No campo da arte.

 

A recente adoção do desenvolvimentismo como prioridade humana teve como uma das bases o direcionamento da nossa força de mobilização para o trabalho e a consagração deste como nossa função e finalidade.

 

Passamos a compreender a vida como um universo inicial, básico, aonde o foco não era mais a experiência de interação pura e aprendizado sensorial, mas sim, a manutenção e sobrevivência dessa vida em padrões e com métodos a serem definidos com certeza por pesquisas científicas cada vez mais perfeitas.

 

E como os que já sabem disso tudo também já sabem, não foi assim que aconteceu e não nos parece que será dessa forma também num futuro próximo ou distante.

 

Porém, muitos são os que pensam e tentam mobilizar uma corrente que já começou a ampliar seu alcance a níveis espantosos, iniciativas enormes ou especializadas já são uma realidade agradável e que apontam possibilidades.

 

Estas iniciativas são a demonstração de um nível de maturidade a que chegamos como sociedade, a ponto de a guerra passar de necessária a detestável na compreensão da maioria das pessoas.

 

Porém a mudança de uma estrutura dominante coercitiva, opressora e que se utiliza de práticas de « quebra » do espírito humano através da cultura industrial, da desinformação ou ainda estimulando a utilização abusiva de medicamentos neurológicos, é árdua e requer mártires. Com a diferença de que não basta mais somente um ou um grupo de líderes a guiar multidões, é imperativo que todos sejamos esse líder de si gerando essa unidade inteligente e eficiente.

 

Porém, todo esse argumento cai por terra quando desconectamos o tempo ao nos esquecermos do presente como campo de ação possível para a construção de um cenário posterior mais justo socialmente e mais honesto moralmente. Falo agora especificamente sobre a percepção de uma guerra velada ao exercício artístico criativo.

 

Em tempos politicamente corretos, como não há mais espaço para piadas de caserna, ofensa às minorias a fim de entreter o senso comum preguiçoso sobra troça pro lúdico

 

Não obstante haverem centenas de milhares de escravos cativos enquanto eu escrevo este texto, ainda acreditamos que ao simplesmente não ofendermos as minorias estamos nos tornando a sociedade perfeita, afora o fato de que realmente não há o que justifique ofensa a quem quer que seja, temos considerado como prioridade todas as outras ‘infantilidades’ como a guerra e o acúmulo ocioso de recursos produtivos. 

 

Como o cidadão no café da empresa não pode mais ofender pessoas pela cor da pele, pela opção afetiva ou religiosa, sobra desprezo para zoar o poeta, o compositor, o ator, o artesão e afins.

 

Talvez seja porque geralmente essas pessoas são pessoas de extrema sensibilidade e mesmo nas galeras mais gente boa, não anda tendo espaço para sentimentos, rimas e palavras que embelezam e colorem.

 

Existe a crença enganosa, de que o dom artístico somente é legítimo quando é um evento místico e se reconhece e se aceita alguém ser denominado artista (ou pintor, músico etc.) se quando criança sair da mãe e tocar a cavalgada das valquírias. De outra forma o camarada que se encontra depois na função artística, quando tem coragem para revelar sua escolha, pode estar preparado para ao menos um comentário jocoso, afora todos os ‘conselhos’ sobre a utilidade e a rentabilidade do ofício.

 

Claro que eu considero aqui que há mais gente desequilibrada dizendo que é artista do que, sei lá que é veterinário, por exemplo, e talvez isso seja metade do problema, pois muitos se arvoram a espalhar por ai que produzem arte, antes mesmo de se tornarem capazes disso, como o estudante de direito do primeiro ano que já dá carteiradas por ai.

 

O grande problema não é esse, pois arte é produção e artista é quem faz, dai, esse camarada que está na arte de passagem, logo nunca apresenta nada de concreto e se é bom, bem, se é bom ai é do gosto de cada um, o importante é termos arte sendo produzida para que possamos ver o que nos agrada na arte como admiradores.

 

O que me importa é deixar claro que a arte não é mero enfeite, não é ornamento, arte é o que sustenta o ser humano como unidade, é o azeite que possibilita o entendimento de questões profundas e complicadas ao amaciar ou afiar a razão e o sentimento para desfiar os embaraços e as fisgadas dos espinhos.

 

E por mais que não gostemos, sem o artista não há arte, essa lição a indústria cultural esta tendo que acatar, pois ao tentar tirar o artista do processo por não ser passível de padronização e controle, percebeu que a arte se instala sem a ajuda de um sistema de comando.

 

Na música, mesmo em grandes gravadoras já é prática a busca de parcerias com selos criativos de artistas independentes, pois não há como existir um mercado sem quem cria o produto, assim como não há sociedade justa sem que o artista tenha o reconhecimento de ser um dos  pilares de sua harmonia e potencial de recriação.

 

Grande abraço.

“Aquém do horizonte”


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O indivíduo sentado em frente a um computador, assistindo à televisão, lendo um livro ou ainda escutando as fofocas dos vizinhos, em qualquer local do mundo, esta imerso num mar de conceitos, propostas, opiniões e parâmetros, praticamente impossíveis de serem identificados na origem ao correr dos dias.


Ok, sabemos de onde vem, porque de fato sou eu quem escolhe qual site acessar, ou qual livro ler e disso tiramos a ideia de liberdade, o livre-arbítrio no que diz respeito à opção de escolha.

E a ideia de liberdade, ou melhor, as ideias de liberdade, de onde vem e onde a sua conflita com a do seus amigos, familiares e críticos?

Esse questionamento talvez seria uma das faíscas defenestradas desse apartamento que habito nos recônditos do lar de Marianne, a musa da liberdade dos franceses.

Pois vejo a necessidade de questionar o que em mim determina, que eu escolha ler Crime e Castigo ao invés de Brida, ou ainda ler as colunas de um site instigante como o Pensador Selvagem, no lugar de blogs fundamentalistas e tendenciosos?

E ainda o que difere pessoas de uma geração que durante boa parte da vida foram expostas ao mesmo conteúdo duvidoso da TV aberta mundial e, ainda assim, apresentam comportamentos e caracteres diferentes, enquanto um se torna fruto passivo do dado absorvido, outro brinca de reorganização?

Qual o papel do marqueteiro, do jornalista, do fofoqueiro ou do artista e de todos os comunicadores, formais ou não, no espalhamento de conceitos que vão sendo levados pelo tempo como verdades sem concorrentes? E ainda, qual deveria ser esse papel?

Longe de tentar apresentar reflexões correntes como novidades e mais ainda de responder a essas questões, esta coluna se presta a reportar “fotografias”, reportagens desse transitar nos meandros da compreensão massiva, buscando dar foco a detalhes, aparentemente tolos, que podem se mostrar estruturalmente nocivos, como vírus, quando analisados ao microscópio de análises mais teimosas.

Meu nome é Braulio Garcia, sou músico e gestor cultural – ou como diriam os amigos de 1968, “transo uns lances culturais”, além,  já fui advogado, membro de conselho de administração de um grupo empresarial, vendedor de toldos e continuo a escrever estórias e músicas.

Moro na França, nascido no sertão da farinha podre no pico do triângulo mineiro e gosto de contradizer e de ser questionado em minhas opiniões, pois assim, acredito ser possível nascer novos entendimentos sobre as velhas coisas pouco exploradas.

No mais, quero agradecer frontalmente ao Rafael e as administradores d’O Pensador Selvagem pelo espaço da coluna que é para, mim uma honra.

Como esta se trata de uma coluna mensal e, a primeira é mais um ‘alô galera’ do que um texto que se apresente, assim, indico também a leitura dos blogs: // brauliogarcia.wordpress.com // e // amplitudeinterior.posterous.com //. Ficando claro que os textos para essa coluna serão feitos em estilo e forma completamente diferentes dos postados nesses blogs aqui linkados.


Até mais.

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