Como se envolver com a Causa Indígena em 10 lições (algumas não tão fáceis)

 

 

  1. Pode parecer absurdo ou banal ter que afirmar isso, mas: os índios EXISTEM, ainda hoje e a despeito de todas as homéricas tentativas de acabar com eles! Mais absurdo ainda é o fato de que uma enorme parcela da população do país acredita que não existem mais índios vivos e que eles “são coisa” do passado. Ou, se não creem realmente nisso, ao menos agem como se! E isto é bastante compreensível, porque de fato, após tantos esforços em exterminar todas as nações indígenas que aqui viviam, é realmente inacreditável que muitos deles, tanto em número de etnias quanto em população, tenham sobrevivido a tamanho massacre e perseguição. Quando se analisa a fundo a história dos povos indígenas da américa e, particularmente, do Brasil, compreende-se que a re-existência destes povos é praticamente um milagre e, no entanto, para o desgosto e a desgraça de alguns setores da nossa sociedade, eles estão aqui! e eles estão VIVOS! A segunda afirmação será bem menos óbvia, mas não menos esperançosa: existem diversos povos que, inexplicavelmente, conseguiram manter-se até o presente momento em situação de isolamento, ou seja, sem NENHUM contato com a sociedade ocidental! E por favor, não me venham falar que estes índios são os “puros”, que eles é que são os “verdadeiros” índios e não os outros. Isso não existe. Não existem sociedades conhecidas que não tenham contatos ou que não estabeleçam relações com outros povos! E isso é o que mantém as culturas vivas! São as trocas: simbólicas, físicas, culturais, tecnológicas, linguísticas, etc. A única diferença destes povos isolados até hoje com relação aos demais é que eles, digamos por “misericórdia” divina, conseguiram evitar o contato altamente invasivo e prejudicial com a sociedade “branca”. Mas como podemos saber que existem povos sem contato, se não os conhecemos e nem mesmo os contatamos? Os povos isolados são conhecidos em geral por outros povos que vivem em locais muito ocultos e de difícil acesso, porém que já estabeleceram relações com a nossa sociedade. Portanto, através de informações dos próprios indígenas, em muitos lugares extremamente inacessíveis (especialmente para um ser humano da nossa cultura), sabemos que existem outros povos, os quais sistemática e conscientemente se negaram e se NEGAM ainda, até hoje, a estabeler contatos com a nossa sociedade. E a atitude mais honesta e honrada a se ter, para quem realmente se importa com estas populações, é simplesmente respeitar a sua escolha histórica e a sua luta heroica e, portanto, não procurá-los.

  2. Entender que cada etnia indígena é um povo diferente, com língua, cultura e um modo de vida específico, distintos entre si e com uma forma de pensar e ver o mundo (cosmovisão) em geral muito diferente da nossa. Isso significa que não é fácil compreender como eles entendem o mundo (assim como pra eles é muito difícil compreender nossa forma de pensar, de agir e como organizamos nosso mundo) porque não podemos homogeneizá-los como “os índios” e mesmo em cada caso particular pode levar muitos anos até que um indivíduo “branco” chegue a uma compreensão e partilha razoável da cosmovisão de um outro povo, no caso, um povo indígena que viva no Brasil.

  3. A situação real da maioria dos povos indígenas do Brasil hoje é muito pior do que se pode imaginar ou do que pode nos contar um caso isolado de extrema gravidade. E é muito pior porque é muito mais complexa. Em primeiro lugar, deve-se entender que as “realidades indígenas” são muitas, muitas mesmo. E são muito diversas. Considere-se por exemplo o caso de povos amazônicos que vivem ainda (graças aos seus deuses, que têm sido mais fortes do que o nosso deus dinheiro, por enquanto) nos corações da maior Floresta Tropical do planeta. Gente, isso não é pouco coisa! E, de outro lado, povos que vivem em regiões como o nordeste brasileiro, ou o centro-oeste ou ainda, de modo mais contrastante, no sul-sudeste do Brasil, próximo aos maiores aglomerados urbanos, onde não existe mais absolutamente (em muitos casos) nenhum vestígio de “floresta”, seja qual for. Dá pra imaginar o quão díspares são estas realidades, além das diferenças óbvias e extremamente significativas entre a cultura e modo de ser de cada povo e suas histórias particulares de contato. Bem, mesmo os povos da Floresta, que vivem ainda em relativa paz, harmonia e abundância, em seu modo tradicional com poucas interferências da cultura ocidental, sofrem constantes e progressivas pressões do entorno por garimpeiros, posseiros, grileiros, madeireiros (enquanto indivíduos), bem como pela força de megaempreendimentos como as grandes mineradoras, a infindável exploração de madeira, os esquemas industriais de grilagem (arquitetados e orquestrados à distância – de São Paulo, por exemplo), a biopirataria das multinacionais (patenteando formulações milenares descobertas por indígenas, roubando e patenteando códigos genéticos e princípios ativos de inúmeras espécies), as obras de engenharia do próprio Governo Federal (como hidrelétricas e outras) com impactos profundos e inevitáveis a uma vasta área muito além de sua implementação local.. enfim, não existe um futuro seguro hoje para nenhum povo amazônico, aliás, para nenhum povo indígena. Enquanto por outro lado, os demais povos que já não possuem florestas ou acesso a recursos necessários a reprodução de seus modos de vida tradicionais, sofrem muito mais severa e diretamente com a falta de perspectivas, com a desestruturação social e cultural (pois sua cosmovisão pertence a um mundo que, aos seus “olhos”, não existe mais, ainda que busquem incansavelmente o retorno a seus territórios tradicionais, onde sonham reconstruir e continuam o modo de vida de seus antepassados, numa tão sonhada “terra sem males”), com o assédio violento da sociedade envolvente, seja pela televisão e grande mídia em geral, seja pelo álcool e outras drogas, pela prostituição e pornografia, pelo fetiche e sedução do dinheiro – que supostamente resolveria os seus problemas – enfim, por uma série extremamente complexa e intrincada de fatores, os quais não excluem os sistemas de enquadramento (ou “aparelhos ideológicos do Estado”) como escolas, igrejas e religiões ocidentais e a própria cadeia. Tudo isso está aí para “testar a fé” destes povos que, milagrosa ou desgraçadamente, têm demonstrado ser gigantescamente maior do que a nossa.

  4. A situação real dos povos indígenas no Brasil como um todo, hoje – de um modo geral -, é muito melhor do que já foi, inclusive em anos bem recentes. Talvez possamos dizer que, nos últimos 50 anos, apesar de muitas variações e extremas dificuldades enfrentadas por estes povos e seus aliados, o balanço é positivo. E, em vista do que poderia ter sido (o extermínio físico ou a “integração” completa “bem sucedida”), acho que podemos dizer que o balanço é até muito positivo. A começar pelo fato de que a população indígena no Brasil é, segundo dados recentes do IBGE, a população que mais cresce. O que já nos indica necessariamente que, em termos numéricos absolutos, as populações indígenas estão aumentando e se recuperando ao menos fisicamente e não estão mais diminuindo. É claro que isso por si só não significa um fortalecimento cultural, étnico ou identitário. Mas já é um bom começo, pois para o fortalecimento da cultura de um povo é fundamental, antes de tudo, que exista um povo a ser fortalecido. Bom, neste “longo” processo das últimas décadas têm atuado inúmeros fatores, positivos e adversos, como envolvimento de muitas ongs, de igrejas, de muitas pessoas diretamente (missionários, leigos, intelectuais, jornalistas, etc), do Estado brasileiro e de suas organizações (como a Funai, por exemplo), entre outros. O intenso contato e as inevitáveis interferências foram permeadas de muitos equívocos e resultaram diversas consequências bastante negativas a longo prazo, em particular as influências das ideologias e sistemas de valores e crenças impostas (mesmo que “com jeitinho”) por escolas, igrejas, pela mídia em geral e até mesmo pela própria presença excessiva do Estado, com sua hierarquia, documentos, cargos, salários e, por último, mas de forma alguma menos importante, com seus programas assistenciais como todas as modalidades de bolsa que se possa imaginar, além das cestas básicas, “formadoras de hábitos” alimentares, culturais, sociais e até econômicos (na medida em que, ‘quanto mais eu ganho do Estado – que me ensinou que ele tem a obrigação de me dar porque eu sou um “cidadão”, coisa que ele também me ensinou a ser – menos eu preciso me esforçar pra ter ou pra produzir’). Por outro lado, é fundamental compreender que, antes desse momento histórico, ou seja, durante a primeira metade do século XX, enquanto não havia tanta gente tentando ajudar (ou atrapalhar) os índios, a situação destes povos não era necessariamente melhor e não estava mais fácil. Além disso, o próprio Estado já interferia demais, mas sem nenhum outro organismo ou ponto de compensação que regulasse ou se contrapusésse a ação do Estado. Dessa forma, por exemplo, o SPI – Serviço de Proteção ao Índio (criado em 1910 pelo governo brasileiro), graças a pressões e denúncias internacionais de diversas entidades e membros importantes da sociedade civil, sobre abusos de poder, violência e até mesmo assassinatos praticados pelo órgão Federal (com óbvia anuência por parte do Estado brasileiro) contra povos indígenas no Brasil, foi possível a extinção desse órgão. Infelizmente, ele foi “reinaugurado” pouco depois como FUNAI – Fundação Nacional do Índio que, tirando a mudança de nome, pouco se alterou em sua estrutura, funcionários e portanto, funcionamento. Mas ainda assim, a luta foi válida e hoje, depois de mais uns 40 anos de pressões dos próprios indígenas e das organizações parceiras, a FUNAI está de fato muito mais próxima e relativamente aliada aos índios. Pelo menos muito mais do que nestes outros tempos. Mas vale lembrar que ela é, sempre foi e sempre será um órgão do GOVERNO, portanto, a favor dos interesses do Estado que, cada vez mais tem se oposto claramente ao dos cidadãos e especialmente o dos povos indígenas. Num quadro geral, então, apesar de todas as “más” ou complicadas influências a estas sociedades, elas têm cada vez mais se apropriado e se empoderado de tais interferências e das ferramentas que nós impusemos a eles, como a educação formal, a tecnologia (especialmente as multimídias) e também dos discursos políticos, utilizando tudo isso cada vez mais em sua própria defesa e na defesa de seus direitos, para o fortalecimento de suas culturas ancestrais, bem como de sua “autodeterminação”. Em outras palavras: os índios sabem se defender, sempre souberam e a maior prova disso é que estão vivos e presentes, mas agora com mais armas e aliados.

  5. Apesar da imensa maioria da população brasileira não saber, inclusive acadêmicos e outros estudiosos, existem importantes movimentos organizados da sociedade civil que lutam pela causa indígena há pelo menos 40 anos. As duas principais e mais antigas ongs indigenistas que atuam em nível nacional no Brasil até hoje são a OPAN – Operação Amazônia Nativa (desde 1967) e o CIMI – Conselho Indigenista Missionário (desde 1972). Ambas organizações são brasileiras e ao passo que a OPAN tem sua ação mais intensa e circunscrita especificamente a alguns estados da amazônia, principalmente o AM e o MT, onde tem forte presença aliada aos povos Myky, Enawenê-Nawê e Xavante (Marãiwatséde), entre outros, o CIMI tem uma organização nacional, subdividida e distribuída nas 5 regiões brasileiras e onde procura atuar em todos os estados da federação, buscando uma presença junto a todos os povos indígenas contatados do Brasil. Também existem, hoje em dia, muitas outras entidades indigenistas, muitas delas organizações autônomas dos próprios indígenas, outras ligadas a igrejas de diversas religiões, outras ligadas a universidades, centros de pesquisa e várias entidades particulares, todas estas supostamente atuando em favor da causa indígena. Mas como houve uma proliferação de entidades criadas principalmente a partir da década de 1980, com o aumento cada vez maior de financiadores e agências europeias para a questão indígena na américa do sul, atualmente existe um sem-número de entidades, organizações ou pessoas que, de alguma maneira e em geral de forma muito localizada, atuam no indigenismo brasileiro. Por isso mesmo, destacamos aqui apenas as principais e mais conhecidas entidades especificamente indigenistas que há muitas décadas atuam consistentemente no Brasil, sendo grandes corresponsáveis por muitos avanços históricos na questão, como o levantamento da situação dos povos indígenas em território brasileiro, o acompanhamento jurídico e apoio a cultura e ao fortalecimento étnico e da autodeterminação destes povos. Porém não há aqui a intenção de desmerecer ou diminuir a importância ou atuação de quaisquer outras organizações que, certamente, também em muito contribuíram e ainda contribuem nesse processo histórico. Durante a última década, entretanto, devido ao grande crescimento econômico brasileiro (obtido em grande medida graças à exportação de minérios, extraídos do seio da floresta amazônica, às custas de um impacto direto e indireto em inúmeras comunidades tradicionais, indígenas e ribeirinhos), nos colocando no “ranking” dos 5 países mais ricos do planeta, a maioria das agências financiadoras da causa indígena em nosso país tem constantemente diminuído os recursos aqui investidos, para migrar progressivamente seu apoio a países muito mais pobres (do ponto de vista macroeconômico) do continente africano. Com isso, o trabalho de entidades tão sólidas quanto o CIMI (que nunca aceitou recursos dos governos brasileiros para não comprometer sua liberdade de ação política) e a OPAN, por exemplo (entre outras), têm se tornado cada vez mais difícil e restrito. As agências financiadoras ao fazer tal escolha (que é até bem justa, visto a extrema urgência e necessidades dos nossos povos irmãos, também indígenas, da África) esqueceram-se de olhar os índices da desigualdade social no Brasil e concentração de renda, o que devolveria ao país sua condição mais legítima: a de grandes oligarquias centenárias que construíram o “crescimento e desenvolvimento nacional” sobre um sistema escravocrata, explorando e expropriando territórios indígenas ancestrais desde o seu “descobrimento”.

 

O que fazer para ajudar (ou como se envolver com a causa)?

 

  1. Em primeiro lugar, é necessário estudar e conhecer mais a fundo as realidades indígenas e sua história, ou a “questão indígena” ou ainda a “causa indígena” como um todo. Boas fontes de informação para isso, hoje não faltam, especialmente na internet (embora seja fundamental saber “separar o joio do trigo” nesta seara). Outra forma extremamente rica de tomar contato (literalmente) com a questão é participando de encontros ou eventos nos quais indígenas de diversas etnias têm participado constantemente e cada vez mais. Até porque é tão importante e interessante para eles, em geral, participar de eventos com a presença de “brancos” quanto é pra nós, o contrário (porque a curiosidade pela diferença existe em qualquer sociedade humana). Eventos que permitem experiências ou vivências desse tipo são por exemplo: os Fóruns Sociais Mundiais, o Encontro de Culturas Populares da Chapada dos Veadeiros – GO (durante o qual ocorre a Aldeia Multiétnica), os Encontros de Leitura e Escrita em Sociedades Indígenas, as “Rios+20s”, etc. Nestes espaços é possível, além de estabelecer um primeiro contato (porque cada indivíduo tem que passar pelo seu primeiro contato, isto não é socializável, já que cada sujeito é singular e tem sua própria história) com pessoas pertencentes a outras etnias brasileiras, pode-se conhecer um pouco mais da cultura de vários povos, seja conversando informalmente com as pessoas presentes, seja participando de atividades conjuntas, celebrações, trabalhos, etc, ou seja simplesmente estando lá, observando e interagindo normalmente. Mas é fundamental sempre ir além das impressões superficiais e das aparências (ou seja, as primeiras impressões, pois certamente a cultura com a qual se toma contato deve ser extremamente mais complexa do que aquilo que se “apresenta” aos olhos, especialmente quando há muitos turistas ou midiáticos ao redor, como costumam ser estes eventos; exceto os de caráter mais formativo, restritos a círculos menores ou ligados à área da educação.

  2. Pros mais corajosos, desapegados, desesperados ou apenas apaixonados, engajando-se na luta, realmente, fisicamente, localmente, diariamente. As opções para isso são muitas. Há muitas formas e lugares em que se pode começar a trabalhar diretamente com a causa indígena. Dentre os mais óbvios (e que são, digamos, os caminhos mais convencionais) encontram-se as próprias ONGs, as quais geralmente tem seus processos próprios de admissão dos novos indigenistas, a depender do tipo de organização, ao que está ligada, etc. Por exemplo, muitas ONGs lançam editais de contratação, onde os candidatos se inscrevem, passam por um processo seletivo e estabelecem um contrato formal de trabalho. Outras selecionam pessoas apenas por entrevistas ou então é necessário que o candidato já esteja vinculado anteriomente a alguma instituição ligada à ong em questão, como participar de determinada igreja, por exemplo, geralmente com o objetivo de tornar-se missionário. Outra escolha muito clara que se pode fazer neste sentido é se engajar em um serviço público, prestando um concurso para ser admitido como um funcionário público convencional, como ocorre na FUNAI, por exemplo. Claro que haverá diferenças de foco, tipo de trabalho, relações políticas, etc. Mas muitas pessoas verdadeiramente interessadas e comprometidas com a causa, escolhem este caminho e, recentemente, no último concurso à Funai, houve uma grande renovação de funcionários da base, sendo em sua maioria, pessoas bem jovens que decidiram adentrar por este caminho. Isso, aliado a outras tantas questões contextuais e conjunturais têm servido para melhorar a própria imagem da Funai, bem como o trabalho que esta vêm efetivamente desenvolvendo, através de seus novos funcionários. É possível ainda se envolver em projetos locais através de outros meios (como Prefeituras, Associações de Moradores, Empresas) e, dependendo da situação até mesmo individualmente, convidado por exemplo pela própria comunidade.

  3. Bem, dito isso, a coisa mais importante e absolutamente necessária (do meu ponto de vista pessoal) para uma atuação indigenista sincera e realmente engajada, é a honestidade, o respeito verdadeiro (e não moral) e uma capacidade de se comprometer com as pessoas, com suas lutas e com a sua causa. Há quem diga que os índios são “para-ráio de maluco”, justamente por haver, muitas vezes, pessoas demais interessadas neles e pessoas de menos comprometidas com eles. É claro que é muito bom que muita gente se interesse pelos indígenas e queira conhecê-los e saber como são e principalmente que a sociedade reconheça sua existência e sua importância. Mas, se vocẽ quer realmente ajudar, se seu interesse em ajudar os povos indígenas for sincero, se seus sentimentos forem legítimos, você não será (ou ao menos terá o máximo cuidado em não ser) leviano com estas pessoas, com os sonhos e sentimentos delas. Porque a diferença de trabalhar com um povo indígena, em relação ao trabalho com outras populações é que trata-se ainda verdadeiramente de uma etnia e não apenas de uma comunidade de pessoas. Evidente que não se deve ser leviano com ninguém, com nenhuma comunidade, se algum tipo de compromisso é assumido. Mas, em especial, para ser possível ajudar verdadeiramente, de modo consistente um povo indígena, é uma condição quase obrigatória um envolvimento de longo prazo e de frequencia cotidiana. Por isso quem se engaja na causa, quem pretende tornar-se um indigenista normalmente acaba vivendo uma espécie de “exílio” da vida social comum da nossa sociedade. Isso não é uma regra e nem uma obrigação, mas é praticamente uma necessidade que qualquer pessoa honestamente engajada (penso eu) sente e compreende espontaneamente, por si mesma. Quando isso acontece, a pessoa se vê obrigada a tomar uma decisão: voltar “pra casa” (não importa o que ela chame de casa) ou seguir em frente, embrenhando-se cada vez mais na causa (o que às vezes significa adentrar a densa e selvagem floresta, outras vezes significa enfrentar os Gigantes Moinhos… de cana e não de vento). Mas seja como for, o fato é que a decisão de fazer da causa dos povos indígenas a sua causa, deve ser uma decisão muito pessoal, muito cuidadosa e muito verdadeira. É importante que as pessoas não tenham ilusões, ou melhor, que não tenham visões excessivamente fantasiosas da realidade indígena, porque uma coisa é certa: o que há neste universo de maravilhoso e instigante, há também em complexidade e dificuldade. Por isso, tal decisão não deve ser tomada ser um compromisso mínimo consigo mesmo. A pessoa deve decidir ao menos se ela está disposta a passar por estas experiências, ou seja, se ela se dispõe ao menos a experimentar humilde e abertamente esse grau tão grande de diferenças entre o seu universo e aquele em que está prestes a adentrar… e o sucesso e resultado deste “atravessar” dependerá quase exclusivamente do modo como se lida com as diferenças. Isso fará com que muitas pessoas cheguem a ter experiências de enorme realização, felicidade, descobertas, transformações e aprendizados, enquanto outras podem ter experiências bastante dolorosas, tristes, duras, porém, ainda assim podem ser enriquecedoras, transformadoras e extremamente férteis de ensinamentos. Trabalhar junto aos povos indígenas nas condições dadas atualmente, com perspectivas tão difíceis, certamente não é um mar de rosas, mas pode ser uma oportunidade fantástica.. contanto que estejamos abertos e sinceramente entregues a ela.

  4. Tá, legal, mas e se eu por qualquer razão do universo (de falta de vontade à total impossibilidade) não pretendo me tornar um “indigenista” e não quero atuar diretamente na causa, mas eu gostaria muito de ajudar, eu não posso fazer nada? Ahá!.. fique tranquilo, porque eu deixei a parte mais difícil pro final (e acreditem a parte mais difícil não é se embrenhar no mato ou nas monoculturas sem fim pra defender os índios, por mais que isso já seja muito difícil mesmo!). A coisa mais RADICAL, mais violenta (ou mais pacífica, depende do ponto de vista), mas cruxial e mais difícil de se realizar, porém também a mais vital, simples e acessível que qualquer pessoa, militante ou outro simplesmente interessado na causa ou que não concorde com o sistema atual de organização sociopoliticoeconômica da nossa sociedade pode fazer é: boicotar estratégica e SISTEMATICAMENTE o sistema de produção capitalista dos “bens” de consumo. Como fazer isso? Bem, aí começam as dificuldades. Digo com todas as letras: é algo verdadeiramente simples, porém muito difícil mesmo de ser executado, especialmente se for feito sozinho ou de modo isolado e aleatoriamente. Por isso, o segredo da força deste movimento é a união, organização e sistematização de pessoas, estratégias e ações, bem como uma ação constante, progressiva e coditiana. Repito, isso é simples, ou seja, não é um esquema que tenha que ser combinado com todo mundo ou que dependa que vocẽ nunca falhe.. não, apenas será muito mais fácil quanto mais pessoas estiverem praticando isso o máximo possível. Ou, dito de outra maneira, o quanto antes iniciarmos verdadeiramente este MOVIMENTO, de modo contínuo e permanente e quanto mais pessoas aderirem a ele espontaneamente, mais rápido chegaremos a uma espécie de humilde e silenciosa REVOLUÇÃO.. mas que certamente terá efeitos e que não deixaram de ser notados nem pelos praticantes de tal movimento e nem mesmo pelos que se sentem “donos dos meios de produção”. Agora, de forma extremamente pragmática. Boicote contra o que? Simples: pare de consumir (ou ao menos tente verdadeiramente, sinceramente, entusiasmadamente) qualquer produto que vocẽ saiba que tem uma origem latifundiária, ou seja, que para ser produzido necessitou e necessita ainda hoje, explorar, expropriar, roubar, assassinar, escravizar e dizimar quaisquer populações indígenas que se interponham no caminho do “progresso”. Pare de consumir açúcar e álcool, das inesgotáveis monoculturas de cana responsáveis pelos maiores índices de abuso do trabalhador, de violação de direitos humanos, de trabalho forçado infantil e condições de trabalho escravo (ou semi) de indígenas em MS, produção essa – diga-se de passagem – ilegal, por, em grande parte ocupar terras declaradamente indígenas e, de resto, apenas as terras que já há muito foram violentamente roubadas dos povos Guarani e Kaiowá do MS; pare de consumir carne de gado, os quais igualmente, para serem produzidos, implicam no roubo e grilagem de enormes quantidades de terra, assim como na derrubada e queimada de quantidades imensuráveis de Florestas e outras vegetações nativas, a exemplo do que tem ocorrido há cerca de 4 ou 5 décadas e nos últimos anos de forma ainda mais assustadora e criminosa tanto nas regiões de cerrado quanto em enormes áreas da amazônia; pare de consumir soja e seus derivados (que, além de tudo, hoje é quase 100% transgênica no Brasil); pare de consumir milho e todos os seus derivados, como canjicas, milhos em conserva, farinha de milho, fubá (que, do mesmo modo que a soja, a maior parte de sua produção no país hoje, ao menos da produção disponível nos mercados, é transgênica); poderíamos ainda dizer: pare de consumir papel ou pelo menos de desperdiçá-lo pois a maior indústria de celulose do planeta está sendo implantada neste momento, também no Estado do Mato Grosso do Sul, obviamente em cima de territórios tradicionais indígenas desta região; e pode-se acrescentar quantas coisas sejam necessárias até que uma mudança verdadeira de paradigmas ocorra em nosso mundo, em nossa sociedade. Mas eu garanto a vocẽs que não precisam seguir a lista toda. Apesar de que para todos os seres humanos, deixar de consumir tais produtos, nas atuais condições (como são produzidos, como os consumimos), certamente faria muito bem à saúde de todos. Mas de todos os produtos da lista acima, consumidos hoje em dia, o mais simbólico e o que mais causaria impactos diretos tanto na saúde da população (que melhoraria muito!) quanto na economia brasileira e até mesmo mundial, seria o boicote à cana-de-açúcar. Simplesmente parem de consumir açúcar, em todas as suas formas, em qualquer contexto ou circunstância.. ao menos experimentem de modo intenso e por inteiro não ingerirem QUALQUER forma de açúcar por um mês, apenas 1 mês!!! E verão o que o açúcar representa em nossas vidas e o que as monoculturas de cana significam para o país e para o planeta, especialmente em termos de economia e de força política e cultural de dominação. E então ficará absolutamente claro porque os povos Guarani e Kaiowá devem morrer! Porque devem ser assassinados ou levados ao suicídio e porque ninguém fala sobre isso há pelo menos 30 anos e porque o Governo Federal, o Estado Brasileiro, permite que este genocídio prossiga, porque Yjucá Pirama (“o índio, aquele que deve morrer”) ainda vive, ainda insiste em viver e em lutar por seu simples direito de existência. Consumir açúcar e carne (de gado) no Brasil (e no mundo, por consequência!) é um ato absolutamente criminoso! A cada vez que o fazemos – e é importante que tenhamos consciẽncia disso! – estamos cometendo um crime, tão violento quanto silencioso e ignorado por todos, especialmente e inclusive por nós mesmos. Então, aí está o desafio: se queremos de fato ajudar os povos indígenas a sobreviver e até a sonhar com a sua terra sagrada, com o dia em que poderão voltar para o lugar onde seus antepassados viveram e morreram e onde poderão, finalmente exercer a sua plena existência, enquanto nações livres e distintas da nossa, a primeira coisa a fazer (a mais importante e a mais difícil), é mudarmos a nós mesmos. Teremos que mudar de paradigmas – as referências que nos foram “vendidas” ou impostas (tanto quanto aos povos indígenas) também não servem a nós, homens brancos; ao menos não mais… nem tenho mais certeza se ainda somos esses homens brancos ou se mesmo estes, já não somos nós.. talvez estejamos também, assim como nossos irmãos indígenas, procurando o nosso próprio caminho, procurando encontrar a nossa Terra Sagrada (aonde estão enterrados nossos mortos?!), talvez ainda e cada vez mais estejamos a procura de nós mesmos para, quem sabe, encontrarmo-nos lá, aonde ainda existe – naqueles que não conseguimos apagar nem esquecer, nossos irmãos indígenas – a vida que nunca vivemos, mas a qual também tanto temos procurado.. uma vida numa Terra sem Males.

  5. O mais difícil de todo o trabalho é a mudança interna. O mais difícil é sem dúvida, sermos a mudança que queremos ver no mundo. Mas é inaceitável que isso seja motivo pra não fazermos nada. Ninguém tem a obrigação (e nem a capacidade) de fazer tudo, ou de acertar sempre. Mas não faz sentido não começar a fazer algo, só porque talvez não consigamos terminá-lo ou não façamos tudo da melhor forma possível. Se for assim, provavelmente acabaremos não fazendo nada, nunca. Portanto, é mais importante começar, tentar, se envolver de alguma maneira. Não existem “metas” corretas a se atingir, apenas o que devemos procurar é o melhor direcionamento da nossa energia. Portanto, se você não se sente a vontade ou não leva jeito pra vida “nômade” ou “desapegada”, tudo bem, isso não é um problema. Mas o que você se propuser a fazer, de livre e espontânea vontade, faça bem feito. Faça pequeno, mas faça completo! Isso é muito mais importante ou pelo menos mais sensato e eficaz do que tentar fazer “tudo” e não concluir nada. Pois a mudança deve ser permanente, constante, suave e cotidiana. Vivemos um momento e um mundo onde será fatalmente necessário “reinventar a vida”, e já estamos vivendo isso. Muitas pessoas, em muitos lugares pequenos, fazendo coisas pequenas, já estamos todos criando outra sociedade, outro mundo, outras relações e formas de vida. O que é necessário agora é nos entendermos cada vez mais como espécie e não como um “bando” de indivíduos. Assim, a nossa missão nesse momento é aprender a direcionar a nossa energia pra que tudo flua da forma mais plena possível, com cada pessoa agindo em sua melhor e máxima potência, num enorme coletivo complexo autogestionado. Então, faça suas escolhas, aprenda e desenvolva melhor as suas potências e aplique a sua energia com muita intensidade e tranquilidade naquilo que decidir fazer neste momento. Mas não deixe de fazer.. assim como, assuma a responsabilidade pela consequência das suas escolhas.

 

Uma última palavra: não citei absolutamente nenhum dado numérico e nem preocupei-me em ser exato principalmente por duas razões. A primeira é que o foco de minha contribuição não era a denúncia e nem mesmo um texto de convencimento para qualquer pessoa desinteressada. Ao contrário meu objetivo aqui é abrir um canal de apoio, diálogo e incentivo a todas as pessoas sinceramente interessadas nesta causa e, de um modo especial, àquelas que por ventura ainda não tenham tido oportunidade de conhecer mais a fundo o problema e que buscam obter informações mais seguras sobre o tema. A segunda razão é porque expor dados aqui seria por demais parcial e para quem quiser informar-se mais a esse respeito, o CIMI tem publicado nos últimos anos, Relatórios de Violência contra as Populações Indígenas do Brasil, de altíssima qualidade e grande densidade estatística, teórica e política. Em particular recomendo as duas últimas publicações nacionais (referentes aos anos de 2010 e 2011) e a última publicação específica sobre a Violência no Estado de Mato Grosso do Sul (2011).

Além disso, sugiro a todos que queiram efetivamente saber mais sobre a causa, além de ajudar de modo concreto, que assinem a publicação mensal do CIMI, o Jornal Porantim: http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=paginas&action=read&id=5723. Além de ter uma ótima qualidade na cobertura de assuntos relacionados à causa indígena e a todos os povos indígenas do Brasil, a assinatura anual não é cara e acredito sinceramente que além de ajudar na divulgação da situação indígena no país, é uma forma simples e solidária de apoiar os povos indígenas de um modo geral. Gostaria de deixar claro, por fim, que dei um destaque a esta entidade ao longo do texto basicamente porque tenho atuado junto a ela e por isso conheço mais de perto sua história e funcionamento interno, podendo falar com mais propriedade sobre ela do que sobre as demais, que não conheço tão bem. No entanto, como eu disse no próprio texto, certamente há muitas outras entidades, mesmo que locais, que têm ajudado muito e sem dúvida nenhuma contribuído para a história positiva do fortalecimento da luta e vida dos povos indígenas e, por isso, recomendo que busquem conhecer a todas que puderem.

 

Abaixo seguem alguns links que podem ser úteis nesses caminhos:

 

CIMI – Conselho Indigenista Missionário (www.cimi.org.br)

OPAN – Operação Amazônia Nativa (www.amazonianativa.org.br)

ISA – Instituto Socioambiental (www.socioambiental.org)

CTI – Centro de Trabalho Indigenista (www.trabalhoindigenista.org.br)

Survival International (www.survivalinternational.org)

Portal Kaingang (www.portalkaingang.org)

Casa da Cultura do Urubuí (urubui.blogspot.com.br)

 

* Gilberto Machel (o Gil) é permacultor, linguista e indigenista. Atualmente trabalha e vive com os Guarani Kaiowá de MS, onde desenvolve um trabalho (com sua companheira) em agroecologia e permacultura junto a este povo indígena, através do CIMI-MS. Como autor desta humilde e absolutamente pessoal contribuição, responsabilizo-me inteiramente por toda e qualquer ideia expressa neste texto, assim como por todos os eventuais equivocos de qualquer espécie e estou a disposição para conversar mais sobre o assunto: machel.g@gmail.com

 

O labirinto e a jornada humana

 

Amadurecimento. A vida cobra rituais repetitivos dos jovens, adultos, crianças e idosos de forma a tentar simular a garantia de uma espécie de amadurecimento humano. Não sei bem se falamos de rituais de passagem como descreveu Turner, ou de rituais de transe e comunicação como no filme de Jean Rouch. Porém uma coisa é quase um consenso, a superação pelos rituais cotidianos está aí, pronta para nos confrontar e pedir constantes ‘amadurecimentos’.

Há os que digam que vivemos uma jornada da alma, do corpo, da mente e de qual for a parte do ser humano responsável por traçar caminhos, ou seguir caminhos prévios. Mas será que somos tão doutrinários e fragmentados assim? Seria mesmo a autoajuda – tão popular hoje – a resposta para as angústias contemporâneas nas escolhas do dia a dia?

Vejo as coisas de uma forma diferente. Seria como um labirinto repleto de elementos internos e externos ao indíviduo, não apenas ele sozinho, como no assunto favorito dos autores e políticos, cheios de eu, e pronomes na primeira pessoa do singular. A vida como um elemento singular e coletivo, como um elemento a mais nesse labirinto cheio de vida, morte e coma. O humano sem seu aspecto individual, uma forma de fusão da primeira e terceira pessoa do plural, sempre.

Não é uma prisão dicotômica, vida e morte, bem e mal, vilão e mocinho. A sociedade vem viciando o coletivo cada dia mais a ver tal labirinto como uma guerra, uma disputa entre dois polos, e se esqueceu do que os une e o que os separa, a complementaridade. Dessa forma, o humano caminhante na sua forma de ser mais um dos elementos desse universo conjugado, entre ele, os outros e o que mais couber e existir na estrada.

Exemplificando pelos enfrentamentos ritualísticos da vida ocidental: se superar, romper barreiras, eliminar concorrências, ter sucesso. Todos termos usados abundantemente numa espécie de ‘seleção natural forçada’ pela autoajuda e pelas pressões de um sistema que não sabe, pelo menos até agora, compreender a simplicidade do espontâneo comprometimento, da chamada utopia da coletividade.

Não reduzo o termo coletividade ao empregado por muitos grupos cheios de regras e relacionamentos de conflito egoico, este um grande coitado inflado pela sociedade contemporânea ocidental. Somos frutos de um frenesi cientifico ou religioso que acaba deixando o que tanto se esforça para compreender – o coletivo, o conjunto, o todo – para se prender nas partes e setorizar o caminho deste labirinto tão vasto por onde vamos.

Nem transe nem passagem, o ritual do humano cultuado hoje é narcísico, e nada disso envolve o outro e o respeito ao alheio. Como diriam os avós, ou bisavós, respeite se quiser ser respeitado, ou seja, enxergue o outro como semelhante e diferente se quiser ser visto também. Neste belo labirinto, por onde a humanidade vaga cheia de sí, os elementos e valores humanos se perderam por aí, e seguimos em um caminho quase apocalíptico de um ponto sem saída. Cabe a nós a nova perspectiva de educação, consciência que se expanda do fragmento e entenda de verdade o todo, sem mocinhos, bandidos ou soluções milagrosas.

Resta ao humano de hoje colocar o pé no chão, sentir o solo, o ar, a umidade e tudo mais que o cerca – inclusive outros seres – para ver que competir dizima, devasta e machuca sí mesmo. É hora de deixar o ego calar e ouvir a tão amedrontadora sensibilidade dos loucos, afinal são eles que urram profecias assustadoras e alternativas utópicas.

Um pouco dessa loucura e utopia não faz mal a ninguém, isso lembra da história da árvore que só cai se alguém ouvir. Pois é, continuando assim morreremos sem ninguém saber, ou melhor, não morreremos, vagaremos no beco sem saída e sem fim. Será que vale a pena? Nós, os pares achamos/acham que não.

 

Maria por trás dos rótulos

Vivemos em uma sociedade machista, isso é fato. Somos teoricamente organizados no núcleo familiar padrão com um pai chefe de família, uma mãe resignada e filhos comportados, todos cumpridores da moral e dos bons costumes. Moças que aprendem a cozer, moços que mexem em seus carros, suas motocicletas e trabalham cedo.  Não, não vivemos em um filme americano que retrate os anos 60, felizmente. E nem tudo que critica ou rotula é machismo, o feminismo se aproveita dessa técnica também.

As coisas caminham por uma estrada tortuosa, dentro de um quadro – muitas vezes belo no relance – onde o que não é branco é definitivamente preto. Esquecemos os inúmeros tons que os olhos humanos enxergam quiçá os que nossos humildes olhos não conseguem ver. Ou se é machista, ou feminista. Ponto. Na minha humilde interpretação, de uma mulher, que não se encaixa nesse feminismo ou nesse machismo, os tons de cinza e demais cores parecem muito mais interessantes.

Para definir, elogiar e comentar sobre uma mulher alguns adjetivos são inaceitáveis – para o feminismo de plantão – partes do corpo, aparência física, comportamentos aparentemente resilientes e habilidades como cozer, cozinhar ou bordar são contraindicados. A mulher deixou de ser tudo que foi para ser forte e independente.

Pedir colo, gostar de um carinho, sofrer por desilusão, ser emotiva, sensível, sensitiva, delicada ou atrapalhada e buscar um grande amor não nos cabe mais. Aos homens não cabem os mesmo sentimentos, como nunca couberam. Não há espaço para ser “piriguete”, “monogâmica”, santa nem puta. Não queremos ser admiradas por sermos mulheres, nem que isso seja positivamente, ou de forma inocente, somos fortes e independentes, assim agora são as mulheres.

Não há porque ter espelhos, vaidades ou medos, fortes e independentes como os homens dos anos 60 nos filmes americanos. A poesia morreu com elas, a dureza da vida feminina ficou mais forte que nossa doçura em potencial, que um riso de Dinorah para Ivan Lins, os olhares das mulheres para Vinícius de Moraes, ou a dor de amor para Chico Buarque.

Todos estes são homens ávidos por compreender o que é ter sobressaltado uma alma feminina, cada um ao seu modo; mas isso não cabe mais, infelizmente. Machistas de plantão não se abalam; nada sustenta mais sarcasmos que um discurso avesso a eles, é provocativo, é disso que eles gostam.

Mas enquanto isso, do outro lado da trincheira homens com femininos gritantes sofrem como as mulheres que trancam em si o feminino execrado pelo amor poligâmico – que nem sempre se acompanha de amor – pela força de não se envolver sentimentalmente, pelo medo atual de chorar, e o pavor de parecer algo diferente do forte e independente.

Sou mulher, sou forte e independente. O gosto não é bom, cada vez que Maria se vê sem os rótulos, está sozinha, é a mesma garota perdida que criou força para não lidar com sentimentos. Invejo os homens sensíveis e não sou vadia, como nossas feministas. Sou livre para amar um homem só, sou livre para me desamarrar dos rótulos que me grudam e aprender a ser mulher a cada dia. Afinal a gente nasce assim, e vem a pintura monocromática nos castrar.

Mulheres dos anos 60, 70, 80, 90, 2000 em diante amam seus clitóris e seus amores, com toda a sensibilidade e companheirismo que podem nos oferecer. Pois sofrer por ser mulher dói menos que continuar tentando ser um homem a moda antiga. As feministas que se vejam, os anos passam, a vida passa, mas a ternura não faz parte da mulher forte e independente, felizmente.

Um sociedade sabor de fios e côrte.


Nada se parece, aos meus olhos, mais com a melancolia bucólica dessa nossa parva estratificação social que a vida encontrada na rotina inquestionada e quase contínua das classes abastardas. Mais que uma novela capaz de mostrar o sórdido aos olhos famintos do povo, pela desgraça e finais felizes, não está presa a telinha da TV ou aos antigos folhetins a miséria vivida por essa gente, a miséria de vida repleta de riquezas materiais.

 

Crianças perdidas em diálogos monossilábicos, olhos vidrados em telas, mentes desprezadas e abandonadas do aconchego do que antes essa mesma sociedade chamava de lar; afinal não havia lugar como o lar. Tecnologias que açoitam o dia-a-dia dessa gente invertendo valores, apagando almas, roubando vidas. Não posso, e nem devo, dizer que a tecnologia é a culpada, somos reféns dessa fome insaciável pelo novo, pela ausência de distancias e nos perdemos nos corredores das grandes casas, jardins impecáveis e apartamentos luxuosos.

 

A tela substituiu a conversa, o telefone o colo, e os amigos distantes o afago carinhoso de um boa noite, um abraço sincero e um debate acalorado. Não há mais porque se revoltar, são crianças que não compartilham em casa ou confrontam gerações; são filhos da tecnologia viciante do frenético prazer de consumir e substituir os olhares por…pelo que mesmo?

 

Infâncias sem jogos lúdicos, onde confrontos são problemas de convivência, diferenciais patologias e vidas  controladas por e-mail, SMS e cartões de acesso. Amedronta os amantes da velha coversa ao amanhecer, da troca de conhecimentos e confronto de idéias. Não falaremos mais, será evolução perdemos as cordas vocais?

 

Um tanto apocalíptico, eu sei, mas tenho medo. A sociedade não se divide mais simplesmente pela distribuição de renda, trabalho e geografia; nos dividimos por interesses preservando as crianças e adultos do caloroso debate, risos e dúvidas que tanto alimentaram nossas almas e olhares curiosos ao longo do tempo.

 

Se quebrou, hoje substituímos a ferramenta de socializar por outra mais moderna. As mudanças internas não se encaixam mais dentro da rotina da família abastarda; são todos relacionados por ferramentas maquinarias, como se a máquina desejante de Deleuze e Guatarri não coubesse mais em nossos corpos.

 

Seriamos então ciborgues forçados pela necessidade da máquina desejante? Ou apenas desaprendemos a lidar com a que possuímos “de série”? O esquizoide é o novo padrão de relacionamento social, e o tão amado Édipo de Freud deixou sua trindade cegou-se e tornou-se um oráculo. Resta, pra mim, a esperança de que sua filha deixe sua tecnologia de lado e não terceirize os cuidados de seu pai. Alimente-o, afinal oráculos também precisam comer.

 

Um espaço de tempos e contratempos

A elaboração de conceitos definidores da natureza é um exercício antigo para a humanidade, desde os mitos mais remotos revividos cada vez que são contados, ou até a ciência moderna ocidental capaz de definir a natureza em discursos filosóficos, fórmulas matemáticas e partículas orbitantes em formatos entrópicos. Neste aspecto vê-se, ainda, a invenção constante dos elementos formadores dessa natureza, ou melhor, a reinvenção em novas formas, propriedades e argumentos simbólicos e/ou lógicos.


Quando o assunto é a construção de realidades, dois aspectos são importantes, o tempo e o espaço. Inúmeros estudos se apresentam como forma concisa de explicação dos limites, contagens e justificativas do traçado temporal e do perímetro espacial. Se a natureza observada for considerada concreta, como aquela definida nas ciências exatas ou nas lógicas aristotélicas das humanidades, a possibilidade de mensurar, descrever em detalhes e definir utilizando sistemas e modelos de complexidade científica, existe; porém nem todas as explicações se apresentam de forma metódica aos olhos ocidentais, como os mitos regionais.


No mundo concreto a possibilidade de descrição do tempo e do espaço se aproxima do fantástico, seja na tentativa de explicar o surgimento do mundo – ponto no qual o espaço e o tempo se apresentam secundariamente – ou na explicação destes conceitos em separados. Muitas culturas só conhecem o tempo e o espaço por mitos, outras nem os descrevem, apenas convivem com sua existência, dispensando a necessidade de explicar ou justificar suas presenças.


A precisão da relação com ambas, as ferramentas definidoras de uma natureza, nem sempre se apresenta crucial para a consciência de suas existências, ou seja, há povos cujo o tempo e o espaço são mais amplos que o concreto, e a partir dessa irrelevância comunitária a solidez da natureza se esvai como a de sua mensuração. Exemplos destes povos, são aqueles nos quais o totemismo é empregado, ou os nômades que caminham com o dilatar e contrair da natureza ao seu redor, a mudança das chuvas, o movimentos das manadas entre outros fenômenos.


Como nas realidades místicas, espirituais ou não, o tempo fora do concreto é diferenciado, independente da correria cotidiana ou da fluidez da vida bucólica. Essa particularidade se apresenta também em realidades criadas pelo próprio homem, como a cibernética. Na natureza acessada por humanos adaptados com fios, luzes e silício, tanto o espaço quanto o tempo se distorceram como numa fenda: o homem criou o lugar infinito de tempo instantâneo e eterno. Mas como o tempo poderia ser paradoxal ao ponto de ser instantâneo e eterno, ou o espaço não possuir limites?


Para criar a realidade digital, – a cibernética – a humanidade empregou os minerais, idéias, filosofias, plásticos e eletricidades; ferramentas obtidas pela dominação da natureza concreta – intra e extracorpórea – usufruída por anos quase que com exclusivamente. Entretanto a dominação de um espaço definível e palpável possibilitou ao ser humano criar sua própria realidade; não apenas modificar aquela já conhecida. Diante da elaboração do ‘novo mundo’ habitável, novos paradigmas se estruturam, não apenas para dar conta do espaço – ainda indefinido – mas para decidir formas e uso, governo e conexão neste novo universo.


Conexões podem ser definidas, nas ciências sociais, como as relações do indivíduo com o exterior ou com os valores, morais e culturas que interiorizou. Assim, toda vez que o sujeito se depara com opiniões, desejos, interpretações ou outros elementos que geralmente caracterizam a socialização primária e secundária, bem como o concreto, ele se vê diante do que o torna parte integrante da realidade, ou seja, a conexão que permite a afirmação da existência do mundo no qual o ser humano se insere, seja ele qual for, tal qual dele mesmo enquanto ser humano. Isso se apresenta como parte fundamental para a conformação de uma natureza para o homem; e no digital não é diferente.


Quando alguém se conecta ao universo digital apresentado na internet recebe os estímulos necessários para se sentir parte deste universo paralelo, os sentidos são alertados e o homem por trás da máquina deixou de ser um humano, agora é um ciborgue vivente no mundo cibernético. Consequentemente, além da mudança da ‘natureza’ existencial este alguém é alvo das novas possiblidades compreendidas neste mundo, a identificação, o espaço, o tempo, e a organização social em todos os níveis.


Sabe-se que as mídias sociais são populares e sempre procuram reproduzir as lógicas e valores da realidade externa, no entanto este espaço delimitado é apenas uma ínfima parte do ciberespaço. Quando se trata de internet a definição de espaço esbarra na limitação, ou melhor, ilimitação tecnológica empregada. O avanço das tecnologias de armazenamento, de processamento e velocidades de transmissão de dados se amplia dia-a-dia, assim como as possibilidades de se conectar a ela. Isso tudo permite que a delimitação do espaço, nessa realidade, não exista, ou seja, ele é infinito. Para compreender a ausência de fim é preciso relembrar a constante estruturação que a cibernética sofre: aumentos de capacidade de armazenamento de sítios determinados – como e-mails, discos virtuais e blogs – representando uma espécie de dobra do espaço sem que haja, necessariamente, perda dos dados ou informações compartilhados ou arquivados.


Por outro lado, o acesso ao digital, além de possibilitar o contato com um espaço infinito, proporciona uma dúbia relação com o tempo: a vida instantânea e a eternidade. A ausência da linearidade, ciclização ou até mesmo mensuração do tempo no universo ciber, é apresentada em várias análises, sempre valorizando o instantâneo da informação muitas vezes sem considerar o imediato por completo.


O tempo cibernético discutido como elemento singularmente instantâneo é exemplificado pela superação de distâncias geográficas presentes no mundo concreto, porém não se limita a isso. Ao acessar um sítio na internet, o que se obtém são informações ou elementos disponíveis até aquele momento. O navegar leva o habitante até o caminho que deseja, sem considerar a temporalidade até aquele momento, é o viver o instante, como se o mundo acessado se criasse cada vez que é aberto aos olhos de um ciborgue, tal qual o mito escutado.


Apesar disso, a temporalidade se apresenta em sítios específicos, como nos portais de notícia ou de periódicos, sempre apresentando o mesmo impacto sobre o visitante: a sensação de novidade persiste. No entanto, nestes sites, como em portais exclusivos, tal como e-mails, o comportamento do ciborgue ‘ansioso’ se mostra: a tentativa constante de lidar com o novo ao atualizar o sítio funciona como uma busca desesperada pelo instante vivido ao conectar-se, apresentando um aspecto de passado e presente, tão amorfos quanto o próprio ciberespaço.


Viver o instante virtual é próximo do que é viver o imediato concreto. A definição de instantâneo não se altera, mas a relação do alguém com o tempo sim. A diversidade de emoções, sensações e expectativas do momento vivido na natureza concreta geralmente se limita a experiência que passa ao término do momento, restando apenas a memória para o sujeito. Assim, pode-se definir uma história, cronologia ou um processo de vivência a partir do conjunto de momentos, tendo ou não a contagem do tempo, aos moldes ocidentais, como referência. A vida no virtual é capaz de extrapolar isso, impedindo muitas vezes a contagem, mensuração ou determinação da cronologia, por várias razões.


O descolamento do concreto ao conectar-se pode justificar a impossibilidade de mensurar o tempo no mundo cibernético, mas não é o principal motivo. Geralmente o comportamento do ciborgue vai além da vida instantânea em um sítio, há a associação da simultaneidade nesta realidade, isto é, o sujeito é capaz de acessar vários sítios em um só momento sem perder o referencial de quem ele é ou da realidade na qual se insere. Caracterizando um comportamento que se aparenta ansioso, diante, principalmente, do referencial concreto.


A ansiedade do habitante é justificável: a sensação diante do novo muitas vezes é o que o atrai para aquele sítio, portanto vivê-lo é essencial. Dessa forma, o pós-humano se liberta das amarras do tempo contado no ocidente para a liberdade do viver de instantes constantes; ou seja, o visitante busca a atemporalidade imensurável, imediata, e se depara com a eternidade de viver o agora, constantemente.


O paradoxo do eterno início, ou melhor, eterno novo; atua de forma complementar ao imediatismo aparentemente preponderante no universo cibernético. Quando o caminho é conhecido, a navegação é desnecessária, e dessa forma, o eterno se apresenta enquanto o acesso externo a um passado vivido, antes apenas rememorado. A eternidade é vigente e caminha como aliada do agora, pois como num processo de cultura oral de mitos, a temporalidade cibernética se constitui para além do trivial: vive a antítese de ser pra sempre agora, sem perder seus elementos característicos ou até se sustentar de lembranças.


A cibernética, formada basicamente dos registros – outrora fundamentais para construção da cronologia – se transpõe ao tempo criador, deixa o próprio homem, agora um ciborgue, onipresente, ou seja, habitante de todo o espaço e tempo. O que antes era exclusivo das divindades criadas à semelhança do ser humano, hoje se apresenta como uma busca constante do pós-humano, seja no conectar, ou na cibervida presente no cotidiano dele.

A dissonante das notas revolucionárias


Não cabe a mim ou a ninguém afirmar com a certeza de uma verdade sobre o futuro distante ou próximo, a não ser claro, que o orador seja um desses videntes, adivinhos ou oráculos. No entanto quando se trata desses assuntos podemos dizer que o tema sai do racionalismo ocidental e entra no campo do universo místico. Mas não é o atrito do místico com o racional ocidental que me ocupa, neste instante, pois há um atrito paradoxal embutido nele, quando o assunto é o processo revolucionário no mundo ocidentalizado.


Para não me alongar nas correntes teóricas defendidas com unhas e dentes dos militantes, tão pouco defender um ou outro lado, assim é importante relembrar alguns pontos importantes nas principais teorias e práticas, ditas revolucionárias, e a partir deles refletir a confluência ou não com o que pode ser chamado de construção ou desconstrução do processo.


Existem teses que se apresentam em concordância com a manutenção de uma estrutura burocrática, o Estado, diante ou não da extinção do capital, alteração da conformação desta estrutura ou apenas uma alteração da ordem dos poderes existentes. Há teorias que se mostram em aspectos pedagógicos, ou seja, tratam da orientação ou não das pessoas envolvidas direta ou indiretamente neste processo; tanto como orientados quando como autônomos em todas as etapas.


É evidente que este assunto é de interesse quase que predominante das ciências políticas e sociologias, e em raras exceções da antropologia e pedagogia, dentre outras. Porém acho válido rememorar o abismo que há entre estas ciências e seus paradigmas envolvidos, principalmente para se analisar e viabilizar a chamada revolução, a queda do sistema capitalista.


Quando se trata de assuntos que envolvem pessoas, podemos dizer que a racionalidade – mesmo que não seja a clássica aristotélica – está presente em todos os humanos, afinal são capazes de estruturar pensamentos até os mais loucos e autistas. Partindo da racionalidade não reducionista como a dialética, lembrar que a fundamentação cultural não provém necessariamente do sistema socioeconômico vigente, mas muito pelo contrário, há mais do que evidências claras da existência de um sistema de hibridização das comunidades formadoras da sociedade macro prevista no capitalismo.


Essa hibridização está repleta de fatores já discutidos na teoria da biopolítica de Michel Foucault, que se transpõem da filosofia para a compreensão da sobrevivência das culturas populares, tão aparentemente dizimadas e engolidas pela complexa cultura de massas. Assim, a estruturação social das populações dentro do sistema capitalista acaba sendo dúbia, ou seja, se mostra como uma estrutura macro, o sistema capitalista em si, e outra micro, o sistema cultural local.


Quando se trata das teorias revolucionárias, quase nunca há a consideração desta crucial realidade microcósmica; afinal se combate um sistema de homogeneização com outro, mesmo que este não seja necessariamente aquele desejado pelas pessoas atingidas pelo processo; aí mora a instabilidade do processo: a manutenção da nova ordem não necessariamente respeita a particularidade das comunidades atingidas.


Nessa ótica se vê – como em alguns países africanos – o conflito entre as racionalidades, afinal tanto o capitalismo como a maioria das demais teorias de sistema não preveem a dialógica existente na multiculturalidade. Todo homem pode ser igual, porém por mais que haja a força hegemônica da padronização das populações, a micro resistência insiste em filtrar estes elementos e hibridizar as formas culturais, sem perder suas particularidades e identidades.


Diante disso, me permito dizer que o sucesso revolucionário só é possível quando se afina a tese mais flexível para o diferente, não para o igual, afinal se nem geneticamente são todos iguais, quiçá racionalmente. As discordâncias continuarão a gritar em tom diferente do sistema socioeconômico, independente de qual seja, quando este não respeitar, em todos os sentidos, o diferente.


Não há burocracia, ou capital capaz de vencer valores e lógicas. Lutar sim, mas sem perder a ternura de olhar o diferente como um igualmente belo é crucial. Ao contrário disso, são apenas teorias e tentativas capazes de dizimar, perseguir e justificar suas derrotas numa relação monótona de briga por hegemonia e razão com o sistema vigente, claro que quem paga a conta é sempre o mesmo. Poupam-se os cavalos, torres e bispos, e sacrificam-se os peões, que de igual tem somente natureza de ser.

A rouquidão do clichê

Considerando ou não estudos e teorias hegelianas, cartesianas e afins, é quase como um senso comum o assumir dois lados – maniqueístas – de uma situação, sociedade ou relação social. Os fracos e oprimidos diante dos inescrupulosos, usurpadores e maléficos não se prendem as fábulas, charges e histórias em quadrinho; são elementos incorporados, quase arquetipicamente, no inconsciente da sociedade ocidental.

Assim como a grande mídia ou as instituições tradicionais do capitalismo utilizam deste célebre artificio para defender seus interesses e até lucrar, o outro lado também acaba se valendo disso de uma forma bem interessante. Quando se estuda ou se observa assuntos delicados, polêmicos ou que envolvam relações desiguais – entre capitalistas e minorias, por exemplo – esta quiralidade entre os lados do maniqueísmo acaba se definindo. Muitas lutas, guerras ou julgamentos precoces se deram, e se dão, sob este prisma, mas é simples esquecer que o comportamento descarado é praticado em ambas as faces, o convexo e o côncavo da situação, ou bem e mal.

Se formos para um aspecto filosófico da coisa, em sentido mais moderno, nos esbarramos com o niilismo da terminologia bem e mal. Dentro deste encontro a noção da construção social dos termos se funde não só com a construção etimológica das palavras; mas também com a construção social baseada nos julgamentos e avaliações dos poderes. Neste ponto não se pode limitar a consideração do poder detido pelo clássico da propriedade, capital e meios de produção; mas é importante ir além, lembrar também do poder de convencimento, a retórica ou hipnose por diálogo.

É a partir desse poder que a quiralidade se faz, historicamente, entre a esquerda e a direita política. Discursos muitas vezes concisos, bem estruturados, repetidos há anos que remetem não só a valores, interesses e princípios morais, extrapolam para as necessidades, desejos e ensejos dos ouvintes, telespectadores ou leitores. São estas as efetivas formas de convencimento e diagramação do discurso chamado de conservador/revolucionário, dependendo de onde se vê.

Um exemplo disso é o envolvimento da esquerda com os movimentos sociais, em específico, no Brasil. Vemos manifestações, passeatas, cartas e eventos de apoio, falas, correntes e por aí vai. Ajudas esporádicas (de uma meia dúzia) e um uso fabuloso deste espaço para o conveniente e ‘esclarecedor’ discurso. Eis a variável mais fixa da comunicação capitalista: o discurso.

Tais ferramentas são sempre impactantes, emocionantes e imperativas: fatos distorcidos e verdades controversas, sempre embutidas de uma ausência, quase calada, do diálogo. São monólogos formadores, informativos e orientadores de rebanhos e rebanhos de pessoas, ou de um grupo que se orienta enquanto minoria em comportamentos bem padronizados de pregação da liberdade ou do que for sua essência ou razão de existir.

Frutos desta hipnose são as pessoas, espectadores, membros desses rebanhos; vítimas de seus valores descrevidos de forma tão habilidosa por um outrem. Os dois lados ocultados pelas fantasias das epopeias sociais. O sensacionalismo da esquerda se mistura com a censura e se parece cada vez mais com a ‘podridão’ criticada da direita. Será que vale a pena justificar assim, os meios pelos fins?

As causas sociais são muitas, mas não há ‘pobres coitados’ eternos nem unanimidade inteligente, da mesma forma como não há imparcialidade na informação. As desigualdades nos batem na face como as mentiras dos discursos dos dois lados. Cabe ao receptor da informação filtrar; já que, a censura real é distante do concreto, não do imaginativo destes célebres autores de discursos e textos; os denuncistas e propriamente sensacionalistas como aqueles telejornais que escorrem sangue da televisão.

Muito da credibilidade da causa real se perde neste imaginativo de guerra eterna entre bem e mal, e o diálogo entre as partes acaba se tornando impossível. Associado a isto estão os que realmente tentam mudar algo. No uso das ferramentas possíveis e quase impossíveis, lidam e aprendem como o jogo funciona e se tornam guerreiros quase solitários, dependendo do título que carregam. Para esses sobra a satisfação de tentar; e para os oradores, tão defensores de fracos e oprimidos, a ‘glória’ e a rouquidão. É clichê, previsível e hipócrita, mas há quem se contente com isso para justificar um assassinato, da única indefensável, a pobre coitada da verdade.