A falência do Estado ao prover a Educação

Nesta semana o OPS!  entrevista Cleber de Andrade Nunes, designer e auto-didata de Timóteo – MG que, juntamente com sua esposa Bernadeth decidiram educar seus filhos David e Jonatas em casa e também o sociólogo, mestre em Ciências Políticas e Doutor em Ciências Sociais Rudá Ricci, que defende a importância de uma educação coletiva, em ambiente escolar.

Dois pontos-de-vista diferentes, mas que parte de um ponto de partida comum: um Estado que não consegue suprir adequadamente as demandas educacionais da população. E se o Estado não cumpre seu papel, a quem cabe prover a educação de nosso povo? À família? À Sociedade Civil Organizada, à parte da estrutura estatal? Pagamos a conta duas vezes? Desinstalamos o Estado? Qual o caminho a seguir?

Leia ambas entrevistas e venha refletir conosco um pouco mais sobre este assunto tão palpitante: Educação.

Clique nos links abaixo para ler.

Entrevista com Cleber Nunes.

Entrevista com Rudá Ricci.

 

 

 

 

Entrevista especial com Cleber Nunes – A educação em casa como um direito básico

O OPS! entrevista nesta semana Cleber de Andrade Nunes, designer e auto-didata de Timóteo – MG que, juntamente com sua esposa Bernadeth decidiram educar seus filhos David e Jonatas em casa. Vamos entender um pouco mais do seu ponto de vista e suas motivações. Como complemento a esta entrevista, entrevistamos também Rudá Ricci, sociólogo, mestre em Ciências Políticas e Doutor em Ciências Sociais, que defende a importância de uma educação coletiva, em ambiente escolar.

OPS! –  "O Art. 205. da Constituição brasileira diz: "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". Qual seu comentário acerca deste artigo?Cleber – Cada qual tem o seu dever específico em relação à educação. O Estado deve apenas apoiar a família, oferecendo, repito oferecendo, instituições de ensino. Não se parece nada com tirar as crianças de casa à força e confiná-las em uma sala de aula que nada mais é do que um eufemismo para cela de aula. Ser forçado a permanecer em um local contra a vontade é a definição exata de prisão. Com a diferença de que o presidiário não é obrigado a ficar sentado cinco horas fingindo que está aprendendo. OPS! –  Como uma campanha pelo direito de não educar os filhos em escolas públicas ou particulares (inclusive as religiosas) poderia ser eficaz em se distanciar logo de início de uma filosofia que satisfaz os pais e transforma as crianças em "reféns" das crenças destes pais?

Cleber – Em primeiro lugar é preciso corrigir algo. Não existe campanha pelo direito de não educar os filhos em escolas. Esse direito já  pertence à família. o que existe é uma campanha para mobilizar a sociedade para conscientizá-la de desses direitos. E derrubar a lei inconstitucional de matrícula compulsória. Assim como havia muitos negros vivendo sob a escravidão muitos anos após sua abolição, simplesmente por não saber que eram livres. Quanto ao que diz "reféns das crenças dos pais" eis o que diz a Convenção sobre os Direitos das Crianças que, como disse anteriormente, está hierarquicamente acima das leis. Art.9 – 1. Os Estados Partes deverão zelar para que a criança não seja separada dos pais contra a vontade dos mesmos, […] Art 14 – 1. Os Estados Partes respeitarão o direito da criança à liberdade de pensamento, de consciência e de crença. 2. Os Estados Partes respeitarão os direitos e deveres dos pais e, se for o caso, dos representantes legais, de orientar a criança com relação ao exercício de seus direitos de maneira acorde com a evolução de sua capacidade. 3. A liberdade de professar a própria religião ou as próprias crenças estará sujeita, unicamente, às limitações prescritas pela lei e necessárias para proteger a segurança, a ordem, a moral, a saúde pública ou os direitos e liberdades fundamentais dos demais. Art 27 – 1. Os Estados Partes reconhecem o direito de toda criança a um nível de vida adequado ao seu desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral e social.

OPS! –  O currículo tradicional das escolas passa por uma ampla variedade de conhecimentos: de mitose/meiose ao parnasianismo, da trigonometria à geografia econômica dos mais diferentes países, dos cálculos estequiométricos à história medieval. É razoável supor que os pais que praticam o homeschooling tenham o domínio de todas essas matérias, pelo menos com o mesmo nível de competência de cada um dos respectivos professores das matérias? O que o senhor pensa acerca do atual currículo escolar?

Cleber – Quantos dominam estes assuntos? E os professores? No início de 2009 três mil deles tiraram zero em provas da rede pública de São Paulo. Experimente perguntar à professora de português de seu filho, qual é o sistema de escrita da língua portuguesa. Sabe qual é a probabilidade de acerto? Se for pedagogo, 40%. Experimente perguntar a fórmula da equação de segundo grau. A maioria engasgaria. Não é que somos obrigados a saber. O problema é que é injusto entulhar as mentes das crianças com informações que serão perdidas, as quais nós mesmos não retemos. Isto é tortura e gera mais prejuízos do que benefícios. Além de perpetuar o erro. O autor desta pergunta demonstra que foi muito bem doutrinado e provavelmente submeterá seu filho ao mesmo processo, infelizmente. Outra questão importante: Espero que meus filhos não precisem comprar um diploma. Isso mesmo, comprar um diploma. O MEC quando foi fundado em 1930 chamava-se Ministério dos Negócios da Educação. Educação em nosso país é um negócio que interessa a uma parcela da sociedade. O que faz da sua manutenção uma questão de sobrevivência.

Eles estão sendo preparados para serem empreendedores. E o conhecimento que precisarem vão buscar onde ele estiver. Mas será muito triste se optarem por profissões que exigem diploma, como medicina, direito ou se preferirem ser empregados. Nesse caso terão que gastar um precioso tempo para assimilar um conteúdo inútil a fim de passar no vestibular. Depois se submeter a uma grade curricular que faz jus ao nome. Para ao final ter o papel que supostamente os introduz no mercado de trabalho. Ninguém merece!

 

OPS! –  O senhor estaria de acordo se o MEC aplicasse um exame de conhecimentos aos pais que pretendam educar seus filhos em casa, de modo a certificar a proficiência deles em todas as matérias que deverão ensinar aos filhos? O que o senhor pensa acerca do MEC?

Cleber – Mais um pergunta que reflete os efeitos da escolarização. Como dizia John Holt, aprendizagem não é produto de ensino. Pais de verdade mesmo sendo analfabetos funcionais só precisam de uma pequena orientação para desenvolver um excelente trabalho na alfabetização dos filhos. O que falta é incentivo do governo às famílias. Quanto ao MEC, proponho que seja extinto. Sabe quanto custou cada aluno do ensino fundamental em 2009? 2.632,00. O orçamento: 59 bilhões. Mais 10 bilhões com o fim da DRU. O pior é que a sociedade pensa que o ensino é gratuito. "There is no free meal" Só para constar o Davi fez a prova do Encejja e foi aprovado com aproveitamento de 85%. Portanto já concluiu formalmente o "ensino fundamental".

OPS! –  Observa-se que alguns defensores do homeschooling evocam justificativas de cunho político para endossarem a prática, por entenderem que a educação feita na escola secular transmite aos alunos uma ideologia de esquerda, oposta aos valores liberais e cristãos. O senhor também percebe assim a educação que é feita nas escolas brasileiras? Se sim, esse foi um fator que o influenciou na decisão de educar seus filhos em casa?

Cleber – Como disse anteriormente vivemos em uma sociedade livre e pluralista. A nossa constituição determina a pluralidade de idéias e concepções pedagógicas. O problema é que a doutrinação é feita sem que os pais tenham a menor idéia do que está sendo ensinado. Não sou contra escolas de orientação marxista, umbandista e até escola gay, como a que foi inaugurada recentemente em Campinas. Se os pais querem matricular seus filhos em uma escola, digamos, temática, que o façam. Mas essa é uma decisão pessoal. Doutrinar crianças sem o consentimento ou sem que os pais saibam é desonesto.

OPS! –  A imensa maioria dos defensores do homeschooling é composta por evangélicos. Como o senhor explica essa preponderância de evangélicos entre os que advogam a prática? Como o senhor explica que o homeschooling tenha tão pouca adesão entre fiéis de outras crenças, como católicos?

Cleber – Não sei responder a essa pergunta. Vamos raciocinar? Será que os católicos e fiéis de outras crenças são mais corajosos que os evangélicos?  Não sou tão corajoso a ponto de permitir que meus filhos sejam levados pelo Estado. Entraria na frente se visse uma arma apontada para eles. Se visse um pitbull avançando sobre eles eu o enfrentaria no braço, mas não teria coragem de mandar meus filhos para a escola.

OPS! –  De um ponto de vista pedagógico, científico, tem muita gente que considera homeschooling um método inapropriado e, em última instância, danoso para o crescimento psicológico e intelectual dos jovens. O que você pensa sobre isso?

Cleber – Entre os que pensam assim estão os cientistas sociais como o Rudá Ricci. Leia com atenção seu artigo e dê uma olhada em seu currículo. Será mera coincidência que ele represente os sindicatos de professores? "Tem muita gente que considera homeschooling um método inapropriado" Quem são? Onde estão as pesquisas que sustentam esta afirmação? Mas posso te indicar inúmeros trabalhos científicos que comprovam exatamente o contrário.

OPS! –  Ao decidir não matricular seus filhos na escola, você partiu da consideração de que a escola não seria capaz de garantir uma boa educação aos seus filhos? Neste sentido, você faz diferença entre escola pública e escola privada? Não faria sentido colocar os filhos na melhor escola disponível?

Cleber – Ninguém faz a mínima idéia de quanto nos custou essa decisão. Teria sido muito mais barato matriculá-los na melhor escola particular do Brasil. Mas não é essa a questão. Não acreditamos no ensino top down. O ensinamento coletivo corresponde a colocar garrafas enfileiradas e tentar encher esguichando água sobre elas com uma mangueira. O tempo de nossos filhos é muito precioso para tamanho desperdício.

OPS! –  Você se preocupou em evitar o isolamento social dos seus filhos? Como fez para suprir a ausência do convívio escolar, os encontros e confrontos com os iguais, os namoricos, as cumplicidades?

Cleber – Sim, me preocupei com o isolamento social dos meus filhos. Esse foi, entre outros, um dos motivos pelos quais decidimos que eles iriam aprender em liberdade. Não queríamos isolá-los do mundo real, confinando-os em uma sala de aula, olhando por quase cinco horas para a nuca do colega da frente. "suprir a ausência de convívio escolar" O ser humano precisa de convívio. Agora, convívio escolar? Quem foi que criou esta categoria de convívio? Pior, quem determinou que é imprescindível? Há uma idéia generalizada de que não ir para a escola é sinônimo de ficar confinado em cárcere privado. A escola sem dúvida é um lugar onde acontece algum tipo de socialização. Mas é apenas um dos meios de se socializar e na minha opinião é o pior deles. Vá para a porta de uma escola particular ou pública e tente travar um diálogo com os alunos. Tente falar de algo que não seja reboleichon, funk, big brother, games, novelas, etc. Já teve a oportunidade de passar pelo menos 10 minutos em uma lan house? Observe o que predomina entre os internautas e game players. Todos devidamente escolarizados.

OPS! –  O que você achou mais grave no sistema escolar que você  evitou? Incapacidade de informar os conteúdos ou incapacidade de preparar para a vida?

Cleber – Jamais tive a expectativa de que a escola preparasse para a vida. Também nunca concordei com os conteúdos. Então, que motivos teria eu para mantê-los lá?

Leia o contraponto de Rudá Ricci, em entrevista para o OPS!

 

Entrevista especial com Rudá Ricci – O homeschooling é uma afronta ao projeto coletivo de sociedade

O OPS! entrevista nesta semana Rudá Ricci, sociólogo, mestre em Ciências Políticas e Doutor em Ciências Sociais, que defende a importância de uma educação coletiva, em ambiente escolar. Vamos entender um pouco mais do seu ponto de vista e suas motivações. Como complemento a esta entrevista, entrevistamos também Cleber de Andrade Nunes, designer e auto-didata de Timóteo – MG que, juntamente com sua esposa Bernadeth decidiram educar seus filhos David e Jonatas em casa.

OPS! –  "O Art. 205. da Constituição brasileira diz: "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho". Qual seu comentário acerca deste artigo?

Rudá – Eu assessorei a Constituinte de 87, quando fazia parte da equipe técnica do CEDEC, centro de pesquisas sociológicas de São Paulo. A discussão que envolveu este tema foi a de garantir a educação como política pública voltada para o desenvolvimento social, superando o mero individualismo. Lembremos que este a constituinte envolveu um período de muitas reformas curriculares e encontros educacionais. Lembro-me da reforma em curso em São Paulo, Paraná, Bahia e Minas Gerais. Todos com ênfase muito nítida no controle social sobre as políticas públicas e formação social dos educandos.

OPS! –  O currículo tradicional das escolas passa por uma ampla variedade de conhecimentos: de mitose/meiose ao parnasianismo, da trigonometria à geografia econômica dos mais diferentes países, dos cálculos estequiométricos à história medieval. É razoável supor que os pais que praticam o homeschooling tenham o domínio de todas essas matérias, pelo menos com o mesmo nível de competência de cada um dos respectivos professores das matérias? O que o senhor pensa acerca do atual currículo escolar?

Rudá –  Em primeiro lugar, os pais não possuem formação técnica para lecionar e, portanto, não são obrigados a saber de temas tão específicos. É um grande retrocesso social acreditarmos que os pais devam assumir esta tarefa. Mesmo porque, o tempo de convivência familiar com filhos acima de 15 anos em capitais brasileiras é de, no máximo, 1h30 por dia. Há um forte debate nos EUA sobre a ampliação da noção de escola, assumindo, inclusive, a tarefa de formação moral que cabia às famílias justamente em virtude do tempo cada vez menor de convívio familiar. Foi tema de grande discussão a partir do governo Clinton. Em segundo lugar, não existe um único currículo nacional. Há muitos avanços e tentativas em vários municípios brasileiros, como adoção da Cidade das Crianças (movimento iniciado pelo psicólogo italiano Francesco Tonucci), o orçamento participativo criança e adolescente, escola em tempo integral e muitas outras. Todas são
iniciativas que não haveria como uma família desenvolver, dado o complexo estrutural e curricular. A educação é um consórcio, baseado em múltiplos estímulos coletivos. E um currículo não pode ser visto como mera ação entre educando e educador. Fui professor de currículo no mestrado em educação. Há muitos estudos, desde o início do século passado, a respeito. Cito, como ilustração, os estudos de Sacristán, que indicam várias dimensões da elaboração e prática curriculares.

OPS! –  O senhor estaria de acordo se o MEC aplicasse um exame de conhecimentos aos pais que pretendam educar seus filhos em casa, de modo a certificar a proficiência deles em todas as matérias que deverão ensinar aos filhos? O que o senhor pensa acerca do MEC?

Rudá –  Não. Por vários motivos. As avaliações sistêmicas que temos no Brasil são insuficientes porque meramente classificatórias (baseadas num ranking de conhecimentos previamente concebidos, sem nenhuma ênfase na avaliação do processo de aprendizagem específico). Não se trata efetivamente de avaliação (do latim, a-avalere), mas mera verificação. Perceba que não se avalia o desenvolvimento moral ou relacionamento social, por exemplo, temas de destaque desde os estudos de Piaget, na década de 30 e aprofundados por Lawrence Kohlberg, para citar apenas dois autores. Mas também não acredito na educação em casa porque se trata de contradição com o conceito de educação formal. As famílias podem e devem educar seus filhos, mas não possuem conhecimento técnico para a educação formal. Mesmo que tivessem, educar é um ato coletivo, de desenvolvimento de tolerância entre diferentes. É preciso recuperar esta separação na história educacional, desde o fim dos preceptores, que educavam em casa. Trata-se de um projeto republicano, de construção da sociedade democrática. A educação em casa é um ato que reforça a ideologia da intimidade, tão bem retratada por Richard Sennett, onde ao invés de desenvolvermos o capital social, a confiança no coletivo, nos fechamos em copas em nosso espaço íntimo. Aliás, a breve experiência brasileira de educação domiciliar é fundamentada no sucesso dos filhos, reduzindo a educação à instrução para exames. Um empobrecimento que se confronta inclusive com a LDB.

OPS! –  Observa-se que alguns defensores do homeschooling evocam justificativas de cunho político para endossarem a prática, por entenderem que a educação feita na escola secular transmite aos alunos uma ideologia de esquerda, oposta aos valores liberais e cristãos. O senhor também percebe assim a educação que é feita nas escolas brasileiras? Se sim, esse pode ser um fator a influenciar uma pessoa para educar seus filhos em casa?

Rudá – Seria um erro contrapor uma educação ideológica por outra. Seria um retrocesso em relação à educação laica e republicana. A educação formal não pode ser de esquerda, liberal ou religiosa. Seria justamente o desrespeito ao processo de construção de autonomia dos educandos. A opção ideológica é do educando. Este é justamente o problema do particularismo na concepção do homeschooling: ele não reduz a educação formal a uma opção individual, o que é um equívoco. Educar é socializar, e está intimamente vinculado aos valores universais e ao conhecimento de várias experiências e pensamentos humanos. Em outras palavras: a educação formal é um ato societário, não meramente comunitário e particularista. É um ato generoso, de contato com diferentes pensamentos. O comunitarismo é focado no interesse e valor específico do seu agrupamento local. Daí ter dificuldades para expressar valores universais. Há uma confusão conceitual razoável daqueles que defendem a educação limitada ao lar e à família, como se tivesse alguma ligação com o liberalismo ou o anarquismo. Os clássicos do liberalismo e anarquismo nunca sugeriram tal proposta.

OPS! –  A imensa maioria dos defensores do homeschooling é composta por evangélicos. Como o senhor explica essa preponderância de evangélicos entre os que advogam a prática? Como o senhor explica que o homeschooling tenha tão pouca adesão entre fiéis de outras crenças, como católicos?

Rudá – Não saberia explicar. Sou sociólogo e teria que estudar estes valores. Há estudos sobre as práticas mais fortemente familiares e intimistas entre protestantes, como o estudo clássico de Max Weber, mas não me arriscaria a fazer tal projeção. Não acredito que tal opção tenha fundamento teológico. Acredito que seja fruto de grande decepção, frustração com a educação pública e grande ansiedade de alguns pais. O interessante é que não tomam este partido no que diz respeito à saúde pública, transporte ou segurança pública. Não entendo o que confere tanta liberdade para pais sem preparo profissional se sentirem tão á vontade para assumir a profissão de educadores que estudaram para assumir uma tarefa tão complexa.

OPS! – De um ponto de vista pedagógico, científico, tem muita gente que considera homeschooling um método inapropriado e, em última instância, danoso para o crescimento psicológico e intelectual dos jovens. O que você pensa sobre isso?

Rudá –  Já respondi anteriormente nesta linha. É um equívoco técnico e social. Há, inclusive, experiências de escolas de pais (Charter School, nos EUA, escolas família-agrícola na França e Brasil, cooperativas educacionais e outras). Mas a opção por ensinar em casa nem de longe tem este desejo social, de interação e construção de um projeto educacional coletivo. É um retrocesso social, uma saída egoísta e privatista de conteúdos e métodos educacionais. Se há crítica á escola brasileira, a saída é se envolver com campanhas de melhoria. Acabamos de realizar a maior conferência nacional de educação, o CONAE, que definiu novos rumos para nossa educação. Por qual motivo os pais que sugerem o homeschooling não participaram deste evento democrático de discussão de um projeto
educacional?

OPS! –  Quando um pai matricula seus filhos na escola, partem da premissa de que a escola será capaz de garantir uma boa educação aos seus filhos. Neste sentido, você faz diferença entre escola pública e escola privada?

Rudá –  Não. Temos dados das principais universidades públicas do país que revelam que a maioria dos alunos são oriundos de escolas particulares, mas que os alunos oriundos de escolas públicas figuram entre os melhores desempenhos. Em outras palavras, a escola particular é focada no sucesso de mercado. E os pais no Brasil, infelizmente, acreditam que sucesso é passar no vestibular. E nosso vestibular é um dos piores do mundo, fragmentado por universidade (e não nacional, como em vários países) e reduzido a questões por disciplina (e nem envolvem avaliação de práticas sociais, como nos EUA). Assim, as escolas particulares aplicam, principalmente no ensino médio, técnicas de memorização (como os famosos simulados), baseados na Escola Comportamental. As escolas públicas, por seu turno, possuem muitas dificuldades e inúmeros projetos pedagógicos, muito distintos entre si e pouco conhecidos do grande público. O fato é que elas se equivalem do ponto de vista educacional e isto se verifica nas avaliações do PISA, que envolvem muitos países, incluindo o Brasil. Há equívocos e lacunas graves no ensino brasileiro que precisam ser superados com rigor. Projeto que não creio que seja para leigos, mas para profissionais elaborarem. É importante que pais participem, mas que exista respeito pela especificidade técnica desta construção ou banalisamos a educação de vez.

OPS! –  O que você percebe de mais grave no atual sistema escolar? Incapacidade de informar os conteúdos ou incapacidade de preparar para a vida?

Rudá –  O maior problema é que desenvolvemos um importante projeto pedagógico, nos anos 90, mas não alteramos a lógica administrativa. Temos que adotar contratos de dedicação exclusiva para professores (como já ocorre em universidades) e escolas em tempo integral (não escolas integradas, este arremedo de escola em tempo integral que o Brasil inventou). Os professores não podem ter mais que 4 turmas. Os professores precisam de tempo para analisar suas turmas e as dificuldades específicas de seus alunos, incluindo os problemas de convivência e as dificuldades de relacionamento familiar. Para tanto, precisam realizar conselhos de classe semanalmente. A melhor educação do mundo ocorre na Finlândia. Basta analisar as condições de trabalho e projetos coletivos desenvolvidos pelos professores. Os pais participam de discussões diárias, até mesmo pela internet. A saída é mais profissionalismo.

OPS! –  E se o Estado, no caso das Escolas Públicas, não consegue levar uma criança ao seu pleno desenvolvimento, este deveria ser processado pelas famílias por abandono intelectual?

Rudá –  Sim. Esta é a saída. Responsabilizar as autoridades públicas que não cumprirem com seu dever. Há, inclusive, projetos de lei (a Lei de Responsabilidade Social produzida pelo Fórum Brasil do Orçamento) que caminha nesta direção e tramita na Câmara Federal. Temos que acreditar no projeto coletivo, humano. As saídas individuais são voluntaristas mas desprovidas de crença na humanidade. Daí eu afirmar que o homeschooling não ter relação alguma com religião, justamente porque negam a crença na humanidade. É uma mera saída individualista, desesperada e sem esperança na convivência e no projeto coletivo.

Leia também o contraponto na entrevista com Cleber Nunes, que defende a possibilidade de uma educação domiciliar.

Mais Teatro Brasil

Se você mora em uma cidade grande deve achar as coisas que eu vou falar aqui uma bobagem. Afinal, nunca foi uma coisa que você teve que parar para pensar. Mesmo que você nunca tenha ido ao teatro (o que é uma pena!), você sempre soube onde ele se localiza. Você já passou pela frente de um. Você sabe que estão ali espetáculos em cartaz. Agora, se você mora em 80% das cidades do Brasil, você sabe bem do que eu estou falando. Você já pode até tido vontade/desejo/curiosidade de ir à um teatro ou centro cultural, mas na sua cidade isso não existe.

Foi pensando nisso que foi criada pela Cennarium a campanha "Mais Teatro, Brasil".

A campanha "Mais Teatro, Brasil" quer juntar o maior número de assinaturas possível para dar entrada, junto ao Congresso Nacional, num Projeto de Lei de Iniciativa Popular, para que seja obrigatória a construção de um "Centro Integrado de Cultura" em cada município, cuja população seja superior a 25 mil habitantes.

A ideia central é permitir que populações inteiras, que nunca tiveram contato com espetáculos de qualidade, ou mesmo espaços destinados à arte e à cultura – em sua imensa maioria restritas ao eixo Rio – São Paulo –, passem a ter acesso as mais diversas formas de expressão artístico-culturais, fomentando e desenvolvendo entre estas populações, um hábito tão fundamental para a formação do caráter de um povo, como é a cultura!

Leia todo o manifesto e veja informações que são, de certa forma estarrecedoras. Por exemplo: Você sabia que em todo o Estado do Tocantins, cuja população estimada é de 1,250 milhão de habitantes, há apenas uma sala de teatro? Que em todo o Estado de Rondônia, cuja população estimada é de 1,5 milhão de habitantes, há apenas três salas de teatro?

Pois é, é por essas e outras que é importantíssimo criar para o Brasil um programa ou projeto que tenha a cultura como eixo. A cultura é o núcleo fundamental de toda a sociedade! Somente por meio da cultura é possível o desenvolvimento ético, moral, intelectual e educacional de toda a nação, permitindo, até mesmo, reduzir de forma significativa, os níveis de violência e o uso de drogas por parte de jovens, adolescentes e crianças, ao se tornarem muito mais conscientes e esclarecidos.

Ao permitir que desde cedo tenham acesso à cultura, começa a se desenvolver entre eles esse hábito tão fundamental para a formação de seu caráter, melhorando inclusive o seu aprendizado e desempenho escolar.

Sem o acesso à cultura, fica difícil despertar, nos próprios pais, o interesse para que seus filhos frequentem escolas, estudem ou tenham uma educação de qualidade. Não é a toa que vemos tantas crianças trabalhando nos campos, ou pedindo esmolas e vendendo balas no trânsito das grandes cidades, ao invés de estudar.

Portanto, a conclusão obvia que se chega é que quanto maior for o acesso à cultura, melhor será o nível da educação, e quanto melhor o nível da educação, menor serão as desigualdades sociais.

Vamos lá! Assine já o manifesto. Ajude a divulgar. Vamos fazer algo para mudar o país. Comecemos com as coisas mais simples.

O prazer e o conhecimento

 

Adentrar em um universo alheio ao que se está, acompanhar pessoas, ideias e histórias, muitas vezes, avessas ao que se acredita, observar vivências pessoais de alguém que não se conhece, ver e ouvir pontos ligados à intimidade de um ser e se deliciar com cada momento. Observar em busca do prazer. Sim, falo, aqui, do observador/espectador cinematográfico em seu ponto inicial, que é sua curiosidade de voyeur, que alcança um gozo ao observar o outro.

Um acompanhar que envolve os sentidos da visão e da audição, que proporciona um prazer que vai além do que o próprio espectador possa catalogar. Diferente do gozo sexual, segue caminhos que não conseguem se repetir, mas também preenche razões momentâneas que podem se estender a longo prazo, cria vínculos passionais e engaja razões que ultrapassam barreiras físicas e sociais.

Ao apreender determinado momento alheio, aquele que observa o externo, pode se engajar no que é inerente ao seu próprio ser e estar.

E como a dor também pode se transformar em uma forma de deleite, há aqueles que buscam observar a notoriedade do passivo, do gestual agressivo, da extrema catarse violenta e da explicitação de um ato de tortura. A aversão ao ativo também existe na concepção ideológica, na construção de pudores e na reafirmação de pré conceitos pré estabelecidos socialmente. Há um vínculo entre o agir e o ser o objeto de ação, que o observador casa em sua memória, conflitando pudores e desejos.

Esse flerte existente com a tela possibilita a aproximação do espectador com aqueles que ele não pode tocar, mas ao qual se sente apoderado por, como se houvesse estabelecido um processo de encantamento e conquista. Uma proximidade que se estabelece no ver e que possibilita a concretização de desejos, o despertar de outros, a criação de estímulos controversos e até contrários aos que o observador se acostumou. O tatear estabelecido pela imagem e som, proporciona o deleite , o envolvimento que leva a diversos momentos de apreensão e apreciação, onde toda a experiência se transforma em gozo.

Não encare esta leitura como algo ligado a aparatos sexualizados, apenas como uma forma de ver os aspectos que englobam essa simples frase: “você vê, e gosta do que vê!”.

Assim com toda a experiência de compreensão cinematográfica, o espectador, aquele que se põe diante de uma história, devora a tela de uma forma encantadora, que, aos poucos, aquele que estuda e critica pode perder. Aonde está o prazer do olhar ao se destrinchar sobre uma escrita crítica? Como fomos perdendo nossa inocência encantadora ao nos depararmos com aquelas narrativas? Pensar o cinema não pode fugir do encanto, mas, assim como o homem amadurece em suas relações interpessoais ao longo dos anos, o crítico e o estudioso cinematográfico deve olhar de forma madura, mas não com um desejo abalado, e é neste desejo que se encontra a inocência.

Ver sem se focar na podridão do todo, mas sem descartar sua existência. Existem propostas fílmicas aquém e além do prazer, onde o crítico deve, de certa forma, se entregar ao seu voyer amadurecido e desencantado, dando-lhe uma segunda chance de manifestação. Onde o prazer possa se manifestar com o conhecimento, são essas críticas que busco e são essas leituras que eu defendo.

 

 

Para a próxima postagem teremos

uma entrevista com

um historiador, onde iremos debater

sobre cinema e política.

 

Até lá.

 

 

Dois momentos de sinceridade

Dois momentos de sinceridade, dos quais o primeiro realmente aconteceu e o segundo é um senhor engodo. Mas que alguma forma se relacionam. O primeiro, o de verdade:

O artista J. H. foi até a galeria R. buscar seu portfólio. Ele havia deixado lá a pedido do próprio dono da galeria, o senhor R. Que estava lá, não sei se num bom ou num mau dia, e estava mais falante do que o habitual. Recebeu J.H. com grande mesura, apesar de dizer-lhe que, infelizmente, seu trabalho não se encaixava na linha dos trabalhos expostos na galeria R.. J.H. agradeceu a atenção de R. e perguntou-lhe se deveria mudar algo no seu portfólio.

– De jeito nenhum – respondeu R., que desembestou a falar, para espanto de J.H. – não acho que você deva mudar nada. O caso é que… olha, J., eu vou ser sincero: isso aqui (aponta genericamente para algumas das telas penduradas nas paredes da sua galeria) não tem nada a ver com qualidade, ou com qualquer coisa que se relacione com isso. Nada. Nunca teve.

– Olha para esse quadro (uma pintura de faixas horizontais azuis e violetas, alternadas): isso é uma bosta, J., eu sou o primeiro a reconhecer. É pretensamente séria, e o F. (o autor da obra) tem um ótimo discurso e conhece todo mundo. Mas, me diga: o que há aqui além dessas faixas? Esquecendo o que T. M. (crítico) escreveu sobre ele, e que poderia servir para qualquer artista do universo, o que sobra aqui? Tem algo de novo? Ela é insípida, tola e vazia de qualquer idéia. Por isso se encaixa em qualquer discurso. Porque ela não passa de uma padronagem, de um papel de parede extremamente caro.  Um dia o F. veio aqui com uma camisa pólo igual a essa pintura. Perguntei se o quadro era inspirado nela, e F. ficou puto. O F. leva a sério a coisa toda, por incrível que pareça. Eu, não. Já estou há muito tempo nisso prá levar a sério qualquer coisa.  Por que eu tenho o F. aqui? Porque vende, e vende porque foi devidamente chancelado pela crítica e porque é suficientemente anódino para se pendurar em qualquer sala. É exatamente uma camisa pólo, sem tirar nem pôr.

– Não acho que nada do que eu exponho aqui vá durar mais do que uns cinco ou seis anos. Daqui a dez anos, nem eu vou me lembrar do nome desses artistas.  E pouco importa, na verdade.

– Talvez eu tenha algo para te dizer: faça-se difícil. Melhor: faça-se hermético. Se há algum segredo, é esse. Seja incompreensível, seja enigmático.

Essa história me foi contada pelo artista em questão. Há alguma licença nas falas do dono da galeria, mas a essência do seu desabafo, que deixou J. H. espantado, se mantém. J. H. até achou que R. havia bebido alguma coisa antes da conversa, já que estava agitado demais. A galeria R. é uma das mais importantes de São Paulo.

O segundo momento de sinceridade não é nada sincero, já que é um texto fictício (e que texto não é?) de 1951, do estranho Giovanni Papini. Confesso que não o conheço, e o que sei dele refere-se exclusivamente à polêmica que surgiu por causa desta passagem que se segue. Seria parte de uma carta escrita por Picasso endereçada ao autor. Ou de uma entrevista, depende de quem conta a história. Tudo mentira, ao que parece. O fantasioso Papini inventou a tal entrevista (ou carta). Segundo algumas versões, fez isso a pedido da OTAN (!), para manchar a imagem de Picasso, que era comunista.

Tendo por certo que a tal entrevista é uma arrematada fraude, ainda assim acho que é um texto interessante e que é pertinente quando se fala de arte contemporânea. Já ouvi, e não me foi narrado, uma confissão semelhante de um dos grandes artistas brasileiros contemporâneos. Terminava do mesmo modo: ”Eu sou um charlatão, eu vivo disso”. Segue o texto:

Os refinados, os ricos, os ociosos profissionais, os destiladores de quintessências buscam o que é novo, estranho, extravagante, escandaloso na arte. Eu mesmo, desde o cubismo e além dele, contentei esses mestres e esses críticos com todas as bizarrices mutáveis que me passaram pela cabeça.

E quanto menos eles me compreendiam, mais me admiravam. À força de me divertir com todas essas brincadeiras, com esses quebra-cabeças, enigmas, e arabescos, eu fiquei célebre, e muito rapidamente. E a celebridade para um pintor significa vendas, lucros, fortuna, riqueza, E hoje, como o senhor sabe, eu sou famoso, eu sou rico.

Mas, quando estou sozinho comigo mesmo, não tenho a coragem de me considerar um artista no sentido antigo e grande da palavra. Giotto, Ticiano, Rembrandt e Goya foram grandes pintores: eu sou apenas um divertidor do público – um charlatão.

Compreendi o tempo em que vivi e explorei a imbecilidade, a vaidade, a avidez de meus contemporâneos. É uma amarga confissão a minha, na verdade mais dolorosa do que parece. Mas ela tem o mérito de ser sincera. (Il Libro Nero, 1951)

Marina Silva: terceiro lugar ou terceira via?

As duas últimas pesquisas nacionais de intenção de voto para as eleições presidenciais de 2010 mostram que a candidata Marina Silva ultrapassou o (quase) candidato Ciro Gomes e passou a ocupar o terceiro lugar na corrida para o Palácio do Planalto.

A pesquisa Datafolha, realizada entre os dias 15 e 16 de março de 2010 e divulgada em 17 de março de 2010, apontou Marina Silva (PV) com 10% das intenções de voto, conrtra 9% de Ciro Gomes (PSB). No desempenho segundo o sexo dos eleitores, Marina ficou com 11% entre as mulheres e 9% entre os homens. A pesquisa IBOPE/ACSP, realizada entre os dias 13 e 18 de abril e divulgada no dia 21 de abril de 2010, apontou ambos os candidatos com 8% dos votos. Estes números e a falta de apoio partidário aumentam as chances para que Ciro retire a sua candidatura ou que o PSB lhe negue a legenda para concorrer em 2010.

Os números acima também reforçam uma tendência quase que irreversível da candidata Marina Silva se consolidar em terceiro lugar na corrida presidencial e com um montante de votos expressivo capaz de torná-la uma terceira via, capaz de colocar tempero na tendência plebiscitária das eleições. Uma Marina forte, na disputa do primeiro turno das eleições 2010, significa que o debate não vai ficar restrito a Serra/FHC versus Dilma/Lula.

Marina Silva – que já foi comparada com o “Obama de saía” – pode encarnar o desafio inovador do século XXI, que é a defesa do meio ambiente e do empoderamento das mulheres. Feminizar o mundo seria uma forma de avançar a página do processo civilizatório, pois a Revolução Industrial, de características pratriarcais, liberou forças que agrediram o meio ambiente, enquanto mantinham a opressão histórica sobre as mulheres.

Marina Silva, com uma campanha bem articulada, pode mostrar a necessidade mundial e brasileira, de se fazer uma transição de uma economia de alto carbono para uma de baixo carbono e a transição de uma sociedade com alta desigualde de gênero para uma com maior equidade de gênero.

Se a candidata do PV tiver sucesso nesta empreitada – mesmo na hipótese de não chegar pelo menos em segundo lugar em 03 de outubro – ela poderá ter grande influência na decisão do segundo turno.

Até agora, neste processo de definição das candidaturas e das alianças partidárias, não houve uma apresentação de programas e ideias por parte das pessoas e partidos que pretendem governar o Brasil pelo próximos quatro anos. O perigo é que a campanha fique apenas nas representações da “sociedade do espetáculo” e não avance na busca de alternativas para o país.

Porém, a presença de Marina Silva, com toda a sua bela trajetória de vida e luta, pode contribuir para dar visibilidade nas eleições de 2010, em especial, para as questões de gênero e da sustentabilidade ambiental.

Vejam artigo:
Brazil’s presidential election – Another Silva
A celebrated environmentalist pitches for the presidency
Apr 22nd 2010, From The Economist print edition
http://www.economist.com/world/americas/displaystory.cfm?story_id=15959322

A hora do chá está chegando: Alice de Burton-Depp

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         A estréia internacional de Alice no País das Maravilhas está um arraso em termos de arrecadação. Foi o único até agora que tirou Avatar do primeiro lugar nas bilheterias, nas primeiras semanas pelo menos.

 

         E segurem aí as novidades: Burton resolveu fazer um roteiro totalmente diferente, ou seja, o livro de Carroll é somente a inspiração. Alice já está com 19 anos e volta ao País das Maravilhas e descobre que a Rainha de Copas dominou tudo por lá. E será convidada a ajudar nisso, a despeito de suas (eternas) dúvidas.

 

         Outro ponto muito interessante é a relação de Alice com o Chapeleiro Maluco. Criou-se entre eles uma cooperação fraternal, uma amizade íntima.

 

         E pelas palavras de Johnny Depp que faz o Chapeleiro, este personagem vem agora com suas emoções à flor da pele como maluco que é! Ao contrário do Chapeleiro do livro que mais parece um maluco deprimido, na minha leitura.

 

         Teria Tim Burton reinventado Alice com mais idade para fugir do debate extremamente chato sobre pedofilia (insistência de alguns teóricos, sobre o livro de Caroll)?

 

         Estaria Alice descobrindo o amor romântico e por isso lutará com a Rainha de Copas (a metáfora da paixão na leitura de tarô)?

 

         Aguardem a estréia do filme e voltem aqui para descermos este túnel juntos!

 

 

Psicose e justiça de massa: entre o espetáculo e o juízo universal

Por Murilo Duarte Costa Corrêa, editor do blog A Navalha de Dalí

 

Antes que digam, esse texto não chega atrasado. Ao contrário, ele adianta; adianta os muitos julgamentos-espetáculo a que ainda assistiremos estarrecidos, indignados, maldizendo a justiça que não vem, ou comemorando a reação da horda ridícula, mirrada e cristã contra o indivíduo.

O caso Isabela é emblemático a respeito da relação entre a patologia coletiva, que combate uma sociedade criminogênica com mais crime e violência organizada, e a normalidade e generalidade que a violência dos poderes de estado (aí incluídos os mass media) podem alcançar.

Poucas semanas depois de a garota ter sido defenestrada, jornalistas de todo o Brasil davam sua sentença; lia-se em uma das capas da Veja: Foram eles. E Veja afirmava isso a partir de um simples inquérito policial – mero procedimento investigatório em que a ampla defesa e o contraditório sequer são admitidos, pois impertinentes diante da natureza jurídica naturalmente inquisitória da fase investigativa.

As restrições talvez fossem menores caso não se tratasse de um crime contra a vida, de apelo emocional, que seria, como foi, avaliado por um júri popular, e caso não houvesse esse movimento burguês anti-impunidade “para certos crimes, mas não para todos”; “para os crimes cujas vítimas são visíveis, não justiça para as vítimas invisíveis”. Não se vê ninguém fazer vigília na frente do Supremo, pedido a procedência da ADPF n. 153 – embora as organizações de proteção aos direitos humanos continuem acompanhando o caso; o fato é que ninguém se interessa pela invisibilidade dos mortos, mas pelas visibilidades, e pela incontornabilidade, do poder.

Esse é o caso de Isabela e, ao que tudo indica, deverá ser também o caso do assassinato de Glauco e de Raoni. A grande mídia usa a morte dos dois para questionar – veja bem, não a questão do tratamento psiquiátrico no Brasil, não os problemas sociais gravíssimos envolvidos pela doença mental, tampouco a falta de políticas públicas de amplo espectro para prevenção de desenvolvimento e agravamento de doenças mentais (como talvez fosse defensável), mas – a liberação, pelo governo federal, da utilização do chá do Santo Daime em cerimônias religiosas, o qual tem efeitos alucinógenos. A discussão é, pois, sobre a liberação do chá do Daime, que teria servido de fator desencadeante para um surto psicótico em um sujeito provavelmente portador de esquizofrenia, e não a radical exclusão dos doentes mentais, que só recebem alguma atenção quando cometem um crime de grande magnitude, ou quando nos falam sobre o fim do mundo e a vinda de algum messias nos centros das cidades.

 Isso não justifica nem torna qualquer crime, tampouco a prematura morte de Isabela, Glauco ou Raoni, aceitáveis. Contudo, o retorno vingativo da cosidetta “justiça” sobre os criminosos não os reconhece mais do que como excluídos; estatísticas indicam que, no Brasil, há cerca de 1,6 milhões de pessoas (o que equivale a uma Capital do porte de Curitiba) portadoras de esquizofrenia – a maioria delas, em situação de mendicância. Constatar que esses números talvez sejam modestos é fácil: escolha uma grande cidade e ande pela sua cracolândia (toda grande cidade tem uma e, se não tem, em breve terá).

 * * *

 No curso da Segunda Dissertação de Genealogia da Moral, F. W. Nietzsche oferecerá uma curiosa, e vitalista, definição de direito. Nietzsche afirma que se considerássemos o direito sob uma perspectiva histórica, veríamos que ele representa precisamente “a luta contra os sentimentos reativos”.  No decorrer do tempo histórico, o direito teria implicado uma conduta agressiva voltada a conter os desregramentos do pathos reativo a fim de impor um acordo. Ao passo em que torna certos atos humanos, naturalmente produtores de ressentimento e motivadores de vingança em uma afronta à lei, a lei surgirá precisamente para tomar lugar à vingança, desviando esses sentimentos imediatamente orientados à revanche.

Contudo, os rebanhos se organizam apressadamente. Atualmente, organizam-se em congregações que permitem entrever a identidade entre justiça e desejo; o desejo de justiciamento e a justiça propriamente dita são uma e mesma coisa. A culpa, como em Na colônia penal, de Kafka, é sempre indubitável. “Foram eles”, ou “O psicótico e o Daime”, dizem as capas das revistas semanais.

Contudo, precisamente o que converte o desejo coletivo – como campo imanente da justiça – em um sentimento reativo, em uma vingança íntima mediada publicamente pela lei e pelas instituições, é a mediação do inconsciente coletivo pelas grandes máquinas semióticas contemporâneas: os mass media.

O mesmo ponto em que a culpa se torna indubitável (“foram eles”, “o réu psicótico, daimista e confesso” etc.), em que o julgamento se faz no corpo do socius, como uma emanação de uma sobre-regulação simbólica do inconsciente coletivo, termina por confundir-se com o momento em que o desejo ativo de justiça se torna um desejo reativo de vingança íntima e vergonhosa. Compartilhamos com os outros as nossas vergonhas, vamos dormir ao relento, assim como os psicóticos dos centros das cidades fazem todos os dias, e também por um delírio (que só é chamado “verdade”, porque é fruto do moralismo coletivo): para velar pela punição dos culpados, pela justiça das vítimas – pois os acusados são, sem dúvida, culpados.

O desejo toma, então, um caminho sem volta; a linha de fuga da justiça converte-se em linha de abolição absoluta – punição a todo custo, culpa a priori, expiação e conforto às vítimas. A perversão coletiva, que usa a lei para aplacar seu sentimento pessoal de vingança – e o brasileiro médio é tipicamente perverso em suas relações com a lei –, resultará, de tempos em tempos, na condenação de sujeitos submetidos aos ritos sacrificais contemporâneos. Os mass media encarnam a função de verdadeiros pontífices, hermeneutas da vontade divina, proclamadores da culpa; a lei e as instituições fazem as vezes dos instrumentos de suplício, legitimam a imposição da pena pelo próprio procedimento de apenamento; os condenados, culpados a priori, são sacrificados nas formas sancionadas do rito, do processo penal, a fim de auxiliar-nos a descarregar nosso pathos reativo, a fim de que possamos nos desvencilhar do castigo teológico e possamos expiar nossa própria culpa.

 Porém, nós mesmos, não nos salvamos, pelos ritos sacrificiais, pelo Juízo de Deus;  lembro-me de Il giorno del judizio, um belo texto de Agamben (2004) sobre um fotograma de Louis Daguerre, Boulevard du Temple, de 1838; nele, o Boulevard foi fotografado em horário de pico; massas de pessoas, carroças, passeantes, deveriam aparecer na imagem. Naquela época, porém, as máquinas fotográficas demandavam um longo tempo de exposição para captar as imagens. Por isso, nada aparece, senão um cenário urbano, imóvel; e ninguém aparece, à exceção de um vulto que permaneceu tempo suficiente parado, em pé, apoiado desconfortavelmente, tendo as botas engraxadas.

 O fotograma daguerreano permitiria entrever a fotografia como lugar de um Juízo Universal, segundo Agamben: a multidão toda estava presente, mas não se pode vê-la; o juízo refere-se apenas a uma vida, radicalmente pessoal, surpreendida naquele que talvez tenha sido o mais banal dos gestos – ter os sapatos engraxados. 

 E nós? Ora, nós somos apenas aquela multidão invisível, cujo julgamento não chegou ainda; porque o tempo atual é um tempo teológico, e há mais deus do que nunca, nossa presença móvel e esmaecida no fotograma daguerreano profetiza e anuncia, como quisera Agamben, que “no instante supremo, o homem, cada homem, fica entregue para sempre a seu gesto mais ínfimo e cotidiano” (Agamben, 2004). Então, o gesto mais irrelevante pesa e compreende a totalidade de uma existência. Assim, enquanto as multidões invisíveis fazem seus julgamentos, deus continua medindo os homens – com a distração negligente de quem vai ter as botas lustradas.

   

 

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 Fotograma: Boulevard du Temple, de Louis Daguerre (1838/1839)

 

Mulheres nas eleições presidenciais: indecisas ou alijadas e exigentes?

Uma tendência recorrente nas eleições presidenciais do Brasil, durante a Nova República, é o maior percentual de intenção de votos brancos, nulos, nenhum e não sabe entre as mulheres. As pesquisas eleitorais ocorridas em 2010 mostram que as mulheres superam os homens quando se trata de intenção de voto branco, nulo, nenhum ou não sabe. Isto é, as mulheres são menos propensas a definir o voto nas candidaturas presidenciais, pelo menos antes da decisão final no segundo turno.

Na pesquisa Datafolha, realizada nos dias 15 e 16 de abril de 2010 as mulheres apresentavam 8% de intenção de voto em “branco/nulo/nenhum”, contra 6% dos homens; e 11% de “Não sabe”, contra 5% dos homens.

Alguns políticos e analistas interpretam este fenômeno como fazendo parte de um processo de fraqueza feminina, pois as mulheres seriam mais indecisas e, de certa forma alienadas da política. Elas acompanhariam menos os noticiários políticos e tenderiam a seguir os homens (pais, maridos, colegas de trabalho, vizinhos, etc.) na hora de definir o voto. Por isto, elas estão sempre atrás no processo de definição do voto e apresentam maiores taxas de indecisão. Desta forma, a candidatura que conquistasse os homens, levaria as mulheres a reboque.

Contudo, gostaria de apresentar uma outra interpretação. A recusa em definir o voto com rapidez pode ser uma reação feminina ao fato da maioria das mulheres estar alijada dos cargos de direção dos partidos e do governo. Pode ser uma reação também à linguagem da política, que é muito machista e dominada por um discurso falocêntrico e que privilegia a agenda masculina. Desta perspectiva, as mulheres resistem em definir o voto em função do seu alijamento do processo político e da falta de uma liderança que seja capaz de tocar o “coração e mente” do eleitorado feminino. Ao invés de serem indecisas, as mulheres, na realidade, são exigentes e não seguem integralmente o caminho apontado pelos homens.

Um exemplo de como as mulheres são alijadas da política pode ser ilustrado pelo baixo número de mulheres nas direções dos partidos e pela pouca divulgação dos temas relacionados às desigualdades de gênero nos programas eleitorais e no cotidiano das práticas políticas. Além de tudo, os constantes escândalos de corrupção e a má gestão da coisa pública afastam o interesse das pessoas, em geral, e das mulheres, em particular, com o acompanhamento da ações governamentais e o processo legislativo.

Desta forma, não é de se surpreender com o fato das mulheres terem menor interesse com a política, esta política tal como é feita hoje no Brasil. De fato, as mulheres são excluídas das instâncias de decisão dos partidos e dos espaços do poder e depois são acusadas de serem eleitoras alienadas da política.

Assim como Barack Obama ganhou as eleições ao mobilizar e conquistar o eleitorado independente dos Estados Unidos, o Brasil precisa de uma liderança que compreenda as aspirações das mulheres brasileiras e seja capaz de mobilizar a força feminina – maioria do eleitorado – superando as desigualdades de gênero ainda existentes e indicando uma alternativa para o futuro, em sintonia com a manutenção e a recriação das utopias.