Quem tem medo de Simone de Beauvoir?

Recentemente, tenho lido e ouvido muitos julgamentos, de teor e tom questionáveis, a Simone de Beauvoir. E essas acusações suscitam uma pergunta: por que sua figura e seu pensamento incomodam tanto? Sua bissexualidade, vários e várias amantes, a recusa do casamento e da maternidade, a liberdade e independência em um mundo cada vez mais conservador poderiam ser uma resposta. Mas a considero simplista e insatisfatória.

Simone de Beauvoir nasceu há 113 anos. Suas obras mais influentes foram escritas entre os anos 1940 e meados dos anos 1970. O Segundo Sexo, seu livro mais importante, foi publicado em 1949. Lá se vão mais de 60 anos. Mas tantas décadas parecem não ter sido suficientes para que sua obra fosse compreendida e criticada com propriedade. Ainda hoje, muitas pessoas se recusam a ler Simone de Beauvoir porque ela era “uma libertina”. E repetem-se afirmações forjadas para atribuir a ela tudo aquilo contra o que ela lutou no plano das ideias e no plano da ação. Acusam-na de submissão, de dependência, de pregar o feminismo para as outras mulheres e não praticá-lo.
 
Essa resistência a Simone de Beauvoir esbarra em questões mais profundas sobre nossa sociedade: a condição da mulher, especificamente a mulher intelectual; a relação entre a experiência vivida e a escrita da memória com a subjetividade; as expectativas que recaem sobre os intelectuais. Tentarei abordar brevemente, e de forma não sistemática, alguns desses temas tendo como referência a figura de Simone de Beauvoir.

Experiência vivida, matéria-prima do pensamento

A grande maioria dos julgamentos feitos a Simone de Beauvoir, acredito, baseia-se em erro primário para qualquer reflexão: desconsiderar o fato banal de que intelectuais vivem. Ou seja, toda vida, inclusive a de uma pensadora, é um emaranhado complexo de descobertas, conquistas, falhas, inseguranças, afirmações, sofrimentos, retrocessos, sucessos. E é em meio a essa complexidade que seu pensamento e sua ação no mundo se desenvolvem, obviamente transformando-se. É, portanto, pouco racional deixar de considerar que, aos 20 anos, aquela pessoa, como qualquer um de nós, ainda não tem o terreno de todo seu pensamento arado e cultivado. Como é pouco racional ignorar que esse trabalho exige esforço.

Assim, por exemplo, há quem queira invalidar o pensamento libertário e antissexista de Simone de Beauvoir baseado em sua relação com Sartre. Afirma-se que ela se submeteu a Sartre durante toda a vida e aceitou um modelo de relação que ele impôs. Isso é incorrer no erro mencionado. Então, vamos a alguns fatos sobre essa relação.

Simone de Beauvoir e Sartre tinham 20 e poucos anos quando firmaram um pacto que previa  um relacionamento aberto, cada um dos dois podendo envolver-se com outras pessoas. Quem propôs este pacto foi Sartre. E Simone de Beauvoir o aceitou. Logo depois, eles foram nomeados para lecionar em cidades diferentes da França. O que unia a ambos: o relacionamento sexual, amoroso, e uma afinidade intelectual que provavelmente nenhum de seus críticos ou seguidores jamais experimentou com alguém. A convivência entre ambos era, ao mesmo tempo, afetiva e  instigante. Desejavam estar próximos. Sartre propôs casamento a Simone. Ela recusou. (Muito antes de conhecê-lo, já estava decidida a não se casar e não se submeteu ao desejo dele ou à paixão.)
 
Simone de Beauvoir sempre desejou ser livre, algo que a vida em uma família burguesa empobrecida de Paris – origem que ela jamais negou – nunca lhe permitira. Liberdade de pensamento, que exercia em suas aulas a alunas do ensino médio (ela só deu aulas em universidades durante a guerra). Liberdade sexual, envolvendo-se em alguns relacionamentos pouco mais do que casuais com homens e mulheres. Liberdade intelectual, trabalhando em seus primeiros livros, que não foram finalizados.

Sartre, no início, chocou-se com a bissexualidade de Simone. Depois, se apaixonou por uma de suas amantes, Olga, e propôs, com veemência e insistência, um novo modelo de relacionamento, que eles chamavam “o trio”. Os três aceitaram. Foram jogados em uma situação em que precisaram rever seus preconceitos e moralismos burgueses, em um turbilhão emocional repleto de sofrimento, conflito, meias-verdades, raiva, inveja. O “trio”, ela relatou tanto em A Força da Idade como em A Convidada, foi um fracasso. Todos sofreram mais do que se divertiram, todos os limites de suas liberdades foram testados, em geral ferindo um dos três. Para dizer o mínimo: Sartre era rejeitado por Olga, que provocava ciúmes em Simone, que era invejada por Sartre por ser a preferida da garota. O terceiro elemento na relação, percebia Simone, instaurava inexoravelmente uma barreira extra à liberdade e ao desejo de cada um dos integrantes do “trio”. E todos sofriam, ora por si mesmos, ora por ver pessoas queridas sofrendo. A partir dali, Simone não integraria novos trios, negando-se a manter o arranjo. Os triângulos, tal qual no início do pacto, voltaram a existir, mas as relações a três, não.
 
Há quem entenda o sofrimento de Simone como submissão. Considero uma percepção muito estreita do que é uma experiência de vida. O sofrimento faz parte das relações humanas. Simone nunca se esquivou dessa angústia. Afinal, primeiro como uma amante da liberdade e, depois, como existencialista, ela sabia que a angústia é inevitável. E também sabia que há uma responsabilidade a ser assumida em relação a si mesmo e aos outros.

A única vez que Sartre propôs casamento a outra mulher, sua amante norte-americana, Simone se retirou do relacionamento. Não queria submeter-se novamente aos conflitos e insucessos do “trio”. Ele desistiu do casamento. O amor necessário entre ambos sempre superou os amores contingentes. E isso não é resultado de uma magia romântica e cheia de coraçõezinhos que surgia no ar todas as vezes que um dos dois estava efetivamente envolvido em outras relações. Foram escolhas conscientes e livres de ambos.

Dizem também que Simone não conheceu o prazer sexual com Sartre e que logo ele se desinteressou sexualmente dela. Duas verdades. O que não é verdade é assumir que ela se submeteu a isso como uma vítima. Simone teve vários e várias amantes e encontrou o prazer sexual em várias relações. Quando o desejo sexual de Sartre deixou de existir, ela determinou que não precisariam mais relacionar-se por mera formalidade. Com o escritor Nelson Algren, envolveu-se no amor romantizado e “tradicional” para sua época. Ele a pediu em casamento. Ela recusou. Muitos a condenam. Além de não estar disposta ao casamento e à maternidade – ele queria filhos –, Simone sabia que sua ligação, ainda que fosse apenas intelectual com Sartre, machucava Algren. Novamente, ela era confrontada com a fórmula do “trio”, em outro contexto. Melhor que cada um abraçasse sua liberdade.

Simone de Beauvoir escreveu milhares de páginas em romances, ensaios, memórias abordando esses e outros fatos. Considerada uma das maiores memorialistas do século 20, produziu quatro volumes bem recheados, nenhum deles com menos de 300 páginas. Somente quem ignora totalmente essa produção, ou quem tenha lido sem nada compreender, pode lançar críticas como as que reproduzo aqui.

Há poucos temas que ela não aborde em detalhes em suas memórias, um deles é o processo movido contra ela pelos pais de uma aluna com a qual se envolveu sexual e afetivamente. Nesses e em poucos outros casos, ela opta por não entrar em detalhes pelo simples fato de que as pessoas envolvidas estavam vivas no momento da publicação dos livros, o que poderia criar mais escândalos.

Em cada página das memórias, a honestidade de Simone é invejável. Ela reconhece, por exemplo, as críticas mal-informadas que ela (e Sartre) fizeram a Freud, os enganos que cometeram em algumas avaliações a respeito de personagens e colegas durante a guerra, o fato de que, durante muito tempo, ela e Sartre, embora lutando contra os ideais burgueses, se submeteram totalmente e sem sequer perceber ao estilo de vida que abominavam.

Simone de Beauvoir acreditava que a matéria-prima do intelectual, além da capacidade de compreender e criticar as teorias, é a própria experiência. É a partir daí, pensava, podemos construir nossa relação com o mundo, talhar nossa subjetividade e, assim, produzir uma obra relevante intelectualmente, capaz de abordar assuntos e aspectos ainda inéditos. Simone não se negava a experimentar nada novo ou diferente. Pagava um preço caro por isso: nos anos 1930, em que uma mulher desacompanhada nem sempre era aceita nem mesmo em um café, ela optava por estar só. A solidão era a chave de sua abertura para o mundo. Nos anos 1940, foi duramente criticada por suas obras, nos anos 1950, enxovalhada por O Segundo Sexo e cobrada por não ter “agarrado” o amor de Algren.

Uma intelectual no tempo

Outra crítica comum a Simone de Beauvoir é de que ela era feminista em seus livros, mas não era feminista em seu relacionamento com Sartre. Dizem que ela pregava o feminismo para outras mulheres e não o praticava.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir afirma que jamais foi feminista e que O Segundo Sexo, publicado em 1949, nunca foi concebido como um livro feminista. Por isso, quem cobra dela uma postura feminista em todos os episódios de sua vida age de má-fé, tentando invalidar seu pensamento e suas ações de forma falaciosa. Simone de Beauvoir só se alinha ao feminismo nos anos 1970.

Portanto, dizer que ela pregava o feminismo para as outras mulheres e não o praticava é, no mínimo, sucumbir a um banal anacronismo. Não, ela não podia viver a juventude de acordo com algo que ela só reconheceu e valorizou na velhice. Sim, os intelectuais mudam e se transformam ao longo do tempo, e isso não invalida seu pensamento. Quando passou a participar de ações do movimento feminista, ela mesma disse que isso demonstrava que suas ideias haviam se enriquecido e aprimorado.

A mulher e as divindades intelectuais

As críticas inadequadas a Simone de Beauvoir, na minha opinião, mostram como ainda é difícil – para pessoas que cultivam o pensamento pouco aberto a ideias inovadoras, diferentes e sempre em transformação – aceitar o papel de uma mulher intelectual nos dias de hoje. A mulher é sempre o Outro, lembra Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, o diferente. E o lugar do intelectual, nós sabemos, é o lugar do um, do poder, da dominação. Aceitar que uma mulher ocupe esse lugar implica superar um preconceito. A resistência ao reconhecimento do papel intelectual de uma pensadora é a expressão desse preconceito: só posso atribui-la ao sexismo que é, para dizer o mínimo, uma fraqueza intelectual em qualquer pessoa.

Entretanto, o julgamento que ataca Simone de Beauvoir não é apenas aquele forjado no sexismo. Há um outro substrato nas acusações levianas que enumerei aqui e em outras que não há espaço para detalhar. Esse substrato é a necessidade de fazer de intelectuais verdadeiros deuses, modelos de comportamento, pessoas infalíveis que têm soluções infalíveis e que não podem ser questionadas. Pessoas que sentem essa necessidade não estão em busca de ideias e propostas, muito menos de reflexão. Sua expectativa é de que os intelectuais lhes ofereçam fórmulas prontas. Se esses deuses falham – e os verdadeiros intelectuais sempre falham porque não são os donos da verdade nem das respostas certas, apenas pessoas honestamente dispostas a fazer perguntas – são invalidados, considerados ruins, incompetentes.

Há uma manobra ideológica e outra, inconsciente, por trás disso.

Todas as vezes que acusamos veementemente alguém de ser aquilo que é indesejável, ruim, incompetente, negativo, criamos uma imagem positiva de nós mesmos. Somos exatamente o oposto daquilo que acusamos o Outro. Mas Freud já nos ensinou que, em geral, aquilo de que acusamos o Outro é aquilo que não suportamos constatar em nós mesmos.

Simone e Sartre construíram um sistema de pensamento que enfatiza: todos somos livres e a liberdade nos confronta a cada segundo com a angústia de fazer escolhas e com o sofrimento de nos responsabilizarmos por elas. Esse é um pensamento radical que implica, a quem adotá-lo honestamente, viver na insegurança, na incerteza e em constante contato com sua própria falibilidade e a ambiguidade.

Acredito que essa é a principal causa a todas as críticas levianas feitas a Simone de Beauvoir (e a Sartre). Quando as pessoas se referem a ela (ou a ele) em termos como “rever o passado”, “desconstruir mitos”, “derrubar messias”, na verdade estão fazendo uso de termos ideológicos. Buscam desqualificar o pensamento libertário, radical, transformador que, por definição, se constrói com base na exploração de visões de mundo, atitudes e comportamentos fora dos padrões e na diversidade de ideias e de ação. Nesse sentido, criticar Simone de Beauvoir (e Sartre) é muito mais construir empecilhos para que os intelectuais de hoje se inspirem ou busquem referências em suas ideias e possam pensar algo novo e tão transformador como eles pensaram em suas épocas.

Quem resiste a pensadores como Simone de Beauvoir e Sartre teme que alguém possa continuar a trilhar os caminhos que eles abriram. Teme palavras como liberdade, ambiguidade, imperfeição, descoberta, independência e, principalmente, responsabilidade e consciência. Teme o debate de ideias. Busca fórmulas que sustentem o status quo, o mainstream ou, para dizer de forma simples, “as coisas como elas estão”. Talvez possam encontrar algo assim em alguma religião. Jamais encontrarão isso em pensadores livres e, felizmente, imperfeitos.

Orgulho Hétero e Preconceito

“O vereador de São Paulo Carlos Apolinario (DEM), cujo projeto de lei que cria o Dia do Orgulho Heterossexual na capital paulista foi aprovado nesta terça-feira [2/8/2011] na Câmara, disse ao Terra que a criação da data busca apenas levantar o debate sobre “privilégios e excessos” de que supostamente se beneficiam os homossexuais e garantiu que não é homofóbico. “Meu cabeleireiro é gay. Ele me abraça, me beija, não tem nenhum problema”, disse Apolinario.”

Este é o primeiro parágrafo de uma notícia publicada no portal Terra sob o título ‘Meu cabeleireiro é gay’, se defende vereador do Dia do Orgulho Hetero. (A matéria completa, se você tiver interesse, está aqui.)

Considero esse primeiro parágrafo (e a matéria inteira) como uma pequena amostra de discurso que nos dá muitos elementos de reflexão. A começar pelo título e pela referência ao cabeleireiro, que é a mais óbvia e, na matéria, até um pouco caricata. A estratégia usada por Apolinario, de tentar mostrar que convive tão pacificamente com gays que não tem “nenhum problema” em ser beijado ou abraçado por um deles é a maior prova de seu preconceito. Quando convivemos de igual para igual com gays, com mulheres, ou com qualquer outra minoria*, não os usamos como justificativa para nossas convicções. Além disso, a homofobia não é o preconceito contra um gay, mas contra os homossexuais como grupo.

E é aí que as coisas se complicam. Porque um indivíduo pode não despertar preconceitos, mas os grupos minoritários, em geral despertam. O sociólogo alemão Wilhelm Heitmeyer, um dos estudiosos dos conflitos étnicos e culturais e da construção de inimizades baseadas em grupos sociais nas sociedades contemporâneas, já identificou como essa lógica se organiza. É como grupo que as minorias – imigrantes, gays, mulheres – são vistos como ameaça, porque isso evidencia que a “diferença” que representam não é uma exceção, algo que pode ser “tolerado” em um ou outro indivíduo, mas um aspecto de parte da sociedade, o que enfraquece o discurso da dominação, que se fortalece sempre que é possível ignorar as diferenças.

A vitimização

A criação do Dia do Orgulho Heterossexual em São Paulo – como o próprio “mentor” da proposta dá a entender no primeiro parágrafo reproduzido acima, ao longo da matéria e em todas as outras declarações que deu para a imprensa, inclusive à agência de notícias norte-americana Associated Press – é uma intolerância diante da diferença. A data é proposta pelo seu idealizador como um “resposta” à Parada do Orgulho LGBT. Apolinario acredita que, por terem o direito de, um dia no ano, desfilar pela avenida Paulista suas reivindicações e seu orgulho, lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros, transexuais e travestis estão TIRANDO algo dos heterossexuais.

Quando sugere que existem “privilégios e excessos” favorecendo os LGBT, Apolinario se faz porta-voz de uma teoria da conspiração segundo a qual um grupo estaria impondo restrições a uma maioria* silenciosa e indefesa. Isso é puro ressentimento.
Mais do que um discurso, uma reação psicológica, um aspecto da afetividade – como também pode ser classificado e comumente o é – o ressentimento é um conceito que ajuda a explicar um fenômeno social concreto: na sociedade contemporânea há uma valorização do discurso e do comportamento da vítima. O fenômeno foi identificado por Friedrich Nietzsche em Genealogia da Moral e, posteriormente, trabalhado por diversos autores, entre eles Max Scheler e Norbert Elias.

Simplificando, pode-se dizer que, em Genealogia da Moral, Nietzsche explica a vida social a partir de sentimentos como ódio, ciúme e vingança, detendo-se sobre o ódio dos fracos contra os fortes, que ele relaciona à moral cristã, um ódio reprimido que transforma a “fraqueza” em vitimização e em desejo de igualdade e justiça. Nietzsche já caracterizava o ressentimento como um aspecto da modernidade, e detinha-se exclusivamente nessa relação entre fortes e fracos.

Quando Apolinario tenta inverter a equação, pintando as maiorias como fracas e sujeitas a uma espécie de estratégia dos LGBT de impor seus valores e direitos a toda a sociedade, ele realiza uma manobra intelectual primária: passa a pintar como vítimas as maiorias. Só que as maiorias jamais foram silenciosas ou indefesas, justamente porque sempre tiveram nas mãos o poder de definir o que e quem tem acesso a quais direitos e privilégios.

Apesar de todas as garantias e direitos de que gozaram ao longo da história, as maiorias passam a retratar a si mesmas como vítima das instituições, da política, da economia, das condições sociais e até mesmo da mídia. Autônomo, individualista, narcisista, o indivíduo da maioria reluta em assumir a responsabilidade por si mesmo e por todas as desigualdades que o(s) grupo(s) a que pertence promoveram ao longo da história. Invertendo a lógica das forças nas relações sociais e lançando mão da vitimização, as maiorias conseguem, em primeiro lugar, esvaziar todas as reivindicações igualitárias e, em segundo lugar, manter-se dominantes e garantir uma relação de forças em que a elas sejam reservados apenas ganhos.

Exemplar desse segundo aspecto da apropriação da vitimização pelas maiorias é o que acontece com o feminismo. Cada vez que as mulheres, por exemplo, clamam por igualdade, é dito que elas estão “tirando” algo ou “competindo” com os homens por seu lugar na sociedade, por seus postos de trabalho, por seu direito a determinar o que será feito com seu corpo. Assim, também, cada vez que uma classe social desprivilegiada economicamente obtém acesso a algum bem ou serviço antes exclusivo das classes mais abastadas, é dito que elas estão “tirando” algo dos mais ricos. Para Apolinario, quando a minoria LGBT obtém o direito de expor seu orgulho, ela tira algo da “maioria”. E a maioria, por motivos óbvios, não quer perder seu poder.

Desde 1996, Wilhelm Heitmeyer analisa “respostas” hostis das maiorias às minorias na sociedade alemã. E já mostrou como a afirmação de identidades [e diferenças] pelas pessoas discriminadas desperta na maioria um ressentimento que toma a forma de hostilidade. A maioria não suporta compartilhar seus direitos e poderes. 

Para Apolinario, se a sociedade “tirou” algo dele e de seus iguais ao reconhecer o direito dos LGBT, há que haver compensação. E essa compensação deve vir em forma de lei, para formalizar não apenas que houve a perda, mas sobretudo que ninguém pode tirar nada de uma maioria. Porque as maiorias fazem as leis.

A dominação opera dessa forma há milênios. Institucionaliza-se, antes de mais nada. Institucionaliza-se sempre que possível. Em outras palavras, garante por meio das instituições que gerencia e controla que as pessoas têm valores desiguais em qualquer instância do espaço público: nas ruas, nos meios de comunicação, nos órgãos governamentais.

Ressarcimento

A lógica da vitimização ganha força a partir das políticas compensatórias adotadas pelos estados após a Segunda Guerra Mundial – especificamente em relação às vítimas dos campos de concentração. A proposta era ressarcir os sobreviventes do genocídio que caracterizou a guerra por perdas reais e provocadas pelo abuso inquestionável de poder. Mesmo assim, muitas das vítimas recusaram qualquer tipo de recebimento em dinheiro ou em acesso diferenciado a serviços sociais diante da certeza de que as perdas não podem ser ressarcidas.

Dentro do sistema capitalista contemporâneo, baseado no individualismo e no consumismo, a simples cogitação de que existem perdas que não podem ser ressarcidas é quase um sacrilégio. E é por isso que a lógica da vitimização se fortalece: acreditamos que qualquer contrariedade que nos é causada pode e deve ser paga pela sociedade. E assim, esvaziamos todos os contextos em que existe efetivamente a transformação de um indivíduo ou grupo em vítima: os casos de assédio moral e sexual, os casos de violência contra determinados grupos e até o bullying. Porque todos se sentem no direito de exigir uma compensação, até mesmo os heterossexuais que nunca, em nenhum momento da história, foram vítimas de restrição de liberdades, de violência, de perdas emocionais ou financeiras por serem heterossexuais.

A noção de que as maiorias podem ter direito a compensações, além de falaciosa, é apenas mais uma manobra racional para poder justificar e reforçar os preconceitos. Querer reivindicar compensações por prejuízos inexistentes é uma forma de incitar a homofobia. Retratar os LGBT como responsáveis por “tirar” algo de parte da sociedade, ou retratar as feministas como aquelas que querem “tirar” algo dos homens, é uma estratégia do discurso de dominação. LGBT, feministas são transformados em vilões.

Orgulho e preconceito

Imediatamente, ao ler o título e o primeiro parágrafo da matéria com que iniciei este texto, me lembrei do título do livro de Jane Austen escrito em 1813: Orgulho e Preconceito.

O livro da excelente Austen é um mergulho na sociedade britânica do século 19 e revela todas as contradições, hipocrisias, absurdos e pequenas ações ambíguas cotidianas sempre toleradas em nome da moral e dos bons costumes, além de contar uma história de amor. É esta a forma que a autora encontra para mostrar o que quase sempre nos recusamos a aceitar: que o orgulho, que muitas vezes se contrapõe ao preconceito, em geral é uma alavanca para ele. Dentro de cada um dos personagens de Austen, sejam eles bonzinhos ou malévolos (como costumamos dividir os personagens das obras de ficção a fim de sempre “torcermos” para o lado dos corretos), orgulho e preconceito coexistem, criando grande parte dos conflitos da trama.

O livro é uma preciosidade literária e não é minha intenção aqui falar sobre ele, apenas me apropriar do título de seu livro para uma reflexão. Crescemos acreditando que orgulho e preconceito são qualidades detestáveis – portanto, defeitos – em um indivíduo bem educado e amável. Vivemos acreditando que estamos livres de ambos os defeitos de caráter, que não nos dizem respeito e, talvez até, como consequência de tudo isso, desenvolvemos um profundo preconceito contra quem é orgulhoso ao mesmo tempo em que nos orgulhamos de não sermos preconceituosos. Apenas em um caso isso é verdadeiro: quando o orgulho é uma resposta ao preconceito e tem como objetivo reduzir sua força. Caso contrário, estamos sendo hipócritas.

A criação de um Dia do Orgulho Heterossexual em São Paulo é também um desdobramento dessa hipocrisia. Orgulhar-se de ser heterossexual corresponde a orgulhar-se de reforçar o poder da maioria e, dessa forma, o preconceito contra o movimento LGBT.

——-
* Só para lembrar, os conceitos de “minoria” e “maioria”não se referem prioritariamente ao número de pessoas de determinado grupo, mas ao fato de um grupo ser excluído de decisões, de instâncias de poder e do acesso a direitos universais enquanto outro tem todas as garantias nesse sentido.

 

Meia-Noite em Paris

Muito já se escreveu sobre o filme de Woody Allen atualmente em cartaz no Brasil, e tenho dúvidas sobre quanto este texto pode ser útil. Mas decidi, ainda assim, escrever mais um texto sobre o filme, por dois motivos. Primeiro porque Meia-Noite em Paris me pareceu uma obra particularmente importante na filmografia de Allen. Tão famoso por seus personagens neuróticos, o filme faz parte de uma espécie de “fase” recente em que os protagonistas aprendem, finalmente, a enfrentar a neurose. E, nesse filme em particular, a desconstrui-la. Em Meia-Noite em Paris, o diretor traz um personagem que dá o salto que nenhum neurótico e quase nenhum de nós está disposto a dar: o do compromisso com o próprio desejo.

Gil Pender (Owen Wilson), o protagonista da história, é um roteirista de relativo sucesso de Hollywood passando uns dias com a noiva e os pais dela em Paris. Tem dinheiro. É reconhecido por seu trabalho e seus roteiros são desejados pela indústria cinematográfica. Tem uma noiva bonita que o valoriza por tudo isso. É bem verdade que não há muito amor entre eles mas, afinal, o amor é um de nossos desejos mais complicados, e talvez seja melhor, ao menos para um neurótico, não se comprometer em uma relação em que ele fale mais alto.

O personagem tem tudo, mas seu desejo verdadeiro é outro: imagina viver uma vida mais modesta em Paris e escrever romances. Não romances comerciais, como seus roteiros de cinema. Ele quer escrever romances dos bons. Daqueles que entraram para a história com mestres como Ernest Hemingway ou F. Scott Fitzgerald. Romances que tenham um clima das canções de Cole Porter e de prazeres banais como os de uma caminhada pelas ruas de Paris numa noite de chuva. Como desejo, pode-se dizer que este é bastante clichê, romântico, nostálgico demais. E é óbvio que ninguém ao seu redor leva a sério essa “bobagem”.

Uma noite, Gil decide caminhar pela noite parisiense e se vê literalmente perdido entre seu desejo que todos consideram fantasioso e a realidade. É convidado a embarcar na fantasia, sonhar. Ele aceita o convite. É o momento em que decide apostar em seu próprio desejo. Um desejo que o captura à meia-noite em um beco de Paris e o transporta para um passado idealizado. É no estranhamento da linguagem onírica, do passado nunca vivido mas sempre idealizado, da cidade estrangeira, das pessoas reais que para ele eram, ao menos até então, apenas personagens da História, que ele encontra a chave para o compromisso com o presente, transformando-o.

Essa relação com os “estranhos” familiares é muito interessante no filme. Em seu compromisso com o sonho e o desejo – e essas duas coisas não são as mesmas, como fica claro no filme no momento em que Gil se recusa a continuar a viver no passado – que ele encontra seu espaço. Passa a compartilhar o tempo e a interagir com personagens que têm os mesmos interesses que ele, que o compreendem, que o levam a sério e legitimam tudo o que ele ousa desejar. É verdade que não são pessoas de seu tempo. Mas isso já pouco importa. O tempo da fantasia e do desejo perde a lógica cíclica e contínua de “passado/presente/futuro”, transformando-se numa contínua sucessão de experiências sempre atuais, de insights e descobertas que o levam a acreditar e a se dedicar a realizar seu desejo de ser escritor, algo que, até então, era impossível para ele.

Sempre que falamos em uma incapacidade do neurótico em se comprometer com seu desejo, pensamos nesse indivíduo como um coitado insatisfeito, procrastinador, incapaz de dar um passo adiante, vencido, degradado. Esquecemos que a estagnação diante do desejo também é uma satisfação. Esquecemos que a neurose pode estar – e está – presente na vida de grandes realizadores e de pessoas que “têm tudo” o que se pode querer da vida. Esse “tudo”, essa “completude”, em geral traz a satisfação de corresponder àquilo que os outros ao redor esperam dele, de corresponder ao que é valorizado em um contexto social.

Esse é um dos aspectos complicados do desejo: ele nos pede compromisso e fidelidade a tal ponto que implica em deixarmos de lado as exigências dos sogros, dos pais, dos irmãos, dos patrões, do namorado ou da namorada. O compromisso com o desejo implica na quebra de compromisso com aquilo que esses outros esperam – ou, ao menos, gostamos de imaginar que esperam – de nós.
No caso do protagonista da história de Woody Allen, os sogros, a noiva e os amigos esperavam que ele se contentasse em ter uma situação financeira tranquila – capaz de pagar pela mobília cara de uma casa em Malibu –, um trabalho insatisfatório, mas que o colocava ao lado de celebridades, na posição de um profissional desejado na indústria em que atua,  uma vida intelectual medíocre e a uma vida amorosa vazia com uma esposa sexy de fazer inveja aos outros homens. Um kit a que poucas pessoas diriam não e que o próprio cinema, a mídia, as relações sociais contemporâneas, nos mostram que é legítimo, correto e até obrigatório desejar.

Acho que é nesse ponto que está a sutileza deste filme de Woody Allen em particular. Quando o personagem Gil desfaz seu compromisso com essas expectativas do outro, quando ele decide assumir que será escritor e finalizará o romance que todos consideram uma “bobagem”, ele mostra mais do que a superação da neurose pelo compromisso com seu desejo. Ele também mostra que é legítimo dizer “não” àquilo que a sociedade contemporânea insiste em embrulhar com o celofane brilhante do “desejo legítimo”. A sociedade é o outro mais poderoso contra nosso desejo e o que mais expectativas cria sobre nós. É isso que o desejo nos pede, que ousemos quebrar algumas convenções sociais, alguns pactos formais das relações cotidianas. E é isso que torna o desejo transgressor.

A opção dessa transgressão é sempre individual e implica sempre um preço a pagar dentro da economia de trocas simbólicas – para usar livremente uma expressão de Pierre Bourdieu – de que fazemos parte. Comprometer-se com o próprio desejo significa não apenas superar a própria neurose, mas a rede neurótica que sustenta a ideologia por trás das hierarquias e representações sociais. O consenso em relação ao que é valorizado, ao modo de se viver, às conquistas a almejar, à posição social a escalar, tudo isso se dissolve para um indivíduo que, como Gil Pender, ousa transgredir na ação rumo a um desejo que não tem valor na sociedade. É nesse sentido que o neurótico de Woody Allen se transformou em um heroico anti-herói.

Por que ser feminista? E quem pode ser feminista?

“Feminista” é quase uma palavra-tabu. Entre a maior parte dos homens, é quase um sinal vermelho: se eles dizem que uma mulher é “feminista” querem dizer que ela é um problema. Entre a maioria das mulheres, ainda é uma desqualificação. Muitas mulheres que se identificam com alguns questionamentos feministas em relação à sociedade – por exemplo, a igualdade salarial –, dizem sempre: “defendo isso, mas não sou feminista.

Essas três letrinhas juntas – mas – carregam consigo uma oposição ou restrição ao feminismo, e as escutamos todos os dias. Em certa medida, até entendo: a palavra “feminista” foi tão bombardeada de conteúdo ideológico machista e conservador, é tão descaracterizada e caricaturada pela mídia, por alguns intelectuais e por grupos dominantes que se uma pessoa se assume “feminista” precisa estar preparada para colher preconceito. “Feministas não gostam de homens”, “feministas são mal-amadas”, “feministas querem tomar o lugar dos homens” e sei lá mais quantas outras bobagens dizem sobre AS feministas. Se a pessoa que se declara feminista for um homem, então, haja explicações…

Feministas, homens ou mulheres, precisam quase sempre fazer uma “legítima defesa antecipada” de sua escolha diante de toda a carga negativa que a palavra carrega. São mais de dois séculos – isso, séculos! – de lutas. E ao longo desse tempo, o feminismo tem sido pintado, em primeiro lugar, como um movimento “apenas” feminino. Como se as mulheres não representassem metade da população mundial. Ao mesmo tempo, o feminismo tem sido descrito como um movimento “apenas” reivindicatório, como se as reivindicações não fossem baseadas em uma experiência concreta das condições sociais e, por isso mesmo, fruto de reflexão, de pensamento, de ação.

O feminismo não é meramente um movimento reivindicatório, é um movimento político e social que se construiu com base em intensos debates sobre as condições de poder. E nesses debates, houve muito aprendizado, e uma contribuição real para as formas de refletir sobre o mundo e a igualdade de gênero, de classes, de etnias. Grande parte do preconceito em torno do feminismo e de feministas se deve particularmente ao fato de que as pessoas desconhecem que esse movimento que toma as ruas, que faz marchas de vadias mundo afora, que se organiza para ampliar a representação das mulheres em todas as esferas hierárquicas (e que, diga-se, enfrenta muitas barreiras) se baseia também em uma percepção filosófica do mundo.

Essa percepção filosófica é uma porta aberta às possibilidades e à mudança. Feministas sempre têm em mente perguntas sobre o mundo tal como é e sobre como pode ser. Perguntas que podem ser expressas com um simples “e se fosse diferente e as mulheres também…?”.

São inúmeras situações em que essa pergunta pode ser feita. Só para ilustrar, farei uma delas: “E se fosse diferente e as mulheres também ganhassem os mesmos salários que os homens para as mesmas funções?” Em sociedades contemporâneas em que a configuração familiar está em transformação, entre outros impactos, haveria muito mais segurança social. Isso porque hoje, em uma sociedade como a brasileira, em que 35% das famílias são chefiadas por mulheres, as condições econômicas dessas famílias seriam mais estáveis. Segundo dados de 2009 da Confederação Internacional dos Sindicatos (ICFTU, em inglês), as mulheres ganham, no Brasil, 34% menos do que os homens, em média. Esses recursos, que hoje são negados às mulheres, seriam aplicados em educação dos pais, das mães e dos filhos e no bem-estar de famílias inteiras, ou seriam poupados. Filhos mais bem educados teriam mais oportunidades. Pais e mães mais bem educados, idem. Além disso, as mulheres vivem mais do que os homens e, ganhando menos, não conseguem poupar tanto para sua velhice, quando não serão mais produtivas. Ficam empobrecidas nos anos em que mais precisam de recursos e representam gastos extras para familiares ou para o Estado. Tornam-se um peso e esse peso se converte em preconceito contra elas.

Poupança, educação, bem-estar, saúde são fundamentais para que as pessoas possam enfrentar situações de insegurança como desemprego ou a morte de um de seus provedores. Se as mulheres também ganhassem X para realizar a função Y, teríamos uma sociedade mais justa, menos insegura, e mais inclusiva.

Esse é só um exemplo. E o exercício da pergunta “e se as mulheres também…?” pode ser feito com qualquer situação social em que se apresenta uma desigualdade.

Por isso, quando me perguntam “por que ser feminista?” sempre imagino que a resposta mais simples é: “porque representa trocar um ‘mas’ restritivo por um ‘também’ inclusivo; e o que eu quero é uma sociedade que inclua, não que restrinja.” Assim, acho que todas as pessoas que querem essa mesma sociedade podem (e até deveriam, ouso dizer) ser feministas. Quem pode ser feminista? Homens e mulheres que acreditam que todos têm direito a mais oportunidades, a realizarem seus potenciais. Isso não inclui todas as pessoas do mundo, é claro. Entretanto, inclui muito mais mulheres e homens do que aqueles que ousam assumir. Querer combater e reduzir a desigualdade não é motivo de culpa muito menos de vergonha, como às vezes algumas correntes de pensamento parecem pregar. Se cada vez mais pessoas disserem que são feministas, assumirem que apoiam as causas feministas e deixarem de se defender dessa escolha, também estarão agindo por condições mais equilibradas de vida para todos. Quando a palavra “feminista” e o feminismo deixarem de ser alvo de tanto preconceito, isso significará que estamos vivendo em um mundo mais igualitário.

 

O jornalismo-terror da revista ‘Época’ (ou como não fazer pseudojornalismo)

O sociólogo Pierre Bourdieu tem uma visão da sociologia de que gosto muito. Ele compara a sociologia a um “esporte de combate” (vejam o filme), porque serve justamente para explicitar e, a partir disso, combater, dominações, desigualdades, ideologias e violências. Se a sociologia é um esporte de combate, acho que a crítica à ideologia reproduzida pela mídia é uma de suas modalidades. É preciso desconstruir o discurso midiático porque seu objetivo é reforçar e manter as relações sociais exatamente como se apresentam hoje, com seus preconceitos, desigualdades e injustiças.

Acho que não chega a ser novidade para ninguém que os interesses econômicos mais robustos – que andam de mãos dadas com os interesses políticos mais conservadores e dominadores – sustentam a mídia tradicional. Mas contentar-se com essa explicação é ser muito simplista. Essa associação se desdobra em uma infinidade de aspectos do discurso jornalístico.

Assim como no esporte de combate o atleta procura usar a força do adversário como alavanca para sua força. É só explicitando cada um dos aspectos ideológicos do discurso, que constituem a força da produção midiática – a frase torta, a construção ideológica de cada matéria, a argumentação falaciosa perdida no texto – que é possível enfraquecer o poder exercido pelos meios de comunicação.

Ontem estava procrastinando no Twitter quando meu amigo Fabiano Camilo, blogueiro de O Pensador Selvagem, me mandou o link da capa da revista Época desta semana. Oportunidade melhor para exercer o esporte de combate que é a crítica à mídia, impossível.

A capa mostra a presidenta Dilma Rousseff de olhos fechados e em uma pose estática toda cercada por um fundo preto. Pode-se dizer que ela está morta. A reportagem de capa promete desvendar segredos sobre “A saúde de Dilma”, porque a revista diz que “teve acesso a exames, lista de remédios e relatos médicos” e que “seu estado exige atenção”. Expressões que pretendem conotar que: 1 – se existe sigilo, há algo a ser escondido; 2 – se exige atenção, algo não vai bem; 3 – se só a revista teve acesso, só ela pode revelar o que está sendo escondido.

Informações sobre a saúde de um paciente são totalmente sigilosas e, portanto, a revista Época, da editora Globo, obteve as informações de forma ilegal. E desde já acredito que uma investigação deveria ser feita sobre isso. Porque um meio de comunicação que opera ilegalmente não está exercendo a liberdade de imprensa e sim um crime.

Mais do que um crime, o que se percebe no discurso dessa “reportagem” (entre aspas, porque tenho sérias dúvidas sobre a adequação desse termo para o material publicado) é um desejo de criar um fato, sustentá-lo com frases falsamente objetivas e informativas e disseminar uma imagem de que a presidenta é uma mulher à beira da morte.

Destaco entre aspas e em itálico algumas frases do site da revista. Sobre a pneumonia que a presidenta teve no fim de abril, diz o texto: “segundo palavras que ela mesma disse, de acordo com um interlocutor de confiança, teria sido ‘a pior de todas as doenças que já enfrentei’”. Na legenda de duas fotos que mostram Dilma em dois momentos de saúde frágil, a frase atribuída a ela, também citando como fonte “interlocutores” é “a pneumonia foi pior que o câncer”.

Deixando de lado o mérito da citação que vem de um dos interlocutores (e que pode ser falsa, inexata e até mesmo inexistente, pois “interlocutores” não significa nada, pode ser qualquer pessoa, de qualquer grau de relação com Dilma), uma frase como qualquer uma dessas, se foi mesmo dita por Dilma, poderia ser também um mero desabafo. Tanto eu como você quanto qualquer pessoa à nossa volta já usou frases exageradas assim para se referir a uma doença. E isso nada significa. Mas a tentativa da revista de inventar uma situação com a qual o leitor acredite que seja preciso se preocupar é muito mais forte do que o desejo de produzir jornalismo de qualidade. E para perceber isso basta observar que a legenda da foto atribui a Dilma uma frase muito mais terrível do que o texto: “a pneumonia foi pior que o câncer”. Claro, muitas pessoas leem apenas a legenda da foto, os títulos e olhos das reportagens.

Mais adiante, o texto diz que medidas adotadas para combater a pneumonia de Dilma foram “recursos usados em casos graves”. Nenhum – repito – nenhum médico ou especialista em medicamentos é citado como fonte dessa afirmação. Esse é o típico caso da argumentação falaciosa perdida no texto que mencionei acima. Uma afirmação sem o menor indício de ser verdadeira, mas que associada a nomes de substâncias químicas e medicamentos que os leitores desconhecem assume um tom de verdade.

“Assessores próximos contam que a doença afetou a disposição da presidente e seu estado psicológico. Ela sentia cansaço e falta de ar.”
Bem, quem já teve uma gripe forte, por mais saudável que seja, já sentiu tudo isso e até mais. O trecho é só mais uma redundância, técnica básica do jornalismo para reforçar uma ideia quando faltam elementos concretos para comprová-la, no caso a ideia de que temos alguém muito frágil no comando do País.

Um destaque especial da “reportagem” para o quadro com o “coquetel de remédios” (uma expressão por si só carregada de ranço cientificista para significar que o problema de saúde, seja qual for, é sério). Na lista entram curcumina, cartilagem de tubarão, óleo de linhaça, FiberMais que não são medicamentos. Logo, só estão na lista para aumentá-la e torná-la mais impressionante.

O site da revista reproduz trechos de um boletim médico emitido especialmente a pedido de Dilma pelo Hospital Sírio-Libanês que atesta que não há nenhum motivo para preocupação com o estado de saúde da presidenta. E é aí que a própria revista dá uma dica de que tudo o que veio antes é uma grande bobagem: “Mas as informações obtidas por ÉPOCA revelam que a saúde da presidente ainda exige atenção. Não por causa do câncer. Mas em virtude de preocupações naturais para uma mulher de 63 anos. Dilma convive com vários problemas que consomem energia.”

Sim, Dilma exige todos os cuidados de saúde que qualquer mulher (ou homem, diga-se de passagem, mas vou deixar passar essa para o texto não se alongar muito) exige. Então, por que fazer uma matéria de capa? Por que usar uma foto assustadora? Por que divulgar  informações sobre a saúde de uma pessoa que, como paciente, tem o direito de ter todos os resultados de seus exames mantidos em sigilo? (E, só para deixar claro, esse sigilo não se deve ao fato de a pessoa em questão ser chefe de governo e de Estado. Todos nós temos direito a esse sigilo diante de nossos empregadores, familiares, amigos e opinião pública.) Por que ocupar páginas e páginas com elocubrações, conclusões, suposições sem o embasamento de uma única fonte qualificada, isto é, um médico?

É óbvia a tentativa de Época de criar um fato inexistente para desestabilizar não só o governo mas, principalmente, a confiabilidade e a segurança das pessoas em relação à presidenta Dilma e sua atuação. Na minha opinião, a editora Globo só conseguiu uma coisa: mostrar que publica informações irrelevantes, trabalhadas de maneira incompetente até mesmo para seus próprios objetivos, e que age ilegalmente. É o jornalismo-terror que atua sem escrúpulos, sem ética, sem regras. Todos sabemos que os interesses econômicos e políticos mencionados no início do texto não estão satisfeitos com Dilma no poder. Mas até o pseudojornalismo feito para defender tais interesses já produziu material mais consistente em suas falácias. Para Época, nota zero em pseudojornalismo e em credibilidade.
 

Mais uma vez, a piada da ‘loira burra’

Clichês podem até ser engraçados algumas vezes, mas, em geral, são apenas ideologia disfarçada de piada. A grande força dos clichês ideológicos – aqueles que se reproduzem a fim de perpetuar algum tipo de dominação – está em se apresentarem como verdades naturais, óbvias, incontestáveis. Engolimos a mensagem repetitiva sem perceber e, assim, vamos reforçando em nossa cultura vários preconceitos e contribuindo para preservar relações de poder, ampliar injustiças, perpetuar falta de oportunidades e exploração.

Dia desses, tropecei num clichê. Na verdade, uma peça de propaganda de uma (dizem que conceituada, mas eu duvido) marca de automóveis. Cliquei no link porque a fonte que a postou no Twitter se autodenomina “esclarecida”, “amante dos livros e do conhecimento” ou algo assim. Caí na armadilha. Era só um lugar-comum, desses que proliferam nas propagandas.

A começar pelo título, que traduz o “library” do inglês como “livraria”, o vídeo, que você vê aqui, é ruim [apenas sete pessoas em 13 mil gostaram dele, portanto, isso não é uma opinião pessoal]. Criada como uma piada – recurso sempre explorado pela propaganda -, a peça publicitária é um revival do velho, batido e, infelizmente, sempre ressuscitado clichê machista da “loira burra”. Estão ali reunidas todas as obviedades dessa quase instituição machista mundial: 1 – a loira burra, mas bonita, sexy, vestida com camiseta coladinha ao corpo, de cabelos sedosos e maquiagem bem feita; 2 – a mulher inteligente, mas feia, descabelada, mal-vestida, sem maquiagem e gorda; 3 – apenas homens ao redor (afinal, os únicos dois tipos de mulheres que povoam o imaginário machista e que lhe servem de objeto, a feia e a bonita, já foram representados). Fiz um teste com cinco colegas de trabalho. Todo mundo riu.

Nas relações cotidianas, rir não é um comportamento espontâneo. Rimos quando estamos em uma interação social em que essa reação é permitida e valorizada. Os estereótipos potencializam esse comportamento ao fornecer fórmulas prontas diante das quais não temos nenhum estranhamento ou reflexão, apenas reagimos. A forma fixa dos estereótipos congela nosso questionamento, adormece nossa crítica, simplifica o social. A loira é uma dessas formas fixas. A “família de anúncio de margarina” é outra.

Além disso, rir do outro é um exercício de poder. Nas piadas preconceituosas, em geral, rimos dos “burros”: o “português”, o “Joãozinho”, a “loira”. Quem ri está em posição superior ao objeto da piada. Embora pareça, o riso nada tem de ingênuo: ele é socialmente determinado.

Pensadores como Henry Bergson e Georges Bataille se dedicaram a estudar o riso e dizem que há nesse comportamento uma tentativa de fugir à angústia, às incertezas, à nossa impotência diante da desordem e do desconhecido. Por isso, em geral, projetamos sempre no outro as fraquezas risíveis, reforçando nossa visão de mundo, nossas crenças, nossa concepção de ordem. Em outras palavras, quando rimos do que parece “errado”, estamos, na verdade, reforçando em nós mesmos e em nossas relações o que é “certo”. Mas o certo não é neutro, é definido pelas relações sociais.

Piadas são criadas justamente para explorar esses dois aspectos: o comportamento do riso e a estrutura de poder da sociedade. A piada é a subversão de alguns aspectos da estrutura social, costuma tirar alguns elementos de seu lugar “usual”. Em algumas situações, essa subversão pode ser uma crítica, uma forma de resistência ao que a sociedade nos impõe. Nas piadas que abusam dos clichês ideológicos, trata-se de uma forma de reforçar as mensagens de coerção social.

O riso tem ainda outra função. Em seu texto Os chistes e sua relação com o inconsciente, Freud mostra que as piadas condensam uma série de ideias para a gratificação psíquica (assim como os sonhos). Por meio das piadas [no caso, aqui, de mau gosto] damos vazão a alguns de nossos desejos inconscientes de aniquilação ou exploração do outro sem sentirmos culpa, sem sofrermos a repressão social. A culpa não se manifesta porque, afinal, é apenas uma “brincadeira”. Pensando em Freud, eu diria que piadas baseadas em estereótipos que desqualificam o outro funcionam quase como uma permissão para expressar nossos instintos agressivos, para exercer sobre ele a violência simbólica.

Na publicidade, todo o processo de comunicação é elaborado para que nada disso seja percebido. A proposta é criar no espectador uma satisfação pequena e imediata e o desejo de consumir o produto que, em sua experiência, ficará sempre associado ao riso e ao prazer. E essa é a questão. O que faz da propaganda da Mercedes-Benz uma peça publicitária ruim não é apenas o abuso de clichês, de mecanismos de dominação e do mau gosto. É também o fato de não conseguir esconder todo esse processo. O uso gratuito e ineficiente do clichê é sua principal denúncia. A publicidade foi burra, desconsiderando potenciais consumidores. A verdadeira piada é que a propaganda que pretendia fazer rir tão mal produzida que, como produto, se torna risível. 
 

Mídia, violência e alienação

Situações de violência – como a que aconteceu em Realengo, no Rio de Janeiro – são para o jornalismo uma grande oportunidade de ganhar espaço no debate público. Os meios de comunicação se esforçam em esmiuçar a questão sob os mais variados ângulos. Entrevistam especialistas, testemunhas, policiais e, principalmente sobreviventes – mesmo estes sendo crianças, como agora –, numa busca incessante por uma informação nova. E quase instantaneamente esse esforço se desfaz.

O novo perde espaço para o comovente, a palavra contundente, os clichês na representação do sofrimento, a imagem a ser repetida centenas de vezes. Debates, artigos de opinião, exaustivas reportagens sobre o antes, o durante e o depois do fato bombardeiam nossas mentes com palavras, ideias e imagens que já ouvimos centenas de vezes e que pouco ajudam a compreender os fatos. A missão do jornalismo é engolida pelo sensacionalismo.

Predominam nesse tipo de cobertura as características mais marcantes do discurso jornalístico: a tentativa de sintetizar a complexidade das relações sociais em explicações simples. Fatos complexos fogem à lógica que sustenta a narrativa jornalística, que se baseia em informar quem fez o que, como, onde, quando e por quê.

É essa última questão abre espaço para as explicações ideológicas que classificam, nomeiam e excluem o responsável pelo crime da sociedade. E que transformam a sociedade que, se em outras situações é quase sempre retratada como anômica, problemática e desestruturada, em pura e frágil diante da ameaça encarnada por alguns poucos indivíduos. Wellington Menezes de Oliveira, o homem de 24 anos que cometeu os assassinatos na escola municipal Tasso de Oliveira, recebeu na mídia uma infinidade de adjetivos que supostamente tentavam “explicar” quem era ele e por que realizou disparos contra crianças: “doente”, “estranho”, “fanático religioso” (depois de tentativas patéticas de provar que ele era adepto do islamismo), “calado”, “pacato”, “antissocial”.

A linguagem que separa

Sempre que vejo a mídia utilizar em profusão os adjetivos e não os fatos para explicar uma violência, lembro-me de uma frase de Maria Rita Kehl no livro Videologias: “Sabemos, desde A interpretação dos sonhos, de Freud, que o desejo não tem que se realizar necessariamente em ato. Pode bastar-lhe a linguagem” (p. 90).

Ao representar por meio da linguagem a exclusão dos responsáveis por atos de violência do contexto da “sociedade pura”, a mídia realiza desejos. Desejos de todos nós. A mídia nos satisfaz de duas maneiras. Primeiro, porque os adjetivos carregados de carga violenta, de negatividade, de julgamentos morais e suposições acerta de um “mal inerente” ao indivíduo que todos rejeitam nos permite exercitar nosso quinhão de violência reprimida. Podemos dirigir ao “monstro” todo o ódio que carregamos sem poder manifestar nas relações com nossos iguais. Segundo, porque o emprego desse tipo de linguagem reforça as regras sociais válidas e que cumprimos como contrapartida para nossa própria inserção social. É quando sabemos quem são os “monstros”, os “doentes”, os “loucos”, que construímos nossa identidade como membros “íntegros”, “corretos”, “bons”, da sociedade. E mais: é quando sabemos que esse “monstro” é o outro que sabemos que termos nos sujeitado a toda a coerção social valeu a pena: nosso prêmio pelo bom comportamento, nos revela esse tipo de linguagem, é poder despejar no outro nossos dejetos.

Ao identificarmos esse outro como o criminoso diferente de nós, enxergamos finalmente o personagem principal de ações como matar ou morrer, sofrer, violentar, subjugar, explorar, “barbarizar”. O mundo se divide em “bons” e “maus”, o que significa dizer em “nós” e “eles”, respectivamente.

Todo esse processo não passa de uma alienação. Alienação de nós mesmos e daquela parte cruel que há em todos nós e à qual alijamos sem nos dar conta de que ela não nos abandona nunca. Alienação do outro em nós, reprimindo assim todos os nossos conteúdos inconscientes. E também alienação diante das formas como se constituem as relações sociais, numa tentativa de acreditar que é possível extirpar o mal da sociedade excluindo dela aqueles que nos provam, por seus atos, o contrário.

Falar do outro de forma agressiva, utilizando palavras negativas e, principalmente, carregando de conotação negativa aquelas palavras que o descrevem – como acontece por exemplo com a palavra “calado” que, em si, nada tem de ruim ou bom, mas que nesse contexto assume o significado de “ausente da sociedade”, “não integrado” – é uma forma de nos alienarmos das verdadeiras respostas àquele insistente “por quê”. Uma das respostas é que nós, que construímos essa sociedade como ela é, somos todos responsáveis por atos como o de um atirador que invade uma escola com duas armas. Porque o abandonamos nas vezes – várias – que antes disso ele mostrou necessitar de um acompanhamento, porque permitimos e até nos gabamos de que é fácil ter acesso a armas, porque alimentamos a ideia de que atos de violência são formas legítimas de se lidar com conflitos.

Para quem não quer conhecer esses e outros porquês de eventos como o assassinato de crianças na escola de Realengo por um homem de 24 anos, os jornais, as revistas semanais que chegam às bancas neste domingo e os programas de TV oferecem as respostas alienantes de praxe.
 

Os colaboradores no novo capitalismo

Outro dia entrei no elevador da empresa e ouvi uma funcionária, que não conheço, comentando com a outra: “Você viu que agora a empresa não nos chama mais de funcionários, só de colaboradores?” “É, virou moda.”

A conversa parou por aí, e se eu não estivesse relendo o livro (já esgotado) A Cultura do novo Capitalismo, de Richard Sennett, talvez também não atentasse para resposta que ele, pelo menos, daria à pergunta. Algo como: “Não é moda, mas o capitalismo flexível dominando o discurso empresarial.”

Richard Sennett faz no livro um belo retrato de como as mudanças no capitalismo influencia a cultura contemporânea global, analisando em especial o ambiente empresarial e a vida dos trabalhadores de hoje.

Embora ele não chegue ao detalhe da diferença entre os termos “funcionário” e “colaborador”, é possível perceber como a troca de uma palavra pela outra é condiznte com as transformações do capitalismo.

O “funcionário”, ele é subordinado à instituição, age sobre seu comando e é, na verdade, um membro da organização e muito de sua autonomia de ação é suprimida na relação com o empregador. Em certa medida, esse tipo de relação cria a dependência do funcionário, que trabalha para a empresa e evoluiu ou não com ela, desenvolvendo suas capacidades na instituição e como integrante dela. Ao dizer “funcionário”, a empresa estabelece pelo discurso uma relação em que é diretamente responsável pelo trabalhador em termos legais, trabalhistas etc. Há uma relação de compromisso mútuo e duradouro.

Já o “colaborador” está em um mesmo patamar na relação com a empresa. O colaborador não trabalha “para” mas “com” a empresa, é o que se ouve dizer comumente. O “colaborador” é um “aliado”, não um “membro da família” e, por isso mesmo, os custos de decidir integrar o “time” recai sobre ele mesmo, não sobre a instituição. Aparentemente, o colaborador é até um cidadão em vantagem, mas na prática, ele se torna o único responsável por si mesmo e pela relação de emprego.

Mesmo no caso em que os colaboradores são profissionais contratados de acordo com o regime CLT, a simples mudança no discurso implica uma forte mudança na relação entre trabalhadores e empregadores. A mensagem implícita é clara: a empresa não é responsável pelo futuro ou pelo presente do colaborador, não tem compromissos com ele. Além disso, não cabe a ela investir na aquisição de capital intelectual pelo profissional.

A mudança pode parecer pequena, mas carrega em simples palavras todas as transformações percebidas no mundo do trabalho a partir de 1990, primeiro nas grandes corporações e agora já extensível a quase todas as organizações. No capitalismo flexível – assim chamado por ser norteado pelas novas tecnologias, pelo fluxo global de capitais, pela terceirização, pela produção de produtos de acordo com ciclos com começo, meio e fim, e não como uma atividade permanente e ininterrupta, funcionários são caros e ultrapassados. Já os colaboradores são tudo o que a empresa precisa. Isso porque ao capitalismo flexível interessam profissionais que possam atender a necessidades específicas, com habilidades e competências adquiridas de modo acelerado e, principalmente, atualizado ao máximo.  Mas a empresa não quer pagar por isso. Substitui, assim, os treinamentos e atualizações de funcionários pela contratação de colaboradores por tarefa, profissionais que já cheguem prontos e com conhecimento adquirido, muito provavelmente, por seu investimento de tempo e recursos individuais em especializações, pós-graduações, cursos técnicos.  Tudo isso é também trabalho, mas a empresa já não se responsabiliza por ele.  Esse tipo de profissional aporta à instituição um tipo de capital imaterial – conhecimento, formação, relações – que em certa medida não é pago pela empresa. Também chega com outro tipo de capital, o conhecimento adquirido em suas relações fora da empresa, muitas vezes até mesmo junto a concorrentes, em universidades, em outros ambientes.

As necessidades produtivas das empresas mudam rapidamente e não há tempo hábil para esperar que o funcionário de hoje – por mais inteligente, dedicado e competente que seja – se adapte em termos de conhecimento e habilidades a essas mudanças. O colaborador já oferece isso pronto, já adquiriu as capacidades necessárias fora e, se não se mantiver atualizado, pode ser descartado com mais facilidade.

Ao substituir o termo “funcionário” pelo termo “colaborador”, a empresa sinaliza isso de forma bem clara: para se manter em seu emprego, integrar novos projetos da empresa, desenvolver sua carreira é preciso que você esteja apto a colaborar em todas as situações com a rapidez que precisamos. Aos funcionários, esses dinossauros da relação trabalhista, restam, quando muito, os cargos menos importantes e as velhas gratificações por serviços prestados.
 

Mulheres sem voz

Em fevereiro, a organização VIDA, criada em 2009 como um fórum independente de mulheres escritoras, divulgou um levantamento estatístico interessante. A pesquisa retrata, em gráficos e números, o espaço reservado pelas principais publicações literárias norte-americanas e britânicas, em 2010, às escritoras, suas obras e às profissionais críticas literárias e resenhistas. (Os resultados você pode conferir nesta página.).

A pesquisa mostra que as resenhas de livros, as notícias relacionadas a literatura e o mercado de trabalho em torno da produção de críticas, resenhas, entrevistas e ensaios literários estão longe de ser igualmente partilhados entre homens e mulheres. Às mulheres cabe uma fatia de cerca de 25% do espaço de debate e divulgação de ideias. E, embora não pareça, isso tem tudo a ver com algumas das discussões deste Dia Internacional da Mulher.

Embora as estatísticas se refiram aos EUA e Europa, principalmente, as revistas analisadas – Paris Review, Granta, London Review of Books, The New Yorker etc. – são referência para as maiores editoras mundo afora e inspiram pautas em publicações inclusive no Brasil. (Confesso que senti falta, na pesquisa, da cobertura literária da britânica The Guardian Review, para mim, uma das melhores pela variedade de pontos de vista, pela diversidade de resenhistas e pelo excepcional trabalho de pesquisa.) Além de serem referências, essas publicações são também produzidas em países que se orgulham de serem democráticos e igualitários. E é por isso que a pesquisa não fala apenas da questão editorial, mas da condição da mulher na contemporaneidade.

Os números revelam tendências e fatos, mas acredito que também indiquem algo menos palpável: as mulheres ainda não são reconhecidas como produtoras de conhecimento e de reflexões e seus pensamentos não são disseminados, abertamente discutidos e amplamente comentados como os dos homens. E isso certamente tem algo a ver com a imagem que a mulher tem nas sociedades ditas democráticas.

Pode-se inferir desses números que essa imagem subestima a mulher pensadora. Se o mercado de trabalho abre cada vez mais espaço às mulheres, é na posição de executoras, e não arquitetas, idealizadoras, que elas estão concentradas. Essas palavras – executar e idealizar – remetem à velha separação entre trabalho físico e trabalho intelectual. Uma separação, por si só, ideológica e inexata, como mostra brilhantemente Richard Sennett em O Artífice. Entretanto, essa separação é a base de sustentação de muitas desigualdades de classe e gênero. Quem executa o trabalho tem status inferior ao de quem o idealiza, sendo portanto menos valorizado e, principalmente, remunerado em bases menores.

Hoje, no Brasil, uma mulher exercendo a mesma função que um homem recebe um salário em média 76% menor do que o de seu colega, segundo pesquisa recente do Dieese. Da exploração ampliada da mão de obra feminina à redução de sua poupança para o futuro, o salário menor tem várias implicações. Uma delas é que as mulheres ainda são remuneradas com base em suas necessidades básicas (alimentação, vestuário). Para elas, pequenos luxos e investimento em educação e cultura como a compra de um livro, a visita a uma exposição, o financiamento de um curso ou a ida ao cinema são menos viáveis, porque têm menos dinheiro. Desde Virginia Woolf e seu obrigatório Um teto todo seu, sabemos que as condições materiais estão diretamente ligadas ao acesso que a mulher terá aos campos artístico, literário e intelectual.  (As relações entre condições materiais e produção intelectual, aliás, são complexas, ambíguas e características essenciais desses campos, como mostra Pierre Bourdieu em As regras da arte).

Não seria, então, o caso de perguntarmos se a disparidade numérica é causa, e não consequência, do menor espaço dado às mulheres e a seus escritos entre os intelectuais? Se as mulheres têm menos dinheiro disponível para gastar em livros, elas são um público secundário das editoras. Ao mesmo tempo, se elas leem menos e têm menos acesso aos livros, elas também não desenvolvem, tanto quanto os homens, seu potencial como intelectuais.

Em sua resposta aos números de VIDA, Ruth Franklin, editora de uma das publicações analisadas, The New Republic, pondera que há mais homens escrevendo livros e também escrevendo sobre livros do que mulheres. E isso, em si, leva ao recorte de gênero que a pesquisa reflete. (Sobre o espaço das mulheres na mídia, veja o recente relatório da organização Repórteres sem Fronteiras.) Ruth certamente tem razão e ela acrescenta que até mesmo os editores que dizem escolher os livros a serem divulgados por sua “qualidade” estão sujeitos a uma definição do termo baseada na cultura dominante (i. e., machista).

Essa é a engrenagem que dificulta que as mulheres possam investir tanto quanto os homens no desenvolvimento e no prazer intelectual e, mais ainda, que possam transformar esse investimento em profissão.

Com base em sua posição como “outro” na sociedade (e não no fato de nascerem com um corpo feminino), as mulheres têm percepções diferentes das masculinas sobre as relações de poder, as interações sociais, as narrativas de vida, o desenvolvimento econômico etc. Entretanto, se suas ideias não são debatidas e confrontadas, se suas percepções não são divulgadas e analisadas, o debate não se abre a essas diferenças. A mulher permanece o “outro”.

Talvez seja por isso que, entre outras coisas, temos uma sociedade incapaz de avaliar, para além das posições conservadoras, sustentadas por teses morais e religiosas por si só impregnadas de apologia à desigualdade, questões importantes para ampliação dos direitos independentemente de gênero. Questões como a descriminalização do aborto (sobre a qual escrevi aqui), a reprodução da violência física e simbólica (que abordei neste texto) e a dupla jornada de trabalho…

Quando as mulheres não têm voz como produtoras de conhecimento e reflexão, uma parte da história social deixa de ser contada. Essa parte é a que traz a visão dos dominados. Sem voz, as mulheres continuam, de alguma forma, confinadas ao espaço privado, de reprodução das condições de vida e da força de trabalho, ao casamento, aos trabalhos invisíveis e não valorizados. Negar às escritoras  espaço para divulgar seu trabalho e seu pensamento é uma forma de calar não apenas esse grupo restrito de mulheres; é uma forma de calar os desejos de uma política diferente, de uma vida social menos desigual.

Por isso tudo, talvez valha a pena tentar um questionamento da próxima vez que você abrir seu suplemento literário impresso ou digital. Será que o discurso que traz em cada linha, a favor da cultura e da democracia, se sustenta nas entrelinhas e na forma como é produzido e editado o texto? Ou será que essas páginas são apenas mais um espaço de reprodução de um certo recorte ideológico da cultura, conservador em termos políticos, machista e reducionista?

O quebra-cabeça da felicidade

Há alguns dias, tive com alguns amigos uma discussão que começou a partir deste vídeo, que mostra como os distúrbios psiquiátricos são banalizados pelo marketing das indústrias de medicamentos. Essa banalização consiste, entre outras coisas, como declara um dos entrevistados, em garantir o maior número de consumidores possível para as drogas psiquiátricas, convencendo pessoas saudáveis de que elas necessitam dessas drogas para terem uma vida mais satisfatória. E as indústrias farmacêuticas disseminam “informações” – na verdade, propagandas disfarçadas – sobre os sintomas das doenças e as drogas com poder de “curá-las”. Jornais, TVs, revistas, livros, todas as mídias entram no ciclo.

O vídeo fala sobre vários transtornos e medicamentos, mas a conversa acabou se concentrando na depressão, talvez por ser o transtorno mais comumente diagnosticado e também o mais “trabalhado” pela mídia. Além, é claro, de praticamente todos nós conhecermos alguém que já foi diagnosticado, correta ou incorretamente, como deprimido.

É claro que existem casos em que o medicamento deve ser prescrito para tratar esses distúrbios. Antidepressivos, por exemplo, que agem diretamente sobre a resposta da serotonina no cérebro, são necessários para pacientes que têm problemas no equilíbrio desse neurotransmissor. Essas pessoas sofrem e enfrentam uma trajetória que vai do diagnóstico difícil ao tratamento medicamentoso complexo, envolvendo a descoberta de dosagens e drogas adequadas, diversas recaídas, crises, sofrimento, preconceito, a alteração da química cerebral e a convivência com incapacidades temporárias de trabalhar e angústias.

Mas e as pessoas que não necessitam deles e os consomem? Aquilo que muitas vezes é diagnosticado como depressão é também uma condição da subjetividade, revelam que o modo de vida predominante não satisfaz a todos nem responde aos questionamentos e necessidades de todos os indivíduos. Pessoas que não precisam de medicamentos, mas são alvo do marketing das empresas farmacêuticas, são transformadas em engrenagens do sistema que gera lucratividade para o capital. Esse fenômeno nos diz algo sobre nossas relações sociais contemporâneas.

Você é um depressivo, mas precisa (e pode) ser feliz
Uma das questões que me parece clara é que na contemporaneidade pessoas estão tão vulneráveis, sobrevivendo em um ambiente de tamanha insegurança e inconsistência das relações (aspectos que Zygmunt Bauman descreve de maneira bem acessível em seus livros) que se tornam alvos fáceis desse diagnóstico enviesado.

Quando a sociedade indica a um indivíduo que sofre de insônia, fadiga, tristeza, vontade de se isolar que ele é um depressivo e precisa curar-se, lhe oferece muito mais do que um diagnóstico. Oferece um olhar e uma demanda precisa, direta, pontual. Isso é quase um conforto para todas as dificuldades que se acumulam na vida cotidiana: essa demanda dá ao indivíduo uma história, um ponto de partida, uma meta de chegada, uma narrativa, um desejo a ser realizado, com o aval de todos a seu redor, uma folga das incertezas, da angústia.

Essa demanda da sociedade chega ao indivíduo pela mídia, pela cultura, pela rede de relações. Quando um colega, um texto ou um programa de TV apresentam “inocentemente” e “na tentativa de ajudar quem sofre” os sintomas e soluções de um transtorno depressivo, estão reproduzindo a ideologia de todo um sistema de dominações, coerções e poderes das relações sociais estabelecidas.

Esse sistema é sustentado por diversos valores, entre eles o da felicidade como a condição natural e positiva dos indivíduos.
Segundo autores como Pascal Bruckner (A Euforia Perpétua – Ensaio sobre o dever de felicidade) e Gilles Lipovetsky (Felicidade Paradoxal), nas sociedades ocidentais, a felicidade e a busca do bem-estar em tempo integral começaram a ser construídas como pilares dos projetos de vida individuais a partir da segunda metade do século 20. Pouco depois, nos anos 1970, a indústria farmacêutica iniciou pesquisas científicas sistemáticas sobre drogas capazes de influenciar o humor, estabilizar e controlar suas variações.

Esses dois fatos – felicidade como um dever e alegria ao alcance de um comprimido – contribuem para uma construção simbólica em que o desprazer não tem espaço e a frustração e o sofrimento são considerados problemas a serem resolvidos, controlados e melhorados o mais rápido possível. A dor emocional, mesmo as mais justificáveis como a decorrente da perda de uma pessoa amada, a destruição de sonhos e projetos de vida, não cabe mais como experiência existencial. Razão e ciência estão aí ao seu dispor, a vida é curta passa rápido demais, você precisa dar conta de excesso de trabalho, estresse e outras preocupações, não há tempo a perder com questões existenciais, expressão da sua subjetividade ou mesmo de seu luto. É preciso ser feliz. Ontem, agora e amanhã. Mas quem dá conta de tanto tempo e tanta felicidade sem uma pílula?

Ser feliz é produzir e consumir
Sob a influência das numerosas pesquisas científicas, nossas emoções mais simples se transformam em sintomas de inadequação a nosso tempo e lugar.  É assim que tristeza que dura mais do que um número arbitrário de dias se transforma logo em depressão, ansiedade se torna hiperatividade, isolamento e rompimento de laços sociais viram fobia social…

Em uma sociedade em que a felicidade é a meta absoluta, é fácil perceber que quem não é alegre, realizado, sorridente, produtivo, bem disposto, sempre de bem com a vida e expansivo perde seu espaço entre os normais e se torna logo um doente. É para essas pessoas que a indústria farmacêutica tem a solução, só muda o nome impresso na caixinha.

Em outras palavras, os medicamentos são também pílulas de produzir conformismo e adaptação. As pessoas que se sentem indispostas, infelizes, incomodadas com o que lhe mundo lhes oferece são vistas como desajustadas e a mensagem que recebem é: o problema não pode estar na lógica dominante, o problema está em você, sofra, fique de fora da “festa”, ou tome um antidepressivo para se encaixar. Para garantir que faça a opção “correta” – isto é, aquela que gera lucro e reproduz o capital e sua ideologia – as indústrias farmacêuticas investem milhões de dólares prometendo que os medicamentos podem “trazê-las de volta” a “normalidade” depois de 15 dias de consumo contínuo de acordo com a prescrição médica.

Sem custos, com lucros
“Normalidade” é uma palavra repleta de carga simbólica. Em uma sociedade qualquer, pessoas “normais” são aquelas adaptadas às regras, sobre as quais a coerção e os valores dominantes operam com perfeição, sem falhas dignas de nota. No caso das sociedades capitalistas, as pessoas que geram menos custos ao capital e mais dão retorno a ele, ou seja: os normais são os trabalhadores que funcionam como um relógio, não faltam ao trabalho por licenças médicas, não ficam meses utilizando o seguro saúde, não têm variações de humor que reduzam sua produtividade e estejam em condições de obter o máximo prazer no consumo de produtos e serviços em abundância.

Na sociedade capitalista contemporânea, todas essas contas são feitas. Pessoas que produzem pouco custam muito, performances abaixo da média custam caro, desprazer constante emperra a máquina. Não há lugar para nada disso no processo produtivo. Em outras palavras, mostra-se “anormal” e “inadaptado” é um passo para a exclusão do espaço mais essencial que você pode ocupar: uma vaga no mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, pessoas que produzem e estão adaptadas à lógica do capital têm acesso a uma de suas maravilhas: o acesso a um mercado de experiências de vida, não apenas a bens materiais, em que são vendidas emoções fortes, aventura, a festa de casamento impecável e também, por que não, a transformação de sua agonia em alegria com uma droga.

Diante do “dever de felicidade”, bela expressão de Bruckner, o depressivo – seja ele o doente, seja ele apenas alguém que eventualmente sofre com intensidade e sem mascarar a dor – é também uma ameaça, um incômodo. Ele é a prova viva da inviabilidade do projeto de vida que norteia a sociabilidade contemporânea. Ele revela que há, sim, tristeza, angústia, infelicidade e que a própria exaltação desmedida do prazer e do bem-estar são sintomas de que a sociedade está mal com suas contradições. Os depressivos nos dizem que o quebra-cabeça da felicidade permanente nunca poderá ser montado por inteiro. Mas ninguém quer ouvir isso.