Deus, à imagem e semelhança do homem

Os estados teocráticos e a falsa moralidade religiosa invadindo  temas laicos, trazem à tona um tema que permeia a sociedade desde que o homem tentou entender a natureza. A chuva com seus trovões, a seca, a passagem do dia e da noite, os astros, a morte. Alguém deveria entender e tentar intermediar a relação do invisível com o concreto. E, claro, quem dispunha deste privilégio de entender-se com o que ninguém conseguia entender despertava o respeito e o temor dos demais.

Certamente o primeiro homem que deduziu que estes sinais da natureza eram manifestações divinas imaginou também formas de contentar a estes deuses para que os problemas causados pelos deuses não tivessem tanto impacto na materialidade. Agradando aos deuses imaginava-se possível reverter seus acessos de ira, responsáveis por tantos estragos de tempos em tempo.

 

Mas não era toda a coletividade que possuía esta condição, a de intermediar e comunicar-se com os seres divinos. Era necessário que o coletivo se resguardasse das ameaças, que providenciasse alimentação, havia ainda o cuidado com a estrutura que protegesse do clima e tempo.

 

A existência de um excedente de alimentos a partir da agricultura permite que a sociedade se divida em tarefas diferentes. As funções básicas das sociedades primitivas, produção, arrecadação  previam que deste excedente alimentasse o contingente destinado à segurança, e também os dirigentes destas comunidades. E claro que aquele que possuía o dom de agradar aos deuses geralmente interferiam no poder diretivo, por respeito ou medo, a acabavam decidindo os rumos de suas comunidades, respaldados pelos deuses que diziam representar.

 

Neste contexto as religiões e seus representantes tinham como principal função a obtenção de ganhos ou benefícios. A necessidade de entender a natureza e a própria natureza humana ficava em segundo plano. Os rituais, a destinação de locais próprios para cultos, a criação das artes adivinhatórias criavam a aura de mistério e respeito necessária para garantir que os sacerdotes fossem considerados semi-divindades.

 

Nesta situação a fusão entre decisões humanas e desejos divinos era providencial para os governantes. O temor aos deuses, estes obviamente criados a partir do modelo humano, com amores, paixões e ódios de formato humano, mas com poderes ilimitados facilitava que decisões terrenas fossem justificadas por desígnios divinos. Homens podem ser contrariados, deuses jamais. E desta forma, desde as primeiras sociedades a religião permeia o poder terreno, chegando mesmo a eleger como deuses alguns de seus governantes, tornando-os deus na terra, portanto com poderes ilimitados.

 

Quanto a população, restava-lhe sustentar com seu trabalho governantes e sacerdotes, seguir suas regras opressoras e temer a ira de suas  vingativas e cruéis  divindades temendo, além de todo o tormento terreno os tormentos de outra vida além da morte.

 

 

O número pi

Um dia destes lendo a revista “Pesquisa” da Fapesp, de outubro de 2010, deparei com uma notícia de título “O novo valor do número pi”. Dizia o comunicado: “Tzo–Wo Sze, um cientista da computação da Yahoo nos Estados Unidos, criou um programa de computador e instalou-o em mil máquinas da empresa e depois de 23 dias obteve o dobro de dígitos que se conhecia até agora para o número pi. Definido como o resultado da divisão do comprimento da circunferência por seu diâmetro, pi é um número irracional que começa com 3,14 e segue por infinitos dígitos. O pesquisador chegou a uma notação binária, com dois quatrilhões de dígitos ou bits, o dobro do recorde anterior. Em formação decimal (3,14…) o valor anterior tinha 2,7 trilhões de dígitos. Documentos antigos indicam que a busca por aumentar a precisão do valor de pi começou 1700 anos antes de Cristo”. Classificar de pesquisa a busca de um novo valor para o número pi é uma afirmação sem sentido. Seria como procurar montar um programa de computador para se obter o recorde do maior valor do conjunto dos números naturais. Tanto neste caso como no anterior são conjuntos infinitos de dígitos e a obtenção de valores cada vez maiores nada acrescenta. Por serem conjuntos infinitos, os valores seqüenciais mantêm sempre a mesma posição em relação ao infinito dos conjuntos. Estão sempre infinitamente distantes do máximo valor possível. Ou melhor não existe, em ambos os conjuntos, o maior valor dos seus elementos. Considerar que os novos valores aumentam a precisão do número pi é outro absurdo. Na prática não se exige uma precisão dessa ordem. Dar a pi o valor de 3,1416 é suficiente. O arredondamento para cima do último algarismo não prejudica os resultados das aplicações. Mas a busca de novos valores na notícia da Pesquisa tem antecedentes. Em 1615 em publicação póstuma, Ludolph van Ceuler, (1540-1610), matemático holandês, apresentou o número pi com 36 dígitos. O primeiro cálculo com computador ocorreu em 1955 obtendo 10.000 decimais. Em 1961, 100.000 decimais; 1966, 500.000; 1967, 1.000.000; 1992, 2.180.000. Mas pondo de lado as buscas frenéticas por novos valores, desperdício de tempo e dinheiro, o número pi sempre foi um número intrigante. Não é só um número irracional, é também um número transcendente. Quer dizer, pi não é raiz de nenhuma equação algébrica, o que por si já o torna especial. Resultado de uma simples divisão do  comprimento da circunferência do círculo pelo seu diâmetro, apresenta um valor que é um número infinito. Na Grécia da Antiguidade Clássica, cerca de 300 anos a. C., os Pitagóricos já tinham sido surpreendidos com um resultado semelhante. Se na forma geométrica de um quadrado traçarmos um das suas diagonais, o quadrado fica dividido em dois triângulos retângulos iguais. Nada mais simples e perfeito. Pois bem, aplicando o teorema de Pitágoras ao triângulo assim obtido, a relação entre os comprimentos da diagonal e do lado dá, (na notação atual), a raiz quadrada de 2. Euclides provou de forma irrefutável que se tratava de um número infinito 1,414213562 … (no sistema decimal atual). Como era possível que numa mesma figura geométrica, o segmento maior não pudesse ser medido pelo segmento menor um número inteiro de vezes? A famosa frase dos Pitagóricos “Tudo são números” não era verdadeira, visto que o número infinito era algo que eles não sabiam interpretar. Esta impossibilidade também decorre da forma circular. Vejamos como. Um círculo é o lugar geométrico dos pontos do plano equidistantes de um ponto fixo chamado centro. Imaginemos um círculo com o seu diamêtro, horizontal por exemplo. Como dissemos acima o número pi é a relação entre os comprimentos da circunferência e do diâmetro. Agora se ligarmos por segmentos de reta qualquer ponto da circunferência aos extremos do diâmetro, obtemos um triângulo retângulo, com o ângulo reto  no vértice do ponto escolhido da circunferência. O teorema de Pitagoras diz que a soma dos quadrados dos catetos é igual ao quadrado da hipotenusa. Catetos são os lados adjacentes ao ângulo reto e hipotenusa é o lado oposto ao ângulo reto, neste caso o referido diâmetro. Se o ponto escolhido da circunferência for o mais afastado do diâmetro, então os catetos são dois lados do mesmo comprimento. Se dermos a esses lados o valor unitário a hipotenusa ou seja o diâmetro é a raiz quadrada de 2, o citado número infinito encontrado pelos Pitagóricos. Assim sendo o diâmetro tanto pode pertencer a um caso como ao outro, mostrando que ambos fazem parte das propriedades da forma circular.

Fico por aqui. Até à próxima.
 

É MUITA HIPOCRISIA NUM CORPO SÓ…

É ao apagar das luzes que mostramos quem somos. Tipo essa coisa meio atávica de proteção, que a escuridão nos trazia nos tempos das cavernas e que ainda hoje parece subsistir em nós. Vá lá que “nas quatro paredes” isso seja válido. Afinal, se existe um lugar em que a hipocrisia manda a mil é fora das quatro paredes. Mas dentro delas…

Mas tem gente que esquece disso. Tem gente que pensa que internet é o seu quarto. E acaba por confessar o inconfessável. Esquece que internet não tem paredes. Esquece que o que é dito por aqui é dito para a “eternidade”.

E não é que o “justiceiro da democracia” esqueceu disso? Fora um guri até seria perdoável, mas partindo de alguém com a experiência do senhor Plínio? Só dá para entender de uma maneira: É MUITA HIPOCRISIA NUM CORPO SÓ!

Olhem o “instantâneo” (há pouco, 18:18h):

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Passada a oportunidade de se eleger (ainda bem que não conseguiu!) o senhor Plínio mostra a cara da verdadeira hipocrisia que impera entre nós: “anulo meu voto amanhã”!

Mas não era do voto que ele dependia e pelo qual tanto lutou? Não era voto que ele pedia até pouco tempo?

Essa é a verdadeira face da hipocrisia! Essa é a nossa face! Alguém duvida? Claro que quem foi para a praia não duvida…

O que há de real no meu estilo de vida?

Do aparentemente óbvio também pode surgir algo complexo e instigador: o que é a minha realidade?

Quando olho para além de mim, estendendo os olhos para a distância que se apresenta, como eu definiria o que é real? A minha realidade também não é a realidade do outro, compartilhada? É aquilo que toco? Quando fecho os olhos, a tal realidade deixa de ser real e então o interior (real?) se apropria do que em mim é consciente e começa a existir? Aquilo que não vejo pode ser real?
Quando me ofereço a alguma reflexão sobre a realidade, lembro de algumas aulas sobre fenomenologia, nas quais meu destaque sempre foi questionável. Husserl (1960) pensou a Fenomenologia como um “caminho” para se chegar ao conhecimento das essências; a redução fenomenológica seria, portanto, o modo para se retornar “à própria consciência: E a consciência se mostra consciência de objetos constituídos no próprio ato cognoscente.” (Galeffi, 2000). Seguindo tal perspectiva, seria importante testar as experiências fenomenológicas, por assim dizer. E então veio Aaron Beck e sua Terapia Cognitiva, propondo uma teoria cujo raciocínio teórico subjacente é o de que “o afeto e o comportamento de um indivíduo são amplamente determinados pelo modo como ele estrutura o mundo (cognições/pensamentos)”.  Então, a Terapia Cognitiva não deixa de ser fenomenológica, já que pretende também “descrever e analisar as categorias de experiências”.
  
Um BlaBlaBlá-Teórico-Filosófico nem tão BlaBlaBlá assim, e sempre válido, importantíssimo, que você deveria, sim, estudar, ou apenas ler, para entender melhor a sua… vida? Mas não aqui, lugar da minha realidade.
 
O que Beck pretendia, provavelmente: que em determinado momento da vida (ou da terapia) o sujeito entendesse que pensar a realidade é reconhecer que está lidando diariamente com a incerteza, com o que existe mundo afora (ou por dentro), mas que não conheço completa e absolutamente. (Leahy, 2006)
 
Pensar inferencialmente significa testar a realidade, buscar evidências que confirmem ou desconfirmem a veracidade dos meus pensamentos. Nesse ponto, reside um questionamento que nos ajuda a analisar a realidade; ao tentar apropriar-se de uma parte dela, quando buscamos probabilidades existenciais, ainda assim nos aproximamos da incompletude, da indeterminação do que nos cerca, daquilo que experimentamos cotidianamente, ou aquela vivência que vem se repetindo há anos, como se não tivéssemos escolha: Será que os piores desastres realmente acontecerão se eu não tiver certeza absoluta do que ocorrerá?
 
Leahy(2006), presidente da Associação Inter-nacional de Psicoterapia Cognitiva e da Academia de Terapia Cognitiva dos Estados Unidos, professor da Cornell University e editor associado do International Journal of Cognitive Therapy, ao abordar a TC e sua “comunicação” com a fenomenologia explora sobre o pensamento inferencial e como é apenas e nada mais que probabilístico. Assim, a realidade, na qual existo e permaneço, e, ao mesmo tempo, esta que me serve diariamente de amargas insatisfações e desconforto, é uma possibilidade. Checar diariamente as portas, o interior do carro, as entradas e saídas de casa, abrir o portão e analisar nervosamente a rua extensa com suas esquinas misteriosas e de luzes cansadas, é apenas um cuidado, precaução, mas não me dá garantias de que adiante, na outra esquina mais desconhecida ainda, aquela que não reconheço, que não integra a minha realidade, não encontrarei o que mais temo. Fugir dos homens e mulheres que me procuram assegura uma realidade atual de que estar sozinho me distancia da dor, então pensar “Ficarei sozinho pelo resto da vida” certifica, inconscientemente, um ciclo cheio de vícios corruptos quanto a oportunidades e evitações; como se o pensamento fosse em absoluto uma nova realidade alterada pelas doses do que tememos e imaginamos.
 
Claro que eu posso sofrer no meu próximo relacionamento; que, eventualmente, criarei expectativas, em algum lugar do meu percurso em busca de relacionamentos saudáveis, a respeito de alguém que acredite e se sustente em crenças sobre a vida a dois de modo parecido com meu, mas não tenho garantias alguma. Se o céu está carregado, cúmulos nimbus pintadas de um negro assustador, e a meteorologia aparentemente infalível e bem vestida do Jornal Nacinal assegurou pancadas de chuva, ainda assim a realidade continua uma probabilidade. Ou você nunca saiu de casa besuntado de protetor solar e gotas pesadas de chuva vieram lhe propiciar um banho surpresa? 
 
Quando você pensa, sábado à noite, nos momentos em que sua programação de TV é modorrenta, ou quando o MSN já não é mais cheio de frases de efeito amigáveis, que “Serei eternamente sozinho”, essa é a única realidade disponível? Pensar que vai chover significa, na realidade, que a chuva se precipitará? Ou pior: que está realmente chovendo por que existe alguém querendo foder você? Ou: Por que o universo está acontecendo apenas para sacanear você? Você pensa “Eu sou um ornitorrinco”, aí magicamente você transforma-se em um? Você dispõe de todos os fatos possíveis que comprovem que será sempre só? Então o futuro já se tornou sua outra realidade? Não há nenhum fator que poderá interferir nos resultados de outros eventos em sua vida, e a partir disso o que você poderia fazer para preparar-se para o pior dia? Capa de chuva? Amigos? Ligações? Entender como nascem os filhos dos ornitorrincos?
 
Desejar controle absoluto do amanhã não confere garantias de que tudo ocorrerá bem amanhã. O que não quer dizer que o pior sempre ocorrerá. Mas vai que a previsão do tempo está errada?
 
De Husserl e Beck a Stephen King, a realidade mantém-se firme, mas questionável. E mais ainda o que pensamos sobre ela. King, um escritor reconhecido, em mais de quarenta países, por seus livros de horror e ficção, enche suas linhas bem cuidadas de terror e momentos assustadores; independente dos tons sobrenaturais que algumas de suas obras adquiram (que poderia, sim, ser lidas como metáforas potentes). Como em “Carrie, a estranha”, seu romance de estreia. 
 
Carrieta White, uma tímida adolescente que mora em Chamberlain, no Maine, vive num ambiente familiar (materno) carregado de opressão e agressões que partem de uma mãe obcecada por religião e purificação. Não bastasse a fé da mãe na salvação e sua perseguição ao mal e ao pecado, Carrie é submetida constantemente a uma realidade ameaçadora: parte dos colegas, meninos e meninas, iniciativas grotescas, atos que submetem a moça ao ridículo. Uma das personagens, Stella Horan, ao relatar sobre seu contato com Carrie quando criança, narrando um episódio em que centenas de pedras caem do céu atingindo apenas a casa dos White, fala sobre como foi chocante (impressão minha) presenciar aquele evento (os berros de Carrie e a histeria alucinada da mãe, como possuídas por uma fé doentia): “Eu estava com vontade de chorar, mas aquilo era real demais para fazer a gente chorar, não era como num filme.” 
 
Olhar para a realidade e, às vezes, entender (ou apenas ter a sensação) de que aquilo é real, pode ser duro e sufocante. Você olha, fixo, vidrado, nem se move, e cada célula do corpo se torna consciente de que parte daquela realidade está diante de você precisando acontecer. Meu namoro chegou ao fim? E se eu aceitar esta realidade, como minha vida poderá melhorar? O protesto contra aquilo que você não tem controle ou não conhece ou não tem certeza significa o que para você? É realmente o pior que poderia acontecer?
Stella, talvez, não conseguisse mudar aquela realidade, a realidade de Carrie (como saber? É apenas um livro!), pois não era sua.
 
Carrie estava entregue à personalidade tensa da mãe, cheia de rejeição e um tumor de vingança crescendo dentro de si (que mais tarde teria, nas mãos do autor, o desfecho paranormal e sangrento que lemos ou assistimos no filmaço de Brian de Palma em 1976). Mas Carrie não vivia outra realidade que não fosse a sua, porque não houve mudança. Stella seguiu a sua vida, e perdeu de vista aquilo que era provável na vida de Carrie, o desconforto. No mundo real,porém, preenchemos os detalhes não satisfeitos, os fins desgostosos, as falhas, as tristezas, com nossos pensamentos, lembramos de realidades passadas.
 
Quando consigo enxergar diferentes perspectivas, olhar para outra direção, elaborar, mesmo que timidamente, planos de enfrentamento caso o pior (que não sei se ocorrerá), entendo que conhecer, como nos disse Leahy, é mais “uma afirmação de probabilidades do que de certezas”, e então começo a me aproximar do real. 
 
O real é também o que eu não conheço. Viver o real é aceitar que o amanhã existe apenas enquanto possibilidade; e então eu me organizo, esperançoso de algo bom, e preparado, quase certo, que meus pensamento são apenas ideias, e ideias não necessitam ser vividas como futuro, realidade, como algo eterno e imutável. (Leahy, 2007)
 
A minha realidade (a nossa) é permeada de significados.
 
Significados são construtos nossos.
 
Portanto, mutáveis.
 
E nossas mudanças precisam também do outro.
 
Eu sou a minha realidade em contato com o mundo que não conheço totalmente, cheio de outras realidades que poderei conhecer, estejam/sejam elas: Stephen King, Husserl, Beck, amigos, familiares,meu trabalho, conflitos, abandonos, etc.
 
É impossível, assim, apropriar-se de todos os aspectos da realidade, seja a concreta ou a sentida. O máximo que talvez se consiga seja a palavra; e palavra é apenas aproximação.
 
Nós, como a realidade, somos “sistemas abertos”. 
 
E vivos.

Música claustrofóbica – mente, sobrevivência e os limites humanos.

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Quantas vezes você já hesitou entrar em elevadores de prédios antigos do centro de São Paulo? Aqueles em que o ascensorista é velho e encurvado pela idade, a cancela de metal enferrujada e o assoalho de madeira mofada parece que irá de desfazer a qualquer momento. O medo de ficar preso num elevador é apontado por muitas pessoas como um de seus principais medos urbanos – a violência não conta aqui. Outros dizem ter pavor das paradas do metrô em túneis. Essa limitação espacial, com paredes negras por todos os lados traz incômodo, falta de ar, agonia, entre outras sensações – mesmo que por apenas alguns minutos. Agora imagine tudo isso elevado a potências altíssimas – justamente numa situação extrema, “você preso por mais dois meses em uma mina de cobre”? O caso dos mineiros do Chile ganhou o mundo pelas várias lições que podemos tirar desse fato marcante. A luta pela sobrevivência, diz muito sobre a vida em si, e sobre os limites do ser humano em suas dimensões físicas e psíquicas. O trabalho em si de um minerador já é difícil – pois requer cuidado constante com a segurança e conhecimento técnico das condições do local, já que lidar com a natureza é sempre com margem mínima de previsibilidade. 700 metros de profundidade – parece até coisa de livro de Júlio Verne, essa é a distância da superfície até a mina, onde as condições de sobrevivência são totalmente adversas – o que é diferente da permanência por um turno normal de trabalho – ver livro “A vida no limite” de Frances Ashcroft. O que mais me chamou atenção foi o impacto psicológico inicial sofrido pelos mineiros. Pois, uma coisa é a mente após ter o contato com mundo exterior e saber que aqui em cima, estão providenciando o seu resgate. Outra é a total condição de isolamento do mundo. Olhar para os lados e só enxergar rochas, goteiras e ouvir o eco da própria voz e da dos companheiros. Trinta e três vozes gritando e apenas sessenta e seis ouvidos ouvindo. Segundo os médicos, muitos mineiros já começavam a apresentar quadros depressivos. Como diz o ditado, “cabeça vazia, oficina do Diabo” – com certeza passou diversas vezes na mente a ideia de nunca mais ver a família, o dia, o sol, ter uma vida normal, ou simplesmente de não “sobreviver”. Acredito que se tivessem continuado incomunicáveis – na superfície as autoridades chilenas sabiam do soterramento (já que os trabalhadores não voltaram), mas eles (os trabalhadores) não sabiam que aqui em cima já sabiam – não sobreviveriam por muito tempo e suas condições mentais se alterariam. Sob condições de ausência de luz natural, água, comida, medicamentos, pressão diferente, acústica – e levando em consideração as condições de saúde de alguns, fatalmente não sobreviveriam por muito tempo, mesmo com toda bravura que demonstraram. Foram 69 dias confinados na mina. 

 

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Levando em consideração nosso lado mais “humano” e “darwinista”, imagino que se o isolamento (ausência total de contato) tivesse permanecido por todo esse tempo, os mineiros chegariam à loucura. Grupos poderiam se formar e conflitos acontecer – os mais fortes e mais aptos iriam querer se sobrepor aos mais fracos, e eles não iriam mais se reconhecer como iguais. O comportamento colaborativo exibido pelos mineiros (exemplarmente), se deu pela notícia de que todos iriam ser resgatados – caso contrário – na impossibilidade do salvamento de todos, todos iriam se digladiar e poucos ficariam com os já poucos recursos. Situação semelhante ocorreu no estudo chamado “Stanford prison experiment” – onde o professor de psicologia Philip Zimbardo, confinou 24 estudantes no porão da universidade por cerca de mais de um mês. O experimento dividia os alunos em dois grupos – o dos prisioneiros e o dos carcereiros. Isolados de tudo e sob forte pressão (após dias ali), os carcereiros passaram a exibir traços de sadismo, obrigando os prisioneiros a fazerem suas vontades mais insanas e tarefas desumanas – anos depois o experimento foi lembrado após os casos das prisões de Guantánamo e Abu Ghraib. As condições ambientais dizem muito sobre o comportamento das pessoas – diz uma das conclusões do estudo. O medo, a angústia, a desconfiança, o instinto primal de sobrevivência, são alteradores da conduta humana – não sabemos ao certo como as pessoas (e nós mesmos) agem sob essas condições.

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As primeiras experiências com música ambiente datam do final dos anos 70 com Brian Eno – embora a música erudita já tenha recriado temas ambientais em muitas composições – de Igor Stravinsky a Erik Satie. A música ambiente – segundo Brian Eno, é um tipo de música que se incorpora a atmosfera de um lugar, se imbricando de tal maneira, que ela passa a fazer parte dele. A série Solitudes também explora essa temática. Um disco emblemático dessa série é “Solitudes – Enviromental Sound Experiences (A Caribean Adventure In Sound)” – música que recria a experiência numa ilha deserta. Porém música que recrie ambientes fechados, cavernas, minas ou túneis eu nunca vi. Vasculhando os arquivos musicais, o disco que mais se aproxima de uma experiência claustrofóbica é “Amenaza Al Mundo” da banda americana Fantômas (Ipecac, 1999). Um disco de música de vanguarda (avantgarde), onde não há canções, sim ruídos, urros, sussurros, demência, loucura e experimentações variadas. Embora o disco seja composto para ser uma trilha sonora de desenho animado – os temas se identificam com sensações de isolamento e loucura – principalmente nas ambientações com silêncios, com temas calmos, sugerindo solidão, desespero, e nos momentos pesados – sugerindo dor, ameaça, e outras sensações e estados. Os sons produzidos pela banda – distribuídos em mono e estéreo, fazem um jogo interessante com nossa audição. Aguçam os sentidos, muitas vezes nos deixando a espreita de um ataque, em outras traz a condição de total isolamento, com pequenos efeitos e ecos e reverbes distantes, cacos de ruídos, além de recriações de estados mentais de paranóia e pulsações agressivas. O disco é belamente estranho e fascinante – e é também um experiência incrível pela psique humana, pelo delírio, pela solidão e por todos os seus efeitos. O caso dos mineiros da mina San José – nos ensina o valor da vida e de como somos apegados a ela. A toda nossa vida de conforto, aos bens materiais e de como ninguém quer deixar isso. O caso também traz (principalmente após o contato com o mundo), todo senso colaborativo, e de como o homem pode cooperar quando está em risco sua própria sobrevivência. Mas também há o lado belo de tudo isso – o reencontro com a família, as reações dos mineiros ao chegar na superfície, o equilíbrio mental e físico conseguido no confinamento e organização do grupo durante o período. Esse caso será lembrando eternamente como um exemplo de sobrevivência, mas também após isso, conhecemos um pouco mais o ser humano como um todo (e a nós mesmos).

 

 

 

Que país é esse?

O último número da revista História Viva (n.85), apresenta o dossiê “O Milagre de 1822”, escrito por Laurentino Gomes, autor do também recém lançado “1822”. 

Na reportagem, Laurentino faz referência de que em 1822 apenas 1 em cada 10 brasileiros sabiam ler e escrever; um em cada três brasileiros eram escravos e que éramos dominados por uma elite “constituída por traficantes de escravos, fazendeiros, senhores de engenho, pecuaristas, charqueadores, comerciantes, padres e advogados” (p.28).

Cento e oitenta e oito anos passados, a pesquisa realizada pelo Instituto Paulo Montenegro (aqui) nos mostra que o quadro não mudou: 47% da população brasileira mal possui a “capacidade de localizar informações em textos um pouco extensos, podendo realizar pequenas inferências.”; 21% mal consegue “localizar informações explícitas em textos curtos, um anúncio ou pequena carta.” E 7% ainda são considerados totalmente analfabetos.

Nos diz a página do IPM:

“Os resultados de 2009 revelam importantes avanços no alfabetismo funcional dos brasileiros entre 15 e 64 anos: uma redução na proporção dos chamados “analfabetos absolutos” de 9% para 7% entre 2007 e 2009, acompanhada por uma queda ainda mais expressiva, de seis pontos percentuais no nível rudimentar amplia consideravelmente a proporção de brasileiros adultos classificados como funcionalmente alfabetizados. O nível básico continua apresentando um contínuo crescimento, passando de 34% em 2001-2002 para 47% em 2009.

Já o nível pleno de alfabetismo não mostra crescimento, oscilando dentro da margem de erro da pesquisa e mantendo-se em, aproximadamente, um quarto do total de brasileiros, conforme a tabela abaixo:

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De acordo com o Inaf, “chama a atenção o fato de 54% dos brasileiros que estudaram até a 4ª série atingirem, no máximo, o grau rudimentar de alfabetismo. Mais grave ainda é o fato de que 10% destes podem ser considerados analfabetos absolutos, apesar de terem cursado de um a quatro anos do ensino fundamental.

“Dentre os que cursam ou cursaram da 5ª a 8ª série, apenas 15% podem ser considerados plenamente alfabetizados. Além disso, 24% dos que completaram entre 5ª e 8ª séries do ensino fundamental ainda permanecem no nível rudimentar. Dos que cursaram alguma série ou completaram o ensino médio, apenas 38% atingem o nível pleno de alfabetismo (que seria esperado para 100% deste grupo).

“Somente entre os que chegaram ao ensino superior é que prevalecem (68%) os indivíduos com pleno domínio das habilidades de leitura/escrita e das habilidades matemáticas”.

Interessante notar que mesmo entre os considerados plenamente alfabetizados, apenas 68% possui pleno domínio das habilidades de leitura/escrita e das habilidades matemáticas.

Tudo isso, dito sem hipocrisia, significa: não melhoramos em absolutamente nada no que diz respeito à educação nesse país. Educar deveria pressupor dar às pessoas condições de pleno entendimento do que lhes ocorre, isto é, dar-lhes capacidade de analisar e tomar as melhores decisões para si e para a sociedade. Esse nível da educação brasileira reflete-se, por óbvio, no país que somos.

Vendem-nos a hipocrisia de que estamos melhores; mostram-nos indicadores que apenas dizem de um aumento no número de pessoas que sabem assinar o nome. O próprio IPM reconhece que “o nível pleno de alfabetismo não mostra crescimento, oscilando dentro da margem de erro da pesquisa e mantendo-se em, aproximadamente, um quarto do total de brasileiros”.

Sem hipocrisia: no que está virada a educação no Brasil? Em agressões de alunos contra professores; de professores contra alunos; bullying; falta de infra estrutura e materiais nas escolas; professores que mal e mal repetem em sala de aula o conteúdo de livros; professores com remuneração que fere a dignidade humana.

E uma das piores hipocrisias que cometemos: sistematicamente as escolas-empresas, e o próprio governo, que se recusam a fazer a inclusão de alunos portadores de necessidades especiais.

Quase duzentos anos passados e a única coisa que fizemos foi trocar as moscas… Se bem que nem todas…

Que país é esse?
 

Novos novatos

___Existem forças no mundo que os seres humanos comuns não conseguem controlar. Claro que este editor não vai enveredar para uma corrente crente bem agora, estou falando de forças mais simples como a gravidade, a duração do dia e a reeleição do PSDB para o governo estadual de São Paulo. A força que este Editorial, no momento, não está conseguindo controlar é o tsunami de novidades que o Ops! tem apresentado. Resultado: sem alternativas, tal qual o André Egg na semana passada, tenho de me dedicar à grata tarefa de anunciar os novatos da casa.
___Para começar, os blogs. Os novatos, na verdade, são dois veteranos. A primeira, uma ex-Verbeat, que bloga no Le Bazar desde 2004, a Larissa Bueno. Em segundo, o mais distinto editor que este portal já abrigou finalmente decidiu inaugurar um blog no Ops!: Rafael Reinehr agora é o autor do Mutatis Mutandis.
___Além do par de blogueiros, estrearam cinco colunistas para o portal. Laio Bispo, com a coluna Espaço Transfigurado; Juliano Moreira, com Zeigeist Debate; Diângeli Soares, Página 11; Raimundo Neto, Fragmentos da vida cotidiana; e, estreando hoje, Newton Lobo, colunista da Quiáltera.
___Tal qual a tarefa de relatar tantas novidades me obrigou a manter o assunto “recém chegados”, aconselho aos leitores que não se prendam ao meu texto e formulem suas próprias opiniões sobre os novatos conhecendo o trabalho de cada um. Divirtam-se.

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P.S.: Aproveitando para terminar com uma novidade antiga, se quiserem participar do OPS! Debate, o tema desta semana é “Como você avalia o processo eleitoral no Brasil em 2010?”.

 
 

A diferença entre comer e respirar

Não há sombra de dúvidas que satisfazemos nossas necessidades físicas com objetos físicos. Sim? Não? Caso “não” seja sua resposta, pense no seguinte: como se mata a fome? Com comida, certo? Comida é um amontoado de moléculas organizadas de forma que, se ingeridas pelo sistema digestivo, alimentam você com alguns nutrientes necessários para manter seu extinto de existência.

Depois deste pequeno parágrafo, você possa estar se perguntando porque ler os textos dessa coluna, mais um “lero lero” do Juliano sobre o que é óbvio. Mas, será tão óbvio assim mesmo?

 

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  Às vezes o óbvio pode se tornar a armadilha para a loucura.

 

Esta questão é a ordem de sua vida. Perceba isso. O que você faz durante o dia todo? Trabalha? Imagino que você obtenha alguma renda financeira desse trabalho. E o que fazer com esse dinheiro? Você compra comida, transporte, moradia, lazer, etc. Você gasta sua grana com coisas que satisfaçam suas necessidades.

Poderíamos entrar num longo papo sobre a futilidade de diversos produtos oferecidos no mercado que não preenchem nenhuma necessidade de fato, e sim, um desejo de, por exemplo, se sentir parte de um grupo distinto (leia-se qualquer marca que coloca o status acima da utilidade). No entanto, não há espaço pra isso neste texto. Deixamos isso pra uma outra hora. 

Vamos voltar pra nossa questão. Estávamos falando que você trabalha para ganhar dinheiro. Com este, você troca por recursos que satisfazem suas necessidades. Se você não trabalha, imagino que esteja estudando. E o propósito final do estudo? Conseguir um trabalho! Pois bem, acho que está claro o caminho “necessidade -> trabalho -> renda -> acesso-> recurso”. Está claro que gastamos quase todas as 24 horas disponíveis por dia em volta de satisfazer necessidades?

 

 

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Continue acompanhando essa coluna nos próximos tempos e vou mostrar que é seu dever reclamar. Seja qual for o trabalho.

 

Antes de continuarmos, deixe-me explicar rapidinho o que quero dizer com cada termo deste caminho. “Necessidade”. Auto-explicativo. É aquilo que precisamos. “Trabalho”, é aplicação da habilidade a serviço de terceiros no mercado de trabalho. “Renda” é a pagamento financeiro recebido em troca pelo trabalho. “Acesso” é a disponibilidade para se chegar até o recurso preciso. Bom, “recurso” então, como acabei de escrever, é aquilo que satisfaz necessidades.

Agora me responda, por que você paga para comer e não paga para respirar? Ambas representam necessidades. Mas por que uma é grátis e outra não? Tente vender comida para alguém. Tenho certeza que em algum momento você conseguirá. Tente vender ar. A única coisa que você conseguirá obter é gargalhadas e olhares acusadores de que seu estado mental talvez já não seja mais aquele mesmo de sempre.

 

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Promoção de verão: pague uma respirada e leve o dobro de oxigênio. Ideal para hiperventilação!

 

A questão é que não podemos vender (ou comprar) aquilo que é abundante. Se há mais ar do que podemos consumir, não faz sentido algum racioná-lo. No entanto, comida é escassa. Ou seja, há menos alimento do que necessitamos comer. Como não há para todos, o racionamos.

Numa economia monetária, ao invés de termos acesso direto à comida que precisamos, somos presenteados por um papel (muitas vezes apenas um dígito no computador) que possui um poder de troca convencionado. Estabelecemos que um a la minuta, por exemplo, é igual a nove unidades desta coisa chamada moeda. Desta forma, para podermos comer, temos que entrar no caminho “necessidade -> trabalho -> renda -> acesso-> recurso”.

Como o ar é abundante, não faz sentido aplicar este mesmo caminho na sua obtenção. Então como seria o caminho para ele? “Necessidade -> acesso-> recurso”. Que seria ilustrado assim: preciso respirar (necessidade), tenho pulmão e ar à minha volta (acesso), o coloco dentro de mim e obtenho o oxigênio que preciso (recurso).

Agora acesse esse link  e responda: se há abundância de alimentos, por que racioná-lo?

Isso não para por aqui…

 

 

 

Quiálteras

   Amigo leitor, iniciando hoje nossos comentários sobre música (…) não poderiamos deixar de explicar-lhe o porquê do titulo de nossa coluna: Quiáltera.

   Na Música, se se quer, digamos, numa peça ternária, aquela cujos compassos são todos 3/4, cada um com três semínimas, colocar mais uma nota, mais uma semínima, num lugar onde se vê que não cabe mais nenhuma de mesmo valor, além das três já existentes, usa-se o artifício chamado Quiáltera. Com ele pode-se introduzir mais uma nota naquele compasso aparentemente completo, ou em todos os compassos da música.  As outras notas terão que dividir o tempo, seu precioso tempo de exposição, com a novata, recém chegada. Um leigo pode até pensar, e não sem razão: "Esta nota, que altera o tempo do compasso vai estragar  o ritmo e subverter a música…" Não, claro que não, este artifício é simplesmente uma técnica muito usada por compositores. O Instrumentista que  a interpreta,  sabe dividir direitinho esse tempo com todas as outras notas, e a Quiáltera corre leve na peça, sem que ninguém note a intromissão desta, digamos, clandestina, que, na verdade, não veio absolutamente subverter qualquer ordem previamente estabelecida, nem tramar nos porões musicais revoluções de virtuose e de gênio.

 

   Não é assim no mundo real? Nos escritórios, nas repartições, nas empresas, nas editoras?  Sempre que surge um novato, em meio a um grupo qualquer que mantém uma relação de trabalho, pronto, dizem que surgiu um clandestino, "a Quiáltera".

   Quantas vezes, no tempo da escola de nossa meninice, não testemunhamos a chegada de um novo aluno, no decorrer do ano letivo, quando o semestre ia já pela metade?  Alguns, filhos de militares transferidos de outros Estados. Bem, motivos não faltavam, mas, invariavelmente, todos esses "novos colegas" eram logo vistos pela maioria dos veteranos como "clandestinos". As turminhas já estavam formadas, os grupos definidos, no recreio, cada qual com seu predileto… Não, não haveria lugar para mais ninguém, aquele intruso haveria de ficar ao largo, pois, viera subverter a ordem estabelecida, verdadeira "Quiáltera".

   E nos escritórios e repartições? Aí sim, a coisa é braba, principalmente se o recém chegado tiver, digamos, caído de pára-quedas. Está instituída a caça às bruxas. -O clandestino é perigoso, trama contra nós e nossos empregos, está unicamente aliado ao chefe, e, há quem os tenha visto cochichando segredos secretíssimos. Dizem que é da KGB. "Quiáltera!" E assim, este pobre escriturário haverá de sofrer por um longo período.

   Desta maneira,  a situação se repete em todas as atividades humanas, aquela notinha extra, surgida no Compasso da Existência por obra do Compositor, há de provar um bom bocado de indignidade humana, até que percebam que é um seu igual, um seu irmão, nada mais que isso. E todas aquelas notinhas, Semibreves, Mínimas e Semínimas e Pausas e Acidentes e Floreios e, Quiálteras, são as construtoras da Grande Sinfonia nas mãos do Compositor!

   Então, temos, constantemente em nossas existências, oportunidades várias de receber e acolher muito amistosamente, com carinho e bondade essas quiálteras que sempre estão a surgir em nossos compassos.

   Bem, leitor amigo, no próximo encontro falaremos mais sobre Música.

   Forte abraço.

 

 

Eu juro que tento!

Quando o Rafael me convidou para escrever uma coluna no OPS! disse: “pode ser semanal ou quinzenal”. Bem que eu tento seguir a orientação, mas tem sido impossível. Cheguei a pensar que o tema não renderia tanto artigo assim e que um a cada semana seria possível fazer. Ledo engano! Do jeito que as coisas andam, a coluna vai ser diária, talvez contrariando o esquema do OPS!

Mas o que fazer diante da notícia de que José Serra “nega direcionamento, mas admite possível acordo entre construtoras do metrô”? (aqui, no UOL). E no texto diz que ele afirma que não era mais governador à época.

Ora, enganam-se os que pensam ser a prostituição a profissão mais antiga do mundo. Não, a mais antiga é a de construtor/empreiteiro. Afinal, Deus, anterior e criador da primeira prostituta, construiu o mundo. E nele juntam-se dois papéis interessantes: governador e construtor do mundo. Daí a afirmar que um governador desconhece conchavos feitos por empreiteiras,é muita hipocrisia. Lembremos que foi naquela época que nasceu, também, o primeiro conchavo entre construtores:

– Tchê, disse Deus para o Diabo, negócio é o seguinte: tu ficas com o Inferno que eu administro os empreendimentos aqui do Céu. E lá na Terra a gente deixa para os humanos se virarem, certo?

Ao que o Diabo respondeu: – nada a ver, meu! Se os humanos vão sacanear nas licitações, então o negócio deles é comigo!

Deus, que já estava no seu eterno descanso do sétimo dia, sequer esboçou uma contraproposta. Concordou prontamente e foi fazer a sesta.

Trabalhei oito anos em empreiteiras e cansei de fazer orçamentos para diversas empresas ao mesmo tempo em diversas licitações. Tudo combinado. Nessa eu levo e te subcontrato; na outra tu levas e te subcontrato. E assim caminha a humanidade… E tudo com conhecimento das “otoridades”. Concordo que é difícil impedir, mas daí a dizer que desconhece…

É o negócio mais antigo do mundo e agora o excelentíssimo senhor ex-governador e atual candidato a presidente vem dizer que não sabia?

Nos poupe, por favor, de tamanha hipocrisia!