Idéias, experiências e casos

“De que adianta falar de motivos, às vezes basta um só, às vezes nem juntando todos.”

Essa frase do José Saramago resume bem a arte da administração de conflitos.

Diz o ensinamento que sempre que há conflitos, os motivos são fundamentais para chegar a um acordo entre os envolvidos.

Acreditar que só ouvir todos os motivos é o que se necessita para a solução, pode ser um recurso pobre e injusto. Se for só isso a coisa pode pegar. Seres humanos são resultados de histórias recheadas de conflitos e as pessoas envolvidas sempre trazem suas lembranças, conscientes ou inconscientes, no momento da negociação.

O mediador deve ter uma sensibilidade tal, que permita que ele leia nas entrelinhas, as razões claras e ocultas das partes envolvidas. Uma frase, um olhar, a postura do corpo são ferramentas essenciais para chegar a uma solução e, por vezes, mais importantes do que os motivos da discórdia. A tonalidade da voz, olhares, suores, enfim, os vários sinais devem ser observados e utilizados para as argumentações por parte do mediador para colocar na mesa, a solução do que se apresenta.

Presenciei um acordo, onde uma das partes só necessitou de uma intermediação que mostrou um afeto por parte do reclamante. O bem em si tornou-se secundário após uma leitura da postura do reclamado. E isso foi feito de forma simples, imperceptível para as partes e chegou-se então a solução, sem que houvesse necessidade sequer de negociação, divisão, acordos parcelados ou equivalentes.

A percepção é o grande talento do negociador. Essa percepção pode fazer até mesmo com que os motivos não sejam mesmo a razão da discórdia ter durado o tempo que durou, seja curto ou longo.

O ser humano por vezes, só precisa ser sentido e traduzido. Nesses casos, de nada adianta falar dos motivos, nem mesmo juntando todos.

Mesmo que ateu, sua benção Saramago.

By: Jo Bernardes

Do Forró Universitário ao Emocore – indústria, público e a teoria da sucessão dos estilos musicais.

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Hoje quando acordei, liguei a tevê e passando os canais me deparei com uma entrevista do “Falamansa” – o grupo de forró universitário. Enquanto ouvia as respostas do grupo – intercaladas a algumas canções, me veio à mente uma ideia que responde a uma questão muito recorrente – o movimento Emo irá acabar? Fiquei pensando – o Falamansa teve seu auge entre o final dos anos 90 e o começo dos 2000. Lembro-me que nessa época o grupo tocava e aparecia em todos os canais, suas músicas estavam entre as mais pedidas e isso gerou duas conseqüências: uma legião de fãs – com sandálias rasteiras, calças largas e chapéus e uma série de outros grupos fazendo o mesmo tipo de som (Circuladô de Fulô, Peixe Elétrico, Rastapé, entre outras). Onde estão todos? Podem não ter acabado – óbvio, mas já não fazem o mesmo sucesso e não possuem o mesmo espaço de antes. E por quê? Por duas razões – pela sazonalidade dos estilos musicas e por sua conseqüente saturação, a indústria fonográfica abandona um estilo e abre espaço para o próximo que começa a entrar no gosto do grande público – e a outra razão se dá pelos tipos de público. Entre os diversos tipos de público, destaco três como sendo os principais para explicarem essa teoria. Percentualmente falando, o público de um estilo musical dividi-se em: 70% – aproveitam o “boom”, aderem a moda e quando tudo acaba, migram definitivamente de estilo, 20% – aderem mesmo o estilo e tornam-se sectários ou fanáticos, sendo assim uma minoria que realmente gostavam em detrimento da moda e os outros 10% – são aqueles mais ponderados, que nem deixaram de curtir e nem viraram fanáticos, e sim deixam espaço para ouvirem um pouco de tudo. Para reforçar isso, basta vermos o que aconteceu com o Reggae – o estilo que midiaticamente substituiu o Forró universitário. Esse auge do ritmo de Bob Marley aconteceu de 2001 a 2005 – e em um processo semelhante ao forró, o reggae também apareceu muito, também saturou, também criou uma legião de fãs e novas bandas. Onde estão todos? Sim, também não acabaram – mas como dito acima a indústria está sempre em busca do novo “hype” – a nova menina dos olhos. Esses 70% – são justamente a amostra do poder de influência da mídia em relação à imposição de gostos musicais (e culturais). As pessoas com uma formação humanística menos favorecida (isso não têm haver com formação escolar), conseqüentemente são mais fáceis de serem influenciadas – não possuem identidade e capacidade de fazerem suas próprias escolhas. São para essas pessoas que os programas são feitos, as estratégias de marketing, toda publicidade e toda banalidade reinante na tevê pública. Porque os 20% – os sectários, seguem suas bandas no underground, vivem as filosofias cantadas nas letras (veja por exemplo que muitos dos simples curtidores de reggae tornaram-se rastafáris) e deixam quase todos os outros tipos de música de lado – recebendo pouca ou nenhuma influência da mídia. Os 10% – os ponderados, são mais críticos em relação aos desígnios da mídia. Dificilmente deixam-se levar pela “ditadura” do gosto e não possuem compromisso com nenhum estilo, banda ou afiliação. Eu citei o caso do reggae, mas isso serve também para punks, metaleiros, góticos, pagodeiros, funkeiros, clubbers, e outros – que por causa do pertencimento a um grupo, não podem gostar de nada que fuja de seu estereótipo. A estrutura é a mesma. Dessa forma, a crítica se aproxima do modelo marxista – o materialismo histórico, e da teoria da sucessão dos impérios de Kenneth Waltz – que lidam com a ideia da inevitabilidade das mudanças de modo de produção (na primeira) e dos impérios (na segunda). Se aproveitando dessa ideia, acredito muito na desaceleração gradual e no enfraquecimento do movimento emocore. A indústria não é condescendente com ninguém, e não será com o emo. A lógica capitalista não conhece sentimentos, é fria, então também será impiedosa com emo, assim como foi com o forró e com reggae. A comparação aqui não é estilística ou de juízo de valor, mas sim estrutural e conjuntural. Assim que surgir um estilo novo – dentro de qualquer gênero (rock, forró, samba, eletrônico) – a indústria irá tirar todo espaço do emo e dará a esse novo estilo. E esse novo estilo também irá nascer datado – e fadado a morrer, justamente pela teoria de sucessão de estilos. Se repararmos nas evidências, Fresno e NX Zero embora tenham ainda muita mídia, não têem hoje o mesmo espaço de antes – que hoje é ocupado pelo Restart. O Cine esteve num momento intermediário, mas já começa a gradualmente aparecer menos. Desde 2006 os emos dominam o mercado – já estão quase completando um ciclo como o do forró e do reggae, isso também se apresenta como um sinal. Os coloridos iram desaparecer? Não! Eles serão apenas 20% – dentro do esquema apresentado, aqueles que iram aderir de verdade a essa causa. A maioria das meninas que hoje choram, dormem nas filas dos shows e usam óculos de aros grossos, iram ignorar as bandas que hoje cultuam, pois estarão ocupadas demais com a “next big thing”. Esses fãs são uma espécie de Sísifo moderno – o personagem da mitologia foi condenado a levar eternamente uma enorme pedra ao cume de um morro, sendo que a pedra sempre irá cair de lá – o mesmo digo desses 70% – condenados a eternamente mudar de estilo de acordo com o “querer” da indústria. E quanto aos 10%? Eu pergunto: há alguma sensatez no emo? Porém eu asseguro – não sei nem quando, nem onde, mas o emo irá passar – pois como diz uma canção de Nelson Ned: “mas tudo passa, tudo passará, e nada fica, nada ficará” – veremos.

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Pedido público de desculpas ao ex-editor

___Como bem sabem as pessoas que acompanham o Editorial do Ops!, o editor primeiro deste espaço, o grande Rafael Reinehr, não escreve mais aqui. Atualmente, ele apenas cuida dos bastidores do projeto. Apenas, claro, é apenas uma expressão. Um cara sonhador como o RR está sempre ocupado, tentando cuidar dos mil projetos – virtuais ou reais, pessoais ou comunitários – de que ele participa. Ele nem imagina, por exemplo, como fico feliz de saber que um dia alguém tão admirável como ele ficou boquiaberto com os meus textos e resolveu me jogar em seu tresloucado mundo.
___Mesmo admirando o Rafael Reinehr e trabalhando com ele há mais de dois anos, nunca o vi ao vivo. O fato de que ele mora no sul do país e eu no sudeste, contribuiu bastante para isso.
___Na semana passada, entretanto, RR veio aqui para São Paulo, para apresentar um de seus projetos no “2º Seminário A Sociedade em Rede e a Educação”. Feliz e contente, eu planejei me encontrar com ele. Só existiam pontos positivos no encontro: eu iria conhecer um amigo virtual que muito admiro e, professor apaixonado que sou, ainda veria um evento sobre Educação.
___Entrei em contato com o Rafael, arrumei minha agenda, coloquei o meu casaco, o chapéu e o chicote e… adoeci. Fiquei de cama uns dias e acabei por desperdiçar a chance de encontrá-lo. Espero que este editorial sirva para que o RR me desculpe. E, também, que sirva para que ele me receba para um almoço em casa, caso eu consiga viajar para o sul.

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P.S.: Para os leitores ingênuos que acham que editorial não é lugar de desculpas públicas, não deixem de notar os links que coloquei sobre as interessantes andanças do Rafael Reinehr.

 

Despolitização ou fim da ideologia?

A elite não sabia o que era capitalismo.
Precisou que um metalúrgico socialista chegasse ao poder
para ensinar a fazer capitalismo neste país
(Lula, em Porto Alegre, 29/07/2010).

Existe uma insatisfação geral com o nível dos programas e dos debates nas eleições de 2010. Será que estamos presenciando o fim da política ou o fim das ideologias? Parece que o segundo caso é o mais verdadeiro. Pode-se dizer que, nas eleições gerais do Brasil de 2010, a antiga discussão sobre a “sociedade sem classes” foi substituída pela bandeira de uma só classe ou “sociedade de classe média”, definida não por sua posição no processo de produção, mas sim no processo de consumo.

A desideologização da política, não é uma coisa nova e já havia sido tratada no livro “O fim da ideologia” de Daniel Bell, de 1960. Para este autor, a sociedade capitalista e liberal, de consumo de massas, possibilita o aplainamento dos antagonismos de classe reduzindo as contradições entre capital e trabalho. Na sociedade sem ideologia, o papel do Estado seria garantir a governança política e a eficiência econômica para reduzir a pobreza e possibilitar uma melhor qualidade de vida para a população. A democracia seria mais adequada ao capitalismo do que os regimes autoritários (fascismo, nazismo, stalinismo, ditaduras militares, etc). O sistema capitalista, com “justiça social”, seria mais eficiente do que o socialismo, o comunismo, etc.

Nas eleições 2010, entre as grandes candidaturas, o marketing político e a americanização das eleições – com discursos orientados pelas pesquisas qualitativas – são mais importantes do que o enfrentamento ideológico. A ideologia ficou restrita a algumas propostas das candidaturas “nanicas”, como no já folclórico refrão “Contra burguês, vote dezesseis”. Aliás o PSTU não deixa de apresentar propostas ideológicas, tais como:

·    Não pagamento da dívida externa e de seus juros;
·    Tributar as grandes fortunas e combater a sonegação fiscal;
·    Reajuste mensal de salários! Salário mínimo do DIEESE;
·    Congelamento dos preços, tarifas e mensalidades escolares;
·    Combater o desemprego: por um plano de obras públicas e redução da jornada de trabalho sem redução dos salários;
·    Realizar uma reforma agrária ampla e radical sob controle dos trabalhadores;
·    Expropriação sem indenização dos latifúndios;
·    Estatização do sistema financeiro;
·    Expropriação das grandes empresas e reestatização das empresas privatizadas;
·    Pelo monopólio do comércio exterior;
·    Aliança dos trabalhadores da cidade e do campo e governo dos trabalhadores.

Porém não parece existir qualquer mobilização por tais ideologias, que soam para os eleitores como anacrônicas e intempestivas. Os candidatos da chamada “extrema esquerda” – que são aqueles candidatos que defendem a ideologia de esquerda de cunho marxista – ficaram completamente isolados e não repetiram a performance de 2006 quando a candidata Heloísa Helena, do PSOL, com seu discurso raivoso e moralista, teve cerca de 7% dos votos. Plínio de Arruda Sampaio, em 2010, tenta passar o programa do PSOL de maneira mais leve e divertida. Mas parece que não vai conseguir romper com a polarização da disputa e nem romper a barreira de 1% dos votos. O isolamento dos “ex-radicais do PT” é mais um indicador do processo de desideologização.

A falta de alternativas mais à esquerda contribuiu para a pauperização do debate político, que foi ainda acentuado devido à falta de profundidade do diagnóstico e de clareza do receituário oferecido pelos grandes partidos. A disputa plebiscitária envolvendo PT versus PSDB ou Lula versus FHC, também reduz o escopo do debate, que em vários momentos foram substituidos pelas denuncias. Os escândalos de corrupção, geralmente pouco investigados e solucionados, funcionam como um eclipse do debate político.

A política ficou sem graça, especialmente com a proibição dos humoristas fazerem piadas. Em compensação o palhaço Tiririca promete fazer da política uma grande piada e deve ser um dos deputados mais votados em São Paulo. Mas falando sério, a proliferação de candidaturas sem conteúdo político, como das “mulheres frutas”, de jogadores de futebol e de figuras folclóricas, apenas reforçam o processo de desideologização. Os comícios e passeados das candidaturas tem sido feitas com pessoal contratado e não com a adesão voluntária de militantes desinteressados.

Mas os temas políticos não desapareceram totalmente, pois, em geral, são tratados de uma forma asséptica. Vejamos alguns exemplos:

·    O conflito distributivo não é tratado no aspecto da disputa entre as classes, mas sim no seu aspecto mais visível da concentração pessoal de renda. As propostas variam na abrangência e na temporalidade da recuperação do salário mínimo, das transferência de renda (como o Bolsa Família), nos reajustes das aposentadorias, redução da pobreza e crescimento da classe média, etc.
·    A essência do mundo do trabalho não é problematizada e a discussão gira em torno da criação de emprego, redução do desemprego, a gerência do Fundo de Amparo ao Trabalhador, etc.
·    Na educação se discute a criação de Escolas Técnicas, o PROUNI e algumas medidas para melhorar a qualidade do ensino, como dois professores por sala de aula, um computador por aluno, etc.
·    Na saúde as propostas vão no sentido de recuperar as perdas das receitas decorrentes do fim da CPMF, fortalecer o SUS, reduzir filas, criar UPAs 24 horas, melhor assistência às gestantes, etc.
·    Na segurança as propostas giram em torno de criar um Ministério da Segurança, colocar mais policiais nas ruas, melhorar os salários dos policiais, combater as drogas e especialmente o crack, etc.
·    Em relação ao Meio Ambiente as propostas são de investir em saneamento básico, aumentar impostos para indústrias poluentes e adotar incentivos para empresas e famílias se adaptarem às mudanças para redução de emissões de gases estufa, cobrar royalties maiores das mineradoras, etc

Porém, o que mais reforça o sentimento de despolitização, além da falta de programas com projeto da nação que queremos, é a falta de fronteiras ideológicas que permite que o PT se alie com o PMDB e o presidente Lula possa compartilhar o palanque com figuras como Sarney, Collor, Jader Barbalho, Maluf, etc. Alianças políticas que não eram vistas nem em eleições muncipais agora fazem parte do cenário nacional. Figuras proeminentes da época autoritária agora convivem com as vítimas que sofreram nas prisões da ditadura. Não é de se estranhar que a maior discussão existente no país gira em torno do valor das indenizações pagas pelo erário público às vitimas da ditadura.

Como bem assinalou o competente editorialista do OPS, André Egg, em postagem de 03 de setembro, Cadê a Política?: “Tudo isso torna o lulismo uma força muito poderosa. Só que, como demonstram as análises citadas, o lulismo esvazia a discussão política. Maior mostra disso é que faltam 22 dias para a eleição, e ainda não existe um programa de governo da candidata Dilma”.

A falta de projetos de longo prazo para a nação é um fato comum, tanto no governo, quanto na oposição. No processo eleitoral, sequer foi debatido o projeto “Brasil 2022: o bicentenário da independência e o país que queremos” da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE). O embate de biografias ficou mais importante do que o embate de projetos. O populismo e a tutela tem ganhado terreno em relação à organização autônoma dos trabalhadores. Não deixa de ser um processo em que o Estado substitui a sociedade civil. Existe uma voz de cima prevalecendo sobre a cacofonia dos sons fragmentados enviados por aqueles que vivem no “andar de baixo”. Mas o fato é que o crescimento da classe média tem se tornado mais importante do que as disputas de classe.

Existe uma redução das diferenças entre as forças de direita e de esquerda, contribuindo para a opacidade ideológica. Alguns dizem que, simplesmente, o Brasil está abraçando a social-democracia, implementando o Estado de bem-estar social e consolidando a democracia, embora esteje longe de atingir os padrões europeus.

Mas como interpretar este processo de desideologização? Alguns dizem que o Brasil está simplesmente rompendo com antigas tradições políticas próprias da América Latina e ficando mais parecido com países do chamado Primeiro Mundo. Outros dizem que o enfraquecimento dos partidos e dos programas partidários é uma regressão e uma volta do culto do líder personalista e paternalista que esvazia as possibilidades de organização social e de expressão das massas.

Como analisar a nova correlação de forças e as perspectivas para o próximo governo? Será um governo da classe média? As lideranças do Partido dos Trabalhadores vão realmente “ensinar a fazer capitalismo neste país”, como disse o Presidente Lula na epígrafe deste artigo? Como articular utopia e pragmatismo, fazendo da política uma atividade construtiva e não destrutiva?

Som, Ruído e Música.

 

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Certa vez me deparei como uma questão um tanto espinhosa e controversa, a respeito de gostos musicais. Lendo diversas entrevistas do maestro Júlio Medaglia, senti em suas falas uma certa superioridade da música erudita em detrimento de outras manifestações musicais. A questão a que me referi no início, trata-se da comparação ente estilos musicais e a superioridade de um em relação a outro. Conversando com um jovem periférico sobre música, notei sua exaltação ao funk carioca e congêneres, e seu total repúdio a música dita por ele “clássica”, referindo-se a ela como “chata”. Se perguntar a Júlio Medaglia o que ele acha sobre o funk carioca sua resposta com certeza será negativa. Em primeiro lugar é necessário deixar claro que cada um têm o direito de gostar do que quiser, as pessoas são livres para escolher seus estilos de musicais. Porém é clichê dizer que gosto não se discute, porém também não é dizer que há coisas em termos musicais que são superiores a outras. O politicamente correto impede tais manifestações e nossa ignorância também nos impede de tecer críticas no limite do respeito, pois sempre que nos referimos ao gosto do outro, é costumeiro usar termos como “merda”, “porcaria”, etc. Não há respeito pelo que o outro gosta mesmo que isso signifique coisas de uma qualidade menor em seu julgamento. E é aí que se dá o nó da questão, como definir – e quem define – o que é de maior ou de melhor qualidade. Nessa direção, devemos primeiro recorrer à lexicologia, a dizer a parte da gramática que se ocupa dos significados das palavras. Os dicionários definem a palavra som, como sendo um fenômeno acústico advindo da propagação de ondas sonoras produzidas por um corpo que vibra em meio material elástico especialmente o ar. A definição de ruído têm vários significados, alguns deles são: som confuso, qualquer som, perturbação aleatória, etc. Quanto a música é definida da seguinte forma: arte e ciência de combinar sons de modo agradável ao ouvido. Com tais definições em mente, a questão começa a se elucidar melhor. Muitas vezes ouvimos expressões como “tudo é questão de ponto de vista”, onde uma coisa pode ser boa para um e não para o outro. Porém há coisas que são indefensáveis, por exemplo, violência, estupro, pedofilia, etc. Mesmo em nome de um ponto de vista que a pessoa tenha direito de ter, é inconcebível alguém defender a pedofilia, achar que isso é bom só porque é seu ponto de vista. Música pressupõe sentido, ordenação. Então nem tudo que é chamado de música e de fato música. Tudo é som, porém a diferença é que: alguns transformam sons em música e outras apenas em ruído. Veja uma orquestra em ação e entenda o que é música. Assista um concerto de jazz, e observe a técnica, o domínio das notas e como elas dialogam harmoniosamente criando sentido. Outra questão é a técnica. Antes disso porém, farei aqui um pequeno parêntese histórico. Quando o jazz começa a se expandir a partir de Nova Orleans nos anos 20, pelo fato de ser um tipo novo de música, fora visto pelos situacionistas como um mero ruído irritante. Em 56 no início do rock n´roll, Elvis Presley e Little Richard eram vistos como transgressores e o rock não era nem considerado música pelos jazzistas. Hoje o rock ganhou respeitabilidade devido a sua evolução e suas fusões com o próprio jazz, com a música erudita, além de incursões de músicas tradicionais e folclóricas de diversos países. Quando me refiro à técnica, quero dizer a execução desses sons. Em termos musicais, os sons são caracterizados pelas notas, definidas pelas escalas – a pitagórica é uma delas. A combinação dessas notas formam acordes que agrupados são como frases para formar um texto, esse texto musical é justamente a música terminada. No caso dos sons emitidos pela voz, também podem ser ordenados pelas notas. Entretanto aí, já enveredamos por questões de timbres vocais, uns mais graves do que outros, outros agudos, uns finos demais, outros roucos, uns agradáveis e outros não, e nesse caso, não basta apenas a técnica, é necessário também a beleza desse timbre. A música erudita é caracterizada pela instrumentação, porém a Ópera – uma extensão da música erudita – é cantada. No caso da música popular, quase toda ela é cantada, e nesse caso aqui, esse canto é condicionado a outro elemento fundamental dessa manifestação: a letra. E é aí que voltemos ao funk carioca. Montaremos uma equação: som + letra + canto = música ou não. O som do funk pode ser enquadrado como ruído, ou seja qualquer som, além do que o sampler permite que se use bases de outras músicas que são repetidas em outras, como variações mais lentas ou mais rápidas dependendo do que se quer. No funk não se cria nada, e não se toca nenhum instrumento, ou seja, não há técnica envolvida. As letras são desprezíveis. Além dos assuntos abordados, as rimas são pobres, a forma de escrever não segue nenhum tipo de rigor técnico ou critério e não despertam nenhum tipo de sentimento em alguém. Há os que defendem o fato do funk carioca ser um tipo de som sensual, lascivo, mas em mim não desperta nenhum tipo de reação nesse sentido, bem diferente de Isaac Hayes, Chris Isaak e Brian Ferry, sendo sensuais sem serem vulgares. As letras do funk são apelativas, explícitas, vulgares e sexistas. Não há como comparar Furação 2000: “é diferente, vem com a gente, quero ver gerar pirar”, com Chico Buarque: “sábios em vão, tentarão decifrar, o eco de antigas palavras, fragmentos de cartas, poemas, mentiras, retratos, vestígios de estranha civilização”. Não há comparação entre Caetano Veloso, Ary Barroso, Gilberto Gil, Renato Russo ou Vinícius de Moraes com MC Serginho, MC Créu, Tati Quebra Barraco, Perlla ou Gaiola das poposudas. É notável a diferença quilométrica entre eles, tanto estilística quanto poética, que no caso não pode ser referida aos funkeiros, uma vez que esses desprezam tal arte. Cantar é algo superior, nem todos cantam, isso é só para alguns, os demais pronunciam palavras com algum ritmo. Esses mesmos funkeiros citados, cantam também, e nesse caso a comparação também é disparatada quando lembramos de interpretes como Gal Costa, Elis Regina, Cássia Eller, Nelson Gonçalves, Emílio Santiago ou Noite Ilustrada – entre outros. A qualidade, a beleza, a potência de alcance de suas vozes é algo impressionante, se distinguem na multidão de vozes do cotidiano das cidades, e não há como compararmos esses com aqueles. Portanto eu concluo que o funk carioca não é música, é apenas ruído – e não há problema nisso. Não há som de qualidade, não há letras de qualidade e não há canto de qualidade, é apenas qualquer som, ou seja, ruído. Esse ruído serve apenas como entretenimento de massas, sem conteúdo, uma vez que a massa não quer saber de pensar, e música também é para pensar, aprender, refletir, se elevar e no caso do funk carioca nada disso proporciona ao ouvinte, seja voluntaria ou involuntariamente. Por mais que o funkeiro tenha o direito de ter sua opinião – que por sinal deve ser respeitada – não há como fugir do fato de que dentre os muitos ruídos, o funk é também um ruído menor. Sua importância social é negativa, sua qualidade é inexistente, é um meio de dinheiro fácil porque é consumido pela massa sem qualquer critério estético ou sem qualquer critério de qualquer natureza. Portanto, nunca comparem Mozart ou Schubert com funk carioca sob a alegação de um ser melhor do que outro, até porque comparação só se dá entre coisas compatíveis, portanto, compare música apenas com música e ruído apenas com ruído. Gosto não se discute, porém numa arqueologia do gosto, concluo que se respeita o do outro, porém se admite que há gostos inferiores e gostos superiores a julgar pelo método exposto.

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Quando o corpo político vira corpo criminal: mais um não à biometria

 

 Croquis de crânios de delinqüentes; 

pelo Dr, Vans Clarke, diretor de prisão. In: (LOMBROSO, 1895)

  

“No dia em que o controle biométrico seja generalizado e em que a videovigilância seja instalada em todas as ruas, toda a crítica e toda a dissidência serão impossíveis”. (Giorgio Agamben, Não à biometria).

 

 

1 Kelsen afirmava em Teoria Geral do Direito e do Estado que, de um ponto de vista do dever estritamente jurídico, o sujeito destinatário da ordem jurídica não seria mais do que “um delinqüente em potencial”. A biometria dá a Hans Kelsen uma oportunidade para reencarnar nos sistemas burocrático-administrativos do direito positivo atual. Sob a égide dos Estados contemporâneos de Direito, com seus dispositivos de segurança e garantias tanto mais numerosos quanto mais ineficazes, falíveis, manipuláveis e, no entanto, incontornáveis, os corpos físicos dos cidadãos deixam de ser os corpos disciplinares para se tornarem o ponto de imputação privilegiado dos dispositivos de governamentalidade. 

 

2 Não é de todo desprezível o fato de que, hoje, no Brasil, ninguém possa renovar a habilitação para conduzir automóveis sem antes passar por um cadastro biométrico, em que são escaneados os cinco dedos de cada uma das mãos. Dispensa-se até mesmo a assinatura pessoal do condutor, que só estampa as habilitações porque nelas parece ser necessário reservar um lugar para o sujeito daquele corpo. 

Também não se deve menosprezar o fato de que toda uma campanha publicitária realizada pelo Superior Tribunal Eleitoral destinou-se, até agora, a emitir signos que têm por exclusivo propósito identificar os significantes “biometria = segurança”, ou “biometria = transparência”, eleitorais.  

O Tribunal Superior Eleitoral, desde as primeiras experiências com as urnas biométricas ocorridas nas eleições municipais de 2008, condicionou expressamente por resolução o exercício do direito constitucional ao sufrágio ao recadastramento biométrico de todo eleitor com domicílio eleitoral nos municípios-sede em que ocorreriam os primeiros testes. Em 2010, não será diferente.

O Tribunal Superior Eleitoral prevê que, até os anos de 2016 ou de 2018, todas as eleições brasileiras sejam realizadas com utilização da identificação biométrica dos eleitores. 

slogan da implementação das urnas biométricas no Brasil (“cada vez mais, o poder está na mão do eleitor”) atesta a duplicidade da subjetivação-captura operada pelo dispositivo de controle: pretende-se garantir a segurança dos processos político-eleitorais ao efetuar-se uma identificação sem precedentes entre homem político e um corpo biológico que só pode ser o dele. As urnas biométricas são o dispositivo técnico que, contemporaneamente, permite entrever a identificação sem resíduos que o Estado promove entre corpo biológico dos homens e as prerrogativas políticas inerentes ao status de cidadania. A subjetivação cidadã e corpo biológico dos homens fazem um no corpo a corpo dos cidadãos com o dispositivo eleitoral biométrico. 

 

3  Cesare Lombroso foi um dos mais célebres precursores daquilo que, anos depois, viria a ser nomeado “antropologia criminal”. Originalmente, a disciplina lombrosiana destinava-se a identificar, organizar e classificar os traços fenotípicos comuns à face e à compleição corpórea do “délinquant-né” (delinqüente nato). Em L’homme criminel. Étude anthropologique et psychiatrique (1895), croquis identificavam uma variada gama de elementos estruturais e de traços do criminoso natural, que iam desde o formato dos crânios até a dimensão de seu campo visual médio. 

Atualmente, quando a criminologia passa a compreender o crime como um fenômeno biopsicosocial complexo, valendo-se da bioantropologia, mas também da criminologia sociológica, já não se pode afirmar, com a falaciosa certeza lombrosiana, quais os caracteres constituintes dos “criminosos por natureza”. Diante desse saber-poder bem estabelecido, o Estado utiliza a biometria como aparato técnico e dispositivo que reduz o cidadão a uma identidade morfológica de raiz biológica.  Desde Lombroso, os procedimentos biométricos não eram aplicados à totalidade dos cidadãos, mas apenas aos delinquentes. 

 

4 Atualmente, segundo Giorgio Agamben, a extensão e a generalização dos dispositivos biométricos e sua universal presença em espaços públicos como escolas, aeroportos, departamentos burocráticos etc., importaria reconhecer que todo cidadão tornou-se, aos olhos do Estado, um criminoso, ou um terrorista, em potencial. A maior prova disso – atesta Agamben durante a apresentação de um dos livros de Tiqqun –, encontrar-se-ia no fato de que todo homem que não se sujeita, ou denuncia, a aplicação dos aparatos biométricos pelo Estado aos cidadãos, é tratado como terrorista. 

 

5 Brevemente, em 03 de outubro de 2010, a maior parte dos brasileiros votará ainda nas urnas eletrônicas tradicionais. Pela primeira vez, no entanto, o eleitor deverá comparecer à seção com o título de eleitor e um documento com foto. Pequenos municípios brasileiros, desde as eleições municipais de 2008, vêm testando as urnas biométricas. Tal dispositivo de controle e segurança já sofre críticas que vão da violação da garantia ao sigilo da votação à ineficácia técnica da garantia contra fraudes. Ainda assim, o aparato biométrico é vendido pelo próprio TSE como uma das resultantes da “revolução digital”. 

 

6 Ao identificar o sujeito político exclusivamente por meio de seu próprio corpo, a identificação biométrica traz à luz aquilo que, desde os gregos, é, segundo Giorgio Agamben, o princípio de inscrição da doçura natural da vida nua (biológica) no seio do político, ao mesmo tempo em que essa mesma vida – nua, natural – é excluída da política; desse processo, em nosso sistema representativo, resta sempre o eleitor: um sujeito vazio, mas “seguro” e, sobretudo, passível de controle e identificação no campo aberto e perigoso da política. 

Seu corpo biológico, que antes não compunha o cadastro eleitoral, é interiorizado, agora, pelo cadastro biométrico. Coextensivamente à identificação sem resíduos entre eleitor – sujeito político por excelência das democracias representativas – e corpo biológico individual dos cidadãos, produz-se a identificação entre cadastro eleitoral e cadastro biométrico. Assim, a biometria parece ser um passo adiante na concretização da clássica imagem da associação política hobbesiana: a imagem do Leviatã já não se faz unicamente de corpos, mas também de dados biométricos desmaterializados de cada cidadão, em nome dos quais nossos puros corpos subjetivados continuam sujeitados a uma política impotente, porque reduzida ao corpo a corpo entre homens e aparelhos de captura publicitário-eleitorais.

 

 

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Editor do blog A Navalha de Dalí

 

  

Aborto e “Imperialismo demográfico”

O setores conservadores da sociedade brasileira, em especial o fundamentalismo religioso, costumam utilizar a questão do aborto para infundir medo na população e conquistar eleitores desavisados para suas teses, muitas vezes, anacrônicas, como a recusa em aceitar o uso da camisinha, etc.

Considero um direito democrático de qualquer cidadão ou instituição ser contra o aborto. Mas querer impor uma opinião ou posição ideológica ao conjunto do Estado é um desrespeito às pessoas e instituições que pensam de maneira diferente. Evidentemente, não acredito ser correto o recurso ao aborto como método contraceptivo. Mas conforme a própria legislação brasileira estabelece, o aborto se justifica (e não é crime) nos seguintes casos:

1)    Risco de vida da mãe, pois se uma complicação em uma determinada gestação específica colocar a mulher em risco de perder a vida, o aborto se justifica em defesa da vida da mulher;
2)    Gravidez provocada por estupro, pois um filho deve ser fruto do amor e do desejo dos pais e não o fruto de uma violência e de um abuso sexual.

O Supremo Tribunal Federal tem discutido uma terceira possibilidade de aborto legal no Brasil em relação à gravidez de fetos anencefálicos. O aborto neste caso se justifica pois um feto sem cérebro é um embrião sem vida e não faz sentido obrigar uma mulher a manter uma gestação por nove meses para simplesmente enterrar o feto (sem vida) após este longo período de sofrimento físico e psíquico.

Outro problema que ocorre com frequencia no Brasil é o aborto inseguro. Muitas mulheres que ficam grávidas sem desejar ou planejar optam por fazer um aborto em condições insalubres e precárias, pois não podem contar com o sistema de saúde pública. Muitas destas mulheres acabam falecendo em decorrência das complicações deste aborto ilegal e inseguro, aumentando as estatísticas da mortalidade materna. Algumas que sobrevivem aumentam as estatísticas da morbidade e das sequelas da saúde.

Desta forma, o aborto inseguro se torna um problema de saúde pública. Uma forma de reduzir este tipo de aborto é universalizando o atendimento da saúde reprodutiva por meio da disponibilidade de métodos contraceptivos para evitar a gravidez indesejada. A Constituição Brasileira, a Lei do Planejamento Familiar e os acordos internacionais assinados pelo país estabelecem ser um dever do Estado forncer os meios para a regulação da fecundidade. Infelizmente, por falta de recursos e de soluções logísticas muitas mulheres e casais não têm acesso a este direito fundamental.

Acredito que as pessoas que são contra o aborto deveriam ser as primeiras a defender o acesso universal ao planejamento familiar. Mas, incoerentemente, a Igreja Católica é contra o uso de métodos contraceptivos, sendo inclusive contra a camisinha que protege contra doenças e infecções sexualmente transmissíveis.

Outra incoerência da Igreja é falar em “Imperialismo demográfico” como se o desejo de ter menos filhos fosse uma imposição dos países ditos imperialistas, especialmente os países europeus e os Estados Unidos. Na verdade, os chamados “países desenvolvidos” possuem fecundidade baixa, embora haja liberdade para os cidadãos terem quantos filhos desejarem. O país que tem a política mais draconiana de controle da natalidade é a China, que não pode ser classificada de “país imperialista”, pelo menos não é um país capitalista e sim controlado por um partido comunista.

Em nome do combate ao “Imperialismo demográfico” geralmente se esconde uma concepção pro-natalista com base no princípio bíblico “crescei e multiplicai-vos”. Reflete também o desejo das religiões de ampliar o número dos seus fiéis, em especial, junto à população pobre e pouco escolarizada. Contudo, o direito reprodutivo é o filho caçula dos direitos humanos, aprovado na Conferência do Cairo de 1994, e não uma imposição estrangeira. Em geral, as famílias optam por terem menos filhos para poderem investir na qualidade de uma prole menor.

Portanto, estas posições escatológicas contra o aborto e contra o chamado “Imperialismo demográfico” apenas prestam um desserviço à sociedade e ao processo democrático. Afortunadamente, a democracia brasileira é bastante plural e se pode encontrar posições divergentes àquelas do conservadorismo moral e do fundamentalismo religioso. Vejam abaixo as posições de Plínio de Arruda Sampaio, católico e candidato à Presidência pelo PSOL, do Bispo Macedo da IURD e da organização Católicas pelo Direito de Decidir:

“O problema do aborto”
http://www.plinio50.com.br/artigos-plinio-psol-eleicoes2010/295-qomissao-compromete-nosso-compromisso-com-os-pobresq.html

Plínio Arruda Sampaio

Como cristão, meu posicionamento pessoal diante do problema do aborto é ditado pelos valores da minha fé. Felizmente não tive, no decurso dos meus cinquenta anos de casamento, necessidade de enfrentar essa questão. Por isso, sempre a abordo com muita humildade e com espirito de solidariedade pelos que se veêm na contingência de enfrentá-la.

Como candidato a um posto de comando na estrutura de poder do Estado, minha posição precisa levar em conta a dimensão social e política do problema e o caráter da sociedade em que vivo – uma sociedade plural. Nesta condição, sou obrigado a cumprir a lei estabelecida e a contribuir, como minha opinião, para a formulação de uma lei que responda ao consenso ético da sociedade sobre o assunto.

Segundo as estatísticas centenas milhares de mulheres morrem ou sofrem danos físicos psicológicos graves em razão da ocorrência de um milhão e quatrocentos mil abortos clandestinos todos os anos. Trata-se, portanto, de um sério problema de saúde pública.

As medidas que o Estado brasileiro adotou para fazer frente a esse problema dividem hoje a sociedade: descriminalização e legalização constituem as reivindicações principais.

Apoio o movimento em favor da descriminalizaçào do aborto porque, evidentemente, a lei atual demonstrou ser, não apenas ineficaz, mas claramente perniciosa, uma vez que obriga as mulheres a recorrer a pessoas despreparadas e inescrupulosas para interromper uma gravidez indesejada.

Em uma sociedade pluralista, o Estado não tem o direito de impor uma convicção fundada na fé de uma parcela da sociedade a pessoas que têm convicção diferente. Nesse tipo de sociedade, a posição do governante em relação aos costumes das pessoas deve ser ditada pela consciência ética coletiva a respeito desses problemas. A consciência ética coletiva do povo brasileiro não mais considera, como outrora, que a prática do aborto seja uma conduta anti-ética a ser penalizada pelo Estado.

Mas essa mesma consciência coletiva não admite a banalização do aborto e, muito menos, sua exploração para fins comerciais. Pelo contrário, todos consideram o aborto um mal, o qual, contudo, em determinadas circunstâncias, não pode ser evitado. Por isso, o Estado deve empenhar-se em preveni-lo, o que requer, além da descriminalização, a legalização e consequente regulamentação da intervenção abortiva.

Legalizar quer dizer submeter uma determinada atividade ou conduta humana à disciplina da lei. No sistema jurídico brasileiro, o que não é proibido é permitido, e o que não é permitido dá origem, automaticamente, a uma sanção estatal.

A legalização do aborto não pode ser entendida como a simples exclusão da pratica abortiva do campo do direito, como se a vida do nascituro não fosse um bem protegido pelo Estado. Pelo contrário, exatamente porque o Estado tem o dever de proteger o nascituro, a legalização do aborto deve abranger a montagem de um complexo sistema de ações estatais, articuladas com ações de entidades da sociedade civil, a fim de combater a sua banalização e a sua exploração comercial.

Isto quer dizer que a lei deverá definir o aborto lícito e distingui-lo do aborto ilícito, bem como estabelecer o efeito da lei em um e outro caso.

A questão central que surge então diz respeito à autoridade à qual caberá a decisão de usar os procedimentos de interrupção da gravidez. Penso que essa autoridade deve ser a própria gestante. A ela e a mais ninguém cabe o direito e a responsabilidade dessa terrível decisão. Fundamento essa afirmação na certeza de que o instinto maternal defende com mais empenho o feto do que médico, juiz, sacerdote, conselheiro familiar, psicólogo ou quem quer que seja. Mas, para auxiliar a mulher nesse terrível e solitário passo é preciso revestir sua decisão de um procedimento legal adequado.

O que importa para o Estado é que a decisão da mulher seja tomada livre, consciente e responsavelmente nas fases iniciais da gestação. O aborto não pode ser fruto da frivolidade, da ignorância das suas graves consequências físicas e psicológicas, de um impulso momentâneo da mulher que descobre estar grávida, da pressão de terceiros, mas a conclusão amadurecida de uma reflexão profunda acerca das suas condições pessoais de ser mãe responsável e educar o ser que se desenvolve em seu ventre.

A legalização oferecerá à gestante os elementos indispensáveis para a sua reflexão e procurará comprovar o caráter livre da sua decisão. Por isso entendo que a legalização do aborto requer a montagem de um sistema integrado por três grandes estruturas: uma estrutura destinada à educação sexual da juventude e à vigilância dos costumes, a fim de combater a exploração comercial e delituosa do erotismo juvenil – uma das fontes da banalização do sexo e consequentemente do aumento do número de abortos; uma estrutura destinada a fiscalizar as intervenções abortivas, informando a gestante sobre as várias dimensões da sua decisão de interromper a gestação; e uma estrutura, devidamente financiada com verbas do Estado, para atender às gestantes pobres nos hospitais públicos e para amparar crianças cujas mães não têm condições de criá-las, porque, obviamente, a certeza de contar com um apoio eficaz para educar o filho estimulará a gestante a levar a termo a gravidez.

O elemento articulador dessas estruturas seria o Juizado da Família. Ao juiz de Família caberia autorizar uma unidade hospitalar e um médico a interromper a gravidez após a manifestação formal da vontade livre, informada e responsável da gestante em procedimento judicial específico.

Não cabe, contudo, ao juiz decidir pela gestante. Sua decisão é de natureza declaratória. Comprovado que a gestante teve à sua disposição os elementos requeridos para tomar responsavelmente sua decisão – a informação e o aconselhamento – ele autoriza a intervenção em tempo hábil. Sem a autorização judicial, o médico e o hospital que realizarem a intervenção sujeitar-se-ão às penas da lei.

O aconselhamento requer a entrevista da gestante com um conselheiro que a ela exporá o que significa interrupção da gravidez, sem contudo fazer inquirições ou admoestações que impliquem invasão à privacidade da mulher. Por isso mesmo, esse processo – de rito sumaríssimo, evidentemente – deverá ser realizado em segredo de justiça.

A exposição feita até aqui deixa ver que a interferência do governo na questão aborto diz respeito à montagem das duas estruturas integrantes do sistema de prevenção e de fornecimento de atenção médico hospitalar gratuita para realização de intervenções abortivas em mulheres pobres.

Evidentemente, enquanto o aborto não for descriminalizado, os hospitais públicos não poderão realizar a intervenção. Mas nada impede que as estruturas de educação sexual e de amparo à criança cuja mãe não pode criá-la, sejam desenvolvidas, como uma medida para atenuar o problema enquanto não se consegue uma solução definitiva na esfera federal.

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Bispo Edir Macedo e a questão do Aborto
http://www.youtube.com/watch?v=RZMKBtnPUuA

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Católicas pelo Direito de Decidir em Defesa da Vida
http://mariafro.com.br/wordpress/?p=19106

(em resposta ao texto “Apelo a todos os Brasileiros e Brasileiras” sobre como votar nas eleições 2010)

No final de agosto último, a Comissão em Defesa da Vida do Regional Sul 1, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, elaborou um texto com o propósito de orientar seus e suas fiéis sobre como votar bem nas próximas eleições.  A Presidência e a Comissão Representativa dos Bispos do Regional Sul 1 da CNBB, por sua vez, divulgaram nota em que afirmam acolher e recomendar a divulgação dessas orientações.

Católicas pelo Direito de Decidir, após tomar conhecimento do teor desses documentos, vem a público manifestar seu estranhamento e repúdio às afirmações falaciosas presentes no referido texto, o que de forma nenhuma condiz com o que esperamos de líderes religiosos que deveriam ser exemplo de ética e correção, especialmente ao assumir tarefa que não é própria do âmbito religioso, ou seja,  interferir nas eleições, dirigindo-se inclusive a não católicos/as.

Como católicas, estranhamos que Igreja católica no Brasil, que há 30 anos orientou cristãos e cristãs a participarem da política sem assumir posições partidárias, venha agora a público fazer uma campanha tão declaradamente contrária à candidata do atual governo, distorcendo informações e faltando com a verdade. Se não, vejamos:

1. Não é verdade que o projeto apresentado pela Comissão Tripartite em 2005 propunha a descriminalização do aborto até o nono mês de gravidez. Cópia fiel do  texto do projeto começa com a seguinte frase: “O Congresso Nacional decreta:  Art. 1º – É livre a interrupção da gravidez, até a décima segunda semana de gestação, nos termos desta lei.” No texto “Apelo a todos os Brasileiros e Brasileiras”, portanto, há uma evidente distorção dos fatos, haja vista que existe uma regulamentação explícita no Projeto de Lei 1135/91 (e que é  detalhada nos artigos seguintes) que não permitiria a interrupção de gravidez a qualquer momento da gestação. Para mais informações, veja em: Comissão de Seguridade Social e Família – Substituto da relatora ao projeto de lei n.1135, de 1991.

2. Não é verdade que o plano de governo do segundo e atual mandato do Presidente da República,  de setembro de 2006, reafirme o compromisso de legalizar o aborto. Reiterada e publicamente o presidente vem afirmando que o aborto é uma questão de saúde pública e deve ser discutido no Congresso Nacional.

3. Ao afirmar a suposta existência de um Imperialismo demográfico que está implantando o controle demográfico mundial como moderna estratégia do capitalismo internacional, o texto da comissão da CNBB utiliza um argumento antigo, falso e inconsistente, sobretudo em tempos em que esse controle significaria uma estratégia obsoleta e desnecessária, pois é sabido que há tempos o Brasil é um país cuja população envelhece mais do que cresce. Além disso, o que ganharia o capitalismo em produzir menos consumidores? E o que o texto ganha, em termos pastorais, ao insinuar uma espécie de  teoria da conspiração absolutamente fantasiosa?

4. Perguntamo-nos ainda por que os nossos eminentes Bispos silenciam princípios doutrinais católicos que legitimam o direito de uma mulher optar pelo aborto,  como o recurso à própria consciência e a escolha do mal menor? Seria por um autoritarismo misógino? Ou seria por “mero” abuso de poder?

Como católicas comprometidas com a defesa da vida e da dignidade das mulheres, repudiamos a irresponsabilidade de integrantes da hierarquia católica que vêm insistentemente a publico para condenar o aborto – reforçando o estigma e o sofrimento de milhares de pessoas -, mas silenciam em conivência com as múltiplas formas de violência que as mulheres sofrem cotidianamente no Brasil apenas por serem mulheres. Lembramos que casos como os assassinatos de Eliza Samúdio e Mércia Nakashima não são exceção, mas regra corrente em nosso país misógino e machista.

Como católicas comprometidas com a justiça social, lamentamos profundamente que a CNBB não faça notas públicas para orientar a população católica a  votar em candidatos reconhecidamente favoráveis às lutas sociais,  à erradicação da miséria e da violência e à implementação de políticas públicas no Brasil que resolvam a injusta distribuição de renda de nosso país.

A Igreja católica na qual fomos formadas foi, em tempos de ditadura militar, no Brasil a voz daqueles que não têm voz, mas hoje cala-se vergonhosamente frente aos problemas mais graves do país, insistindo apenas na condenação dos direitos humanos das mulheres e de pessoas homossexuais, bissexuais, de travestis e transexuais. É sabido, entretanto, que há inúmeros/as católicos/as que, à revelia das posições oficiais da CNBB, continuam dando sua vida em prol daqueles que sofrem discriminações de todo o tipo. Parte significativa de padres, freiras e leigos/as não expressam sua discordância da oficialidade católica, porque temem ser punidos com expulsão das pastorais e das dioceses, imposição do silêncio e até mesmo afastados do serviço sacerdotal. Para nós, no entanto, são essas as pessoas que mantém vivo o espírito do evangelho!

A oficialidade católica necessita ouvir essas vozes e trabalhar por uma igreja coerente com os valores cristãos, com menos escândalos sexuais e voltada para aqueles/as que mais sofrem. Não é tarefa da Igreja assumir posições partidárias no processo político eleitoral, muito menos atentar contra a laicidade do Estado.

Como Católicas pelo Direito de Decidir, somos favoráveis à democracia, não queremos que o Estado se deixe pressionar por interferências indevidas de setores religiosos fundamentalistas. Defendemos o respeito merecido por todo/a o cidadão/ã brasileiro/a na hora de votar.

Como Católicas pelo Direito de Decidir, queremos fazer pública uma das vozes dissonantes dos diversos movimentos católicos  que não concordam com o autoritarismo da hierarquia eclesiástica.  Manifestamos nossa imparcialidade no processo eleitoral, repudiando o uso político das religiões para alcançar votos, bem como o uso que a oficialidade católica vem fazendo da política para impor questões supostamente doutrinais.

CATÓLICAS PELO DIREITO DE DECIDIR
São Paulo, 10 de setembro de 2010

NOSSO LAR

Este corpo nada mais é do que uma veste. E pressinto que você leitor desta resenha ou espectador do novo fenômeno de público em cinema no Brasil, Nosso Lar, deva concordar com isto, mesmo não seguindo a doutrina espírita.

Tive uma preocupação ao assistir um filme tão esperado e tão comentado: como seria possível contar uma narrativa a princípio impregnada de conceitos tão únicos e não parecer doutrinário? Como transformar uma história tão linda e comovente em uma estória que pudesse refletir conceitos universais e ao mesmo tempo entreter?

Wagner de Assis e sua equipe em minha opinião conseguiram tal façanha! Sei que aqueles que se familiarizam com o Kardescismo e conceito de reencarnação possam inferir mais significados no filme em comparação com quem não os conheça. Porém, Nosso Lar consegue um perfeito equilíbrio entre o comprometimento de uma mensagem – com a clara subjetividade na escolha do enredo – e a recusa em subestimar o espectador.

Aliás, isso é algo que parte das pessoas, entre elas críticos especializados e espectadores, ainda teimam em fazer: achar que a grande massa que assisti a um filme é completamente ingênua, boba e influenciável. Já temos em praticamente em quase todo cantinho do mundo, uma cultura de espectadores, e isso vem se delineando desde o século 19. O fato de Nosso Lar valorizar a capacidade do espectador em  inferir significado em seu enredo sem didatismo a meu ver é que faz dele um sucesso imediato, aproximando-o de qualquer outro filme estrangeiro que toca em assunto parecido (vide Os Outros, Visões, Espíritos, Amor Além da Vida, O Orfanato, entre tantos outros).

Nem preciso comentar a qualidade técnica do filme, como: fotografia, figurino, cenários, edição de som. Já sabemos como espectadores experientes que isso há tempos é constante em filmes nacionais… Certo? Há ali uma lembrança dos desenhos de Gustav Doré sobre a Divina Comédia de Dante Alighieri nos ambientes onde esteve André Luiz (como houve em Amor Além da Vida, por exemplo)  E antes de vê-lo, esta também foi uma segunda preocupação minha: por ser um filme tão bem acabado tecnicamente e de co-produção com a 20 Century Fox do Brasil, poderia ele perder a identidade brasileira? Isso não aconteceu.

Nosso Lar é bem brasileiro e percebi este traço não na língua, nem no tema, mas sim na atuação dos atores: há já de nosso uma marcação e entonação típica de encenação em filmes nacionais. Atores em maioria de formação teatral, com linguagem corporal inconfundível, pontuação de fala e profundidade de olhares que é realmente comovente.

E fica para todos que o assistem nem tanto a certeza numa outra vida, ou em várias outras, mas simplesmente conceitos universais admirados por todas as pessoas que querem uma vida melhor, tais como: o trabalho que edifica, a boa convivência, a luta contra a hipocrisia, o cuidar de si mesmo, o respeito aos laços que se criam com seus relacionamentos, o amor e a compaixão e a preocupação com a comuna em que se vive. E o que fica tanto para incrédulos e crédulos que sim, este corpo é uma veste, que você deve tratar com respeito, mas o que fica são suas obras, ordinárias ou extraordinárias.

Se você conseguiu ver filmes estrangeiros que passaram conceitos que você não acredita, por que não fazê-lo com o filme nacional que acima de tudo é técnica e artisticamente excelente? E se acredita, prestigie sim o cinema nacional. Ah, e leve o pacote de lençinhos, acho que você vai precisar…

 

A morte da arte no rock.

 

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A globalização à medida que aproxima as coisas as fragmenta também. O Google deixou tudo à mão, ao passo de um clique. Nesse mar de gigas e teras byte, a arte se perdeu e deixou de ser ars, técnica em latim, para ser ctrl+C, ctrl+V. Isso mesmo. Copiar e colar, um mero mínimo esforço da sociedade do conforto. Os saudosistas do vinil sempre nos dizem sobre as vantagens sonoras do formato, mas também há outro dado sempre citado: a arte das capas. A riqueza das capas sempre foi um atrativo a mais, o design sempre atraiu como um canto de sereia muitos audiófilos a armadilhas sonoras. Porém é inegável que tanto as artes gráficas quanto a fotografia já nos proporcionaram capas incríveis, da genial e simples capa de Robert Mapplethorpe para o disco Horses de Patti Smith aos trabalhos de Pushead, Todd McFarlane e mais recentemente Stefan Glerum. Entretanto, essa questão traz consigo um paradoxo. Não adianta ter capricho nas capas e o disco ser ruim, o essencial não pode ser secundário nesse processo. Porém toleramos capas ruins, desde que sejamos recompensados pelo conteúdo do disco. O que acontece hoje é que tanto conteúdo quanto a arte das capas é ruim, e uma coisa ao invés de compensar a outra, morrem abraçadas. O mundo de hoje se banalizou. Essa fragmentação a que me referi se dá inclusive no processo de concepção de um disco. É uma espécie de consonância da arte para o rock. O poeta francês Charles Baudelaire disse que Delacroix “era o último dos antigos e o primeiro dos modernos”, isso quer dizer que esse artista, mesmo na modernidade do século XIX, carregava consigo a tradição formativa dos antigos, a dizer renascimento. Em linhas gerais, a formação de um artista – do renascimento até a primeira metade do século XIX – passava pelo conhecimento da arte antiga, da poesia, da literatura, da filosofia, da física, da química e do engrandecimento do espírito. Alguém só poderia ser chamado de artista caso possuísse uma série de atributos considerados essenciais para tal ofício. Um quadro de Delacroix, de Ingres, ou do mestre Jacques-Louis David, é uma verdadeira conversação entre diversas artes – onde sem o conhecimento destas o observador não consegue compreender a obra. Por um tempo, o rock se diferenciou de outras manifestações artísticas populares por promover em nível diferente da pintura, um diálogo entre diversas artes. Bandas de Krautrock trazendo ao rock as obras de Brecht, John Lennon ao compor emulava Lewis Carroll, Pink Floyd criando trilhas para Michelangelo Antonioni, sem contar Thomas Miller, líder do Television que adotou o pseudônimo Tom Verlaine por causa do poeta francês. Artes plásticas, cinema, literatura, teatro, sendo como mundos no mundo do rock, círculos concêntricos, sendo esse centro o próprio rock. Era o rock elevando o nível de seus ouvintes – seja nas referências literárias das letras ou quando estampava nas capas trabalhos de artistas novos ou consagrados. Hoje o que vemos são massificação e alienação. Sonoramente não se cria mais nada. Chacrinha já decretava em sua máxima: “nada se cria, tudo se copia”. A maioria das bandas de hoje não são originais. São cacos ajuntados aqui e ali, nos anos passados, em fórmulas conhecidas apenas maquiadas de modernidade. A arte das capas hoje enfrenta um momento crítico, não apenas pela ausência no formato mp3. Ninguém se dá ao trabalho de pensar, então para que dificultar (o ouvinte, parte desse processo) enchendo de arte um disco de rock. Veja pelas estatísticas, o mundo lê cada vez menos, e quando lê, lê coisas que em nada engrandecem seu espírito. O mundo de hoje é o do resumo, é um mundo compactado pela tecnologia, por isso a arte está morrendo como técnica, reduzida apenas a conceitos. As bandas de hoje se preocupam apenas com visual – parecer, não ser, e muito embora não se interessem pela arte das capas, pelo menos que nos compensassem com bons discos. Bons discos, a dizer apenas boa música. Não posso dizer que tudo bem, façam capas ruins, mas também não posso obrigá-los a isso, mas que pelo menos se esforçassem em criar boas canções, coisas originais e não se limitassem apenas a copiar e colar. Essa colagem que vejo nas capas não pode ser chamada de arte. Não há criação, há recortes de coisas que já existem, é para mim apenas agrupamento, junção de coisas que têm algum sentido em seus contextos originais, mas que fora deles perdem sentido. Voltando a questão dos saudosistas do vinil, estou de pleno acordo, e mesmo com o cd, é de fato um deleite completo, tanto o ouvir grandes canções como contemplar um belo encarte, não apenas informativo, mas também rico em imagens, em arte. Temo muito pelo o que há de vir ainda, pois como a junção arte-rock a muito se perdeu e o rock hoje é guiado pelo movimento new rave, cheio de cores vazias, sem conteúdo e sem criação, as coisas vindouras não nos dão esperança de que nossos espíritos voltem a ser plenos, como um dia já foram.

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Gays, lésbicas e trans no país do arco íris

Enquanto o mundo discutia a liberação do casamento entre homossexuais na Argentina, a Alemanha encerrava o seu primeiro Gay Games.

 

arco_irirsTanto alarde pelo mundo afora se homem com homem ou mulher com mulher podem se casar. Na Alemanha é realidade. Ninguém, tanto da velha quanto da nova geração questiona o fato. Nos dias anteriores à Parada Gay, que sempre acontece no verão, em Colônia, é comum ver uma miríade de casaizinhos de lésbicas e gays de todas as idades, desfilando na cidade de mãos dadas, ou mesmo casais de homens empurrando carrinho de bebê. Sem problemas.

 

É. A Alemanha é liberadésima neste assunto. As cores do arco íris estão por toda parte, a começar pelo nosso querido prefeito perfeito de Berlin, Klaus Wowereit e o nosso ministríssimo do exterior Guido Westewelle, o segundo homem da República que abriu a cerimônia do “Gay Games” em Colônia no mes passado, ah, não podemos nos esquecer do governador do Estado de Hamburgo, Ole von Beust da Democracia Cristã. Não! Aqui não tem fofoca, discriminação, comentários de baixo calão sobre a vida e a sexualidade desses políticos que assumiram em público a sua homossexualidade. Neste País, Alemanha as pessoas, principalmente as que têm cargo público, são vistas como pessoas e são avaliadas pelo seu desempenho político e não por sua orientação sexual.

 

Temos aqui apresentadores de TV, escritores, artistas e um tanto mais de “proeminentes” que assumiram em público seu lado gay  ou lésbico sem que fossem crucificados ou chamados de… “devassos”. Os assumidos somam-se a uma lista histórica, a começar pelo rei Ludwig II da Bavária que reinou de 1864 a 1886. Ele plantou a pedra inicial para a construção do castelo de Neuschwanstein, ah, um luxo esse castelo!

 

Eu sou o que não se pode ser

 

 Guido_Westerwelle__Michael_MronzPois cá, na recente história, as cores do arco-íris estão presentes em quase todos os partidos. Guido Westewelle nosso  vice, na foto à direita do seu companheiro Michael Mronz é do FDP, partido liberal, Wowereit do SPD, partido social democrata, assim como o mais jovem prefeito da Alemanha, Michael Adam  eleito na cidade de Bodenmais com 53% dos votos. Ele declarou: “Ich bin alles, was man in Bodenmais nicht sein darf – jung, evangelisch und offen schwul”, “Eu sou o que em Bodenmais não pode ser – jovem, evangélico e declaradamente gay”. Ele desbancou a Democracia Cristã em seu próprio curral eleitoral, a Bavária.

 

Até no NSDA, partido nazista, tinha gay, Ernst Röhm 1887- 1934, alto oficial e político, um dos primeiros filiados. Rölm foi parar na prisão e sem julgamento foi morto. Falava-se que Rölms fazia parte de um grupo constituído por homossexuais que conspirava contra o Hitler. Mais recentemente Michael Khünan membro do NPD, extremista de direita, faleceu em função de complicações causadas pelo vírus da AIDS.

 

As cores dos Verdes

 

É nos Verdes que a bandeira do arco-íris pode ser desfraldada em todas as suas cores.

Nos tempos em que os Verdes governaram com a Social Democracia de 1999 a 2005 a Alemanha se desenvolveu mais em direção a um país, digamos, da Comunidade Européia e o debate sobre igualdade de direitos dos gays e lésbicas foi colocada na ordem do dia.

Parlamentares como o deputado eleito para o Estado da Renânia do Norte,Volker Beck, é considerado aqui o “pai” da lei que permite a união de parceiros do mesmo sexo. Outro político, deputado em Berlim, Albert Ackert coordenou a iniciativa da construção do Monumento aos Homossexuais perseguidos pelo Regime Nazista em Berlim. Os Verdes, sim, sim têm muitas cores.

 

Bestialidade

 

Mas nem sempre foi assim. Nos tempos do regime nazista mais de 50 mil homossexuais foram presos e condenados aos campos de concentração ou mandados para os manicômios, condenados pelo famigerado parágrafo § 175 da Constituição de 1871, uma relíquia da legislação prussiana, que criminalizava a homossexualidade como… “bestialidade”. Os condenados enviados aos campos de concentração eram obrigados a usarem um triângulo cor de rosa que os identificavam como homossexuais. Aqui o trailer do documentário ““>Paragraph 175” em inglês.

No mesmo dia da promulgação do tal parágrafo §175, um grupo de intelectuais, cientistas sociais, dentre eles o jurista Eduard Oberg, fundaram o Comitê Humanitário Científico, a primeira organização na história da Alemanha a defender liberalização da homossexualidade. O objetivo do grupo era alterar a Constituição e retirar o parágrafo §175, o que aconteceu somente em março de 1994, ou seja, mais de 120 anos após ser promulgada.

 

O pesquisador Magnus Hirschfeld que trabalhava com o tema da sexualidade, em 1919 já teorizava que, biologicamente, havia um “terceiro sexo” e que a homossexualidade tinha que ser descriminalizada.

 

Na República de Weimar os sociais democratas tentaram retirar o tal parágrafo §175 da Constituição, mas perderam o debate para os conservadores e então veio o pior, a ascensão dos nazistas ao poder e com eles a perseguição massiva aos homossexuais. Nos campos de concentração em Buchenwald, horror, horror, os médicos da SS tentaram “curar” as vítimas, implantando glândulas artificiais que produziriam hormônio masculino.

 

Não, não, as coisas mudaram muito daqueles tempos prá cá. Talvez por tudo isso, por termos vivenciado uma história tão dramática é que aqui a mentalidade se transforma em tolerância. Cada um na sua e todos juntos na diversidade. Em alguns Estados com Berlim, Brandenburg, Thüringen, Sachsen-Anhalt existem leis específicas proibindo a discriminação em razão da identidade sexual e com sérias consequências jurídicas para aqueles de desrespeitarem o outro por sua orientação sexual!

 

Família do arco iris

 

Um estudo encomendado em 2006, pelo Ministério para a Família para a Universidade de Bamberg, e apresentado em julho de 2009, sobre crianças vivendo em “famílias” têm resultados bastante interessantes. Os temas abordados na pesquisa vão desde aspectos psicológicos, passando por conflitos familiares e discriminação. 93% das crianças pesquisadas moravam com parceiros homossexuais, mulheres ou homens. Na data da pesquisa viviam 2.200 crianças (dados oficiais 2007/8) em companhia dos seus pais homossexuais. A pesquisa foi baseada nos registros oficiais, mas calcula-se que o número seja maior, cerca 12.000 de crianças, vivendo em famílias cujos pais são homossexuais.

 

Bons pais?

 

Vamos ao que todos querem saber: As lésbicas e gays educam suas crianças de outra maneira? Eles são “bons pais”? As crianças criadas por eles são mais felizes? Há alguma tendência das crianças se tornarem depressivas? Nada disso. O estudo demonstrou que pais homossexuais são tão bons quanto outras formas de família e não há nada a se temer quanto à criação. Eles dão importância à relação familiar, dão carinho, impõe limites e evitam punições draconianas contra as crianças. Além do mais nas famílias cujos parceiros são homossexuais verificou-se que as crianças receberam atenção dos dois parceiros na mesma proporção para a realização das tarefas escolares, nos cuidados com a higiene. Os pais não são melhores nem piores, são iguais.

 

Uma volta e meia, volver!

 

Até o ano 2000 os portões para o oficialato militar estavam fechados para os homossexuais. As leis mudaram e agora ninguém mais os segura. Eles e elas agora podem ocupar postos altos da hierarquia. As leis de conduta interna também foram reformadas e rezam contra a discriminação: “Tolerância diante de pessoas de outra orientação sexual” e “Agir enérgica e ativamente contra qualquer tipo discriminação”. Hoje são permitidos, dentro e fora do serviço militar, relacionamentos homossexuais sem problemas. Nada mais causa “frisson” em ninguém. O beijo em uniforme ou em trajes civis, dentro ou fora das casernas está liberado.

E mais, eles estão organizados e têm nome e endereço na internet: “VelsPol”, isto é, União da polícia de lésbicas e homossexuais. A organização tem o apoio irrestrito da polícia de Berlin, claro, de onde mais, onde o nosso prefeito Wowi governa. Dentre outros temas tratados e escritos com todas as letras: “Tolerância e aceitação, dentro e fora da corporação” sendo tema para aconselhamentos, para seminários de prevenção ou discriminação contra homossexuais.

 

Show de Satã

 

Sem pensarmos que países africanos ou de maioria muçulmana onde os homossexuais são condenados à prisão ou mortos, como na Arábia, na Mauritânia, no Sudão, no Irã, no Iêmen, no Iraque de Sadam Hussein e no Afeganistão após subida, ao poder do Talibã. Desde a revolução Iraniana em 1979 mais de 4.000 pessoas foram condenadas e executadas por serem homossexuais. Na Arábia Saudita procurou-se “alternativas” para a pena de morte e os “condenados” podem comprar a sua liberdade com dinheiro, ou… tomar 100 chibatadas. Vá de retro!

 

Em outras nações muçulmanas como Bahrain, Katar, Argéria ou nas Maldívias, os homossexuais presos também podem se livrar das penas pagando uma soma em dinheiro. Na Turquia, Jordânia, Indonésia, Egito ou Mali ter relações homossexuais não é legalmente proibido, mas considerado “abuso contra a moral e os bons costumes”.

No Marrocos, Tunísia (alô Nelma!, nossa assídua leitora) ou Síria a homossexualidade é crime e em raros casos perseguidos, mas, mas… cuidado desavisados turistas surpreendidos em público dando beijo na boca. Carícias em público podem causar conflitos com a polícia local. Assim as agências de turismo para os gays avisam com antecedência aos casais para evitar problemas.

A Rússia não é muçulmana, mas lá os homossexuais não são bem vindos e as manifestações públicas dos homossexuais são duramente reprimidas com a brutalidade da já conhecida polícia russa. Em 2007 o prefeito de Moscou negou autorização para realização de uma parada gay, alegando tratar-se de um… “Show de Satã”.

 

Ah, então a Alemanha é o paraíso na terra em termos de tolerância. Graças, não a Deus, mas graças a todos nós, porque se fôssemos depender da Democracia Cristã e do nosso Papa Bento, ainda estaríamos lascando pedra, e nem teríamos o chegado ao estágio da “pedra polida”, digo, num outro estágio de conquistas sociais como o de hoje.

 

E se no serviço militar pensavámos que as regras seriam mais “rígidas”, e a coisa está liberada, não podemos dizer o mesmo com relação à Igreja Católica, essa instituição de muitos séculos. A discriminação começa quando somente os padres celebram missas. Sobre casamento entre homossexuais, vixe! O Papa Bento não quer nem ouvir falar. A Igreja Católica é estritamente contra.

 

E o sentimento de culpa bateu na Igreja Evangélica. Nos últimos anos ela se tornou ativa contra a perseguição dos homossexuais no Terceiro Reich. Antes tarde do que nunca.

 

Eu disse “pedra polida” acima, pois temos ainda algumas diferenças, quanto à união homossexual, nas questões legislativas na União Européia que precisam ser lapidadas. Por exemplo, não há na Holanda “casamento homossexual”. Lá existe simplesmente “casamento”, não se distinguindo se a união é entre pessoas do mesmo sexo ou não, diferente da Alemanha. Na Alemanha casamento entre homossexuais  realizado no estrangeiro não é imediatamente reconhecido pela legislação, diferentemente dos casamentos entre pessoas heterossexuais. Na Holanda desde 2001 casais homossexuais podem adotar filhos, já aqui a coisa complica.

 

Be part of it*

 

Então em Colônia foi encerrado o primeiro “Gay Games de VIII no verão de 2010. 10.000 atletas, procedentes de países de todo o mundo participaram, na santa paz, de 35 modalidades esportivas. A mensagem clara do “Gay Games”, além de “Faça parte!” foi outra importantíssima: Tolerância e aceitação.

 

Do oriente, uma das poucas participantes do Gay Games, procedente da China, que correu os 5.000 metros, Karen Liao, lésbica, trouxe três outras mensagens:

– Be Healthy! Permaneça saudável!

– Be proud of yourself! Seja orgulhoso de você mesmo!

– Be out to the world! Saia para o mundo!

 

E eu digo: Viva a diferença!

 

Fonte:

 

-Universität Banberg – Ergebnisse der ersten repräsentativen wissenschaltlichen Studie in Deutschland über Kinder in Regenbogenfamilien – Kinderstudie Staatinstitut für Frühpädagogik in München

– Lesben- und Schwulenverban in Deutschland

– Iskam und Homosexualität –  Alfred Hackensbeger

– Gedenken muss auch Konsequenzen haben (Rede von Günter Dworek)

– Gay Games Cologne 2010

 

 Foto: Wikimédia Commons