Mulheres, o Bukowski de Mario Bortolotto

 Eu sempre tive certeza sobre a impossibilidade – óbvias, talvez – de se fazer uma boa adaptação da obra do velho Bukowski. Elas sempre me pareceram caricatas, e a sensação era que nunca chegavam perto das possibilidades que a leitura proporcionava. Uma solidão terna, algo triste, simples, algo que te levava a sentir, provocava reações que iam do ódio mais puro à solidariedade mais singela. Naquelas tardes, na companhia do velho, nada era pequeno, mas tudo era.

 
O Mickey Rourke pra mim era o mais bem sucedido na tentativa de interpretar o velho Chinaski, talvez pela possibilidade inspiradora da presença do Buk nos sets. Nunca me dei bem com a interpretação do Matt Damon nem com a do Ben Gazarra. Enfim, todos são filmes dignos, cada um com seu momento maior.
 
bukowski
 
Quando vi que o Bortolotto iria adaptar – para o teatro – o Mulheres tive uma espécie de tensão, daquele mesmo tipo que sempre dá quando alguém vai chafurdar e “mexer” em algo extremamente íntimo da sua vida. Algo que alterou o seu caminho. Mulheres é sem duvida um dos melhores, senão o melhor livro em prosa do velho (aqui vale o agradecimento ao grande Reinaldo Moraes por traduzir essa pérola ainda nos anos 80). Porra, agente ia ver isso no teatro.
                                                                                                           
Finalmente fui ver a peça e durante bons minutos não consegui esboçar muitas reações, uma espécie de incômodo pairava por ali. Então tudo começa a vir numa crescente. Você vai se acostumando aos trejeitos do velho safado interpretado pelo Mário, trejeitos que cada um imaginou de uma forma ao ler os livros, uma forma de se movimentar que está no inconsciente individual. Um tipo de humor de quem sabe que rir de si mesmo talvez seja o melhor remédio. A mais dolorida das solidões, aquela povoada. Uma carência apavorada, uma coragem ingênua e descompromissada.
 
Ontem eu entendi que Bukowski só existe um. Não adianta buscar o sentido de um livro numa outra linguagem. E o Bortolotto, em cena por quase duas horas, em outra linguagem, faz o seu Chinaski, trôpego e sincero, que cresce muito ao longo da peça amparado por suas várias (e talentosas) mulheres.   
 
Demorei a entender, mas no fim existe uma certa libertação, uma tentativa que nada tem a ver com resignação. Apenas libertação. Talvez fosse isso mesmo.
 
Serviço:
 
“MULHERES”
DE CHARLES BUKOWSKI
HOJE 21H30

MULHERES
Adaptação Teatral do Livro de Charles Bukowski 

Adaptação: Mário Bortolotto 
Direção: Fernanda D´Umbra
Elenco: Mário Bortolotto, Erika Puga, Wanessa Rudmer, Danielle Cabral, Samya Enes, Débora Ester, Maria Tuca Fanchin, Pablo Perosa e Walter Figueiredo. 

Assistencia de Direção: Walter Figueiredo 
Iluminação: Pablo Perosa e Fernanda D´Umbra
Sonoplastia: Mário Bortolotto 
Cenário: Leopoldo Ponce
Figurinos: Ofelia Lott
Fotos e cartaz: Gisela Schlögel
Operação Técnica: Fernanda Rudmer
Cenotécnico: Régis “Negadete” dos Santos
Gravação dos offs: Diego Basanelli
Offs: Diego Basanelli, Maria Tuca Fanchin, Linn Jardim e Mário Bortolotto. 
Direção de Produção: Wanessa Rudmer
Produção Executiva: Danielle Cabral 

Hoje 
21h30

Teatro Cemitério de Automóveis
Rua Frei Caneca, 384

Quarta a sábado: 21h30
Domingos: 20h30

Até 17/02 

Esquema “pague quanto puder”.

                                                     

Quanto de sensibilidade cabe em 70 minutos?

 Quanto de sensibilidade cabe em 70 minutos? Essa foi a pergunta que me fiz ao assistir La vida útil (2010), do uruguaio Federico Veiroj. E imediatamente me veio à cabeça, novamente, de onde vem tanta delicadeza do atual cinema uruguaio.

 

capa

 
O filme é quase uma ode a um tipo de cinema onde prevalece a noção de experiência. E isso, nem sempre, diz respeito ao conteúdo ou forma do filme, mas sim o que envolve a experiência de assisti-lo. Frente aos assépticos cinemas de shopping centers, temos aqui a cinemateca uruguaia à beira da falência, com seus bancos que rangem denunciando sua história (sim, essa é a diferença, há história), seus projetores que desfocam romanticamente as imagens. Romantismo esse que perdeu seu lugar para poltronas reclináveis e pipocas a preço de ouro.
 
Jorge, o protagonista, dedicou 25 anos de sua vida à cinemateca. Com o seu inevitável fechamento, necessita buscar um reencantamento para sua vida, e este só pode vir à luz – no terreno que pisamos – na sua forma mais elementar: o amor. Jorge se apaixona. Jorge discorre filosoficamente sobre a mentira inspirado em Mark Twain. Jorge tem algo de patético, algo meio chapliniano, principalmente na cena em que brinca nas escadas da universidade. Seus trejeitos estão entre essa simbólica patetice, e uma pureza inocente.
 
O filme tem uma fotografia em preto e branco, levemente granulada, como a remontar aos prelúdios do cinema do começo do século XX. E é inegável – já como um traço marcante desse cinema uruguaio – a presença de um elemento fortemente melancólico, seja num pequeno silêncio, num gesto, numa forma de caminhar.
 
Uma singela homenagem à sétima arte. A cena final, com a câmera fincada, estática, numa rua de Montevidéu, lembra o expressionismo alemão.
 
Impossível não pensar no fechamento dos últimos cinemas de rua em cidades como São Paulo. Impossível não pensar no esmagamento desses pequenos espaços de formação subjetiva que resistem como podem, mas que sucumbem diante de monstruosidades como a especulação imobiliária.
 
La vida útil. A noção de utilidade. A quem serve esse tipo de utilidade, onde, o que não se ajoelha ao ideal do consumo constante, é descartado como mera fantasia saudosista?
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Febre do Rato: o cinema messiânico de Claudio Assis.

 Cláudio Assis nunca esteve para brincadeira. Isso já ficou claro não apenas em seus filmes, mas em suas declarações e posturas claramente combativas. Amarelo Manga e Baixio das Bestas já diziam muito desse cara nascido em Pernambuco, estado que merecia um estudo simplesmente para tentarmos entender de onde vem tanta criatividade, tanta luta, tanta inovação estética e discussão política.

 

febre do rato

 
Febre do Rato, seu novo filme, tem uma fotografia esplendorosa do já veterano Walter Carvalho. Preto e branco, altamente contrastada, por vezes estourada, Recife (ou Hellcife como lhe cai muito melhor e o filme diz isso) é retratada em belos planos abertos, para na seqüência nos jogar, nus, em seus pequenos ambientes privados e desconhecidos. Nessa pequena “zona autônoma” – onde o rato é a figura simbólica, mas poderia ser o caranguejo – lutando por reorganização (“Que eu desorganizando posso me organizar”), temos uma briga da poesia contra o estado inalterado das coisas, contra a moralização castradora.
 
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Irandhir dos Santos faz esse poeta-messias disposto a levar as pessoas a despertarem de um estado de torpor para entrarem de cabeça num mundo onde a poesia dá as regras, onde as palavras “organizadas” segundo a métrica de uma beleza sutil têm poder de uma revolução própria. Ele vive para poetizar seu cotidiano mais próximo, transformando-o, organizando-o no sentido que Chico Science daria para isso. E Chico está presente no filme, na fala do poeta, quando clama: “Chico, me empreste sua ciência, para que eu possa me esclarecer”. A bela trilha de Jorge du Peixe também não está ali à toa, é o Recife que grita do mangue. É o Recife que grita como qualquer outra metrópole, mas que grita de forma diferente já há muito tempo.
 
Criticaram Cláudio Assis pelo excesso de esteticismo no trato com questões que não mereciam, talvez, um “adversário” em sua observação. Besteira pura. Como sabemos há muito tempo, uma coisa complementa a outra. Cláudio Assis cria um cinema messiânico cheio de sexo e poesia, com imagens marcantes. Câmeras em carrossel, enquadramentos atrevidos, nudez contextualizada. O poeta clama pela coletividade, continuando a tradição.
 
Eneida, a musa, mija na mão do poeta, se masturba lendo seus versos. A câmera gira vertiginosamente com a música de du Peixe ao fundo. Cenas que tratam também de um cinema alheio ao “bom-mocismo”, ao Brasil para turista, e sim, seguem na vertente de que o ser humano continua sendo “estômago e sexo”, e agora vai além, é necessário ser coletivo.
 
Cláudio Assis tem o que dizer, sabe como dizer, sabe ao que deve respeito, e ao que deve um dedo médio, em riste, apontando para o horizonte.  
 
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A música instrumental do Malditas Ovelhas!

 Formada nos fundos de uma república em Araraquara, interior de São Paulo, a banda Malditas Ovelhas percorreu um caminho lento, contínuo, persistente. Trabalhando quietos e de forma competente, se inserem hoje no seio da cena da musica instrumental brasileira que, felizmente, volta a se fazer presente e cheia de qualidade, diversidade, com bandas enérgicas, e, com certeza o mais importante, possuidoras de uma personalidade brutal, algo tão raro num momento de eterno consumo do mesmo, do saturado, da repetição.

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Experimental, progressiva, cheia de misturas a princípio improváveis, os Malditas Ovelhas vem se mantendo fiel a uma sonoridade cheia de novidades, fazendo da música uma viagem, senão lisérgica, um tanto surreal e libertadora, driblando de alguma forma os perigos e enigmas (decifra-me ou devoro-te) do tão propagado “cenário independente” que vem passando por investidas de um tipo “alternativo” de capitalismo, onde perde-se a noção da transformação radical e segue-se por uma via um pouco hierárquica (e assim, contraditória) de coletividade. 
 
Dentro de uma dificuldade pessoal de falar sobre música, prefiro falar dos sentimentos gerados pelos acordes tresloucados e batidas vigorosas. Zé Guilherme, Eduardo Rodrigues, Bruno Almeida e Yraê Araújo. Dentro de um revezamento nos instrumentos que pressupõe uma não especialização – algo por si só político – no processo de criação, é fato destacar que o Yraê é um mestre contador de histórias na guitarra, assim como Zé Guilherme é um operário conscientemente louco que bate com força e alma na bateria.
 
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Faz toda diferença quando agente acompanha uma banda desde a sua formação, percebendo claramente os avanços, afinamentos, a seriedade, e principalmente, o sentimento notório de que eles acreditam piamente no que fazem e no como fazem – algo raro hoje em dia, onde as coisas são feitas para simplesmente aparecer, um conceito oposto ao “ser”. 
 
Os caras têm um EP recém-lançado intitulado “A Punga” (que pode ser baixado gratuitamente), um disco cheio saindo em breve e um clipe meio síntese, ou representativo, do caminho contínuo que eles continuam traçando. Fazem sua divulgação seguindo a tendência – positiva – da guerrilha virtual. O clipe citado, da música “Cantagalo” você pode conferir aqui http://www.youtube.com/watch?v=mbDLQhL6YX0. Para conferir todo o trabalho do Malditas Ovelhas: http://malditasovelhas.blogspot.com.br/; https://www.facebook.com/malditasovelhas; http://malditasovelhas.tnb.art.br/; http://tramavirtual.uol.com.br/malditasovelhas/.
Malditas Ovelhas é música instrumental, porque já tem muita gente discursando por aí.
 
Para quem quiser conhecer mais a inovadora – e ainda um pouco desprestigiada – música instrumental brasileira visite o excelente: http://bocafechada.wordpress.com
 
 
 

velhos bebâdos barrigudos tocadores de blues – ta aí

Eu conheci o Saco de Ratos através da obra de Mário Bortolotto. Eu acompanhava a obra do dramaturgo e escritor, e toda a atmosfera, a vida que pairava ao redor. Eu sempre tive o Mário como mais escritor do que qualquer outra coisa, e isso continua assim. Tudo gira em torno das coisas que esse cara escreve, que é claro só aumenta em qualidade quando se junta a caras talentosos.
 
Esse documentário do Grima Grimaldi abre as portas e de certa forma causa uma união entre tudo que significa essa “obra”: letras, músicas, poemas, peças e textos. Uma junção sem concessões. Não há prioridades. Cada coisa toma o lugar que lhe é devido.
 
Isso aqui não é como um processo de caçar novos ouvintes para o Saco de Ratos (apesar da vontade que eu sinto de partilhar do meu sentimento ao ouvir esses caras) e sim para celebrar uma espécie de coletividade. Eu lembro que um tempo atrás eu escrevi aqui uma crítica do livro do Bortolotto, o “Dj – Canções para tocar no inferno”, que o Mário gostou e publicou no blog dele. Um tempo depois no facebook vi que o Grima – que até então não fazia parte do meu horizonte – havia lido e também elogiado o texto. Mal sabia que escreveria novamente sobre esse ambiente, e agora com o Grima em foco.
 
O cara fez um documentário nu e cru, de quem ta ali participando, sem o distanciamento higiênico de documentaristas que “olham de fora” e criam verdades distantes da realidade. As cenas meio “bastidores” da banda se aproximando pelas ruas, pequenos lapsos de conversas captados subterraneamente são de um sentimento extremo. Algo como união, criação de pequenos espaços de liberdade total. É como um agente infiltrado, que assume todas as conseqüências por apontar uma câmera para algo ou alguém.
 
Eu vi poucos shows do Saco de Ratos, mas todos foram intensos e rendem até hoje um sentimento saudosista – que envolvem coisas pessoais também – mas que dava uma sensação esquisita de sinceridade. Era nisso que eu pensava. Porra, isso é de verdade.
 
Rick, Mario, Pagoto, Brum, Watanabe (caralho, esse japonês ta engraçado no documentário), e o Grima, que não tem medo disso tudo. E ainda carrega uma câmera.
 
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Além disso, o mais chocante são as aparições. Renato Fernandes. Vi o cara em Campo Grande, e só posso dizer que ali também há verdades, vísceras e emoções profundas. Reinaldo Moraes, um dos meus ídolos na literatura e sem dúvida o grande escritor brasileiro vivo. O Bortolotto ta ligado sobre o que é ter um ídolo como o Reinaldo. Ae Grima, faltou um depoimento dele pô. Paulo César Peréio, sempre impagável. Todo o resto, e um todo.
 
Não sei como terminar, talvez eu fique com um simples sentimento de gratidão de ter ganho a minha noite. Talvez eu fique com “balada do velho quarteirão” e caralho isso já ta de bom tamanho.
“Agente fantasiava demais / agente lia demais / baby”.
 
E eu sei que faltou citar um monte de figurões aqui, mas enfim.
 
 
Nossa vida não vale um chevrolet mas com certeza vale isso ai ó (na íntegra): http://www.youtube.com/watch?v=jZN88vvhjJU

Um Clooney, dois filmes.

 Sempre deixei claro aqui que a grandiosa festa do Oscar não significa nada para o cinema em termos de qualidade, relevância ou inovações. Nem é sinônimo de belos roteiros, fotografia e direção. Quero dizer com isso que – independente de premiações e festas glamourosas – os filmes estão aí, para além daquela estátua careca, dourada e cafona.

 
Mas é óbvio também que alguns filmes só ganham destaque devido às premiações. Para o bem e para o mal. Por isso nem entrarei nos méritos das indicações dos dois filmes aqui analisados. Quem quiser fazer esse trabalho sabe que é simples e fácil.
 
George Clooney é o nosso personagem central. Em “Tudo pelo Poder” ele dirige, atua e co-assina o roteiro. Em “Os descendentes” faz o personagem principal.
 
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“Tudo pelo Poder” peca por uma repetição já um pouco monótona ao mostrar os bastidores da política norte-americana. Ou melhor, da atmosfera das eleições, com seus comitês, delegados, prévias, e tudo o que há de mais complicado no processo eleitoral norte-americano. Clooney é um dos candidatos democrata para concorrer à Presidência (uma espécie caricata de Obama). Parece justo e honesto, mas como todo político tem suas sujeiras bem escondidas. O leitmotiv do filme é desembaçar qualquer olhar ingênuo por parte do espectador acerca das politicagens que envolvem a “democracia”. Não existem mãos limpas, não existem bons moços. Em certo momento um dos marqueteiros da campanha – se é que posso falar assim – dirige-se ao futuro candidato à presidência (as palavras não são exatamente essas, e espero não estar estragando a pipoca de ninguém): “Você poderia ter feito tudo, roubar, trapacear. Mas você cometeu o único erro que não poderia cometer: comer a estagiária”. São os vícios da política norte-americana. Clooney, que havia dirigido um interessante “Boa noite, boa sorte”, cheio de valor histórico, agora nos dá apenas mais do mesmo. Talvez um pouco de preguiça em arriscar outras abordagens.
 
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Diretor do ótimo “Sideways”, Alexander Payne retorna em “Os Descendentes” com a mesma atmosfera algo melancólica, onde a burguesia expõe suas crises existenciais, neuroses, e certos problemas de consciência. Estamos no Havaí e Clooney faz esse homem em reconstrução. Após um acidente com a esposa ele precisa lidar com as filhas adolescentes, uma herança que pode afetar o paraíso Havaiano, e descobertas nada agradáveis sobre sua vida privada. É um clássico homem burguês em crise. Não há que se esperar muitas surpresas. A vantagem para outros filmes do gênero é que Payne consegue dar a forma certa a um conteúdo já um pouco gasto, o que acaba por provocar aquele sentimento de aproximação. Sobram a boa trilha sonora havaiana, belas locações, a boa atuação de Clooney, e um personagem secundário algo engraçado, meio deslocado.
 
Dois filmes meio domingueiros, com altos e baixos.  
        

Ocupar Wall Street e um pouco da falsa polêmica Rafinha Bastos.

 Entre discursos de filósofos como o esloveno Slavoj Zizek, até falas de Naomi Klein, surgiu o melhor conceito – retomando um pouco da ideia de Revolução Permanente de Leon Trotsky – acerca dessa retomada muito bem-vinda das manifestações políticas que ocupam espaços públicos. Pensando em Estados Unidos a coisa fica um pouco mais interessante, visto o histórico recente de conservadorismo exacerbado nesse país tão cioso de democracia e liberdade, mesmo que essas palavras normalmente tenham conotações diferentes lá e no resto do mundo. Provavelmente desde a explosiva década de 60, com suas experimentações psicodélicas comportamentais, passando pelos Panteras Negras e Martin Luther King, a ocupação em Wall Street é algo não como um mero sopro de ar fresco, mas talvez uma grande ventania. E por uma característica bem específica.

 

ocupação wall street

 
Na também recente “Primavera Árabe” – como ficaram conhecidas as diversas manifestações em países Árabes contra governos totalitários – principalmente jovens, e sobretudo organizados através da internet, tomaram de assalto o espaço público da cidade. E não qualquer espaço público, mas sim o mítico espaço da praça, lugar político por excelência. No caso das manifestações Árabes havia um objetivo final e específico a ser conquistado, dessa forma, “naturalmente”, como movimentos pós-modernos que surgem e se vão velozmente, assim que tal objetivo fosse conquistado as praças voltariam a ser o ambiente dos pombos. É nesse ponto que chegamos à perspectiva da Ocupação Permanente. Em Wall Street as reinvindicações são amplas, de macroestrutura, o que pode pressupor-se uma longa luta, constante, diária, que não se acaba com a concessão de migalhas. Os altos executivos que passeiam pela Times Square terão sempre que olhar os acampados, os 99% que não fazem parte do jogo quase virtual deles, mas que meche com a humanidade de uma forma ampla. Irreal pensar em uma ocupação permanente no coração do centro econômico da maior potência (?) do mundo? Talvez, mas as condições concretas estão dadas. Trotsky, como dissemos acima, já falava em Revolução Permanente, aquela que não se esgota com pequenas conquistas, e a ideia da permanência é a ideia do não efêmero, daquilo que finca raízes, que risca como tatuagem, a luta constante contra as proibições do “você não pode” até às raias da especulação financeira, essa espécie de videogame espetacularizado.
Parece que algo acorda lá do fundo. Em tempos de Facebook as pessoas tomam as ruas.
Toda força aos acampados, seja Nova Iorque, Roma, Síria ou Atenas.
 
A falsa polêmica Rafinha Bastos.
 
Para além da discussão sobre a piada propriamente dita, a questão é que a repercussão só se deu por envolver a classe que detém o capital. O que preocupa na censura da emissora, pressionada obviamente por esse capital, é a abertura de mais um precedente das proibições. Quem dita o que pode ou não pode ser dito? O marido da Vanessa Camargo? Preocupante. Os precedentes abertos ultimamente são vários e perigosos, começam com inocentes leis para fechar bares mais cedo, proibição do fumo, lei do silêncio. Novamente, quem deve ditar as regras que devemos seguir? Se o Rafinha Bastos incita o racismo, a violência contra mulheres, é porque alguém assiste aquele programa, é porque alguém permitiu que ele sentasse naquela bancada, que aliás conta com mais dois imbecis, um dos quais defende a violência policial contra manifestações estudantis (o “jornalista” Marcelo Tas declarou “polícia nesses vagabundos” na última greve da usp). Agora, quem defende a censura contra ele, não poderá reclamar quando esses mesmos detentores do capital começarem a dizer que horas temos que sair do bar (coisa que na verdade já fazem), a que filmes podemos e não podemos assistir. A falsa polêmica está em venderem para o público que o problema foi a piada. A lógica é bem mais cruel. 

O humanismo esclarecido de Maradona by Kusturica

Para os fãs de Galvão Bueno e do Brasil-nação-“pátria-de-chuteiras”- não é fácil entender as sutilezas elefânticas que distanciam Pelé e Maradona. Não está em questão aqui a bola nos pés, o número de gols ou títulos, mesmo porque comparações desse tipo necessariamente teriam que levar em conta seus determinados momentos históricos.

 Kusturica, cineasta Sérvio que fez Underground entre outros, constrói um documentário sobre um dos maiores ídolos do futebol, mas onde o futebol nem sempre está em primeiro plano. Molda a figura humana de Maradona, o grande mito que não hesita em chorar, polemizar ou pedir perdão. O cara que escancarou sua vida e não viu o crescimento das filhas entorpecido pelas drogas que estava. O cara que tem Guevara tatuado no braço e se mostra de alguma forma confuso politicamente, mas com um direcionamento muito transparente.
 
Maradona
 
Na Copa de 86, vencida pela Argentina, Maradona atinge seu auge ao fazer os dois gols contra a Inglaterra nas quartas-de-final. Um considerado o gol do século, o outro com a mão. De Deus. “Me senti roubando a carteira de um inglês”, diria gratificado Maradona. O auge não era apenas pela consagração futebolística. Como um revolucionário, Maradona vingava ali a opressão que seu povo sofrera, massacrado pelos Ingleses na Guerra das Malvinas, alguns anos antes. Devolvia o sangue derramado com genialidade malandra.
 
Fato é que não soube lidar com a idolatria que o cercava, mas renasceu com a mesma garra febril que demonstrava em la cancha. Maradona não tem medo de soar arrogante porque também soube apanhar.
 
O filme emociona com Dieguito cantando, chorando, destilando veneno, amando as filhas e agradecendo o braço forte da mulher que ama e que esteve sempre ao seu lado. Kusturica conduz o filme como um maestro, como um amigo prestando uma homenagem sincera.
 
maradona kusturica juntos
 
Também fizeram um filme para o Pelé, aquele que fez mil gols. O tal “Pelé Eterno”. Mas e o Pelé que não quis reconhecer uma filha, que anda de mãos dadas com os maiores bandidos do futebol brasileiro, que canta músicas infantilóides (que ele próprio compõe) e adora aparecer nas câmeras em momentos chave para fazer auto-promoção? Que nunca desce de um pedestal que só ele enxerga? Se Pelé foi melhor que Maradona? Que importa? O futebol é magia além dos campos, é manifestação cultural de um povo. Maradona encarna um espírito latino americano de luta, de alma, de um humanismo que comporta erros e acertos. Algo muito em falta no mar de marasmo que vivemos. Muitos jovens nem conhecem Pelé, ou pior, não se interessam por sua história, algo impensável na Argentina de Maradona. Pelé parece algo insosso, um nome, mais que uma vida real.
 
O golpe de misericórdia de Kusturica é trazer à cena Mano Chao, músico sem fronteiras, cantando uma música composta e tocada especialmente para Maradona (que você pode ou deve ver aqui). As lágrimas que correm naquele momento são isentas de qualquer julgamento que não seja sobre um cara que é e sempre foi ele mesmo. Viveu como quis. Pro bem e pro mal.
 
Antes que mandem eu me mudar para Argentina eu peço que na dúvida assistam aos dois filmes e façam as devidas comparações, pois a própria forma dos filmes diz (ou esconde) muito sobre seus protagonistas.

A Nouvelle Vague revisitada.

Difícil falar sobre um movimento que alterou as rotas do cinema mundial. Difícil falar sobre autores que constituíram uma parte da minha formação. A questão é que o documentário de Emannuel Laurent Godard, Truffaut e a Nouvelle Vague: Acossados e Incompreendidos – faz isso com grande eficácia ao rememorar, mesmo com certa dose excessiva de didatismo, esses dois autores e sua centralidade nesse movimento. E mais: revisita e dá um grande espaço, que nem todos dão à Jean-Pierre Léaud, “o filho da Nouvelle Vague”.

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Emannuel Laurent documenta desde o início o fenômeno Nouvelle Vague, mostrando como a relação entre Truffaut e Godard perpassava a simples amizade iniciada em torno da revista Cahiers du Cinéma, onde ambos escreviam críticas desde os 20 anos. Foi através da crítica que os dois passaram a pensar a própria prática cinematográfica, onde começaram a pensar na idéia de ruptura com o que estava posto, fazendo críticas ácidas à linguagem cinematográfica de então. Truffaut foi o primeiro a debutar com Os Incompreendidos, mostrando ao mundo o garoto Léaud, então com 14 anos, que acompanharia toda história do movimento e do chamado ciclo “Antoine Doinel”. Godard logo em seguida faz Acossado, com Jean-Paul Belmondo. O choque foi geral, as pessoas não entendiam a irreverência contida em um olhar direto para a câmera como da belíssima Jean Seberg, ou do próprio Belmondo que inclusive conversa com o espectador, entendem aquilo como simples falta de seriedade. Jovens querendo brincar com a arte “séria”.
 
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Godard veio de família rica, criado na suíça. Truffaut teve infância difícil e foi um garoto solitário. Os dois vão manter uma longa amizade, hora um produzindo o outro, escrevendo roteiros, e principalmente estarão juntos na hora da radicalização política na França. Poucos meses antes do conhecido Maio de 68 Francês, Henry Langlois é destituído do comando da cinemateca francesa (o lugar mitológico onde se formaram grande parte dos cineastas franceses), o que gera uma intensa mobilização por parte de cineastas do mundo inteiro, encabeçados por Truffaut e Godard que inclusive filmam juntos um curta onde falam sobre a importância da cinemateca.
 
Nos meses seguintes, com Langlois já de volta a seu posto, explode a rebelião estudantil e operária. Estamos no Maio de 68 e as vozes de Godard e Truffaut são novamente ouvidas em altos decibéis. Eles conseguem cancelar o Festival de Cannes daquele ano em nome de uma coisa que, segundo eles, nenhum filme a ser exibido no festival seria capaz de superar: a juventude que estava nas ruas, as fábricas que estavam tomadas e a greve que era geral. As imagens de arquivo que Emannuel Laurent nos traz são de arrepiar diante da lucidez do discurso que fazem François e Jean-Luc. A Nouvelle Vague não era apenas um movimento artístico, era algo ligado diretamente às ruas, ao novo.
 
O Rompimento.
 
Após as rebeliões de 68 a radicalização de Godard cresce cada vez mais. A idéia de que uma arte política necessita de uma forma política toma de assalto seu horizonte, um horizonte pelo qual ele não abriria mão facilmente. Queria uma revolução na linguagem. Horizonte diferente tinha Truffaut que continuava defendendo as premissas do cinema de linguagem clássica. Acusava Godard de instrumentalizar a arte. O estopim foi o filme “Noite Americana” de Truffaut o qual Godard rechaçou veementemente por ser, segundo ele, apolítico. Esse embate os afasta para o resto da vida, longas cartas trocadas, pesadas acusações de traição de ambos os lados. No meio disso estava Léaud que trabalhava com ambos. Talvez a grande contribuição desse documentário – que não traz tantas novidades – seja recuperar imagens de bastidores – o teste de Léaud para Os Incompreendidos é uma dádiva para os aficcionados – mas, sobretudo, colocar como tudo girava em torno de uma atmosfera de discussão política, de embate, renovação, descobertas (a forma de filmar uma mulher, que aprenderam com Bergman, é expressiva disso). Nada de tédio, marasmo ou grandes orçamentos. A meu ver não cabe julgamento se foi Truffaut ou Godard que tomou o caminho mais “correto”, afinal eles já haviam criado algo revolucionário e não foi dentro de uma redoma. Quantos diretores hoje sairiam na porrada com a polícia em alguma manifestação? Talvez um, ou dois. A esmagadora maioria veste terno e gravata para mendigar em porta de multinacional. Enfim, impossível esgotar todos os detalhes e significados desse documentário, onde cabem muitas abordagens.
 
Assistindo ao filme me lembrava sempre das semelhanças da Nouvelle Vague com o Cinema Novo. Me vinha na cabeça o ímpeto arrasador do Glauber, o trator que ele era quando discursava ou escrevia. Ainda falta um grande filme sobre a nossa revolução cinematográfica ou estou enganado?
 
 
 
  

Mário Bortolotto e suas canções para tocar no inferno.

Há tempos eu acompanho a obra do Mário Bortolotto. É uma obra que transita tresloucadamente entre a dramaturgia, literatura e a música. Com um pendor um pouco maior, no que diz respeito à quantidade, aos textos para o teatro. Mas Bortolotto é sobretudo um escritor rockeiro, se podemos dizer assim. Ao mesmo tempo que escreve, dirige e atua em suas peças, é vocalista e principal letrista da banda de rock Saco de Ratos. Tá no myspace pra quem quiser conferir.
 
Mas vamos nos ater a algo específico. No mês passado o cara lançou seu primeiro livro de contos intitulado “DJ – Canções para tocar no inferno”. A temática do Mário transita entre o submundo paulistano, as prostitutas, bares, bebedeiras, música. Quem se lembrou do nosso velho safado Bukowski está no caminho certo.
 
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A primeira parte do livro é composta por contos com títulos de canções que vão de Jealous Guy do Lennon até Given the dog a bone do AC/DC, o que explica o nome da coletânea. Mas ao longo dos 22 contos do livro, divido em 3 partes, o que vemos é a habilidade em repetir uma temática, da qual o autor é exímio conhecedor, e por isso se torna inesgotável não caindo na mesmice. Bortolotto domina a arte de narrar a madrugada suja do centro da babilônia.
 
Temos sujeitos solitários que apenas querem um pouco de paz. Temos copos de whisky vagabundo nas mãos de saxofonistas que não sabem para onde ir. Vemos os cachorros uivando para madrugada enquanto tentam um pedaço de comida nas latas de lixo do centro nervoso de São Paulo. Por todos eles notamos anjos flutuando que desceram para terra querendo saber de onde vinham aquelas notas melancólicas, a pedido de um Deus que em algum momento os esqueceu, e quem sabe agora sente uma espécie de remorso.
 
Destaco primeiramente o conto Knockin´on heaven´s door, música de Mr. Dylan, onde o sujeito chega no céu e começa a encontrar figuraças do tipo Paulo Leminski, Vinicius de Moraes e Paulo Francis, e eles bebem em bares e falam sobre os que ainda estão por aqui, sobre poesia e literatura. Segundo destaque vai para uma espécie de trilogia, onde um ex-pugilista, um sujeito enorme e agora massagista de clube de futebol, meio que repassa melancolicamente sua vida triste e solitária tendo como pano de fundo as copas do mundo de 50, 54 e 58.
 
Bortolotto sabe sobre o que escreve, vive na pele essa violência da cidade grande. Violência ora explícita (só lembrar os 3 tiros que levou num bar do teatro Parlapatões há um ano atrás na praça Roosevelt), ora simbólica. Mas essa vivência faz toda diferença de, assim como Bukowski, não fazer da repetição temática um lugar de conforto criativo, mas sim de confronto, um confronto dolorido.