Bandeira, Villa-Lobos e as Tres Mulheres do Sabonete Araxá

  Conheci Manuel Bandeira  meninote ainda, gostei logo de cara de suas poesias, seus versos, versos de circunstância… Ah! “As Três Mulheres do Sabonete Araxá, foi meu primeiro alumbramento”. Eu nem sabia o que era alumbramento, mas só podia ser coisa boa, e as tais mulheres do sabonete então, como seriam? Lindas claro. Lindas e nuas, ou talvez, só escassamente recobertas por fino e transparente véu, ah, as três mulheres do sabonete araxá! Que boa fortuna conhecê-las tal Manuel Bandeira as conhecera, íntima e completamente, prerrogativa só dos poetas.
  Heitor Villa-Lobos, didático acima de tudo. No Conservatório Leonie Ehret, a professora e virtuose Maria Cecília levava isso muito a sério. Qualquer publicação com assinatura do grande músico devia ser estudada com desmesurado afinco, até aqueles livretos do Programa de Educação Musical para o Ensino Primário, (acho que era esse o nome, a memória já me anda a sumir), do tempo do Getúlio, o Vargas, década de 30, no tempo da Bumba (a mãe do Bumba).  Na saudosa e querida Escola, tocavamos as Cirandinhas quase todas e o desafio era tocar as Cirandas, o que era quase impossível, na época.
  Somente já rapazote, treze ou quatorze anos é que conheci as obras sinfônicas do Grande Villa-Lobos, e comecei logo com a Floresta do Amazonas, um grande impacto: Foi meu primeiro Alumbramento! Ah, agora sabia como era o primeiro alumbramento, e nem foi com as três mulheres do sabonete Araxá…
  A gravação de l959 da Floresta do Amazonas tem umas particularidades notáveis: O próprio Heitor Villa-Lobos regendo a Symphony of the Air & Chorus, tendo a especialíssima participação da soprano Bidú Sayão! Quando ouvi pela primeiríssima vez este fabuloso disco, em lágrimas, espantaram-me uns graves que a soprano às vezes dava, deixando pra lá a impostação e valendo-se do falsete, pode? Pode, Bidú Sayão pode.
  Estão todos mortos, a Sinfônica, o Maestro, a Soprano. Quando também eu, embarcar nesta viágem, espero que haja um bom Sebo por lá (no Céu) comprarei o disco e pedirei o autógrafo de ambos!
  Por hora, fazendo votos que a tal viagem acima inda demore muito,
  Um forte abraço.

 

O Esquisito Violino Stroh

   Dando prosseguimento ao assunto da aula anterior, vamos conhecer hoje, na categoria de  estranhos instrumentos, da nossa querida Escola Anormal, o esdrúxulo Violino Stroh.
   Criado por Johannes Matthias Augustus Stroh, daí seu nome, esse violino aparentemente estranho, tem lá sua explicação. Na época das gravações em discos de cera, no tempo dos Phonógrafos e Gramophones, como se sabe, não havia ainda a captação elétrica do som, ou seja, a música produzida pelos instrumentos, ou antes, a vibração produzida pelos instrumentos, atingia a campânula de um grande funil de metal que conduzia esta vibração até uma espécie de diafragma acoplado à uma agulha. Vibrando este diafragma, a agulha, que lhe estava ligada, igualmente vibrava, por conseqüência imprimia, na cera meio amolecida, essas vibrações. Após, era só fazer essa agulha trilhar novamente aqueles sulcos que ela mesma traçara, lá estavam registrados os sons que ela gravara ao vibrar sobre a cera. O resultado? Ora, reproduzia-se a mesma música produzida pelos instrumentos, só que desta vez, reproduzida pela máquina, não é fantástico? Simples, fantástico e Divino, como tudo que o homem inventa com o espírito  voltado tão somente para ideais nobres e elevados como a Música, por exemplo.
 Bem, o certo é que um grupo de instrumentistas, durante a gravação de determinada música, deveria posicionar-se bem próximo à máquina de gravação, a fim de que suas vozes e as vozes de seus instrumentos penetrassem com facilidade o tal funil. Agora, imaginem numa orquestra, aqueles instrumentos cujo volume sonoro (intensidade) geralmente não é assim tão forte, como o violino, dificilmente um som de pouca intensidade atingiria a boca desse funil com a mesma facilidade com que o faria um instrumento potente, do naipe dos metais, como uma Tuba por exemplo. Assim, por conseguinte, é fácil perceber que o som do violino sairia quase inaudível naquela gravação. Foi aí que surgiu o nosso herói Johannes Stroh, que sabiamente substituiu a tradicional caixa de ressonância do violino (o corpo do violino) por uma espécie de corneta. Uma pequena caixa situada abaixo das cordas do instrumento captava o som (as vibrações sonoras) enviando-as para a parte mais cônica de um funil (a corneta) que a amplificava ao liberá-la pelo outro lado, ou seja, pela abertura mais larga, (como foram importantes os funis heim?) este era, portanto, o método de amplificação imaginado por Johannes Stroh. Método completamente mecânico, naturalmente, mas na época, a fina flor da tecnologia.
   O Instrumento era meio estranho, realmente, uma espécie de violino híbrido,do qual saía uma grande e esquisita corneta mas, prestava-se perfeitamente ao papel para o qual fora criado: Amplificar os sons do violino. E, com isso, conseguiu-se fazer gravações maravilhosas em discos de cera, valendo-se deste engraçado artifício. O resultado foi tão bom que perdurou até após o invento do microfone elétrico, chegando ainda a ser usado fora dos estúdios de gravação, em salas de concerto.
   Para termos exemplo real do som deste extravagante instrumento e de uma dessas gravações, no link abaixo você poderá ouvir uma soberba gravação  da Danse Macabre de  Saint-Saëns pela Orquestra da Filadélfia, conduzida por Leopold Stokowski, em 1925. A Gravação é espetacular, não apresenta um chiado sequer e não passou por nenhum tipo de remasterização, está completamente original e é rara!
   Aproveite, portanto, esta bela gravação com esse excêntrico instrumento, CLIQUE AQUI.
   Forte abraço.

Escola Anormal – A Trompa

 Tenho, em meus alfarrábios, uma pequena série de artigos que denominei de Escola Anormal, forma de alusão às antigas Escolas Normais, encarregadas de formar professores e que acabaram sendo substituídas pelas atuais escolas de segundo grau ou, sei lá como se chamam hoje em dia… Nesta série, faço pequenas e despretensiosas descrições dos vários instrumentos componentes de uma orquestra (ou não) dando ênfase àqueles mais esquisitos ou, menos comuns, o que, em verdade, acaba abranjendo  todos eles pois, se analisarmos com cuidado, perceberemos que todos apresentam características singularíssimas, resultado, penso eu, da tremenda necessidade que sempre atormentou o homem no seu afã de expressar-se através da arte, principalmente da Música.
 Há, entretanto, neste seleto hall de instrumentos sinfônicos (ou não) realmente, alguns que nos chamam à atenção mais que outros, seja pelas suas esquisitices estruturais, por alguns detalhes construtivos ou até pelo perfeccionismo da boa liuteria.
 Exemplo de um dos mais belos artefatos sonoros criados pelo homem é a Trompa, consiste, este magnífico instrumento de angelical sonoridade, de um tubo metálico com quase quatro metros de comprimento, enrolado em círculos sobre si mesmo, a fim de, diminuindo-lhe o tamanho, possa ser manipulado e executado com relativa facilidade pelo músico, o trompista, facilidade, no caso da Trompa é mera retórica.
  Dotado de chaves, estas são acionadas pela mão esquerda do músico, enquanto a direita controla a intensidade de ar que percorre o instrumento. Este enorme tubo de metal habilmente enrolado tem, numa extremidade o bocal, a embocadura propriamente dita, noutra, o pavilhão, por onde sai o som, amplificado pela sua natural conformação em forma de campânula. O concurso do uso das chaves e da mão direita no interior da campânula, sem esquecer-se do sopro perfeito do trompista, é que faz com que as notas sejam produzidas em diferentes alturas e timbres. É um instrumento realmente muito difícil de tocar, o trompista, além de um ouvido afinadíssimo deve ter uma coordenação motora perfeita para controlar os músculos das mãos direita e esquerda além da própria respiração. O timbre da trompa é muito rico em harmônicos e muito se assemelha à voz humana, a mão dentro da campânula ajuda a produzir uma enorme variação de timbres.
 Trompas aparecem nas 10 últimas sinfonias de Haydn e Mozart, em todas as 9 de Beethoven, nas 4 de Schumann, nas 4 de Brahms, nas 6 de Tchaikovsky, nas 9 completas de Mahler. A partitura da Segunda Sinfonia de Mahler exige dez trompas”.
  Bem alunos, Oops! Quero dizer, bem amigos, esta é nossa querida Trompa, milhões de palavras, entretanto, seriam inúteis para descrevê-la. Como disse o sábio Mikhail Naimy: “Em cada mil palavras que se escrevem, às vezes só há uma, que verdadeiramente é necessário escrever! As restantes são somente tinta e papel desperdiçados e minutos aos quais se deu pés de chumbo em vez de asas de luz. Como é difícil, oh! como é difícil escrever a palavra que realmente deve ser escrita!”
 Sinto-me impossibilitado, pelas minhas inúmeras limitações, a prestar uma justa homenagem a este magnífico instrumento que nos tem embalado com encanto e desvelo durante os séculos da Música. Fiquemos, portanto, por aqui mesmo. Na próxima aula conheceremos um instrumento bem estranho, mistura de cordas friccionadas com uma campânula metálica, um híbrido esquisitíssimo! Meio violino, meio trompa… Refiro-me ao desengonçado  porém adorável Violino Stroh, mas, trataremos dele só na próxima. Até lá.
Forte abraço!

 

Tributo a Um Velho Amigo

 

  •    Folheando hoje uma velha edição das sonatas de Scarlatti, pude notar como estão amareladas e ásperas suas páginas. Quebradiças, impõem -nos forte obstáculo ao manuseá-las. Como dissessem, deixe-nos em paz, estamos cansadas e já muito fizemos.”Quedo el depósito que estabelece la Lei…” Este aviso havia no rodapé de todas as edições da velha Ricordi Americana da longínqua década de cinquenta, bons tempos…
  •    O piano, um velho Essenfelder outrora Vivace; Allegro risoluto ed enérgico; Maestoso; Expressivo, tocava Melancolie no modo maior, hoje Adágio; Com moto tranqüilo; uguale e dolce; soturno, amarga o cruel abandono num canto escuro de sala como mero adorno decorativo. Incapaz de levar a termo uma simples escala cromática, desafina logo no streto duma fuga qualquer, mas, pra que toca-las afinal? Certamente está farto de ouvi-las.
  •    O feltro rasgado insiste num crescendo em pleno pianíssimo. Suas teclas outrora ágeis, hoje vacilantes e vagarosas, com dificuldade retornam a posição, muitas vezes sequer ferem as cordas, como delas se apiedassem.  É, velhos andam e falam mansa e vagarosamente.
  •    Apesar de todo seu brilho no passado, de tantos sonhos que acalentou, tanta alegria graciosamente distribuída a todos ao seu redor, resta-lhe agora, somente o final. Não um “Grand Finalle”, não, apenas um senza rallentando.
  •    Senza rall…

 

O Piano e o Violino

  Alguns de nós somos mais saudosistas que outros, é verdade. Não vejo nada de mal nisso, eu mesmo sou extremamente apegado a velhas traquitanas. Sonhando acordado vejo-me em outras eras.
  Nas viagens que faço à capital, meu alvo predileto ainda é o casario. Vejo o que sobrou duma época de glamour, vejo a loja tosca e de mau gosto que substituiu o belo casarão. Vejo aquele horroroso prédio de apertamentos plantado bem ali, onde outrora reluzia um sobrado onde gozei deliciosos momentos,  grande parte de minha juventude…
  E não adianta apelar para leis preservacionistas, não, isso não existe. É mera balela, conversa para bois tolos dormirem. Qualquer espaço que interesse ao poder econômico é imediatamente demolido. É assim a lei da estupidez e da ignorância, e funciona magnificamente. Com uma eficiência exemplar. Coisas do Brasil!
  Mas, como em tudo há exceções, lembrei-me agora de uma delas e de um fato também interessante relacionado a coisas antigas. Todo mundo sabe que os melhores violinos são aqueles fabricados por Stradivarius. Dizem os especialistas, têm uma sonoridade espetacular, por conta talvez, da madeira meio queimada com que foram construídos, e, com o passar dos anos melhoram mais e mais sua qualidade sonora, acho que a tal madeira já se está petrificando e, com isso, adquirindo características peculiares, sei lá… O que importa é que existe um consenso de que violinos, quanto mais velhos melhores. Este conceito naturalmente estendeu-se para outros instrumentos da mesma família, e após, para outras famílias, até chegar ao piano.
  Ora, um violino nada mais é que uma caixa de ressonância onde cordas são presas e esticadas através de um braço que lhe serve de extensão. Friccionadas essas cordas, por uma mexa de longos fios de pelos de cavalos, esticados através de um arco, geram a sonoridade peculiar aos violinos. Grosso modo é só isso, e o efeito é fantástico, dependendo de quem o manipula. Não é formidável?
  Já um piano não, é tudo muito diferente, a tecla, ao ser acionada, inicia um processo, todo ele através de entalhes precisos na madeira, engrenagens, molas, feltros e etc. Finalmente, ao ser martelada a corda, um extenso processo mecânico antecedeu a formação do som que ouvimos. Ora, é natural que tal mecanismo, como qualquer mecanismo, gaste-se ao sofrer a ação do tempo não é? E se todo esse intrincado sistema, sujeito há décadas de uso contínuo não for mantido em perfeito estado de funcionamento, (já que as peças de madeira gastam-se quando em fricção com outras) o resultado é um instrumento com teclas pesadas, com pouca resposta sonora, lentas e… Impróprio para uso em uma sala de consertos, por um grande virtuose.
   Pianos mais antigos, que nunca passaram por pequenos ajustes e reformas então, nem se fala, precisariam de uma reforma estrutural tão completa que, nem sei se valeria o custo da obra.  Sem falar que a boa Liuteria não é tão fácil  achar.
   Pois bem, há uns trinta anos, esteve aqui na minha cidade para um recital, a grande Eudóxia de Barros, que marcou apresentação no Teatro Universitário. À época nada mais que uma minúscula sala, mal projetada de bancos desconfortáveis e quente. Mas que tinha como estrela, no palco, a abrilhantar-lhe, emprestando-lhe parte de sua formosura, um magnífico e enorme piano cauda longa, próprio para concertos. Não me lembro se era um Steinway ou um Fritz Dobbert, ou outro qualquer, creio que já vão bem mais que trinta anos… Bem, não importa.
   A grande pianista, ao chegar e examinar o instrumento, apesar da marca e modelo do mesmo, percebeu, naturalmente, que seria impossível um recital naquilo, naquele velho piano. E eu que estava lá desde cedo, lembrei-me que a poucos passos daquela sala, no prédio vizinho, o Conservatório, nessa época pertencente à Universidade Estadual, se não me falha a memória, encontrava-se no auditório do primeiro andar (o único, aliás) um Yamaha, também de cauda, novinho em folha, estalando de novo. Eu mesmo já havia dedilhado suas teclas e ouvira  pianistas colegas meus, nele se apresentarem.
   Ao aproximar-se a hora do recital houve certo mal-estar por parte dos organizadores do evento, que marcaram um recital de piano num local em que o piano era uma verdadeira sucata. Muito bonito, de muito boa marca, mas, uma sucata.
   Por sorte alguém com discernimento e sensatez sugeriu que a grande pianista transferisse a apresentação para o prédio ao lado, onde se achava à sua disposição, no auditório, um magnífico Yamaha. Feita a mudança e com pouco atraso, o recital transcorreu maravilhoso. A virtuose  Eudóxia de Barros, mulher ainda jovem e bela, brindou a todos com um magnífico espetáculo. Eu, também jovem, fiquei encantado com a bela presença feminina da maravilhosa pianista!
  Antiguidade não é sinônimo de qualidade, e o que é bom pode resvalar em sua própria ruína.
   Não sei do tal piano do teatro, nem do Yamaha do auditório, talvez nem mais existam, mas, a pianista, a grande Eudóxia de Barros, é possível conhecê-la e à sua discografia através do belo Site http://www.eudoxiadebarros.com.br

 

Zequinha de Abreu, Mário Mascarenhas e o Acordeom

   Costumo declarar que hoje em dia, só nas horas da angustia e da saudade ouso escrever minhas bobagens e soltá-las aos quatro ventos, em busca de vossos ouvidos amistosos e complacentes. Poupando-vos, no mais das vezes, dessas coisinhas tão insignificantes. Insignificantes como gotinhas de lágrimas que, no entanto, se agigantam quando de nossas faces rolam, transmutando-se em oceanos imensuráveis…
   Quando menino, lá em casa, ou melhor, no Conservatório Leonie Ehret, éramos levados a tudo estudar: Piano, Violino, Flauta… até Acordeom, isso na música, pois também aprendíamos Desenho, Pintura, e até Artesanato. Praticava-se um bocado, de tudo um pouco. Mas, tudo isso, só o fazíamos se nos desse prazer. Era essa a lei, essa a ordem única, tudo por amor ao Belo, ao Transcendental, à Arte, ao Pensamento. Cultuávamos o pensar, e, por excelência, o livre-pensar desde pequenos.    Agora, cada um que escolhesse o que quisesse para se especializar e rumasse seu caminho. Escolhi o meu, todos sabem, mas, não sem passar por essas generalidades que citei acima, inclusive o Acordeom. Sim, o velho Acordeom pra mim sempre fora uma brincadeira de muito mau gosto, naquele tempo estava na moda, levado aos píncaros da fama graças ao grande acordeonista Mário Mascarenhas, mas para mim, sempre foi uma brincadeira. Achava-o um troço meio desajeitado, grande demais para uma criança, (um Scandalli de 120 baixos, se não me engano, da minha mãe, que deus a tenha).
   O que mais me irritava nos Acordeons eram as teclas esquerdas, ou melhor, os botões da mão esquerda, que trazem os acordes prontinhos. Por essa época já não gostava muito da polifonia (sempre preferi o contraponto, desde pequeno). E, o tal instrumento estava fadado eternamente a polifonia pelo menos estruturalmente, já que na realidade,  tive oportunidade de ouvir gente fazer verdadeiras peripécias malabarísticas. Peripécias malabarísticas contrapontísticas! Tocar uma fuga de Bach num acordeom pra mim, parece mais mágica que outra coisa! Miraculosa peripécia, devo dizer.
   Pois bem, hoje, mexendo inadvertidamente em meus parcos alfarrábios, que escaparam ilesos do último auto de fé do qual foram vitimas, acabou caindo em minhas mãos um livro de Zequinha de Abreu: Partituras de Zequinha de Abreu transcritas para acordeom por Mário Mascarenhas. Pronto, era o que faltava, Zequinha de Abreu e Mário Mascarenhas.
  Nascido José Gomes de Abreu na distante Santa Rita do Passa Quatro, em São Paulo, no distante 1880, o ilustre maestro Zequinha de Abreu tornou-se reconhecido mesmo, pela exuberante coleção de Choros que compôs. Quem não conhece o Tico-Tico no Fubá imortalizado pela portuguesa/brasileira Carmem Miranda? A obra musical do grande músico é magnífica e permeou toda minha infância, desde as mais singelas como “Os Pintinhos no Terreiro” até as extremamente evocativas e sentimentais como “Tardes em Lindóia”. E Mário Mascarenhas? Que dizer do maior acordeonista do planeta? Nada que se diga acerca do grande músico será fidedigno ao seu talento. Será antes mera vaidade crítica, portanto, devo calar. Calar e invocar o pensamento de M. Naimy: “Em cada mil palavras que se escrevem, às vezes só há uma, que verdadeiramente é necessário escrever! As restantes são somente tinta e papel desperdiçados e minutos aos quais se deu pés de chumbo em vez de asas de luz. Como é difícil, oh! como é difícil escrever a palavra que realmente deve ser escrita!”
   Bem, o que ocorreu comigo, naquele momento em que incauto fucei velhos papeis,  me deparando com aquele velho livro de partituras de Zequinha de Abreu transcritas por Mário Mascarenhas foi algo realmente  muito insólito, vítima, mais uma vez, de uma viagem astral inesperada, fui, subitamente transportado ao passado, aos meus tempos de menino, àquela enorme caixa preta, cujo interior encerrava um magnífico Scandalli escarlate, repleto de detalhes dourados e prateados, com um lindo teclado em  marfim de um lado, e do outro, uma galeria de nada menos que cento e vinte botões de um negro profundamente brilhante. Separados por um indescritível  fole encarnado rutilante, tendo em cada um de seus plissados, a arredondar-lhe os cantos, um lindo contorno de metal prateado, conferindo-lhe nobreza e dignidade…
   Que visão elegante e nobre acabo de ter. Que sensação auspiciosa e sutil acaba de invadir todo meu ser… Aquele Instrumento, outrora desengonçado, que para mim fora brincadeira chula, reveste-se hoje de nobreza em magnitude imensurável. Ah! O que não daria para ouvir mais uma vez um mero acorde daquele tão nobre instrumento…

 

Lehar e a Paillard 1920

   Como à maioria dos compositores eruditos, mas nem todos claro, conheci o Austríaco Franz Lehar ainda na minha meninice, mas não no Conservatório Leonie Ehret onde nasci, não. Na verdade conheci-o através de uma velha vitrola à corda, uma magnífica Paillard da primeira metade do século passado, não que seja tão velho, não.
   Na casa de meus pais, como nas demais, creio, havia uma bela Victrola RCA, daquelas enormes, de madeira, em estilo barrôco(…), com duas portas laterais que escondiam os alto falantes e uma janela central que encerrava o lindo receiver valvulado, o pic-up e o container dos discos. Constituía verdadeiro sacrilégio, pôr a rodar nesta obra de arte tecnológica, os velhos discos de Cera de Carnaúba de 78 RPM, fabricados até a década de 60, quando surgiu, o elegante e tranqüilo vinil.  Ora, ninguém mais os usava, muitos foram para o lixo, mesmo assim, alguns que escapavam ilesos à indignidade humana, eram proibidos de rodarem nas modernas Vitrolas eléctricas, explico: a agulha de finíssimo diamante, projetada para rodar normalmente em 33/3 rpm, rapidamente se gastaria reproduzindo os pesados 78 rpm, mesmo nos pick-ups guarnecidos com duas agulhas uma para 33, outra para 78 rpm, não se costumava rodá-los, com receio que a alta rotação aliada aos arranhões e chiados naturais aos 78 rpm, danificassem a bobina captadora.
   Bem, lá em casa, além da moderna vitrola,  posta na sala principal com grande ostentação, como peça de grande valor decorativo e demonstração de elevado status,  escondia-se num armário da copa, com um bom número de antigos discos, uma velha vitrola à corda, era uma  Paillard, lindamente revestida de couro escarlate, quando se lhe abria o tampo, deixava à mostra um interior exuberante: O braço em forma de “S”, articulado bem ao meio, prateado e muito brilhante, terminado pelo reprodutor, era assim que se chamava a parte final do braço, uma espécie de diafragma metalizado que sustentava a agulha que feria o disco de cera de carnaúba, reproduzindo desta maneira o som que seria amplificado mecanicamente pelo tubo e boca de saída (pavilhão)  de som, parece que estou descrevendo um artefato de outro mundo, e talvez aquele tenha sido realmente um outro mundo, começo a perceber.
   O prato, local onde se punha o disco, era recoberto por um veludo muito vermelho e muito espesso pra não arranhar o disco, como se isso fosse possível. A borda prateada do prato em contraste com o veludo cor de sangue e o negro do disco sempre a girar, desde que se lhe desse-mos bastante corda, tinha em mim, menino, um efeito mágico. Quando a agulha do pesado braço enfim feria o espesso e ágil disco, iniciava-se mais uma sessão esotérica, cabalística, fabulosamente transcendental. Pra mim aquela vitrola era um espécie de portal dimensional acionado por uma tosca e mágica manivela de metal. Era, na minha imaginação de criança, a chave de ligação com o imponderável, com o desconhecido, com o fabuloso. Era uma espécie de Ascensão a planos mais sutis, causada pela música que de maneira miraculosa, emergia do nada, daquela caixa de madeira vermelha maravilhosamente misteriosa!
  Essa Vitrola ainda existe hoje em dia, no Museu dum grande colecionador de Artes aqui da Região, não tenho nem coragem de ir lá. Não sei que reação teríamos, a Vitrola e eu, ao nos reencontrar-mos. Deixemos isso para uma outra existência…
  Bem, esta velha vitrola, a Paillard, e esses vários discos de Cera de Carnaúba constituíram, para mim, o maior alumbramento de toda minha meninice, e com ela descobri coisas maravilhosas que jamais descobriria nos Conservatórios. Compositores estupidamente taxados pelos críticos desespecializados (e aqui já venho com meu ódio mortal aos críticos) como compositores menores, e nos conservatórios sequer citados, por não entrarem em seus programas oficiais. Além de  uma variedade de compositores brilhantes e únicos em sua arte, indignamente rotulados de semi-eruditos. Semi-eruditos? Que piada…
  O que importa é que esta velha vitrola me trouxe grandes alegrias e emoções, uma delas foi Franz Lehar, um dos maiores compositores Austríacos da segunda metade do século passado, autor da célebre Viúva Alegre, quem não conhece a Viúva Alegre? Pois bem, eu, conheci através da velha Paillard de 78 rpm. Já havia, a época, o vinil, mas, eu, conheci-a através dum velho 78 rpm de Cera de Carnaúba…  Hoje, vários desses compositores estão, irremediavelmente, para mim, ligados à velha e bendita Paillard. Por mais que continue a ouvir suas melodias maravilhosas através de equipamentos os mais modernos, dotados de caixas acústicas fabulosas e excelentes equalizadores, o som primordial de todos eles é, ainda, para mim, aquele sonzinho sem profundidade, com poucos agudos e quase sem graves, cheio de chiados… Saído das entranhas de uma divina e transcendental Paillard!
 

 

Que é World Music

  Muitos idiotas de narizes empinados, costumam torcê-los diante do que se costuma chamar de World Music, que nada mais é que música de excelente qualidade produzida, amiúde, com marcante característica de  determinada cultura, baseada antes  no acervo folclórico do que nas  tradicionais Escolas eruditas.
   Ora, o que se chama de música World, portanto, simplesmente é, uma peça  musical polifônica, destinada a interpretação instrumental e/ou vocal, muitas vezes  orquestral, não enquadrada em nenhuma corrente tradicional e com fortes  traços culturais da nacionalidade do compositor. Portanto, música de qualidade, dignificante da espécie humana, música que enleva a alma  enquanto eleva, nobilita e enobrece a condição mundana desses seres planetários,  ainda disformes que somos. Claro, a consecução desse mister está  diretamente ligada, tanto mais ou tanto menos, a  situação relativa ao  adiantamento espiritual do compositor, naturalmente, sem falar da  técnica de composição, do talento, da inspiração, da capacidade de  transformar esses surtos em frases musicais, em arranjá-las, orquestrá-las, etc. e etc..
   Posso dizer que, como blogueiro, sou editor bissexto, é fato, e todos já sabem o porquê, como já o expus em outras reportagens em outras páginas. Portanto, juro que não vou mais dizer aqui que só escrevo nas horas da angustia e da saudade, quando ouso soltar palavras aos quatro ventos, em busca de  ouvidos amistosos… Não, não vou mais dizê-lo! Mas, hoje,  fui movido a escrever algumas bobagens, instigado que fui pela leitura de um recado, daqueles deixados nas caixas de mensagens de Sites, por um entendido em música, “um crítico”, a um jovem editor, blogueiro  iniciante.  A verdade é que deploro com veemência, e tenho deplorado por toda  minha miserável existência, como todos já estão fartos de saber, o que  se chama de crítica especializada, que sempre taxei de crítica  desespecializada.
   Ora, vi esse sujeito doidivanas aconselhar o tal jovem a não contaminar seu blog de Música Erudita, com porcarias World Music e New Age.   P… Um caboclo desses, com toda certeza, mal distingue um Baião de Luiz Gonzaga duma fuga de Bach, (Vou logo advertindo que nada tenho contra o grande Luiz Gonzaga, que por sinal adoro, e o meu querido www.pianoclassico.org  está  recheado de sua música)
   Aí, se o jóvem blogueiro iniciante não tiver estrutura anterior bem formada nos meandros da música erudita? Se estiver, como é bem provável, usando o recurso eletrônico através da web para aprender e crescer pessoalmente, enquanto compartilha seu próprio acervo? O que é muito louvável, diga-se  de passagem. Não é muito difícil perceber que o iniciante, em tributo à “grande figura do crítico”, passe incontinenti a torcer suas próprias ventas a tal música world…
   Juro, de pés juntos,  que não digo mais que nasci (literalmente) dentro de um Conservatório. Que a Música Erudita foi meu café da manhã, meu almoço e meu jantar durante mais de meio século, e que me embalou desde o jardim-de-infância até a universidade. Que minha mãe foi pianista, que a avó foi pianista, que o bisavô foi maestro, lá pras bandas da Europa…  
   Eu? Não, pelo menos não nas salas internacionais! Sou é criador de bodes, como já sabem, mas, apesar da minha quase nula erudiçao, tenho uma opinião que me acompanha a mais de meio século, e dela não abro mão, em hipótese alguma, mesmo que seja indiscutivelmente desprovida de qualquer valor e, comprovadamente obra de elucubrações mentais doidivanísticas resultado de meu pensamento profundamente sebastião: Só um louco deixa de ver as “belezuras” de uma música só porque não é erudita, ou antes, não foi rotulada e carimbada convenientemente como  erudita, de Escola tal ou qual. A Música é tão mais espiritual que técnica, nada vale a técnica esmerada sem a divina inspiração. Sem aquela sublime força interior que vez por outra, passa a mover as mãos  do compositor, não poderia haver música somente baseada na técnica.  Compare Pachelbel com J.S.Bach, o que sobrou de técnica naquele, folgou em espiritualidade neste que aliada a imensurável técnica (própria) de composição,  deu no que deu!
    Bem, amigo leitor, abramos, portanto, nossos ouvidos e nossos  corações à toda produção artística honesta e, descubramos por nós  mesmos o que nos agrada ou nos desagrada. O que nos conduz a elevados  patamares. O que nos engrandece a alma e faz-nos pulsar ao ritmo do magnífico balet estelar das cósmicas amplitudes. O que nos arrebata com tranqüilidade a outros níveis vibracionais, e, enfim, ouçamos com o  coração, com o espírito e com os ouvidos bem abertos. Essas são condições sem as quais não se pode discernir sobre a verdadeira qualidade da obra musical que se ouve. Para quem tem, portanto, o espírito elevado (sorte grande, verdadeira mega-sena acumulada) e, se se tem um cérebro compatível (bem dotado, bem programado e bem utilizado), a crítica passa a ser inoportuna, improfícua, inútil, frustrante, imprestável, além de desnecessária.
   Portanto, amigo leitor, se somos assim, (sem falsa modéstia) posso dar-lhe uma pequena dica sobre uma forma segura de profunda análise musical, evitando a chata análise estrutural entre outros recursos mais maçantes: Se gostamos de tal peça musical, “ela é boa”. Se não gostamos do que ouvimos (se ela não nos impressionou positivamente): Não presta, é música de segunda categoria, prejudicial a nossos ouvidos.  A crítica que se dane. A nós, preparados que somos de orígem, basta-nos o sentido da audição. Todo o resto é balela e conversa pseudo-erudita fiada para “bois tolos” dormirem.

 

A Arte da Fuga para Iniciantes

   A supremacia de J.S.Bach sobre todos os que se atreveram a compor segundo as regras do contraponto deve-se, além da influência que sofreu do gênio Pachelbel; além da superior inteligência de que era possuidor; além do espírito brilhante, luminoso e elevado que demonstrava ter, a uma particular característica, singularíssima e somente por ele utilizada e talvez só por ele conhecida e jamais desvendada ou utilizada com absoluta completude, quer pelo homem de sua época ou por qualquer outro que, no decorrer da história da Música, tenha ousado, utilizando-se somente daquelas conhecidas técnicas de composição contrapontísticas, formular, por exemplo, uma Fuga que ao menos de longe arremedasse, mesmo que de forma sofrível e caricatural, o magnífico mistério da arte da Fuga de J.S.Bach.
  Uma grande malandragem de J.S.Bach!
  Uma grande Malandragem, no sentido mais belo, culto e antigo deste vocábulo, se é que se pode associá-lo a tais adjetivos (o vocábulo), se é que me entendem…
  Trocando por tripas: Já dei essa aula muitas vezes e continuarei, estóico, a facultá-la até que se expire em mim o último sopro, não como a calar-me como se cala o “Rei dos Instrumentos” segundo Mozart, ao esvair-se totalmente o ar que o anima, não, mas, talvez como uma singela gaita de boca que remata, põe termo, finaliza sua breve história ao findar o leve sopro que a sustém, com sublime humildade.
  Ouço, enquanto tento coordenar grosseiramente algumas idéias de natural mediocridade, naturais à minha pessoa, e que procuro, não sem dificuldades, assentar no papel, como tentativa de representação escrita de um ordinário balbuciar sub vocalizado, muitas vezes incompreensível até para mim mesmo, conseqüência do pensamento tosco, inculto, vulgar e profundamente sebastião, que possuo, como único bem de um ignorante, a “Elegie” das Seis Suítes para Violino e Órgão de Rheinberger. E foi isso que me levou a escrever, mais uma vez, sobre a Arte da Fuga de J.S.Bach (…) É, dá-me ânsia de falar sobre este assunto sempre que escuto Händel, Telemann, Pachelbel e etc..  Como já tenho falado e escrito muito e muito sobre este tema, creio que até mesmo aqui no OPS, serei breve e não entrarei nos pormenores, que podem ser lidos em vários outros artigos e em outras páginas. Vou logo ao assunto:
  No que consiste a Divina Malandragem de J.S.Bach? Ora, tomemos por analogia o computador e o conhecido recurso do “copiar, arrastar e colar”: Numa Fuga, (a mais completa forma de composição jamais alcançada por nenhuma outra, pelo menos nesta dimensão conhecida), após a exposição do tema, a segunda voz passa imediatamente a repeti-lo, enquanto a primeira, utilizando-se das técnicas contrapontísticas usuais, somente acompanha, passivamente, esta reprodução do tema. E assim sucede com a terceira, quarta ou quinta voz, sempre da mesma maneira. Exceto em J.S.Bach, em que essa passividade não existe, absolutamente. Ao terminar sua exposição, geralmente simples, e, durante à repetição deste tema pela segunda voz, é aí (e aí está o grande diferencial de J.S.Bach) que a primeira voz, após ter feito já seu discurso temático, passa a demonstrar, valendo-se de magnífica competência contrapontística, numa estrutura frasística geralmente “mais bela que o próprio tema inicial”, o que realmente de belo parece ter imaginado, intuído ou recebido de uma entidade superior, o autor da fuga.  E com isso enche de tal forma o ouvido, o cérebro e o espírito de quem a ouve que (e por isso mesmo), esta forma musical nas mãos do grande Mestre de Weimar é, a meu ver, a forma mais transcendental e rápida em elevar-nos às alturas, a novos estados vibracionais, a novas regiões espirituais, a plagas outras…
   Mas, voltando ao copiar, arrastar e colar: Existe uma experiência simples que qualquer um de nós, com um mínimo de noção sobre composição, pode levar a bom termo na tentativa de comprovar minhas palavras e, de quebra, ainda sentir, pessoalmente, a emoção de desenvolver de forma singularíssima a singularíssima forma de composição do Mestre J.S.Bach: Primeiro componha uma pequena frase melódica na clave de Sol, tente ser inspirado, procure fazer algo medianamente belo mas, singelo, quatro ou oito compassos são o suficiente (é só uma frase), em seguida faça o contraponto para esta frase, use a clave de Fá. Um contraponto simples, somente notas de apoio nos tempos fortes, conforme as técnicas de teoria musical que conhece. Feito isso, vamos ao “copiar, arrastar e colar”: Transcreva o contraponto do tema para a clave de Sol e coloque-o no início da partitura, é isso mesmo, copie arraste e cole o contraponto no início. Agora, transcreva para a clave de Fá este contraponto, que entrará na composição como repetição do “Tema” pela segunda voz, enquanto, naturalmente, a primeira desenvolve o contraponto que, na realidade é o “verdadeiro tema” travestido de contraponto. Deu pra entender não deu? Em outra oportunidade, quando tratar desse mesmo assunto, o ilustrarei com o pentagrama, (quando descobrir como se faz isso com esses editores de textos).
  Pois bem, feito isto, interprete a pequena frase que acaba de compor e veja que emoção em compreender a fundo, estruturalmente, a misteriosa “técnica da arte da fuga”. Mas não fique só nisso. Seguindo o mesmo processo, ouse adicionar uma terceira e quarta voz à sua composição, e, talvez sinta como eu sentia, durante minha juventude, uma estranha sensação de comunhão e proximidade, verdadeiro sacramento musical com o maior cérebro musical desta esfera que habitamos sob generosa anuência do Indulgente Grande Compositor.
   Ouça um pequeníssimo exemplo de J.S.Bach (em formato MIDI, perdão) dessa forma de construçao. Clique aqui

   Forte abraço!

Einstein Cearense

    Atualmente, tenho empregado grande parte de meu tempo na consecução tanto de um prefácio, como da crítica ou, deveria antes dizer (já que deploro a Crítica), das notas que estou a fazer, de cada capítulo de um livro de autoria dum filósofo/visionário brasileiro do início do século XIX. Digo visionário, pois que seu estilo, repleto de visões futuristas, vaticínios, prognósticos e premonições, imprimem à sua obra  um ar romanesco fabuloso, como na obra de Júlio Verne, e não poderia ser diferente, haja vista nosso filósofo ser considerado por seus biógrafos, o introdutor, em nossa terra, do romance de cunho filosófico. Só para citar um exemplo, poucos anos após o advento da lâmpada incandescente de Edison, (1879) nosso cientista precognitivo sentenciou que um dia veríamos, como que encerrada em globo de cristal, a luz solar, a substituir a luz do gás, azeite e velas. Não referiu a ampola cujo oxigênio fora evacuado de seu interior e dotada de filamento de carvão, como a de Edison, muito menos à lâmpada de arco voltaico de H. Davy, (1800) contemporânea daquela e igualmente emissora de fortes ondas de calor (3700 Graus Celsius) posto que o autor visionário afirmasse em outro livro, a qualidade não depascente da luz solar no vácuo, ou seja, no ambiente em que estaria “encapsulada” naquele momento, portanto, quando descreve um globo de cristal (ou ampola sem filamentos) a emitir luz fria capaz de iluminar ambientes inteiros, estava referindo, a meu ver, (e só pode ser isto, já que não há até o presente momento, do ano 2011, nenhuma outra forma de emissão de luz fria) aos modernos Light Emitting Diode (diodos semi condutores) ou seja, pequenas ampolas transparentes a emitir luz fria e, atualmente, amplamente utilizadas na iluminação de ambientes. Se bem que já existe, embora ainda em pesquisa, a luz de óxido de zinco, que na verdade é também uma fonte de luz fria em estado sólido “branca, brilhante, agradável ao olho humano e adequada à ilminação de qualquer tipo de ambiente… Os pesquisadores estão produzindo luz branca centrada na parte verde do espectro eletromagnético aplicando um composto à base de enxofre sobre um preparado feito com nanopartículas de óxido de zinco e de fósforo. O fósforo converte as freqüências excitadas de um LED que emite luz na faixa do ultravioleta em uma luz branca e brilhante.”
   Em outra visão mais, digamos, audaciosa, nosso herói afirma que “Dominará, em pleno vigor, a eletricidade como também outra força ainda incipiente ou não conhecida. As fotografias, aperfeiçoadas e com o auxílio dessas forças, retratarão de país a país, as pessoas e as falas, palavra por palavra, ficando assim estabelecida a ubiquação real do pensamento”. Ora, a este enunciado, alguns de seus biógrafos atribuem a premonição da invenção da televisão, o que me parece medianamente correto quando se analisa, em particular, a afirmativa que “a fotografia aperfeiçoada (lembremos que já existia o cinema de Antoine Lumière, de 1895, baseado no cinetoscópio de Edison de 1891) e através da eletricidade retrataria, em todo o mundo, as imagens e o som”. Só um pequeno detalhe faz esta visão afastar-se da invenção da Televisão propriamente dita, como a conhecemos nos dias de hoje: A inclusão do vocábulo “Ubiquação”. O termo “ubiquação do pensamento”, utilizado pelo filósofo, se o analisarmos com imparcialidade e autonomia crítica, muda totalmente o objeto de sua previsão. Vejamos: em qualquer dicionário o verbete Ubiquação é definido como a “Faculdade de estar presente em vários lugares ao mesmo tempo”. Bem, digamos que, estando a televisão em pleno gozo e execução desta onipresença num acontecimento internacional como por exemplo, numa corrida de carros fórmula um ou, numa copa mundial de futebol, pergunto: Onde está a ubiquidade do pensamento nestes eventos meramente esportivos e futebolísticos? Como resposta digo que “não há ubiquidade de idéias (conhecimento) nestes casos”.
   A forma atual de difusão de imagem e de som através da eletricidade, com perfeita ubiquação do pensamento, ou seja, com ênfase na difusão do conhecimento humano, a meu ver, (neste caso singularíssimo) não sendo realmente essa a premissa da Televisão, só pode ser, e creio ser esta idéia a mais exata, a própria rede mundial de computadores. O objeto das visões do cientista filósofo, portanto, só poderia ser a atual Internet, que se utiliza tanto da imagem como do som, com o nobre fim da ubiquação do pensamento humano (pelo menos em tese). Em resumo: imagens, sons e idéias (pensamento) transmitidas em tempo real e com direito a feedback? Para tal acontecimento só conheço um designativo: “Realidade Virtual”.
   Bom, discutir algo como a Internet mais de meio século antes de seu advento, e, quase vinte anos antes da própria Televisão é, a meu ver, simplesmente fascinante.
  Como hoje sabemos, a energia irradiante que são as ondas eletromagnéticas emitidas pelo sol, variam dentro de uma variada gama de freqüências, dentre elas o infravermelho, e para que este infravermelho se transforme em calor, é necessário que ele incida sobre uma superfície que a absorva, como a do nosso Planeta.  Ao emitir, de volta, esse infravermelho em forma de ondas de calor, o efeito estufa causado pela camada de gás carbônico preserva parte dele, aquecendo, desta forma, a atmosfera terrestre. Outra vez nosso herói visionário causa espanto, ao afirmar que a luz do sol (a luz visível) “não é, no vácuo, absolutamente depascente” (termo em desuso mas, muito empregado à época) “e que, somente ao adentrar a atmosfera terrestre adquire esta característica”.
Ora, com esta afirmativa, consignou formalmente e com muita propriedade científica, a estrutura material da luz, e foi mais além, afirmando que ela (a luz) como matéria, sofreria os efeitos gravitacionais de grandes corpos selestes, asseverando que chegaria ao Planeta Terra de forma angular, Angular? É, desta forma está provado que nosso sábio antecipou-se em 14 anos à comprovação, pela equipe de Einstein, do  enunciado: “a luz varia nas proximidades das grandes massas celestes e força e matéria são uma mesma cousa”. Que ocorreu em 29 de maio de 1919. Lê-se em “Há Dialetos no Brasil? Fatores da Unidade política da América Portuguesa – Um Cearense Precursor de Einstein”, de Amora Maciel: “Eddington diz que, para Einstein, o espaço é abstração, é convencional, sendo que pela Teoria Especial da Relatividade, surgida em 1905, o tempo local era o tempo para o observador móvel e que não existia o chamado tempo real, absoluto. A.S.Eddington escreveu ainda que a combinação dos espaços e tempos locais, em um teto de quatro dimensões, foi obra de Minkoswski, em 1908, e que em 1913 Einstein venceu todos os obstáculos, para, afinal, em 1915, publicar a sua Teoria Geral, que somente chegou à Inglaterra um ou dois anos após (1916 ou 1917), constituindo, assim, o objeto principal da obra do mencionado catedrático de Mecânica. Enquanto isso, já em 1907, no Ceará (Brasil), estava concluído o alentado trabalho do pensador cearense, o qual lhe custou 40 anos de meditação”.
   Em um de seus livros, Fragmentos de Filosofia Natural e Especulativa, lê-se: “Que é o Tempo? Uma ficção, sem correspondente na realidade. Não existe Tempo. A Eternidade não tem passado e não tem futuro; é só o presente. Não tem ontem nem amanhã. Hoje somente. As cousas desenvolvem-se simultaneamente no infinito…”
   Não podemos esquecer que o grande Einstein fora doutor em Filosofia, pela universidade de Zurich, por volta da época em que nosso herói publicava, na Europa, suas teorias, em livro cuja primeira edição rapidamente foi esgotada. Nada mais natural afirmar que o jovem e brilhante Einstein estivesse sempre “antenado” às teorias filosóficas e científicas da época não? Talvez, e aí vai uma mera especulação: Teria o Pai da Teoria de Relatividade lido as teorias de nosso cientista Cearense? Creio que é possível sim, afinal, um homem de elevada cultura, detentor de um cérebro extraordinário como Einstein, deveria, com naturalidade, devorar com ânsia intelectual, toda produção filosófico-científica de sua época. Tanto mais aquela publicada tão perto de si, por um filósofo, cientista e, Judeu.
  Bem amigos, logo que consiga concluir esta pequena revisão crítica que está a me ferver os miolos, na tentativa de levá-la a bom termo, e após sua necessária publicação, estarei, imediatamente disponibilizando-a, tanto em meu blog pessoal, o www.pianoclassico.org como em diversos outros sites da Web, naturalmente de forma totalmente graciosa, como é nosso costume e nossa filosofia, mesmo porque, como todos sabem, deploramos a tal Lei de Copyright, e vamos mais além, ao afirmar, estóicos que, “nenhuma forma de arte e cultura pode ser taxada ou a ela tributada qualquer vantagem financeira através dos desprezíveis direitos autorais”.
   Por agora, despeço-me saudando-vos com um forte abraço!