Estação das Chuvas

Quando pensamos em Angola, vem à mente Luanda e sua história sangrenta. Carros encimados por homens carregados de metralhadoras, linchamentos, explosões, ambição por diamantes, comitês e organizações estudantis que sentem na política seu sangue ferver, a independência colocada acima de vidas e das virtudes dessas vidas; busca por liberdade, por dignidade, por direitos arrancados em função de grandes poderes, e às vezes silenciados como são aqueles que rompem barreiras ideológicas; o racismo e o ostracismo abertos e carnudos como uma flor de ódio regada constantemente pela loucura humana. Sobre tudo isso jaz um escombro de esperança.

Capa de Estação das Chuvas“Estação das Chuvas” (Língua Geral, 344 páginas), segundo romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa, mistura uma labiríntica história ficcional de personagens bem-construídos com a assustadora história política da África moderna. Estes dois caminhos, um de rica ficção e outro absolutamente jornalístico, se confundem ao longo do livro, sendo quase impossível saber o que é realidade e o que é imaginação.

O romance é dividido em nove partes, cada parte com uma porção de capítulos curtos, o que torna a narrativa mais saborosa e menos cansativa. A primeira e a segunda, intituladas de “O princípio” e “A poesia” respectivamente, expõem um pouco da vida de Lídia do Carmo Ferreira, personagem central do livro, embora quase ausente. Esta figura é apresentada pelo narrador, um jornalista cujo nome nunca é revelado e que ao longo de toda a história intercala vidas de personagens com quem tem uma ligação direta ou indireta, a sua própria vida e breves trechos de uma entrevista que fez com Lídia em 1990.

Em 1975, ano de independência de Angola, o narrador, com quinze anos de idade, foge de casa para se juntar ao MPLA, o Movimento Popular de Libertação de Angola, um pouco antes de sua família entrar num avião rumo a Portugal. Com o amigo Tito Rico, este futuro jornalista é preso e na prisão descobre e vivencia um dos muitos lados negros da sua época. Tudo isso só acontece na quinta parte, “O dia eterno”, pois  a narrativa não é linear. Agualusa inicia o romance contando a história de Lídia, que 17 anos depois, em 1992, recomeço da guerra civil angolana, desaparece. Ainda em 1975 tanto ela quanto sua poesia são apresentadas, e pelas inúmeras quebras e torções narrativas, descobrimos que enquanto estudante Lídia tornou-se obcecada por António Guilherme Amo, filósofo negro africano, cuja vida e obra foram escolhidas para sua tese de licenciatura. Sua história é contada em parte através da busca pelas poucas informações existentes de Amo, em parte por seu envolvimento nos comitês políticos que lutavam pela libertação de Angola até sua prisão, e finalmente por seus relacionamentos com outros personagens que tiveram também alguma relação com o narrador, cujo principal objetivo no enredo é buscar esclarecimentos para o desaparecimento da poeta.

A maior qualidade de “Estação das Chuvas” é sua tecitura e como, numa primeira leitura inatenta, ela pode parecer confusa. Agualusa uniu um ritmo jornalístico não-linear com períodos curtos e uma grande quantidade de diálogos que se misturam às histórias de vida de cada personagem, e isso faz o romance ter um sabor mais original do que muitos outros com o mesmo tema. Cada novo nome apresenta um segundo que nos leva a outro cenário, até que todos estejam interligados pelo horror da história luandense.

altNão é um livro fácil; tem um peso histórico, político e social, transporta o leitor para uma época sombria, não obstante é guarnecido aqui e ali com imagens poéticas, tanto da própria figura de Lídia (“A vida era mais bela em março/ A chuva trazendo a salalé; febres, e entre o lodo/ e os limos/ pedaços de homens armados (a guerra que nunca coube em mim) … O meu coração está cheio de cansaço. Dorme na lama entre as flores. Morri e ninguém soube de nada.”) quanto da voz do próprio José Eduardo Agualusa através do narrador sem nome (“A jovem riu-se, seu riso ecoou fresco e brilhante como um estilhaçar de vidros.”), que como bom jornalista, passeia pela essência de passados humanos para construir seu romance documental.

Se você tem Twitter, tuíte até o dia 3 de fevereiro a mensagem em negrito para concorrer ao livro “Estação das Chuvas” — que sortearei no dia 4 de fevereiro: Quero ganhar o romance “Estação das Chuvas” (@linguageral), do Agualusa, que @alexsens sorteará em sua coluna no @o_ps: http://kingo.to/s2c.

Para participar é preciso seguir o OPS! no Twitter: @o_ps.

Update (resultado): Quem ganhou o livro foi Felipe Bilharva (@FelipeBilharva). Resultado do sorteio: http://sorteie.me/1DcP3Y.


[Recentemente a Língua Geral lançou “Milagrário Pessoal”, outro romance de Agualusa. Conta a história de Iara, uma jovem que descobre, através de seu trabalho como linguista, que a língua portuguesa está sendo subvertida a nível global, e com a ajuda de um professor angolano viaja para o Brasil em busca de uma misteriosa coleção de palavras que teriam sido roubadas à “língua dos pássaros”; um livro de amor, mas sobretudo com a marca do escritor angolano, cujo foco se dá nos aspectos históricos e geográficos de seus enredos.]

Negociando com os Mortos – parte 4 e última

Esta é a última parte da série de artigos sobre o livro “Negociando com os Mortos”, da escritora canadense Margaret Atwood. Quando me propus a criá-la, pensei numa forma de divulgar este livro que tanto gosto, assim como discutir alguns clichês e outras questões do ato de escrever que nunca são esquecidas. Escrever é sempre estar em dúvida, e talvez dessa dúvida tiremos alguma compreensão. Escrever é buscar a luz, procurar por um friso que ilumine o que está escuro, como comentei na terceira parte.

Para concluir essa sequência, não com chave de ouro, mas apenas com um clique da maçaneta, afinal não penso que o assunto possa ser encerrado enquanto houver um escritor com autoindagações e leitores interessados em seu processo criativo, dou uma pincelada geral sobre “Negociando com os Mortos.”

Capa de Negociando com os MortosA obra surgiu de um ciclo de seis conferências dadas por Atwoood na Universidade de Cambridge em 2000. Chamadas de Conferências de Empson, nome diretamente alusivo a William Empson, estudante da mesma universidade que escreveu em 1930, aos 23 anos de idade, o ensaio crítico “Sete Tipos de Ambiguidade” e que fora expulso ao encontrarem anticoncepcionais em seu quarto, os capítulos são quase transcrições destas, dadas para um público composto de acadêmicos, estudantes, escritores, leitores curiosos e leigos. “Escrever é, em si, sempre penoso”, explica Margaret logo na introdução, “mas escrever sobre nossos escritos é sem dúvida pior, em termos de futilidade.” Todo escritor consciente de seu ofício sabe que esta metafísica do ato de escrever pode muitas vezes, senão sempre, ser cansativa, parecer mastigada, um assunto circular e sem saída. Mas também é um exercício de análise, sobretudo para quem ainda se descobre como artista, ou para quem já se descobriu e quer repensar sua condição como tal. É fútil escrever sobre o escrever? Então nos permitimos a futilidade quando Clarice Lispector, Virginia Woolf, Edward Morgan Forster, Roland Barthes, Milan Kundera, Philip Roth, Umberto Eco, entre dezenas de outros, já tentaram desmembrar a escrita mostrando o criador a partir de sua criatura ou como produto dela, metaforicamente ou não, emocionalmente ou literariamente.

No prólogo, a autora faz um rápido esboço dos capítulos:

O primeiro capítulo é o mais autobiográfico e indica também a extensão das minhas referências: essas duas coisas estão ligadas, uma vez que os escritores tendem a adotar seus enunciados no início de suas vidas de leitura e escrita. O segundo capítulo aborda a dupla consciência do leitor pós-romântico: presumo que ainda estejamos vivendo à sombra projetada pelo Romantismo ou em fragmentos dessa sombra. O terceiro capítulo aborda os conflitos entre os deuses da arte e do comércio que todo escritor que se considera artista continua a sentir. O quarto examina o escritor como ilusionista, artífice e participante do poder político e social. O quinto pesquisa o eterno triângulo: escritor, livro e leitor. E o sexto e último fala da jornada narrativa e dos seus caminhos sombrios e tortuosos.
Em suma, o livro enfrenta alguns conflitos que têm ocupado muitos escritores, tanto os que conheci neste plano terreno, como dizem na Califórnia, quanto os que conheci apenas por intermédio de sua obra. Muita escrita ocorre entre uma rocha e um lugar duro, e aqui temos algumas rochas e alguns lugares duros.

Um livro para ser lido e relido, pensado e discutido. Enquanto houver escrita, haverá loucura. E vice-versa.

Negociando com os Mortos – parte 3

É preciso sentir algo enquanto a escrita é ação? Ou o sentimento que desprende do escrever é mera reação? Não importam as perguntas, mas dois fatos: 1) escrever produz sentimentos, eles estão ali enquanto as mãos tentam ser mais rápidas do que as ideias, e 2) o ato tem sempre alguma relação com o emocional, seja ela boa ou má, então podemos pensar que ambas são necessárias. O mundo literário seria enjoativo e inabitável caso a relação do escritor com a escrita fosse meramente técnica, mecânica e/ou financeira. Escreve-se por uma necessidade íntima que vem acompanhada de um sentir: obscuro, iluminado, estreito ou tão largo quanto suas possibilidades.

Margaret Atwood perguntou a alguns escritores o que eles sentiam ao escrever:

Um respondeu que era como entrar em um labirinto, sem saber que monstro poderia ali encontrar; outro, que era como atravessar um túnel às apalpadelas; uma terceira que era como estar em uma caverna – via a luz do dia pela abertura, mas ela própria estava no escuro. Um quarto me disse que era como estar submerso em água, em um lago, em um oceano. Um quinto, que era como estar em um quarto totalmente escuro; tateando: precisava rearrumar a mobília no escuro, e quando estivesse tudo em ordem, a luz reacenderia. Um sexto, que era como vadear um rio fundo, ao alvorecer ou ao anoitecer; um sétimo, que era como estar em um quarto vazio porém repleto de palavras não enunciadas, onde há uma espécie de sussurro; um oitavo, que era como se sentar em um teatro vazio antes de começar a peça ou o filme, aguardando a entrada dos personagens.

É constante este sentimento de descortinamento, de iluminar o escuro, de revelar o que está encoberto. O que está encoberto? O não-escrito, o que ainda sofre em gestação e dói para deixar a placenta da qual o escritor se alimenta. Virginia Woolf (minha escritora preferida) conhecia, sobretudo dos sentimentos experimentados nos instantes maníaco-depressivos, esta cavernosa experiência da escrita, talvez até de uma forma mais profunda e doentia do que muitos escritores; disse, para nosso encanto, que escrever um romance é como atravessar um quarto escuro segurando uma lanterna que ilumina o que já existe ali. 

A quinta resposta à pergunta de Margaret soa mais pessoal do que parece: escrever para colocar o próprio mundo em ordem, arranjar e rearranjar o que está desarrumado, tudo feito às cegas para enfim criar luz a partir desta ordem. Mas a noção de ordem pode ser falsa uma vez que escrever também é um processo incôndito, em que o eu-escritor é espectralizado, separado do mundo enquanto mergulhado em sua arte. Claro que ele depende deste mundo ao redor para criar o seu, afinal a imaginação não passa disso, a ação de imaginar, mas imaginar a partir do conhecido e transformá-lo de muitas maneiras possíveis, e o escrever faz tremer a harmonia (se e quando ela existe) que o escritor sente enquanto sua criação é fluida. A ideia de que escrever é colocar um pouco de ordem na vida pode ser falsa, porque escrever é mexer com a ordem conforme a “realidade inventada”; muitas vezes escrever é temperar uma determinada realidade, experiência, para torná-la indelével. O sentimento que envolve esse fazer sempre virá de outro, uma constante de hidras divergindo e se bifurcando, criando novos seres e respostas infinitas. Muitas vezes o sentimento que envolve a escrita é desconhecido, mas ele está lá e não precisa da razão para sobreviver, basta ser a causa da qual nascerá este choque entre pensar, elaborar, sentir, montar e talhar.

Margaret Atwood conclui que “é possível que o ato de escrever esteja ligado à escuridão e ao desejo, ou talvez à compulsão, de penetrá-la e, com sorte, iluminá-la e trazer alguma coisa dali de dentro”. Volta a ideia da necessidade, do desejo, desta compulsão, ou até mesmo agonia, de querer arrancar o brilho cardíaco do breu, e isso cabe não só na arte da ficção, mas no fazer artístico como busca, seja ela hedônica, visceral, financeira e às vezes, por que não?, fugitiva. Parafraseando a autora, é possível que o ato de escrever esteja ligado à busca pela fuga, e uma fuga que por si mesma é a busca (im)perfeita para além de si.

Negociando com os Mortos – parte 2

Escrever é um ato que surge sempre de uma necessidade. Ninguém escreve por simplesmente escrever, como esquecer um objeto em um lugar por mero descuido. É impossível escrever sem saber que se está escrevendo, não é inconsciente, ainda que o que esteja sendo escrito possa ser em parte ou totalmente inconsciente. Mas por que os escritores escrevem?

Em “Negociando com os Mortos” (Editora Rocco, 256 páginas, tradução de Lia Wyler), Margaret Atwood compilou uma lista de respostas a esta pergunta, e como prometido, ei-la com curiosas, estranhas, sinceras e às vezes divertidas razões:

Registrar o mundo como ele é. Gravar o passado antes que o esqueçam. Desenterrar o passado porque caiu no esquecimento. Satisfazer o meu desejo de vingança. Por saber que precisava continuar escrevendo ou morreria. Porque escrever é correr riscos, e somente correndo-os sabemos que estamos vivos. Produzir ordem a partir do caos. Encantar e instruir. Satisfazer a mim mesmo. Expressar-me. Expressar-me de uma forma bela. Criar a obra de arte perfeita. Premiar os virtuosos e punir os culpados; ou – a defesa do marquês de Sade usada pelos partidários da ironia – vice-versa. Refletir a natureza. Refletir o leitor. Pintar um retrato da sociedade e seus males. Expressar a vida das massas ainda inexpressa. Nomear o ainda inominado. Defender o espírito, a integridade e a honra humanas. Zombar da morte. Ganhar dinheiro e comprar calçados para os meus filhos. Ganhar dinheiro e poder escarnecer os que no passado me escarneceram. Mostrar quem sou a esses filhos da mãe. Porque criar é humano. Porque criar é divino. Porque odiava a ideia de ter um emprego. Dizer uma palavra nova. Fazer algo novo. Gerar uma conscientização nacional ou uma consciência nacional. Para justificar os meus fracassos na escola. Justificar a minha visão de mim mesmo e da minha vida, porque não poderia ser “escritor” se não escrevesse alguma coisa. Parecer mais interessante do que realmente era. Atrair o amor de uma bela mulher. Atrair o amor de qualquer mulher. Atrair o amor de um belo homem. Corrigir as imperfeições da minha infância infeliz. Contrariar meus pais. Narrar uma história fascinante. Divertir e agradar o leitor. Divertir e agradar a mim mesmo. Passar o tempo, mesmo que ele fosse passar de qualquer maneira. Grafomania. Logorreia compulsiva. Fui impelido a escrever por uma força além do meu controle. Porque fui possuído. Porque um anjo ditou para mim. Porque caí nos braços da Musa. Porque fui engravidado pela Musa e precisava dar à luz um livro (um interessante travestimento em que condescendiam os escritores do século XX). Para servir à Arte. Servir ao Inconsciente Coletivo. Servir à História. Justifificar os desígnios de Deus para o homem. Dar vazão aos atos antissociais pelos quais teria sido castigado na vida real. Dominar um ofício e poder gerar textos (uma definição recente). Subverter a ordem estabelecida. Demonstrar que algo está certo. Experimentar novas formas de percepção. Criar um boudoir recreativo em que o leitor possa entrar e se divertir (traduzido de um jornal tcheco). Porque a história se apoderou de mim e não quis me largar. Para procurar compreender o leitor e a mim próprio. Enfrentar minha depressão. Para os meus filhos. Ganhar uma fama que sobrevivesse à morte. Defender um grupo minoritário ou uma classe oprimida. Falar em nome daqueles que não podem fazê-lo. Denunciar erros e atrocidades espantosos. Registrar a época em que vivi. Dar testemunho dos acontecimentos medonhos a que sobrevivi. Falar pelos mortos. Celebrar a vida em toda a sua complexidade. Louvar o universo. Admitir a possibilidade de esperança e redenção. Retribuir um pouco do que me foi dado.

Todas as respostas são mais interessantes quando isoladas; algumas tornaram-se clichê com o passar das décadas e da insistente busca pelos motivos do fazer artístico, outras são debochadas e outras ainda parecem desentranhar emoções de âmagos perturbados. Percebe-se uma grande vontade de expressão, um desejo de mostrar algo mais para os outros do que para si; vontade de cura, coma se a escrita fosse um remédio sem bula, que ou se toma com risco de morrer ou se toma por vício; vontade de atrair um outro, que é na verdade a parte mútila do eu, e o leitor se torna um pedaço que completa o escritor despedaçado por sua própria obra; vontade de mexer com a sociedade, com o ambiente, com as pessoas, ou seja, de fazer uma diferença prática a partir da teoria; necessidade de apagar e ao mesmo tempo traduzir erros e medos porque a escrita é um buraco negro que a tudo engole com seu campo gravitacional equivalente à capacidade de criação humana. A última resposta, “retribuir um pouco do que me foi dado”, talvez seja inconsciente entre todos os escritores, pois a partir de leituras interessantes ou não, de experiências memoráveis ou não, a escrita acontece como uma troca, nunca nasce do nada, sempre do acúmulo de informações e impressões, da tal “bagagem”.

Quais respostas, queridos leitores-escritores desta coluna, vocês acharam mais interessantes? E quais as que respondem por vocês? Acho que a melhor resposta à pergunta “por que você escreve”, sobetudo pela sinceridade, é a de Samuel Beckett, que declarou que escrever era só o que ele sabia fazer. Simples assim.

Então, Margaret, no insucesso de sua busca por motivos, perguntou aos escritores o que sentiam, e novamente pergunto: o que você sente ao escrever? Desta vez não darei um exemplar do livro “Negociando com os Mortos”, apenas quero saber de quem aqui passa o que sente – e, por que não?, continuar a mesma discussão sobre o ato de escrever e suas questões vicinais.

Perguntei na primeira parte desta série de artigos a razão pela qual as pessoas escrevem e não seria nenhum exagero da minha parte (nem uma justificativa para escapar dos tomates e dos ovos podres) revelar que todas levariam um exemplar do livro. Como não tenho 17 exemplares, o único que me foi oferecido atenciosamente pela Editora Rocco vai para Paola Benevides, que respondeu: Eu escrevo por impura vaidade. Todas as respostas têm seu valor criativo, original, umas mais belas, metafóricas, outras mais diretas e concisas, mas escrever por uma vaidade que não seja pura ultrapassa seu próprio sentido, pois Paola, pelo que entendi, escreve pela antivaidade, uma vaidade contaminada pelos destroços da vida, pelo sublime ao contrário, uma vaidade que não é verdadeira porque se assim o fosse, sua arte não seria honesta, mas um  reflexo de um ego. Quem escreve por pura vaidade está com a corda no pescoço e um abismo logo abaixo do banquinho onde os pés tremulam. Quem escreve com o ego, não escreve: vive do autoengodo de seu narcisismo.

Por que eu escrevo? Escrevo porque não quero fazer sentido, mas ser sentido.

Negociando com os Mortos – parte 1

Um dos livros mais inteligentes que li sobre a metafísica do ato de escrever foi “Negociando com os Mortos”, da canadense Margaret Atwood. Ganhadora do Booker Prize de 2000 com o romance “O Assassino Cego”, a escritora não só domina a arte da ficção, como seus desdobramentos, suas causas, as hemoglobinas de seu sangue. Exagero? Talvez não. Margaret observa a ficção como poucos com seus mais de 40 anos de experiência criativa diante de uma escrivaninha, e além de debruçar sobre a própria vida, a infância, suas influências e o caos da vida de quem é escritor, lembra de tantos outros, cita fontes, procura iluminar o labirinto escuro de quem se entrega à arte da escritura, de quem mergulha em suas profundezas lodosas.

capa de Negociando com os Mortos“Negociando com os Mortos” é um belíssimo e enriquecedor estudo baseado em seis conferências dadas por Margaret no ano de 2000 na Universidade de Cambridge; ele discute o ofício do escritor, seus motivos, suas consequências, suas escolhas, sua posição diante destas escolhas, levando em conta aspectos que sempre envolvem esta atividade, como vocação, profissão, fonte de renda e arte. Está mais para conversa despretensiosa entre escritores nos fundos escuros e etílicos de um boteco enfumaçado, do que para um tratado de dicas ou uma oficina literária com ideias programadas e estilos embotadamente calculados. O livro não foca a mesmice do desmembramento da ficção, explicando teoricamente os pontos funcionais numa narrativa, ao contrário: mira seu facho inquiridor de luz quente sobre quem cria essa narrativa, tentando enxergar em cada gota de suor do suspeito (todo escritor é suspeito de alguma coisa, senão não escreveria) seus motivos para aquele ato incomum: escrever. Um crime? Se escrever for um crime, que a Arte nos absolva! Atwood busca respostas, justificativas para esta arte específica e a primeira pergunta soa como o maior clichê da história da literatura: por que você escreve?

Vou deixar a pergunta queimar os neurônios de quem precisa das razões. Margaret compilou várias respostas a esta pergunta e conseguiu encher duas páginas com elas, e explica:

[…] todas são genuínas e não há nada que impeça um escritor de se sentir impelido por várias delas ou até por todas ao mesmo tempo. Foram extraídas de afirmações de escritores – recolhidas em fontes duvidosas, como entrevistas a jornais e autobiografias, mas também gravadas ao vivo em conversas de fundo de livraria antes das temidas sessões de autógrafos coletivas, ou entre um lanche rápido de hambúrgueres e tapas em bares baratos e outros antros frequentados por escritores […]; mas foram também extraídas de palavras de escritores ficcionais…

roccoQuer ler a lista de respostas compilada pela escritora? Então volte aqui no dia 15, segunda-feira, quando transcreverei tais respostas e darei seguimento ao assunto do livro até o fim do mês de novembro. Enquanto espera, você que escreve literatura, prosa ou poesia, sem importar para quem, e caiu nesta página por algum motivo, responda: por que você escreve? A resposta mais original (veja bem, original, não bonita) ganhará um exemplar de “Negociando com os Mortos”, cortesia da Editora Rocco.

Nota: como as respostas estarão visíveis a todos os leitores desta página, fica combinado que só vale uma resposta por pessoa, então seja criativo antes de esperar pelo primeiro comentário! Cabe a mim a escolha da razão mais original, sopesando apenas isso, originalidade, não seu autor, conhecido ou não por mim, e ela será publicada no próximo artigo com a lista de Margaret.

Sociologia da Leitura

“Reconhecer não é ler”, escreveu o educador francês Jean Hébrard. Ou seja, repetir o som e a sequência de letras empregadas em uma palavra, reconhecer seus fonemas e grafemas, não passa disso, uma observação da linguagem em sua ordenada apresentação. Ler é compreender: este se tornou o lema dos pedagogos a partir da segunda metade do século XX, época em que apenas a decifração do escrito se torna insuficiente, sendo necessário compreendê-lo.

Pouco estudada no Brasil, e possivelmente em todos os países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, a sociologia da leitura é um campo que analisa esta prática social que envolve também cultura, política, instrução, conhecimento e autoconhecimento. Este estudo feito pelas sociólogas francesas Chantal Horellou-Lafarge e Monique Segré, e transformado no livro “Sociologia da Leitura” (Ateliê Editorial, 160 páginas, tradução de Mauro Gama), enriquece a bibliografia sobre o assunto e ajuda a compreender melhor uma prática talvez usual, genérica, mas pouco discutida. Esta leitura sobre a leitura, uma conveniente metaleitura, aborda seu papel e sua importância na cultura tanto de uma sociedade leitora, ou não-leitora, quanto do ser individual, de sua influência na economia, do crescimento de um lugar e do próprio crescimento.

capa de Antes de entender a leitura é preciso entender a escrita, porque aquela surge desta. O primeiro capítulo do livro, “A leitura e seu suporte”, é uma interessante aula de história sobre o surgimento do ato de escrever, do papel, dos meios de produção do mercado editorial, desde os primeiros séculos até hoje. Hodiernamente, lê-se sem compreender a história da leitura, e sobretudo a história da escritura que só passa a existir quando lida. Aqui as sociólogas deslindam as etapas que fizeram surgir a escrita, desde a ideográfica, passando pelo acréscimo das sílabas em que cada sinal representa um som, até a escrita alfabética, em que “o sinal não faz referência a um objeto ou ideia, mas a um elemento decomposto do som”. A leitura, antes uma tradição oral, aos poucos torna-se tradição escrita, e as escolas se desenvolvem, o Estado e a Igreja deixam de interferir tão diretamente nas leituras, a nobreza deixa de ser a única classe social a ler e possuir livros. É na industrialização do objeto-livro que a leitura parece tornar-se menos cultural e mais capital, transformando a leitura num consumo e o livro numa mercadoria.

O segundo capítulo, “A leitura e as instituições”, aborda como começou a prática da leitura, sendo o termo “prática” mais bem-colocado do que “hábito”, uma vez que qualquer hábito é automatizado e consequente de um condicionamento, ou seja, longe de ser um prazer, necessidade intrínseca. Se no primeiro Chantal e Monique discutem a criação da escrita, do material usado na escrita, sua difusão entre populações citadinas e rurais que aprenderam a ler, neste há um enfoque sobre o Estado e a Igreja, como as instituições lidavam com documentos e histórias, quão importantes estes escritos eram para fazer propaganda e divulgar serviços. A Igreja utilizou a escrita como propaganda religiosa, o Estado a politizou, com taxas e leis de comércio, e ambos faziam da censura seu escudo. Disseminada, em parte, pela religião, a leitura foi sendo inserida na escola através de livros ilustrados, sobretudo em comunidades protestantes, ao passo que as católicas visavam o poder, uma espécie de monopólio mental sobre o que era aprendido, e por isso ofereciam menos o objeto-livro, sua função, geralmente de ensino catequético e estreito. O Estado, por sua vez, cuidou da censura que era necessária contra ideias que tentassem fugir de sua filosofia, além de instaurar o preço dos livros, os direitos dos autores e o surgimento gradual de bibliotecas que alimentassem o interesse de novos leitores, cada vez mais frequentes e em maior quantidade.

“Ler, um aprendizado escolar determinante”, terceiro capítulo, discute o aprendizado da leitura e sua prática na escola, durante a infância. Existe um abismo entre ter a prática de leitura, que requer gosto e compreensão, e ser simplesmente alfabetizado. A criança, depois de decifrar os códigos que lhe foram colocados como linguagem única, precisa compreender sua função, sua união funcional. A leitura, o apanágio de uma sociedade civilizada, é o núcleo da ideia de desenvolvimento, de crescimento. A escola se torna o lugar do livro em meados do século XX, e divide com o espaço familial a responsabilidade do gosto pela leitura sobre as novas gerações. Nesse ambiente literário, o jovem também sente-se pressionado quando as instituições de ensino se apoiam num caráter coercitivo de leitura, em que as obras impostas tornam-se automaticamente indesejadas. O fato da coerção afasta diretamente uma maioria que tende a preferir sua liberdade na hora de ler. Aos poucos, as leituras escolares são estigmatizadas e perdem seu valor fundamental, o do interesse.

O quarto e o quinto capítulos abordam a leitura com uma olhar mais dinâmico e divergente, sobre as diferentes camadas de uma sociedade, desde ocupação até sexo. Chantal e Monique apresentam quadros de pesquisas que revelam muito sobre o leitor francês e suas predominâncias, como homens lerem mais livros científicos, mulheres lerem mais livros românticos, estudantes de universidades com grande quantidade anual de leitura, passando de 50 livros, até as camadas que menos leem qualquer estilo literário, ou apenas as revistas e periódicos, como os agricultores e outras pessoas menos instruídas – “quanto mais é elevado o nível de instrução, mais se refina e fortalece a capacidade de ler.” Assim é no Brasil e em todo o mundo.

“Sociologia da Leitura” é um estudo profundo e completo não somente sobre a prática da leitura, mas sua influência na vida das pessoas, na vida de um todo que se constrói dia a dia como sociedade politizada, como ambiente de sobrevivência. Sem saber, lemos a todo instante, nos informamos, nos deixamos levar pelos símbolos que representam sons, que por sua vez representam pensamentos e informações, cuja importância é primordial. A leitura atenta e bem-feita, não superficial, faz o homem dono de si mesmo, da sua independência enquanto aprendiz de uma arte, de um ensinamento finito ou infinito. Ler é estar disponível para o conhecimento e o maior dispositivo dessa prática ainda é o livro, que como Yvonne Johannot explica na última página, “se abre como se abre a porta de uma casa – para uma intimidade destinada àquele que possui a chave”.
 

O branco desnutrido

A cor branca, ou a anticor branca, é um mistério em sua pálida possibilidade de ser completa, de ser tingida, tisnada, engravidada com o mínimo tom colorido acima de sua ausência. Mas a cor branca é unicamente a união de todas as cores, então ela é uma camuflagem, ela proteje quem nela habita. Quem sobre ela planta ou arranca as raizes da linguagem, seja ela na forma de literatura, de artes plásticas, de cinema com seu roteiro, de música com sua partitura, é alimentado por sua nova forma. Ninguém se alimenta do vazio, da ideia encanecida, sempre de algo que faz, além do estômago, a alma salivar e escorrer seu sumo criativo.

Líter e -fagia, dois elementos comparativos tão sonoros quanto os gritos das minhas intenções com este espaço, tão silentes quanto os suspiros das palavras carnais que ainda pulsam e se abrem em novos significados. Líter, referente às letras, à escrita, ao mundo visual desses símbolos pelos quais nos comunicamos e nos deixamos cair em abismos de prazer intelectual. Seguido por -fagia, ação de alimentar-se, que denota nutrição, ou mais subjetivamente, uma ação sem a qual não se vive.

Literofagia não está no dicionário, não foi um termo inventado por mim, mas pensado por mim sem nunca ter passado por meus olhos. Talvez uma escolha facilmente construída, mas com poucos resultados se você fizer uma busca na internet. Existe o termo “literomania”, a mania de escrever, de ser literato, assim como “literofobia”, a aversão às letras, mas eu não me encontro no primeiro porque manias são automáticas, e de autômato já basta o tempo, e menos ainda no segundo, quando prefiro ter medo do medo às escrituras.

Literofagia é um espaço para discussão de livros, autores, estilos literários, influências, processos criativos, o fazer do escritor, o uso da palavra escrita e revolvida, destruída e reconstruída, a ideia dissecada, cortada em fatias ou rodelas, mastigada – ou vomitada, se ruim, se perdeu o tempero porque perdeu o acento agudo. Para mim, a escrita, a leitura, tudo o que envolve a palavra impressa, a exposição de pensamento impressa e repensada, a ficção – para mim, tudo isso é alimento, e o branco ainda não mexido, ainda não invadido, ainda não alterado pela ação da escritura, é um prato vazio, onde a poeira da ideia é o refugo da ignorância ou da preguiça. Eu quero um branco rasgado pela cor da literatura e de suas nuances, quero um banquete onde os livros são a comida, os olhos são os talheres, os dentes que mastigam, os dedos que escrevem.

Rasguemos os guardanapos, quebremos as taças e com os cacos de cristal, cortemos os pulsos do breu criativo. Bom apetite.