderam.

Quando penso no tema em questão, que é preservação audiovisual, vou mais longe e me recordo das
imagens de “O Nome da Rosa” onde, contra do fogo, um homem, sozinho, se agarra ao máximo de
livros que pode, com a pretensão de salvar a quantidade máxima possível. De forma similar, os
profissionais que trabalham na área de preservação audiovisual tentam salvar materiais diversos,
relevantes para o conhecimento. O fazem, muitas vezes, sob condições não perfeitas de trabalho,
onde muito do que se considera ideal para armazenamento, catalogação e cuidado está longe de ser
o desejado.

Quantos filmes se perdeu na história do cinema? Quantos quadros, cenas e sequências se lê sobre,
se deseja ver e debater, mas eles não estão lá? É como ter a oportunidade de ler um belo texto,
detalhando a mais bela obra pintada na história da humanidade, quando esta não pode mais ser
vista.

Longe de abordar tecnicamente o tema, apenas convido você a pensar como seria se cada rosto,
cada frase, olhar, teoria e história produzida pelo homem estivesse coberto por uma falha,
deteriorada ou inexistente. Vamos ser diretos e refletir sobre o isto: toda produção de conteúdo é
importante para dizer um pouco sobre a essência humana. Amando ou odiando, somos resultado
daquilo que alguém ontem realizou.

Sem copistas, restauradores, preservadores, sem apaixonados pelo conhecimento, os clássicos de
outrora não chegariam hoje em nossas mãos. A escrita, já considerada irrelevante, tempos atrás, foi
oque, hoje, nos possibilitou dizer sobre ontem. Pinturas realizadas por mãos que não mais existem,
inspiram homens que caminham hoje. Qual o preço disso?

Não idealize o imediatismo ao pensar no cuidado. Reflita que o amanhã também necessitará de
respostas, questionamentos e reflexões. Estamos aqui, hoje, de alguma forma, colaborando para isto
ou ignorando tal apontamento. As próximas gerações, que passarão sobre nossos pensamentos,
poderão colher, ou não, esses sopros de ideias que se produz a um pouco mais de um século.
Imagine cada tela do Louvre como inexistente, cada escultura exposta como pó, cada letra escrita
no passado como um sopro, agora, imagine cada quadro filmado, na curta história do cinema, se
auto destruindo, onde cada parte daquele conto imagético e, muitas vezes também, sonoro se
transforma em pedaços de memória de quem o pode apreciar e que desaparecerá com estes
espectadores.

Como uma bacia que recebe várias partes de uma só história, escrita com vários rostos, suores,
utopias, ideologias, o tempo abre espaço para construções, mas também as transforma em algo
perecível. Preservar não é lutar contra o tempo, é compreende-lo.

 

[Na próxima semana, conversaremos sobre o voyeur. Até lá.]

 

Um cinema do ordinário

Para abrir esta coluna, buscamos alguma obra cinematográfica ficcional, que tenha sido realizada nos últimos dez anos, que reflita, de algum modo, assim como nos primeiros filmes dos Lumière, o cotidiano. Obviamente, tal obra, deveria abranger o tema de forma crítica e flexiva.

 

“O Pântano”, dirigido e roteirizado por Lucrecia Martel, encaixou como uma luva em tal proposta. Logicamente, para realizarmos uma reflexão básica sobre todos aspectos deste filme, teríamos que nos estender por mais algumas postagens. Como apresentado anteriormente, nosso foco aqui se dá apenas nas questões ordinárias do cotidiano.

Como diversos outros autores já discorreram sobre a obra em questão, relembrando como esta é trabalhada de forma primorosa na mise en scène, na montagem e em diversas outras etapas relativas à construção cinematográfica, nosso olhar aponta para os personagens, e como se fazem através de uma história do comum, do cotidiano, do banal. Seres que incorporam pensamentos, emoções e reações, atravessam uma narrativa do ordinário.

Sem realizarmos uma análise cena a cena, ou mesmo extremamente aprofundada, podemos levantar aspectos gerais e fundamentais para a apreciação de detalhes orquestrados na fundamentação emocional das personagens. Seriam estes baseados no viver diário, naquilo se passa despercebido, mas que estrutura até o nosso próprio cotidiano. Há uma exposição do ambiente e da fragilidade dos indivíduos, como barreiras que instigam o espectador a adentrar naquele universo. Lá se desenvolve o frágil, o incompreensível, o infantil, a passividade, o não conhecer-se, um vazio sentimental e a não redenção. As camadas emocionais são exploradas sem serem explicitadas.

Há significativos detalhes que recobrem toda a narrativa. Questões como possíveis desejos, acidentes que propiciam reencontros, perdas que atravessam os lares, diálogos estabelecidos pelo telefone, a fé católica e seus conflitos, as relações da imprensa com a sociedade, o céu nublado, os ambientes pouco iluminados, tiros que se ouve e não se vê, animais expostos, os pimentões vermelhos, o morro, cigarras, uma música, um barulho da porta de um carro e de passarinhos, as cores da Bolívia narradas ao telefone, os cabelos sujos de Momi, a bebida alcoólica, a embriaguês, o vidro sujo dos carros, as águas apodrecidas e os sonhos inalcançados. Tudo lá está colocado de forma que pareça superficialmente banal, porém, tudo é, na verdade, profundamente revelador.

Cada pequena pista comportamental e espacial revela um pouco sobre aqueles homens e mulheres, que são o que são e ponto. Em poucos se pode ver o desejo de mudança que, quando nasce, é alimentado e brutalmente podado. Indivíduos que se recobrem com um descaso e que passam por infortúnios naquela sua forma opaca de se viver.

 

Com cores repartidas, ou contos imaginários que alimentam mentes e amedrontam a infantilidade, suposições religiosas que acalentam e que congelam esperanças, estão estacionados perante a própria imagem ou fugitivos desta.

Fatores externos e internos que se retroalimentam são caminhos e apontam extensões daqueles seres. Testemunhas de uma trajetória sem redenção, sublimação, escândalos ou ocorrências extraordinárias, as personagens estão em tudo que as cercam, sejam as árvores, o vinho, a chuva, o sangue, os sons, a Santa, os humanos, os desejos, as águas, a opacidade, a morte, a tensão, os descuidos ou o passado. São eles consequência e causa de tudo que se mostra na imagem. Desaparecerão como os sons que os cercam. Brutos, firmes, intensos, cheios de significado, trazem suspeitas e incertezas, mas são, acima de tudo, temporários.

 

Obviamente cada espectador absorverá um ponto, cada questão poderá trazer uma leitura diversa, porém, buscamos aqui, apresentar um viés, uma abertura, um caminho para uma leitura possível. Não hesito em recomentar que se veja e reveja o filme, que, acima de qualquer rótulo, é uma criação cinematográfica promissora no quesito interpretação.

 

 

[na próxima postagem iremos

refletir um pouco sobre

a importâncida da

preservação de obras

cinematográficas.]

 

Até mais.