tentações do ateísmo – por um ateu

Espiritualidade, como a entendo, é o mesmo que reflexão – atitude reflexiva profunda e, se quisermos, de amor reflexivo à vida. Não qualquer reflexão, claro, mas reflexões universais sobre o sentido da vida e os sentimentos profundos que tais reflexões engendram. Reflexões sobre indagações últimas que não têm respostas definitivas, por mais desesperadamente que nossas teorias, doutrinas e dogmas tentem fornecê-las. Nesse sentido, ateísmo e religião se confundem: a religião afirma, o ateísmo nega – ambos, no entanto, apoiando-se na fé e na crença, seja em tradições e valores ancestrais, seja nas ideias das filosofias científicas.

Há questões que simplesmente não são da alçada do método científico (como imortalidade, por exemplo). Negá-las, para o ateu, é a primeira tentação, como o é respondê-las através da superstição e da tradição para o religioso. Quando os ateus não negam tais questões, mas negam tão somente as respostas fáceis religiosas para elas, acabam tornando-se dependentes da religião: a outra face da moeda, a negação.

A postura mais comum dos ateus que conheço (pessoalmente ou através de suas obras) é a atitude anti-cristista – isto é, a negação da religião em sua manifestação ocidental da tradição judaico-cristã. A maioria deles desconhece os conceitos mais elementares de outras religiões (atuais ou não, hegemônicas ou não), recorrendo ao termo genérico ‘Religião’ mas utilizando somente argumentos referentes à cultura judaico-cristã. Isso limita muito o argumento dos ateus, que é ainda mais simplificado quando assume a forma exclusivamente negativa: negam a Religião (sic) apontando os crimes históricos da Igreja, as manipulações da superstição e dos costumes religiosos por parte de estruturas de poder e, também, criticando o comportamento do ser religioso, que revela-se, muitas vezes, intolerante, medíocre e baixo, sobretudo no que se refere a aspectos morais da cultura.

Ora, acusar intolerâncias, baixezas, crimes e mediocridades nas religiões é uma maneira falsa de negá-la. Primeiro, porque todas essas crueldades não representam o discurso religioso como um todo, mas refletem interpretações e aplicações, por parte de grupos e/ou seitas, que muitas vezes deturpam e distorcem claramente os próprios fundamentos ancestrais da sua própria tradição religiosa. Segundo, a falácia se revela quando o argumento ateu quer fazer-nos pensar que tais crueldades manifestam-se exclusivamente na religião. Intolerâncias, baixezas e mediocridades aparecem em tantas outras dimensões humanas, sobretudo na Política (que por vezes também se apropria simbolicamente da religião).

Acusa-se muito a Santa Inquisição, este crime histórico da Igreja Católica de Roma, para atacar a Religião como um todo. Mas o ateu cujo argumento se resume sobretudo ao anti-igrejismo, anti-catolicismo e anti-cristianismo, deveria, então, recorrendo à mesma lógica, atacar a Política como um todo, acusando-a de ser a dimensão humana responsável por inúmeras tiranias, pelo nazismo, pelo fascismo e pelo stalinismo. Seria o caso de abolir a Política? Não creio. Seria o caso de abolir a humanidade, acusando os crimes que cometemos ao longo da História? Não creio também.

Desvencilhar-se de religiões e de filosofias totalizantes, estas filosofias reduzidas a “teorias do conhecimento: isso é filosofia em sua agonia e morte” (Nietzsche), é imperativo. Acreditar em dogmas religiosos ou em dogmas filosófico/científicos: ambas as atitudes têm mais coisas em comum do que parece a primeira vista. Declarar-se ateu materialista implica em declarar a crença em teorias acerca da matéria e, necessariamente, ignorar qualquer coisa que não caiba nas teorias vigentes sobre a matéria. Sim, teorias! Porque há cientistas – sim, cientistas – que afirmam ser a matéria o nosso maior mistério científico contemporâneo.

Ou seja, tanto o ateu materialista quanto o crente religioso alicerçam toda a sua crença no Mistério. Enfrentar a condição humana é tarefa que traz em si exigências supremas. Claro que eu, enquanto ateu, não creio que as religiões – quaisquer delas – ofereçam um modelo adequado para alcançar as respostas àquelas indagações últimas lançadas por nosso inato apetite de saber. Na verdade, nem sei se o que devemos buscar são respostas…

Enfim, reitero: espiritualidade é um processo. Nietzsche, cujo ateísmo e ácidas críticas à religião dominam tanto sua filosofia quanto sua reputação, rejeitou e censurou a religião sob muitas de suas formas – em particular suas manifestações mais sectárias e hipócritas –, mas nunca rejeitou a espiritualidade. Nisso, não obstante as enfáticas contradições, Nietzsche traz profundas afinidades com Hegel, com Sartre e outros filósofos. O que se propôs nas obras desses filósofos foi naturalizar a espiritualidade, revalorizar ou reencantar a vida cotidiana, livre de religiões e pensamentos fechados. Recombinar espiritualidade com ciência e natureza em vez de jogá-las uma contra a outra.

Espiritualidade, como disse, é para mim atitude reflexiva perante a vida. Espiritualidade não é meramente religião organizada, nem tampouco é anti-ciência. Ateus, uní-vos não contra as religiões somente, mas sim contra tudo que se apega a dogmas e a convicções de qualquer natureza. Deixar-se limitar , enquanto ser racional, por dogmas e convicções é quase que matar-se. Aliás, a luta nem é contra algo, mas é uma busca íntima com amplo sentido do Comum. Nós, ateus, precisamos amadurecer nossas posições críticas, nossos argumentos – limitar-se a falar mal da Religião, apontar seus erros, além de fácil, é falso. Sobretudo quando negamos a Religião enquanto instituição, mas assumimos os seus valores morais! – o que é, afinal, a moral humanista? Igualdade, fraternidade – estes são os valores mais evidentemente cristãos! Mataram Deus, mas não tiveram coragem de matar seus valores? O que há por trás disso?

A condição humana é agnóstica – é daí que devemos partir.

nem esquerda, nem direita, nem fora do eixo! Ivana Bentes e o artigo do Passa Palavra

Contexto:

O projeto/coletivo Passa Palavra publicou um artigo intitulado “A esquerda fora do eixo”, abordando as “últimas mobilizações em São Paulo e apontando a fragilidade prática e teórica da esquerda num cenário de ascensão e transformação econômica”.

Inicialmente o texto faz uma resenha política, por assim dizer, dos movimentos livres que aconteceram em São Paulo, incluindo a Marcha da Liberdade, que ampliou-se para uma mobilização nacional, realizada no dia 18 de junho, envolvendo pelo menos 40 cidades em todo o Brasil. Em seguida apresenta a sua visão do Coletivo Fora do Eixo (um dos núcleos articuladores da Marcha), analisa as relações do Coletivo com a esfera pública cultural e política e também com o mercado da cultura. Por fim, acusa fragilidade política e social nos movimentos por eles não apresentarem um conteúdo político efetivamente e estruturalmente transformador, e acusa o Coletivo Fora do Eixo de vislumbrar, através de certa apropriação simbólica dos movimentos, a ampliação de sua representatividade perante possíveis públicos de suas ações culturais e de negócios alternativos.

Como resposta a este artigo, a pesquisadora Ivana Bentes publicou no blogue trezentos o texto “A Esquerda nos Eixos e o novo ativismo”, no qual defende os movimentos em questão como uma forma de participação social, cultural e política que reflete as novas conjunturas do capitalismo cognitivo e das novas ferramentas tecnológicas que propiciam articulações em rede, descentralizadas, que embora não proponham um novo sistema como alternativa ao capitalismo, criam novas dinâmicas e reinventam processos dentro do próprio sistema, renovando-o, hackeando-o, através de novas estratégias e modelos de ação coletiva autônomos e inovadores. Para reforçar a sua posição, Ivana Bentes faz uma defesa conceitual da importância do Coletivo Fora do Eixo e tacha o artigo do Passa Palavra de velha esquerda incapaz de lidar com as novas formas de mobilização e de compreender os novos cenários, novos agentes e incertas possibilidades do capitalismo cognitivo.

Comentário

A minha análise, bem simples é verdade, conclui que Ivana Bentes acerta, confirmando seu profundo e amplo conhecimento sobre os temas em pauta, em todos os argumentos aos quais recorre para oferecer um panorama conceitual dos atuais processos sócio-políticos e culturais, que se baseiam e se alimentam de movimentos transversais e heterogêneos. Mas erra ao aplicar todos esses argumentos também às ações e escopos do Coletivo Fora do Eixo, como se o Coletivo fosse um exemplo suficiente desses novos processos.

Eu creio que o Fora do Eixo ocupa um lugar importante no cenário cultural e sobretudo no mercado criativo do Brasil de agora, mas essa defesa entusiasmada de Ivana Bentes falha ao corroborar o artigo do Passa Palavra ao mesmo tempo em que quer negá-lo: afinal, acaba por centralizar e personificar todos os potenciais dos movimentos livres no modelo de atuação do Fora do Eixo, tornando-o protagonista de um processo em que ele é apenas coadjuvante! O afã de defender as estimulantes e múltiplas possibilidades de um novo capitalismo acabou por resultar numa defesa desnecessária e sobretudo superestimada do Coletivo Fora do Eixo!

Vejo com clareza que o Coletivo Fora do Eixo não é de esquerda nem de direita, mas uma rede de entidades (inclusive empresariais) que realiza e participa de ações que mantêm escopos relacionados ao mercado da cultura e acabam por percorrer esferas diversas da participação política, seja colaborando com o Governo na elaboração dos editais em que eles mesmos concorrem, seja centralizando a articulação de movimentos livres, de classes médias, com bandeiras ativistas amplas (ainda que resumidas na ideia central de Liberdade).

Romantizar o Coletivo Fora do Eixo também não é caminho pertinente. Se Pablo Capilé queria o patrocínio da Coca-Cola para realizar a marcha da Liberdade, eu não vejo motivo para discussão (embora eu considere isso lastimável). Mas para quem acompanha minimamente as ações do coletivo no que se refere às articulações ativistas nas redes, fica patente a posição hierárquica de liderança assumida por Pablo Capilé, demonstrando, pelo menos na dimensão prática, uma estrutura hierárquica bem definida (e legítima, sem dúvida). Logo, o Coletivo constitui um exemplo de inovação e de exploração de novas potencialidades de mercado cultural dentro do sistema, mas não vai muito além disso – muito menos alcança um patamar de vetor político dos jovens que usam Twitter e Facebook.

Por fim, acho que o artigo do Passa Palavra não merece a desqualificação conjuntural que Ivana Bentes tentou justificar apontando, inclusive, a falta de um arsenal teórico e afirmando que o artigo reflete medo e ressentimento de uma esquerda ultrapassada diante das mudanças estruturais. Ressentimento, sinceramente, percebi em ambos os artigos (cada um a sua maneira e por razões diversas), mas o artigo do Passa Palavra traz sim reflexões pertinentes que exigiriam não uma refutação apressada, mas sim um debate mais cauteloso.

Por exemplo:

As Marchas da Liberdade trazem em si – para além do seus significantes simbólicos – um efetivo poder de transformação política e social das atuais estruturas de poder? Claro que a marcha e as suas dinâmicas de articulação (que envolvem diretamente ferramentas da web) contribui para, quem sabe, o fortalecimento de novos processos de participação – mas não acho justo argumentar que as classes médias conectadas, interessadas em consolidar estilos de vida consumistas/sustentáveis – sem objetivar uma mudança estrutural nos modelos de produção hegemônicos – são o novo vetor da ação política verdadeiramente transformadora. (Ivana Bentes até argumenta que esse modelo de organização da Marcha da Liberdade pode vir a envolver “os pobres e precários das periferias e favelas” – esse argumento merecia mais do que uma linha! :( ).

O Coletivo Fora do Eixo é mesmo o melhor emblema desses novos movimentos e possibilidades que estão surgindo dentro do capitalismo chamado cognitivo? O Coletivo tem como base a autonomia, liberdade e um novo “comunismo”, como afirmou Ivana Bentes? (e o fez, aliás, num trecho de sua resposta que é obscuro e cheio de talvezes, que é o item 4 dos problemas que a autora enumera).

Há, na abordagem de Ivana Bentes, contradições importantes dos movimentos em questão que foram ignoradas. O objetivo deste pequeno texto, portanto, é unicamente ampliar o debate para que os movimentos livres nascentes cresçam em potência e em alcance e, sobretudo, consigam o êxito de se inserirem, com algum grau de efetividade, nos reais processos de transformação social que são, pensando nas novas tendências, autenticamente autônomos, independentes e inevitáveis!

resposta à resposta do deputado Emiliano José sobre a aprovação do Código Florestal

O deputado federal Emiliano José (do PT baiano), por quem nutro um respeito genuíno devido a sua trajetória, respondeu a uma provocação minha postada no facebook no dia da aprovação do novo Código Florestal devastador.

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O deputado diz (fazendo um resumo de sua resposta que pode ser lida na imagem acima) que a bancada do PT lutou para melhorar o Código, mas decidiu aprová-lo para depois lutar contra a desastrosa emenda 164. Depois justifica o seu voto a favor do novo Código dizendo que seguiu a orientação do partido e do governo, mencionando que “ninguém era simpático ao relatório” e concluindo: “infelizmente, como a sociedade civil não conseguiu se mobilizar, não conseguiu colocar milhares de pessoas para pressionar a maioria a favor dos interesses ruralistas, (…) ficamos numa impressionante minoria na Casa”.

Caro deputado, passarei por alto por uma ou duas contradições na sua resposta das quais não quero me aproveitar, para ater-me somente ao essencial, que não foi abordado por você: a sua resposta revela duas importantes questões sobre o atual estado viciado do nosso sistema político, no qual você é só um reflexo.

Primeira questão: você diz que “ninguém era simpático ao Código” e que o PT lutou para melhorá-lo, mesmo assim a maior parte da bancada, inclusive você, votou a favor do Código como foi proposto, para seguir a orientação do governo e do partido. Parece, assim, que os partidos políticos não são mais capazes de alinhar-se a partir de idéias, mas sim a partir de acordos transitórios cujos objetivos extrapolam a esfera do interesse público.

O PT, com a contribuição do seu voto, aprovou um Código Florestal que continha uma emenda desastrosa, como você mesmo disse, proposta, entre outros, pelo PMDB, partido da base aliada do governo cuja orientação você seguiu.

Você defende a aprovação do desastre em nome da obediência à orientação partidária e governista? E a orientação do governo e do partido tende á aprovação do que você considera desastroso?

Segunda questão:  você diz que a sociedade civil não foi capaz de se mobilizar para pressionar o Congresso – argumento que é muito questionável, porque mobilizações da sociedade houve muitas e diversificadas, em várias frentes (o que uma rápida pesquisa online pode comprovar). Talvez você retruque que tais mobilizações não ganharam força suficiente para dissuadir deputados de votarem no desastre, mas cabe analisar a outra face da moeda: será que a sociedade não se mobilizou? Ou será que a nossa democracia é surda?

Atirar à sociedade a responsabilidade sobre as escolhas e diretrizes desastrosas defendidas pelos seus representantes parlamentares eleitos é cômodo e, também, acaba por escarnecer de todo o sistema da democracia representativa. Ou devemos crer que todo eleitor vota às cegas nos seus representantes e depois têm que se mobilizar aos milhares para evitar que esses mesmos representantes aprovem o desastre?

É evidente que nós eleitores temos um mal hábito: o de pensar que votar é abdicar de nossa responsabilidade e transferi-la para os nossos representantes políticos. Mas mesmo  isso não justifica que aqueles que estão nos representando aprovem no Congresso o desastre assumido simplesmente porque nós, eleitores, abdicamos erroneamente de nossa responsabilidade.

Fica claro então a premente necessidade de uma reforma política que deve começar pela consciência dos parlamentares comprometidos com os interesses majoritários da sociedade que, certamente, não incluem emendas desastrosas. Confio que um político com a sua trajetória exemplar estará à frente da luta por mudanças estruturais na dinâmica política que hoje se vê obrigada a aprovar emendas desastrosas por conta de arranjos partidários.

As coisas estão mudando do lado de cá dos eleitores, e mudarão também  –  mais cedo ou mais tarde – na deturpada esfera política do jogo partidário de interesses restritos de sujeitos que manejam a política segundo interesses  de grupos de poder.

O fato de o deputado Emiliano José ter respondido à uma colocação de um eleitor demosntra que o deputado mantém aberto o diálogo e se preocupa com o debate político para além do parlamento, o que é bom sinal! Importante também que esse diálogo se dê a partir de uma rede social, o que evidencia a importância desses novos canais de interação na internet.

Cabe, porém, decidir de que lado você está, deputado: do lado da mudança? Ou do lado da perpetuação do jogo político viciado que o faz aprovar emendas do desastre?

Por fabricio kc, um eleitor baiano.

Antitextos – apresentação

Entre hipertextos e subtextos, apresento a coluna Antitextos.

Aplica-se o sufixo de raiz grega Anti para indicar oposição, ação contrária. Entretanto, a proposta da coluna Antitextos não se baseia na destruição ou no embate, mas, antes, no inconformismo, este catalisador da criatividade que alimenta a esperança de fazer realizar-se o que se sonha.

Veremos aqui arte, cultura, filosofia e cotidiano, se assim quisermos classificar os pensamentos, sempre inquiridores e sugestivos, sempre provocativos e abertos. O ativismo existencial se manifestará, aqui, na forma de narrativas livres e suscintas, buscando as questões em vez das respostas – alimentando o impulso que nos move em direção a um pensamento emergente, intenso, de existência cultural desenfreada em atividade e estranha em relação às estruturas sociais instituídas: escola, governo, igreja e indústria.

Menos ‘escola’ e mais consciência e criatividade! Menos ‘governo’ e mais Política e liberdade! Menos ‘igreja’ e mais Espírito! Menos indústria e mais… pessoas! Mais alegria…

Opa! A fagulha da discussão já se acendeu? Espero iniciar boas discussões nesta coluna, e todos serão bem-vindos – especialmente aqueles para quem a intuição e o inconformismo valem mais do que uma vida de consenso.

Fabrício kc