a ubiquidade é a nossa idade.

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Todos estamos velhos e somos jovens ao mesmo tempo, em toda parte, a ubiquidade é a nossa idade.
 
É a idade destes tempos e seus espaços, que muitas vezes nos apresentam as exigências de onipresença e de conexão absoluta, de interação exacerbada e respostas instantâneas, somadas à cobrança de um contínuo mergulho no oceano informacional fragmentado que nos cerca. Um dia fora da rede, e muitos já se sentem tal como um peixe fora d’água.
 
Conectar, navegar, interagir, compartilhar, ocupar, curtir, derrubar, entre outros, figuram como verbos de ação e de reação, a reger e modular distâncias, proximidades, velocidades, lentidões e também as diversas modalidades de estar presente e do (con)viver junto.  Verbos estes que podem funcionar:
  • como vetores de produção de sentido, motes de resistência e de construção de experiências potencializantes e libertárias;
  • assim como, tal qual palavras de ordem nada generosas, disciplinar movimentos, fomentar micro-fascismos e fortalecer os já muito agudos modos de controle.
 
Afinal, tratar-se-ia de um devir ou de um dever (este segundo termo aqui utilizado no sentido de obrigações e também das dívidas)? A ingenuidade não pode ser a nossa idade.
 
Protelar o inadiável é o contrário de construir um outro mundo possível. Quando as urgências desse mundo chegam à palma de nossas mãos que carregam o fardo quase imperceptível das telas animadas por gadgets miraculosos em rede, cujo brilho às vezes ilumina, noutras ofusca a nossa percepção, somos convocados à ação. Estamos conectados, mesmo quando alienados. Conexão mediada por maquinetas com gadgets acoplados, que permitem a cada um de nós, nos tornarmos espécies de ciborgues, mezzo reais, mezzo digitais, atiçando as nossas virtualidades.  Uma espécie de devir-ciborgue, conforme Donna Haraway e os desafios das “sempre novas” configurações de territórios existenciais que irrompem no desenrolar do que as tecnologias “sempre vindouras” nos prometem e (nos fazem acreditar que) serão capazes de cumprir.
 
Redes digitais que midiatizam redes sociais, cujas virtualidades permitem que alguns digam, muitas vezes no limite do que se pode fazer em 140 caracteres: “não sou eu, é meu eu lírico”, ou melhor “não sou eu, é meu avatar”, ainda mais interessante “não sou eu, estou legião”. Onde estou e quem sou têm menos importância do que os traços digitais de minha mobilidade, que deixo a partir das navegações e conexões que estabeleço, seus efeitos e consequências.  Marchas aqui e acolá são animadas e organizadas por diversos meios. Conforme o alerta de Deleuze e Guattari “Não nos falta comunicação, ao contrário, nós temos comunicação demais, falta-nos criação. Falta-nos resistência ao presente.” Marcham as multidões, marcha o soldado, mas em que ritmo são cadenciadas estas marchas? – eis uma pergunta sutil.
 
Pro-tela-r? Telas, por todos os lados e o tempo todo, lá estão elas. Avistamos as telas e seu brilho (e elas nos avistam), isso me lembra George Orwell e as teletelas de 1984, e talvez algo da ordem de um Big Brother esteja a nos vigiar ao mesmo tempo em que multidões disputam os holofotes querendo ser vigiadas.  – Vaidade?“Alice, muito cuidado para não se perder do outro lado do espelho.” – E se antes as telas exigiam “apenas” o nosso olhar, hoje demandam o nosso toque.
 
Telas sensíveis, que querem ser tocadas, mas que tipo de sensibilidade é essa? Antes ficávamos “cheios de dedos” (i.e.: embaraçados; atrapalhados; indecisos; hesitantes) perante o brilho das telas e temíamos tocá-las, hoje lançamos nossos dedos com volúpia e aparente desenvoltura, a tocar as telas esperando por novidades, ansiosos por mudanças (de tela, ou de quadro, ou de realidade, ou de imagem). Temos a sensação de que somos capazes de movimentar o mundo com a ponta dos dedos, feito o ditador de Chaplin ao girar o globo terrestre. São quantos os dedos dos insurgentes e em que direção estariam a apontar?
 
Recordo-me de uma cena que avistei num aeroporto dia desses. Uma criança caminhava ao lado de um adulto e tocava todas as telas de publicidade que encontrava pelo caminho, ao mesmo tempo em que esboçava impaciência e desanimo ao perceber que aquelas “antiquadas” telas não se moviam, e nada acontecia após cada toque. Não se tratava de telas de publicidade interativa, especialmente na visão daquela criança.
 
 

No trabalho, nas práticas de ensinar-aprender, no lazer, pelas esquinas, à guisa de alguns exemplos, nos tornamos semideuses multitarefeiros da onipresença, mesmo no ócio.  Onipresença quase sempre rastreável por nossas pegadas digitais que marcam uma presença, mesmo quando não nos fazemos literalmente presentes, representados que podemos estar por avatares e também pelos lampejos de nossas virtualidades cristalizadas nas telas. Podemos estar aqui, acolá e em lugar nenhum, em uma espécie de “estar presente sem estar lá”, conforme apontamentos de Virilio. Na medida em que o lugar se torna qualquer lugar e simultaneamente lugar nenhum no embaralhado de referência física, as condições de experiência e de sensibilidade se transformam, e os espaços-tempo híbridos se enaltecem. E haverá o dia em que as telas serão substituídas por outras soluções de usabilidade mais atraente, vide hologramas e afins. Esse dia já está chegando, diriam as telas “o fim (das telas) está próximo”… já chegou (mas não por completo). Mas o problema não está nas maquinetas, e sim nos usos e nos conceitos acoplados a elas.
 

O ciborgue que nos habita é coabitado por gadgets miraculosos e sistemas de interação ativados por inteligência artificial cada vez mais espantosa, que fazem com que o próprio conceito de inovar careça de se inovar e de se renovar constantemente para não caducar. Alguns temem a caduquice, outros procuram no Google o significado desta palavra (ou palavara, pois que nos cutuca, nos desassossega), e podem acabar caducando frente às respostas limitadas deste grande oráculo dos dias de hoje. – Ainda nem bem aprendemos como fazer perguntas e já nos entulham com respostas, eis o perigo iminente da caducidade.

Vida (nossa), esta tão “assenhada”.

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Vida (nossa), esta tão “assenhada”. Brevíssimos comentários acerca de alguns elementos das sociedades de controle.

Nossa vida está cada dia mais “assenhada”. Parece até não ser nossa esta vida que só pode ser acessada, a cada instante, a partir de uma (ou várias) senha(s). Das senhas, precisamos delas para acessar bancos, comunidades digitais, escolas, hospitais e porque não, nossa própria casa. – Não entro em minha casa sem antes inserir algo em torno de sete dígitos numa combinação de alfanuméricos em uma maquineta e seus gadgets miraculosos. No dia em que por acaso eu não me lembrar de todas estas senhas terei que dormir na rua. – E isto só vem a se acentuar, na medida em que a ênfase no corpo parece sair de cena (ou se transformar), e a nossa alma passa a ser controlada pelo uso imoderado de senhas. Lembro-me neste momento de passagens em “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”, texto visionário, escrito por Deleuze em uma espécie de resposta a Foucault.
Nas sociedades disciplinares, conforme importante análise de Foucault, tudo incidia sobre o corpo – a ser confinado, docilizado, adestrado, higienizado… por fim, disciplinado, e o modelo de centro penitenciário criado por Jeremy Bentham, denominado Panóptico, literalmente “fez escola”, ao inspirar a construção desde o século XVIII de edificações e práticas, que serviram a hospitais, manicômios, igrejas, fábricas e também a escolas. Ainda vemos nos dias de hoje edificações que apresentam as características do Panóptico, que consiste no seu modelo inicial, em uma grande torre de vigilância no centro, cercada por celas ao redor. Quem está dentro das celas tem a constante sensação de estar sendo vigiado por algo ou alguém do alto da torre central, mesmo se não for possível de se assegurar da presença de algo ou alguém a vigiar. E esta sensação, promovida por uma suposição de vigilância centralizada, exerce uma força disciplinadora sobre o corpo, que passa a se moldar ao que, mesmo instintivamente, parece ser mais adequado para escapar de possíveis punições baseadas no olhar atento do vigia. Dispositivos externos ao corpo, funcionando como uma espécie de molde a limitar o que pode um corpo. O modelo prisional, suas práticas e moldes a nos indicar os balizamentos para um corpo. Corpo individual, que desde sua inserção na família, passando à escola, à fábrica, à igreja, de vez em quando ao hospital ou manicômio, podendo ir ao exército ou à prisão, sai de um espaço de confinamento para entrar em outro, sucessivamente, tal como a toupeira e sua relação com a toca. Muito rica a analogia que Deleuze faz ao que ele chamou de o animal das sociedades disciplinares: a toupeira. Animalzinho que não costuma enxergar bem, e que cava a sua própria toca, cuja espessura e profundidade funcionam como um dispositivo externo a disciplinar os movimentos de seu próprio corpo. E sair da cela, digo da toca, para a toupeira, é uma questão de vida ou morte, pois sempre pode haver um predador à espreita, no alto de uma grande torre panóptica central (mesmo que imaginária).
Se Foucault utilizou o modelo Panóptico de Bentham para reforçar a noção de disciplina, Deleuze escolheu trabalhar com outro indicador, a noção paranóica de controle, inspirado em William S. Burroughs, para nos apresentar às sociedades de controle, que irrompem século XX afora. O controle adota uma estratégia, que segundo Deleuze, tende a ser um tanto mais perversa do que a adotada pela disciplina, pois opera sinopticamente, através de um tipo de vigilância descentralizada, fragmentada, quase imperceptível, capaz de monitorar a um só lance de vista as diversas partes de um conjunto.  É como se cada um de nós e os dispositivos que criamos funcionassem como uma célula de controle, como somos muitos, multiplicam-se unidades de controle. Ao invés de uma torre central, o controle se desprega, se descentraliza, perdemos a sua referência, pois ele pode operar de qualquer parte e/ou em lugar nenhum, nos dando até a falsa e eventual sensação de que estamos livres. Deleuze apresenta a serpente como o animal das sociedades de controle, pois este animalzinho, que na grande maioria de suas espécies, também costuma não enxergar bem, passeia a céu aberto, quase sem medo de predadores, sem notar que ao se movimentar, suas velocidades e lentidões são modulados pelos anéis que quase invisíveis recobrem o seu corpo. A serpente carrega consigo, toda orgulhosa, seus anéis de controle. Se a disciplina molda o corpo, o controle modula nossas velocidades e lentidões.
No cenário das sociedades de controle os espaços de confinamento dão lugar a convergências inusitadas, virtualizações radicais e desterritorializações absolutas. As fronteiras entre empresa, casa, igreja, escola se tornam irrelevantes. Você não precisa estar confinado em uma sala de aula, um lugar específico, para aprender, é possível fazê-lo na empresa; você não precisa estar confinado em uma estação de trabalho para produzir, pode fazê-lo em sua casa. Não é a escola que ensina ao mercado, mas este que ensigna, “dá ordens” à escola, apresentando as demandas e conteúdos que merecem estudo e passam a ter relevância. É quando, por exemplo, a fábrica dá lugar à empresa, que por sua vez se torna uma corporação, que se distribui mundo afora, em formato transnacional-multinacional. A linha de produção está numa parte do globo, a montagem n’outra e a entrega dos produtos pode acontecer em qualquer lugar. Caso você esteja insatisfeito, ligue para um número de telefone e converse com uma gravação, isso após digitar senhas intermináveis. As prisões dão lugar a cada vez mais penas substitutivas que através do uso das coleiras digitais, colocam nas ruas prisioneiros fora dos espaços de confinamento dos presídios, em “ressocialização”, a dividirem as mesmas esquinas com indivíduos (supostos cidadãos de bem) que com seus smartphones e iPhones, são também monitorados a céu aberto pelas mesmas tecnologias GPS. Prisioneiros e supostos cidadãos de bem, ligeiramente separados apenas por definições de status social, mas unidos por uma mesma tecnologia, em defesa da sociedade.
Cada tempo surge com suas máquinas e seus problemas, e as maquinetas de hoje e do por vir se conectam a uma infinidade de gadgets sempre miraculosos a encher os nossos olhos de brilho, da luz que emana das telas de touch-screen. Antes, ficávamos cheios de dedos, no sentido de um excessivo cuidado de não sujar a tela de nossas maquinetas vistosas, hoje, você pode tocar a tela a vontade, e haja vontades, sempre aguçadas pelas mágicas de aplicativos que nos parecem necessários, mesmo que depois  de alguns minutos até venhamos a nos esquecer que eles existem.
Podemos estar aqui, acolá e em lugar nenhum, em uma espécie de “estar presente sem estar lá”, conforme apontamentos de Virilio, pois o que importa não é o corpo físico, mas suas velocidades e lentidões. E onde quer que venhamos a estar, nossos movimentos, velocidades e lentidões, são monitorados e modulados por uma espécie de controle a céu aberto. Não importa que haja um corpo e de quem quer que este corpo seja, se a disciplina funciona melhor sobre o indivíduo, indiviso, menor recorte de um social, Deleuze nos sugere o fenômeno da “dividualização”, em que é possível dividir cada indivíduo em porções, cada vez mais fragmentadas. Passamos a ser distribuídos por códigos de mais ou menos valia, cifrados em senhas, que nos transformam em meros dados informacionais.  Um corpo cai em frente ao balcão e atendimento de um hospital, antes de se abrir um prontuário para a internação, pede-se a prontidão de uma senha que faça jorrar fluxos pecuniários para bancar o pronto-atendimento. – O corpo passa a ser secundário, importam mais os dados primários de seu número de cartão de crédito e sua movimentação, seus traços digitais tal como pegadas no deserto da autoestrada informacional que chamamos Internet. Em um cenário como este, o próprio corpo precisa se “assenhar”, no sentido de modificar suas configurações imagéticas, para se adequar a exigências dos tempos em que cirurgias gráficas “photoshop” e médicas “silicone” se fazem exageradamente presentes
Penso que estamos inseridos em um contexto híbrido em que a disciplina e o controle se apresentam, não creio ter havido uma ultrapassagem completa de um modelo de sociedade a outro. Penso que os elementos de ambos os modelos de sociedade se fazem presentes nos dias de hoje, muitas vezes de maneira complementar, a moldar corpos e modular velocidades e lentidões. Fosse Kafka escrever um livro hoje, poderia muito bem se chamar “A senha”, ou de repente “Assenha” e este poderia ser um livro de grande utilidade e de muitos usos, pois conforme Deleuze e Guattari, este escritor de Praga, através de sua literatura, nos inspira a inventar saídas, o que não deixa ser uma espécie de proposta de subversão das senhas.  
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Osama ao mar, Obama nas alturas?

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Osama, Obama, O_ama, uma letra de diferença em duas biografias que não demorarão muito para serem imortalizadas nos cinemas, e que agora, por um capricho da história, poderão figurar sem grandes alardes em uma mesma película, vidas que se cruzam. A caixa preta povoada pelo brilho do feixe de luz que projeta no muro branco uma multiplicidade de imagens. Recordo-me de um sem número de filmes sobre o Vietnam, e a produção de desfechos para uma guerra perdida.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, tampouco às alturas,  me espanta a euforia que tomou conta das ruas, especialmente nos Estados Unidos da América do Norte. De fato, foi-se o ícone-mor da recente Guerra ao Terror, mas ao lançar seu corpo ao mar, não se estaria também construindo um már_tir? Não defendo Osama, que já foi defendido por patrocínios de um lado e de outro durante a Guerra Fria e que agora era caçado em todos os cantos. Ouvi dizer por aí que Osama vivo ajudou a reeleger o Bush-filho e que agora Osama morto seria de grande importância para a tentativa de reeleição de Obama.

Existiu mesmo um Osama? Acredito que muitos se lembram da investida ao Iraque promovida durante o governo do Bush-filho, justificada pela produção de armas de destruição em massa, cujas evidências nunca foram encontradas (teriam se auto-destruído?). Um de meus avôs morreu duvidando que o homem havia mesmo pisado na Lua, será que alguns de nós viverão sem acreditar neste corpo supostamente lançado aos tubarões? – Just cause you see it, it doesn’t mean it’s there. Os corpos desaparecem, assim somem as evidências, mas ainda é possível afirmar que houve uma morte (a ser investigada), vide o recente caso Eliza Samúdio. Outro fato que me espanta é a ordem de certos acontecimentos: Osama morre em uma data que não ofusca nem a missa de beatificação do Papa João Paulo II, tampouco o casamento do Príncipe.

É nas esquinas que algo acontece, não acontece, está para acontecer.

 

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As recentes intervenções nas ruas da Tunísia, Egito, Argélia, Líbia, têm nos mostrado que ainda há calor nas esquinas. Ou melhor, ainda se pode esquentar as coisas, especialmente quando o intervir é uma espécie de vir entre e as in(ter)venções se dão no calor de acontecimentos que afirmam o devir minoritário das multidões.

 

 Percebemos nesses movimentos que quando uma ou várias situações colocam o caldeirão para ferver, quase a entornar, as etnias, crenças, posicionamentos políticos dissonantes e disparidades socioeconômicas se misturam, perdendo a tradicional ênfase que em tempos mornos ou frios, estas mesmas frentes se dão, isoladamente, naquilo que sustenta cada um de seus diferentes apelos, sabores e interesses particulares.
 

O resultado “gastronômico” dessa mistura insurgente num caldeirão borbulhante é o surgimento de bolsões de comum, espaços-tempo em que é possível trabalhar com, em meio ao agenciamento de diferenças produzidas através de uma multiplicidade de forças em alianças provisórias, mesmo que improváveis, marchando juntas, dobrando as esquinas em imanência. 

          Que saberes-sabores extrair desses aquecidos caldeirões de acontecimentos em cada esquina?

 
Isso me lembrou os relatos acerca das “Barricadas do Desejo” do maio Francês de 1968, assim como os inúmeros acontecimentos pelo mundo afora, especialmente na América Latina, também durante a quente década de 1960, enquanto esta ainda estava fervendo. Depois vieram os Anos de Inverno da década de 1980, tal como nos alertou Guattari, período de passividade fria, de acomodação, de um silêncio sem mordaça (?!)… estes anos foram seguidos pelos de 1990, você se lembra da 1ª Guerra do Golfo, dos mísseis teleguiados e dos aparatos de destruição que dispensavam a marcha da infantaria, que pareciam apresentar ao mundo um novo modo de ocupação bélica modulado pela não-presença, conforme análise de Virilio? Espécie de “guerra de videogame”, com velocidades nunca dantes experimentadas até aquele evento.
 
          Você ocupa uma esquina sem precisar pisar nela.

Penso que há ocasiões em que é preciso esquentar as esquinas. Em tempos de GPS, de Google Street View, quando (todas) as esquinas são demarcadas a priori, ainda assim, é possível dizer que a revolução não será televisionada? É possível que ela seja “tuitada”, narrada em 140 caracteres através daquela máquina de pequeninas conversações frenéticas e suas esquinas, que é o Twitter. Máquina, que como outras, não é boa ou ruim de antemão, mas cujos funcionamentos, mais do que suas funções, é que vão determinar a sorte de acontecimentos aos quais filiá-la.

 
          Ainda há espaço nas esquinas para o inusitado e suas forças subversivas, para errâncias cujo caminho se (des)faz ao caminhar?
 

          Como experimentar um dérive situacionista em tempos de GPS, perdendo o rumo do destino já dado?


As esquinas podem se tornar pontos de encontro e ao mesmo tempo cruzamento de linhas. Linhas de toda sorte, conforme Deleuze e Guattari, que podem ser duras, flexíveis, de estratificação, de fuga, sedentárias, nômades… há uma multiplicidade de linhas e intercessores, incluindo as de despacho pelas encruzilhadas afora, o desafio é cartografá-las.


E havia música na praça…

A praça se não nasce de uma ou várias esquinas, localiza-se cercada de esquinas por todos os lados. Talvez a praça seja uma espécie de instalação para sinalizar a afluência de um punhado de esquinas. Para que serve mesmo uma praça em uma cidade? … quando uma ou várias bicicletas cruzam uma esquina, quando uma frase ou desenho é grafitada em uma esquina, quando a praça vira praia, dá até para sentir uma onda em suas esquinas. Incomoda-me avistar uma praça cercada, mesmo quando os motivos alegados envolvem a questão da segurança e de se evitar a depredação. Pois não basta perambular pelas esquinas, é preciso ocupá-las.
 
          Ainda acho que dançar alegre pelas esquinas é melhor do que marchar cabisbaixo em fila indiana.

 

Território de encontros por excelência, é nas esquinas que a multidão se sente mais à vontade. Seja aglomerada em grandes blocos ou em grupelhos, ouvimos os passos e as vozes, as reivindicações e as alegrias, de uma multiplicidade. Ali não se tem o um a um, mas a soma dissonante, as singularidades em marcha.

Na esquina tem outra esquina. Você dobra uma esquina e de repente… as dobras de dentro do fora. Esquinas de subjetivação. Esquizoanálise na Esquinanálise.

 

E de repente o relógio para. O tempo não.

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E de repente o relógio para. O tempo não. “O tempo não pára”, cantou no passado recente o poeta Cazuza, e ainda nos (en)canta no presente, pelas vitrolas, rádios, televisões, Ipods, Internet e demais máquinas, mídias e gadgets de reprodução áudio e visual por aí afora. Seja no formato analógico ou digital, suas virtualidades ainda nos provocam arrepios, cujos efeitos ora tiram o nosso sossego, ora nos acalantam. O poeta boêmio ainda canta e encanta aqueles que possuem sensibilidade e param por alguns minutinhos para curtir uma música. E curtir exige certo tempo, no que talvez vá além das nossas capacidades de medição. Tempo intensivo, desmedido, relacionado mais às sensibilidades e aos afectos, do que aos relógios.
 
Um tempo que não para é o das urgências. E as urgências não deveriam ser tratadas com pressa, mas sim, com modulações de velocidade, que podem ser rápidas ou lentas. No mais das vezes, a pressa funciona tal como um índice de paixão triste, operando como uma inimiga das velocidades, diminuindo a nossa potência de ação. Necessitamos de uma alternância entre velocidades e lentidões que aumente a nossa potência de ação para afinarmos a nossa capacidade de afectar e de sermos afectados, tal como nos sugere o filósofo Spinoza, e assim nos tornarmos capazes de experimentar o que pode um corpo.
 
E subitamente um coelho branco salta da toca, mete a mão no inexistente bolso de seu colete e retira de lá um relógio sem ponteiros para o qual olha e diz: “Oh puxa! Oh puxa! Como estou atrasado!” Em seguida, o coelho branco salta de volta para a toca sendo seguido imediatamente por Alice. Lewis Carroll e as aventuras de Alice, como Deleuze nos chamou a atenção, primeiro sobre o jogo de profundidades de Alice no país das maravilhas, e na seqüência, acerca da força das superfícies planas em Alice no país do espelho. Livros mágicos em que uma sucessão de acontecimentos se sustenta em uma miríade de paradoxos desconcertantes.
 
N’outro dia mesmo eu estava a pensar que talvez um relógio tivesse que ter ponteiros e ao mesmo tempo um espaço onde não houvesse ponteiros, onde de preferência não houvesse nada além de um vazio (espécie de presença edificante).  Vazio para nos lembrar que algo do tempo sempre escapará aos nossos regimes de medição, ao controle. Daí a pensar um relógio que ao invés de marcar as horas, as libertasse. Ou melhor, se fosse para ter ponteiros, que estes fossem frouxos e não tão firmes e que apontassem saídas, brechas, rupturas, mais do que segundos, minutos e horas com exatidão. Um relógio que fosse um elogio ao tempo que escapa. De toda maneira, ainda prefiro os relógios analógicos aos digitais, a velocidade analógica costuma ser mais interessante do que a digital.
 
Há os que usam o relógio para marcar as horas, e os que olham para esta maquineta a fim de medir um tempo, outros tantos usam estes gadgets inusitados apenas como enfeite. Por essas e outras: “Está cada vez mais complicado convencer uma criança a usar um relógio, máquina de um só gadget” Talvez porque as crianças se interessem mais por um relógio que entre em seus jogos e brincadeiras do que um que sirva apenas para lembrá-las de que nas horas que passam logo elas terão que parar de brincar. Se o relógio não solta raios laser, mesmo que imaginários, para que pregá-lo no pulso?
 
Se o tempo fosse mesmo líquido eu saberia ver as horas nos relógios de Dalí. Mas, daí a um, ou dois segundos, numa tarde de calor, as horas se evaporariam em nuvens invisíveis como o tempo. Você não vê o tempo, especialmente quando diz: “Eu não vejo a hora…”
 
Já faz um tempo que eu pretendo não fazer nada. Mas não fazer nada exige um esforço danado, ou seja, é preciso fazer muito, com precisão, numa exata medida que eu desconheço. Da espera eu também nada sei, pois tenho pouca paciência e (quase) nenhuma esperança. Apenas sinto, no mais das vezes, vontade(s). E a vontade, tal como uma força, eu também não vejo, apenas sinto (quando sinto). E quando sinto, pode ser como uma pancada, ou suave como uma pluma.
  

E o tempo passa, as horas se vão, os minutos escorregam e os segundos, pela pequenez desta unidade de medida, são os primeiros de que sentimos falta.

Acerca dos multiterritórios

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Os multiterritórios se assemelham a um grande e transbordante caldeirão de bruxa em intenso turbilhonamento, mistura da mistura em loop: “… orelha de cobra, pó de asa de morcego, com uma pitada de dedo de aranha” – é tudo feitiço!

 

Os territórios, conforme Guattari, quer sejam eles existenciais, geográfico-políticos, socioeconômicos, musicais, semióticos, não são extintos, se transformam. Arrastam-se e são arrastados no contínuo devir do mundo.

 

Olho ao redor e percebo a cidade e as subjetividades em meio aos aterros e lixões, passando ao lado dos condomínios de luxo e dos espigões. O morro cortado pelas vias de trânsito rápido. A nossa pseudo-Autoban é um grande queijo suíço.

 

E os carros, quantos carros! Quanto mais rápidas estas máquinas de locomoção, mais máquinas e maior a comoção. Quanto mais destas máquinas, menos movimento e maior a lentidão. Tenho a suspeita de que hoje em dia os nossos carros produzem mais pressa e poluição do que movimento. A pressa segue como inimiga das velocidades. Você pisa fundo, acelera, mas não sai do lugar.

 

Também temos as fabulosas máquinas de voar que hoje disputam mais os espaços de estacionamento nos aeroportos do que nos ares. E com a prática rasteira do overbook, que de literatura nada tem, estas máquinas de voar não saem do lugar e nós somos mantidos com os pés atados ao chão.

 

Muitas Igrejas instalaram seus templos e efeitos especiais onde antes tínhamos salas de cinema e parte da produção cinematográfica nacional segue pelas vias da espetacularização da favela, da polícia… antes faziam isso com o nordeste do Brasil.

 

Religião, do “religare” ao frenético liga-desliga, zapeando com o controle remoto na mão: Há mais pastores e padres eletrônicos, reality shows e jornais policiais na TV do que propagandas comerciais, o que mudou? Nada em grandes proporções, apenas aumentou-se o investimento em merchandising. E ao mesmo tempo é difícil diferenciar o que assistimos, pois no baile de máscaras, os discursos se assemelham.

 

Assistimos também à imoderada produção em série de celebridades. É provável que tenhamos hoje mais celebridades do que seres humanos, até porque, estas, de humano quase nada têm. Além disso, temos as celebridades digitais e seus indefectíveis avatares, algumas inclusive sob a forma holográfica em 3D a emocionar platéias aglomeradas em estádios de futebol, vide Hatsune Miku no Japão. (leia mais sobre isso em post recente no NewNomadology)

 

It’s evolution, Babe! A Academia pulverizada pelas soluções em educação fast food, os vídeos e músicas que não podem ter duração superior a três minutos. Os livros que não podem ser de papel – seria isso uma alergia, ou outro tipo de alegria?

 

E nas práticas de consumo, até os golfinhos se engalfinham, nadando apressados pelo assoalho dos oceanos, portando suas sacolas de plástico, pois não querem perder a liquidação total dos sete mares.

 

Enquanto isso, as subjetividades, que não podemos entender por estáticas, tampouco por algo já dado e exclusivamente internalizado, mas sim como processo sempre inacabado, estão por aí, pelas esquinas, onde encontros acontecem, não acontecem ou estão para acontecer. Cartografá-las, só se for para mantê-las em movimento. Há resistência, no sentido de invenção de modos de existência, conforme Deleuze, Guattari e Foucault, quando processos de subjetivação se dão em meios que não têm a Vida a se deixar de fato viver como prioridade.

 

Disciplinamento, docilização de corpos, formas de controle e ao mesmo tempo fissuras, rupturas, frestas, saídas, deslizamentos, quantas palavAras!

 

Os multiterritórios ainda conservam suas torres panópticas convivendo com formas de controle a céu aberto, será que a revolução não vai mesmo ser televisionada?

 

*imagem do golfinho extraída daqui.

 

Há gadgets que fazem falar e há gadgets que falam por nós.

 

Gadgets. É melhor dizê-lo no plural. Até porque, tal como um espirro, os gadgets nunca marcham sozinhos. Os gadgets são legião.

Tratar-se-ia de uma palavAra?
 
A pronúncia no inglês desta palavra mestiça pode ser experimentada aqui: http://pt.forvo.com/word/gadget/, e é possível perder o ar ao tentar dizê-la, numa espécie de gagueira: “…gad-get, g-ad-g-et…”. Repare que este website nos disponibiliza nada menos do que um gadget que permite que internautas registrem modos de se falar gadget – “Há gadgets que fazem falar…”. – Isso funciona?
 
Sabendo ou não a sua pronúncia exata, o fato é que estes apetrechos já fazem parte do nosso cotidiano há bastante tempo, sendo possível afirmar a existência dos gadgets mesmo antes deste termo ter sido cunhado.
 
A presença dos gadgets entre nós encontra-se hoje em dia tão evidente que chegamos ao ponto em que está cada vez mais complicado convencer uma criança a usar um relógio de pulso, por se tratar de uma maquineta de um só gadget, como ilustrei anteriormente aqui: Nothing but gadgets. E olha que há relógios desprovidos de qualquer função, mas que ainda assim funcionam como um gadget – apresento como exemplo o relógio de bolso do coelho branco de “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll. O coelho branco salta da toca e saca do bolso “inexistente” de seu colete um relógio sem ponteiros, para o qual olha assustado e diz: “Oh, puxa! Oh puxa! Estou atrasado!”.
 
Até a natureza nos tem pregado peças, o ornitorrinco é o devir-animal dos gadgets. Dos outros animais o ornitorrinco acoplou as peças mais inúteis, dando-lhes todo um modo de funcionar avariado. Um animal que é pura bricolagem do desassossego, imagem da aventura do pensar sem imagem, o avesso da lógica, performance da evolução-involução, intervenção no mamífero em encontro com a ave pato ou esquizomamífero, devir raspas d’um n’outro, cartografia da incerteza animal, "a prova de que Deus tem senso de humor" conforme Woody Allen, ou simplesmente um bloco de gadgets no mais profundo da pele de um animal.
 
Gadgets, expressão que bem poderia surgir em um texto beckettiano, por apresentar uma multiplicidade de sentidos e ao mesmo tempo não ter sentido nenhum, numa espécie de “Esperando Gadget” ou de “O Inominável”. Quase um signo puro a se acoplar a outros signos, toda uma maquinaria de expressão que pode se deslocar tal como um agenciamento coletivo de enunciação. Os gadgets circulam à boca pequena pelas esquinas, ganhando sentido de geringonça, de dispositivo, de aplicativo informático, e também na forma de conceito por intercessores como Deleuze, Guattari, Lacan, Baudrillard, entre outros.
 
Reza a lenda, conforme o artigo “La psychanalyse ou les gadgets”, de Sophie Bialek, que a origem do termo gadget está ligada à construção da Estátua da Liberdade, tendo sido forjada pelo escultor Bartholdi, cuja carpintaria metálica foi instalada no atelier do Monsieur Gaget (isso mesmo, Gaget e não gadget). Pois o Monsieur Gaget, que também era escultor, resolveu criar pequenas maquetes da estátua para fins comerciais, negociando-as a preços módicos. Este pequenino artefato, bibelô sem utilidade, curiosamente despertava enorme interesse nas pessoas que o viam e quase que instantaneamente desejavam possuir uma pequenina réplica da estátua, que vinha sempre com o nome do Sr. Gaget cravado nela. Daí para a produção em larga escala deste pequenino objeto de desejo a ser comercializado tanto em Nova Iorque quanto em Paris e para o imbróglio lingüístico franco-anglo-saxão (também em larga escala), foi um pulo. Acredita-se que os franceses têm enorme preguiça de falar e entender a língua inglesa e vice-versa. Logo, dos dois lados do Atlântico, começou-se a chamar de gadget a estes produtos que vinham com a palavra “gaget” gravada.
 
Você visita a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade, o Cristo Redentor ou qualquer outro monumento turístico e sente dificuldade em resistir à força de atração que instaura a necessidade de comprar uma réplica destes monumentos, mesmo sabendo que ao chegar em casa aquele objeto não terá nenhuma utilidade. Em episódio recente, o premier italiano Silvio Berlusconi foi atingido no rosto por uma réplica em miniatura da catedral de Milão, gadget que funcionou para além de sua função de souvenir enquanto objeto, mas que ficará na lembrança de um povo e nas marcas de um rosto.
 
No livro-bomba “O Anti-Édipo”, Deleuze e Guattari trabalham com a noção de gadgets como se estes fossem pequenos objetos ou aparelhos engenhosos que constituem uma novidade. Escrevem ainda que os gadgets nada têm a ver com as máquinas desejantes, conforme a esquizoanálise, nem com fantasmas, tal como este último conceito é abordado na psicanálise. Ou melhor, têm a ver, no sentido inverso, pois os gadgets, as descobertas e os fantasmas são resíduos de máquinas desejantes submetidas a leis específicas do mercado exterior do capitalismo ou do mercado interior da psicanálise. É aqui disparada uma crítica contra a concepção psicanalítica lacaniana dos gadgets na qual estes operam como sintomas de uma espécie de delírio funcional contemporâneo que toma o objeto como fonte de satisfação e objetifica os sujeitos, tornando-os sujeitos-objetos.
 
Os gadgets no geral são criados com funções pré-definidas, mas o que está em jogo, além e aquém de suas funções é como eles funcionam, ou deixam de funcionar, mais até do que suas funcionalidades já dadas. Alguns gadgets funcionam avariados, outros não funcionam mesmo estando em plenas condições. Parece-me que, há muito, o como funciona superou o absolutismo da idéia de função. Veja o exemplo recente dos aparelhos de telefonia celular, que já não são telefone, mas sim, depositórios de gadgets. Suas funcionalidades costumam ir além de como os colocamos para funcionar… no mesmo instante em que sua função apriorística já caducou. Os gadgets caminham junto com a pressa alternando velocidades e lentidões.
 
Afinal, o que pode um ou mais gadgets? Que tipo de acomplamentos podemos criar com os gadgets? Com que fins, através de que meios? Os gadgets podem ser inúteis, e de repente você cria uma utilidade para eles. As crianças o fazem o tempo todo. O que está em jogo, volto a dizer, é a pergunta como funciona, e de forma nenhuma mais um catálogo de funções.
 
Alguns personagens se tornaram célebres através de seus gadgets. Talvez o mais “bem sucedido” de todos, o nosso Monsieur Gadget, ou a vingança anglo-saxã é justamente o garoto propaganda dos gadgets porvir, o agente secreto 007, James Bond, com sua infinidade de apetrechos, ferramentas, carros de luxo que ao aparecerem na tela de cinema aguçam imediatamente o desejo do espectador que reside em nós. Gadgets que funcionam impecavelmente, desde um terno que não amarrota, passando por relógios comunicadores, caneta que aciona um lança-mísseis. Gadgets de um 007, e o amanhã nunca morre. Até mesmo as musas deste espião funcionam como uma espécie de gadget, objetos de desejo que nos objetificam através do belo e do sensual.
 
Talvez menos glamoroso e mais divertido é a paródia a James Bond que encontramos no Agente 86 (Get Smart) e seus gadgets que quase sempre funcionam avariados. Imaginem um agente secreto que quando está em missão também secreta, utiliza um crachá pregado no terno à altura do peito dizendo “Agente Secreto”. Mais ainda, seu telefone escondido na sola do sapato, detalhe, só podia ser um gadget, digo, aparelho de telefone de discar, pois se fosse de teclas ou touchscreen, a cada passo uma nova ligação.
 
E daí passamos ao cinto de utilidades do Batman e seu Batmovel o carro movido a gadgets. Não nos esqueçamos de citar o próprio personagem de desenho animado, o Inspector Gadget, outro agente secreto e seus apetrechos. A maleta do Gato Félix e o sem número de objetos inúteis que são sacados de dentro dela. Os Super Gêmeos, que, pasmem, eram capazes de um devir-gadget: “Super Gêmeos ativar… forma de um balde de gelo… forma de uma raquete de tênis.” 
 
Não podemos nos esquecer de MacGyver em sua profissão perigo, pois ele criava seus próprios gadgets, eis um modo interessante de sair do lugar de quem apenas recebe, compra e consome os gadgets dos outros.
 
As Mitologias de agora, se quisermos cartografá-las tal como Roland Barthes o fez na década de 1950, também estão cheias de personagens conceituais e seus dispositivos. É o caso do fenômeno pop Lady Gaga, ou como eu a chamo, “Lady Gadget" aliás, esta artista que se traveste de gadgets, quem ainda não a assistiu no vídeo de “Bad Romance” e que com(o) os demais gadgets e as demais máquinas “fantásticas” e seus gadgets “fabulosos”, cunha através da expressão de seu corpo e filiações semióticas, os mais variados signos de leitura pop. Signos de sedução, de sensualidade, de androginia, de pastiche, de ironia, ícone pop como fetiche de mercadoria imagético-musical, “Lady Gadget, Lady Gaga”, por favor (não) nos responda o que pode um corpo.
 
Os gadgets não são bons ou ruins, eles apenas funcionam ou deixam de funcionar. Funcionam avariados ou plenamente, e isso nos alegra e ao mesmo tempo nos enjoa. Os gadgets não foram feitos para durar para sempre, mesmo porque ainda não inventaram um gadget que nos permita chegar à exata medida da duração de um para sempre. Aos que se sentem aprisionados por algemas em forma de gadgets, lembrem-se que a chave pode ter também a forma de um gadget. Subverta!

 

… algumas primeiras palavAras por aqui.

 As palavAras são as que cutucam. É difícil delas escapar ileso. Nelas esbarramos ou por elas somos esbarrados. Tropeçamos, caímos, e logo podemos nos colocar de pé outra vez. E quando de pé estamos, para onde vamos? O caminho se faz ao caminhar, já nos disse um poeta, o contrário de fazer promessas de traçado ou de composição.

 
Ah, isto era para ser uma coluna, mas talvez funcione melhor como uma esquina, pois geralmente não sabemos que tipo de encontro nos reserva uma esquina. Uma esquina não, várias, com seus cruzamentos e transversalidades, compondo nomadologias repletas de palavAras, estas mesmas que atravessam ou colocam para atravessar. Ou seria atraversar?
 
As palavAras e os conceitos guardam qualquer coisa de afinidade e aliança. Guardam e ao mesmo tempo perdem. É porque as palavAras são de duração efêmera, embora mesmo assim sejam capazes de nos afectar e de serem afectadas.
 
Sorrateiramente escondidas nas entrelinhas de um texto escrito, de uma fala, de um sussurro, grito, ou outro som qualquer, lá estão elas, blocos de palavAras nas esquinas da frase. E é por lá que transitaremos, povoando esquinas e seus blocos de palavAras.
 
Nesta coluna, que surge com a força de uma ou várias esquinas, haverá palavras também, assim como imagens, ruídos, conceitos, um punhado de elementos, cenas e acontecimentos.
 
As ciências, as ditas humanas, e as de outras laias, assim como as artes, e o agito das forças do mundo, nos fornecerão alguns balizamentos… outros balizamentos nós é que teremos que construir e inventar. E a construção aqui se dá para que possa funcionar acolá. Onde? No mundo.
 

Agradeço ao Rafael Reinehr pelo convite e aqui me junto aos muitos que compõem esta rede incrível. Longa Vida ao OPS! e muito trabalho pela frente.