Pedido público de desculpas


Em 07 de março de 2010 foi publicado o resultado do Concurso O Pensador Selvagem/ Simplicíssimo de minicontos. Nesta data eu, Rafael Reinehr, publiquei o resultado do referido concurso elencando o nome de Lilly Falcão, na ocasião por mim chamada de Lia de Abreu Falcão de forma a responsabilizá-la pelo atraso do resultado do concurso, de forma que possa ter causado constrangimento à então amiga, escritora e jurista.

O tom antipático do meu texto tornou-se ainda maior quando, no dia 8 de março, recebi notificação da amiga Lilly informando que esteve ausente por motivo de força maior, já que precisou realizar intensos cuidados de saúde na ocasião.

Após uma tentativa frustra de edição do texto, naquele mesmo dia 8 de março, somente vim a verificar meu lapso no dia 26 de março, quando efetivamente editei a página com o resultado do concurso neste website.

Assim posto, quero publicamente me desculpar com Lilly Falcão, pelo fato de inicialmente de forma intempestiva e, em seguida, de forma inadvertida, ter causado qualquer mal pela exposição pública de seu bom nome, sendo que em nada a mesma poderia ser responsabilizada pelo atraso na divulgação do concurso em virtude de força maior.

Espero que, de algum modo, esta declaração pública e pedido de desculpas possa amenizar o buraco que ficou em nossa amizade e que o tempo mostre que não houve maldade ou intenção de lhe causar qualquer dano, senão uma atitude intempestiva da qual estou sinceramente arrependido.

Sem mais,

Rafael Reinehr                

Existe alguma coisa de errada nessa “justiça” – o caso Nardoni de um ponto de vista libertário

    O que é justiça? Prender uma pessoa por 13, ou 31 anos, por toda a vida ou condená-la à morte é “fazer justiça” quando uma pessoa tira a vida de outra?
    A impunidade gera insegurança e aumenta a chance de atos violentos? Da mesma forma, a impunidade favorece a corrupção? É o ser humano bom ou mau por natureza?
    É mais importante punir o bandido ou evitar que este acabe por se tornar criminoso? Quais são os fatores – sociais, econômicos, biológicos – que criam um assassino, um ladrão, um corrupto?

    Enquanto não tivermos condições de responder estas e algumas outras perguntas, estaremos sempre perdidos. Sempre precisaremos correr atrás e punir “malfeitores”. Veremos cenas em que, tal qual nas cerimônias de guilhotinagem da antiguidade, o povo se reunia e, eufórico, bradava ao ver a cabeça ser decapitada.

    Enquanto humanos, somos demasiado animais ao querer ver um outro ser humano antes punido do que educado.

    Se fôssemos educados, se fôssemos conviviais, se soubéssemos o que é uma vida em comunidade, se mantivéssemos uma vida em harmonia com os outros, sem precisar viver em favelas de ricos (conjuntos de apartamentos), se controlássemos a natalidade, tivéssemos melhor distribuição da riqueza (ou se nossa maior riqueza não fossem os bens materiais e sim a tranquilidade de espírito), não precisaríamos de cadeias, jaulas humanas nas quais o veneno social instilado em tenra idade acaba por se purificar e tornar mais poderoso e concentrado.

    E como fazer a transição de um mundo civilizado (doente) para um outro, menos opressor e mais de acordo com princípios humanos éticos e de justiça social?

    Tudo bem, este sistema que aí está é o melhor que temos (é o melhor que temos?). Mas é o melhor? O que fazer para tornar a justiça “justa”?

    Enquanto Alexandre Nardoni e Ana Jatobá apodrecem envelhecem na cadeia, vamos pensar em alguma forma de tornar menos necessário o uso de confinamentos compulsórios?

    Na minha visão, compartilhada por outros pensadores libertários, o crime é em grande parte uma produção social. À ausência dos constrangimentos e mascaramentos sociais derivados da divisão do trabalho, das contingências relacionadas ao culto narcísico ao ter e acumular bens materiais, e dos laços viciados que surgem a partir de relações desequilibradas de poder,  até mesmo patologias de cunho emocional teriam sua incidência diminuída sensivelmente, resultando em redução de surtos inexplicáveis de homicídios, estupros, pedofilia e outros crimes nefastos.

    Usemos este sistema caduco e injusto, mas não tardemos em encontrar vacinas. Pois bem sabe o médico e o bom paciente que a prevenção é o melhor remédio.

Obama está vivo, para desespero dos conservadores

A última semana de março foi consagradora para o presidente Barack Obama. O Congresso Americano aprovou a Reforma da Saúde que amplia a cobertura a cerca de 32 milhões de pessoas. É a politica social de maior alcance no país, feita em quase cinco décadas (desde Lyndon Johnson, 1963-1969, que ratificou a lei dos direitos civis). Os EUA e a Rússia concordaram em ampliar o controle de armas estratégica, tendo sido o acordo mais importantes desde o fim da Guerra Fria. Por fim, o presidente norte-americano, com sua paciência esgotada com a procrastinação do governo de Israel, ousou colocar uma “pulga atrás da orelha” do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu e sua política de assentamentos em Jerusalém. Em suma, foi a semana que fez Barack Obama voltar a sorrir e fez o mundo ver que os EUA não estão (totalmente) dominados pelos conservadores do Partido Republicano e do movimento “Tea Party”.

O primeiro ano de governo de Obama não foi de muitas realizações. A “herença maldita” do governo Bush fez a economia americana ter a maior recessão dos últimos 60 anos, no ano de 2009. O alto déficit fiscal e os altos níveis de desemprego, provocados pela recessão (que foi consequência das políticas do partido Republicano), minaram a confiança dos americanos. Além disto, a fala mansa e a paciência de Obama estavam dando a impressão de fraqueza e falta de vontade política do “Comandante em Chefe” do país.

Contudo, as vitorias de Obama no final de março podem afastá-lo da sindrome de Jimmy Carter (1977-1981) e aproximá-lo da sina vitoriosa de Franklin Delano Roosevelt (1933-1945). Por enquanto, ele evitou entrar para a categoria dos líderes que não conseguiram promover suas agendas. E o pior, uma derrota na Reforma da Saúde teria deslocado o eixo de poder para o Congresso e para agenda conservadora do partido Republicano, cada vez mais radical em suas posturas contra os direitos humanos, a distensão internacional, contra as políticas de mudança da matriz energética e de combate ao aquecimento global.

O presidente Obama já conseguiu gravar seu nome na história das legislações sociais nos EUA. A aprovação da reforma despertou o apetite de Obama por vitórias. Por outro lado, os republicanos, apesar de ter ganhado algumas escaramuças táticas, estão sendo conhecidos como o partido do não. Sarah Palin, ex-governadora do Alasca e “figura carimbada” na mídia conservadora, é considerada desqualificada para assumir a Casa Branca por 70% dos norte-americanos. O senador John McCain, que concorreu à presidência em 2008, com o discurso “American first” (o país em primeiro lugar), agora ameaçou os Democratas, dizendo a uma rádio que “não haverá cooperação pelo resto do ano” dos republicanos. Ou seja, a dupla McCain/Palin não possui propostas concretas para os EUA e o resto do mundo e estão se consolidando como “vanguarda do atraso e da obstrução”.

Seja o que quer que aconteça no resto do mandato de Obama, essas vitórias de março já serão conquistas que vão entrar para a história. Porém, muita coisa ainda falta ser feita. Existe uma necessidade de se colocar um rápido fim às guerras do Afeganistão e do Iraque. É preciso fazer um novo tratado do clima para substituir o protocolo de Kyoto, etc. Porém, se os demais países do mundo possuem atritos e divergencias com o governo Obama, a situação piora muito com os conservadores do partido Republicano e o ultrapassado movimento “Tea Party”. Estes não fazem juz aos revolucionários que estiveram à frente da Independência dos Estados Unidos em 1776, pois estão pelo menos 200 anos atrasados na comprensão do mundo e dos desafios da pós-modernidade.

Um cinema do ordinário

Para abrir esta coluna, buscamos alguma obra cinematográfica ficcional, que tenha sido realizada nos últimos dez anos, que reflita, de algum modo, assim como nos primeiros filmes dos Lumière, o cotidiano. Obviamente, tal obra, deveria abranger o tema de forma crítica e flexiva.

 

“O Pântano”, dirigido e roteirizado por Lucrecia Martel, encaixou como uma luva em tal proposta. Logicamente, para realizarmos uma reflexão básica sobre todos aspectos deste filme, teríamos que nos estender por mais algumas postagens. Como apresentado anteriormente, nosso foco aqui se dá apenas nas questões ordinárias do cotidiano.

Como diversos outros autores já discorreram sobre a obra em questão, relembrando como esta é trabalhada de forma primorosa na mise en scène, na montagem e em diversas outras etapas relativas à construção cinematográfica, nosso olhar aponta para os personagens, e como se fazem através de uma história do comum, do cotidiano, do banal. Seres que incorporam pensamentos, emoções e reações, atravessam uma narrativa do ordinário.

Sem realizarmos uma análise cena a cena, ou mesmo extremamente aprofundada, podemos levantar aspectos gerais e fundamentais para a apreciação de detalhes orquestrados na fundamentação emocional das personagens. Seriam estes baseados no viver diário, naquilo se passa despercebido, mas que estrutura até o nosso próprio cotidiano. Há uma exposição do ambiente e da fragilidade dos indivíduos, como barreiras que instigam o espectador a adentrar naquele universo. Lá se desenvolve o frágil, o incompreensível, o infantil, a passividade, o não conhecer-se, um vazio sentimental e a não redenção. As camadas emocionais são exploradas sem serem explicitadas.

Há significativos detalhes que recobrem toda a narrativa. Questões como possíveis desejos, acidentes que propiciam reencontros, perdas que atravessam os lares, diálogos estabelecidos pelo telefone, a fé católica e seus conflitos, as relações da imprensa com a sociedade, o céu nublado, os ambientes pouco iluminados, tiros que se ouve e não se vê, animais expostos, os pimentões vermelhos, o morro, cigarras, uma música, um barulho da porta de um carro e de passarinhos, as cores da Bolívia narradas ao telefone, os cabelos sujos de Momi, a bebida alcoólica, a embriaguês, o vidro sujo dos carros, as águas apodrecidas e os sonhos inalcançados. Tudo lá está colocado de forma que pareça superficialmente banal, porém, tudo é, na verdade, profundamente revelador.

Cada pequena pista comportamental e espacial revela um pouco sobre aqueles homens e mulheres, que são o que são e ponto. Em poucos se pode ver o desejo de mudança que, quando nasce, é alimentado e brutalmente podado. Indivíduos que se recobrem com um descaso e que passam por infortúnios naquela sua forma opaca de se viver.

 

Com cores repartidas, ou contos imaginários que alimentam mentes e amedrontam a infantilidade, suposições religiosas que acalentam e que congelam esperanças, estão estacionados perante a própria imagem ou fugitivos desta.

Fatores externos e internos que se retroalimentam são caminhos e apontam extensões daqueles seres. Testemunhas de uma trajetória sem redenção, sublimação, escândalos ou ocorrências extraordinárias, as personagens estão em tudo que as cercam, sejam as árvores, o vinho, a chuva, o sangue, os sons, a Santa, os humanos, os desejos, as águas, a opacidade, a morte, a tensão, os descuidos ou o passado. São eles consequência e causa de tudo que se mostra na imagem. Desaparecerão como os sons que os cercam. Brutos, firmes, intensos, cheios de significado, trazem suspeitas e incertezas, mas são, acima de tudo, temporários.

 

Obviamente cada espectador absorverá um ponto, cada questão poderá trazer uma leitura diversa, porém, buscamos aqui, apresentar um viés, uma abertura, um caminho para uma leitura possível. Não hesito em recomentar que se veja e reveja o filme, que, acima de qualquer rótulo, é uma criação cinematográfica promissora no quesito interpretação.

 

 

[na próxima postagem iremos

refletir um pouco sobre

a importâncida da

preservação de obras

cinematográficas.]

 

Até mais.

 

 

 

 

O presente e os devires: sobre alguns nomadismos


thinkers_desert
Editor do blog de Filosofia e Teoria do Direito A Navalha de Dalí


Hoje iniciamos uma coluna mensal em O Pensador Selvagem, e nada melhor do que nos dedicarmos a falar um pouco sobre a unio mystica entre esses elementos: o pensamento e o selvagem; elementos que unimos sob o caráter unívoco e, a um só tempo, diferencial (e plural), de alguns nomadismos. A violência que força a pensar é da mesma ordem de uma violência que vem de fora; Michel Maffesoli, já há alguns anos, dissera que é isto um bárbaro: aquele que vem de fora para fecundar um corpo social já esgotado. A barbárie, o nomadismo, como devires micropolíticos, apontam para uma potência selvagem em conexão com um certo vitalismo e com a própria vida, que constitui suas infinitas e contínuas possibilidades de variação de modos de vida; assim é para o antropólogo francês, Michel Mafesolli, bem como para alguns de seus mais importantes predecessores, Friedrich Nietzsche (e seu conceito de vontade de poder) e Gilles Deleuze (e os conceitos de vida e imanência, que se confundem no título de seu último escrito, publicado em 1995, L’immanence: une vie…).

O nômade povoa um espaço em contínuo deslocamento pois vive de entretempos, em entretempos; ser nômade, diziam Deleuze e Guattari, é viajar com a potência selvagem de uma linha de fuga; é um modo de existência de alguém que não está lá ou cá, mas continuamente entre-dois. Assim, o nômade está sempre entre um ponto de água, um ponto de caça, um ponto de assembleia, ou um ponto de descanso. A vida do nômade é rizomática, intermezzo. Em seus caminhos, existem apenas pontos, mas os pontos não se sobrepõem às linhas – ao contrário, os pontos, singulares, apenas existem para serem abandonados pela linha, que é, já, uma linha de fuga ou de ruptura, como preferiria a literatura de F. S. Fitzgerald. Entre dois pontos há sempre um trajeto, e o entre-dois, a linha, o traço que vem de fora, tomou consistência, e goza de autonomia e direção próprias.

Na medida em que o nômade é territorial, e distribui-se em um espaço liso, Deleuze e Guattari alertam que seria falso defini-lo pelo movimento. O nômade é aquele que, agarrado a um espaço liso, não parte, não quer partir. O nômade sabe esperar e tem uma paciência infinita. Daí, ser necessário, desde Kleist, distinguir velocidade e movimento; o movimento é extensivo (deslocamento relativo ao espaço, que vai de um ponto a outro), e a velocidade é intensiva – de caráter absoluto, como um corpo cujas partes e átomos preenchem um espaço liso à maneira de um turbilhão, como aprazia a física de Lucrécio, podendo surgir em um ponto qualquer. Esse movimento turbilhonar é próprio da máquina de guerra nômade; sua errância é uma questão de fuga, que pode dar-se até mesmo sem sair do lugar em que se está.

Pierre Clastres lembrara a precedência etnológica da existência, entre certas tribos nômades, de uma sociedade contra o Estado. A cada vez que um poder potencialmente totalizador se formava, dando mostras de querer formar Estado, povoados inteiros inseriam-se em uma série de pequenos e tumultuosos combates. Assim, acompanhavam uma linha de fuga desorganizando, desarticulando as linhas de segmentariedade dura ou molar (ou de Estado), em benefício de “n” articulações, de uma multiplicação de possibilidades, ainda que aparentemente a empiria mostrasse exclusivamente destruição, abolição e decadência civilizacional.

Então, por que falar em alguns nomadismos? Por que reivindicar como abertura – como me parece que O Pensador Selvagem tenciona – um espaço micropolítico nômade a partir do qual pensar? Contemporaneamente, trata-se de questionar-se a respeito das trincheiras que temos cavado no tempo presente e no próprio real; que linhas nos atravessam: de segmentariedade molar ou molecular? Quais delas servem a um devir, quais delas servem a uma prudente desarticulação? De que devires somos capazes? Como temos afrontado o presente, e de que forma poderíamos fazer uso da memória e da história para confrontar o atual? Não se trata de negar o atual, mas de entrevê-lo desde uma perspectiva do contemporâneo – aquela em que a experiência é como a descrita por Agamben: arrostar o feixe de trevas que, longe de constituírem uma negatividade, nos afetam e concernem. Tudo se torna uma questão de prudência na fuga de velocidades, pois as trevas daquilo que vem não constituem uma pura ausência de luz, mas intensidades presentes em uma velocidade absoluta, indiscernível, imperceptível.

Por isso, alguns se espantam ao se depararem com perguntas deleuzianas aparentemente sem sentido. Uma das mais correntes é “O que se passou?”. Não se trata da interrogação de um absorto, mas de um perscrutador de devires, de um suscitador de acontecimentos, que asculta a positividade potente daquilo que ainda não…; isto é, do virtual, de um presente ou de um contemporâneo aberto aos devires. O que significa dizer: cumpre-nos um tempo presente não separado daquilo que o nosso tempo pode; e não seria precisamente isso a abertura – suscitar acontecimentos?


Pai, não os perdoem, porque eles sabem o que fazem

Quando o diabo vai morar na casa de Deus e faz cair em tentação padres educadores…

O longo silêncio está sendo quebrado. Casos e mais casos de abuso e violência sexual, praticados em internatos e escolas na Alemanha, têm abalado as bases da Igreja Católica e são notícia de destaque, quase toda semana na imprensa. Até agora são mais de 100 casos de abuso sexual e maus tratos registrados nas escolas da Ordem dos Jesuítas, desde 1950. Talvez, estes registros sejam apenas a ponta do iceberg.

 

 

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Foto: Solange Ayres

 

A maioria dos abusos, denunciados pela imprensa, foram cometidos nas escolas e internatos sob a responsabilidade da Igreja Católica. Padres que, aproveitando da confiança que os pais depositaram neles e da autoridade que têm, abusaram sexualmente de jovens e crianças, além de terem impingido castigos físicos e humilhações, obrigando jovens a realizarem trabalhos forçados.

No passado…

Dos 3.000 mil “internatos”, existentes na Alemanha, nos anos 50 havia lugar para mais 200.000 crianças, 80% delas estavam sob a coordenação/direção da Igreja Católica e se dedicavam à “educação” de crianças e jovens. A metade destas crianças permanecia lá de 2 a 4 anos. Muitas passavam toda a sua infância fechados e somente aos 21 anos podiam sair, ou melhor, se libertarem dos suplícios lá vividos. Hoje se sabe que quase meio milhão de adultos alemães, entre 45 e 70 anos viveu parte de sua infância sob a perversa ordem renascentista transportada para o século XX e exercitada nas instituições católicas de ensino : “rezar e trabalhar”. Assim o trabalho como castigo era unido à pedagogia educacional, legitimada pela filosofia da Igreja de ”purgação dos pecados” através do sofrimento físico. Hoje a Igreja daqui se distancia desta filosofia, mas ela foi praticada por décadas.

Purgando os pecados

E se não bastasse os casos de abusos sexuais, a Igreja também é acusada de explorar economicamente os seus pupilos. Em muitos internatos os jovens tinham que trabalhar de manhã à noite, de domingo a domingo. Como mão-de-obra barata labutavam, senão gratuita, nas cozinhas, nas oficinas, nas lavanderias do internato, nas serrarias, nas fábricas, serviço de jardinagem; em hotéis de propriedade da Igreja ou de amigos dela. As meninas em especial como empregadas nas casas de médicos e juristas.

Quem sabe que penas sofreram estas crianças e jovens nas instituições religiosas? Por décadas e décadas os agressores permaneceram protegidos pelos muros da moral católica, enclausurados entres as paredes dos conventos, internatos. Uma grande parte das vítimas eram crianças que já teriam sofrido violência de algum nível no seio de suas famílias. E justamente essas crianças, que buscavam apoio, proteção nos abrigos católicos, tornavam-se as vítimas mais fáceis para os seus opressores. Muitos dos abusos foram cometidos ha mais de 25, 30 anos.

Assim nos anos 1960 e 1970 o castigo físico era prática comum, no contexto sociedade autoritária alemã. Não foi diferente na Antigüidade, Idade Média e em grande parte do século XX a punição física era um dos componentes do ato de educar. A filosofia da obediência frente às autoridades foi extremamente reforçada, transportada para o cotidiano dos tempos do Nacional Socialismo. Assim a prática da aplicação de penas físicas era tolerada sem ser questionada. Além de bater com a régua na palma da mão, ou bater com vara de bambu no traseiro, ou bater na cabeça, ou retirada de cabelo do nariz, curtos chutes no pé dos alunos desobedientes a desmoralização e intimidação completavam os componentes da “educacao”.

Do outro lado do muro…

Porém o mais interessante é que justamente os moradores do outro lado do muro, os comunistas foram os primeiros a tomarem iniciativa em relação a por fim à violência física contra crianças. Na extinta Alemanha Oriental, em 1949, se proibiu aplicar castigos físicos nas escolas e, somente em 1973 esta proibição chegou ás escolas da então Alemanha Ocidental. No ano 2000, em toda a Alemanha, foi promulgada lei que proíbe a aplicação de castigos físicos pelos pais, em seus filhos como forma de educar,

E no ventilador da imprensa…

Poderíamos dizer que as crianças e jovens que estudavam nos conventos, internatos e escolas viveram o inferno aqui mesmo na terra. Em janeiro deste ano, os pecados dos padres caíram na imprensa e passaram a ser denunciados sistematicamente. Até agora dos 27 bispados da Alemanha, 18 estão sendo denunciados.

Em 29 de janeiro, em uma entrevista coletiva, no caso do Canisius Kollegs de Berlin 7 casos de maus tratos em alunos foram citados. Foram dados nomes aos bois: dois padres que estavam envolvidos nos casos de abuso contra alunos. A polícia tomou a frente do caso e já está investigando. Já no ano de 1981 foram levantadas suspeitas de maus tratos contra alunos, no mesmo colégio, mas na época, como em todas as outros, nenhuma providência foi tomada. Somente no ano de 1991 é que a ordem dos Jesuitas, acusada dos maus tratos praticados dez anos antes foi oficialmente informada. E pasmem somente em 29 de janeiro de 2009 que o bispado de Berlin deu a entender que houve mesmo maus tratos contra alunos em instituições educacionais ligadas à Igreja Católica.

Um após outro os escândalos se alastram até o bispado de Hildesheim: dois ex-membros da Congregação dos Jesuítas, que ocupavam postos de padres, entre 1982 e 2003, são acusados de abusos sexuais. No entanto, o bispo Josef Homeyer confessou que não ter levado a sério as denúncias.

Em 7 de fevereiro, próximo passado, a própria Ordem dos Jesuítas abriu inquérito interno para apurar cerca de 30 casos de maus tratos e molestamento sexual contra antigos alunos, registrados na escola Canisius-kollegs em Berlin, Acrescenta-se a estes, mais dois casos da Escola Jesuíta Hamburg e St. Blasien da cidade de Bonn. Quando o escândalo estava na imprensa o cardeal de Berlin Georg Sterzinsky advertiu que as acusações poderiam colocar todos os padres que trabalham na educação sob suspeita e ao mesmo tempo concordava que há um déficit no esclarecimento dos casos.

No coral dos “Domspatzen”, da cidade Regensburg, na Bavária, também houve casos de abusos contra jovens. Nos anos 1960 os casos foram conhecidos e os dois diretores do coro, que faleceram em 1984, foram na época, considerados culpados pela justiça. Os abusos se estenderam até os anos de 1990. O irmão do Papa, o reverendo Georg Ratzinger foi diretor do coral de 1964 a 1994. Dele, até agora, nenhuma palavra.

E diante das cameras confessou o padre Johannes Baues, o administrador do Convento de Ettal, admitindo que em 1980 “espancou” alunos. Ele bateu com a mão e com vara. Depois da declaração pediu que o perdoassem. Ele permanece com suas atividades normais no convento.

A revista Spigel noticiou em fevereiro, deste ano, casos de abusos sexuais em dois Orfanatos da Escola Salesiana Dom Bosco em Augsbug, em Berlim, em Hessen, Baden Wüttenberg e na Bavária. Há casos datados dos anos de 1940 e somente agora vêm à tona. O grande problema disto tudo é que os culpados já faleceram.

 

E até hoje o movimento “Wir sind Kirche”ou “Nos Somos Igreja” espera uma resposta do Papa Bento, que nos anos entre 1977 até 1982, era então bispo de Munique. Ele na época concordou com a aprovação do Grêmio de bispos, que autorizou a transferência de um padre da cidade de Essen para a cidade de Munique, que tinha cometido abuso sexual em criança. Mais tarde o mesmo padre caiu em tentação, e reincidente, abusou de outra criança.

Aqueles que tiveram coragem, desfiaram os seus suplícios para imprensa em entrevistas. Um deles contou que foi obrigado a masturbar o padre por anos.

Ah! As freiras também!

E quem pensa que somente padres eram os autores de crimes contra as crianças se enganam. Freiras também cometeram abusos sexuais. Nos depoimentos, uma das vítimas conta o sofrimento vivido no programa “Monalisa”. Ela foi abusada por uma freira de 60 anos na época. A então aluna do internato teve seus órgãos genitais, “tocados” inúmeras vezes, pela referida freira, o que acontecia, particularmente na hora do banho, mas ela fazia também “investidas noturnas”. E se não bastasse o abuso sexual, sem nenhuma explicação aquela criança era espancada, pela mesma freira que a “visitava” durante a noite. Segundo palavras da própria vítima, os espancamentos eram uma forma utilizada para intimidar e impedir futuras denúncias.

 

Sodoma e Gomorra* em tempos de internet

E no Convento Beneditino de Ettal alunos foram brutalmente espancados, molestados sexualmente. Dez padres estão sendo acusados por ex-alunos de prática de abuso sexual, tortura física e psicológica. Muitos pais, somente agora, souberam dos casos de violência na instituição pela imprensa. E pasmem… Havia padres que baixavam… filmes pornôs da internet e ainda, publicavam fotos de seus alunos seminus em site de homosexual na internet. Depois que a imprensa divulgou o fato, o convento e seus responsáveis estão sendo investigados pela polícia e os padres afastados de suas atividades.

Mea culpa

Temas, até agora tabus para a Igreja como pedofilia, homossexualismo, celibato, são hoje, discutidos diariamente na imprensa alemã. No início da divulgação dos casos, a Igreja age na defensiva, tentando minimizar as denúncias, até que quando a pressão da sociedade obriga o Bispado vir a público e se explicar. No debate a conclusão é que até agora a Igreja agiu conivente, com os casos, simplesmente fechou os olhos para os fatos. Os padres eram somente suspensos de suas atividades ou transferidos para outras unidades da Igreja.

Ao final da Conferência dos Bispos da Alemanha em Freiburg, sul da Alemanha, em fevereiro de 2010, parece que a Igreja reconheceu a gravidade da situação e finalmente pretende agir concretamente nos casos de abusos. Será? Ao final foi organizado um “hotline”, um atendimento anonimo, por telefone em toda a República, com pessoal qualificado nas dioceses, que trabalharão conjuntamente com a justiça nos casos de denúncia de abusos nas Instituições de Ensino da Igreja.

É bom lembrar que somente através das denúncias corajosas das vítimas e o apoio do “Wir sind Kirche”, “Nós somos Igreja”, um movimento das bases da igreja, é que os podres vieram à tona e o Alto Clero resolveu tomar, agora, as devidas providências e apurar casos.

“Pai, afasta de mim este cálice de vinho…”

E se e ao furar o sinal,

o velho sinal vermelho habitual

e surpreender uma… Bispa alcoolizada no volante

pense na Igreja,

reze pela Igreja *

Se a Igreja já estava em baixa, com esses casos e fatos acima a situação tende a piorar, pois os problemas não atingem somente os católicos. Para azar dos pecados, ou seria da pecadora? A respeitadíssima Bispa Margot Käßmann, 51, teóloga e pastora, eleita para o mais alto cargo da Igreja Evangélica Luterana de Hannover, depois de ultrapassar o sinal vermelho foi parada pelos policiais. O exame feito indicou que ela tinha… 1,54 de álcool no sangue. Ela bebeu mais que um cálice de vinho na hora da celebração, ela virou a garrafa inteira. Após o incidente ela renunciou ao cargo, terá a carteira de motorista retida por 10 meses e pagará uma multa referente a um salário (dela). Nem preciso tecer mais sobre as desastrosas consequências dos acontecimentos acima. O índice de aprovação da Igreja está em queda livre.

Rezem e rezem

E as declarações do Papa sobre os últimas denúncias de pedofilia nos Eua: “É preciso rezar mais”.

Ja, ja…

Leiam mais sobre o tema… A metamorfose da Igreja

 

* “Calice” Letra da música de Chico Buarque de Holanda

* Sodoma e Gomorra: Cidades bíblicas citadas do Antigo Testamento, símbolos de todos os excessos e pecados carnais.

* Paródia da música de Caetano, “Haiti”

Arquivos consultados:

Praktische Pädagogik in den Sechziger Jahren/ Práticas pedagógicas nos anos sessenta

KirchenVolksbrief zum Besuch von Papst Benedikt XVI in Bayern/ Carta aberta ao Papa Bento XVI em visita a Bavária.

Heimerziehung in der Nachkrieszeit – ein schwieriges Kapitel kirchlicher Zeitgeschichte/ Kerstin Gäfgen/ Educacao no pós guerra, um capítulo difícil na história da Igreja.

Wir sind Kirche

 

Foto: Solange Ayres

Cristo na cruz, fotografado na cidade de Rüdesheim, às margens do Rio Reno, Alemanha.

 

 

Serra versus Dilma versus Marina

Já foram realizadas pelo menos quatro pesquisas nacionais sobre intenção de votos para a presidencia da República, em 2010, no Brasil.

Na pesquisa VOX POPULI/BAND, de janeiro de 2010, (com duas mil entrevistas) no cenário 1 da intenção de voto estimulada, com quatro candidatos, os resultados foram: José Serra (PSDB) 34%, Dilma Rousseff (PT) 27%, Ciro Gomes (PSB) 11%, Marina Silva (PV) 6%, Nenhum/Branco/Nulo 10%, NS/NR 12%. Entre os dois primeiros colocados, os resultados regionais apontam para uma liderança de Serra em todas as regiões, menos no Nordeste onde Dilma aparecia na frente. Na variável sexo Serra apresentava 34% no masculino e 32% no feminino, enquanto Dilma apresentava 32% no masculino e apenas 22% entre o sexo feminino. Isto quer dizer que a distribuição dos votos de Serra está mais igualitária em termos de sexo, enquanto Dilma tem uma desvantagem muito grande entre as mulheres. Este ponto, certamente, merece maior analise e acompanhamento durante o ano. Também merece atenção especial o fato de que as mulheres apresentam maiores percentagens na opção nenhum/branco/nulo e também na opção não sabe/não respondeu (NS/NR). Ou seja, as mulheres estão mais propensas a não sufragar nenhum candidato (anular o voto) e são maioria entre os indecisos. Isto quer dizer que elas demoram mais para decidir? Em termos de idade, Serra aparece à frente em todos os grupos, exceto entre 25-29 anos onde há empate com Dilma. Serra aparece na frente em todos os grupos educacionais da pesquisa. Serra aparece na frente em todas as faixas de renda, exceto na faixa de 0-1 SM em que Dilma lidera.

A pesquisa SENSUS/CNT, realizada entre 25 a 29 de Janeiro de 2010, com uma amostra de 2000 questionários, apresentou os seguintes resultados: José Serra (PSDB) 33,2%, Dilma Rousseff (PT) 27,8%, Ciro Gomes (PSB) 11,9%, Marina Silva (PV) 6,8%, Nenhum/Branco/Nulo 10,5%, NS/NR 9,9%.

Pesquisa DATAFOLHA, realizada  entre os dia 24 e 25 de fevereiro, com 2.623 entrevistas em 144 municípios, apresentou na intenção de voto estimulada, em um cenário com quatro candidatos, os seguintes resultados: José Serra (PSDB) 32%, Dilma Rousseff (PT) 28%, Ciro Gomes (PSB) 12%, Marina Silva (PV) 8%, Nenhum/Branco/Nulo 9%, NS/NR 10%. Assim, como na pesquisa Vox Populi, entre os dois primeiros colocados, Serra aparece na frente em todas as regiões, menos o Nordeste. Na variável sexo, Serra e Dilma estavam empatados com 32% entre os homens e Serra apresentava 33% no feminino, enquanto Dilma apresentava apenas 24% no sexo feminino. Isto quer dizer que Serra tinha mais votos entre as mulheres, enquanto Dilma tem melhor desempenho entre os homens. Da mesmo forma as mulheres apresentam maiores percentagens na opção nenhum/branco/nulo e também na opção não sabe/não respondeu (NS/NR). Ou seja, novamente fica clara a tendência de das mulheres estarem mais propensas a não sufragar nenhum candidato (anular o voto) e serem maioria entre os indecisos. Em termos de idade, Serra aparece à frente em todos os grupos, exceto no grupo etário 45-59 anos onde Dilma vence (29% a 26%). Serra aparece na frente em todos os grupos educacionais e de renda divulgados pela pesquisa (nota-se que os agrupamentos de educação e renda são diferentes entre as pesquisas). Todos os candidatos apresentam maior intenção de voto para variável se participa da PEA. Para os eleitores que não participam da PEA o percentual de indecisos (que responderam não sabe na intenção de voto) é de 15%, contra 8% para os que estão na PEA.

A pesquisa IBOPE/CNI realizada de 6 a 10 de março com 2002 entrevistas em 140 municípios. Na intenção de voto estimulada, em um cenário com quatro candidatos, os resultados foram: José Serra (PSDB) 35%, Dilma Rousseff (PT) 30%, Ciro Gomes (PSB) 11%, Marina Silva (PV) 6%, Nenhum/Branco/Nulo 10%, NS/NR 8%. Como nas duas pesquisas anteriores, entre os dois primeiros colocados, os resultados regionais apontam para uma liderança de Serra em todas as regiões, menos no Nordeste onde Dilma aparecia na frente. Na variável sexo, pela primeira vez, Dilma aparece na frente para o sexo masculino (36% contra 34%), enquanto Serra apresentava 37% contra 25% de Dilma entre as mulheres. Isto quer dizer que Serra tem mais votos entre as mulheres, enquanto Dilma tem uma desvantagem ainda maior entre as mulheres do que nas pesquisas anteriores. Este ponto, certamente, merece maior analise para avaliar se existe resistência das mulheres em votar em mulher ou qual é a explicação para este fenômeno. Também, como nas pesquisas anteriores, as mulheres apresentam maiores percentagens na opção nenhum/branco/nulo e também na opção não sabe/não respondeu (NS/NR). Em termos de idade, Serra aparece à frente em todos os grupos, exceto entre 40-49 anos onde Dilma está na frente. Serra aparece na frente em todos os grupos educacionais da pesquisa, menos no segmento de 5 a 8 série do ensino fundamental. Como na pesquisa Vox Populi, Serra aparece na frente em todas as faixas de renda, exceto na faixa de 0-1 SM em que Dilma lidera. Outras pesquisas já mostraram que Dilma tem a maioria dos votos dos beneficiários do Programa Bolsa Família

As quatro pesquisas mostram uma estabilidade do candidato José Serra e uma subida constante da candidata Dilma Rousseff, em especial entre os eleitores que apoiam o governo Lula. Este fato sugere que a eleição presidencial de 2010 será polarizada entre Serra e Dilma, com maiores chances para a candidata apoiada pelas forças situacionistas. O candidato Ciro Gomes provavelmente não encontrará espaço para manter a sua candidatura, pois o campo governista já está ocupado. A candidata Marina Silva tem potencial de crescimento e deve ter um reconhecimento importante do eleitorado, provavelmente tendo mais votos do que teve Heloisa Helena em 2006 (que foi a mulher que já obteve mais votos para a presidencia da República na história do país). Provavelmente haverá mais 6 ou 8 candidatos nanicos disputando as eleições presidenciais de 2010. Mas o potencial destes não passa do limite de 3% dos votos. Portanto, as eleições de 2010 serão polarizadas entre Serra e Dilma, com Marina fazendo um importante contraponto, especialmente na questão do meio ambiente.

Pesquisas sobre mulheres na politica

A pesquisa “Mulheres na política” do IBOPE/Instituto Patrícia Galvão, realizada em 2009, é uma importante fonte de informação para se compreender algumas questões de gênero da sociedade brasileira. Entre os principais achados da pesquisa, podemos citar:

·    94% dos entrevistados responderam afirmativamente que votariam em uma mulher, sendo que 59% declararam que dariam seu voto para mulheres em qualquer cargo;
·    Maioria acha que aumentaram as candidaturas femininas na última década;
·    Maior presença feminina na política traz ganhos para a democracia e a sociedade. Do total de entrevistados, 83% disseram que a presença de mulheres melhora a política e os espaços de poder e de tomada de decisão;
·    Este resultado deixa no ar uma pergunta;
·    Maioria defende lei de cotas e punição a quem não a cumprir;
·    55% acham que lista de candidaturas deveria ter número igual de mulheres e homens;
·    80% defendem leis para promover igualdade política entre os sexos.

Dados do TSE, de janeiro de 2010, mostram que já existem 4,96 milhões de eleitoras sobre eleitores e as mulheres já chegam a 51,9% do eleitorado. As mulheres são maioria em todos os grupos etários, mas apresentam uma vantagem maior na medida em que sobe na estrutura etária, pois no grupo etário acima de 60 anos elas chegam a quase 54% do eleitorado. Nota-se que cerca de 3/5 do eleitorado está acima de 35 anos.Portanto, o que aconteceu no Brasil nos últimos anos foi um processo que pode ser caracterizado como de feminização e envelhecimento do eleitorado.

Estas duas informações parecem querer dizer que as mulheres “estão com tudo e não estão prosa”. Ou seja, são maioria do eleitorado e contam com a simpatia da maioria da população.

Contudo, a última pesquisa CNI/IBOPE (março de 2010) mostra que a candidata Dilma Rousseff aparece na frente nas intenções de voto para a presidência da República entre os eleitores do sexo masculino com 36% contra 34% de José Serra, enquanto entre as eleitoras do sexo feminino Serra apresentava intenção de voto de 37% contra 25% de Dilma.

Este resultado, um tanto quanto surpreendente, merece maiores estudos, pois o discurso captado pelas pesquisas parecem estar em contradição com a prática também captada por outras pesquisas. Ou seja, a população tem respondido às pesquisas de opinião dizendo que confiam nas mulheres na política e que existe intenção de sufragar mulheres para os diversos cargos em disputa. Mas parece que os homens tendem mais para uma candidata feminina do que as próprias mulheres.

O fato é que existem duas candidatas à presidência da República no Brasil em 2010, ambas com uma forte história de vida e que podem contribuir para o debate e o fortalecimento da democracia. Caberá aos eleitores decidirem por um homem ou uma mulher para dirigir o Executivo nacional nos próximos quatro anos. Novas pesquisas, neste final do mês de março, vão lançar mais esclarecimentos sobre as percepções do eleitorado e as questões de gênero.

Referência:
IBOPE/Instituto Patrícia Galvão, “Mulheres na política”, São Paulo, 2009
http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/images/stories/PDF/politica/pesq_mulherepol.pdf

Escola da Ponte

 


___O furor da última semana aqui no Ops! foi a publicação do artigo inédito do educador José Francisco Pacheco. Além do rico debate presente nos comentários do texto, eu pude presenciar outro, ao vivo. Indiquei o texto para alguns colegas professores e, em um intervalo de aulas, eles o debateram. O problema é que nenhum deles tinha sequer ouvido falar da Escola da Ponte. Imaginei que algumas linhas falando dela poderia ajudá-los e, talvez, dar um empurrão extra para o debate que tem ocorrido no texto do Pacheco.

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___Na década de 70, a Vila das Aves, em Portugal, contava com uma escola como outra qualquer. Para falar a verdade, era uma escola pública de qualidade não muito admirável: bagunçada, sem recursos, depredada. O caos, entretanto, acabou permitindo novos caminhos fossem testados.
___A partir de 1976, com a tutela de José Pacheco, a Escola da Ponte passou por reformas que não foram apenas físicas. Os estudantes foram ganhando autonomia, a divisão por salas foi abolida e as aulas tradicionais desapareceram.
___As séries deixaram de existir e os alunos passaram a se reunir em grupos que tinham os mesmo interesses. Os professores apenas acompanham os grupos e auxiliam os projetos. Pesquisa e leitura tornaram-se atividades constantes.
___Se a melhora da Escola já não foi o bastante, o excelente resultado dos alunos depois de saírem dela, justificou o trabalho feito na Ponte perante os olhos da sociedade. Hoje, os estudantes que se sentem preparados para uma avaliação, escrevem o nome em uma lista conhecida como “Eu já sei” e os resultados costumam ser bem positivos. Hoje, a Escola da Ponte é exemplo para o mundo todo de que não existe apenas um tipo de Educação.

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P.S.: Como um pequeno extra, recomendo a leitura da entrevista que José Pacheco concedeu ao portal Educacional.

Moção de Apoio e Solidariedade à Luta do Povo Tupinambá de Olivença

As Entidades abaixo assinadas vêm expressar toda sua indignação com a infame campanha de criminalização contra o povo Tupinambá de Olivença e suas lideranças na justa e histórica luta pela reconquista de seu território.

Não é de agora que o povo Tupinambá sofre perseguições como esta campanha difamatória e preconceituosa  que está a pleno vapor aqui no sul da Bahia, pois vem de longas datas a trajetória deste povo e as perseguições sofridas por causa da defesa de seu território, perseguições essas praticadas pela elite local e apoiadas pela conivência do Estado Brasileiro.

Quase 200 anos depois a história se repete de forma injusta contra os Tupinambá de Olivença. Num passado não muito distante a liderança Tupinambá conhecida como Caboclo Marcelino um ardoroso defensor de seu povo foi perseguido, caluniado e desaparecido “misteriosamente”, hoje também entre as varias lideranças Tupinambá que sofrem calúnias e perseguição se destaca a liderança do cacique Babau da comunidade da Serra do Padeiro em Buerarema, recentemente aprisionado pela Polícia Federal e que se encontra na Superintendência da PF em Salvador. Pelo teor das acusações impostas à liderança Babau, fica patente a continuidade da carga preconceituosa que se tem no Brasil contra as populações indígenas. De novo faz-se uma inversão de valores e as vitimas são transformadas em réus.

 Os Tupinambá de Olivença estão sendo considerados “invasores” de seu próprio território por aqueles que os expropriaram de forma violenta e traumática, e apesar da comprovação documental de sua imemorial posse. Assim como no passado, a atual campanha discriminatória e criminalizante em curso tem o claro objetivo de menosprezar os direitos dos Tupinambá. Incita a opinião pública contra as comunidades indígenas que lutam por seus direitos, utilizando os meios de comunicação local a serviço do poder político e econômico da região. Divulga-se uma série de mentiras e acusações contra as lideranças do povo Tupinambá de Olivença que estão mais a frente da luta.

Babau é considerado chefe de um bando, ou seja, ser liderança de uma comunidade indígena, ou quilombola é ser chefe de bando de bandidos? Se organizar em comunidade e luta por seus direitos se tornou perigoso, isto agora é considerado formação de quadrilha. Ocupar e retomar de volta suas terras, muitas delas totalmente devastadas pelo invasor, se tornou “invasão de fazendas”, e por ai vai às acusações imputadas às lideranças do Movimento Indígena, notando-se em todas elas uma total inversão de valores e uma forte carga de preconceito.

Diante deste grave contexto, solicitamos a imediata e isenta apuração dos fatos, bem como a tomada de providências urgentes que impeçam este processo de criminalização e ataques racistas à luta e às lideranças do Povo Tupinambá de Olivença, bem como a imediata liberdade do cacique Rosivaldo Ferreira. Repudiamos a distorção apresentada pelos meios de comunicação segundo a qual a sociedade do sul da Bahia festeja a prisão do cacique Babau – muito pelo contrário, esta prisão causa indignação.  Repudiamos mais uma vez a ação da Polícia Federal, no tratamento dispensado as comunidades indígenas. Conclamamos todos aqueles que acreditam em uma nova sociedade possível que se somem à luta dos Tupinambá pela recuperação definitiva de seu território, reivindicando que o Estado Brasileiro confirme a demarcação desta terra indígena, efetivando os direitos constitucionais deste povo Indígena.

Itabuna,  19 de março de 2010.

– Escola Agrícola Comunitária Margarida Alves – Ilhéus – Bahia
– Associação para o Resgate Social Camacaense (ARES) – Camacan – Bahia
– Comissão Pastoral da Terra Sul e Sudoeste-(CPT)– (Itabuna- Vitória da Conquista e Caetité)
– Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) – (Itabuna  e Salvador)
– Conselho Indigenista Missionário (CIMI) – Regional Leste (Bahia, Minas e Espírito Santo)
– Movimento Negro Unificado (MNU) – Itabuna – Bahia
– Conselho de Cidadania Paroquial (CCP) – Santa Rita de Cássia – Itabuna – Bahia
– Missionárias Agostinianas Recoletas – Itabuna – Bahia
– Fraternidade das Catequistas Franciscanas – Itabuna – Bahia
– Fórum de Luta por Terra, Trabalho e Cidadania da Região Cacaueira – Sul da Bahia
– Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul – CEPEDES – Bahia
– Frente de Luta e Resistência do Povo Pataxó – Extremo sul da Bahia
– Sindicato dos Bancários do Extremo sul da Bahia – Itamarajú  – Bahia
– Comissão de Lideranças do Povo Pataxó Hã-Hã-Hãe – (Pau Brasil, Camacãn  e Itajú  do Colônia)
– Centro de Estudos e Ação Social (CEAS) – Salvador
– Movimento de Trabalhadores Assentados e Acampados e Quilombolas da Bahia – CETA
– Sociedade Ambientalista da Lavoura Cacaueira (SALVA) – Mascote -Bahia
– Rede Alerta Contra o Deserto Verde – Bahia e Espírito Santo
– Pastoral da Juventude da Diocese de Itabuna –Itabuna – Bahia
– Coordenadoria Ecumênica de Serviço – CESE – Bahia
– Centro de Desenvolvimento Agro-ecológico do Extremo Sul da Bahia – Terra Viva– Itamarajú – Bahia
– O Pensador Selvagem (OPS!) – Brasil