Vancouver e o gelo

Não é novidade nenhuma que eu tenho uma predileção por esportes e atividades que exibam o mínimo de coreografia. Sendo assim, não por acaso, acompanhei, mais uma vez (só que dessa vez em rede aberta), as Olimpíadas de Inverno desse ano realizadas em Vancouver, no Canadá.

É claro que estou aqui para falar um pouco sobre a patinação artística, mas engana-se que só me prendi em frente à telinha por causa dessas competições. Tenho, dentro de mim, também certa simpatia pelo hockey no gelo (aliás, o Canadá acaba de ser campeão!). Mas não consigo, nem como leiga que sou, comentar sobre ele. Então, vamos à patinação.

Acho de fundamental importância que pessoas ligadas à dança – ao ballet, principalmente – acompanhem as competições de patinação artística. É clara a influência do ballet sobre esses atletas que parecem fazer milagres com seus patins. Mas, para ser sincera, não quero tanto falar da técnica do ballet empregada nas coreografias. Vamos a um simples balanço do que foram as apresentações – novamente, sob o meu ponto de vista leigo em patinação no gelo.

Confesso que as provas de patinação artística individuais ou em duplas não me atraem muito. São belíssimas, claro. Mas falta um quê a mais, na minha humilde opinião. O que me atrai na modalidade, de fato, é a dança no gelo. Para mim, a grande diferença entre este e aqueles é que os primeiros parecem muito mais interessados em fazer grandes giros e saltos, e se esquecem um pouco de contar uma história através da interpretação da dança e música. Mas, não me leve tão a sério, leitor, isso é o que eu penso, não tome o que digo como uma verdade universal.

A grande vantagem da dança no gelo, para mim, consiste em que ela é dividida em três provas, com pesos diferentes, até que se possa chegar ao grande vencedor. No primeiro dia de competição, os casais enfrentam a rotina compulsória, na qual todos os casais competidores devem necessariamente seguir um diagrama pré-estabelecido pela comissão organizadora dos jogos, com passos obrigatórios e comuns a todos, além de dançarem ao som de um único ritmo, com poucas variações de músicas a serem escolhidas – o que ocasiona a repetição excessiva dos sons.

Experimente assistir a essa parte da competição ao lado de alguém que não dá a mínima para dança ou para o esporte. É de estressar qualquer pessoa. Ouvi reclamações constantes de amigos enquanto acompanhava – ou pelo menos tentava acompanhar – a prova falando da monotonia e reclamando que todos eles faziam a mesma coisa. Quer saber? Essa é a graça dessa etapa. É nela que cada casal tem que superar suas dificuldades e limitações a fim de surpreender através de uma interpretação carregada de emoção e da criatividade para fazer a transição entre os elementos obrigatórios do programa.

Desde o início da competição tive três favoritos: os russos Domnina e Shabalin, os canadenses Virtue e Moir e os americanos Belbin e Agosto. Sendo que os canadenses foram por pura e simples simpatia a eles. No compulsório, os russos deram um show de consistência na execução dos movimentos e fizeram uma interpretação memorável. Mereceram o primeiro lugar. Eles, que não são de grandes sorrisos nem quando estão descontraídos, patinaram com precisão e propriedade sob o ritmo Tango.

A segunda etapa, o programa original, no qual os casais têm que obedecer apenas ao tema imposto pela organização e alguns elementos obrigatórios durante a dança, mas eles têm total liberdade coreográfica e podem escolher a música a ser tocada. A organização determinou que as músicas deveriam ser folclóricas, não importando se seria ou não o folclore do país de cada dupla. Confesso que a escolha musical do casal russo não me agradou em nada, mas a execução… Ah, que execução!!! O casal americano, sempre muito carismático, fez uma apresentação bem correta e com uma interpretação espetacular. A minha grande surpresa foi em relação ao casal canadense. E que bela surpresa. Deram um show de criatividade ao apresentarem a coreografia. Uma interpretação forte e determinada. Nessa etapa da competição a criatividade coreográfica, o uso de elementos originais durante a apresentação, é o que mais conta ponto.

Já na última etapa, no programa livre, os casais têm total liberdade musical e coreográfica. Nesse dia, cada um faz o que mais sabe e impressiona com suas melhores qualidades incorporadas à apresentação. O casal americano para o qual eu torcia, ficou em quarto lugar. Os russos em terceiro, mas, para mim, mereciam o segundo lugar – ocupado por outros americanos. Foram originais, sincronizados e muito bem elaborados. E o casal canadense, a essa altura já deixava de minguar na lanterna da minha torcida e passou à preferência incondicional. Foram velozes, muito profissionais, numa apresentação impecável. Mereceram o primeiríssimo lugar da competição. Ela parecia voar com tanta delicadeza, ao mesmo tempo em que impressionava pela força que tinha. Ele acompanhava-a de forma sublime, com uma interpretação envolvente.

Foi gratificante acompanhar as olimpíadas, ainda que com algumas falhas de transmissão – mas nada que atrapalhasse. É um esporte não difundido no Brasil, até porque gelo por aqui, só em cubinhos, nas bebidas, e olhe lá. Mas, deve-se ter noção de que também existe patinação artística por aqui, sobre rodas, é claro. Vale à pena dar uma conferida no esporte. Um misto de esporte e dança que dá gosto de ver!

Au revoir.

A devassa da Devassa: mortalidade masculina e sexismo

Uma propaganda de cerveja pode ser entendida como direito de expressão, direito à liberdade de iniciativa e direito de livre escolha do consumidor? Se sim, por que então não liberar também a propaganda ilimitada de cigarros e da maconha? Qual é a ética e a lógica da legislação que proíbe a segunda e libera a primeira?

O fato é que o crescente investimento em publicidade de cerveja e chopp tem como objetivo conquistar as pessoas em geral, e os jovens em particular, para um estilo de vida aparentemente glamoroso, mas que tem como única meta aumentar as vendas e os lucros das empresas capitalistas do setor.

O Ministério Público Federal já ajuizou diversas ações civis públicas contra as cervejarias com pedido de indenização pelos danos causados pelo consumo de cerveja e outras bebidas alcoólicas, tais como o aumento de mortes violentas e de homicídios, de problemas de saúde em geral, de dependência química, de acidentes de trânsito, de problemas profissionais, de violência urbana e doméstica, etc.

A questão da publicidade de cerveja no Brasil não se encaixa na questão do moralismo, mas sim na questão de saúde pública em decorrência do aumento da mortalidade e de luta contra o sexismo e o machismo veiculado nas propagandas das “louras que matam a sede”.

Neste sentido, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres (SPM) e o CONAR (Conselho de Autorregulamentação Publicitária) abriram três processos éticos contra a campanha de lançamento da cerveja Devassa Bem Loura, da Schincariol, protagonizada pela socialite americana Paris Hilton (contratada a peso de ouro, ops, a peso de dólares). A SPM considerou a campanha sexista e desrespeitosa para a mulher. Um outro processo, aberto após denúncias de consumidores, vai avaliar se o comercial faz um apelo exagerado à sensualidade, contrariando o código de ética, que condena o apelo erótico em propagandas de bebidas alcoólicas e também o tratamento de modelos como objeto sexual.

O Ministério da Saúde, por meio da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) tem tentado implementar propostas de restrições à publicidade deste bilionário mercado das cervejas, pois associa o consumo de álcool a acidentes de trânsito com vítimas, má-formação de bebês e até ao abuso sexual e episódios de violência de todo tipo. O ministro José Gomes Temporão chegou a criticar artistas famosos como Zeca Pagodinho e Ivete Sangalo (e também jogadores de futebol) pela participação – também a peso de ouro – nas campanhas publicitárias de cerveja no Brasil.

Os anúncios da Devassa são mais um exemplo de propaganda enganosa que associa o prazer e o poder fálico ao consumo de cerveja, como se sexo e gozo fossem subprodutos da embriaguez. Aliás, os fabricantes de bebidas alcoólicas contribuíram para transformar a grande festa popular do carnaval em um grande porre alienado de embriaguez. O melhor para a saúde do Brasil seria fazer uma devassa nas contas e nas práticas das empresas de bebidas alcoólicas e avaliar os prejuízos que elas causam à saúde e a educação do país, dos jovens e das pessoas de todas as idades. Sexo é uma coisa boa para homens e mulheres, mas não da maneira que mostra e sugere a cerveja Devassa.

O Consenso de Beijing e a mudança de hegemonia

A crise econômica de 2009, não foi tão grave, longa e profunda como a crise de 1929, mas afetou bastante as chamadas “economias avançadas” e mostrou a capacidade de resiliência da economia chinesa.

Em seu último relatório, World Economic Outlook, de 26/01/2010, o FMI mostrou que o PIB mundial caiu 0,8% em 2009, sendo que as economias avançadas apresentaram um recuo de 3,2% e os EUA tiveram um encolhimento de 2,5% no ano, a maior queda das últimas cinco décadas. A área do Euro teve um declínio de 3,9%. A América Latina e o Caribe também apresentaram uma queda significativa de 2,3%. Por outro lado, a África apresentou crescimento de 1,9%, a Índia (com seus mais de 1,1 bilhão de habitantes) cresceu a 5,6% e a China (com seus mais de 1,3 bilhão de habitantes) apresentou um impressionante crescimento de 8,7% no ano.

Para 2010, as previsões do FMI são: crescimento do PIB mundial de 3,9%; retomada de apenas 2,1% para as economias avançadas (portanto sem recuperar as perdas do ano passado); crescimento de 2,7% para os EUA (ou seja, crescimento próximo de zero no biênio); a área do Euro vai continuar no prejuízo e deve crescer apenas 1,0% em 2010; crescimento de 3,7% para a América Latina e o Caribe (mas com estagnação da renda per capita no biênio); a África deve crescer 4,3% em 2010, também a Índia com projeção de 7,7% e a China deve continuar na liderança com espetaculares 10% de crescimento do PIB.

O que os dados do FMI mostram é que a recessão econômica de 2009 acabou, mas a retomada nos países desenvolvidos vai ser lenta, com baixa capacidade de retomada dos investimentos e geração de emprego, e outros percalços não estão descartados. A Europa que há muito sofre de “euroesclerose” está às voltas com os problemas de endividamento e altos déficits fiscais e, neste início de 2010, tenta solucionar os problemas econômicos de Portugal, Irlanda, Grécia e Espanha (Spain), países chamados pejorativamente de PIGS. Lembrando que Portugal, Grécia e Espanha tinham governos ditatoriais até meados dos anos de 1970 e não possuem instituições democráticas com longa tradição histórica.

Já os Estados Unidos possuem uma longa tradição democrática, mas encontram-se em uma situação que alguns analistas chamam de “instabilidade política”. Depois de duas eleições presidenciais decididas de maneiras muito apertadas e até com disputas resolvidas de maneira questionável, a eleição de Barack Obama parecia dar governabilidade e maioria folgada ao Partido Democrata no Legislativo. Contudo, as últimas eleições – particularmente a eleição do senador republicano Scott Brown, em Massachusetts (estado tradicionamente democrata) – apontam para uma fragilidade do governo Obama. Cresce no país a ala republicana de direita, dos movimentos conservadores em geral e do “Tea Party”, em particular. A cada dia fica mais difícil para o atual governo dos EUA aprovar a reforma do sistema de saúde, a criação de empregos, o combate ao aquecimento global e os investimentos em segurança energética e energia renovável.

O quadro de “instabilidade política” (falta de uma maioria clara para tomar decisões e dar um rumo para o país) fica mais agravado diante dos crescentes déficits externo e interno (déficits gêmeos) e da crescente dívida interna. O orçamento apresentado por Obama, em 2010, é de US$ 3,8 trilhões, com um deficit previsto de US$ 1,6 trilhão, ou o equivalente a 10,6% do PIB. Este rombo não foi provocado simplesmente pela crise de 2009, mas faz parte de uma nova realidade que veio para se tornar permanente, pelo menos nesta próxima década. Projeta-se, para 2020, que a dívida pública norte-americana terá atingido o patamar de 77% do PIB. Porém, os deputados e senadores democratas e republicanos do Congresso dos EUA não mostram capacidade política para mobilizar a nação e criar os meios de enfrentar de forma efetiva os perigos que estes deficits representam. Os EUA estão sem uma liderança objetiva.

A questão chave que se coloca é a mesma feita pelo economista Lawrence Summers (antes de se tornar o principal assessor econômico do presidente dos EUA): “Por quanto tempo o maior devedor do mundo pode continuar sendo a maior potência do mundo?”.

De certa forma, esta questão já estava colocada nos anos de 1980. O historiador Paul Kennedy, em seu livro “Ascensão e queda das grandes potências”, mostrou que o declínio das potências hegemônicas começa quando estas dedicam uma grande parte da capacidade industrial do país a gastos com armamentos “improdutivos”, enfraquendo a base econômica nacional para a inovação tecnológica e o bem-estar da população. Nos anos 80 os EUA já tinham se convertido no maior devedor do mundo e tinham déficits internos e externos crescentes.

Entretanto, o fim da Guerra Fria e o processo de globalização ocorrido sob a chancela do Consenso de Washington deram um gás novo ao país, que liderou a Revolução nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) e chegou até a esboçar superávits fiscais no fim do governo Bill Clinton. Mas a vitória de George Bush reverteu o processo de redução do endividamento, devido às suas políticas de cortes de impostos para os ricos e de aumento dos gastos militares com o início das guerras do Afeganistão e Iraque.

Em contraparte, a China tem se tornado a maior potencia credora do mundo com seus quase 2,5 trilhões de dólares em reservas internacionais. E não só isto: a China passou o Japão como a segunda maior economia do mundo (já era em termos de dólar em poder de paridade de compra), passou a Alemanha como a maior exportadora do mundo, é a principal parceira comercial do Brasil e da América Latina, aumentou a participação no comércio internacional de 1% nos anos de 1980 para cerca de 10% atualmente. O saldo da balança comercial da China com os EUA foi de US$ 226,8 bilhões em 2009. Além disto a China é responsável por quase 50% do aço produzido no Planeta, está construindo uma ampla rede ferroviária de milhares de quilômetros com trens de alta velocidade, possui uma infra-estrutura rodoviária, aeroviária e de portos cada vez mais eficiente e, dentre outras coisas, está buscando a liderança mundial na produção de energia renovável.

O grande “segredo” do rápido e eficiente crescimento chinês são as altas taxas de investimento que estão acima de 40% ao ano. Esta capacidade de manter investimentos tão altos se deve em grande parte ao processo de decisão política centralizado do país que consegue manter o consumo sobre controle como percentagem do PIB. O consumo em termos absolutos cresce na medida em que cresce a demanda agregada, mas sem impedir a capacidade de investimento e de renovação constante do setor produtivo. Nas três últimas décadas a China cresceu algo como 10% ao ano e neste ritmo não é difícil imaginar que ultrapassará os EUA em pouco tempo.

No processo de construção da hegemonia mundial, a questão da segurança e da eficiência energética é chave. A Inglaterra pulou à frente na Primeira Revolução Industrial quando tirou todas as vantagens da máquina a vapor construida por James Watt na segunda metade do século XVIII. A Alemanha ensaiou uma conquista de hegemonia quando aperfeiçoou o motor a combustão. Mas foram os EUA que tomaram a liderança mundial com o domínio da energia do petróleo e nuclear, com uma sociedade de consumo de massas e com uma base industrial ampla e eficiente ao estilo fordista. Os avanços na Revolução Científica e Tecnológica ampliaram os horizontes da hegemonia americana.

Contudo, a China que é chamada de “fábrica do mundo” (em contraposição aos EUA que são chamados “shopping center do mundo”) tem mostrado sinais inequívocos de que pretende liderar uma corrida na área tecnológica para tomar a frente na produção de energia renovável que, ao mesmo tempo, garanta três objetivos: 1) segurança energética; 2) um novo setor industrial que possibilite aumentar as exportações do país; e 3) reduzir a emissão de gases de efeito estufa que aumentam o aquecimento global. A China já é lider na produção e uso de painéis fotovoltaicos e caminha para liderar a corrida na área de energia solar concentrada, energia eólica, biomassas e nuclear.

Em outros momentos históricos a busca para a liderança na área energética e para a garantia de acesso aos recursos naturais já provocou guerras devastadoras. Atualmente, pelo menos por enquanto, a China tem avançado na busca de recursos naturais na África, na América Latina e no resto do mundo, mas com atritos relativamente pequenos para o tamanho dos novos desafios. Além disto os funcionários do governo e acadêmicos chineses tem aproveitado os fóruns internacionais para criticar o consumismo (baixa taxa de poupança e investimento) dos países ocidentais e até mesmo o estilo de governança democrática capitalista. A China tem se posicionado, desde o início, contra o decálogo do Consenso de Washington:

1.    Disciplina fiscal e baixo déficit público;
2.    Focalização dos gastos públicos em educação, saúde e infra-estrutura;
3.    Reforma tributária;
4.    Liberalização financeira;
5.    Taxa de câmbio competitiva;
6.    Liberalização do comércio exterior;
7.    Eliminação de restrições ao capital externo;
8.    Privatização e venda de empresas estatais;
9.    Desregulação das relações trabalhistas;
10.    Propriedade intelectual.

No lugar do Consenso de Washington tem surgido a idéia do Consenso de Beijing que consiste em pelo menos nas seguintes características:

1.    Promoção das economias em que a propriedade estatal continue sendo dominante;
2.    Promoção de câmbio competitivo, com mudanças graduais para evitar choques e controle cambial para evitar a especulação;
3.    Políticas de promoção das exportações (Export-led growth) com proteção da industria local e dos setores estratégicos do país;
4.    Reformas de mercado, mas com controle das instituições políticas e culturais;
5.    Centralização das decisões políticas e das estratégias de projeção nacional.

Evidentemente é muito dificil resumir todas as mudanças ocorridas nas últimas décadas e retratar a enorme interdepedência que existe entre as economias dos EUA e da China. Mas os fatos relatados acima referentes à conjuntura internacional apontam para alguns elementos em relação a um baixa recuperação dos países ocidentais e para uma possivel mudança de hegemonia internacional. Quais serão os novos desdobramentos? O mundo caminha para a aceitação de um possível “Consenso de Beijing” ou o crescimento chinês não passa de uma bolha? Este chamado “Consenso de Beijing” é generalizável para outros países do mundo? Uma mudança na hegemonia mundial pode ocorrer de forma relativamente pacífica ou o mundo vai enfrentar uma nova guerra de grandes proporções? O “Consenso de Beijing” ajudará no combate às mudanças climáticas ou a China colocará suas ambições de liderança mundial à frente da luta contra o aquecimento global?

Seguindo pessoas

___Tive um professor na faculdade com um gosto literário fabuloso. Sempre que o via com um livro na mão, eu anotava o nome da obra e a lia mais tarde. Nunca me arrependi; em um mundo com tantos livros bons para se ler e tão pouco tempo, seguir as leituras desse meu professor foi um privilégio inenarrável.
___Como já comentei por aqui, também é bem difícil encontrar o que há de bom para se ler no infinito oceano virtual. Por isso mesmo, além dos meus escritores prediletos, eu, atualmente, tenho seguido os links compartilhados de pessoas das quais aprecio o gosto. Assim como eu, eles possuem leitores de feeds e selecionam, entre as próprias leituras, o que consideram de melhor. Indicarei alguns para vocês.
___Minha primeira indicação é o interessantíssimo Idelber Avelar. Seu blog, um dos melhores da internet, está em hibernação por tempo indeterminado. Acompanhando os links que ele compartilha, os seus antigos leitores, carentes de suas reflexões, têm a chance de ver quais as melhores leituras virtuais que o Idelber tem feito e, ainda, dar uma olhada nos comentários que ele costuma fazer sobre alguns textos.
___Outros dois que tenho gostado muito de seguir são moradores aqui do Ops!: a Camila Pavanelli, do Recordar, Repetir e Elaborar, e o Daniel Lopes, o autor do Index (blog que eu me esbaldei de elogiar no meu editorial anterior). Além de blogueiros de mão cheia, ambos leem muita coisa que está fora do meu rol de leituras e sempre aparecem com novidades interessantes.
___Também vale citar uma das unanimidades da internet brasileira: Alexandre Inagaki. Mesmo sendo o menos ativo dentre os citados, o Mestre Ina consegue sempre ir, audaciosamente, onde ninguém mais esteve e seleciona alguns links imperdíveis antes que eles se tornem febre por aí.
___Mesmo não sendo diretamente textos desses autores, ao acompanhá-los, não só me divirto e acho leituras com as quais eu não cruzaria, como, também, descubro um pouco mais deles próprios. Seguir pessoas (interessantes) sempre é bastante bacana e instrutivo.
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P.S.: Quem ficou com vontade de ver quais os links que eu compartilho, pode olhar direto por aqui ou dar uma olhada nos “Feeds compartilhados” na barra lateral do meu blog.
P.P.S.: Convido os leitores que têm o mesmo hábito que eu de seguir as indicações de links de outras pessoas interessante por aí, a dividi-las nos comentários.

Pré-sal: pretérito perfeito ou futuro do pretérito?

Esta noite eu tive um sonho – acordei mais cedo e com uma dúvida na cabeça – e resolvi escrever este artigo para compartilhar a preocupação com os amigos, expiar “meus pecados” e evitar outras noites em claro. Vou contar meu sonho, mas antes vou expor minha dúvida.

A dúvida é esta do título do artigo, pois eu nunca fui bom em português e não sei se o pré-sal é conjugado no pretérito perfeito ou no futuro do pretérito. Dizendo de outra forma: as enormes jazidas de petróleo do pré-sal que estão a milhares de quilômetros das profundezas do oceano vão realmente gerar riquezas para pagar a dívida social do país, para a segurança energética e a segurança nacional? A energia do petróleo é a energia que o Brasil precisa e que vai garantir uma economia forte e limpa no futuro? Quanto vai custar a extração do petróleo do pré-sal? O investimento é viável economicamente e ambientalmente? Foi a melhor escolha para investir os recursos da Petrobrás e do país?

Se alguém tiver respostas para todas estas questões eu gostaria muito de conhecer. Pelo que li nos jornais, uma boa parte dos financiamentos para a perfuração dos poços vem do “fundo soberano” da China e o Brasil se compromete com a venda do “ouro negro” para o Gigante Asiático. Eu compreendo perfeitamente que a China precisa garantir o abastecimento de petróleo, pois é o país que mais cresce no mundo e tem uma voracidade incalculável por energia de todos os tipos. Mas a questão que me intriga é se o endividamento do país para extrair petróleo vai garantir a soberania do devedor ou do credor? Nas tendências macroeconômicas atuais (o grande déficit em transações correntes que o Brasil terá nos próximos anos), podemos dizer que o petróleo será realmente nosso?

A minha dúvida é se as receitas do pré-sal vão servir para resolver os problemas de educação, pobreza, saúde, habitação e do meio ambiente ou vão servir para financiar os déficits em transações correntes do país e financiar a chamada “Doença Holandesa”? Como diz a literatura especializada, doença holandesa é o termo utilizado para o país que tem uma crescente dependência da exploração de recursos naturais para pagar suas contas externas, concomitantemente ao declínio do setor industrial (que é o local onde são gerados os empregos mais qualificados).

Algumas pessoas dizem que seria um absurdo não aproveitar estas imensas jazidas de petróleo que a natureza nos Deus, ops, deu. Contudo, existem jazidas ainda maiores que a natureza nos deu e nós não estamos sabendo aproveitar. Existem indícios de que apenas a força dos ventos e o calor do sol disponíveis na superfície do Nordeste brasileiro seriam suficientes para abastecer toda a demanda de energia elétrica do país e ainda poderíamos exportar energias limpas e renováveis ou atrair empresas que as utilizariam de maneira ecologicamente correta. Existe um esforço muito grande em todo o mundo para se investir em energias renováveis. A própria China está fazendo investimentos vultosos para construir uma industria de equipamentos de aproveitamento das energias não-fósseis. Então a minha dúvida é: não seria melhor utilizar todos estes recursos que vão ser aplicados no pré-sal para investir em equipamentos e tecnologia de energia verde, renovável e de baixo-carbono?

Agora vamos ao meu sonho. Sonhei esta noite que o Brasil desistiu de comprar os caças franceses e que as Forças Armadas brasileiras foram dissolvidas, ou melhor, foram transformadas em Forças Desarmadas e Verdes (FDV). Os escritórios do Rio de Janeiro, Brasília e do resto do país foram fechados e transformados em escolas. Os quartéis foram adaptados para serem domicílios coletivos de alto nível para abrigar a crescente população envelhecida do país e que necessita de instituições de longa permanência para idosos. Os Adidos Militares nas embaixadas e consulados brasileiros em todo o mundo foram trazidos de volta para ensinar geografia e línguas estrangeiras. Os oficiais fizeram cursos de educação e planejamento ambiental e junto com suas tropas, agora civis, saíram pelo país plantando árvores (como o Major Archer que replantou a Floresta da Tijuca), limpando os rios, recuperando os solos, implementando o saneamento básico e ajudando aos beneficiários do Programa Bolsa Família a utilizar técnicas simples de construção de moradias verdes e fortalecimento do capital social das comunidades.

O que influenciou o meu sonho, acho, foram 3 notícias que li recentemente sobre a Costa Rica: 1) Pela primeira vez foi eleita uma mulher para a presidência do país; 2) A Costa Rica dissolveu o exército e não possui Forças Armadas (apenas uma guarda nacional de segurança); 3) A Costa Rica anunciou que pretende ser o primeiro país das Américas “Carbono-neutro” até 2030.

Mas a Constituição da República Federativa do Brasil, de 1988, estabelece que as Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) são “Instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina e destinam-se à defesa da Pátria” (Art 142).  Ainda mais agora que o país precisa da segurança do pré-sal. Por isto, como na música do Chico Buarque, “Não Sonho Mais”:

“Foi um sonho medonho desses que às vezes a gente sonha
E baba na fronha, e se urina todo e quer sufocar”.

Preciosa

 

 

Preciosa ou Yes, nós temos favela é um filme que realmente não vai ser neutro no sentimento do espectador: você pode amá-lo, mas também odiá-lo, achar pretensioso, ou simplório, ou boçal ou genial, ou ainda algo no limbo de tudo isso.

Olhe, vou ser bem sincera: eu fiquei no limbo. Se você me perguntar de supetão “e aí? Você viu Preciosa? O que achou?”, eu direi “Opa! Filme bom!”. Mas eu sei que há muito mais a dizer sobre ele do que simplesmente “bom”, tanto sobre aspectos positivos quanto negativos.

Como sempre debato com quem lê minhas resenhas eu tento me isentar em escrever sobre filmes que não gostei. Não que eu não tenha gostado deste, mas serei obrigada a falar do que me incomodou neste filme e não é fácil de diagnosticar porque é sutil. Há algo na condução deste roteiro que me deixou com a pulga atrás da orelha, naquilo que resvalaria a pieguice. E como Preciosa eu comecei a sonhar como seria o mesmo filme na mão da iraniana Samira Makhmalbaf (de “A maçã”), por exemplo… Talvez não houvesse essa intenção de forçar a amizade (e o chôro) do espectador, com ângulos exagerados de Preciosa e seu rosto imperfeito, da sujeira em que vive e da sua professora com cara de coitada. No filme de Samira, a câmera e a narrativa se mantêm neutras, quase como um reality show artístico sem perder o limite da ficção – você continua consciente de que são atores diante da câmera e que estão representando, ou seja, mise-em-scéne perfeita! – e nem por isso deixa de se emocionar de maneira honesta.

Contudo, posso destacar as técnicas simples de narrativa, como as lindas e engraçadas passagens em que Preciosa devaneia e são bastante necessárias já que a vida ali é bem dura. Tenha certeza de que você, no lugar de Preciosa, talvez devaneasse também… Ou se tornaria um psicopata e mataria a todos fuzilados! Destaco também a interpretação das atrizes dentro desta proposta de como sofrem as mulheres em periferia e de que modo elas acabam se unindo para se ajudarem.

Não chega a ter um toque feminista chato, mas o mundo feminino ali retratado tem sua beleza e mazelas ressaltadas de modo convincente e tocante. Gabourey Sidebe dá realmente um show de interpretação e parece que somente ela ali tem aquela dose mais contida de emoção que eu gostaria. E por incrível que pareça ela é uma atriz de primeira viagem, quase como os atores não-profissionais de Samira Makhmalbaf. Somente Gabourey realmente me comoveu no filme, de verter lágrimas mesmo. Ah, sim, Mariah Carey surpreende mesmo mal saindo da cadeira onde está, ok? Eu gostei de vê-la atuando.

Acho que a emoção que Preciosa lhe trará vai estar intimamente ligada com o nível de contato que você espectador já teve com o tipo de contexto exposto ali. Eu me lembrei de uma fase emocionante da minha vida como professora de redação em uma universidade federal a um grupo do que o campus resolveu chamar de alunos de origem popular. Ali eu os ajudaria a escrever um texto sobre a trajetória deles até chegar à universidade, que seria publicado num livro, resultado de um projeto que eles participavam para terem bolsa de estudo. Eu escutei e li tantas histórias de luta, de superação, de frustração, indignação e vitória que me emocionava a cada parágrafo que eu tentava corrigir. Aprendi muito mais com aqueles jovens do que ensinei e as biografias deles jamais me sairão da memória… E por isso chorei muito no filme, por lembrar dessa minha experiência também.

Não posso julgar o que os outros sentem, mas não sei se a moça alta e maquiada, cheia de jóias, que cheirava a um perfume extremamente doce e carregava inúmeras sacolas de grife ao meu lado sentia o mesmo que eu. Pois a observei rindo com a mão na boca e cutucando a mãe ao lado toda vez que a câmera fechava o foco em Preciosa, enquanto ninguém mais ria e muitos outros soluçavam como eu na sala do cinema…

Superando Malthus: o decrescimento sustentável

Mesmo reconhecendo os limites finitos do Planeta, Malthus era a favor do crescimento da economia, desde que os salários dos trabalhadores ficassem ao nível da subsistência e o crescimento demográfico fosse contido pelos “cheques positivos” (fome, epidemias e guerras). Porém, ao contrário do que dizia o pastor e economista inglês, cresce mundialmente a concepção de que o maior problema econômico da atualidade não é o tamanho da população em si, mas sim o exagerado crescimento do consumo, em especial, do consumo conspícuo, superfluo e desnecessário para viabilizar uma vida decente na Terra.

Durante os dois últimos séculos, embora o “problema populacional” tenha sido objeto de muito debate com posturas pró e anti malthusianas, a ciência econômica fomentou a idéia de que o crescimento econômico é sempre bem vindo, especialmente quando incorporava o conjunto da população na “sociedade de massas”.

Contudo, novas correntes de pensamento tem questionado o significado do crescimento e do desenvolvimento econômico. O economista e filósofo francês Serge Latouche questiona a conceção de “desenvolvimento sustentável” e defende a idéia de “decrescimeno sustentável”. Em suas palavras: “O projeto de uma sociedade de decrescimento não é uma alternativa, e sim a libertação de uma ditadura econômica para reinventar um futuro sustentável. Uma sociedade não pode sobreviver se não respeitar os limites dos recursos naturais. Eu proponho um ciclo virtuoso do decrescimento: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reutilizar e reciclar. Os dois primeiros termos são importantes para colocar em questão os valores comuns em nosso imaginário. Reconceitualizar é mudar nossa maneira de pensar. É uma verdadeira revolução cultural”.

Na mesma linha o médico, escritor e humanista Rafael Reinehr escreveu: “A sociedade moderna ainda vive impregnada pela ilusão de que o consumo de massa deve ser o principal motor da economia e esta ilusão é alimentada pelo fato de que nas nações assim ditas desenvolvidas os bens que antes eram reservados a uma elite econômica são agora disponíveis em grande escala e, promete-se, o luxo de hoje será acessível a todos amanhã”.

O ponto central da perspectiva do “decrescimento sustentável” não é controlar prioritariamente o crescimento populacional, mas sim reduzir o nível de consumo conspícuo e superfluo, especialmente o sobre-consumo das classes ricas e privilegiadas da sociedade. O objetivo é reduzir a pegada ecológica ao ponto de que o impacto das atividades antropogênicas passe a ser igual ou inferior aos recursos renováveis do Planeta Terra.

Voltando às palavras de Reinehr: “A principal mensagem que um foco no descrescimento deve passar é a de que consumindo menos estaremos não só reduzindo danos à Natureza mas também, por conseqüência, necessitaremos trabalhar menos, fazendo com que todos possam também trabalhar menos e viver melhor. Com isso, teremos mais tempo livre para gastar com coisas que só podem nos fazer bem, como ler, escutar música, criar, brincar, passear, cuidar e educar nossos filhos, interagir com nossos amigos e familiares e até mesmo contemplar a vida e o mundo”.

Sem dúvida, esta perspectiva do “decrescimento sustentável” é um avanço em relação às posições malthusianas, pois o foco não é o tamanho da população, mas sim a qualidade de vida, a maior igualdade social, o bem-estar de todos e a felicidade do ser humano em harmonia com a Natureza.

Porém, a despeito de toda a visão altruísta e de uma sociedade justa, ecologicamente sustentável e com igualdade de oportunidades para todos, a idéia do “decrescimento” não parece ser totalmente respaldada nos Tratados Internacionais (como nas Conferências da ONU de Direitos Humanos de 1993, em Viena, e de População, do Cairo, ocorrida em 1994) que definem o desenvolvimento sustentável como um direito dos povos.

Uma forma de conciliar as duas perspectivas (decrescimento e desenvolvimento sustentável), ao meu ver, é por meio da defesa do decrescimento das atividades poluidoras e que utilizam recursos naturais não-renováveis e do crescimento das atividades verdes, limpas e renováveis. O certo é que a humanidade precisa reduzir o consumo de bens e serviços materiais que ultrapassam a capacidade de recuperação do Planeta e que comprometem o bem-estar e a sobrevivência das futuras gerações. Neste sentido, a Sociedade do Conhecimento, na medida que se baseia na produção de bens e serviços intangíveis e imateriais, pode ser uma solução possível para a equação entre população, desenvolvimento e meio ambiente.

Referências:
Serge Latouche: Como salvar o planeta e a humanidade? Descrescimento ou desenvolvimento sustentável?.
http://www.ihuonline.unisinos.br/index.php?option=com_tema_capa&Itemid=23&task=detalhe&id=1638
Rafael Reinehr: Decrescimento Sustentável – Uma Nova Forma de Pensar e Evoluir
http://reinehr.org/ecologia/sustentabilidade/decrescimento-sustentavel-uma-nova-forma-de-pensar-e-evoluir

Tricô, tênis e flores no parlamento. Os Verdes chegaram!

Munidos de agulhas, deputados Verdes, tricotavam no Parlamento. Homens barbados de cabelos longos teciam os seus próprios pulôveres…

 

Os Verdes da Alemanha estão fazendo aniversário. Nascidos de um vasto espectro de movimentos sociais dos anos 70 e 80 os Verdes estão soprando as velinhas dos seus 30 anos em defesa do meio ambiente, pela igualdade das mulheres contra a energia atômica.

 

 

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Tricô

 

 Munidos de agulhas, deputados Verdes, tricotaram no Parlamento, demonstrando que não aceitavam as regras e convenções partidárias vigentes. Em grupos, estavam lá parlamentares, homens barbados de cabelos longos tecendo os seus próprios pulôveres, tradicionalmente um trabalho feminino. Assim foi em 1983, assim eram os Verdes.

 

Senta que lá vem história

 

A grande coalizão partidária CDU/CSU e SPD, formada em 1966, não convencia a maioria dos jovens que ansiavam por mudanças. Ainda sem interlocutores no parlamento os ativistas pela paz e pelo verde cresciam em número e se organizavam na APO, Außsenparlamentarische Opposition, ou a Oposição fora do Parlamento. Com a ajuda do movimento sindical os estudantes queriam mudar a Alemanha e foram pedir ajuda aos filósofos Theodor Adorno, Max Hokheimer e ao velho Marx.

 

Eram tempos em que os russos marchavam sobre o Afeganistão e o partido Social Democrata, o SPD tinha acabado de propor o seu programa de energia nuclear para o governo. A guerra fria e o medo de um conflito nuclear empurravam os estudantes para as ruas. Demonstrações contra grandes projetos de usinas atômicas Wyhl (1975), Brokdorf (1976) e o “entreposto” para lixo nuclear “Gorleben”. Ah, se lembram de Gorleben e a “República livre de Wendland”? Eram manchetes nos jornais. Em 1977, em meio às lutas contra os planos de construção da usina atômica de Gronhde foram dados os primeiros passos em direção da fundação do primeiro “Partido do Meio Ambiente” na Niedersachsen.

 

Em 1979 a NATO, Organizacao do Tratado do Atlantico Norte, concorda com o estacionamento de mísseis nucleares de médio alcance na Alemanha levando milhares de manifestantes às ruas, o caldeirão estava quase que por entornar. O clima político era propício para a constituição e um partido verde.

 

No início os Verdes eram uma agremiação, uma mistura de grupos políticos que ia de movimento de esquerda, comunistas, a ferrenhos defensores do meio ambiente. Um verdadeiro balaio de gatos. Eles compunham várias agremiações partidárias independentes que defendiam propostas ecológicas e que ao se candidatarem às eleições regionais foram pouco a pouco obtendo sucesso e ganhando espaço no cenário político.

 

E aconteceu o primeiro Congresso

 

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Então a convocação foi feita: Em janeiro de 1980 foi chegando gente de toda parte. Ao serem abertas as portas do ginásio, uma turba de coloridos cidadãos ocuparam o espaço: comunistas, feministas, protetores da natureza democratas radicais, conservadores, anarquistas em geral. Seria realizado alí o primeiro congresso da fundação do partido Verde. Desde a segunda guerra não se via um tão vasto espetro de gente como aquela reunida… Com o recinto superlotado a coordenação teve que restringir o uso da palavra, houve a grita das feministas que acusaram a coordenação de ser “antifeminista”.

 

Ao microfone algo de incomum acontecia: pré-adolescentes pediam que acabassem com a obrigatoriedade escolar e queriam ter com… sic, 12 anos o direito de saírem de casa e… que os menores de idade tivessem direito de ter… relacionamentos amorosos com adultos. Minha gente, é isso mesmo, que vocês ouviram. A “tchuma” de adolescentes da época era da pesada. Em outro contexto, no de hoje, aquele grupo de jovens anarquistas seriam condenados por incentivo ao abuso sexual de menores. Para dizer que eu não estou mentindo dêem uma olhadinha na pérola histórica que encontrei nos arquivos do You Tube.

 

Aos leitores que não dominam a língua germânica, uma pequena amostra de como eram feitas as discussões políticas nos anos 80, um vídeo amador feito no primeiro congresso de fundação dos Verdes. Aqui um “guia”: As primeiras cenas, jovens anarquistas arrastam-se no salão onde acontecia o congresso, depois a intervenção dos jovens, primeiro pedindo a legalização das relações entre adultos e menores de idade, a segunda, pedindo a eliminação da obrigatoriedade escolar. O cinegrafista segue registrando caoticamente discussões paralelas do congresso e discussoes existenciais com os adolescentes.

Vejam Aquí!

      

http://www.youtube.com/watch?v=X11ak5qHOVs

   

Com tanta “novidade” claro que os políticos conservadores assustados com este tipo de “propostas” ruminaram pelos cantos. O então Egon Bahr, chefe do Partido SPD, os Sociais Democratas, consideraram os Verdes como “um perigo para a democracia” e Helmut Kohl não dava… dois anos de vida para o partido. Erraram feio. Ora, pois, em 13 de janeiro de 1980 os Verdes se organizaram legalmente como partido. Foto acima.

 

Na primeira eleição, em nível nacional, em que os Verdes participaram no ano de 1980, como partido oficializado, alcançaram 1,5% dos votos. Em 1983 com 5,3% dos votos, pela primeira vez, sentou uma colorida tropa, de 27 deputados, eleitos sob a bandeira verde nas cadeiras do Bundestag, Parlamento Alemão. As bases programáticas iniciais, resultado do Congresso de fundação do partido foram definidas: “Um partido social, ecológico, democracia de bases e pacifista”.

 

Pensando Verde

 

E do outro lado do Muro também florescia o Verde. Em toda parte da Alemanha do Leste, grupos de defensores do movimento pela ecologia se estruturaram, independentemente. As raízes da formação do partido Verde da ex Alemanha Oriental era a luta contra a poluição do meio ambiente. Em outubro de 1989, paralelo à Conferência do Greeway, em Berlin, teve início a fundação do Partido Verde. Nas bases programáticas: democracia, liberdades, ecologia e feminismo e sem violência. É bom lembrar que os anos de isolamento político e econômico fizeram com que  as indústrias do leste alemão se tornassem obsoletas. Do outro lado do muro as fachadas dos edifícios eram enegrecidas pela poluição emitida das chaminés das fábricas, quem sem filtro, despejavam fuligem diretamente no ar. Não havia muro que impedisse as nuvens de monóxido de carbono, provenientes dos escapamentos dos carros, sem catalisador, e das fábricas passarem para o outro lado. Quando ventos do leste sopravam, a população do lado de cá também sofria com a poluição e a chuva ácida.

 

Em 1990 os Verdes da ex Alemanha Oriental, “Bündnis 90” conseguem 2% dos votos e ganham 8 cadeiras no Parlamento. Um dia após as eleições, os Verdes de lá e de cá, se unificaram, e em maio de 1993 oficialmente Bündnis 90” (Leste) e “Die Grünen” (Oeste) tornaram-se “Bündnis 90/Die Grünen”. Em 2009 alcançam 10,7% dos votos, elegendo 44 deputados.

 

Originalidade

 

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Na foto de flores em punho, Petra Kelly e Joschka Fischer, hitóricos do Partido Verde no Parlamento.

 

Os Verdes desde a sua fundação foram mesmo originais: Por sua visão programática e constituição histórica os mandados eram “do partido” e não de indivíduos. Assim a cada dois anos havia uma rotação nos mandatos como ainda hoje acontece. Ah, o salário dos deputados era orientado pelo salário de um trabalhador médio. Na época 1,950 marcos alemães, mais 500 marcos.

 

Outra inovação: cotas para as mulheres. A proposta era que em todos os níveis da sociedade, na política, cultura, escola e áreas científicas, nos serviços públicos as mulheres ocupassem a metade dos postos de trabalho e claro, a tarefa começou em casa: Todas as agremiações partidárias dos Verdes formadas em nível local, regional e nacional tinham e têm hoje em seus quadros funcionais, postos de direção e chefia 50% de mulheres.

 

Posições presidenciais são paritárias e rotatórias, isto é: homens e mulheres dividem os mandatos. Aqui não somente os homens têm a palavra. A vez de discursar, por exemplo, obedece a regras e os homens dividem os palanques e microfones igualmente com as mulheres.

 

Em nível partidário há um conselho de mulheres que atua em nível nacional e no Parlamento Europeu. Sua função é coordenar a implementação das regras definidas pelas diretrizes do Partido no que diz respeito à questão de mulheres, subdividido em duas linhas internas, uma que trata de política para mulheres e outra para mulheres lésbicas, ambas com representação interna.

 

Diferente também de outros partidos os Verdes dão grande importância à transparência de suas finanças. O orçamento do partido é discutido abertamente e posteriormente publicado na internet.

 

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Joscha Fische toma posse em 1983 no Parlamento do  Estado Hessen como Ministro do Meio Ambiente.

 

Lésbica e gay? Não pronunciem tais palavras em vão!

 

No Parlamento Alemão dos anos 80 não era… permitido utilizá-las em discursos e nem mesmo redigi-las em atas internas. Pois bem, foram os Verdes que iniciaram o debate aberto para terem o “direito” de usarem os termos “lésbica” e “gay”.

 

Na década de 80, quando a epidemia de AIDS grassava o mundo, foram eles os primeiros a discutirem o assunto. Foram eles também, através de Herbert Rusche, parlamentar homossexual assumido, que se posicionaram contra o parágrafo §175, da Constituição Alemã que previa punição de até 10 anos de cadeia para homossexuais. 140.000 homens foram punidos por sua orientação sexual nos idos de 1935, tempos do Nacional Socialismo. Em 1988, graças aos Verdes o famigerado parágrafo § 175 foi apagado da constituição. Visitem “Gedenkort für die im Nationalsocialismus verfolgetn Homsexuellen“.

 

Na coalizão, quando fizeram parte do governo alemão, em agosto de 2001, conseguiram passar a lei que reconhecia a união de pessoas do mesmo sexo. Um grande passo para igualdade de fato na sociedade. Outra vitória foi em 22 de outubro e 2009 ao conseguirem que a corte de Karlsruhe desse os mesmos direitos de assistência social aos parceiros homossexuais que tivessem a união registrada em cartório e oficializando-os como “dependentes”. Para o entendimento da corte de Karlruhen as uniões entre homossexuais de ambos os sexos são colocadas no mesmo status constitucional que a união entre heterossexuais.

 

Desde 2001 as uniões homossexuais não eram consideradas em determinados níveis da lei, como direito a pensão, no entanto a partir desta data a corte de Karlruhe passou a abrir precedentes para que a lei de igualdade no tratamento de parceiros com união formalizada em cartório seja de fato concretizada.

 

Guerra e paz

 

Mas nem tudo são flores para os Verdes e a Alemanha se transforma, não sem polêmicas. O pacifismo que fora o grande fundamento ideológico dos Verdes sofre um abalo sísmico. A defesa da intervenção armada na guerra de Kosovo e Afeganistão, durante o governo de coalizão com a Social Democracia, 1998-2005, de Gehard Schröder, gerou grande discussão interna, o que causou fissuras no Partido e deixou marcas até hoje. E para os eleitores, apoiadores e simpatizantes, houve uma decepção por eles defenderem tais propostas, incompatíveis com suas bases ideológicas. Muitos votos voaram em direção a outros partidos.

A grande discussão era entre os ”Fundis” os “Verdes fundamentalistas” que eram contrários a uma política de coalizão partidária com o SPD, Partido Social Democrata e os “Realos”, “real política”, aqueles que defendiam que o partido deveria abrir o seu leque de alianças partidárias.

 

E foi ele, Joschka Fischer, então Ministro do Exterior, detentor de uma brilhante retórica, que fez a defesa, agora na condição de Ministro do Exterior, da polêmica intervenção armada na guerra de Kosovo, argumentando: “Se houvesse intervenção armada contra, Auschwitz, o holocausto, poderia ter sido evitado” ou ainda intervenção armada contra o massacre de Srebrênica, quando milícias sérvias massacram 8.000 bósnios. Aqui soldados alemães participam pela primeira vez após a fatídica Segunda Guerra, de uma guerra armada.

 

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Fischer em 1999 foi atingido na orelha esquerda por um saco de tinta vermelha, atirado por um indignado manifestante, que causou rompimento do tímpano. Foto

 

“Com licença seu presidente, o senhor é um… FDP”

 

Ah, mas o Joschka Fioscher… aquele que foi eleito em 1983 e tomou posse, vestido para protestar, em trajes esporte, de tênis de ginástica encerra sua carreira política também causando polêmica. Ao se retirar da política em 2005, trabalhou por um ano como professor convidado na Princeton University dos EUA, na cátedra “Crise diplomática Internacional” e… a seguir foi assessorar multinacional. Para aqueles que o conheceram rebelde, irreverente, que nas suas primeiras atuações no Parlamento nos anos 80, desafiava a ordem vigente chegando a pedir “com licença da má palavra” e dizer para o presidente da mesa: “O senhor é um FDP”, Joschka Fischer decepciona. Através de sua firma “Fischer Consulting” presta hoje serviços para firmas RWE, grande firma que atua na área de produção de energia a base do carvão, como consultor político no planejado gasoduto de 3.300 km denominado “Nabucco Pipeline” que transportara gás do Mar Cáspio passando pela Turquia em direção a Europa. Ele também foi consultor da BMW automóveis e desde outubro do ano passado, é conselheiro da Siemens em política exterior e estratégias. Nada mau seu Fischer. Alguém hoje também poderia reformular a frase dita por ele no Parlamento e retrucar: “Com licença seu Joschka Fischer, o senhor se tornou um…”

 

De Partido ecológico à real política

 

O Partido do anti partido veio para dizer que queriam outra forma de fazer política sobre outras bases econômicas, acabar com o serviço militar e o serviço secreto. Três décadas se passaram e os Verdes se estabeleceram no cenário político alemão, chegaram à vice-presidência e se tornaram parte do sistema de poder. Aqueles que queriam salvar o mundo continuam querendo, mas não já. Hoje na oposição, eles não tricotam mais seus próprios pulôveres no parlamento nem usam barba e cabelos longos e sim ternos chiques de marca, e cabelo cortadinho e engomado.

O Partido Verde está estabelecido como o “partido do meio ambiente” e já há muito suas idéias foram aceitas e incorporadas na sociedade, não somente por seus oponentes como também pelos empresários. Ecologia também pode ser rentável para a economia, através do incentivo da energia renovável, como a solar e a eólica. Não é à toa que o “boom” no setor de energia solar cresce e vira artigo de exportação alemão proporcionando milhares de postos de trabalho.

 

No seu programa “grünen Gesellschaftsvertrag”, contrato social Verde, de maio de 2009, tentam combinar ecologia com a economia. Claro, claro, a política de cotas para as mulheres também vem sendo absorvida pelos outros partidos. Na prática hoje, só para termos uma idéia, no serviço público, quando há um empate de qualificação para seleção para qualquer posto de trabalho, a preferência é para a candidata mulher. Hum… aqui há discussões.

 

O papel dos Verdes hoje? Parece paradoxal, mas os Verdes hoje fazem coalizão em quase todas as direções e transformam-se no “partido do meio”. Em Hamburgo governam com a Democracia Cristã, na Saarland com os conservadores e os liberais. O perfil dos Verdes foi, com o tempo, se transformando, se adaptando à sociedade alemã. Hoje são representantes da inteligência estadista e a maioria de seus quadros, assim como de seus eleitores possuem nível médio e superior, trabalha em serviços e ganham acima da média.

 

Aqui os desafios da geração de 68 encerram uma era. Políticos como Joscha Fischer, um dos fundadores históricos, figura carismática dos Verdes não está mais ativo na política. Mesmo sem o medalhão, mesmo sendo um dos menores partidos no Parlamento os Verdes em setembro de 2009 conquistam 10, 7 % dos votos, o melhor resultado de sua história. Na pesquisa de fevereiro/2010 os Verdes estão em alta, senão em altíssima e atingiram 15% de preferência no eleitorado, um recorde de popularidade aumentando assim as chances como partido preferencial para coalizões para as próxima eleicões

 

Vai parecer irônico, mas o político do conservador partido da Democracia Cristã, Ministro do Meio ambiente Norbert Röttgen vê futuro nas propostas ecológicas. Warrum nicht? Porque não?

 

O futuro é Verde.

Os Verdes na Europa

 

O Partido Verde EGP foi fundado em fevereiro de 2004 em Roma e hoje é composto de 35 partidos Verdes da União Européia e fora dela. Em 2004 participaram das eleições no Parlamento Europeu 25 candidatos de partidos Verdes. Sentam hoje no Parlamento Europeu 42 deputados Verdes sendo 13 deles procedentes da Alemanha e representam Bündis 90/Die Grünen, na Fração Verde Européia. A carta de princípios dos Verdes para a política na União Européia pode ser lida na “European Green Party” que esta em inglês.

 

Fonte:

 

BÜNDNIS 90/DIE GRÜNEN

 

Henrich Böll Stiftung

– Die Grüne politische Stiftung

– Die Grünen. Das Bundes programm

 

Das Parlament

 

ZDF mediathek

 

Planet wissen

– Entstehun der Grünen

 

Robert Havemann Gesellschaft

Joschka Fischer – Zu seiner Vergangenheit

 

Superando Malthus: o bem-estar populacional

Thomas Robert Malthus (1766-1834) foi um escritor, religioso e economista inglês conservador que defendia os privilégios dos latifundiários do seu tempo e atuava contra os interesses da nascente burguesia industrial, sendo especialmente contra a melhoria do bem-estar dos camponeses e do proletariado. Malthus defendia a manutenção da “renda da terra” dos proprietários rurais visando maximizar suas receitas. Por isto foi contra o livre comércio de alimentos (livre cambismo) e a favor de um “salário de subsistência”.

Para justificar suas posições retrógradas em termos econômicos e sociais, Malthus formulou uma suposta “lei de população”, nos seguintes termos: “a população, quando não controlada, cresce numa progressão geométrica, e os meios de subsistência numa progressão aritmética”. O objetivo desta pretensa ciência demográfica era contrariar os ideais iluministas de “perfectibilidade humana” e justificar a permanência da pobreza, do fatalismo e da existência da fome, das doenças, das epidemias, das guerras e da miséria. Malthus – que era contra a “Lei dos Pobres” – considerava a pobreza um desígno de Deus e era contra o aborto e qualquer método contraceptivo de regulação da fecundidade entre os casais (além de ser contra o sexo fora do casamento). Enfim, Malthus era conservador do ponto de vista moral e reacionário em termos de desenvolvimento social e humano, não acreditando na possibilidade de se avançar na qualidade de vida da população.

Infelizmente existe muita confusão e ignorância em relação às idéias de Malthus. Como Malthus justificou a existência da pobreza pelo crescimento populacional, algumas pessoas acham que tocar na questão populacional quando se discute o bem-estar da população é uma atitude malthusiana. Alguns chegam mesmo a defender um crescimento populacional ilimitado, como se isto fosse uma atitude anti-malthusiana. Evidentemente isso é um equívoco. Na verdade, ser contra Malthus é ser contra a pobreza.

Tomemos o exemplo de John Maynard Keynes que escreveu, em 1937, um pequeno texto intitulado: Some economic consequences of a declining population. Embora Keynes fosse um admirador da obra econômica de Thomas Malthus, o seu texto destoa do espírito pessimista do pensamento populacional malthusiano e mostra que o desafio maior da economia é garantir o bem-estar.

Não é preciso conhecer muito a história para saber que Keynes estava escrevendo no momento da maior recessão econômica do século XX, quando existiam claros indícios de que a população, ao contrário dos séculos anteriores, apresentava taxas vitais que apontavam para um declínio da população a continuar estas tendências. Por isso ele fala que “o futuro será diferente do passado”.

Naquele instante de recessão internacional e de crescente protecionismo, Keynes estava muito preocupado com a não realização do potencial produtivo e a baixa demanda efetiva da economia. Naquela conjuntura desfavorável da década de 1930, um declínio da população poderia apenas agravar a situação econômica já que a “propensão marginal à investir” dos capitalistas depende da eficiência do capital (do retorno em termos de lucro) e do crescimento do consumo, ou seja, das expectativas racionais otimistas. É o que fica claro nas seguintes considerações:

“Uma população crescente tem uma influência muito importante sobre a procura de capital. Não é só o fato de a procura de capital – abstraindo as mudanças técnicas e um melhor padrão de vida – aumentar mais ou menos em proporção à população. Mas, na medida em que as expectativas empresariais se baseiam muito mais na procura presente do que na futura, uma era de população crescente tende a provocar otimismo (…) Mas, num período de população declinante é o contrário que ocorre. A procura tende a ficar abaixo do que se espera, e uma situação de oferta excessiva é corrigida com menos facilidade. Assim, pode surgir uma atmosfera pessimista; e embora a longo prazo o pessimismo possa tender a corrigir-se através de sua influência sobre a oferta, o primeiro resultado para a prosperidade, da reviravolta de uma população crescente para uma declinante, pode ser muito desastroso” (pp. 181 e 182).

Para Keynes a procura de capital depende de três fatores: população, padrão de vida e tecnologia. Ou em outras palavras: número de consumidores, nível médio do consumo e período médio de produção. Assim, uma redução da população (número de consumidores) só não afetaria o crescimento econômico (e a procura de capital) se houve uma melhora no padrão de vida da população, ou seja, se a redução do número de habitantes fosse contrabalançada pelo aumento do consumo médio da população em declínio. Porém, Keynes considera que o aumento do padrão de vida tem uma tendência histórica de baixo crescimento e não seria capaz de contrabalançar a redução populacional, especialmente em período de recessão. Para ele, a inovação tecnológica também não seria suficiente para contrabalançar o declínio populacional:

“A experiência do passado mostra que um aumento cumulativo maior do que 1% ao ano no padrão de vida raramente se mostrou praticável. Mesmo se a fertilidade de invenção permitisse mais, não poderíamos nos ajustar facilmente a uma taxa maior de mudança do que essa” (p. 185).

Esta posição, aparentemente pró-natalista, chocava com as posições anti-natalistas dos partidários de Malthus. Keynes tenta se explicar da seguinte forma:

“Pode parecer à primeira vista que eu esteja contestando esta velha teoria e que, ao contrário, esteja argumentando que uma fase de população declinante tornará muito mais difícil do que antes a manutenção da prosperidade. Em certo sentido, esta é uma interpretação correta do que estou dizendo. Mas, se houver aqui presentes alguns velhos malthusianos, não quero que suponham que estou rejeitando seu argumento básico. Indiscutivelmente, uma população estacionária facilita a elevação de padrão de vida; mas isto somente numa condição – isto é, se de fato ocorrer o aumento de recursos ou de consumo, conforme for o caso, que uma população estacionária torna possível. Isto porque agora aprendemos que temos outro demônio a nosso lado, um ser pelo menos tão ameaçador quanto o malthusiano – trata-se do demônio do desemprego, que se espalha através do colapso da demanda efetiva” (p. 186).

Na verdade, Keynes estava querendo mostrar que na impossibilidade, no curto prazo e numa conjuntura recessiva, de aumentar a renda per capita e reduzir o desemprego e os juros, um declínio populacional só iria agravar a situação da demanda efetiva. Para ele o “demônio” do desemprego era mais ameaçador do que o “demônio” do crescimento populacional:

“Quando o demônio P da população está acorrentado, libertamo-nos de uma ameaça; mas agora estamos mais expostos do que antes ao outro, ao demônio D do desemprego” (p. 187).

A solução indicada por Keynes como “o melhor dos dois mundos” seria uma população estacionária, com aumento do padrão de vida (aumento do consumo per capita), uma distribuição mais eqüitativa da renda, redução das taxas de juros e avanços tecnológicos que possibilitassem uma redução substancial do período de produção (isto é, na receita clássica de Adam Smith: ganhos da produtividade do trabalho, com aumentos salariais e redução dos preços das mercadorias).

Como defensor de um sistema capitalista mais equilibrado e com manutenção da liberdade de iniciativa, Keynes, termina o texto defendendo o combate ao desemprego e mostrando que mesmo em uma situação de população estacionária ou em ligeiro declínio, o aumento do padrão de vida poderia ser a chave para a manutenção da prosperidade:

“Se tivermos a necessária força e sabedoria, uma população estacionária ou em lento declínio poderá nos permitir elevar o padrão de vida para o que ele deveria ser, conservando ao mesmo tempo aquelas características de nosso esquema tradicional de vida, que mais valorizamos agora, quando vemos o que acontece ao que as perderam” (p. 188).

John Maynard Keynes morreu em 21 de abril de 1946 e não viveu o suficiente para ver suas idéias serem colocadas em prática, nos cerca de 30 anos seguintes, quando a economia internacional foi guiada pelas políticas de pleno emprego, de desenvolvimento tecnológico e de aumento do padrão de vida em grande parte dos países do mundo.

Nos chamados “anos dourados” da economia internacional – também chamado de período keynesiano – o mundo assistiu ao crescimento econômico e populacional bem acima da média dos primeiros 50 anos do século XX. A população mundial passou de menos de 2 bilhões em 1950 para mais de 6 bilhões no ano 2000. Mesmo assim houve um crescimento significativo da renda per capita, graças a um período muito fértil de avanços científicos, educacionais e tecnológicos.

Keynes, que estava preocupado com a situação recessiva da década de 1930, jamais suporia que no início do século XXI a China estivesse comemorando uma média de crescimento da renda per capita acima de 7% ao ano, por mais de 3 décadas (tirando mais de 400 milhões de chineses da pobreza). E, também, que a Rússia estivesse apresentando, entre 2000 e 2008, altas taxas de crescimento do produto e da renda per capita, mesmo com uma população em declínio.

Contudo, o crescimento substancial do produto e do consumo médio por habitante do mundo, que reduziu a miséria relativa, não foi capaz de eliminar a pobreza absoluta. Também, não foi capaz de compatibilizar o crescimento econômico com a conservação e a preservação da natureza. Portanto, o desafio do século XXI é eliminar a pobreza, universalizar o bem-estar e preservar a natureza e a biodiversidade ambiental. Nas palavras de Keynes, “uma população estacionária ou em lento declínio poderá nos permitir elevar o padrão de vida”.

Combater a enorme recessão econômica e a crescente pobreza da década de 1930 era a preocupação central de John Maynard Keynes, que não escreveu muito sobre os constrangimentos do meio ambiente. Contudo, em pleno século XXI a questão ambiental assumiu uma prioridade absoluta. Assim, inspirado na busca do bem-estar, tratararemos, em outro artigo, de uma teoria que vem ganhando espaço na atualidade que é o “decrescimento sustentável”.

Referências:
KEYNES, John Maynard Some economic consequences of a declining population, The Eugenics Review XXIX: 13-17, London, 1937. (Neste artigo utilizou-se a tradução do texto de Keynes publicado no livro: Keynes. Coleção Grandes Cientistas Sociais, organizado por Tamás Szmrecsanyi, Editora Ática, São Paulo, 1978).
ALVES, J. E. D. . A polêmica Malthus versus Condorcet reavaliada à luz da transição demográfica. Textos para Discussão. Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Rio de Janeiro, v. 4, p. 1-56, 2002. Disponível em:
http://www.ence.ibge.gov.br/publicacoes/textos_para_discussao/default.asp

Entendendo a generosidade do FMI no Haiti

Recentemente, o Fundo Monetário Internacional enviou, de forma magnânima, generosa, humanitária ao Haiti uma “ajuda de emergência” de US$ 114 milhões. Como de costume, mantendo nossa característica de selvagens pensadores, precisamos buscar nas entrelinhas o entendimento desta “ajuda” no presente caso.

IMF_logoO empréstimo feito pelo FMI só será cobrado a partir de 5 anos e meio, sem nenhuma incidência de juros neste período. Desta forma, diz o diretor executivo e presidente da instituição, Sr. Dominique Strauss-Kahn, o FMI participa positivamente da reconstrução do país devastado. Acrescenta ainda que ajudará as autoridades haitianas a preparar e implementar um plano de reconstrução e recuperação econômica a médio prazo. Olho muito aberto, sobrancelhas franzidas: em muitos países (inclusive no Brasil, e na Argentina) os “planos estruturais” programados pelo FMI apresentaram-se mais maléficos do que benéficos, como se pode acompanhar na história destes países.

Esta tática destinada a re-legitimar a ação do FMI no Haiti foi considerada pelo Comitê para a Anulação da Dívida do Terceiro Mundo (CADTM) como escandalosa, já que tanto o FMI como o Banco Mundial e outras instituições financeiras são responsáveis, indiretamente, por situações que levam à violação dos direitos humanos e à liquidação da auto-suficiência alimentar do povo haitiano, entre outras consequências.

babydocHistoricamente, o Haiti já nasceu endividado: para ter sua independência reconhecida em 1804, a França forçou o país a pagar 90 milhões de francos em ouro como compensação pela perda de seus escravos. O pagamento desta dívida levou mais de um século, tendo começado em 1825 e concluída em 1947. Além disso, entre 1910 e 1934 os Estados Unidos ocuparam militarmente e saquearam o tesouro nacional haitiano. Mantendo a sua tradição de apoiar as ditaduras na América Latina, os Estados Unidos apoiaram o então ditador François Duvalier e seu filho Jean-Claude, também conhecido como Baby Doc, através de empréstimos obtidos do Banco Mundial, do FMI e do BID, empréstimos esses utilizados principalmente para financiar esquadrões da morte como o Tonton Macoute e o Leopards.

A lamentável combinação entre o domínio político-econômico-militar americano e a invasão das instituições financeiras acabaram por demonstrar-se extremamente desastrosas para o povo haitiano. Por exemplo: a dieta do povo foi forçosamente modificada. Com o despejo de produtos subsidiados dos Estados Unidos, a produção local foi praticamente varrida do mapa. Vítima desta concorrência desleal, o Haiti acabou por se tornar um escoadouro de produtos agrícolas, aves e peixes de baixo valor comercial para os Estados Unidos. É paradigmático o que aconteceu com o porco local:

porcosO Haiti possuia 1.300.000 porcos pretos, uma variedade local que se alimentava de resíduos e de vermes e minhocas. Tirando partido de um surto de peste suína que aconteceu na República Dominicana em 1978, e o surgimento de alguns poucos casos no Haiti, os Estados Unidos espalharam o risco de uma ameaça iminente de contágio e, por meio do BID, Baby Doc foi levado a liquidar tudo a preço de banana. Milhares de famílias ficaram sem nenhuma forma de sustento. Os maiores beneficiários foram as indústrias americanas de produtos derivados de suínos. Como se não bastasse, o FMI e o Banco Mundial conseguiram uma redução de tarifas de 30% sobre as importações de arroz, facilitando ainda mais a entrada do arroz subsidiado norte-americano, o que levou ao êxodo de muitos agricultores que agora, sem trabalho, passaram a aumentar o subúrbio pobre de Porto Príncipe. Em 1970, o país era auto-suficiente na produção de arroz.

haiti-usa2Para terminar de entender a história, vamos lembrar que o Presidente Jean-Baptiste Aristide foi derrubado do poder em 29 de fevereiro de 2004 por não cumprir com a imposição do FMI para privatizar os bancos, as empresas de cimento e de telefonia. O método que se repete historicamente é bem simples: o FMI e o Banco Mundial instituíram um bloqueio da “ajuda”, que estava totalmente em sintonia com o desejo do governo George W. Bush. O economista Jeffrey Sachs, um ex-assessor das duas entidades, disse o seguinte à época: “Funcionários americanos estavam bem conscientes de que o embargo provocaria uma crise na balança de pagamentos, um forte aumento da inflação e o colapso dos padrões de vida o que, por sua vez, alimentaria a rebelião (contra Aristide). Um grupo paramilitar invadiu o Haiti e o resto é conhecido: praticamente sequestrado por forças dos Estados Unidos, Aristide foi retirado do Haiti e foi restaurado com a condição de cumprir o plano para a “reforma estrutural” do FMI, sempre maravilhosa, sempre generosa.

A História tem vários lados, mas geralmente o que nos é apresentado é aquele dos poderosos, dos que dominam os bens de produção, a riqueza e os grandes meios de comunicação. Nosso trabalho é oferecer o contraponto, um ponto de vista que insiste no uso de nossa cachola, de nossa massa cinzenta. Insistimos na formação de pensadores selvagens, que não aceitam facilmente a realidade digerida pela máquina que produz a sociedade do espetáculo e do consenso midiatizado.

Você pode fugir do desconforto, buscando informações que lhe mantenham tranquilamente sentado no seu sofá ao fim do dia de trabalho, assistindo à sua caixinha maravilhosa ou então, pode enfrentar o desconforto, digerindo-o e reconformando seus parâmetros conscientes e inconscientes, produzindo uma nova, milagrosa e libertadora realidade. A escolha é sua.