Rotas Alteradas em 2012

 Há muitos meses não escrevo nada aqui na minha coluna, e olhando agora para esse período parece que andei meio embriagado com as discografias de Van Morrisson e de Leonard Cohen, que venho aos poucos baixando, álbum por álbum, e dedicando longas horas no carro ou na minha cabeceira…

 Na verdade muitas coisas muito boas aconteceram em termos musicais em  Porto Alegre, desde agosto, quando escrevi a última edição de Rotas Alteradas.

 A capital entrou mesmo de cabeça no circuito internacional, e não foi somente Porto Alegre, mas o Vale dos Sinos também ganhou o belíssimo Teatro da Feevale, o que resultou num upgrade irresistível na qualidade cultural da região.

 Tive a oportunidade de assistir ao show de Eric Clapton, que teria sido inesquecível se tivesse ocorrido num teatro, uma vez que era um repertório de clássicos, vestidos com arranjos irretocáveis, mas que não chegaram a aquecer os milhares de pessoas que se aglomeraram ao ar livre no estacionamento do SESI. Ficou aquela sensação de decepção misturada com adrenalina contida… A sensação que eu tenho mesmo é que teria sido melhor assistir ao DVD em casa, do que ficar vendo o cara por um telão a 200m de distância (e sem visibilidade nenhuma das pessoas que estavam no palco).

Faz parte…

 Me fez vacilar na hora de decidir comprar o ingresso para The Wall de Roger Waters que deve acontecer em março próximo. (acho que não vou…)

 Ainda no final do inverno de Porto Alegre rolaram os shows imperdíveis de dois Argentinos em Porto Alegre. Soledade Villamil e Pedro Aznar.

 Villamil realmente se supera no palco, onde a grande atriz do filme vencedor do Oscar de 2010 “O segredo de seus olhos” interpreta grandes canções argentinas com vigor e grande sensibilidade.

  E Pedro Aznar, que eu conhecia antes somente de uma canção gravada em parceria com Vitor Ramil (Subte do álbum tambong), mostrou-se um perfeccionista em show solo no palco com arranjos impecáveis, tocando vários instrumentos, misturando a modernidade com canções tradicionais de autores de diversos estilos. Destaque para “While my guitar gently weeps” de George Harrison, “Calling you” do filme Bagdad Café, “Los hermanos” de Yupanki e outras  pérolas.

 No teatro da Feevale, a inauguração em grande estilo ficou por conta de Jose Carreras, uma estréia internacional inédita e de um nível tal que o Vale dos Sinos não via há muitas décadas. E ainda a nova formação de Buena Vista Social Club, com seu son cubano cheio de ritmo, calor e novos talentos que são essenciais para a transmissão do estilo dos velhinhos para a nova geração. Grande espetáculo!

 Bem, quanto as minhas descobertas mais recentes, tenho ouvido muito o Sufjan Stevens, que é um jovem americano com grande sensibilidade (que não por acaso também é morador do Brooklyn em NY, o lugar onde quero estar), e com uma produção muito prolífica no início desse século. O disco Illinois de 2005 e o subseqüente Avalanche com os restos de estúdio do anterior, são incríveis. E Illinois está cotado entre os 10 melhores álbuns produzidos nos EUA na primeira década.

Eu ouvi o Sufjan Stevens pela primeira vez na canção John Wayne Gacy jr., uma canção belíssima sobre um tema lúgubre: John Wayne Gacy foi um serial killer que matou 26 jovens americanos, após abusar sexualmente deles, e enterrou no porão de sua casa em Illinois. O cara era um andarilho muito conhecido na região que estava sempre vestido de palhaço, e era muito popular onde morava e muito querido da população e das crianças, que atraía com facilidade com seu carisma. O clipe que eu adiciono a seguir é uma forte reflexão sobre tudo isso… Beleza e melancolia combinadas de uma maneira sublime…

 http://www.youtube.com/watch?v=otx49Ko3fxw

 

E deixo também uma outra canção que acho muito divertida, “The Henney Buggy Band”. Cola que nem chiclé!

 http://www.youtube.com/watch?v=ya8WTp_LbJ4

 

 

Organizando a parada do dia do orgulho H!!!

Bem, vou quebrar o protocolo desta coluna que tem normalmente um conteúdo cultural, para abordar um outro assunto que tem me deixado inquieto.Uma coluna um tanto quanto mais visceral e sarcástica. Me perdoem os leitores habituais, mas é que a bola está picando, sobre assunto do dia do “Orgulho hetero”, que acaba de ser votado pela câmara de vereadores de São Paulo.

Eu fico pensando numas imagens muito engraçadas, senão irônicas, e que são o principal motivo que me levou a blogar esse assunto…

Então eu faço aos amigos leitores a seguinte proposta:

Iimagine que você mesmo(a) está trabalhando na organização do dia do orgulho H. Uma reunião importantíssima assim, decidindo o futuro da humanidade!

Aí você começa a pensar que estarão talvez milhares ou ao menos centenas de pessoas reunidas na Av. Paulista, e os olhos da imprensa mundial prestando atenção no que será apresentado nesse evento que é inédito… uma idéia assim do novo milênio, uma coisa totalmente inovadora a nível mundial, uma ideia da era de aquário (ah, não não não ! a era de aquário é uma coisa meio boiola… essa não é uma boa idéia para associar com o “movimento hetero”, alguém há de pensar).

Então alguém diz:”Podemos usar umas figuras emblemáticas assim do movimento hetero mundial, ícones assim da liberdade heterossexual…” 

E aí fica aquele silêncio no ambiente durante alguns minutos, longos minutos, e ninguém consegue concatenar direito uma ideia. E segue uma sequencia de  discussões confusas que não chegam num acordo direito sobre “que movimento é esse”, ou “o que é que queremos discutir mesmo” ou “quem será essa pessoa emblemática”???… 

Aí alguém lembra: A Míriam Rios!!! ÊÊÊÊhhhh  que legal! E aí fica decidido: No primeiro carro que desfila, a Miriam Rios junto com o vereador  Carlos Apolinário representando as igrejas e o direito de SER hetero. 

Bem, até ai nenhuma novidade né?

E alguém diz… Podia ter musica né? A Ivete! vamos trazer a Ivete Sangalo! E aí todo mundo se entusiasma! A Ivete num trio elétrico! Até que alguém pensa em voz alta: mas gente! A Ivete pode trazer um monte de bahianos atrás do trio elétrico… Os bahianos não são muito liberais? E se o Movimento gay da Bahia resolver aparecer? Não! Não! Não!  (comoção geral). É verdade , bahiano não dá! 

– Pois é! Fiquei pensando numa coisa mais chocante assim, tipo a Gal com os peitos de fora! (oooooohhhhh! Que legal! Os heteros comemoram a idéia dos peitos de fora!) Tem um cara ali no meio que disfarça, e não comemora muito: Mas a Gal está meio passadinha!

E alguém grita: Para! Para! A Gal vai querer trazer Gil e Caetano. Daí ferrou! Caetano não!!!  (uuuuhhhh !!! Caetano não!)

– Podia ser a XUXA!  vamos chamar a Xuxa! Mas não pode ter crianças, por causa da pedofilia,  né gente?

– Ou podia ser Paula Fernandes! É mais comportadinha, e não ofende ninguém! E ela é mais gostosa! Boa! tá decidido. A Paula Fernandes!

Daí aquele cara que estava menos entusiasmado com o andamento da prosa arrisca: Quando chegar ali na Augusta podíamos soltar uns balóes coloridos, e umas músicas da Lady Gaga e da Madonna! 

Todos se olham com desconfiança, e não dizem claramente o que passou pela cabeça nesse momento… 

E aí pra quebrar o gelo, alguém continua: Não, balóes coloridos não dá, gente! Parece aquela outra parada … Melhor até é todo mundo vestido de preto, prá não lembrar de festa, e nem de coisas alegres… Deixa aquela alegria exacerbada para os gays né? A gente tem que fazer uma coisa  chocante!

– Pô! Isso aqui já tá parecendo funeral… todos de preto…daqui a pouco vai entrar a tropa de elite!

– Vamos trazer a seleção brasileira de futebol, a gente puxa o patrocínio da cerveja e faz um carnaval na avenida!

– Carnaval não! Baile  funk!!!!  Agora pode, pois a Lacraia já morreu!

 E aí essa idéia ganha a atenção de todos por alguns instantes

– E logo atrás do bonde a gente traz um carro com várias mulheres famosas assim da televisão… atrizes da globo dançando funk!

As beatas se olham decepcionadas, pois estavam planejando no cantinho de trazer o Antonio Fagundes e o Fabio Junior, e até o Roberto Carlos! Até que alguém grita a idéia que termina de vez com a reunião numa confusão, que não teve mais fim:

 -Vamos trazer as coelhinhas da Playboy! (Uh terere!!! comoção geral!!)  

 

 

 

 

Videos selecionados do you tube e a incapacidade cultural do nosso país

 
Tem uma propaganda infame rodando na televisão, que me fez pensar muito no papel que a internet está fazendo na vida cultural das pessoas.
 
É uma propaganda de um importante portal da internet (que por sinal vem sobrevivendo através das décadas) e tem um texto mais ou menos assim:
 
“Esta é a fulana. Ela vive em uma pequena cidade de 17.000 habitantes. O seu artista predileto NUNCA vai fazer um show em sua cidade”
 
E isso é anunciado com um conformismo tremendo, que me fez odiar essa dura realidade.
 
Porque afinal, eu mesmo vivo em uma nem tão pequena cidade de 200.000 habitantes aqui no fim do fundo da América do Sul, e esta realidade não é muito diferente…
 
Me faz pensar seriamente na incapacidade das nossas políticas públicas de movimentar a cultura, e trazer para a população shows e espetáculos importantes de artistas nacionais, ou quem dirá internacionais…
 
Não sei quanto tempo faz que não tem um show importante nesta cidade se não contabilizarmos os sertanejos universitários…
 
E aí, isso me fez pensar no papel da internet nisso daí…
 
Imagino que muita gente como eu fica garimpando coisas na internet para preencher essa lacuna cultural.
 
Bem, o objetivo dessa coluna hoje é trazer alguns videozinhos legais que assisti no youtube nos últimos tempos, pois afinal o youtube também está aí para isso… além daqueles vídeos engraçados de bebês e cachorrinhos que aparecem todos os dias.
 
Vamos a eles:
 
Uma performance do YES, em plenos 2003, uns 35 anos depois do auge desta incrível banda dos anos 70! E em plena forma! Andy ou and I.
 
 
Iron & Wine – a banda de um home só, nesta canção linda – Flightless Bird. No começo do vídeo, parece improviso… Mas veja como cresce esta canção!!!
 
 
Midlake – Assunto de uma coluna anterior, grande música, videoclipe impecável!
 
Radiohead ao vivo no excelente “Late… with Jools Holland”
 
O Robert Plant tinha uma Janis Joplin por dentro:
 

 

Enjoy it! 

Não era para escrever sobre o Brooklyn

  


Eu lembro de nós dois fazendo amor num domingo,
Eu lembro para sempre do cheiro da sua pele,
Eu amo nós dois sendo bobos juntos…
Você está presa na minha mente o tempo inteiro
 
Eu lembro das segundas-feiras deixando nossas vidas mais cinzas
Eu lembro de ter pensado que isso nunca iria acabar,
Mesmo quando você fosse embora,
Seus olhos correndo através da minha cabeça
Você está presa na minha mente o tempo inteiro
A letra da música “I remember” do Yeasayer fala de um amor quase obsessivo, algo que não sai da cabeça, que não dá para esquecer, e que talvez nem mesmo se queira esquecer.
Foi exatamente este o efeito que a própria canção despertou na minha cabeça após ouvi-la. Tocou no rádio umas duas vezes na semana passada (a excelente rádio da Unisinos, aqui na região), e aquela voz enigmática logo entrou no cérebro, que começou a percorrer os arquivos buscando encontrar: Quem é esse cantor?
Yeasayer é uma banda do Brooklyn em New York, que produz um som cheio de experimentalismo, com influências psicodélicas, e do oriente, cheio de climas densos e pouco comuns nas ondas do rádio.
Este som aí, “I remember” na verdade tem uns efeitos eletrônicos que devem ter sido gerados em algum sintetizador daqueles dos anos 70, pois é totalmente retrô.
Acho que me identifiquei com esta música porque na verdade me lembrou o “Jon & Vangelis” quando faziam parceria nos anos 70, aqueles climas eletrônicos combinados com a voz suave e aguda de Jon Anderson.
Quanto ao Brooklyn? Bem, o Brooklyn,  é o mesmo bairro onde surgiram diversas bandas influentes nos últimos anos como o Beirut, MGMT, LCD soundsystem, Grizzly bear, Vampire weekend e Strokes. 
Quer mais? Tá bem, Mr. Lou Reed, o criador do “Velvet Underground”, e pai de tudo o que aconteceu de alternativo desde os anos 60, vive no Brooklyn, e já fez até um  depoimento sobre isso no filme-documento “Blue in the face (Sem Fôlego)”de Paul Auster (imperdível para quem gosta de filmes poéticos).
O fato dessas bandas como o Beirut, MGMT e Yeasayer terem tomado meus ouvidos de assalto praticamente juntas nos  últimos meses, introduzindo elementos tão diferentes na música Pop torna o Brooklyn um lugar muito especial para mim em termos musicais.
Eu não sei realmente se existe algum outro bairro no mundo que seja tão influente …
Em Londres talvez…
Falam Jim Jarmusch e Lou Reed
Um interessante artigo de Bem Sisario no NYT, sobre a música do Brooklyn (2008)

 

http://www.nytimes.com/2008/03/09/arts/music/09sisa.html

 

A dita MPB por onde anda?

Muitas vezes me pego pensando a respeito da atual da música brasileira.
Meus devaneios se perdem em um objetivo não muito claro de tentar encontrar um ou alguns representantes daquilo que se convinha chamar de MPB.
Uma unanimidade
Um representante
Ou ao menos um movimento legítimo e criativo como aquele da tropicália, ou o clube da esquina, ou os sambistas ou qualquer coisa nova e significativa…
 
E fica difícil… Não sei bem qual é o motivo. Se o problema são eles ou se sou eu…
 
Bem, é que tenho esta tendência de rejeitar tudo aquilo que vem veiculado na TV como unanimidade aceita, o sucesso do momento, esta construção da imagem que fazem dos artistas na mídia nos empurrando goela abaixo Ivetes Sangalos e Claudias Leite junto com generosas porções de cerveja e carnaval… Isso tudo simplesmente passa batido pela minha visão.
 
 Também tenho outro costume, herança da minha formação musical de roqueiro, que é ouvir músicas estrangeiras, inglesas ou americanas ou latinas, mas às vezes penso que isso acontece também em parte porque não se está produzindo (ou devo dizer, distribuindo?) nada a altura no Brasil… Nada a altura de Caetano ou de Milton Nascimento ou Chico Buarque…
 
Ta bem, vamos tirar a música pop e o axé e pagodes e sertanejos universitários da frente. Vamos pensar em MPB.
Será que é Possível hoje separar a MPB da música pop, ou rock, ou música comercial no Brasil?
Quem são os nomes mais expressivos que existem hoje em dia, de projeção nacional que sejam autênticos, criativos, originais?
 
Marisa Monte! É, este é um dos nomes mais fortes da música atual no Brasil A mãe de todas as cantoras da nova geração da música brasileira… Reina sozinha no reino do vácuo…
 
Mas poxa, essa daí se inventou uma vez, há uns 25 anos atrás, e desde então ela é só ela mesma!!! Você ouve qualquer novo disco de MM e… Nenhuma novidade!!É tão pasteurizado que dá pena! Uma voz tão interessante, mas com pouca criatividade. Tudo bem, MM é uma intérprete, e ela depende de outros compositores para fazer seu repertório, e voltamos novamente para a nossa procura por algo inovador e inteligente na MPB.
 
O fatídico aniversário de 50 anos da bossa nova uns anos atrás, acabou provocando uma onda tão avassaladora desses “mais do mesmo” por todos os lados, onde surgiram zilhões de bossanovistas, dando crédito a João Gilberto (que me faz dormir) e cantando músicas com cheiro de naftalina, e sem nenhuma empolgação…
 
Até mesmo as novelas da TV ficam ressucitando bossas nem tão novas, e Gonzaguinha, e Tom Jobim, e outros setentistas, numa nostalgia que não deve ser por acaso…
 
Tem ainda outros artistas de teor duvidoso tais como Maria Rita, e Zeca baleiro que não tem chance!
 
La Rita porque em parte veio estigmatizada pelo timbre de voz parecido com o da mãe, e que na primeira audição despertava na gente uma alegria tão grande da possibilidade de ouvir de novo alguém vivo com aquela voz… Mas o encanto se quebrava já na primeira audição de qualquer gravação inteira da diva, porque é monótono… Não tem brilho… A gente fica esperando o clímax da música e ele nunca vem! Todos os dias esse vai e vem…
 
O baleiro porque é um medíocre… Eu costumo chamá-lo de menestrel da rima-pobre. Pelamordedeus! Quem prestou atenção um pouquinho nas aulas de literatura sabe que um poema como “eu não sei dizer o que quer dizer o que vou dizer” é pura e simplesmente rima pobre. Assim como tudo o que ele fez depois desta música…
 
Minha mãe me disse que esse Zeca aí, escreve umas colunas interessantes na revista Isto é, e eu espero que ele descubra que é bom fazendo outras coisas porque como compositor e cantor o cara é sofrível… E me espanta ver como lota teatros esse baleiro, cara! É tido e havido! Decerto eu tenho algum problema!
 
 E aí em são Paulo tem um clube de jazz lindo chamado Bourbon jazz, e sabe quem eu descubro que faz temporadas lá cantando Standards? A Sandy! Pelamordedeus, tira o tubo!
 
E ainda tem o seu Jorge e a Ana Carolina… Esses se levam tão a sério que nem vale o comentário aqui.
 
Tá bem, não vamos dizer que eu não gosto de ninguém, que não falei de flores… Eu gosto da Adriana Calcanhoto. Que poesia! Que voz! Que melancolia! Onde estão as outras Adrianas do Brasil?
 
Depois tem uns 900 artistas legais, que são realmente muito bons, mas que aparecem e desaparecem apenas regionalmente, com apenas alguma projeção nacional às vezes por causa de uma música em novela e tal…
 
Estão aí, batalhando seu espaço, dando a cara pra bater, mas não sei se esses nomes aí são unanimidade. Lenine, Vitor Ramil, Chico Cesar (por onde anda?), Arnaldo Antunes, Luiz Tatit, Céu, Mar’tnália, Maria Gadu, a própria Fernanda Takai que eu cansei, o Diogo Nogueira, Nelson Coelho de Castro, Paulo Moska, e… tantos, tantos outros…
Está bem, alguém dessas galeras aí vai se tornar um grande nome ainda na próxima década, creio eu…
 
Mas por enquanto parece que estamos no vácuo!
 
 
Vem cá, me diz: quantos discos de MPB te interessaram por inteiro nos últimos anos?
 
 

  

Geraldo Flach (1945-2011)

 

Estive pesquisando esta semana sobre a repercussão na mídia digital da morte do músico Geraldo Flach.
 
Eu fiquei sabendo de sua morte através de uma crônica de Arthur de Faria na Zero Hora, e fui arrebatado por uma grande tristeza.
 
Em diversos portais da internet encontrei uma breve nota que algum órgão de imprensa escreveu dando um resumo da sua vida num parágrafo e citando 3 ou 4 músicas que ele escreveu para cantores famosos, sem fazer muita referência sobre a colaboração real de sua obra instrumental para a música Brasileira. Aquele mesmo release frio e resumido foi repetido por todos os portais mais importantes da internet brasileira, quase como uma obrigação de publicar alguma coisa, mas sem saber o que dizer…
 
Uma página que me chamou a atenção foi o caderno “cotidiano” da Folha, que deu um relato muito próprio daquele caderno,  narrando uns fatos de modo sutil, uma abordagem bem “cotidiana” para a vida dele, mas que não me deixou satisfeito. Fica uma coisa assim, nas entrelinhas: “Oh… a morte, esta coisa tão cotidiana… todos nós chegaremos lá um dia… O cidadão comum que morreu hoje foi Geraldo Flach.”
 
Parece que a passagem deste grande monstro-mestre do jazz e fusion e da criação instrumental Brasileira seria apenas mais um fato “cotidiano” que teria passado despercebido de todos, se não fosse minimamente comovente.
 
Enquanto isso, todos os deslizes e os peitos a mostra da Amy Winehouse no hotel do Rio ganharam as capas e vários minutos nas televisões e jornais do país.
 
É por este motivo, por rebeldia, pela paixão por tudo aquilo que passa despercebido da grande maioria, e que deveria ser a ordem do dia, por todos esses motivos é que existe esta coluna Rotas Alteradas.
 
Creio que a obra do grande Geraldo Flach será redescoberta no ano de 2024 quando os DJs mais “cabeça” estiverem remexendo nos arquivos da música brasileira do passado  atrás de “novos sons” que ficaram nas prateleiras de CDs dos sebos do centro da cidade.
 
Aí então os CDs estarão em extinção, e não os LPs como agora, e o soul-funk-brasileiro-parecido-com-tim-maia já estará saturado nas cabeças dos hypes de plantão.
 
Eu não acredito seriamente nisso, mas gostaria que sim…
 
Bem, eu vi pessoalmente alguns shows de Geraldo Flach aqui em Porto Alegre, e tenho bem nítidas na minha memória algumas marcas pessoais dele no palco.
 
Primeiro, o costume de quebrar o protocolo e falar com a platéia. Mesmo sem microfone, e ali mesmo sentadinho no banquinho do piano, no palco do “Salão de Atos da UFRGS”  ou no “Theatro São Pedro” com toda a pompa e circunstância merecida, Geraldo, no intervalo entre as músicas vira para o lado e conta histórias que só quem está sentado na primeira fila ouve… Mas é isso mesmo! Geraldo dá um ar intimista para sua apresentação como se estivesse ensaiando no estúdio em sua casa. E puxa cada vez mais, com muita humildade, a platéia a conversar e interagir, e ao final estimula as pessoas a cantarem junto com seu piano em voz alta o “Luar do Sertão”. Nessa hora, ouvindo a voz do público que o acompanha, Geraldo tem um enorme sorriso estampado na sua cara de lua…
 
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Esta característica de seu espetáculo está muito ligada com a outra faceta deste músico, que eu considero como a mais importante até: sua música instrumental ao piano transitava livremente entre os estilos do folclore, da música gaúcha, passando rapidamente para o território do jazz, e chegando até os limites do piano clássico.
 
Era uma imbolada!
 
A coisa que eu mais prezo de Geraldo Flach são seus “chamamés”. Ao memso tempo em que parecia que usava as 80 teclas de seu piano com tamanha destreza, o ritmo do chamamé corria delicioso e leve, e a gente tinha vontade de levantar no meio do teatro e sair dançando.
 
E esta faceta ele gostava de explorar tocando junto com seus amigos dos seus quartetos,  músicos como Borghetti, Luiz Carlos Borges ou Yamandu Costa, e o percussionista Fernando do Ó, ou o quarteto argentino “Los cuatro vientos” e tantos, tantos outros.
 
Ah! Esses ares que correm sobre as coxilhas do Rio Grande ainda levam consigo esses sons eternos, de Geraldo!
 

O Baú do Tesouro – Você já achou o seu?

 

O Baú do tesouro
 
Eu não sei se algum de vocês teve a chance de encontrar um dia um baú do tesouro.
Eu encontrei, há muitos anos atrás, e não estava enterrado.
 
Minha mãe se mudara naquela época para um apartamento que pertencera a meu tio Olmiro. Neste apartamento tinha um roupeiro embutido onde ficaram guardados diversos objetos que eles não queriam mais, alguns pincéis e estudos de pintura que meu tio tinha em seu atelier, pois tinha o hobby de pintar durante toda a sua vida.
 
Mas na parte superior do roupeiro foi que encontrei aquela caixa que tinha um dos maiores tesouros que encontrei na minha vida, embora não tenha tido consciência na época: Uma caixa com uns 10 discos de vinil, e entre eles um LP da obra LIBERTANGO, de Astor Piazzolla.
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Eu tinha uns 20 anos na época, e tinha ouvido no máximo algumas propagandas na televisão tocando alguma música de Piazzolla, que eu achava que era apenas um outro “tanghero” da Argentina. E nem mesmo pelo tango eu tinha alguma atração na época.
 
Nos dias seguintes coloquei aquele disco para tocar várias vezes, e fui ficando cada vez mais apaixonado pela obra deste grande mestre da música do século XX.
 
Este disco é de uma fase em que Piazzolla estava morando na Itália, nos anos 70, pois era o local onde ele encontrou terreno fértil para praticar a sua música que, apesar de ser muito ligada ao tango, por causa do bandoneon, tinha estruturas muito complexas, relacionadas com o jazz, e tinha passado por diversos “altos e baixos” na Argentina, seu país de origem.
 
Libertango é talvez um dos trabalhos em que Piazzolla mais se afastou da estrutura tradicional de “Orquestra típica” de tango. Seu conjunto Italiano contava com a presença ilustre de uma guitarra elétrica e bateria, além de flauta, piano, violino, contra-baixo acústico e, é claro, seu leading bandoneon.
 
No entanto, neste disco, ele fez uma regravação, com este conjunto, de sua obra-prima “Adios nonino”, que para mim é a versão definitiva, ou aquela que deveria ter sido a primeira.
 
Na Itália, nos anos 70, Piazzolla esteve muito ligado a músicos da cena do Jazz e do Rock Progressivo Italiano, que era uma cena muito forte na época. E o disco Libertango respira uma jovialidade e uma coragem de experimentar sonoridades, como por exemplo a presença da bateria marcante em diversas das músicas
 
Piazzolla havia sido rechaçado em seu país de origem, a Argentina, em diversos momentos por causa da mexida que suas experimentações faziam nas estruturas do tango tradicional, deixando de cabelos em pé os seus conterrâneos.
 
Nesta época dos anos 70, as novas gerações já haviam se rendido ao tom contemporâneo da sua música, e Piazzolla já tinha inclusive feito apresentações no Teatro Colón, o templo mais sagrado do tango em BsAs, com lotação esgotada.
 
Mas mesmo assim, viver dependendo da música na Argentina não era possível, e Piazzolla mudou-se para a Itália onde tinha um cenário mais interessante e livre para ele atuar e compor sem pressões ou concessões ao tango tradicional.
 
Libertango é para mim a obra mais impressionante de Piazzolla, e um dos discos mais imprescindíveis da história da música, o tesouro que encontrei numa tarde qualquer e que me vale através da vida inteira.
 
Se você quer conhecer um pouco da obra de Piazzolla acesse o site Piazzolla.org, um portal que reúne tudo, simplesmente tudo que existe sobre piazzolla na internet.
 
 
Enjoy It! : )

Midlake – A melhor banda da década.

 

 
Tenho acompanhado alguns rankings de revistas especializadas e sites sobre os melhores do ano, e também sobre os melhores da primeira década do século XXI.
 
Nem vou ficar chovendo no molhado e lembrando vocês sobre o grau de “relatividade” que paira sobre essas listas, que sempre são muito dependentes do gosto musical dos editores, ou mesmo da linha editorial da revista, (ou em casos mais grotescos depende de qual gravadora paga mais cachê). Mesmo assim, é interessante notar também que em muitos casos a lista dos nomes das pessoas que escolheram (“QI” ou quem indica) aparece com mais evidência que a própria lista de escolhidos… Os meios justificam o fim…
 
Bem, críticas à parte, vamos ao que interessa… Tenho vasculhado essas listas e me surpreendo pelo fato de não estar aparecendo uma banda que tem me chamado a atenção cada vez mais desde que ouvi pela primeira vez aí por 2008: MIDLAKE.
 

Midlake

Naquela época cheguei ao disco “The trials of Van Occupanther”, que é uma espécie de revival de um estilo que dominou os anos 70 com bandas como “Fleetwood Mac”, “Crosby, Stills & Nash” ou mesmo “Simon & Garfunkel”. O som dos caras remete a essas bandas por causa de vários elementos que são raros de encontrar reunidos em uma única banda hoje em dia: melodias surpreendentes, arranjos vocais complexos, suavidade em instrumentos acústicos como flautas transversais e piano clássico, e ao mesmo tempo uma pegada forte quando a música cresce.
 
Realmente, os caras do Midlake não brincam em serviço, e produzem um som de gente grande. Este disco “Trials of Van Occupanther” é uma pérola que merece ser ouvida atentamente do início ao fim. Recomendo que leve no seu i-pod quando viajar para algum lugar bucólico, ou simplesmente para uma caminhada ao por do sol, e se deixe levar pela simplicidade e pela luminosidade dessas canções.
 
Para começar a entrar no clima, ouça “Roscoe”, que tem uma levada muito boa, com bateria bem trabalhada e umas guitarras meio contidas onde poderia haver certamente muito peso (se fosse alguma outra banda qualquer). Depois se deixe levar em outras canções mais leves como “Van occupanther”, “Bandits” e a contagiante “Head Home”. A essas alturas tenho certeza que você já estará contagiado pelo som do Midlake, chutando pedrinhas pelo caminho.
 
E ainda nem comentei sobre em seu novo disco de 2010, “The courage of others”, que fica como tema para outra edição do “Rotas Alteradas”. Mas aí abaixo deixo um link da música “Acts of man” apresentada ao vivo no programa “Later… with Jools Holland” da BBC, o melhor programa de televisão sobre música hoje em dia…
 
Videoclipe da música Roscoe
 
Videoclipe de Head Home
 
Acts of Man ao vivo no Later…
 
 
Só por curiosidade, deixe rolar o som do Fleetwood Mac chamado “Rhiannon” e veja se não tem uma pegada parecida com “Roscoe”

Calexico – Música do Sul… dos EUA

 Tenho ouvido com bastante freqüência, e explorado lentamente a obra do grupo CALEXICO (uma contração dos nomes da Califórnia e México), uma banda que faz um som que mistura influências Mariachi do México com country, folk, indie, umas pitadas de jazz, e influências diretas do estilo spaghetti western de Ennio Morricone.

 
A banda surgiu em 1994 e lançou seu primeiro disco chamado "Spoke" em 1996.
Mas foi somente com "Hot Rail" de 2000 que a banda definiu os caminhos que segue trilhando até hoje. "Hot Rail" é um disco cheio de surpresas, com suas pegadas Mariachi, com aqueles típicos trompetes mexicanos, intercaladas com outros sons mais suaves, e que exploram sonoridades do estúdio, criando climas de puro improviso, com intervenções very cool de trompetes, acordeon e vocais suaves.
 
Calexico mostra uma faceta muito interessante da música do sul dos EUA, e não muito explorada pelos próprios americanos: a influência  latina.
 
Você, amigo leitor do OPS, sabia que em diversos aspectos o sul dos EUA guarda muitas semelhanças com o sul do Brasil?
 
Em ambos países, as suas regiões localizadas ao extremo sul, vizinhos de países hispano-latinos (o México lá, Uruguai e Argentina aqui) em dado momento da história uniram-se a esses países e lutaram contra a nação-mãe chegando inclusive a delimitar territórios independentes junto com esses países.
 
Por este motivo existe no Sul (lá e aqui)  um sentimento de rebeldia, que faz com que ainda nos dias de hoje existam movimentos separatistas que cultivam idéias daqueles idos tempos. No Texas, por exemplo existe uma “lenda urbana” de que a bandeira daquele estado é a única em todo o país que pode ser posicionada na mesma altura da bandeira americana nos eventos patrióticos. Do mesmo modo, Rio grande do Sul a cada cerimônia de formatura ou eventos esportivos, o Hino do Rio Grande do Sul é entoado com a mesma circunstância e paixão do Hino Nacional do Brasil.
 

Calexico live

Obviamente essas regiões experimentaram influências culturais dos países vizinhos.
 
Assim, no Brasil a música produzida no estado do RS é bem característica, levando rótulos quando se projeta para o resto do país de “Rock gaúcho”, assim como nos EUA existem canções e bandas que cultivam aquele “southern feel” como Lynyrd Skynyrd e Allman Brothers Band.
 
O Calexico é mais um herdeiro deste legado, com bem menos virtuosismo e menos peso do que aquelas duas bandas dos idos seventies, mas com influências mais explícitas, e com estilo muito bem elaborado e pensado.
 
A banda lançou nos últimos anos dois excelentes trabalhos que valem a pena ser ouvidos atentamente: “In the Reins” – 2005 gravado em parceria com Iron & Wine (outro ícone indie que merece uma coluna)e também “Carried to Dust” – 2008,
 
 
 
 
 
Um show de Calexico em Nuremberg, para streaming ou download
 

Rotas Alteradas

Olá a todos os leitores do “O Pensador Selvagem”. É com imenso prazer que escrevo essas primeiras linhas para esta nova coluna no OPS.

Permitam-me apresentar, sou Afonso Félix, um Engenheiro Químico, gaúcho, apaixonado por música, cinema, fotografia artes gráficas, artes plásticas, e combinações dessas coisas em qualquer ordem e número. Moro em Novo Hamburgo, no RS, uma cidade um tanto quanto fora do eixo, se pensarmos no show business estabelecido nas décadas passadas; mas mesmo assim me considero bastante plugado no que anda acontecendo no mundo virtual, da música e das artes, seguindo os caminhos que algumas horas semanais de pesquisas na internet podem me permitir. Esses caminhos que eu carinhosamente chamo de “Rotas Alteradas”, roubando a metáfora da poesia de Vinícius de Moraes, “A Rosa de Hiroshima”, musicada delicadamente pelos Secos e Molhados nos anos 70, são caminhos que se desviam das rotas mais óbvias apresentadas pela nossa degradada mídia de jornais e televisão, e surfa um pouquinho pelas ondas de ótimas rádios FMs que estão disponíveis na região, além de se valer dos clusters de informações que se formam no mundo virtual em tempos de internet colaborativa. Algumas dessas rotas que eu mesmo alterei, vou compartilhar com os amigos leitores do OPS ao longo das próximas edições desta coluna. Bem, sem muita novidade até aqui… O que me proponho fazer é apenas a mesma coisa que milhares de outros blogueiros fazem mundo afora… e muitos até que eu consulto com certa frequência. Mas espero humildemente que eu possa colaborar com vocês leitores para nos tornarmos juntos mais “pensadores” e um pouco mais “selvagens”! Enjoy it!