Mulher Celta ou Mulher Ficção?

Diz um texto desconhecido e que tenho dúvida quanto a sua veracidade, denominado Código de Honra da Mulher Celta: “(…) Jamais permitas que o teu coração sofra em nome do amor. Amar é um ato de felicidade, por quê sofrer? Jamais permitas que teus olhos derramem lágrimas por alguém que nunca te fará sorrir. (…) Jamais permitas que o teu tempo seja desperdiçado com alguém que nunca terá tempo para ti. (…) Jamais permitas que paixões desenfreadas te transportem de um mundo real para outro que nunca existiu. E, sobretudo, jamais permitas que tu mesma percas a dignidade de ser mulher”.

Não quero no Dia Internacional da Mulher, dedicar um backing vocal, ser diva da dor feminina ou “vaticanizar” homenagens ilusórias, mas duvido que se exista esse tal Código de Honra da Sociedade Celta, ele consiga ocupar primeira posição no New York Times, principalmente, no entendimento do que é ser mulher nos dias atuais.

Segundo os clássicos gregos e romanos, as mulheres celtas não se desfaziam em lágrimas quando as crises chegavam. Penso que essas mulheres não tinham que pagar as contas todos os meses, não tinham que suportam o dia enfadonho de criar solitariamente os filhos ou mesmo se manterem magras para assinarem um contrato cheio de regras para o Miss Universo.  Não tinham, talvez, que fraudar o bilhete do desespero da crise de pânico noturna ou mesmo invejar as silhuetas do BBB.

Para Philip Freeman (2006), as mulheres da Gália possuíam igualdade ou mesmo superioridade em relação aos homens, independente de períodos de paz ou de guerra. Não duvido que naquele período, o cansaço do ônibus, as fofocas da vizinha, a inveja da cunhada, a indireta de roubo do chefe ou a certidão negativa vencida da receita federal não a levassem diretamente do barraco ao botequim.

Isso significa que não havia poder terapêutico para se escrever uma tese científica, bastava apenas procriar homens que nem mesmo precisariam aprender a escrever. Aliás, muito menos manter segredo dos vestígios da enxaqueca, antecipar a secagem do único uniforme escolar do filho ou corrigir silenciosamente o jeans do lado errado quando o outro esquece até as datas comemorativas frente ao videogame. Talvez, não precisasse desculpar os eternos “não me lembro” ou não cometer exuberâncias no desejo do outro para sexo a cada turno. Não precisavam nem entender de mulher melancia ou dieta da sopa.

Em um universo inteiro de possibilidades feministas, se remetidas às mulheres gregas e romanas, as mães, esposas e filhas dos celtas refutavam de uma posição impar de glória e responsabilidade. Há sutilezas que reforçam como era fácil ser uma mulher celta, seja pelo cartão de crédito que não levava a perda do sono ou pela prestação da casa que não conduzia ao mosteiro do parcelamento vitalício.

Penso que não tinham que ter sabedoria emocional para comentários sarcásticos da sogra insana ou mesmo ter que refazer a vida após o terceiro divórcio ou traição após 20 anos de casamento.Não precisavam tomar emprestada a renúncia da TPM no domingo em meio ao Faustão. Não precisavam se fingir de mosca morta quando os pseudos amigos ironizassem a sua fala.

Na sociedade celta, as mulheres se casavam cedo e não existiam ninfas, lobas, coroas e até infiéis casadas, dispostas a seduzir o parceiro alheio. E, se houvesse essas mulheres solteiras não eram lindas, turbinadas com silicone, malhadas, analisadas by Freud e Jung, viajadas, com emprego estável e, algumas delas, investidoras da bolsa. Não havia modelo recente da Louis Vitton.

Não acho que a mulher celta teria uma sobrevida nos dias atuais, mesmo se fossem as grandes rainhas históricas (Boudicca e Cartimandua), bem como as mitológicas (Maedbh e Rhiannon),  pois se naquele tempo era possível atestar a supremacia política e social da mulher entre os celtas, hoje a mulher não tem direito à repescagem, pois a lei da oferta e procura não permite a menor cobrança do seu papel  e a substituta da mesa vizinha do trabalho dá conta  da rotina, seja doméstica ou sexual. Aliás, sexo frágil perdeu espaço para sexo Cinquenta Tons de Cinza.

Por outro lado, as mulheres celtas como Fedelm e Niamh apresentam sua força como sacerdotisas. Talvez eu pense racionalmente, mas a segunda chance não vem mais escrita nas estrelas do tarô, pois hoje o homem  não suporta a intuição feminina, principalmente, quando se descobre a mentira do dia do futebol ou do não retorno da ligação. Olhar para o relento lembrará a pressão e a pedida da saída à noite desengana a paciência de um amor fora da realidade. Paixão incondicional virou sinônimo de porta-retrato afetivo.

Outro dia li um artigo do psicólogo James MacKillop, um dos maiores conhecedores da cultura celta, que contemplava a seguinte mensagem: “As deusas celtas são o retrato fiel da complexidade humana tangida pela imortalidade”. Em seus escritos, existe a tríplice da deusa na referência de Macha, Badb e Morrighan, divindades que espelham, concomitantemente, fertilidade e soberania.

Essa tese acima me permite mais uma vez desassociar as sutis diferenças em relação às mulheres celtas à medida que clinicas de fertilidade desorganizam o tapete vermelho da fama feminina, sem martini e azeitona, sobrando apenas Red Bull e Absolut nas baladas ao som do sertanejo universitário.

Outros autores destacam, ainda, que os direitos das mulheres celtas marcaram,  principalmente,  as leis irlandesas e, destacam que a união de um casal poderia ocorrer de diversas formas, inclusive, a mulher podendo exercitar a bigamia.Nunca conseguiríamos essa moleza, nem com leis, pois já existe seleção natural na espécie masculina.

Todavia o ponto maior da cultura estava na beleza das mulheres celtas, pelo ar elegante, roupas e adereços, joias preciosas, que a título de exemplo lembra o mito da Rainha Maedbh, em que “jamais teria se deitado com um homem sem que houvesse outro a esperá-la na sombra”. Talvez, hoje seria sinônimo de efemeridade e distração felina que estraçalha a vida com a distância dos versos de Vinicius: “que seja infinito enquanto dure”.

Pensando na mais fiel definição da mulher, me pego indagando que tantas metáforas para o dia da mulher levam a tese de  que a mulher deveria nascer pra ser valente como Joana d’Arc, crescer para ser bela como Marilyn Monroe, viver para ganhar um Nobel da Paz como Madre Teresa de Calcutá, estudar para ser feminista como Maria Montessori, escrever para ingressar na Academia Brasileira de Letras como Raquel de Queirós  e morrer para ser  imortal como Evita Perón.

E parodiando  Simone de Beauvoir:  “Se a mulher foi, muitas vezes, comparada à água, é entre outros motivos porque é o espelho em que o Narciso macho se contempla; debruça-se sobre ela de boa ou de má-fé. Mas o que, em todo caso, ele lhe pede é que seja fora dele tudo o que não pode apreender em si, pois a interioridade do existente não passa de nada e, para se atingir, ele precisa projetar-se em um objeto. A mulher é para ele a suprema recompensa porque é sob uma forma exterior que ele pode possuir, em sua carne, sua própria apoteose”.

O inesperado que chega sem convite

“[…]O inesperado surpreende-nos. É que nos instalamos de maneira segura em nossas teorias e ideias, e estas não têm estrutura para acolher o novo. Entretanto, o novo brota sem parar. Não podemos jamais prever como se apresentará, mas deve-se esperar sua chegada, ou seja, esperar o inesperado.E quando o inesperado se manifesta, é preciso ser capaz de rever  nossas teorias e ideias, em vez de deixar o fato novo entrar à força na teoria  incapaz de recebê-lo. (MORIN, E.  Os sete saberes necessários a educação do futuro. São Paulo: Cortez, 2002. p.30).

Nesse último carnaval, entendi que o inesperado é jurado de escola de samba, diria um protegido de Deus que assiste tudo de camarote; está sempre um passo a frente na bateria da escola de samba e ultrapassa o obituário em vida. Talvez não se permita ser ator coadjuvante ou ser medido, simplificado, pois “deve se isentar de emoções e de paixões, exercendo, sempre, um distanciamento crítico”, conforme o livro cedido aos jurados pela Liga Independente das Escolas de Samba -Liesa.

Durante o julgamento do desfile das escolas do Rio de Janeiro, pensei no impacto da coletividade de planejar e afirmar sobre o que vai ou não acontecer, principalmente quando se pensa que tudo que deveria ser feito, foi metodicamente realizado. Depois, analisando os comentários dos diretores das escolas que não alcançaram o primeiro lugar, pensei o porquê de tantas justificativas para notas tão próximas a 10. Logo, pensei sobre a dificuldade que temos em aceitar o inesperado. Percebi que mesmo entendendo a possibilidade do caos, das rupturas e das perdas, a coletividade sempre entra em confronto com a lógica de que os acontecimentos podem ser predeterminados.

De um lado, quando o inesperado vira astro, é sempre a referência, dono da liberdade e dos protocolos. Decide em plena liberdade dos seus direitos, e na surpresa, sem perguntar se existe a preparação da vida para o fato, surge como um vulcão. Por outro, acredito que ninguém erra indevidamente ou algo acontece de forma aleatória. Talvez aceite o clichê: apenas não é para ser.

Fernando Pessoa já dizia que “tudo o que chega, chega sempre por alguma razão”. E claro que tudo o que não acontece ou que se vai, deve ter mais de uma razão. Não acontece, apenas porque está do lado errado da calçada ou porque perdeu a natureza do passo, atrasou o carro, perdeu a intimidade da alegria, o rumo e se perdeu dentro de si mesmo. Mas quando o inesperado se manifesta, pede-se licença para o tempo necessário; seria a necessidade de ser mais que o passado.

Não penso em certezas, tipo o poder das trevas, mas, as vezes, acho o novo errado ou mesmo não concordo em vários pontos. Quando tenho essa sensação, um vácuo é aberto em mim diante da impossibilidade de concretização de algo que desejo. Então começo a pensar que, diante das ondas da fatalidade, seja necessário entender que vida é dialética e a realidade um processo.

E por isso, os imprevistos nem sempre podem ser evitados ou mesmo nem sempre será possível nos submetermos apenas aos nossos sonhos.Talvez o controle da vida não esteja à disposição na rota de coalizão. Acho que isso passa por vermos aquilo que a nossa crença diz ser possível, sem dar bola para a fatalidade, causalidade ou acontecimentos e energias que podem estar alinhados ou não ao nosso destino.

Não entendo como atuar sobre o tempo, mesmo que perceba algo que tenha potencial de acontecer pelo esforço individual ou coletivo. Lembro-me de uma análise de Joseph Schumpeter, no livro Capitalismo, Socialismo e Democracia que pontuava que a maior parte das criações da inteligência ou da fantasia desaparece para sempre, em um espaço de tempo que pode variar de uma hora a uma geração.

Nessa direção, mesmo que existam situações particulares do livre arbítrio, evitando o que seja imutável, nem sempre as nossas crenças ou realidades serão como a casca dourada e inútil das horas exatas. Mesmo com outras certezas, porém, tal não acontece. “Sofrem eclipses, é certo. Mas ressurgem”. E ressurgem, não como elementos irreconhecíveis da herança cultural, mas com roupagens e cicatrizes próprias, que podem ser vistas e tocadas.  Isso pode ser a razão do conhecimento e do novo.

Penso que o pior que se pode acontecer seja colocar o inesperado debaixo da porta, quando nos surpreende pela dificuldade de defini-lo e usamos a fábula de Esopo “O Pastor e o Lobo”, em que sempre é possível abusar de uma palavra, falar o que vai fazer, o que não se fez ou que tudo tem o seu tempo.  Pode ser ou não que esta convicção seja uma ponte para o rio.

Desejos podem germinam ou liberar vibrações negativas ou positivas. Desejo pode definir a identidade, mas toda resolução tem um preço. E quem sabe elaborar uma nova listinha de sonhos para a vida tem muito a ver com a maneira que cada um se propõe a recomeçar. Vou simplificar a questão comparando aos “supostos benefícios” da vingança. Parodiando Mark Twain: “E aqui reside o defeito da vingança: tudo se resume na antecipação; a realidade em si não é a dor, não prazer; pelo menos a dor é o fim de tudo”, Ou seja, a vingança não aplaca as emoções, assim como água salgada não sacia a sede.

Entendo que as pessoas que são capazes de mudar a percepção do inesperado, podem ser também capazes de melhorarem a sua capacidade de ação na meta. F. Dostoievski não estava greek quando disse que o homem é um animal maleável, que se acostuma a tudo, pois o princípio da adaptação sempre serve, após o caos.

E não incorporar o inesperado pode ser a cessão do espaço para que a “vitimização seja a escolha”, mas também ideologia. Isso não seria discordar do esforço, mas agir com racionalidade no que coloca Luiz Fernando Veríssimo: “Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando… Porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive, já morreu…”.

E no fim, mesmo que os desejos  não tenham sido executados, tudo é semelhante a roda viva, basta apenas continuar girando. E não entender o inesperado, é boicote, apenas isso.

O lado bom da quarta-feira que não é ingrata

O mundo quebrará seu coração de dez maneiras diferentes, isso é uma certeza. E não posso começar a explicar isso. Há loucura dentro de mim e dos outros, mas adivinha? Domingo é o meu dia favorito de novo. Penso em tudo que todos fizeram por mim. E me sinto um cara muito sortudo”. (Pat Solitano Jr. – Bradley Cooper no filme o Lado Bom da Vida)

Era um sábado de verão de prévia carnavalesca. Os ambulantes se preparavam no meio da madrugada para um dia de glória financeira. O tumulto dos foliões ansiosos já acompanhava o conflito dos enredos musicais de alguns carros alegóricos. O sol estava forte e o calor infernal. Os carros apressados assustavam as famílias que caminhavam guiadas pela redescoberta dos carnavais de infância.


No contraponto, o mar, ao lado, não apresentava ondas. E, livre de superstições, havia um grupo de mulheres sorridentes, com semblantes vultosos sobre cada passo em busca da vida que valia a pena, mesmo encobertas por fantasias que terceiros justificariam como a dor do cotidiano. Não se importavam com a chegada de músicas desconhecidas e muito menos no que iam perder se existissem dificuldades ao lidarem com elas mesmas.


Podia-se duvidar se suas fantasias eram reais, mas quais seriam as verdadeiras, diante de uma vida que já foi vivida pelo outro. E, assim, com segurança em si mesmo, atravessavam a avenida com suas faces.  Talvez houvesse mais de uma fantasia. Mas não era aquele o momento para se inquietarem. Estavam felizes por não usarem máscaras.


Nos olhos daquelas mulheres já existiam dias melhores. Bastava o sentido que cada uma criava para a sua existência naquela avenida. Em seus sonhos de carnaval, os segundos não se se arrastavam mais no relógio da cozinha. Acreditavam na promessa do fim da insônia, de alcançar a simplicidade nas palavras ou mesmo de ser a única razão de viver de alguém.


Era um dia diferente. Brincavam de serem as deusas do tempo, amantes de Apolo que surgia como o deus da música, tocando a sua lira para o deleite dos imortais. Possuíam a coragem de dançar sozinha na multidão e inspiravam a crônica de um poeta que apenas as observava. Possuíam total desprendimento até para andarem descalças, momento visível quando a sapatilha de uma delas rasgou. Eram capazes até de se desnudarem em uma entrevista para a imprensa local. Não tinha receio da quarta-feira realidade.


Aquelas mulheres já tinham tido outros momentos felizes; eram sem dúvida, bonitas, cultas, malhadas, viajadas, realizadas em suas profissões e com sonhos constituídos. Mas havia os cacos que feriam os seus corações e eram visíveis, assim como as camadas erradas de suas escolhas. E, assim, entravam na avenida tentando dar sentido às alegorias. Buscavam a vida e seguiam, ou quem sabe privilegiavam o tempo, alforriando-o de si mesmo.


Construíam novas paredes para um novo dia, sem a exatidão do recomeço seguro. Eram mulheres dispostas a alcançar a felicidade que se autodenominava como uma loucura que permita novas encenações. Pareciam encantadas com o branco das fantasias que por si só revelavam o total desapego a um mundo de encenação, de redescoberta de si mesmo.  E sem a noção da música que tocava na banda de frevo, pensavam na  letra de “Amor pra recomeçar”  de Frejat  que  fala justamente sobre isso, quando ele diz: “eu poderia me perder neste momento para sempre…”


Havia um adeus à dor que não era física. Havia um adeus ao drama do Pierrô que ama Colombina, que ama Arlequim, que, por sua vez, também ama Colombina. Havia sem grandes pretensões a busca pela essência humana. Entre passos complicados e frágeis, a sintonia coletiva se findava em um abraço para o recomeço. Agiam, como diria, Marcel Proust, “para tornar a realidade suportável, às vezes, todos nós cultivamos pequenas loucuras”. Era preciso se fantansiar de si mesmo.


Naquele sábado, aquelas mulheres não se importavam com o fato de que a vida nem sempre acontecia como a que tinham sonhado. Estavam cientes de suas realizações, de seus desejos, de suas frustrações e de suas dores. E sem o beijo da partida na avenida, não contavam as mentiras pelas quais passaram ou se preocupavam em inventar novas verdades para quarta-feira ingrata. Essa não as faria mais chorarem. A cada melodia descobriam a inconsciente realidade de que problemas e desamores também podiam ser jogados a Iemajá. Podiam ser jogados ao mar.


Afinal, estavam ali na avenida para viver o lado bom da vida, independente do Arlequim. Dos sonhos costurados na fantasia havia a semelhança com o Pierrô, sendo sempre o alvo de partidas, mas mesmo assim continuavam a confiar nas pessoas.


E não se ausentavam da incredulidade que um dia as levou a não seguirem em frente, tentando se recomporem a cada dose perfeita, da distante quarta-feira  que não chegaria tão depressa e sem contrariar,  visto que o dia acomodaria apenas a ternura e a distância da tristeza.


Não havia mais a inocência. Havia a confiança de que a futilidade e a banalidade não tomariam a alegria da avenida, pois de cara limpa aproveitavam de forma consciente. Não havia o despertar do ego. Era um distanciamento dos conflitos e a aproximação da certeza que ninguém poderia defini-las. Não era justo simplificá-las. Havia muita vida em seus passos aleatórios.


Havia ternura e condescendência entre aquelas mulheres. Havia uma força da natureza, mesmo na feminilidade vulnerável. Havia filhos amados e guardados de suas dores. Havia satisfação em seus dias de luta. Havia respeito por manter a ilusão escondida para  aceitar o fim e o  controle do curso inevitável da vida. Havia sinceridade em suas histórias pessoais de pontes meio quebradas, mas o livro  com finais felizes já não fazia mais sentido. Resistia-se naquele momento a pessoalidade.


E a vida se assemelhava entre um frevo movimentado, intermediando entre o grave e o agudo  da esperança; e a poeira deixada pelos versos tristes levava a superação de seus traumas, como  o hino da manhã que vinha surgindo, com o abre-alas que todas queriam e iriam passar…


Entre aquelas mulheres, as histórias se misturavam entre a busca comum da felicidade e as notas musicais das perdas, mas o som das clarinetas, dos trombones, dos trompetes, das tubas  e saxofones se findavam na ideia de que tudo iria dar certo no dia de Iemanjá. Não havia uma visão romântica, mas a racionalidade de que toda nuvem tem um “fundo prateado”, como disse o poeta inglês John Milton, em 1634.


Havia a certeza de que naquele dia, nunca mais aquelas mulheres voltariam a ser como antes. E como canta Stevie Wonder: “Maybe someday, you’ll see my face amoung the crowd/ Maybe someday, I’ll share your little distant cloud/ Talvez algum dia, você verá meu rosto em meio a multidão/ Talvez algum dia, eu divida sua pequena distante nuvem”.

A ferrari e as expectativas inventadas

“Nada humano é verdadeiramente incondicional, eterno e completamente bom. Essa é uma forma de amor que só Deus pode ter. Esse entendimento gera expectativas altas, que relacionamentos cotidianos não são capazes de suprir”. (Simon May, professor do King’s College, em entrevista em 08/01/13 para Folha de São Paulo)

Na área de negócios, existe um termo chamado “expectativas adaptativas” que significa que as pessoas formam suas expectativas sobre o que irá acontecer no futuro com base no que aconteceu no passado. E outro que se chama “expectativas racionais” que se caracteriza na hipótese de utilização de informação sobre o atual comportamento dos fatos e com base nessa disponibilidade, antecipa-se racionalmente as atitudes futuras e reage-se no presente de acordo com as expectativas formadas, anulando-se, em algum grau, a efetividade do que se pensa.

Tenho pensado que a maior parte das nossas expectativas são adaptativas e pouco racionais. Talvez inventadas. No meu entendimento, prevalece-se o íntimo do mundo individual e quase sempre elas são formadas por meio de situações mal resolvidas.

Tenho pensado nessa procura interminável por sentimentos incondicionais que nos move. Tenho pensado em caminhos em que o volume das expectativas desvia a rota do navio e no lugar de se chegar ao destino, chega-se a um lugar incerto. Tenho pensado na culpa atribuída ao destino quando se fluí, apenas, contra a correnteza.

Percebo, assim, um descompasso dos personagens criados e dos presentes caros em busca da felicidade permanente, que por si só já é uma expectativa inventada. Seria, assim, a paixão pelas relações platônicas e não pelo sentimentos reais que nos leva aos dramas do cotidiano.

Claro que também um dia pedi demais. Penso nessa questão, inclusive, porque já achei que o mundo estava contra mim quando as situações não eram resolvidas ao meu favor. E quando perdia, surtava, pois a cultura do incondicional gerava altas expectativas. Isso assustava a qualquer mortal. Afinal a minha realidade era diferente da realidade de qualquer um. E nesse caso não bastava a Lei da Atração.

Tenho cada vez mais ignorado o poder que a minha expectativa tem sobre o comportamento de quem mora ao lado. Isso seria ignorar o que psicologia chama de “Conduta Pigmaleão”, originada, segundo a mitologia grega, pelo escultor Pigmaleão que acreditava que todas as mulheres tinham muitos defeitos e, assim, procurou esculpir o um padrão feminino perfeito. Após a conclusão, apaixonou-se pela obra perfeita e passou a referenciá-la até que a deusa Afrodite transformou Galateia em uma mulher de verdade.

Se isso fosse o real, a vida e o nosso entorno de parceiros, amigos e trabalho se tornaria aquilo que pensamos sobre eles. O que descarto, pois ao exigir que o outro faça a mesma escolha, ordenamos uma trava do destino de uma realidade que só é nossa. E depois os nossos monstros terminam culpando o outro por não manter o que esperamos de conduta.

Na atualidade, embora já tenha ferrado no passado várias relações pela pressão, tenho caminhado por um mundo que tento viver sem colocar as demandas ou carências nos outros. Afinal, já sofri por um grande amor, reneguei projetos profissionais ou achei que tinha encontrado a melhor amiga.

Todavia, aprendi a duras penas que a ideia de alguém ou o cenário de paraíso desejado só pode levar a extinção de qualquer relação por pura cena hipotética ou imaginária. A título de exemplo, descrevo as expectativas de uma pessoa com a outra no momento inusitado da paixão. Quando se acredita na perfeição e em todas as qualidades pensadas que o outro tem, mas o fim vira um tormento do resgaste ao passado, visto que na verdade era só um comportamento, uma leitura inicial. Seria a leitura da sinopse ou da primeira página.

Não duvido que quando se deseja que o movimento se transforme em padrão, a pressão sufoca, o interesse se desvia do caminho. Talvez se justifique como a pressa da resposta, a pressa do amor. Mas quem poderá no contraponto intervir para que o amanhã tenha pressa. Seria andar na ferrari quando se exige o pare, escute e atenção.

Penso que seja necessário dar um basta no amor que esperamos para aceitarmos o que o outro pode e desejar dar. Seria mais ou menos o desenho de um personagem que gostaríamos na nossa vida. Seria o fim do emprego perfeito, da amiga perfeita, do filho perfeito e do amor exclusivo. Seria a encenação aceita fora do quadro único que criamos.

Diria que ao exigir do outro a tomada de decisão ou falta dela, provocamos ações que nem sempre o outro está com vontade para tomá-las. E, nessa direção, a ansiedade só caminha para a dor, seria como brincar de ladrão e bandido quando as culpas só poderiam ser nossas, já que o tesouro está no nosso eu.

Por um lado, expectativa demais é fazer o caminho de Santiago esperando encontrar a razão por viver. É levar uma mala pesada em uma viagem de final de semana, esperando encontrar no caminho a certeza do amanhã. Penso que não existe amizade, amor, relação incondicional. Existem trocas que se perpetuam até quando é válida a satisfação e o momento. Quando tem que acontecer, acontece e ponto.

Por outro, talvez haja entusiasmo demais nos casamentos, nas viagens, nas formaturas ou no primeiro emprego. E quando não, no futuro de nossos filhos. E o pior no amor incondicional que teremos na velhice. Talvez haja amor platônico em excesso ou quem sabe cenas com finais felizes o tempo inteiro que nos distancia da frase de Quintana que pontua que as pessoas não se precisam, elas se completam… não por serem metades, mas por serem inteiras, dispostas a dividir objetivos comuns, alegrias e vida.

E no final, nos banhamos em lágrimas quando o amor se vai, quando a amizade não aguenta ou quando o emprego se despede. Talvez se existisse um remédio que anestesiasse as nossas necessidades, a frustação poderia ser bem menor. Todavia o ideal é compreender como é errado infernizar a vida do outro para atender a nossa necessidade ou frustação.

Penso que destruindo esse querer de dar fim a solidão, de querer ter o melhor amigo do mundo, o melhor amor da vida, o cotidiano poderia ser menos penoso. Quem nunca se apaixonou por alguém que manteve apenas um olhar ou mesmo entendeu que tinha encontrado o melhor amigo para sempre? E quando não, quantos não viram na entrevista de emprego a razão de sua aposentadoria. Guiados por segundos frente uma vida inteira.

Acredito que não existe o engano, apenas a certeza de que a expectativa não é o mundo do outro. E poderíamos com um jeitinho não antecipar o fim, apenas por não ser o tempo para corresponder.

Claro que é difícil colocar a vida no ponto morto. Uma simples falta de elogio, um email não respondido, vira frustração. E a necessidade de ligar a Ferrari só confirma que o outro está em um tempo diferente. Isso acontece a todo momento e, por isso, se torna tão importante reduzirmos a nossa sensibilidade e velocidade.

Penso que sentimento e espaço bom é o que não pressiona, o que não exige. Só que é um contraponto, pois só fazemos pressão em sentimentos frágeis que não são incondicionais. Então como fazer pra não criamos expectativas? impossível. E quem sabe deve ser assim: joga-se o dado, se der seis ótimo, se der zero, também deve ser bom pelo efeito da ação, independente da velocidade.

E, assim, a vida que querermos não pode ser um vício acima do real, pois o que fica no final é a possibilidade do ir e vir, sem colocar a intensidade dos dias de bater o ponto. E aí quem sabe poderemos chamar as nossas expectativas de racionais ao usarmos o fusca no lugar da ferrari.

E como Simon destaca: “Precisamos mudar nossas expectativas, não reduzi-las. É preciso abandonar a ideia de que amor implica em intimidade incondicional, benevolência e altruísmo. Para mim, amor é algo completamente condicional. Ele só existe enquanto a outra pessoa parece dar sentido à nossa existência”.

Onde vivem os monstros contemporâneos?

“Me alimente mulher! Desça daí Max, não me envergonhe, saí já daí, agora! Grraaauuurrr! Vou te devorar…Ah! Você me mordeu! Está descontrolado! Não… Não é minha culpa (…)” (Trecho em que Max veste a sua fantasia de lobo no quarto e sai uivando junto a sua mãe no filme “Onde vivem os monstros”).

Fazer uma análise contemporânea sobre a monstruosidade é pretensão para qualquer um que já viveu os dois lados da maldade humana. Não quero discutir a fatalidade das fábulas infantis ou do bandido que se faz querido como o mocinho, mas a maldade que se faz notória, freqüente, motivada, com adorno platônico, justificada e cheia de excelentes motivos. Diria a maldade “além do bem e do mal” ou aquela que precisa achar o caminho de volta, mas acompanhada.

Assim, penso que toda monstruosidade é uma confissão que fere a própria imagem, de forma dominadora e, talvez, até masculina. Penaliza até quem mais se ama, pois poderia ser uma acepção do equívoco de que para sobreviver temos que ser fortes. Sem divagações, mas  poderia resignar-se e se tornar cúmplice passivo por meio dos nossos desejos, dos nossos vícios, das nossas vaidades, dos nossos ciúmes ou dos nossos medos. Ou poderia ser como Ana Carolina canta: (…) Há quem acredite em milagres. Há quem cometa maldades. Há quem não saiba dizer a verdade (…)”.
Vejo que os nossos monstros tornam-se cada vez mais presentes e vivos. Consigo enxergá-los na estadia dos meus sentimentos. Diria que sinto esses monstros me engolirem  e, claro que, as vezes discordo dos seus agravos e facetas, mas não tenho como  expulsá-los.
Esse mostro não precisa ser Frankenstein, Hitler, Stalin, Mussolini, Pinochet, Mao Tsé-Tung,  Saddam Hussein, Jack o Estripador, Jason do Sexta-Feira 13 ou o ex-goleiro Bruno,  mas pode ser aquele vizinho que dorme pensando sobre o que vai falar para o síndico, aquele colega de trabalho que sonha com o cargo de terceiro, aquele cunhado que ridiculariza as piadas, o colega da academia que representa  a malícia do esforço repetitivo  ou o silêncio desaprovador de quem deveria opinar, mas se cala para não se comprometer. Talvez seja apenas o contraponto do Dr. House.
Aliás, vejo os monstros na frieza dos veredictos, no juízo de valor das iniciativas que são desacreditadas e morrem antes de serem intentadas, na preparação para ridicularizar a proposta alheia ou quem sabe no olhar obstruído frente às conquistas pessoais.  Vejo-os na ausência de explicação ou nas mentiras para suportar a convivência. Talvez no olhar distante quando a conversa não agrada ou nas poucas palavras quando existe a emergência na despedida.  Vejo os seus sinais nos desfechos a porta fechada e na ironia  das usurpação do sucesso alheio. Vejo-os até na saída sem despedida.

Quando penso nos monstros modernos,  percebo não a intensidade da maldade, mas a sua banalização ou métodos adequados para o fracasso dos laços afetivos. Penso no próprio veneno que validou a serpente de Adão como o fruto desde o princípio.  Nem incito pensar que sempre as coisas foram dessa forma, mas acredito que o Código de Hamurabi se faz valer quando o monstro passou agora ser qualquer um, afinal não é desumano ser insensível ou conviver com a ausência de humanidade ou frieza. Prefere-se o fim, o ultimato à vitória das diferenças.

Não tenho medo da maldade patológica ou mesmo da agressão verbal. Mas tenho medo da mentira, da indiferença, da amargura, da falta de perdão ou da intenção amoral. Tenho medo do blefe, do jogo, da política, do acordo ou da expectativa do sopro. Não tenho medo do veneno da cobra ou do escorpião, pois esse nunca disfarçou a sua intenção, mas tenho receio do veneno  humano de forma disfarçada. Tenho medo do mostro moderno.
Quem sabe na angústia de matar esse mostro que mora ao lado, seja necessário perder: a compaixão, a disposição no entendimento, a afabilidade, a paciência, a diligência e a humildade. Às vezes o enfrentamento de monstros diários nos leva ao sofrimento, ao desgosto, a frustração e ao desassossego, mas só, assim conseguimos representar o nosso obituário diário com um respeito ecumênico de que tudo deve ser assim como é.
Acredito que ninguém se torna ruim com o tempo, mas aperfeiçoa o que se é. Penso nessa questão como Veríssimo na crônica os Venenosos: “Pura maldade, só o veneno explica.” Logo, maldade não tem remédio e talvez nunca se cure, pois é amante dos sintomas e se fortalece com as alianças, diria que é como um bolo descoberto que não se incomoda com a chegada de novas formigas.
Nem sempre uma maldade pode ser apagada, mas sempre pode ser fortalecida. Maldade não depende de alfabetização e já é Nobel antecipado. Acredito que a mágoa, o rancor, a tristeza são nobres e compreensíveis, mas a maldade é indecifrável. Penso nela como aquela peça do quebra-cabeça que ninguém sabe onde vai dar.
Um dia ouvi uma frase sobre cachorros e nela se computava  que quando os cachorros amam eles amam até o fim, se odeiam, odeiam até o fim. Nessa relação não sobra espaço para a montanha russa de sentimentos e foi aí que aprendi separar os predadores dos que usavam apenas os mecanismos de defesa.
Penso agora que os animais não são monstros e corroboro  o trecho final do livro “A Menina que roubava livros”:  “Os seres humanos me assombram.” Hoje os monstros contemporâneos são muito mais inteligentes, muito mais reflexivos, muito menos indulgentes porque não se pode confiar na aparência e talvez exista um fundo falso, diferente dos leões, ursos e outros monstros. Não há incredulidade no reino animal, não há o enxergar pelas bordas e sua aproximação não traz excesso de esperança como os monstros modernos.
Quando penso nesses monstros, percebo que o duro não  é criar expectativa, o duro é não ver o fim da expectativa, é não conseguir lidar com o sonho desfeito, é findar um desejo.  O duro é tentar sobreviver com o fim do que nem era nascido. O duro é ver que a confiança não se fez verdade e que o mundo não é como a Aquarela de Toquinho. O duro é saber a que a verdade esteve sempre lá. E que qualquer desatenção, não precisa  ser a gota d’água.

Saber destruir a expectativa é algo difícil, mas para não virar um monstro moderno é necessário ser Peter Pan, olhando para a terra do nunca, como naquele tipo de brincadeira cujo propósito seja chegar a um  lugar onde não  se possa mais ser visto. E posso argumentar  que seja confortável lembrar Friedrich Nietzsche em “Além do Bem e do Mal”: “Quem combate monstruosidades deve cuidar para que não se torne um monstro. E se você olhar longamente para um abismo, o abismo também olha para dentro de você”.

As paredes imaginárias do labirinto

“Oh, rei do tempo e substância e símbolo do século, na Babilônia quiseste-me perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso (Alá) achou por bem que eu te mostre o meu (labirinto), onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos” (Trecho do conto “Os dois reis e os dois labirintos” de Jorge Luís Borges)

No contexto do conto, o rei da Arábia após  ser preso pelo rei da Babilônia, perambulou confuso até o cair da tarde no labirinto quando implorou socorro divino e encontrou a porta de saída. E sem que os seus lábios proferissem nenhuma queixa, voltou à Arábia, agrupou seus capitães e acabou com os reinos da Babilônia. Em seguida, amarrou o rei da Babilônia em cima de um camelo veloz e o levou para o deserto quando o desamarrou e abandonou-o no meio do deserto, deixando-o morrer de fome e de sede.

Sempre que me sinto em estágio de letargia, penso nas paredes imaginárias do labirinto do conto de Borges. Costumo definir essas paredes como aquelas sensações que acontecem durante o dia que representam uma busca perigosa que fazemos em alta velocidade de nós mesmos.  Só que continuamos parados.

Penso que assumir as paredes imaginárias do labirinto pode ser um grande aprisionamento pela banalidade dos medos contemporâneos ou insegurança externa. E quando não, pelas mediocridades das relações, da rejeição do cotidiano ou da falta de providências que o dia exige.

O fato do labirinto sem paredes não ser o único meio de partida, não me impede de vê-lo como predatório ou antidemocrático, mesmo no momento de dúvidas sobre o caminho, pois não há liberdade quando se tenta escapar da liberdade da ausência de muros.

Talvez se as paredes existissem, a proteção poderia ser real à medida que mundo de fora e também o de dentro conheceriam o perigo do monstro e a certeza de que Teseu encontraria a saída. Aliás, o Minotauro que habita em nós tentaria impedir a despropositada invasão. No final apelaria para golpes baixos  do tipo ser o amor para seduzir.

Diria que há paredes imaginárias no labirinto quando as sequências do agora são mais temidas que o pânico dos muros e o que nos espera à frente nos imobiliza. E quando a fragilidade e a dúvida ocupam espaços cada vez mais largos, percebe-se que não há amenidade ao se considerar a falta de liberdade que não está dentro dos muros do labirinto, mas dentro de nós mesmos.

Por um lado, as paredes imaginárias do labirinto têm as suas leis e nunca se tornam involuntárias; talvez passageiras, mas, ainda, continuamos perdidos no tempo. Diria que é lá que encontramos as representações insanas de significados únicos do lugar sem lugar.

Por outro, o labirinto nos sufoca quando tentamos acertar o lado e só nos deparamos com o oásis sem significado. Talvez existam labirintos dentro de outros labirintos e as paredes simbolizem a insolubilidade do cotidiano atual quando o labirinto é o próprio mundo.

E, mesmo com a ausência de paredes, há necessidade de linhas para caminhar na realidade do conhecido labirinto. Todavia, percebe-se que há o medo da dominação do desconhecido, da paranoia interminável que nos afugenta, da falta de segurança em terminar o dia, das relações mais estáveis ou do meio-termo que resultam na falta de sintonia, diálogo ou da tolerância.

Difícil encontrar o caminho na insegurança do que somos ou na relação que vem pela metade quando viramos ao mesmo tempo Minotauro e Teseu em um campo de desmemoriado, cegos pela luz e nenhum de nossos sentidos nos vale. Quando os caminhos criam mecanismos de defesa para a memória e acabam nos conduzindo a um só lugar.

E quanto mais tentamos sair do deserto, que não tem paredes, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que nos impeçam os passos, àquela claridade nos desnorteia mais do que a escuridão da noite.

E o passado por mais longínquo, se revela como se tivesse acontecido em segundos e qualquer direção se torna a mesma rota vazia e iluminada que conduz a um caminho que não sabemos se significa, o avanço ou retrocesso. Diria que seria o começo apenas arbitrário de um caminho.

Acredito que não existe realidade quando se pensa que a liberdade cura tudo, inclusive, a perda do caminho. Atribuí-la a responsabilidade, é fugir do próprio domínio da vida. O que cura é a decisão, é o querer sobreviver no deserto. É tomar as rédeas e começar tudo de novo.

Por menor que seja à abstração ou expectativa em achar o caminho do labirinto imaginário, o fim poderá dá medo. E quem sabe a falta de paredes não seja sinônimo de fuga ou de solidão, mas da aceitação de mudança arbórea.

E no fim, o movimento teria que se outro e teria que conceder beleza ao significado da vida, agindo como Mario Quintana: “Não tenho paredes, só horizonte”.

Desconstruindo verdades

“Dentro de mim, existem dois lobos: O lobo do ódio e o lobo do amor. Ambos disputam o poder sobre mim. E quando me perguntam qual lobo é vencedor, respondo: O que eu alimento” (Provérbio Indígena)

No final de semana assisti ao filme “Holy Motors” que apresenta os contínuos adjetivos e estereótipos atribuídos à interface da realidade e da ficção. No filme um motorista dirige em Paris uma limusine branca e vivencia inúmeros personagens ao longo de um único dia.

O longa retrata um homem frente a ordem no caos, sem prolongar a inércia da vida, mas que entende o aqui e agora como o acerto de contas com o real. Entre um mendigo, um assassino, um pai que aguarda a sua filha adolescente e um senhor à beira da morte que se despede de sua sobrinha, presencia-se um verdadeiro exercício de suas identidades intermitentes a cada parada. Esse é só o seu trabalho.

O mundo, assim, se apresenta sob o exercício difícil da fé e da descrença de Deus e do diabo. Percebendo a vida fora do palco, contempla a cena, a maquiagem e personagens que poderão ser ou não verdadeiros dependendo do estado de aturdimento e vertigem em que se encontra. Todavia,  parece ser fácil alienar-se da plateia e continuar a representar de forma silenciosa.

Não há respostas no filme sobre as máscaras adquiridas, apenas o fato de um homem se desconstruir ao longo do dia. Em algumas paradas, age alegremente descompromissado para uma despedida até na morte. Em outras, procura razões para ser infeliz quando o mundo todo está feliz a seu redor e o amor está sorrindo através de todas as coisas. Em outras, a falta de sensibilidade e a repetição de atos repulsivos chegam a ser o paradoxo da vida que pode se transformar e voltar atrás.

E no fim, age de forma dual, assim como Clarisse Lispector, ele se finda “Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre”. Por quê? Ele não parece se importar para onde segue a vida. Não há em nenhum traço de preocupação em agradar só por aquele instante, com o seu sopro. Afinal, ele não quer ser um sujeito legal, quer ser quem ele é, aceita que o desprezem, mas exige que façam a sua vontade.

Penso que todos somos diferentes, temos segredos, manias, verdades, mentiras, disfarces, enfim, segunda pele. Todavia, alguém pode dizer: Ele tem máscara. E a pergunta deve ser: Quem não tem? Conheço pessoas agradáveis, com inúmeras qualidades, ponderadas, equilibradas, com reservas, que não incomodam o outro, mas desagradáveis porque não há verdade. E outras pessoas, tão desagradáveis, cheias de personalidades, inconvenientes, perniciosas, mas inegavelmente com as suas verdades, mesmo sem respeito às regras da civilidade.

Como se pode passar uma vida procurando a ocasião, representa  Contardo Calligaris, em seus comentários provocadores:”Quando desistimos da nossa singularidade para descansar no comportamento de grupo, aí está à origem do mal”.

Ou algo próximo a uma frase que encontrei na série Revenge: “Existem dois lados de toda história, existem dois lados de toda pessoa. Um lado que revelamos ao mundo e outro que mantemos escondido dentro de nós mesmos. Uma duplicidade governada pelo balanço da luz e da escuridão, dentro de cada um de nós existe a capacidade para o bem e para o mal […]”.

E só, assim, aqueles que estiverem hábeis para manchar a linha divisória, possuirão o poder verdadeiro. E a vida seria então um acordo do meio termo. Anjo ou demônio. Seria uma constante dualidade para criar sentido. Seria a possibilidade de a cada esquina arrancarmos o que não nos serve e encontramos uma vida paralela ou quem sabe a real.

Talvez até destruir as evidências das diferenças dos  elementos em comum, que nos levam a considerar a hipótese da existência da verdade. E a vida poderia ser um oscilar de uma forma regular ao longo da eternidade, seja para o lado esquerdo ou direito, vivenciando a verdade ou  a mentira. Dependendo, assim, do julgamento e das crenças de cada um.

Pode ser que a desconstrução não leve direto as estrelas, mas sempre leva algum caminho. Não conheço um Sansão que não passou a ter cabelos, agora, cuidados por um profissional ou um Davi que não desmiolou algum gigante, levando-o ao divã. Ainda vai doer, mas de maneira bem diferente. Penso que Virgínia Woolf foi felicíssima na frase: ”Estou perdendo as minhas ilusões, talvez, para adquirir outras novas.”

E se mutiladas por pontos de suspensão, raquíticas de elipses, o casulo da mariposa seria o pernicioso, seria a vaquinha do presépio, o saco no trabalho,  a pressão da sociedade, o amor que não foi privilegiado, a mentira que se fez verdade, a maldade silenciosa, a amizade desfeita,  a promessa não cumprida,  a metade da felicidade.

Talvez seja descobrir que nem sempre saberemos quem somos nós, como Umberto Eco em  “O Pêndulo de Foucault”:
“No mundo há os cretinos, os imbecis, os estúpidos e os doidos.
– Falta alguém?
– Sim, nós os dois, por exemplo. Ou pelo menos eu, sem ofensa. Mas em resumo, vendo bem, seja quem for pertence a uma destas categorias. Cada um de nós de vez em quando é cretino, imbecil, estúpido ou doido. Digamos que a pessoa normal é a que mistura de maneira razoável todos estes componentes, todos estes tipos ideais. “

O passado que a vida traz

“Queria endurecer o coração, eliminar o passado, fazer com ele o que faço quando emendo um período — riscar, engrossar os riscos e transformá-los em borrões, suprimir todas as letras, não deixar vestígio de ideias obliteradas”. (Graciliano Ramos)

Em um final de novembro, num piscar de olhos, lutando contra a dualidade do amanhã, ele chega e faz tudo parar. Tranquilo, precisa de um sentido, move-se sem fantasia, finge-se de verdade e se acomoda na forma humana sob a mesma colina. Chega bem perto, apenas para ser revivido. Talvez venha me ferir antes do final do dia.

É o passado que reconhece o seu lugar. Penso que para ele a chegada é mais uma diversão, visto que não pediu explicações sobre como me senti com a sua trégua. Como um leitor e as minhas palavras, fico entre voltas, aguardando as lágrimas e a solidão como em um final de domingo.

Lembro que tentei lutar contra ele e fiquei por um longo período anunciando o fim de uma dor. Roubei uma chave da sensibilidade ao esconder a minha posição e já tinha percebido as suas luzes se apagarem depois da cena. Pensei ter acendido um novo fogo para brilhar no escuro, mas o quarto ao lado girava com a sua sobrevida.

Não sei nesse momento o que faço para ele não durar a noite inteira e não consigo levantar voo. Cara a cara eu poderia dizer algo, mais ou mesmo como me sinto, mas não teria outra forma, que não parecesse o silêncio, uma dor ou uma justificativa. Logo, caminho para mais uma ilusão persistente.

Sinto que o coração bate e a voz na minha cabeça grita como um tumor que poderia ter sido extirpado pela sua inadequação aos órgãos vitais. Sinto que ele devia ter sido tomado pela quimioterapia porque ele machucou de verdade, mas no escuro da plateia, ele se hospeda. Não sei o que significa, mas sei que é forte essa sensação do estar voltando.

Percebo a hora de abrir os olhos, mas estou presa no mesmo lugar. Digo que tenho que ir, mas ele segura as minhas mãos. Povoa a minha solidão e sinto que estou do mesmo lado em uma história em que ele poderia ter sido um texto encerrado. Ele já roubou a minha estrela e foi uma conversa silenciosa. Todavia a sua luz brilha para sentir o vento e me desconstrói sem nada de trivial. Não é bem vindo, mas traz a saudade de recordações nada abstratas.

Ele nunca me fez me sentir bem, não me fez me sentir segura, mas não se sente deslocado na realidade que já é minha. Não estou cega, sob pressão, sem esperança, mas ele se enterra sob as almofadas com intimidade e alcança o campo mais estreito que é a minha fragilidade, a minha compaixão, a minha rendição.

Fecho os olhos, mesmo sem tempo para dormir, mas ele flui para fora do meu corpo e alcança a minha alma. Eu não quero ficar acordada, mas ele continua lá com o peso de uma tonelada de tijolos. Talvez eu consiga aliviar a dor, mas agora o entendo e estamos tão próximos e distantes. Novamente ele parte o meu coração, mas não há tempo a perder e não há folga ou limite para o seu esquecimento.

Naquela tarde como tantas tardes havia claridade demais na janela. Nada semelhante ao que sonhei para esse final de ano e se pudesse teria mergulhado até o cair das nuvens, sem convites para o jantar.  Todavia, ele se acomoda no meu monólogo e do nada acorda no concreto e não se preocupa com a gravidade.

Difícil encontrar quem não tenha um passado digno de não ser ajustado, como uma calça larga saruel que por si só é um colete a prova de balas contra qualquer cintura.

Às vezes eu penso que o passado nunca foi a condição certa para mim. Às vezes o vejo como a submissão que chegou ao fim.  Às vezes penso nos momentos em que o passado me ferrou e por onde ele andou por toda a minha vida.

Não quero viver dessa maneira, sendo ele alguém apenas a quem eu conheci. Já estive em todos os lugares procurando aniquilar o passado. Mas admito que por ele fiquei sem luz, correndo atrás do sol, mesmo quando senti que não fazia mais  sentido.

O passado estava de frente, sem permitir espaço para um novo começo ou para o luto que já tinha chegado à fase final da aceitação, distanciando-se da prisão sem clemência. Grito e quando a luz do dia está apagando, ele começa a brincar no escuro como se fosse a rosa perdida. Não escuto uma palavra do que ele diz. Ele se atira em mim e eu me levanto. Sou a prova de balas.

Nesse momento, gostaria de ver o passado como uma cidade fantasma, além de mim, mas só  o percebo como algo que não faz sentido, mas não tem como ser aniquilado. Atiro nele, mas ele não cai como uma página virada, pois mesmo com o final do texto, a história continua.

Na madrugada, reflito que a chegada do passado é como um desejo passageiro que não se sustenta e que pode até apresentar um prólogo com um brilho sem fim, mas sua presença é só uma imagem que de tanto sentimos, já não há vida ou já não o vemos como tsunami. Concedo perdão ao passado e ele se distancia da mente.

Recordo que se esquecermos do passado, outros virão. Afinal ele é só um rosto sem expressão nova. Ele é parecido conosco porque ele é transparente ou se acomoda entre cortinas, pois nunca ficará sem vontade de nos atropelar e matar. Mas deve ser um espaço para se meditar, perdoar e mudar, sem ficar condenado a revivê-lo.

Para mim só escrevendo e respeitando a história, posso não me livrar do passado, mas evitar que não haja a escolha de viver o dia. Talvez eu não possa mudá-lo, mas posso ajudar a minha natureza humana a me salvar e lidar com as minhas fraquezas por milhões de anos.

E a vida se segue como uma página virada, mas não arrancada. Aprendendo ou desaprendendo com o passado ele será só uma verdade inabalável sem possibilidade de mudança. E como diz Pablo Neruda:  “..Saudade é amar um passado que ainda não passou. É recusar um presente que nos machuca. É não ver o futuro que nos convida…”

Homem, Mulher Girafa ou Mulher Satélite?

“Entre um homem e uma mulher não é possível haver amizade. É possível haver paixão, hostilidade, veneração, amor, mas amizade, não.”  (Oscar Wilde)

O homem precisava de uma mulher indubitável para o ofício do amor. Havia a necessidade de distinguimos o macho da fêmea. No período, os princípios religiosos e éticos determinavam que a presença de um homem perante as mulheres culminava no sexo fora do casamento ou na supremacia da tirania do mais fraco sobre o mais forte. Penso que era um argumento totalmente racional para a época, visto que uma das discussões recorrentes era a motivação hormonal masculina para traição, lascívia, mentira, desejo de privacidade ou mesmo a irredutível incomunicabilidade entre os gêneros.

Claro que os certames dos livros de filosofia  ajudavam a promover os mitos, em especial,  que o homem não gostava de encontros com mulheres que não fossem as suas esposas; exceto quando esses encontros fossem casuais, visto que o gênero era um autêntico equilibrista entre afeto e limites.

Por um lado,  a questão das diferenças pode ter sido o elemento de desconforto para o surgimento do feminismo, principalmente frente à cultura de que o homem projeta a mulher  ideal para ser a mãe dos filhos. Isso baseado no mito de que ela não deve apresentar sinais de instabilidade e lembrar o conforto do seio materno.

Na falta de evidências empíricas, essa condição se aplicaria a cultura coletiva que reforça a atribuição às mulheres, das fragilidades e complicações da relação. Mas será que tudo se resume ao instinto maternal, assegurar uma família composta de padrões e ceticismo morfológico ou a lógica em que tudo se resume as contas pagas, a casa construída e ao amor do “Esse cara sou eu”.

Por outro lado, para compreender a profundidade das diferenças, é preciso também entender um pouco de conceitos avessos sobre o acasalamento, religião e biologia. A bíblia  apresenta a mulher como parte da costela de Adão, mas a ciência apresenta o feto masculino como o fruto de um esforço genético à medida que concorre contra o desenvolvimento do feminino e só após seis semanas de concepção, se o cromossomo Y não produzir uma determinada proteína, um feto feminino terá presença garantida. Ironicamente, seria o homem gerado a partir da obra do destino feminino.

Essas questões deixam claro que desde os primórdios dos nossos antepassados, busca-se identificar diferenças entre os gêneros, seja pela crítica ao essencialismo feminismo que descreve que há uma natureza específica da mulher, seja pelo fato de se afirmar que os meninos são inclinados a comportamentos típicos do gênero masculino, principalmente os que maximizam as necessidades de intelectualidade, competitividade e sentimentalidade.

Sem a possibilidade de escolha, meninos deveriam escolher brincar com meninos e acreditarem que não há sentido nos momentos de amizades intersexuais. Menina teria que comprar esmaltes com glitter, determinado, assim, uma espécie de Código da Vinci dos encontros e desencontros entre gêneros.

Carlos Drummond de Andrade pontuou em certa ocasião a questão da apreciação e julgamento dessas diferenças em “A solidão do Girafo”: “[…]não resta dúvida que, democraticamente, a moça girafa tem direito de escolha, e pode não ir contigo e com teu focinho…”

Penso que mesmo que não existam muitos homens girafos, a mulher girafo não quer privilégios. Mesmo calada, não é sigilosa.  E mesmo na solidão, a moça girafo entende que “cada um de nós há de sentir-se estimulado a crescer no mínimo alguns centímetros em dignidade cívica, abnegação, amor à verdade”.

Não poderia deixar destacar que a ditadura dos mitos lembra a Cinderela e a busca pelo príncipe que assume a perfeição nos seus sonhos platônicos. Por um lado, assume uma postura Nietzscheniana quando afirma que não deveríamos tentar deter a pedra abaixo. Por outro, a coletividade prefere o padrão de mulher Cinderela e esquece que cada indivíduo é uno e que não há singularidade.

Prefiro pensar que toda mãe nunca deveria vestir uma filha de Cinderela, com vestido de armação azul em dois tons e tiara na cabeça, ou seja, estabelecendo para menina todos os pré-requisitos do mito idealizado. Seria uma compra sem direito a troca e cheio de regras, com cara de coração, perfeita forma de bombom serenata do amor. Seria invalidar que cada um é motorista do seu ônibus. Seria a transferência de responsabilidade sem aviso prévio.

Conheço mulheres independentes, resolvidas, defensoras de suas idéias, mães adoráveis, mas que sonham com um grande amor e terminam insistindo nos mitos. Algumas delas vão ao cinema, viajam ou almoçam sozinha, mas sempre duvidam que o conto não é verdadeiro e terminam a noite com a verdade individual e solitária: “ele se apaixonou”. Talvez a grande verdade é que é melhor acreditar em um mito do que verdadeiramente duvidar de que ele não existe.

Na última semana, ouvi a definição da nova mulher Cinderela, que seria a mulher-satélite que vive na órbita alheia e encontra o homem sol. Quando recebe a primeira mentira, não pergunta pelo fim, apenas fica presa a uma relação inexistente e termina amando mais a ausência do homem do que a sua presença. Seria o mito moderno de viver e girar em mudanças radicais pelo sol alheio.

Diferenças existirão no pensamento, anatomicamente, mas antes de se frisar os mitos entre sexos, deve-se pensar em diferenças entre vidas e conviver com a proposta de Aristófanes: “será ele uma figura andrógina, com uma metade feminina e outra masculina.” Penso que devemos ter um pé firme na vida, entendendo as mudanças e quebrando os mitos que os apostos se atraem, independente de diferenças entre os gêneros.

Assim, “qualquer tentativa de negar a existência de uma essência no homem ou na mulher deixa-nos num beco sem saída para o sexo que estiver no lado oposto (Robert Scholes, in Naomi Schor e Elizabeth Weed, 1944, p.127)”.

O fim é dono da liberdade e dos protocolos

“Fazemos seguro de tanta coisa… do carro, da casa, de vida, mas não nos preparamos para os últimos anos de nossas vidas.” (Jeanne no filme francês “E se vivêssemos todos juntos?”, dirigido por Stéphane Robelin)

Mais do que uma obra de caráter intimista, essa frase expressa não só o ciclo da vida ou alguém atormentado por seu passado ou pleno da desilusão de nil admirari, mas reconhece a própria fragilidade de que não encontraremos um sentido nos últimos anos na vida se a concebemos apenas sob o aspecto de um único propósito, sem novas perspectivas.

O filme “E se vivêssemos todos juntos?” apresenta o contexto da chegada do envelhecimento em que cinco amigos há 40 anos – Annie (Geraldine Chaplin), Jean (Guy Bedos), Claude (Claude Rich), Albert (Pierre Richard) e Jeanne (Jane Fonda) – decidem passar os últimos dias de sua vida juntos, após encontrarem Claude internado em uma casa de repouso. Juntos decidem refletir sobre os que os move à medida que não se trata de se ocuparem diretamente com suas próprias ideias ou sentimentos, mas de se protegerem sobre o que virá, ou seja, da ameaça do perecer.

Expõe o fraquejar, a sensibilidade e o sofrimento que vem à tona, contrariando a lógica que quando o melhor que um homem pode ser, apresenta sê-lo necessariamente por si mesmo.  Freia a tese de que é possível percorrer a vida do modo mais agradável possível, sem a lembrança do futuro previsível que é a morte.

Sempre penso no paradoxo do resgaste da dignidade quando há tanto limites físicos quanto emocionais, quando há a dor, há a traição e há a fragilidade da memória. Penso, também, na opção do que é importante lembrar e o que é decisivo esquecer no fim.

Ao pensar no fim, se poderá compreender que é possível eliminar da varanda aqueles pegadores antigos que não prendem mais e só proporcionam ferrugem. Talvez, exigir esclarecimento do tempo, mas desejando ou não, o recuo da incerteza deveria ser possível e com chance para desfazer  o irreversível.

Penso que viver não tem sido fácil e não se torna simples esperar pelo inevitável, visto que, mesmo confinados à nossa própria consciência, uma existência inteira pode se reduzir aos fantasmas do passado ou as mãos do destino, dependendo daquilo que somos ou da nossa individualidade. Particularmente das reflexões serenas em meio a sentimentos fúteis.

Desse modo, o problema da expectativa da morte é que ela não dá um tempo. Ela não se esforça para chamar atenção, mas está sempre presente. Ela entra sem pedir licença e sai sem despedir. Ela quer existir e tenta prolongar o seu domínio no dia. Ela é totalmente descontrolada com os seus horários. Ela não manda recado ou permite um tempo para se acostumar. A morte não quer saber as nossas respostas e despreza as nossas avaliações ou justificativas.

Essa é exatamente a diferença descrita por Schopenhauer no livro “Aforismos para a Sabedoria de Vida”, em que a única coisa que permanece ao nosso alcance é tirar o máximo proveito possível de nossa personalidade e, portanto, seguir apenas aquelas tendências com as quais está de acordo, lutando pelo tipo de desenvolvimento apropriado, evitando todo o mais; consequentemente, todo o resto lhe é insignificante.  Ele explica que na velhice “o tempo corre mais rapidamente e traço fundamental e característico da velhice é a desilusão;pois desapareceram as ilusões que até então davam à vida seu encanto e à atividade seu aguilhão”.

Assim, veríamos confirmadas as palavras de Shopenhauer: “[…]a vida humana, propriamente falando, não pode chamar-se nem longa nem curta, porque, no fundo, é a escala com que medimos todas as demais dimensões de tempo. Para andar pelo mundo é útil levar consigo uma ampla provisão de circunspeção e de indulgência; a primeira nos protege contra os prejuízos e as perdas, a segunda contra disputas e querelas”.

Penso também que ao reconhecermos as nossas debilidades, evidenciamos um elogio à vida, que deve ser a glória e o mérito pelo qual a alcançamos, vivida da melhor forma possível, até o inevitável fim. Por um lado, o tempo não tem piedade e não é justo, pois  não auxilia na espera do amor ideal e não ajuda na esperança do esquecimento antecipado. Ele não dá espaço para a repetição. Ele não permite que as ondas da solidão se retraiam para encontrar no tempo o que realmente se precisa. O tempo não permite um fim de semana com caráter de anuidade.

Por outro,  o tempo não permite a possibilidade do diálogo quando o outro simplesmente não quer ter nem um segundo para se despedir. Estranho, mas o tempo cobra a decisão sem remorso e não volta pedindo perdão pelo o que passou ou se foi. Exatamente assim, sem se comprometer, sem criar vínculos, sem encarar as vítimas do atraso.

Não bastam as metáforas. O fim é um protegido de Deus, está sempre na frente e sem querer, ultrapassa o momento e deseja decidir a minha e a sua vida. Ele não permite ser ator coadjuvante. O fim não se limita a ser uma medida, de ser marcado ou de ser esquecido. Ele é sempre a referência.

O fim não permite isenção ou desculpa de esquecimento. O fim não permite a primavera chegar primeiro e não avisa ao inverno que não é mais o tempo do frio e da chuva. O fim não permite o verão continuar e o outono se ampliar. A verdade é que existimos para lhe dar satisfações. Ele dono da liberdade e dos protocolos. Afinal, passado, presente e futuro são irmãos gêmeos, sem erros ou coincidências.

O fim não permite a chance de escolher. Penso em uma existência sem recorrer a uma medida falsa e isso concorda com a passagem de  Aquarela de Toquinho:”… o futuro é uma astronave que tentamos pilotar. Não tem tempo, nem piedade. Nem tem hora de chegar. Sem pedir licença muda a nossa vida e depois convida a rir ou chorar…”

E parodiando Mário Quintana: “[…] quando se vê, já são seis horas! Quando de vê, já é sexta-feira! Quando se vê, já é natal… Quando se vê, já terminou o ano… Quando se vê perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê passaram 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado… Se me fosse dado um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas… “