Entrevista especial com Cleber Nunes – A educação em casa como um direito básico

O OPS! entrevista nesta semana Cleber de Andrade Nunes, designer e auto-didata de Timóteo – MG que, juntamente com sua esposa Bernadeth decidiram educar seus filhos David e Jonatas em casa. Vamos entender um pouco mais do seu ponto de vista e suas motivações. Como complemento a esta entrevista, entrevistamos também Rudá Ricci, sociólogo, mestre em Ciências Políticas e Doutor em Ciências Sociais, que defende a importância de uma educação coletiva, em ambiente escolar.

OPS! –  "O Art. 205. da Constituição brasileira diz: "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". Qual seu comentário acerca deste artigo?Cleber – Cada qual tem o seu dever específico em relação à educação. O Estado deve apenas apoiar a família, oferecendo, repito oferecendo, instituições de ensino. Não se parece nada com tirar as crianças de casa à força e confiná-las em uma sala de aula que nada mais é do que um eufemismo para cela de aula. Ser forçado a permanecer em um local contra a vontade é a definição exata de prisão. Com a diferença de que o presidiário não é obrigado a ficar sentado cinco horas fingindo que está aprendendo. OPS! –  Como uma campanha pelo direito de não educar os filhos em escolas públicas ou particulares (inclusive as religiosas) poderia ser eficaz em se distanciar logo de início de uma filosofia que satisfaz os pais e transforma as crianças em "reféns" das crenças destes pais?

Cleber – Em primeiro lugar é preciso corrigir algo. Não existe campanha pelo direito de não educar os filhos em escolas. Esse direito já  pertence à família. o que existe é uma campanha para mobilizar a sociedade para conscientizá-la de desses direitos. E derrubar a lei inconstitucional de matrícula compulsória. Assim como havia muitos negros vivendo sob a escravidão muitos anos após sua abolição, simplesmente por não saber que eram livres. Quanto ao que diz "reféns das crenças dos pais" eis o que diz a Convenção sobre os Direitos das Crianças que, como disse anteriormente, está hierarquicamente acima das leis. Art.9 – 1. Os Estados Partes deverão zelar para que a criança não seja separada dos pais contra a vontade dos mesmos, […] Art 14 – 1. Os Estados Partes respeitarão o direito da criança à liberdade de pensamento, de consciência e de crença. 2. Os Estados Partes respeitarão os direitos e deveres dos pais e, se for o caso, dos representantes legais, de orientar a criança com relação ao exercício de seus direitos de maneira acorde com a evolução de sua capacidade. 3. A liberdade de professar a própria religião ou as próprias crenças estará sujeita, unicamente, às limitações prescritas pela lei e necessárias para proteger a segurança, a ordem, a moral, a saúde pública ou os direitos e liberdades fundamentais dos demais. Art 27 – 1. Os Estados Partes reconhecem o direito de toda criança a um nível de vida adequado ao seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral e social.

OPS! –  O currículo tradicional das escolas passa por uma ampla variedade de conhecimentos: de mitose/meiose ao parnasianismo, da trigonometria à geografia econômica dos mais diferentes países, dos cálculos estequiométricos à história medieval. É razoável supor que os pais que praticam o homeschooling tenham o domínio de todas essas matérias, pelo menos com o mesmo nível de competência de cada um dos respectivos professores das matérias? O que o senhor pensa acerca do atual currículo escolar?

Cleber – Quantos dominam estes assuntos? E os professores? No início de 2009 três mil deles tiraram zero em provas da rede pública de São Paulo. Experimente perguntar à professora de português de seu filho, qual é o sistema de escrita da língua portuguesa. Sabe qual é a probabilidade de acerto? Se for pedagogo, 40%. Experimente perguntar a fórmula da equação de segundo grau. A maioria engasgaria. Não é que somos obrigados a saber. O problema é que é injusto entulhar as mentes das crianças com informações que serão perdidas, as quais nós mesmos não retemos. Isto é tortura e gera mais prejuízos do que benefícios. Além de perpetuar o erro. O autor desta pergunta demonstra que foi muito bem doutrinado e provavelmente submeterá seu filho ao mesmo processo, infelizmente. Outra questão importante: Espero que meus filhos não precisem comprar um diploma. Isso mesmo, comprar um diploma. O MEC quando foi fundado em 1930 chamava-se Ministério dos Negócios da Educação. Educação em nosso país é um negócio que interessa a uma parcela da sociedade. O que faz da sua manutenção uma questão de sobrevivência.

Eles estão sendo preparados para serem empreendedores. E o conhecimento que precisarem vão buscar onde ele estiver. Mas será muito triste se optarem por profissões que exigem diploma, como medicina, direito ou se preferirem ser empregados. Nesse caso terão que gastar um precioso tempo para assimilar um conteúdo inútil a fim de passar no vestibular. Depois se submeter a uma grade curricular que faz jus ao nome. Para ao final ter o papel que supostamente os introduz no mercado de trabalho. Ninguém merece!

 

OPS! –  O senhor estaria de acordo se o MEC aplicasse um exame de conhecimentos aos pais que pretendam educar seus filhos em casa, de modo a certificar a proficiência deles em todas as matérias que deverão ensinar aos filhos? O que o senhor pensa acerca do MEC?

Cleber – Mais um pergunta que reflete os efeitos da escolarização. Como dizia John Holt, aprendizagem não é produto de ensino. Pais de verdade mesmo sendo analfabetos funcionais só precisam de uma pequena orientação para desenvolver um excelente trabalho na alfabetização dos filhos. O que falta é incentivo do governo às famílias. Quanto ao MEC, proponho que seja extinto. Sabe quanto custou cada aluno do ensino fundamental em 2009? 2.632,00. O orçamento: 59 bilhões. Mais 10 bilhões com o fim da DRU. O pior é que a sociedade pensa que o ensino é gratuito. "There is no free meal" Só para constar o Davi fez a prova do Encejja e foi aprovado com aproveitamento de 85%. Portanto já concluiu formalmente o "ensino fundamental".

OPS! –  Observa-se que alguns defensores do homeschooling evocam justificativas de cunho político para endossarem a prática, por entenderem que a educação feita na escola secular transmite aos alunos uma ideologia de esquerda, oposta aos valores liberais e cristãos. O senhor também percebe assim a educação que é feita nas escolas brasileiras? Se sim, esse foi um fator que o influenciou na decisão de educar seus filhos em casa?

Cleber – Como disse anteriormente vivemos em uma sociedade livre e pluralista. A nossa constituição determina a pluralidade de idéias e concepções pedagógicas. O problema é que a doutrinação é feita sem que os pais tenham a menor idéia do que está sendo ensinado. Não sou contra escolas de orientação marxista, umbandista e até escola gay, como a que foi inaugurada recentemente em Campinas. Se os pais querem matricular seus filhos em uma escola, digamos, temática, que o façam. Mas essa é uma decisão pessoal. Doutrinar crianças sem o consentimento ou sem que os pais saibam é desonesto.

OPS! –  A imensa maioria dos defensores do homeschooling é composta por evangélicos. Como o senhor explica essa preponderância de evangélicos entre os que advogam a prática? Como o senhor explica que o homeschooling tenha tão pouca adesão entre fiéis de outras crenças, como católicos?

Cleber – Não sei responder a essa pergunta. Vamos raciocinar? Será que os católicos e fiéis de outras crenças são mais corajosos que os evangélicos?  Não sou tão corajoso a ponto de permitir que meus filhos sejam levados pelo Estado. Entraria na frente se visse uma arma apontada para eles. Se visse um pitbull avançando sobre eles eu o enfrentaria no braço, mas não teria coragem de mandar meus filhos para a escola.

OPS! –  De um ponto de vista pedagógico, científico, tem muita gente que considera homeschooling um método inapropriado e, em última instância, danoso para o crescimento psicológico e intelectual dos jovens. O que você pensa sobre isso?

Cleber – Entre os que pensam assim estão os cientistas sociais como o Rudá Ricci. Leia com atenção seu artigo e dê uma olhada em seu currículo. Será mera coincidência que ele represente os sindicatos de professores? "Tem muita gente que considera homeschooling um método inapropriado" Quem são? Onde estão as pesquisas que sustentam esta afirmação? Mas posso te indicar inúmeros trabalhos científicos que comprovam exatamente o contrário.

OPS! –  Ao decidir não matricular seus filhos na escola, você partiu da consideração de que a escola não seria capaz de garantir uma boa educação aos seus filhos? Neste sentido, você faz diferença entre escola pública e escola privada? Não faria sentido colocar os filhos na melhor escola disponível?

Cleber – Ninguém faz a mínima idéia de quanto nos custou essa decisão. Teria sido muito mais barato matriculá-los na melhor escola particular do Brasil. Mas não é essa a questão. Não acreditamos no ensino top down. O ensinamento coletivo corresponde a colocar garrafas enfileiradas e tentar encher esguichando água sobre elas com uma mangueira. O tempo de nossos filhos é muito precioso para tamanho desperdício.

OPS! –  Você se preocupou em evitar o isolamento social dos seus filhos? Como fez para suprir a ausência do convívio escolar, os encontros e confrontos com os iguais, os namoricos, as cumplicidades?

Cleber – Sim, me preocupei com o isolamento social dos meus filhos. Esse foi, entre outros, um dos motivos pelos quais decidimos que eles iriam aprender em liberdade. Não queríamos isolá-los do mundo real, confinando-os em uma sala de aula, olhando por quase cinco horas para a nuca do colega da frente. "suprir a ausência de convívio escolar" O ser humano precisa de convívio. Agora, convívio escolar? Quem foi que criou esta categoria de convívio? Pior, quem determinou que é imprescindível? Há uma idéia generalizada de que não ir para a escola é sinônimo de ficar confinado em cárcere privado. A escola sem dúvida é um lugar onde acontece algum tipo de socialização. Mas é apenas um dos meios de se socializar e na minha opinião é o pior deles. Vá para a porta de uma escola particular ou pública e tente travar um diálogo com os alunos. Tente falar de algo que não seja reboleichon, funk, big brother, games, novelas, etc. Já teve a oportunidade de passar pelo menos 10 minutos em uma lan house? Observe o que predomina entre os internautas e game players. Todos devidamente escolarizados.

OPS! –  O que você achou mais grave no sistema escolar que você  evitou? Incapacidade de informar os conteúdos ou incapacidade de preparar para a vida?

Cleber – Jamais tive a expectativa de que a escola preparasse para a vida. Também nunca concordei com os conteúdos. Então, que motivos teria eu para mantê-los lá?

Leia o contraponto de Rudá Ricci, em entrevista para o OPS!

 

Entrevista especial com Rudá Ricci – O homeschooling é uma afronta ao projeto coletivo de sociedade

O OPS! entrevista nesta semana Rudá Ricci, sociólogo, mestre em Ciências Políticas e Doutor em Ciências Sociais, que defende a importância de uma educação coletiva, em ambiente escolar. Vamos entender um pouco mais do seu ponto de vista e suas motivações. Como complemento a esta entrevista, entrevistamos também Cleber de Andrade Nunes, designer e auto-didata de Timóteo – MG que, juntamente com sua esposa Bernadeth decidiram educar seus filhos David e Jonatas em casa.

OPS! –  "O Art. 205. da Constituição brasileira diz: "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". Qual seu comentário acerca deste artigo?

Rudá – Eu assessorei a Constituinte de 87, quando fazia parte da equipe técnica do CEDEC, centro de pesquisas sociológicas de São Paulo. A discussão que envolveu este tema foi a de garantir a educação como política pública voltada para o desenvolvimento social, superando o mero individualismo. Lembremos que este a constituinte envolveu um período de muitas reformas curriculares e encontros educacionais. Lembro-me da reforma em curso em São Paulo, Paraná, Bahia e Minas Gerais. Todos com ênfase muito nítida no controle social sobre as políticas públicas e formação social dos educandos.

OPS! –  O currículo tradicional das escolas passa por uma ampla variedade de conhecimentos: de mitose/meiose ao parnasianismo, da trigonometria à geografia econômica dos mais diferentes países, dos cálculos estequiométricos à história medieval. É razoável supor que os pais que praticam o homeschooling tenham o domínio de todas essas matérias, pelo menos com o mesmo nível de competência de cada um dos respectivos professores das matérias? O que o senhor pensa acerca do atual currículo escolar?

Rudá –  Em primeiro lugar, os pais não possuem formação técnica para lecionar e, portanto, não são obrigados a saber de temas tão específicos. É um grande retrocesso social acreditarmos que os pais devam assumir esta tarefa. Mesmo porque, o tempo de convivência familiar com filhos acima de 15 anos em capitais brasileiras é de, no máximo, 1h30 por dia. Há um forte debate nos EUA sobre a ampliação da noção de escola, assumindo, inclusive, a tarefa de formação moral que cabia às famílias justamente em virtude do tempo cada vez menor de convívio familiar. Foi tema de grande discussão a partir do governo Clinton. Em segundo lugar, não existe um único currículo nacional. Há muitos avanços e tentativas em vários municípios brasileiros, como adoção da Cidade das Crianças (movimento iniciado pelo psicólogo italiano Francesco Tonucci), o orçamento participativo criança e adolescente, escola em tempo integral e muitas outras. Todas são
iniciativas que não haveria como uma família desenvolver, dado o complexo estrutural e curricular. A educação é um consórcio, baseado em múltiplos estímulos coletivos. E um currículo não pode ser visto como mera ação entre educando e educador. Fui professor de currículo no mestrado em educação. Há muitos estudos, desde o início do século passado, a respeito. Cito, como ilustração, os estudos de Sacristán, que indicam várias dimensões da elaboração e prática curriculares.

OPS! –  O senhor estaria de acordo se o MEC aplicasse um exame de conhecimentos aos pais que pretendam educar seus filhos em casa, de modo a certificar a proficiência deles em todas as matérias que deverão ensinar aos filhos? O que o senhor pensa acerca do MEC?

Rudá –  Não. Por vários motivos. As avaliações sistêmicas que temos no Brasil são insuficientes porque meramente classificatórias (baseadas num ranking de conhecimentos previamente concebidos, sem nenhuma ênfase na avaliação do processo de aprendizagem específico). Não se trata efetivamente de avaliação (do latim, a-avalere), mas mera verificação. Perceba que não se avalia o desenvolvimento moral ou relacionamento social, por exemplo, temas de destaque desde os estudos de Piaget, na década de 30 e aprofundados por Lawrence Kohlberg, para citar apenas dois autores. Mas também não acredito na educação em casa porque se trata de contradição com o conceito de educação formal. As famílias podem e devem educar seus filhos, mas não possuem conhecimento técnico para a educação formal. Mesmo que tivessem, educar é um ato coletivo, de desenvolvimento de tolerância entre diferentes. É preciso recuperar esta separação na história educacional, desde o fim dos preceptores, que educavam em casa. Trata-se de um projeto republicano, de construção da sociedade democrática. A educação em casa é um ato que reforça a ideologia da intimidade, tão bem retratada por Richard Sennett, onde ao invés de desenvolvermos o capital social, a confiança no coletivo, nos fechamos em copas em nosso espaço íntimo. Aliás, a breve experiência brasileira de educação domiciliar é fundamentada no sucesso dos filhos, reduzindo a educação à instrução para exames. Um empobrecimento que se confronta inclusive com a LDB.

OPS! –  Observa-se que alguns defensores do homeschooling evocam justificativas de cunho político para endossarem a prática, por entenderem que a educação feita na escola secular transmite aos alunos uma ideologia de esquerda, oposta aos valores liberais e cristãos. O senhor também percebe assim a educação que é feita nas escolas brasileiras? Se sim, esse pode ser um fator a influenciar uma pessoa para educar seus filhos em casa?

Rudá – Seria um erro contrapor uma educação ideológica por outra. Seria um retrocesso em relação à educação laica e republicana. A educação formal não pode ser de esquerda, liberal ou religiosa. Seria justamente o desrespeito ao processo de construção de autonomia dos educandos. A opção ideológica é do educando. Este é justamente o problema do particularismo na concepção do homeschooling: ele não reduz a educação formal a uma opção individual, o que é um equívoco. Educar é socializar, e está intimamente vinculado aos valores universais e ao conhecimento de várias experiências e pensamentos humanos. Em outras palavras: a educação formal é um ato societário, não meramente comunitário e particularista. É um ato generoso, de contato com diferentes pensamentos. O comunitarismo é focado no interesse e valor específico do seu agrupamento local. Daí ter dificuldades para expressar valores universais. Há uma confusão conceitual razoável daqueles que defendem a educação limitada ao lar e à família, como se tivesse alguma ligação com o liberalismo ou o anarquismo. Os clássicos do liberalismo e anarquismo nunca sugeriram tal proposta.

OPS! –  A imensa maioria dos defensores do homeschooling é composta por evangélicos. Como o senhor explica essa preponderância de evangélicos entre os que advogam a prática? Como o senhor explica que o homeschooling tenha tão pouca adesão entre fiéis de outras crenças, como católicos?

Rudá – Não saberia explicar. Sou sociólogo e teria que estudar estes valores. Há estudos sobre as práticas mais fortemente familiares e intimistas entre protestantes, como o estudo clássico de Max Weber, mas não me arriscaria a fazer tal projeção. Não acredito que tal opção tenha fundamento teológico. Acredito que seja fruto de grande decepção, frustração com a educação pública e grande ansiedade de alguns pais. O interessante é que não tomam este partido no que diz respeito à saúde pública, transporte ou segurança pública. Não entendo o que confere tanta liberdade para pais sem preparo profissional se sentirem tão á vontade para assumir a profissão de educadores que estudaram para assumir uma tarefa tão complexa.

OPS! – De um ponto de vista pedagógico, científico, tem muita gente que considera homeschooling um método inapropriado e, em última instância, danoso para o crescimento psicológico e intelectual dos jovens. O que você pensa sobre isso?

Rudá –  Já respondi anteriormente nesta linha. É um equívoco técnico e social. Há, inclusive, experiências de escolas de pais (Charter School, nos EUA, escolas família-agrícola na França e Brasil, cooperativas educacionais e outras). Mas a opção por ensinar em casa nem de longe tem este desejo social, de interação e construção de um projeto educacional coletivo. É um retrocesso social, uma saída egoísta e privatista de conteúdos e métodos educacionais. Se há crítica á escola brasileira, a saída é se envolver com campanhas de melhoria. Acabamos de realizar a maior conferência nacional de educação, o CONAE, que definiu novos rumos para nossa educação. Por qual motivo os pais que sugerem o homeschooling não participaram deste evento democrático de discussão de um projeto
educacional?

OPS! –  Quando um pai matricula seus filhos na escola, partem da premissa de que a escola será capaz de garantir uma boa educação aos seus filhos. Neste sentido, você faz diferença entre escola pública e escola privada?

Rudá –  Não. Temos dados das principais universidades públicas do país que revelam que a maioria dos alunos são oriundos de escolas particulares, mas que os alunos oriundos de escolas públicas figuram entre os melhores desempenhos. Em outras palavras, a escola particular é focada no sucesso de mercado. E os pais no Brasil, infelizmente, acreditam que sucesso é passar no vestibular. E nosso vestibular é um dos piores do mundo, fragmentado por universidade (e não nacional, como em vários países) e reduzido a questões por disciplina (e nem envolvem avaliação de práticas sociais, como nos EUA). Assim, as escolas particulares aplicam, principalmente no ensino médio, técnicas de memorização (como os famosos simulados), baseados na Escola Comportamental. As escolas públicas, por seu turno, possuem muitas dificuldades e inúmeros projetos pedagógicos, muito distintos entre si e pouco conhecidos do grande público. O fato é que elas se equivalem do ponto de vista educacional e isto se verifica nas avaliações do PISA, que envolvem muitos países, incluindo o Brasil. Há equívocos e lacunas graves no ensino brasileiro que precisam ser superados com rigor. Projeto que não creio que seja para leigos, mas para profissionais elaborarem. É importante que pais participem, mas que exista respeito pela especificidade técnica desta construção ou banalisamos a educação de vez.

OPS! –  O que você percebe de mais grave no atual sistema escolar? Incapacidade de informar os conteúdos ou incapacidade de preparar para a vida?

Rudá –  O maior problema é que desenvolvemos um importante projeto pedagógico, nos anos 90, mas não alteramos a lógica administrativa. Temos que adotar contratos de dedicação exclusiva para professores (como já ocorre em universidades) e escolas em tempo integral (não escolas integradas, este arremedo de escola em tempo integral que o Brasil inventou). Os professores não podem ter mais que 4 turmas. Os professores precisam de tempo para analisar suas turmas e as dificuldades específicas de seus alunos, incluindo os problemas de convivência e as dificuldades de relacionamento familiar. Para tanto, precisam realizar conselhos de classe semanalmente. A melhor educação do mundo ocorre na Finlândia. Basta analisar as condições de trabalho e projetos coletivos desenvolvidos pelos professores. Os pais participam de discussões diárias, até mesmo pela internet. A saída é mais profissionalismo.

OPS! –  E se o Estado, no caso das Escolas Públicas, não consegue levar uma criança ao seu pleno desenvolvimento, este deveria ser processado pelas famílias por abandono intelectual?

Rudá –  Sim. Esta é a saída. Responsabilizar as autoridades públicas que não cumprirem com seu dever. Há, inclusive, projetos de lei (a Lei de Responsabilidade Social produzida pelo Fórum Brasil do Orçamento) que caminha nesta direção e tramita na Câmara Federal. Temos que acreditar no projeto coletivo, humano. As saídas individuais são voluntaristas mas desprovidas de crença na humanidade. Daí eu afirmar que o homeschooling não ter relação alguma com religião, justamente porque negam a crença na humanidade. É uma mera saída individualista, desesperada e sem esperança na convivência e no projeto coletivo.

Leia também o contraponto na entrevista com Cleber Nunes, que defende a possibilidade de uma educação domiciliar.