Contar e medir

O primeiro exercício matemático da Humanidade e único durante muitos séculos foi, sem dúvida, o exercício de contar. Na pré-história, o homem escondido em sua caverna, marcava nas paredes pequenos traços verticais, um por cada inimigo morto ou por cada animal abatido ou por quaisquer outras “coisas” do seu interesse. Criou assim o conceito abstrato da “unidade”, um traço por cada “coisa”, o número 1 indivisível. Mas não era suficiente, precisava contar quantos traços tinham sido feitos, ou seja, era preciso criar símbolos para os grupos seqüenciais que se formavam. Um fato natural veio em sua ajuda. Os cinco dedos da sua mão. Um, dois, três, quatro dedos e por último, todos os dedos de uma mão, o número cinco. Tendo isso como base, era possível contar e transmitir para os outros, quantos traços tinham sido marcados. A atuação do homem primitivo consistia portanto na definição de dois conceitos básicos seqüenciais que se somam, o de contar as unidades, isto é, contar os elementos de um conjunto, e o de medir as quantidades contadas. Desta forma a estrutura básica dos sistemas numéricos estava montada, servindo como modelo para todos eles. Vejamos a aplicação feita pelos romanos. Primeiro as suas regras de composição dos números. A leitura dos números romanos faz-se da esquerda para a direita, como aliás ocorre com os números decimais. O valor de cada algarismo é posicional. Um exemplo, os três primeiros números são representados por traços verticais, um traço, dois traços, três traços. Depois “pula” para o número cinco representado por um V. Em seguida os números 4 e 6 são números compostos. A regra é: quando, na leitura, o número menor estiver antes do maior, o número representado é o que resulta da subtração, o maior menos o menor. No caso do número menor estar depois do número maior, então o número resultante é o da soma dos dois. Temos portanto IV que é 4 e VI que é 6. Esta regra é geral para todo o sistema. Exemplo, X é o símbolo de 10, IX é 9 e XI é 11. A numeração romana utiliza letras símbolo para representar as potências de 10, (10, 100 e 1000), e os “cincos” intermediários, (5, 50 e 500). Estes símbolos, ainda hoje em uso, são com os correspondentes números inteiros positivos: I (1), V (5), X (10), L (50), C (100), D (500) e M (1000). Com as regras de composição e com as letras símbolo, os romanos montaram todos os números que necessitavam. Reparem que eles não tinham o zero pois não precisavam dele. O seu sistema não é decimal, não existe nenhum símbolo para o zero.
Os números por vezes parecem ter algo misterioso. Mas não é verdade, os matemáticos dizem que não existe lei matemática que não possa ser demonstrada. Vejamos um exemplo. Com três algarismos quantos números podem ser montados? Suponhamos 1, 2 e 3. O total de números que podem ser obtidos é igual ao produto dos seus algarismos, ou seja, 1x2x3=6. São eles 123, 132, 213, 231, 312, 321, total 6 números. Quer dizer, o total de números que é possível montar com “n” algarismos, chamado “n fatorial”, é o produto desses “n” algarismos. A sua denotação é “n!”, um “n” seguido do símbolo igual ao ponto de exclamação da linguagem corrente. Por que isso? Porque no produto a ordem dos fatores é arbitrária, isto é, o resultado do produto é sempre o mesmo. Se é assim, o produto representa o total de combinações possíveis dos seus algarismos. Este exemplo tem uma simplificação que pode induzir a erro. Se disser que os algarismos são 3, 7, e 9 ou outros quaisquer, o total de números possíveis é também o seu produto? Claro que não. No primeiro caso os algarismos 1,2 e 3 apresentam a ordem dos números naturais, 1 em primeiro lugar, 2 em segundo e 3 em terceiro. Quer dizer, os algarismos já formam um número ordinal, isto é, apresentam a ordem de uma seqüência, ponto de partida para as combinações. No segundo caso não é assim. É preciso fazer a correspondência um-a-um do conjunto dado, enumerável e finito, com o subconjunto 1,2,..,n dos números naturais. Esta correspondência biunívoca, a bijeção – correspondência nos dois sentidos  – forma um número cardinal que permite obter as combinações dos seus elementos, 3 em primeiro lugar, 7 em segundo e 9 em terceiro. Trocando agora os algarismos de lugares obtemos todos os outros números, cujo total continua sendo 6.

Fico por aqui. Até à próxima.

Cidade verde e sustentável: Ecópoles de Dongtan e Masdar

As cidades são consideradas por muitos como verdadeiras vilãs do meio ambiente e concentram as maiores fontes de poluição e desperdício do Planeta. Algumas pessoas defendem à volta ao meio rural e a reversão da transição urbana que já colocou mais da metade da humanidade vivendo em cidades. Contudo, as cidades podem, cada vez mais deixar de serem problemas para se tornarem solução. Já existem alternativas e projetos de cidades verdes e sustentáveis, ou ecópoles, como as cidades de Dongtan, na China, e Masdar, em Abu Dhabi.

Primeiro exemplo: o governo de Xangai está tentando erguer um projeto inovador em Dongtan, no sentido de  tornar o local uma cidade totalmente ecológica. Localizada na ilha de Chongming, que possui 86 quilômetros quadrados de área, semelhante à de Manhattan, em Nova York. A cidade de Dongtan pretende ser auto-suficiente em energia e água e utilizar somente fontes alternativas e renováveis de energia, como solar, a força dos ventos, além de biogás e de biomassa. O transporte não permitirá os veículos tradicionais à combustão, mas sim bicicletas e motos movidas a bateria ou carros à base de hidrogênio e outras energias alternativas. Apenas 7 minutos de caminhada separarão as casas da infra-estrutura da cidade, como escolas, hospitais e transporte público. Cerca de 80% do lixo deverá ser reciclado e os dejetos processados e reutilizados como adubo.

Segundo exemplo: nos Emirados Árabes, o governo de Abu Dhabi está constuindo a cidade considerada a mais verde do mundo, chamada Masdar (“A cidade fonte” em árabe). A cidade foi concebida para ter: carbono zero, zero de resíduos e a não existência de carros. A eletricidade será gerada por energia solar e eólica, a água será fornecida através de processos de dessalinização e o paisagismo será feito com água residuais produzidas pela cidade. A maioria das ruas da cidade, por exemplo, terão apenas 3 metros de largura e 70 de comprimento para facilitar a passagem do ar e incentivar a caminhada. Segundo os idealizadores do projeto, a construção da cidade de Masdar foi concebida para atender 10 princípios de sustentabilidade:

1)    100% da energia fornecida virá de fontes renováveis;
2)    99% dos resíduos serão reutilizados, reaproveitados ou usados de maneira ecologicamente correta;
3)    O transporte da cidade será inteiramente público e sem emissão de carbono;
4)    Só será usado material ecologicamente correto, como recicláveis e materiais certificados;
5)    Apenas alimentos biológicos e orgânicos farão parte do cardápio de Masdar;
6)    Consumo de água será reduzido em 50% da média mundial e todas as águas residuais serão reaproveitadas e reutilizadas;
7)    Haverá preocupação e cuidado com as espécies (fauna e flora) locais;
8)    A arquitetura integrará os valores locais;
9)    Bons salários e condições de trabalho para todos, conforme definido pelas normas internacionais do trabalho;
10)    Investimentos na qualidade de vida e eventos para todos os tipos de habitantes.

Ainda falta um longo caminho para estes projetos visionários se tornarem realidade e uma referência para as demais cidades do mundo. Mas só a concepção e a tentativa de se construir ecópoles – que pretendem ter emissão zero de carbono – já é um passo à frente, significando uma esperança para que um dia, junto com mudanças culturais e nos hábitos de consumo, possamos ter uma sociedade que tenha como base uma economia urbana verde, limpa e sustentavel.

Referencias sobre Masdar e Dongtan
http://www.energiaeficiente.com.br/tag/masdar/
http://www.masdar.ae/en/home/index.aspx
http://www.youtube.com/watch?v=yWVsi0UtmgI
http://planetasustentavel.abril.com.br/noticia/cidade/conteudo_253920.shtml
http://www.youtube.com/watch?v=wvaCOExhHhE

A Pastoral da Criança e a redução da mortalidade infantil

Uma das obras sociais mais impactantes da Igreja Católica no Brasil foi a criação e o engajamento da Pastoral da Criança no trabalho de redução da mortalidade infantil no Brasil. Quando a Pastoral foi criada, em 1983, as taxas de mortalidade infantil no Brasil estavam em torno de 62 por mil. Atualmente morrem em torno de 20 crianças para cada mil nascidas vivas. A queda foi significativa, especialmente se consideramos que na década de 1980 houve redução na renda per capita do país e na década de 1990 o crescimento econômico foi muito baixo, mantendo alta proporção da população brasileira na pobreza.

Evidentemente são muitos os determinantes da redução da mortalidade infantil: o aumento do nível educacional dos pais, em especial das mães, as melhores condições de saneamento e higiene, o maior acesso à água tratada, a queda da fecundidade e o aumento do espaçamento entre os nascimentos, o aumento da segurança alimentar, etc.

Porém, o envolvimento da Igreja Católica em ações concretas para salvar vidas de crianças foi uma fator que acelerou o processo de transição da mortalidade infantil. O papel da médica pediatra e sanitarista Zilda Arns foi essencial. De sua participação e determinação foi criada a Pastoral da Criança que é uma organização não-governamental vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). A idéia central utilizada pela Pastoral foi mobilizar voluntários para acompanhar o desenvolvimento das crianças pobres, orientar as mães, coordenar a produção de uma multimistura (complemento alimentar conhecida como “farinha milagrosa”) e uma ampla campanha de aleitamento materno.

As ações da Pastoral da Criança no sentido da promoção do desenvolvimento infantil e a melhoria da qualidade de vida só foram possíveis graças ao uso do trabalho voluntário. Segundo o site oficial da organização: “Mais de 261 mil pessoas acompanham mais de 1,8 milhão de crianças e 95 mil gestantes em mais de 42 mil comunidades de 4.066 municípios brasileiros. As ações dessas pessoas ajudam a reduzir a desnutrição, a mortalidade infantil e ainda promovem a paz e a justiça social nos grandes bolsões de pobreza e miséria do país. Todo trabalho tem como base a solidariedade e a multiplicação do saber. O resultado é a promoção humana e o fortalecimento do tecido social das comunidades. Na Pastoral da Criança, cada líder voluntário dedica, em média, 24 horas ao mês a esse trabalho. No Brasil, foram realizadas 21.341.982 visitas domiciliares em 2007” (http://www.pastoraldacrianca.org.br/)

O método de atenção às gestantes pobres e às crianças desnutridas, proposto por Dona Zilda Arns, passou a ser adotado em vários países da América Latina e da África. Por essa razão ela se encontrava no Haiti em sua missão de salvar vidas, mas por capricho do destino, perdeu a sua própria vida se doando ao trabalho altruísta. Ela nos deixa, de herança, o sonho de salvar vidas por meio de ações comunitárias e voluntárias da sociedade, sem deixar de considerar as obrigações do Estado e o papel do Terceiro Setor em ações de responsabilidade social.

A Dra. Zilda Arns nos deixa, antes de tudo, um exemplo de atuação social voluntária com a comunidade e pela comunidade e a crença de que a mortalidade infantil não é uma fatalidade imposta por desígnos superiores, mas sim um problema de saúde pública que pode e deve ser resolvido com a união de todos e a vontade geral. A trágica morte de Zilda Arns não impedirá que milhares de vidas continuem sendo salvas e que a infância seja valorizada em todo o mundo, inclusive no Haiti.

São Paulo e o Pensamento Selvagem: ontem e hoje

___O genial Claude Lévi-Strauss, em sua obra La Pensée Sauvage (O Pensamento Selvagem), descartou a preconceituosa visão de que o modo de pensar da Civilização Ocidental era “mais evoluído” do que o “pensamento dos selvagens”. Ele colocou o modo de pensar de toda a Humanidade em pé de igualdade, sem se importar se quem abstrai é herdeiro da Antiguidade Clássica e do Iluminismo ou um indígena “não-civilizado”.
___A visão de mundo contra a qual Lévi-Strauss lutava foi exatamente o que levou os jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta a fundarem, há exatos 456 anos, o colégio que deu início à vila de São Paulo de Piratininga. Os padres queriam catequizar os indígenas, queriam levá-los para “A Verdadeira Fé”. Em suas crenças e dogmas, os religiosos viam a mentalidade e os costumes indígenas como uma não-cultura, como um pensamento errado, algo afastado da via correta. Nada mais natural, portanto, que muito do conhecimento dos nativos tenha se perdido.
___Foi algo muito ruim? Provavelmente, sim. Foram perdas completamente irrecuperáveis. Mesmo assim, é bom ficar atento: julgar todas as atitudes dos jesuítas segundo nossa atual visão de mundo, é incorrer em um erro quase tão bizarro quanto o dos religiosos para com os nativos. Fazer isso aqui, sem grande reflexão, seria quase que desrespeitoso com as ótimas ideias do homem que inspirou o nome deste portal.
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P.S.: Ressalva feita no texto principal, indico, de fora do portal O Pensador Selvagem, o lindo “São Paulo, 456: uma longa história de exclusão”, do admirável Leonardo Sakamoto.

Revolução Verde e a redução da Pegada Ecológica

Segundo o relatório Planeta Vivo da organização WWF (2008) “Nossa pegada ecológica global excede, hoje, em cerca de 30% a capacidade de regeneração do mundo. Se nossa demanda continuar nesse mesmo ritmo, em meados de 2030 precisaremos de dois planetas para manter nosso estilo de vida”.

Diante deste quadro assustador, as perguntas  que se colocam são: 1) como diminuir a pegada ecológica do mundo ao mesmo tempo em que sabemos que a população do planeta deve atingir 7 bilhões de pessoas até 2012 e 9 bilhões de habitantes em 2050?; 2) como garantir o “direito ao desenvolvimento” dos países e a geração de emprego e renda? 3) como diminuir o consumo global se o mundo tem mais de um bilhão de pessoas passando fome e alguns outros milhões na pobreza e que demandam mais educação, mais saúde, mais e melhores moradias e maior número de bens de consumo como fogão, geladeira, televisão, bicicleta, motos, carros, etc?

Evidentemente as respostas para estas perguntas complexas não são simples. Mas um caminho inicial (outros caminhos serão discutidos em outros artigos) passa necessariamente pela mudança da matriz energética e a redução da emissão dos gases de efeito estufa que provocam o aquecimento global e agravam a pegada ecológica. O uso do petróleo e do carvão (energia fóssil) é um dos componentes que mais contribui para o aumento da pegada ecológica e para a incapacidade de regeneração do Planeta. O mundo cresceu no último século explorando uma fonte de energia não-renovável e poluidora.

Porém, a Terra oferece fontes limpas, abundantes e renováveis de energia que não são utilizadas adequadamente e não afetam negativamente a pegada ecológica. A irradiação do sol fornece 10 mil vezes mais energia do que a utilizada atualmente pela humanidade. A força dos ventos sozinha é capaz de mover, com sobra, toda a economia mundial.

Diversos países já perceberam que precisam abandonar a dependência do petróleo e do carvão e precisam reduzir a emissão de CO2 e demais gases que provocam o efeito estufa e o aquecimento global. A despeito do fiasco das negociações da COP/15 em Copenhague, os investimentos em fontes alternativas de energia e no processo de descarbonização do sistema produtivo já começou.

Uma das grandes novidades na área de energia tem vindo da China. Segundo Thomas Friedman (NYT, 09/01/2010 – ver a referencia do artigo abaixo traduzido no Estadão) o país mais populoso do mundo pretende liderar a Revolução Verde na área de energia. Em parte, esta preocupação do governo chinês decorre de uma questão de segurança energética. Mas parece que os dirigentes chineses perceberam que a Revolução Verde na área de energia é o caminho para reduzir a emissão de CO2, gerar empregos verdes, combater a pobreza, manter o desenvolvimento econômico, elevar a qualidade de vida da população e colocar o país na liderança da economia mundial.

A China saiu do seu modelo maoista de comunas socialistas com baixíssimo consumo, para uma sociedade consumista, altamente dependente de energia fóssil e poluidora. O novo modelo chinês privilegia o desenvovimento e o consumo e, neste sentido, existe uma dúvida se o país está no limiar de uma nova era ou em uma encruzilhada, cabendo as seguintes perguntas que só poderão ser respondidas no médio e longo prazo: Será que a China conseguirá elevar o consumo da sua imensa população e reduzir a emissão de carbono e seus efeitos sobre o aquecimento global? Liderar a revolução verde no setor de energia vai contrabalançar a alta exploração dos recursos naturais? Qual será o efeito líquido do aumento simultâneo do consumo e da redução da emissão de gases de efeito estufa sobre a pegada ecológica da China? Em que medida a revolução verde na área de energia poderá contribuir para a redução da pegada ecológica em outros países e na média mundial?

Referencias:
Relatório Planeta Vivo 2008
http://assets.wwf.org.br/downloads/sumario_imprensa_relatorio_planeta_vivo_2008_28_10_08.pdf
http://assets.panda.org/downloads/lpr_2008_portuguese_final_lores_2_.pdf

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Definição de Pegada Ecológica segundo o WWF-Brasil

“A Pegada Ecológica de um país, de uma cidade ou de uma pessoa, corresponde ao tamanho das áreas produtivas de terra e de mar, necessárias para gerar produtos, bens e serviços que sustentam determinados estilos de vida. Em outras palavras,a Pegada Ecológica é uma forma de traduzir, em hectares (ha), a extensão de território que uma pessoa ou toda uma sociedade ‘utiliza’ , em média, para se sustentar.
Para calcular as pegadas foi preciso estudar os vários tipos de territórios produtivos (agrícola, pastagens, oceanos, florestas, áreas construídas) e as diversas  formas de consumo (alimentação, habitação, energia, bens e serviços, transporte e outros). As tecnologias usadas, os tamanhos das populações e outros dados, também entraram na conta.
Cada tipo de consumo é convertido, por meio de tabelas específicas, em uma área medida em hectares. Além disso, é preciso incluir as áreas usadas para receber os detritos e resíduos gerados e reservar uma quantidade de terra e água para a própria natureza, ou seja, para os animais, as plantas e os ecossistemas onde vivem, garantindo a manutenção da biodiversidade.
Composição da Pegada Ecológica
* Terra Bioprodutiva: Terra para colheita, pastoreio, corte de madeira e outras atividades de grande impacto.
* Mar Bioprodutivo: Área necessária para pesca e extrativismo
* Terra de Energia: Área de florestas e mar necessária para a absorção de carbono.
* Terra Construída: Área para casas, construções, estradas e infra-estrutura.
* Terra de Biodiversidade: Áreas de terra e água destinadas à biodiversidade.
De modo geral, sociedades altamente industrializadas, ou seus cidadãos, “usam” mais espaços do que os membros de culturas ou sociedades menos industrializadas.
Suas pegadas são maiores pois, ao utilizarem recursos de todas as partes do mundo, afetam locais cada vez mais distantes, explorando essas áreas ou causando impactos por conta  da geração de resíduos.
Como a produção de bens e consumo tem aumentado significativamente,
o espaço físico terrestre disponível já não é suficiente para nos sustentar no elevado padrão atual.
Para assegurar a existência das condições favoráveis à vida precisamos viver de acordo com a ‘capacidade’ do planeta, ou seja, de acordo com o que a Terra pode fornecer e não com o que gostaríamos que ela fornecesse. Avaliar até que ponto o nosso impacto já ultrapassou o limite é essencial, pois só assim poderemos saber se vivemos de forma sustentável”.
http://www.wwf.org.br/wwf_brasil/pegada_ecologica/o_que_e_pegada_ecologica/

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Quem é que dorme agora?
Thomas Friedman  
http://www.estadao.com.br/noticias/vidae,quem-e-que-dorme-agora,494956,0.htm

Candidatura Dilma

Em artigo da Folha de São Paulo (04/01/2010), o jornalista Melchiades Filho inicia as suas considerações com uma constatação: “É irônico que a possibilidade de pela primeira vez no Brasil uma mulher chegar à Presidência se deva exclusivamente ao capricho de um homem”. Ou seja, Dilma Rousseff, que nunca disputou uma eleição, só se impôs no PT e na coligação de forças políticas que apóia o atual governo devido “ao capricho” (vontade, compromissos administrativos ou clarividência?) do presidente Lula. Este é um dos grandes mistérios a serem investigados no futuro: por que Lula escolheu Dilma?

De fato, embora as mulheres sejam maioria do eleitorado brasileiro (já são quase 5 milhões de eleitoras sobre os eleitores), a participação das mulheres na política parlamentar é muito baixa, ficando abaixo de 10% na Câmara Federal e algo em torno de 12% nas Câmaras Municipais, nas Assembléias Legislativas e no Senado. Nos cargos do primeiro escalão do Executivo a participação é ainda mais baixa, sendo que havia 5 ministras no primeiro governo Lula e agora são apenas duas (Dilma e Nilcea). Portanto, é um tanto quanto surpreendente que as forças governistas (que são majoritariamente masculinas) estejam indo para uma difícil disputa eleitoral encabeçada por uma mulher.

Na verdade o presidente Lula, além de seus compromissos com a chefe da Casa Civil e a ex-ministra de Minas e Energia, deve ter percebido as diversas mudanças históricas acontecendo no mundo e nas Américas. Provavelmente ele percebeu que o continente Americano tem mudado por meio da ascensão das mulheres no Chile, com Michele Bachelet, na Argentina, com Cristina Kirchner e no próprio Estados Unidos, com Hilary Clinton. Sem dúvida, é crescente a participação das mulheres nos espaços de poder em todo o mundo. O presidente Lula deve ter percebido que o Brasil não poderia ficar atrás nesta onda de redefinição das relações de gênero nos cargos de poder.

Voltando ao artigo de Mechiades Filho, ele considera que uma candidatura feminina deve abordar, além de temas tradicionais como “câncer de mama, violência doméstica e distorções salariais”, novas frentes de discussão na campanha eleitoral como a pobreza que cada vez mais se concentra em famílias chefiadas por mães: “Das pessoas em situação de indigência no país, 33% vivem em domicílios liderados por mulheres (5,2 milhões de 15,8 milhões). Quinze anos antes, essa taxa era de 17% (5,5 milhões de 32,4 milhões)”. Sem dúvidas, existem muitos temas que devem ser tratados pelos candidados independentemente do sexo dos mesmos.

Por fim, uma mulher comandando as forças governistas numa disputa presidencial no país é uma novidade que não deve ser desprezada. Também a mudança na lei eleitoral deve ter um impacto para aumentar as candidaturas estaduais e federais. Independentemente dos resultados das urnas, em outubro, espera-se que os meses que antecedem as eleições sejam de debate e reflexão sobre a boa gestão pública, a melhoria das condições de vida da população e que as questões de gênero tenham um destaque que nunca antes tiveram na história dos 500 anos do Brasil.

O Haiti é aqui

Quando Caetano Veloso escreveu a letra de Haiti em 1993, imagino, não tinha a capacidade de prever a catástrofe social, política e econômica na qual o povo haitiano estaria imersa em 2010, tampouco a hecatombe natural promovida pelo terremoto da última semana, que acabou com a vida de 15 mil 200 mil 3 milhões pessoas e fez a ONU considerá-la “o pior desastre da história”.

Será? Seguem abaixo os 10 desastres naturais que mais ceifaram vidas na história.

10. Terremoto em Aleppo – 1138, Síria [Mortes: 230.000]

Aleppo fica localizada em um sistema de falhas geológicas ao norte do Mar Morto. É uma das cidades mais antigas do mundo e, hoje, a segunda maior da Síria. O terremoto foi o primeiro de uma seqüência de dois intensos tremores na região: de outubro de 1138 até junho de 1139, seguido por uma seqüência muito mais intensa de setembro de 1158 até maio de 1159.

A área mais afetada foi Harim, onde Cavaleiros Cruzados construíram uma grande fortaleza. Fontes indicam que o castelo foi destruído e que a igreja entrou em colapso. O forte de Atharib, então ocupado por muçulmanos, foi destruído. A fortaleza também desmoronou, matando cerca de 600 guardas.

9. Tsunami – 2004, Oceano Índico [Mortes: 230,000]

O Tsunami de 2004, conhecido entre a comunidade cientifica como “O Terremoto de Sumatra-Andaman”, foi causado por um terremoto submarino que ocorreu em 26 de dezembro de 2004, cujo epicentro foi a alguns quilômetros da costa oeste da Sumatra, Indonésia.

O terremoto desencadeou uma série de tsunamis devastadores ao longo da costa de quase todas as praias do Oceano Índico, matando um grande número de pessoas e inundando comunidades costeiras.

Estima-se que a magnitude do tremor gire em torno de 9.1 e 9.3 pontos. É o segundo maior terremoto jamais registrado na história. Sua força foi tamanha que fez o planeta inteiro vibrar cerca de um centímetro.

8. A Falha da Barragem de Banqiao – 1975, China [Mortes: 231,000]

A barragem de Banqio fora projetada para suportar 306mm de precipitação por dia. Em agosto de 1975, entretanto, choveu tanto que, em apenas um dia, a barragem acumulou a quantidade de água que deveria acumular em um ano. A eclusa não suportou a enchente.

Com o rompimento da barragem uma enorme onda com 10 quilômetros de largura e variando entre 3 e 7 metros de altura se formou e varreu as planícies em sua direção à 50 quilômetros por hora.

A onda destruiu uma área de 55 por 15 quilômetros e criou lagos de 12 mil km². A população não pôde ser evacuada a tempo por causa das precárias condições de comunicação. 


7. Terremoto de Tangshan – 1976, China [Mortes: 242,000]

Em termos de mortes, um dos maiores terremotos a atingir o mundo, o epicentro do tremor foi próximo de Tangshan, uma cidade industrial de aproximadamente um milhão de habitantes.

O tremor começou às 03.42:53, horário local, no dia 27 de julho de 1976 e durou apenas 15 segundos. O governo chinês mediu a potencia do tremor em 7.8, embora algumas fontes dêem o valor de 8.2. Foi o primeiro terremoto a atingir diretamente uma cidade de grande porte.

Embora não tivesse recursos para lidar com os estragos o governo chinês recusou ajuda internacional.

6. Enchente de Kaifeng- 1642, China [Mortes: 300,000]

Kaifeng, um distrito na região oriental da província de Henan, na China, margeado pelo Rio Amarelo, foi inundado pelo exército Ming em 1642 para impedir o rebelde Li Zicheng de conquistar a cidade.

Aproximadamente metade dos 600.000 habitantes de Kaifeng morreu vítima da enchente e suas subseqüentes conseqüências tais como a fome e doenças, transformando-a em um dos maiores e mais mortais atos de guerra na história.

Embora tenha sido um ato de guerra a tragédia é considerada um desastre natural pelo papel indispensável que o rio desempenhou.

5. Ciclone na Índia – 1839, Índia [Mortes: 300,000+]

Em 1839 uma onda de 12 metros causada por um imenso ciclone varreu a cidade de Coringa, que nunca foi completamente reconstruída. Cerca de 20.000 navios foram destruídos e 300.000 pessoas morreram.

Essa não foi a primeira catástrofe a acontecer em Coringa: em 1789 três ondas gigantes, também causadas por um ciclone, atingiram a cidade matando cerca de 20.000 pessoas.

4. Terremoto de Shaanxi – 1556, China [Mortes: 830,000]

O terremoto de Shaanxi, 1556, é o terremoto mais mortal jamais registrado, com cerca de 830 mil vítimas.

Ocorreu em na manhã de 23 de janeiro de 1556, na China. Mais de 97 cidades foram atingidas. Uma área de cerca de 850 quilômetros foi destruída e, em algumas cidades, 6% da população morreu.

Análises modernas estimam que o terremoto tenham alcançado 8 pontos de magnitude. Abalos sísmicos secundários foram sentidos nos seis meses seguintes.

3. Ciclone de Bhola – 1970, Bangladeste [Mortes: 500,000 – 1,000,000]

O ciclone em Bhola, foi um devastador ciclone tropical que atingiu a Paquistão Oriental (hoje Bangladeste) em 12 de novembro de 1970. Foi o ciclone tropical mais mortal jamais registrado e um dos mais mortais desastres naturais da história moderna. Mais de 500 mil pessoas perderam suas vidas na tempestade, na maioria dos casos como conseqüência da inundação na maioria das ilhas do delta do Ganges. O governo do Paquistão sofreu severas críticas por sua assistência precária às vítimas.


2. Enchente do Rio Amarelo – 1887, China [Mortes: 900,000 – 2,000,000]

Não é raro o Rio Amarelo, na China, sofrer enchentes. Por séculos, os fazendeiros que vivem às margens do rio construíram diques para conter as enchentes. Em 1887 dias de chuva incessante subiram o nível da água acima da capacidade de contenção dos diques causando uma enorme enchente que devastou a área matando entre 900 mil a 2 milhões de pessoas.

Devido às planícies ao redor da área a enchente se espalhou rapidamente ao norte da China, cobrindo uma área de cerca de 80 quilômetros quadrados.

A enchente deixou cerca de dois milhões de desabrigados. Estima-se que o surto de doenças e de fome causado pela enchente tenha causado tantas vítimas quanto o próprio incidente.


1. Enchente do Rio Amarelo – 1931, China [Mortes: 1,000,000 – 4,000,000]

A enchente do Rio Amarelo de 1931 é considerada o desastre natural mais mortal da história. Estima-se que o número de pessoas mortas esteja entre um milhão e quatro milhões de vítimas. As mortes causadas pela enchente incluem afogamentos, doenças, fome e seca.

Entre julho e novembro, cerca de 88.000 quilômetros quadrados ficaram completamente inundados enquanto outros 21.000 quilômetros quadrados ficaram parcialmente inundados.

Devido aos freqüentes desastres que causa o rio é freqüentemente chamado de “A Dor da China”.

(fonte: http://www.tudook.com/fimdomundo/os_10_desastres_naturais_mais_mortais_da_historia.html)

E canta Caetano Veloso:

“Quando você for convidado pra subir no adro
Da fundação casa de Jorge Amado
Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos
Dando porrada na nuca de malandros pretos
De ladrões mulatos e outros quase brancos
Tratados como pretos
Só pra mostrar aos outros quase pretos
(E são quase todos pretos)
E aos quase brancos pobres como pretos
Como é que pretos, pobres e mulatos
E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados
E não importa se os olhos do mundo inteiro
Possam estar por um momento voltados para o largo
Onde os escravos eram castigados
E hoje um batuque um batuque
Com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária
Em dia de parada
E a grandeza épica de um povo em formação
Nos atrai, nos deslumbra e estimula
Não importa nada:
Nem o traço do sobrado
Nem a lente do fantástico,
Nem o disco de Paul Simon
Ninguém, ninguém é cidadão
Se você for a festa do pelô, e se você não for
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui
E na TV se você vir um deputado em pânico mal dissimulado
Diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer, qualquer
Plano de educação que pareça fácil
Que pareça fácil e rápido
E vá representar uma ameaça de democratização
Do ensino do primeiro grau
E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital
E o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto
E nenhum no marginal
E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual
Notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco
Brilhante de lixo do Leblon
E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo
Diante da chacina
111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos
Ou quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres
E pobres são como podres e todos sabem como se tratam os pretos
E quando você for dar uma volta no Caribe
E quando for trepar sem camisinha
E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba
Pense no Haiti, reze pelo Haiti
O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui”

Enquanto isso, morrem de 40 a 60 mil pessoas por ano vítimas do trânsito no Brasil. Nos Estados Unidos, em 2005, o tabagismo respondeu por cerca de 467 000 mortes, contra 395 000 causadas pela hipertensão (fazem parte das mortes chamadas preveníveis, pois são decorrentes de fatores que podemos prever e modificar).

Sim, eu me sensibilizei com o que aconteceu no Haiti, e até mesmo com a ajuda financeira enviada por celebridades como Madonna (250 mil dólares), Angelina Jolie e Brad Pitt (1 milhão de dólares) e Gisele Bundchen (1,5 milhões de dólares). Acho que tem que ser feito de tudo que é humanamente possível para amenizar o sofrimento da população haitiana.

Mas, além disso – e muito além disso – precisamos sempre lembrar que, apesar do Haiti não ser aqui, o Haiti é aqui, dentro de cada uma de nossas consciências, e é medido pelas nossas atitudes, pelas nossas escolhas. Vou beber e dirigir? Vou passar o volante para alguém que não consumiu álcool? Vou fumar? Vou cessar o tabagismo? Vou assistir à Rede Globo e à Veja e continuar aceitando a alienação e bonnerismos enjoativos? Vou buscar na mídia alternativa a informação real sobre os fatos da atualidade?

Hoje, mídia é ficção. É tão boa literatura quanto uma revista com 40% de suas páginas repletas de publicidade que dizem ao corpo editorial como devem se manifestar.
Hoje, o ouvido dos telespectadores e dos radiouvintes é penico, e seu olhos uma latrina, onde são despejados urina e merda na forma de informação distorcida emocionalmente para criar um espetáculo que não alimenta, pelo contrário, é o mais puro excremento das elites alienantes.
Falta à mídia uma “antimídia” poderosa, capaz de lhe fazer frente e anunciar, aos brados, cada vez que se perpetrar infâmias como as que vemos TODOS OS DIAS na tela daquela caixa de raios catódicos (ou LCD, ou plasma…). Guy Debord já nos avisa há tempos e, mesmo assim, parece que – como grupo, como coletivo – somos incapazes de aprender. Achei que nunca iria dizer isso, mas vamos aprender com a canção do Caetano e, se quiser fazer algo mais “material”, você pode ajudar com dinheiro:

* Cruz Vermelha: Está recebendo doações em dinheiro feitas por depósito bancário e via celular. Doações materiais ainda não estão sendo aceitas, devido a dificuldade de chegar e estocar os materiais no pais. As informações seguem abaixo:
Nome: Comitê Internacional da Cruz Vermelha
Banco: HSBC
Agência: 1276
CC: 14526-84
CNPJ: 04359688/0001-51

Mensagens via celular: $10 enviando um SMS com a palavra “Haiti” para 90999

* Embaixada da República do Haiti: também está recebendo doações em dinheiro.
Nome: Embaixada da República do Haiti
Banco: Banco do Brasil
Agência: 1606-3
CC: 91000-7
CNPJ: 04170237/0001-71

* Viva Rio: A instituição está desde 2004 no Haiti, onde desenvolve projetos sociais ligados às áreas de segurança, desenvolvimento e meio ambiente, também abriu uma conta para quem quer fazer doações às vítimas do terremoto”.
– Banco: Banco do Brasil
Agência: 1769-8
CC: 5113-6
CNPJ: 00343941/0001-28

Finalmente, para doar para os Médicos Sem Fronteiras, visite à página deles e preencha o Formulário de Doação em http://www.msf.org.br/haiti/formulario/index.html

Refletir é bom. Arregaçar as mangas e FAZER, mais ainda.

Rafael Reinehr

Empregos verdes

Para combater a pobreza é preciso ter crescimento econômico e geração de emprego. Acontece que nos últimos duzentos anos de desenvolvimento os países centrais conseguiram reduzir bastante a pobreza e avançar no bem-estar da população, mas com sérios danos ambientais. O desenvolvimento econômico transfiriu os custos de suas atividades para futuras gerações e o custo de limpar o Planeta será enorme. A experiência mundial, tal com conhecemos, mostra uma oposição entre desenvolvimento (geração de emprego, renda e consumo) e a preservação do meio-ambiente.

Contudo, a equação entre desenvolvimento sustentável e a redução da pobreza pode ser solucionada por meio da criação de novos e diferentes empregos, numa perspectiva de uma economia de baixo carbono e atividades verdes e limpas. Portanto, não é verdade que uma economia ecologicamente correta seja destruidora de empregos. Ao contrário, ao eliminar as atividades econômicas que agridem e destroem a natureza, abre-se a possibilidade de criar novas atividades harmonicas com a natureza e a geração de empregos compatíveis com o meio ambiente, os chamados “empregos verdes”.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) define empregos verdes como “postos de trabalho nos setores da agricultura, indústria, construção civil, instalação e manutenção, bem como em atividades científicas, técnicas, administrativas e de serviços que contribuem substancialmente para a preservação ou restauração da qualidade ambiental. Específica, mas não exclusivamente, eles incluem empregos que ajudam a proteger e restaurar ecossistemas e a biodiversidade; reduzem o consumo de energia, materiais e água por meio de estratégias de prevenção altamente eficazes; descarbonizam a economia; e minimizam ou evitam por completo a geração de todas as formas de resíduos e poluição” (OIT, 2009).

A OIT busca articular o conceito de ‘trabalho decente” com “emprego verde” analisando os pilares social, econômico e ambiental. A transição para uma economia ambientalmente sustentável depende sobretudo da adoção de novos padrões de consumo e de produção. A OIT (2009) sintetiza essas transformações do modelo vigente em torno de seis grandes eixos e leva em conta inclusive as particularidades da economia brasileira:
a) maximização da eficiência energética e substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis;
b) valorização, racionalização do uso e preservação dos recursos naturais e dos ativos ambientais;
c) aumento da durabilidade e reparabilidade dos produtos e instrumentos de produção;
d) redução da geração, recuperação e reciclagem de resíduos e materiais de todos os tipos;
e) prevenção e controle de riscos ambientais e da poluição visual, sonora, do ar, da água e do solo; e
f) diminuição dos deslocamentos espaciais de pessoas e cargas.

O Brasil é um país privilegiado do ponto de vista da extensão territorial e marítima e conta com ampla disponibilidade de terras, de ventos, de radiação solar, de marés e de biomassa. Ao fazer a transição da economia poluidora e que degrada o meio ambiente para uma economia verde e ecologicamente sustentável, o país poderá não só salvar a natureza, como eliminar a pobreza e a desigualdade, possibilitando que sua população conviva com um desenvolvimento humano e sustentável.

Referência:
Empregos verdes no Brasil : quantos são, onde estão e como evoluirão nos próximos anos (OIT, 2009) http://www.oitbrasil.org.br/
Pathways Magazine – Fall 2009: Are Green Jobs a Silver Bullet?
http://stanford.edu/group/scspi-dev/media_magazines_pathways_fall_2009.html
Green Jobs: Towards Decent Work in a Sustainable, Low-Carbon World
http://www.ilo.org/global/What_we_do/Publications/Newreleases/lang–en/docName–WCMS_098503/index.htm

Para quê serve a música – Parte 2

Na semana passada, eu finalizava a composição de uma peça e ouvi uma pergunta (não foi a primeira vez e com certeza não será a última) que na minha opinião revela-se sintomática de um impasse entre o artista e seu público (se é que podemos afirmar que ainda existe um público).

A pergunta foi: “qual é o objetivo disso?”

Se esta pergunta fosse direcionada a mim há 5 anos atrás, eu a tomaria como uma ofensa: “o que este cara está querendo dizer com isso? Que meu trabalho é inútil? Que música é inútil? Quero dar uma porrada nele. Grrr”.

Para ser honesto, dependendo do tipo de pessoa que me pergunta isso (e do tom de voz), eu realmente fico com vontade de falar umas coisas deselegantes. Porém, a pessoa que me fez esta pergunta realmente estava curiosa, querendo entender que tipo de motivação faz uma pessoa dedicar parte de seu tempo livre a ficar rabiscando um pedaço de papel (considerando que não haverá retorno financeiro e nem mesmo intérpretes para tocar a música).

A resposta é: porque é preciso. É necessário. Agora, necessário à sociedade? Claro que não, a sociedade não está nem aí para a arte. Não é necessário para ninguém, exceto para o artista. O processo criativo, para mim, está inevitavelmente ligado a uma sensação de inconformismo, a uma necessidade de ouvir uma música que não existe (ou que ainda não foi escutada). Se procuramos por esta música e ela não pode ser encontrada em coleções, discografias, partituras ou bibliotecas, temos que escrevê-la.

Isto vai de encontro com uma diretriz didática na qual eu acredito: aprender música é aprender a ouvir música. A notação, técnicas instrumentais e a teoria elementar são apenas técnicas. Há quem acredite que aprender música é aprender somente a técnica. Então, aprender uma língua estrangeira é aprender somente as palavras? Parece correto à primeira vista, mas só se aprende uma língua nova se você estiver submerso no ambiente onde se fala aquela língua. Você aprende ouvindo. (É claro que a técnica faz parte do aprendizado, mas não constitui a totalidade do conteúdo que deve ser aprendido).

Música também se aprende ouvindo. Na verdade, é óbvio, é tão óbvio que dá vontade de pintar isso num zepelim e sobrevoar Copacabana.

Para quê serve a música, enfim? A música cumpre a mesma função que as pirâmides, a literatura, as pinturas rupestres, os esboços de Da Vinci, a formulação da teoria da relatividade e as partidas de xadrez: essas coisas todas são o patrimônio intelectual da humanidade. Todas estas obras refletem a inteligência do seu tempo. A obra de arte deve ser valorizada porque ela imortaliza uma fração do pensamento de quem a produz. E imortaliza o tempo.

A inteligência de Eistein perdura, mesmo que Eistein não exista mais. Assim como a inteligência de Da Vinci, Mozart, Goethe, Platão, Haydn, Gesualdo. É a inteligência desses indivíduos que enriquece o legado do homem. É esta inteligência que apreciamos em suas obras, não as “biografias romanceadas”.

É por isso que devemos produzir arte apoiados na razão. A emoção pode fazer parte do processo criativo, mas são diretrizes racionais que devem engendrar uma obra. A obra de arte precisa ser um produto de nosso tempo; ela representará a nossa era no futuro.

Vamos ilustrar este pensamento da seguinte maneira: imagine que o homem sumiu da face da Terra (digamos, em 10.000 anos) e só sobraram as obras de arte. Estamos partindo do princípio de que os deuses que governam o destino do mundo gostam mais da arte do que dos homens, e por isso deixaram as obras serem conservadas. Então ETs descem na Terra e decifram as obras: peças de Beethoven, Stravinsky, Bach, Monteverdi… filmes de Hitchcock e Chaplin… o Werther de Goethe, Memórias Póstumas de Machado de Assis…

Os ETs datam as obras e pensam: “cacildis!* Aqui viveu um povinho cabuloso nesses períodos que a gente está catalogando”. Então, de repente, eles descobrem as obras do final do século XX e início do século XXI…

E aí? O que será que eles vão pensar de nós?

Você pode supor que eles nos achariam uns xexelentos por causa das porcarias de cultura de massa que eles encontrariam. Então, que tal dar uma chance à arte contemporânea? Procure conhecer a música de seu tempo. Ou a arte de seu tempo, tanto faz. Veja se esta arte te representa. Se não te representa, crie algo que manifeste a sua expressão. Estude para ter os meios (e a técnica) para isso, se for necessário. E prepare-se para produzir muita coisa ruim antes de sair algo que preste.

 

Sherlock Holmes de Guy Ritchie

 

Meu adorado século 19 e seus montes de roupa… As ruas fedorentas e lamacentas da capital do mundo, dentro do reino onde o sol nunca se punha. Aquelas mentes ainda ferventes de pensamento iluminista, mas já conduzindo corpos exaustos e viciados, e almas paranóicas e depressivas. A minha adorada Londres em seu apogeu fétido e maquinário, xenofóbica e violenta aparece ali diante dos meus olhos pasmos sob as unhas de Guy Ritchie, muito bem modernamente pensada.

Nesse cenário impecável, um dos personagens mais queridos e conhecidos do mundo, Sherlock Holmes, encarnado por aquele homem já tão íntimo das sombras: Robert Downey Jr. Seu amigo-irmão Watson vem moldado por um quase irreconhecível Jude Law! Uma boa dupla, uma excelente química!

Não entro em discussões sobre fidelidade quando o assunto é filme adaptado da literatura. Mas sei que a referência é inevitável, portanto só direi que, a meu ver, Sherlock Holmes não deixa de ser o detetive racional e esperto das estórias de Conan Doyle nessa versão de Ritchie. De maneira alguma! Downey Jr convence no sotaque RP, no olhar inteligente, na eloqüência e na arrogância. Contudo, imprime um ar vagabundo diferente de outras interpretações e bastante charmoso.

Parece ser marca já de Ritchie que seus protagonistas sejam assim maltrapilhos e atraentes, bagaceiros mesmo, assim como a grande escola escocesa da kinetic câmera. Por falar nisso, os efeitos especiais são fascinantes e imagino que as estórias de aventura das literaturas de todo mundo, assim como as dos deuses e heróis do Olimpo e da Bíblia estavam somente esperando a tecnologia cinematográfica chegar a esse ponto para serem contadas com tanta precisão!

A narrativa escolhida por Ritchie e os roteiristas dá uma outra nuance a Holmes. Não posso afirmar que mais condizente com a “realidade” das estórias de Doyle, mas pelo menos mais inteligível pra nós, deste século. Mostrar Holmes como um ser londrino altamente refinado e que nunca aparece desalinhado mesmo com a afirmação de ser viciado em cocaína injetável e ópio, talvez parecesse no mínimo entediante para as cabecinhas já doutrinadas de espectadores de cinema. A podridão do Sherlock de Downey Jr nos fala mais de perto de uma maneira quase “sindical” (barbudinho rebelde e genial em tempos ditatoriais) e esse contraste com o Watson de Law, que é conscientemente cúmplice e crítico de Holmes, nos faz pensar que se eles fossem de verdade… Poderiam ser assim mesmo!

 

O humor inglês, rápido e irônico, e as interjeições onomatopéicas como “humpf” “hu” do sotaque londrino estão bem marcadas, assim como a típica misoginia deste povo. A espiã (?) Adler, uma namoradinha de Holmes, tem papel importante no filme, mas foi aqui que Ritchie talvez tenha “falhado”… Adler aparece somente em uma das estórias de Conan Doyle e de relance. A tentativa de Ritchie em ser politicamente correto com relação aos gêneros me pareceu forçada e não consigo decidir se por causa do mal acabamento da personagem ou pela falta de talento (não de beleza) da atriz, ou quem sabe as duas coisas… Ou seja, uma peça totalmente descartável, bem diferente da noiva de Watson.

A trilha sonora mais perto de algo que soe como “tribal” me remete mais rapidamente a minha Londres de ideal Romântico, mas de dogmas Vitorianos. As saídas escondidas dos prédios, a fog (ah, minha fiel companheira, a fog londrina!) e as sociedades secretas e as teorias conspiratórias estão todas lá compondo o mosaico daquilo que seria um pouco o futuro de todos nós, aqui no Ocidente. E nas mãos do mesmo Guy Ritchie de sempre. Aliás, que bom que ele “voltou”!