O bem-vindo apoio ao Som&Luz

Quem vem lá? Quem vem lá profanar minha ondulante pradaria? Estrela, gritos de dor cristalizados pelo infinito vazio desta celeste cobertura. Testemunhas dos dolorosos massacres daqueles dias em que a insegurança e o ódio arrancaram-me do dorso a melhor comunidade que em mim germinou.

Assim começa o belíssimo espetáculo Som&Luz nas ruínas da Catedral de São Miguel, região missioneira do Rio Grande Sul. Quem é de lá conhece a sensação de assistir ao som&luz, principalmente se viu o espetáculo quando criança. O roteiro é sempre o mesmo: Chegar à tardinha no parque, de preferência com toda a família, matar o tempo passeando pelas ruínas esperando anoitecer, ouvir histórias sobre “a cobra grande de São Miguel”, que nos longínquos tempos dos jesuítas tocava o sino com o rabo e devorava as criancinhas (história que invariavelmente os adultos sempre lembram de contar para as criancinhas) e, quando já está tudo escuro e o silêncio é supulcral, ouvir aquele estrondo no céu, perguntando ameaçadoramente quem vem lá, quem são aqueles estranhos (nós!) que vêm ali, debaixo de estrelas, profanar aquelas terras como há muitos anos fizeram espanhóis e portugueses, por força de seus acordos vis.

É uma sensação única assistir a este lindo espetáculo que tem como personagens a terra, a catedral – interpretada na voz de Fernanda Montenegro – e os espíritos dos heróis e vilões que ali viveram e lutaram, mataram e dominaram. É parada obrigatória. Quem ouvir Sepé Tiarajú, líder dos Guaranis dizendo uma vez “Esta terra já tem dono. Deus e São Miguel a entregaram aos animais que a tem povoado. Portanto, general assalariado, ajoelha de dor e beija os cascos do meu cavalo…” não esquece nunca mais.

Mas porque estou falando sobre o Som&Luz? Explico: hoje pela manhã li na Zero Hora que o espetáculo que há mais de trinta anos atrai e encanta os turistas da região missioneira do estado (minha terrinha…) receberá uma injeção de verbas do BNDES, tendo em vistas o aumento de circulação de pessoas previsto pela Copa. De tanto problema que já causa essa Copa, despejos e remoções, alguma coisa boa havia de trazer. É mais que bem vindo o apoio à cultura do estado e da região, que não é por falta de coisa bonita que não atrai mais gente.

Deixo vocês, abaixo, com a continuidade dos versos que abrem o Som&Luz, um pedacinho da história do nosso povo. Curtam!
 
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TERRA: Quem vem lá? Quem vem lá profanar minha ondulante pradaria? Estrela, gritos de dor cristalizados pelo infinito vazio desta celeste cobertura. Testemunhas dos dolorosos massacres daquelas dias em que a insegurança e o ódio arrancaram-me do dorso a melhor comunidade que em mim germinou. Ah estrelas, vento irmão, afastai o novo intruso.

RUÍNAS: Um momento vos pedimos, calmo leito sôbre o qual repousamos há tanto tempo, fecunda terra que manteve e tornou fortes nossos bravos construtores.

Amiga terra, berço e sepultura, nós ruínas desgastadas, estaremos dentro em breve confundidas com o lodo em vosso ventre. Antes, porém, atendei!

Permite que estes estranhos que voltam a passear aqui, sem a mesma graça, é claro, dos antigos guaranis, saibam o que foi feito àquele povo tão belo.

Que os estranhos aqui presentes, pelos motivos mais diversos do mais leviano ao mais penetrante, dividam conosco a mágoa universal de ter assistido a um massacre no qual o inimigo colonialista, por cobiça, raiva e inveja moralista, matou com tiro de lança o legítimo habitante destes campos, os braços construtores desta igreja.

Libertai, serena terra, o espírito de um povo cuja história épica encerra verdades que servem de novo.

Os estranhos ora atentos com seus olhos assustados, podem ser talvez isentos da culpa dos crimes aqui consumados. Mas já que vieram aqui, devem ouvir nos ventos a verdade que encerrais: como foram arrasados vossos filhos, nossos pais, os tranquilos Guaranis….

(trecho do contexto do Espetáculo Som e Luz – IPHAN)

O bem-vindo apoio ao Som&Luz

Quem vem lá? Quem vem lá profanar minha ondulante pradaria? Estrela, gritos de dor cristalizados pelo infinito vazio desta celeste cobertura. Testemunhas dos dolorosos massacres daqueles dias em que a insegurança e o ódio arrancaram-me do dorso a melhor comunidade que em mim germinou.

Assim começa o belíssimo espetáculo Som&Luz nas ruínas da Catedral de São Miguel, região missioneira do Rio Grande Sul. Quem é de lá conhece a sensação de assistir o som&luz, principalmente se viu o espetáculo quando criança. O roteiro é sempre o mesmo: Chegar à tardinha no parque, de preferência com toda a família, matar o tempo passeando pelas ruínas esperando anoitecer, ouvir histórias sobre “a cobra grande de São Miguel”, que nos longínquos tempos dos jesuítas tocava o sino com o rabo e devorava as criancinhas (história que invariavelmente os adultos sempre lembram de contar para as criancinhas) e, quando já está tudo escuro e o silêncio é supulcral, ouvir aquele estrondo no céu, perguntando ameaçadoramente quem vem lá, quem são aqueles estranhos (nós!) que vêm ali, debaixo de estrelas, profanar aquelas terras como há muitos anos fizeram espanhóis e portugueses, por força de seus acordos vis.
 
É uma sensação única assistir a este lindo espetáculo que tem como personagens a terra, a catedral – interpretada na voz de Fernanda Montenegro – e os espíritos dos heróis e vilões que ali viveram e lutaram, mataram e dominaram. É parada obrigatória. Quem ouvir Sepé Tiarajú, líder dos Guaranis dizendo uma vez “Esta terra já tem dono. Deus e São Miguel a entregaram aos animais que a tem povoado. Portanto, general assalariado, ajoelha de dor e beija os cascos do meu cavalo…” não esquece nunca mais.
 
Mas porque estou falando sobre o Som&Luz? Explico: hoje pela manhã li na Zero Hora que o espetáculo que há mais de trinta anos atrai e encanta os turistas da região missioneira do estado (minha terrinha…) receberá uma injeção de verbas do BNDES, tendo em vistas o aumento de circulação de pessoas previsto pela Copa. De tanto problema que já causa essa Copa, despejos e remoções, alguma coisa boa havia de trazer. É mais que bem vindo o apoio à cultura do estado e da região, que não é por falta de coisa bonita que não atrai mais gente.
 
Deixo para vocês abaixo, a continuidade dos versos que abrem o Som&Luz, um pedacinho da história do nosso povo.

TERRA: Quem vem lá? Quem vem lá profanar minha ondulante pradaria? Estrela, gritos de dor cristalizados pelo infinito vazio desta celeste cobertura. Testemunhas dos dolorosos massacres daquelas dias em que a insegurança e o ódio arrancaram-me do dorso a melhor comunidade que em mim germinou. Ah estrelas, vento irmão, afastai o novo intruso.

RUÍNAS: Um momento vos pedimos, calmo leito sôbre o qual repousamos há tanto tempo, fecunda terra que manteve e tornou fortes nossos bravos construtores.
 
Amiga terra, berço e sepultura, nós ruínas desgastadas, estaremos dentro em breve confundidas com o lodo em vosso ventre. Antes, porém, atendei!
 
Permite que estes estranhos que voltam a passear aqui, sem a mesma graça, é claro, dos antigos guaranis, saibam o que foi feito àquele povo tão belo.
 
Que os estranhos aqui presentes, pelos motivos mais diversos do mais leviano ao mais penetrante, dividam conosco a mágoa universal de ter assistido a um massacre no qual o inimigo colonialista, por cobiça, raiva e inveja moralista, matou com tiro de lança o legítimo habitante destes campos, os braços construtores desta igreja.
 
Libertai, serena terra, o espírito de um povo cuja história épica encerra verdades que servem de novo.
 
Os estranhos ora atentos com seus olhos assustados, podem ser talvez isentos da culpa dos crimes aqui consumados. Mas já que vieram aqui, devem ouvir nos ventos a verdade que encerrais: como foram arrasados vossos filhos, nossos pais, os tranquilos Guaranis….
 
(trecho do contexto do Espetáculo Som e Luz – IPHAN)
 

A vingança da decoreba e a cura do câncer

Saiu na Folha de São Paulo deste sábado (22/01/2011), um artigo de Hélio Schwartsman intitulado “A vingança da decoreba”. O artigo trata de um trabalho recente, publicado na revista Science, sobre o desempenho de estudantes que optaram pelo método da decoreba e pelos que optaram pela dita “aprendizagem significativa”, baseada em mapas conceituais e relações entre os conceitos e idéias. Pelo título, depreende-se que o malfadado método da memorização ganhou a parada: Os alunos que se utilizaram de leitura e recursos mnemônicos para aprender tiveram uma média de acertos 50% superior aos que tentaram compreender os conteúdos através da significação.

Este artigo me lembrou de um filme que assisti esta semana, chamado “Morrendo por não saber” (clique para baixar), um documentário de 2006 sobre a “Terapia Gerson”, um tratamento baseado em mudanças de estilo de vida e em uma infusão de alimentos anti-oxidantes que, segundo determinadas evidências, seria capaz de curar o câncer e uma série de outras doenças crônicas. Mas qual é a semelhança? A semelhança é que o argumento central do filme trata justamente sobre a inadequação do método científico. Vários críticos da Terapia Gerson foram entrevistados pelo documentarista e perguntados: O que seria necessário para que você fosse convencido quanto à eficácia desta terapia? A resposta, com algumas variações, foi a seguinte: Um estudo duplo-cego randomizado (aleatório) que a comprovasse.

Dito isso, vamos voltar para o “paper” da Science. É interessante observar que o método de investigação para o desempenho dos estudantes de ambos os sistemas de aprendizagem é um exame. Isso mesmo. Uma prova, aplicada depois de uma semana, para ver quem tinha aprendido mais. Exposto o brilhante método de investigação científica do aprendizado humano, volto de novo para o filme e, desta vez, para os defensores da Terapia Gerson. “O que significa comprovação cientifica?” perguntam adeptos e sobreviventes da terapia durante todo o filme. E argumentam: O conhecimento científico está tão dominado pelos interesses de mercado do dito “complexo médico-industrial”, que só o que pode ser testado, de forma a produzir “evidência”, são as drogas que eles mesmo produzem. Eis, finalmente, o paralelo com o artigo da folha: É a decoreba que é boa para aprender ou é a prova que é boa para testar o aprendizado por decoreba?

Não tenho como sair por ai defendendo a Terapia Gerson para a cura do câncer, porque eu não a conheço. Mas no que se refere ao aprendizado, fico com a segunda opção. E é incrível como provas, estas coisas infinitamente mais questionáveis do que os “duplo-cego randomizados”, volta e meia são usadas para aferir capacidade, desempenho e qualidade. São os ENEMs, ENADEs e Exames de Ordem, frutos da má intenção de corporações e do Estado, que seleciona para mascarar o fato de não prover ensino para todos, que se proliferam por ai, com pleno respaldo do fetichismo da “evidência”. Se foi bem na prova, é porque aprendeu. Até parece.

Na minha faculdade, tive um professor de fisiologia que se utilizava da aprendizagem significativa para ensinar endócrino e sistema digestivo. Este professor fez um estudo, cujo banner ficou um bom tempo exposto pelos corredores do Bloco S, onde tinhamos aula, para todo mundo ver. O estudo comparava o desempenho – sim, medido por provas… – dos estudantes na parte dele, ensinada através dos mapas conceituais e na de um outro professor, que cuidava da parte de cardiologia e sistema respiratório, através de aulas expositivas, conhecidas também como “magistrais”. Com um detalhe: Este professor que dava as aulas magistrais, essas de falar sozinho sem parar por uma hora e meia, era um excelente professor. Um viés a menos no estudo dele. Encurtando a história, o estudo realizado no semestre deu vitória ao método significativo, para o qual grande parte dos alunos torcia o nariz. Qual dos dois tem mais evidência? O Estudo de uma semana publicado na Science ou o estudo de seis meses, pendurado na parede do corredor de uma pequena universidade do sul do Brasil?

A “evidência”, o “comprovado” e o “aferido” são coisas que dão muito o que pensar. É claro que a inserção da ponderação e da testagem ou, em outras palavras, do método científico na cultura humana foi uma grande revolução, que veio para iluminar o nosso mundo, até então assombrado por “trevas” e “demônios”. O único problema é que no lugar do bloqueio “divino”, que confinava a verdade dentro dos mosteiros, restrita aos dogmas da igreja, veio o bloqueio do dinheiro, que confina a verdade dentro do terreno do rentável. Saber se determinado teste está à serviço da verdade ou do laboratório que quer lucrar e do governo que não quer gastar é um grande desafio. Infelizmente, parafraseando o filme, acho muitos continuarão pagando por não saber.

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Abaixo os Exames de Ordem

Esses dias, na Zero Hora, o ex-governador Alceu Collares partiu para cima da OAB. Ao invés de se meterem nas aposentadorias vitalícias dos ex-mandatários do estado, deviam cuidar do próprio umbigo e acabar com o Exame da Ordem, um exame que corporativamente cerceia a liberdade profissional de milhares de egressos dos cursos de direito de todo o Brasil. 

Cito isto, no finalzinho deste texto sobre provas e avaliações, porque li recentemente um texto muito bom sobre o assunto. A única diferença é a profissão: Ao invés do Direito, a crítica ao exame de ordem em questão é o que é proposto para médicos. Confiram aqui a dica neste link: Exame de Ordem para a Medicina volta a tramitar no Congresso, do Blog do CALIMED.

Os ateus e o preconceito

Li na Zero Hora há uns dias, uma crônica da Martha Medeiros comentando a campanha da ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos contra o preconceito à Ateus. A campanha está circulando por ai, na traseira dos ônibus de algumas capitais, como Porto Alegre e Salvador. A iniciativa surge num contexto inédito, em que o Ministério Público ajuizou ação civil pública contra o apresentador José Luiz Datena, por ter dito algumas pérolas do tipo:

 “Ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades. Pois elas acham que são seu próprio Deus.”

 “É só perguntar para esses bandidos que cometem essas barbaridades pra ver que eles não acreditam em Deus.”

Como nós temos mais de mil ateus? Aposto que muitos desses estão ligando da cadeia.”


Merecido o processo, não é mesmo? É educativo coibir este tipo de manifestação pública, principalmente por atentar contra a verdade histórica. Todo mundo sabe que nada matou mais no mundo do que o “nome de Deus”. 

Mas voltando a campanha da ATEA. Ela não é fato isolado. Em Nova York, católicos e ateus estão se matando à olhos vistos, pelos outdoors da cidade. Enquanto a American Atheists espalha pelos quatro cantos a campanha “You know it´s a myth – This Season celebrate reason” (Você sabe que é um mito – Nesta temporada celebre a razão) a Catholic League contra-ataca em letras garrafais: “You know it´s real – this season celebrate jesus” (Você sabe que é real – nesta temporada celebre jesus).
 
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É tão novidade este tipo de manifestação, que confesso não ter um veredicto final para a coisa toda. Mas creio ser possível fazer alguns apontamentos.

Primeiramente, acredito que estas campanhas podem ter um efeito cultural bastante positivo. 2010 foi um ano inesquecível para os brasileiros em termos de religão e, principalmente, em termos de preconceito. Nos Estados Unidos, a mistura de religião com política é regra e atinge proporções assustadoras. Aí está o documentário “Jesus Camp” (clique aqui para fazer o download com legenda) para não me deixar mentir. No filme, vemos como funcionam os acampamentos evangélicos para crianças, basicamente escolas militares para a formação de quadros e eleitores do Partido Republicano. Coisa para deixar o Tea Party orgulhoso e confiante no futuro da América.

Mas, apesar de todo o potencial, acho que as campanhas pecam pelo enfoque, demasiado individual, das mensagens. Por exemplo, tem sentido discutir o “mito do natal” e não discutir aborto? A união civil de casais do mesmo sexo? As declarações machistas e absurdas do papa sobre o uso da camisinha?

Mesmo no que se refere à libertação dos grilhões da fé, acho que as campanhas não acertam no alvo. Compare por exemplo, a campanha de 2009 da The British Humanist Association com a campanha canadense do “pé-grande”:
 
 
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Acho a campanha briânica extremamente simpática e produtiva. A mensagem toca justamente na experiência opressora da fé. Ela diz: relaxe, não module o seu comportamento por medo ou para ser aprovado por algo que você nem sabe se existe mesmo. “Seja feliz”, diz a campanha britânica. Esta é, de fato, uma grande campanha. Se dirige à milhões de pessoas que se impõem uma série de restrições e pergunta: Você já pensou que poderia ser bem mais feliz de outra maneira?

Já a campanha canadense se aproxima muito da campanha americana sobre o mito do natal. Sei que sou voz dissonante neste aspecto, mas lá vai: para mim, insistir na não existência de Deus é tão estúpido quanto insistir na sua existência. É tão fé quanto o contrário e, logo, igualmente sem razão. Assim, não vejo benefício na campanha canadense, uma campanha que é inegavelmente ridicularizante. Ainda que perguntar “Por que acreditar no Pé Grande é considerado delírio, mas a crença em Deus e em Cristo é respeitada e reverenciada?” faça sentido, acho uma grande perda de tempo. A experiência coletiva da fé e os seus impactos nos costumes e na hegemonia cultural vêm muito antes destas discussões filosóficas sobre a lógica de uma crença ou de outra. Penso que se o elemento restritivo da experiência religiosa fosse eliminado, acreditar em Deus passaria a ser tão inofensivo quanto acreditar no Pé Grande. Para mim, já estava de bom tamanho.

Para finalizar, acredito que a campanha brasileira seja melhor que a americana e que a canadense. Não sei se entendi bem o cartaz que diz: “Se Deus existe, tudo é permitido”. Mas os outros três são muito bons, o que é um saldo positivo para uma campanha que é novidade no Brasil, um país latino e bastante religioso. Vamos ver se as próximas campanhas conseguem evoluir para o que de fato interessa. E torcer para que consigam evoluir, já que na Itália a campanha foi proibida e no Brasil há relatos de prefeituras que se negaram a veicular as mensagens. E olha que o Estado é laico.
 
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Futuros Médicos Homofóbicos

Saiu na Folha de São Paulo, no dia 09 de Dezembro de 2010: “Eleição para centro acadêmico cria onda anti-gay em Universidade”. A universidade em questão é a UFCSPA – Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre, a antiga “Fundação” e o Centro Acadêmico é o CA 22 de Março, centro acadêmico de medicina desta universidade, que eu conheço e já tive a oportunidade de visitar algumas vezes durante os meus anos de Movimento Estudantil.

Rápida recapitulação do caso para quem não acompanhou pela imprensa: Venceu, nas últimas eleições, uma chapa composta por dois rapazes que são homossexuais assumidos e o fato provocou uma onda de repúdio na lista de e-mails dos alunos da faculdade. Dentre as declarações, reproduzo abaixo a mais chocante:

“Caros e futuros colegas, e se, somente se, a solução fosse cada um de nós, sensatos, tomarmos alguma atitude, qualquer atitude, no momento em que essa escória nos procurar para curar suas doenças venéreas, e qualquer demais praga que se alastre por seus corpos nojentos? Assim como eles, está na hora de unirmos forças e veladamente fazer o que nos couber, para dar fim, pouco a pouco nesta peste! No momento da consulta de uma bicha, ou recuse-se (pelos meios cabíveis em lei) ou trate-o erroneamente!!!”

Assustador não? Não. Assustador é pouco.

Não vou ficar aqui evocando artigos do Código de Ética Médica, para explicar o tamanho da complicação que é o rapaz não ser apenas homofóbico, mas ser também um futuro médico que defende que os homossexuais sejam tratados de forma errada, para que morram e livrem o mundo das “pragas que se alastram pelos seus corpos nojentos”. Esta frase aliás, me lembra muito um certo herói nacional, cunhado pelas telinhas da globo, o Marcelo Dourado. Marcelo Dourado ganhou seguidores – A Máfia Dourada – depois que “ensinou” em horário nobre a todas as famílias brasileiras, que heterossexual não pega “doença venérea”. Eu vi o Pedro Bial entrar no ar diversas vezes para dizer com todas as letras que o Dourado não era homofóbico. Alguém viu ele entrando no ar para esclarecer a asneira que o “herói” estava falando? Eu não vi. Só o que eu vi foi aquela nota dizendo que maiores informações sobre o vírus do HIV podem ser encontradas no site do Ministério da Saúde. Não acho que isso compense o dano causado pela propaganda feita durante o programa, da mesma forma que não acho que as advertências em fundo azul do Ministério da Saúde, compensavam toda aquela vibe máscula do Cowboy da Malboro.
 
Mas deixa isso do código de ética para os professores de Deontologia e o Marcelo Dourado para o lixo do esquecimento, junto com o cowboy, que já morreu faz tempo. O que eu queria comentar mesmo são duas coisas:

Primeiro, li na Zero Hora que o autor do e-mail se desculpou com os novos Coordenadores Gerais do CA22, dizendo que na realidade era tudo uma brincadeira e que no dia em questão estava com amigos em um bar, já bastante embriagado. Sem entrar no mérito de que, normalmente, as pessoas quando bebem tendem a errar algumas vírgulas e a trocar algumas letras, coisa que não acontece no monstruoso, mas muito bem redigido e-mail do rapaz, quando é que as pessoas vão entender que preconceito não tem graça e que alegar “humor” não alivia, só piora esse tipo de situação? Toda brincadeira tem um fundo de verdade. Aliás, se não tivesse, não teria graça, porque as pessoas não conseguiriam se identificar com ela. Por exemplo: Piadas sobre irlandeses, são bastante comuns nos Estados Unidos e na Europa. Algum brasileiro acha graça em piada de irlandês? Nenhum. Porque não conseguimos localizar no nosso dia a dia a situação satirizada, nem nos identificar com o contador da piada.

Piada homofóbica só têm “graça”, porque há uma discriminação com a qual conseguimos nos identificar, no nosso dia a dia. E a “graça” advém do respaldo social à esta discriminação. É o tal “meio receptivo”, de que fala um dos estudantes na entrevista da Zero Hora. Se o meio não fosse receptivo, ninguém teria coragem de enviar um email dizendo aquelas coisas. Existem duas formas de reagir à piadas sobre loiras, negros, judeus, gays e – porque não – irlandeses: Rir e sustentar um senso de superioridade que já foi responsável pela escravidão, pelo holocausto e, no futuro, pode ser responsável por diagnósticos errados e prescrições assassinas ou interromper o ciclo e dar um salto a mais na escala evolutiva da humanidade. Já houve um tempo em que costurar ciganos dentro da barriga de cavalos e ver o bicho se estribuchar até morrer – com a pessoa lá dentro – era engraçado. Era um tempo em que se queimavam bruxas e hereges nas fogueiras, em que se aplicavam métodos requintados de tortura e execuções em praça pública atraiam famílias, como qualquer programa dominical de hoje em dia. Mas nós evoluímos. Não é mais engraçado costurar ninguém em lugar nenhum, nem assistir à decapitações. Quando vamos evoluir no resto? Ou é muito difícil estabelecer o paralelo entre as duas situações?

A outra coisa que eu queria comentar é a fala do estudante, também na entrevista da Zero Hora. O Igor Rabuske Araújo, um dos novos coordenadores gerais do CA22, disse à Zero Hora que a universidade precisa aprender a lidar com esse tipo de situação. Coberto de razão, o Igor, de novo. A universidade e os nossos cursos não sabem lidar com esse tipo de situação, e mais: são responsáveis pela perpetuação desse e de diversos outros tipos de preconceito, nos quais saímos escolados após seis anos de faculdade de medicina. Por isso escrevo aqui para destacar a grande importância que tem o Movimento Estudantil, na caminhada desse pessoal que começou agora a participar do CA22. O movimento estudantil é uma oportunidade ímpar de entender que o preconceito que mobiliza as piadas contra as “bichas” é o mesmo preconceito que mobiliza as piadas contra os “tigres”, um estereótipo famoso pelos corredores dos hospitais, usado para classificar pacientes de origem humilde. São os tipos “selvagens”, que brotam nos hospitais públicos e que o SUS nos obriga a atender. O movimento estudantil nos oferece uma grande oportunidade de desnudar esses preconceitos e entender que tudo isto se origina na forma como a nossa sociedade é organizada. E esta é a maior lição do movimento estudantil: Se não mudarmos tudo, não mudamos nada. Por isso fazer política é importante.

A UFCSPA, com todos os percalços, me parece estar vivendo um bom momento. Uma ocupação de reitoria, com a solidariedade dos centros acadêmicos de todo o Brasil, a fundação de um DCE e agora, uma gestão de centro acadêmico que teve coragem de levar adiante uma denúncia contra um ato de ódio, que poderia muito bem ter passado em branco, como “piada” em uma simples lista de e-mails. Tudo isso no mesmo ano. Tomara que o momento seja aproveitado e que renda bons frutos.
 
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Ficha Limpa na Escola

 

Ficha Limpa na Escola

 

 

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Saiu no dia 01 de Dezembro de 2010, uma reportagem na Zero Hora intitulada “Ficha Limpa no Grêmio da Escola”. A reportagem fala a respeito das regras que são impostas aos estudantes que desejam concorrer ao Grêmio Estudantil do Colégio La Salle, na cidade de Canoas-RS. O Grêmio, vale explicar, é a entidade estudantil que, naquela escola, representa os alunos da sétima série do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio. No Colégio La Salle de Canoas, apenas estudantes considerados “ficha-limpa” podem concorrer ao grêmio. Os considerados “ficha-suja”, ou seja, os que têm ocorrências de indisciplina ou já reprovaram em alguma matéria, ficam impossibilitados de se candidatar. Foi o caso de uma chapa inteira, tida como formada por “bagunceiros” e de uma estudante, que teria discutido com um professor. Foram todos barrados pela direção da escola, sob o argumento da ficha suja.
 
A reportagem da Zero Hora foi extremamente simpática à medida e imagino que grande parte dos que leram também tenha pensado que a coisa tem que ser por ai mesmo, afinal, “é de menino que se torce o pepino” e, portanto, se ensina “valores”. Já eu, achei o fim da picada. Como assim ficha-suja? Quer dizer que um estudante discute com um professor (talvez até tivesse razão) na sétima série e fica inelegível até a faculdade, porque é “ficha-suja”? Ou será que a escola tem também um código penal próprio, com tempo de prescrição para cada um dos delitos cometidos? É incrível mesmo. Educar não é algo que deveria pressupor algum tipo de fé na capacidade do ser-humano de melhorar e de se corrigir?
 
Fiquei lembrando como eram as eleições para o Grêmio da minha escola, o Colégio Marista de Brasília, vulgo “Maristão”. Realmente não é mentira que os populares, engraçadinhos e bagunceiros sempre montam suas chapas. Era o caso, por exemplo, da “ChapaADÃO” e da “ChapaOLIN”, dois nomes que me vêm à mente agora. Ainda assim, esta é uma armadilha na qual não devemos cair. O movimento estudantil secundarista é um movimento sério e existe há mais tempo do que a maioria dos professores do Colégio La Salle: A UBES – União Brasileira dos Estudantes Secundaristas foi criada em 1948 e a organização dos “secundas” remonta aos Liceus, das décadas de 30 e 40. Não são poucas as escolas secundárias que são reconhecidas por sua tradição de movimento estudantil. Cito o Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre e o Colégio Elefante Branco, em Brasília, como bons exemplos em cidades que eu conheço. Em Caxias do Sul, onde moro, a UCES – União Caxiense dos Estudantes Secundaristas divide com o DCE da UCS a representação dos estudantes em alguns conselhos da cidade, como o Conselho Municipal de Transportes. E isto tudo sem nem falar no papel que este segmento teve em movimentos recentes, como o “Fora Yeda”. Como vêem, não é pouca coisa.
 
Não vou me aprofundar muito na parte burocrática do caso, pois movimento secundarista não é a minha praia, mas tenho dúvidas quanto ao direito que a escola tem de se intrometer nos assuntos do grêmio desta maneira. Existe uma legislação que rege as organizações estudantis secundaristas – a Lei do Grêmio Livre – e em nenhum momento ela cita qualquer papel legado às direções de escola na organização do movimento estudantil. Além disto, consta no próprio Estatuto da Criança e do Adolescente o direito de todos à livre organização e participação política. Sem restrições comportamentais.
 
O maior problema, entretanto, é o caráter disciplinador da atividade política que esta norma carrega. Uma das maiores preocupações que pairavam sobre o Projeto da Ficha Limpa – o que tramitava no Congresso – era justamente o impacto que ele teria sobre determinados movimentos notoriamente combativos da sociedade, como o movimento sindical. Não é raro que protestos e manifestações de rua terminem em prisões e processos. Neste sentido, o temor era de que a Lei viesse a atingir de forma muito negativa setores que normalmente se indispõem com o governo e com a iniciativa privada em negociações salariais, greves e etc. No caso do Colégio La Salle, acontece a mesma coisa. O movimento estudantil, que é um movimento notoriamente combativo, passa a ter a “docilidade” como pré-requisito. Os estudantes são ensinados desde cedo a “andar na linha”, a evitar conflitos e a serem cordatos e obedientes com os mestres. Fico pensando no caso da menina que não pôde se candidatar por ter discutido com um professor. Será que os estudantes do Grêmio têm algum tipo de “imunidade” garantida pela escola, caso precisem discutir com os professores, durante o exercício das suas funções?
 
Fora isso, a estigmatização do estudante ficha-suja, como aquele que bate-boca, o que tira notas ruins, aquele que gosta muito de barulho e pouco de diálogo, me lembra muito certos preconceitos que se reproduzem no ambiente universitário e até mesmo durante a vida profissional. Ou ninguém nunca ouviu dizer que sindicalista é profissional de segunda linha, que não trabalha? Lembram da Yeda dizendo que os diretores do CPERS não eram professores de verdade? Assim acontece com os médicos, com os engenheiros, com os psicólogos e etc.
 
Acho preocupante este tipo de prática, com plena aprovação da mídia, dos pais e do senso comum em geral. A primeira experiência política de uma pessoa deveria ser livre e emancipadora, com amplo estímulo ao exercício da crítica e nunca uma experiência tutelada, excludente e formadora de preconceitos. Ainda mais se estes preconceitos ajudam a moldar um perfil de militância estudantil bastante conservador e já bem conhecido por todos nós. No meu blog, escrevo uma série mensal chamada “A História do Movimento Estudantil de Direita”. Uma das organizações sobre as quais escrevi, o GAP – Grupo de Ação Patriótica, se apresentava como o legítimo representante “da juventude ordeira, estudiosa, cristã e democrática”. O GAP é um bom exemplo de um grupo de estudantes “ficha-limpa”, cujo maior legado ao país foi, simplesmente, apoiar o golpe militar de 64.
 

Alguma coisa sobre os Beatles, Calcinhas e Milícias

 

Alguma coisa sobre os

 Beatles, Calcinhas e Milícias 

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Volta de Feriado

Escrever em semana depois de feriado não é fácil. Isto porque, para mim, a coisa mais interessante que aconteceu no país nos últimos quinze dias, foi o chá de lingerie surpresa que eu ajudei a organizar para uma amiga que vai casar. Mas não acho que isso vá interessar a ninguém que não tenha sido convidado para a festa. Existe outro fato que poderia ter virado uma história interessantíssima, mas acabou sendo frustrada. Minha avó foi internada no Instituto do Coração semana passada por insuficiência cardíaca descompensada (calma, não é essa a história ainda). Fomos todos a Porto Alegre visitá-la e ficamos no apartamento do meu irmão, situado no alto da Correia Lima, no Bairro Menino Deus. Meus irmãos e eu ficamos animadíssimos, porque da sacada do apartamento dá para ver o Beira Rio, estádio daquele time vermelho, onde – adivinhem só – iria acontecer o show do Paul McCartney. Só que no domingo fomos todos para a sacada e nada do show. Estava tudo escuro no Beira Rio e não se ouvia nem Paul McCartney, nem fãs enlouquecidos. Estranhamos, porque quando fazem gol, tanto no Beira Rio, quanto no Olímpico (que fica logo do outro lado), dá para ouvir direitinho os gritos do apartamento. Lá pela meia noite, uns fogos de artifício subiram aos céus. Pensamos então que o show tinha começado e começamos, mal e mal, a ouvir algo parecido com “Hey Jude”. Só que logo em seguida, faltou luz. Então, da teoria de que o Paul McCartney tinha tido um ataque de estrelismo e faltado ao show, passamos para a teoria de que Porto Alegre tinha entrado em curto e que, por problemas técnicos, o show tinha ido para o buraco. E logo durante “Hey Jude”. Que sacanagem. Fomos dormir convencidos de que o show tinha sido um fiasco, meus irmãos dizendo que “é por isso que o Brasil não vai pra frente” e eu ponderando que, às vezes, falta luz na Inglaterra também.

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No dia seguinte, os jornais não deixavam dúvidas: O Show foi o maior sucesso da história de Porto Alegre. Paul McCartney não só cantou todas, como também distribuiu beijinhos e disse até que era gaúcho. Moral da história é que as aparências realmente enganam. Principalmente, as vistas pela sacada.

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Frota de Elite

Semana passada, a Zero Hora publicou uma reportagem especial denunciando a formação de “Milícias” entre os taxistas de Porto Alegre. Segundo o jornalista Paulo Santana, a coisa funciona mais ou menos assim: Se você é tido como mal encarado, é negro ou mora perto de bairros suspeitos, o motorista do taxi entra em contato, por rádio ou celular, com colegas do ponto mais próximo, onde você poderá ser interrogado, revistado e até agredido por membros da corporação. Pelo que pude perceber, após passar o final de semana sem ler jornais gaúchos, o “escândalo” se consumiu em mais ou menos três dias. Não vi nada mais sobre isso no jornal de hoje. Ainda assim, vale o comentário: Porra! Mas que merda einh? Era só o que faltava mesmo, taxista com cassetete que dá choque, bancando polícia.

 
Frota de Elite II

Aparte indignação, é realmente preocupante o tanto que as pessoas desacreditam do poder público. Os taxistas entrevistados pela Zero Hora esta semana falam abertamente que nem passa pela cabeça deles acionar a polícia durante as situações em que se sentem ameaçados. Dizem que o único apoio que têm é o dos colegas. E contam, também, seus mortos nos dedos: desde 2003, vinte e oito taxistas teriam sido assassinados em serviço. Engraçado que segurança pública é uma das áreas que até os privatistas consideram “estratégica”, devendo, portanto, ser exclusiva do Estado. Sendo um consenso, deveria funcionar. Mas não funciona. Não funciona por quê? Não funciona por causa do “Sistema”, com diz o capitão nascimento. E o Sistema, parceiro, o Sistema é foda.

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Tudo pode ficar pior

Mas tudo sempre pode ficar pior. Não bastasse os taxistas, hoje li no jornal que o Tarso está indo para Lisboa, se encontrar com o Doutor Pedro Westphalen. Por quê? Ficou doente? Não. Antes fosse. Tarso, que está em Madri, vai a Lisboa para conversar sobre a entrada do PP na base aliada do futuro governo. Dois detalhes: Um, o PP não quer entrar para a base aliada do governo. Tapam o nariz quando passam perto dos petistas, principalmente os mais de esquerda. Dois, Pedro Westphalen foi, nada mais, nada menos, que líder do governo Yeda na Assembléia. Mas como eu disse, tudo sempre pode piorar. A notícia do dia é que Pedro Westphalen é bom nome para ocupar a Secretaria de Saúde. Por quê? Provavelmente porque tem a sorte de ser médico, além de ser de um partido cujas cabeças interessam ao futuro governador. Espero sinceramente que esta especulação acerca da secretaria de saúde seja mais uma das “torcidas” da Zero Hora. A Zero Hora aliás, tem escandalosamente tentado influenciar a composição do governo Tarso. Outro dia, na Página 10, coluna em “homenagem” à qual criei a Página 11, a jornalista Rosane de Oliveira teve a coragem de sugerir o nome de quem deveria assumir a assessoria de imprensa do Tarso, para “não criar conflitos”. 
 
Vamos ver se o Tarso volta de Lisboa sem o Pedro e de preferência, sem o PP. Bem que aquele avião que estava indo para Madri teve problemas técnicos no ar e precisou voltar para São Paulo. Sinal de que a viagem não ia terminar bem e de que era melhor nem ter ido.

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Falando em saúde
 

Minha vó, a propósito passa bem. Ainda inspira cuidados, mas segue firme e forte nos seus 94 anos. Terá ainda mais alguns shows e composições de secretariado pela frente. Vamos ver se o resto de nós terá coração para acompanhá-la. 

 

 

 

 
 Até a próxima, pessoal! 

Cobertura do Segundo Turno

 Cobertura do Segundo Turno

altDe caneta Vermelha 

Ontem fui ao Hospital ver os pacientes da equipe em que estou passando antes de viajar. Sempre ando com duas canetas azuis no bolso e eis que, de repente, me deparo sem nenhuma. Que saco. Tô atrasada. Preciso ir para a rodoviária. Porque nunca transferi meu título? Não, não é hora para isso. Procuro a técnica de enfermagem para conseguir uma caneta azul emprestada. Nada. E agora? Escrevo com o quê? Com o dedo? Ai olhei para o bolso e vi uma caneta vermelha. Pensei comigo: Por que não?

Enquanto escrevia lá “sem queixas” para todo mundo, me lembrei de outro acontecimento, este sim, perturbador, que ocorreu no primeiro turno. Quando eu fui para Porto Alegre votar no primeiro turno, cheguei, como sempre, atrasada na Rodoviária e escolhi a primeira poltrona que eu encontrei. Adivinha qual? Poltrona 45. Quando eu sentei na dita poltrona 45 pensei: Será que isso é um sinal? E ai deu segundo turno. Pois é. Quatro semanas depois, lá estou eu evoluindo de caneta vermelha, por um acaso da vida, em pleno dia de segundo turno. Só podia ser outro sinal. E não é que deu certo?

Derrotamos Serra nas Urnas 

Pronto. Derrotamos Serra nas urnas. E já sacaneamos ele bastante. Eu pelo menos, muito. Agora vem a segunda parte. Segundo o PCB, a segunda parte é derrotar Dilma nas ruas. Eu concordo. Mas antes deste assunto, um adendo: Derrotar o PSDB nas urnas é também derrotar o PSDB nas ruas. Porque eles só aparecem na rua em época de eleição. No resto do tempo, preferem o “cheiro dos cavalos”, como disse um certo ex-presidente. O partido de direita que continua na rua o ano todo é o da Imprensa Golpista. E esse ai precisa ser derrotado também, mais até do que os outros.

Derrotar a Imprensa Golpista nas Ruas

Apesar das animadoras incursões do Franklin Martins ao redor do globo, não sabemos se o PT terá coragem de fazer frente ao Partido da Imprensa Golpista. O PT virou um partido medroso, que não faz nada fora da linha do marketing. Tanto no governo, quanto no campo da disputa estratégica. Quem leu “Calendário do Poder” do Frei Beto, sabe disso. Se o Bolsa-Família foi o programa que garantiu a imensa popularidade do Lula, o cara mais popular do Brasil deveria ser o Duda Mendonça. O Bolsa-Família só surgiu porque o Fome Zero não era um programa marketável o bastante. 

Derrotar a Marketagem nas Ruas

No governo, só tem chance o que é marketável. Dai, por exemplo, a diferença entre a educação e a saúde no governo Lula. O Fernando Haddad sabe fazer políticas marketáveis. Por isso não fez nada que mudasse a Universidade de verdade. Já pessoal da saúde do PT, por exemplo, não sabe. Daí o Ministério estar na cota do PMDB e, em casos como o do Rio Grande do Sul, a secretaria de saúde estar sendo trocada pelas cabeças do PDT na Assembléia. Vale ai uma comparação com a pasta dos Esportes. O PCdoB virou profissional nesse $negócio$ de esportes. E o $negócio$ dos esportes gerou muito produto marketável para o governo. Daí o PCdoB ter o ministério, várias secretarias Brasil afora e estar sendo cotado para assumir o posto no governo Tarso. Pode até ser que o Tarso troque os Esportes pela base de alguém, como por exemplo a do PTB. Mas pelo menos o PCdoB está sendo cotado. Eu não vi nenhum petista ser cotado para ocupar a saúde. E existem bons petistas aqui para isso.

Derrotar Dilma nas ruas I

Apesar de toda a marketagem, o governo do PT é melhor do que o do PSDB. Não são iguais e nem acho que as diferenças sejam tão insignificantes assim. Se achasse, votaria nulo. Entretanto, a opção pelo PT hoje em dia virou, finalmente, o que José Dirceu e companhia sempre sonharam: Uma pragmática opção eleitoral. Há espaço no Partido de Lula para fazer três coisas importantes pelo país. 1) Aliviar a miséria, 2) Enfraquecer a extrema direita no Brasil e 3) Não reforçá-la na América Latina. O que não cabe no partido de Lula? O socialismo? Não cabe. Mas o pior de tudo é que não cabem sequer propostas medianas de superação da desigualdade, como a defesa da taxação sobre grandes fortunas, a auditoria da dívida e o limite à propriedade de terra. Ai não dá. Se nem reformas sociais-democratas leves é possível de se fazer, fica muito difícil apostar no Partido do Presidente.

Derrotar Dilma nas ruas II

O Partido moldado por Lula é o que quer dar, sem tirar. Isto, aliás, é o que define quando vale e quando não vale a pena optar por ele. O povo vive tão mal e a retenção de recursos para os pobres sempre foi tão perversa no Brasil, que há uma boa margem para “dar, sem tirar”. Então até vale a pena deixar o PT fazendo isso, enquanto a margem existe. Mas a margem não é infinita. Se vence, no seio da sociedade, a tese de que é preciso dar, mas não tirar, vence também a tese de que quando chegar a hora de tirar, é preciso parar de dar. E é nessa hora que se elegem governos como o de Angela Merkel, para citar uma. Por isso que precisamos derrotar Dilma nas ruas. Quando as condições materiais para a política Lulista se esgotarem, é preciso que o povo queira dividir o que resta. Se não, vão eleger adivinha quem?

Abrindo a Página 11

Abrindo a Página 11

Página 11 é uma espécie de “camisa 12” do jornalismo. No caso do esporte, quem veste esta camisa é o torcedor. No caso do jornalismo, quem escreve esta coluna é uma leitora. No esporte, há quem diga que o torcedor é o jogador mais importante do time. No jornalismo… bem, no jornalismo veremos.

Página 11 é uma brincadeira com uma das mais importantes colunas de política do estado do Rio Grande do Sul. Trata-se da “Página 10”, da jornalista e editora da Zero Hora, Rosane de Oliveira. A Página 10 (que, aliás, nem sempre pode ser encontrada na página dez) é uma coluna curtinha e fácil de ler, que cobre os principais acontecimentos políticos do nosso Estado. Pelo menos na visão do jornal que a publica.

Página 11 tem a pretensão de ser aquela página que falta. Não só à Página 10, mas à mídia como um todo. Às vezes, a Página 11 será a entrevista que o JN não fez, a capa que a Veja não deu ou o capítulo que faltou na novela. Este é um grande desafio, visto que a colunista aqui estuda medicina e não tem a menor formação na arte das palavras. Mas o jornalismo contemporâneo assumiu tamanha dominação sobre nossas mentes, que qualquer um que tenha uma, precisa fazer algo a respeito. Vamos ver para onde estas páginas nos levam. Até breve.

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Homer Presidente

Deu no Jornal do Vaticano: Homer Simpson é católico. O L´Osservatore Romano publicou, em sua última edição semanal, que a família amarela mais querida da América disfarça, disfarça, mas é católica. Homer e Bart teriam se convertido em 2005, durante o episódio “The Father, the Son and the Holy Guest Star”. No episódio, Bart é expulso da Escola Primária de Springfield e se matricula em uma escola católica, onde conhece o Reverendo Seam. Homer fica preocupado com o crescente interesse de Bart por religião e decide tirar satisfação com o Reverendo. Resultado: Volta convertido.

Al Jean, um dos produtores de “Os Simpsons”, discorda da interpretação do Vaticano. Para ele, Homer dificilmente suportaria os sacrifícios alimentares que a religião exige: “Mostramos claramente que Homer não é católico. Penso que ele não agüentaria deixar de comer carne às sextas-feiras”.

Católico, como diz o Vaticano, ou Presbiteriano, como juram os produtores da série, de uma coisa ninguém duvida: Homer é cristão e temente à Deus. Deus, aliás, já até participou de episódios dos Simpsons e ele e Homer se deram muito bem. Pelo passo das eleições brasileiras de 2010, Homer poderia até ser candidato. Iria arrebentar, com suas fotos do ladinho do criador.

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