Rotas Alteradas

Olá a todos os leitores do “O Pensador Selvagem”. É com imenso prazer que escrevo essas primeiras linhas para esta nova coluna no OPS.

Permitam-me apresentar, sou Afonso Félix, um Engenheiro Químico, gaúcho, apaixonado por música, cinema, fotografia artes gráficas, artes plásticas, e combinações dessas coisas em qualquer ordem e número. Moro em Novo Hamburgo, no RS, uma cidade um tanto quanto fora do eixo, se pensarmos no show business estabelecido nas décadas passadas; mas mesmo assim me considero bastante plugado no que anda acontecendo no mundo virtual, da música e das artes, seguindo os caminhos que algumas horas semanais de pesquisas na internet podem me permitir. Esses caminhos que eu carinhosamente chamo de “Rotas Alteradas”, roubando a metáfora da poesia de Vinícius de Moraes, “A Rosa de Hiroshima”, musicada delicadamente pelos Secos e Molhados nos anos 70, são caminhos que se desviam das rotas mais óbvias apresentadas pela nossa degradada mídia de jornais e televisão, e surfa um pouquinho pelas ondas de ótimas rádios FMs que estão disponíveis na região, além de se valer dos clusters de informações que se formam no mundo virtual em tempos de internet colaborativa. Algumas dessas rotas que eu mesmo alterei, vou compartilhar com os amigos leitores do OPS ao longo das próximas edições desta coluna. Bem, sem muita novidade até aqui… O que me proponho fazer é apenas a mesma coisa que milhares de outros blogueiros fazem mundo afora… e muitos até que eu consulto com certa frequência. Mas espero humildemente que eu possa colaborar com vocês leitores para nos tornarmos juntos mais “pensadores” e um pouco mais “selvagens”! Enjoy it!

Blogueiros entrevistam o presidente Lula

___Sei que não é mais novidade, que muita gente já falou sobre isso, mas, como a notícia combina perfeitamente com o editorial de um portal como o Ops!, aproveito para repeti-la. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na semana passada, deu uma entrevista a blogueiros.
___Mostrando que reconhece a existência e importância das mídias sociais, Lula recebeu um bom número de representantes da blogosfera. Estavam presentes Altamiro Borges, José Augusto Duarte, Renato Rovai, Leandro Fortes, Túlio Vianna, Pierre Lucena, o “Senhor Coacla”, Altino Machado, Eduardo Guimarães e Rodrigo Vianna, além da participação de algumas pessoas por chat.
___A entrevista foi extremamente interessante e bem conduzida. Para os interessados, é possível assisti-la, na íntegra, aqui. Mesmo assim, obviamente, o encontro não está isento de críticas. Não falo da reação ciumenta de parte da imprensa tradicional, mas, sim, de problemas como a ausência de mulheres e negros no evento.
___De qualquer modo, fica registrada minha admiração ao acontecimento e a torcida de que entrevistas assim se repitam no próximo governo.

 

Pegada ecológica e sustentabilidade da população

O ser humano não é dono, mas sim, inquilino da Terra e do sistema solar. A humanidade depende da disponibilidade de terra, água e ar existente no Planeta. Ultrapassar os limites existentes significa caminhar para o suicídio e o ecocídio. Qual é a situação atual.

Após 200 anos de desenvolvimento econômico, propiciado pela Revolução Industrial, a população ganhou com a redução das taxas de mortalidade e crescimento da esperança de vida. Hoje em dia, na média, as pessoas vivem mais e melhor. O consumo médio da humanidade cresceu muito. Entre 1800 e 2010 a população mundial cresceu, aproximadamente, 7 vezes (de 1 bilhão para 7 bilhões de habitantes) e a economia (PIB) cresceu cerca de 50 vezes. Mas o crescimento da riqueza se deu às custas da pauperização do Planeta. Como medir o impacto do ser humano na Terra?

A Pegada Ecológica é uma metodologia utilizada para medir a quantidade de terra e água (em termos de hectares globais – gha) que seria necessária para sustentar o consumo atual da população. Considerando cinco tipos de superfície (área cultivada, pastagem, floresta, área de pesca e áreas edificadas), o planeta Terra possui aproximadamente 13,4 bilhões de hectares globais (gha) de terra e água biologicamente produtivas.

Segundo dados da Global Footprint Network’s 2010 a Pegada Ecológica da humanidade atingiu a marca de 2,7 hectares globais (gha), em 2007, para uma população mundial de 6,7 bilhões de habitantes na mesma data (segundo a divisão de população da ONU). Isto significa que para sustentar esta população seriam necessários 18,1 bilhões de gha. Ou seja, já ultrapassamos a capacidade de regeneração do Planeta. No nível médio de consumo mundial atual, com pegada ecológica de 2,7 gha, a população mundial sustentável seria de no máximo 5 bilhões de habitantes.

Se a população mundial adotasse o consumo médio do continente africano – com pegada ecológica per capita de 1,4 gha – a população mundial poderia atingir 9,6 bilhões de habitantes. Se o consumo médio mundial fosse igual à média asiática (1,8 gha) a população mundial poderia ser de 7,4 bilhões de habitantes. Com base na pegada ecológica da Europa (4,7 gha) a população mundial não poderia passar de 2,9 bilhões de habitantes, com a pegada ecológica da América Latina (2,6 gha), a população mundial não poderia poderia ultrapassar 5,2 bilhões de habitantes. Com as pegadas ecológicas da Oceania (5,4 gha) e dos Estados Unidos e Canadá (7,9 gha) a população mudial não poderia ultrapassar 2,5 bilhões e 1,7 bilhão de habitantes, respectivamente.

Qual é a perspectiva para as próximas décadas?

Segundo os dados da divisão de população da ONU a população mundial, em 2050, deve atingir 8 bilhões de habitantes, na projeção baixa, 9 bilhões, na projeção média, e 10 bilhões de habitantes, na projeção alta. Segundo dados do FMI, a economia mundial deve crescer acima de 3,5% ao ano de 2010 a 2050. Isto significa que o PIB mundial vai dobrar a cada 20 anos, ou multiplicar por quatro até 2050. Portanto, o mais provável é que a Terra tenha mais 2 bilhões de habitantes nos próximos 40 anos e uma economia quatro vezes maior. O Planeta suporta?

Evidentemente que não há como manter este crescimento no padrão de produção e consumo atuais. Para que a humanidade possa sobreviver e permitir a sobrevivência das demais espécies do Planeta será preciso fazer uma revolução energética, incentivar a eficiência energética, reciclar, reutilizar e reaproveitar o lixo; reduzir os desperdícios em todas as suas formas; reforçar e melhorar o transporte coletivo; incentivar o vegetarianismo, diminuir o consumo de carnes e reduzir os impactos da agropecuária; reduzir o consumo de bebidas alcoólicas, outras substâncias tóxicas; introduzir inovações tecnológicas nos prédios e casas para melhorar o aproveitamento da energia e a reciclagem de materiais; criar empregos verdes; ampliar as áreas de florestas e matas e a preservação ambiental; proteger a biodiversidade; desestimular a cultura dos PETs Shops e o elevado consumismo dos animais de estimação; avançar com a aquacultura e a revolução azul; reduzir os gastos militares; reduzir o consumo conspícuo e o consumo que provoca maiores danos ambientais; etc.

Desta forma, mais do que nunca é preciso discutir a alternativa do modelo do “decrescimento sustentável”, especialmente a redução das atividades mais poluidoras, com mudança no padrão de consumo e o avanço da sociedade do conhecimento e da produção de bens imateriais e intangíveis.

Terceiro Fragmento: O agente da mudança

Ter coragem, às vezes, significa mover-se simplesmente. É preciso também desejos e direção. Os olhos podem até se sustentar sozinhos e perdidos, quase inaptos, no começo, mas é preciso entender que é nesse começo que o coração precisa organizar escolhas.

E quem vai dizer qual a direção correta a seguir? Qual a velocidade precisa para se chegar em algum lugar importante? Qual o percurso sem desvios?

Às vezes, não basta amar alguém ou uma profissão; é preciso atentar para os detalhes. Aos que querem salários melhores, qualquer mínimo pode ser um motivo para começar. Porque parte das pessoas que se angustia com a vida presente espera o futuro como se o hoje fosse uma prisão: o sol entrando na vida só pela metade, aquele cheiro desagradável de problemas insuperáveis, a cor escura das contas a pagar.

Mas, e se o futuro for, na verdade, uma surpresa que começa a qualquer momento?

E se a vida não for então um mistério, mas apenas uma questão de tempo, espera e movimento?

A mudança pode começar, então, a se instalar na rotina dos corações angustiados quando eles aceitam que obstáculos existem para serem vistos de perto, analisados. Talvez, você seja dos tipos que admiram o sol; mas experimente olhar fixamente para ele ao meio-dia. Possível? E se você esperasse para quando ele se por? Ainda é o sol que você admira, não? Você só precisou se programar um pouco e esperá-lo mudar de cor. As horas continuaram as mesmas; o tempo continuou grudado em você.

Nem estou dizendo que viver é tão fácil assim. No entanto, não ser tão fácil assim viver não é o mesmo que acreditar que não posso me organizar aos poucos para alcançar aqueles objetivos que eu sempre busquei.

Você pode encarar os desvios incômodos como o fim do mundo (e talvez o fim do mundo chegue sempre acompanhado da notícia do não aumento de salário). Então, recomeçar será o desmoronar de qualquer sonho. E se os desvios forem atalhos para a descoberta de que a vida ainda é cheia de possibilidades? Como você se sentiria? Ou você nunca lutou junto de alguém pelo mesmo ideal, ou conheceu alguém que te fez gargalhar, ou que dividiu aquela história cabulosa enquanto a cerveja estava sendo esvaziada, ou aprendeu a pensar em perspectiva e em saídas mais saudáveis quando ouviu o problema do amigo, e tudo isso em um desses atalhos que encontramos por aí?

O primeiro movimento é comprometedor tanto quanto é importante. O universo começa a entender que você está se movendo. Então, talvez isso seja a parte importante. Porque o primeiro movimento, quando você pensou em lutar pelos descontentamentos que te perseguiam, a insatisfação que consumia seus projetos de vida, se iniciou em você, e aí dentro está o futuro.

Ainda estou tentando dizer que viver é muito fácil?

Não. Apenas refletindo sobre as possibilidades que temos de pensar que ainda temos escolhas, que seguir adiante e o meu primeiro passo podem estar dentro de uma realidade que não me satisfaz completamente, mas que mesmo dentro dela posso tentar acreditar que o futuro pode começar a qualquer momento.

Basta o primeiro passo.

 

Erik Satie

   Sobre o magnífico Erik Satie, escrevi certa feita: Há músicas que impressionam logo na primeira audição, penetrando profundamente o espírito e a mente do ouvinte. Impressionando-o talvez, como a uma anêmona-do-mar, segundo o filósofo poeta John Cowper Powys, estando seus tentáculos abertos e receptivos  ao encontrar um semelhante ser, em idéias e sentimentos (a anêmona, naturalmente).

     Debussy  afirmava que a música deve abalar, comover, perturbar, enfim, impressionar o ouvinte logo de saída. Na minha mocidade, essa coisa potencializada ao infinito ocorria com certa freqüência. Para deleite meu, ocorreu durante a primeira audição que tive da música de Érik Satie, logo nas primeiras frases, executada que foi por alguém cuja memória no momento me foge, mas que certamente foi um excelente pianista, pelo que me fez sentir.  Registrei, na época, que sentira uma espécie de explosão interior a romper cursos sangüíneos ocultos e perigosos. Agora a pouco (alguns meses) após uma visita a um velho amigo, pianista, assentei em minhas notas pessoais após ouví-lo tocar a Ginopédia 01: “Senti, num breve momento, aquela explosão interior de outrora, as mesmas artérias rompidas, a jorrar… O coração pulsando firme, encantado com aquela deslumbrante viagem astral que me conduziu a um passado distante…" Bem, não é preciso dizer que tenho grande admiração pelo inspirado compositor.

   Quanto à vida do grande pianista, está consignado na História da Música que a crítica sempre lhe torceu o empinado nariz, tachando-o de "medíocre" pela falta de recursos técnicos e ausência de virtuosismo. Tendo sua genialidade reconhecida tão somente por uns poucos amigos, como Debussy, Ravel e até Picasso, o pintor (que minoria heim?). Érik Satie, criador do ragtime, da música ambiente, precursor do minimalismo e do surrealismo, na música, foi realmente, durante sua conturbada existência, compreendido somente por uns poucos, porém, iguais no gênio.

   Fato interessante de sua vida foi ter abandonado a Ordre de la Rose-Croix Catholique  du Temple et du Graal, onde foi Mestre de Capela, para fundar sua própria igreja, a Eglise Métropolitaine d’Art de Jésus Conducteur, que, dizem, foi ele próprio seu único membro, tendo  excomungado, entretanto, todos que dele discordaram. É, o cara era louco, condição sem a qual não se pode desenvolver a genialidade artística, creio!

   Bem, muitos, hoje em dia, são os que interpretam Erik Satie em seus recitais, e é de difícil execução sua música, apesar de filha de um "medíocre", como quis, outrora, a crítica desespecializada, no entanto,  a profundidade expressiva da obra do grande compositor exige do músico que se atreva a executá-la, um bocado de sensibilidade aliada à grande capacidade de interpretação, que, só virtuoses costumam possuir.

   Dentre os excelentes que se atreveram interpretar Érik Sátie, com muita propriedade, como Stephane Guinsburg; Robin Bowman; F.Larrard; C.Mansi; Richard Anatone; Kaila Rochelle; Andreas Pfaul; só para citar alguns, tenho especial predileção por Branca Parllic que, parece-me, consegue assimilar algo a mais da personalidade de Erik Sátie, principalmente naquelas peças de sentido místico mais ecentuadas. Na parte, digamos, mais graciosa da obra de Satie, não podemos esquecer da leitura de Jean-Pierre Armengaud, que, a meu ver, sintetiza de forma particularíssima essa atmosfera. Quando uso o termo "atrever-se" a interpretar Sátie, não estou, absolutamente a diminuir nenhum pianista, antes, estou unicamente a reconhecer a genialidade criativa do compositor, cujas frases e construções mais simples são recheadas de sentimentos ocultos de difícil expressão.  A Ginopédia n. 01, só para citar um exemplo, é de construção tão simples que quase não resiste à uma análise estrutural, entretanto, de tão difícil execução que, se o amigo leitor não for pianista, ouvindo alguns dos músicos acima citados e atentando em cada qual sua personalíssima interpretação, verá, com claridade, o que afirmo.  No nosso blog pessoal, temos por hábito disponibilizar sempre algum material da obra do compositor ao qual nos referimos, seja em forma de CD (mp3) Partituras (PDF) e outros formatos, gratuitamente é claro, servindo como recurso, digamos, ditático para o jovem leitor. Portanto, se o amigo leitor quiser baixar alguma coisa do grande Érik Satie, dirija-se a este link.

   Bem, Érik Sátie é mais um exemplo, entre muitos, da falta de reconhecimento e isolamento impingido pela Crítica de cada época. Pelo menos é reconfortante saber que a tal Crítica jamais resiste ao tempo. E afinal, vence o talento, sobrepujando-a. É, parece que o ideal filosófico da vitória do bem contra o mal se realiza, pelo menos na música.
  Forte abraço.

A soma de todos os erros – Pt 2 de 9

 A soma de todos os erros – O segundo

 
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Olá, você que lê! É hora de continuarmos o texto anterior de A Soma de Todos os Erros.
Se você está começando aqui, recomendo que leia o conteúdo anterior.
 
Em resumo, estou explicando como o automóvel simboliza os mais diversos aspectos obsoletos que a economia monetária representa. Está longe de ser completo, trata-se apenas de um exercício de reflexão. Vamos lá então?
 
 
 
O segundo erro: O preço.
 
O problema: Com exceção de filmes americanos, em que se compram carros usados por apenas U$ 1.000 (ou menos), a aquisição deste produto é um “privilégio” apenas da classe média e alta. Fazendo uma pesquisa bem simples na internet, considerando apenas carros populares brasileiros, chegamos a um preço referencial de R$ 30 mil. Um indivíduo de classe média pode pagar este valor em 48 parcelas mensais de R$ 625,00. Junto ao preço do automóvel em si, vamos considerar mais alguns gastos.
 
O que seria de um carro em uma cidade sem uma apólice de seguro? Inseguro, obviamente! Como todos sabem, quanto mais popular o carro for, mais caro é seu seguro. Como estamos justamente considerando esta categoria de carro, prepare seu bolso. Mas não vamos falar de números. Os conceitos em si já são assustadores o suficiente.
 
Juntamos isto aos tributos. Temos que pagar anualmente ao Estado o IPVA e seguro obrigatório. Some ainda o custo freqüente de manutenção mecânica, renovação de fluídos, peças obsoletas (ou estragadas por colisões), combustível, estacionamento e eventuais multas. Esquecemos alguma coisa? Tenho certeza que você pode acrescentar mais custos a esta lista.
 
Há ainda custos indiretos, relacionados ao trânsito, como crianças de ruas e demais pedintes em sinaleiras, ou até os famosos flanelinhas “guardadores” de carro.
 
Imagino que estas informações não surpreendam você, estou certo? Afinal, quando o assunto é dinheiro, costumamos pensar muito mais conscientemente. Bom, vamos manter em mente nossos parâmetros propostos neste exercício. Para o erro preço ter mais significado, é preciso relacioná-lo ao que virá a seguir (o uso diário).
 
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Melhor a gente sair de fininho.
 
A conclusão: Como o impacto do preço depende do restante da nossa análise, vamos considerar apenas uma conclusão precipitada: automóveis são muito caros. Muito mesmo! Pense na porcentagem do seu salário que é destinada exclusivamente a ele.
 
Nos vemos no próximo erro!

OSPA

Aproveitando o gancho do post do Milton Ribeiro (Entre promessas e constrangimentos, OSPA é homenageada e faz mau concerto) sobre o concerto em comemoração aos 60 anos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre – OSPA, lembro que há exatos 35 anos tive meu primeiro contato com a OSPA. Tenho cá comigo, inclusive, uma coleção de programas da época.

Já naqueles tempos ouvia espressões como as que o Milton escutou: a OSPA é um “Bem Cultural de Natureza Imaterial”. Ou outras tantas e inúmeras prometendo isso, aquilo e aquiloutro para melhorar a situação. Ainda adolescente, recém tornado universitário, me associei à OSPA para ajudar. Vejam que há exatos 35 anos.

Eu mudei, minha vida mudou, outros rumos me afastaram dos concertos; mas uma coisa não mudou: a hipocrisia de 35 anos – ou mais – dos nossos políticos. Sai ano, entra ano e o discurso é sempre o mesmo. Todos os governadores eleitos nesses, repito, 35 anos, mandam representantes dizer a mesma coisa: “os recursos para a construção do novo teatro estão na previsão do futuro governador (…) e da bancada federal gaúcha para o próximo ano.” Fazer, que seria a solução, nenhum deles fez até hoje! O que me leva a crer, após 35 anos, que esse fará?

E não é só a questão do teatro. Sobra falta de respeito com os músicos. Salários, condicões dignas de trabalho… Sim, sim, música erudita sempre foi (?), é e deverá continuar sendo coisa de poucos metidos a bestas. Já deram uma olhada na pauta de projetos financiados pelo Estado na área cultural?

Desculpem a expressão, mas só pode ser palhaçada isso que fazem com as pessoas. Pra dizer a verdade, a mais pura hipocrisia política. Quando será que algum governador, em vez de mandar dizer, vai mandar fazer? Sei, sei, cultura não dá votos. No máximo alguma polêmica, que se resolve com a troca do secretário.

Mais uma razão para estarmos cansados dessa hipocrisia toda…

“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?

Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes

Embuçado nos céus?

Há trinta e cinco anos te mandei meu grito,

Que embalde desde então corre o infinito…

Onde estás, Senhor Deus?…

Deus! ó deus! onde estás que não respondes?”

Pra ti Eu respondo, meu filho: pra Mim também chega!

 

Lou Reed 20/11/2010 – Caos e Barulho em São Paulo.

A Ida.

 
Até o dia parecia mais quente em São Paulo, estranho para um lugar sujeito às intempéries constantes do clima, sujeito à garoa e frio a qualquer piscar de olhos. Era dia de show do Lou Reed, o lendário vocalista do não menos lendário Velvet Underground.
 
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Na longa caminhada pela Teodoro Sampaio até o SESC Pinheiros, ia imaginando o que estaria por vir. Todos deixaram bem claro que o show se basearia apenas no polêmico LP de 1975 Metal Machine Music (mesmo que com novos arranjos), nada de clássicos como Perfect Day, Heroin ou Take Walk on the Wild Side. O disco suscitou uma grande aversão na época por suas distorções exageradas, sugerindo inclusive que Lou Reed estava se auto sabotando, ou sabotando a indústria fonográfica. Virou motivo de piada e foi considerado por alguns o pior disco da história do Rock.
 
Mas não era exatamente isso que passava pela minha cabeça no momento que me aproximava do local do show. Era Lou Reed, o poeta, uma lenda viva, alguém que viveu os áureos momentos do rock, conviveu com quase todas as personalidades e estrelas da música, de David Bowie à Pavarotti, passando pelas mãos de Andy Warhol e seu famigerado estúdio Factory em Nova York. Fetiche ou não, todos estaríamos de frente com a história aberta da música mundial.
 
O Show.
 
Alguns minutos de pura, incômoda e deliberada microfonia e já se sentia uma espécie de tensão e ansiedade pairando como nuvens de aço na platéia. Lou Reed entra no palco, não olha e muito menos se dirige à platéia. Senta em uma espécie de bunker com sua guitarra e mais alguns acessórios para “brincadeiras eletrônicas”. Junto com o saxofonista Ulrich Krieger e um cara especialmente esquisito que faz o que chamam de processamento ao vivo, Sarth Calhoun, começa o show. 10 minutos e muitos já haviam abandonado seus lugares, outros tapavam o ouvido com as mãos, tamanho era o incômodo com aquela espécie de barulho catártico. Alguns ainda resistiam, pensando, talvez, que uma hora aquilo tivesse que acabar, e então ele começaria a entoar os primeiros acordes de algo audível, inteligível, ou algum clássico qualquer. Lou Reed não cede. Praticamente sem interrupções, as improvisações malucas continuaram por cerca de 1h e 20 minutos. Sem vocais, sem canções, sem pausas. Um sax ensandecido e distorcido. Calmo em alguns poucos momentos. Tambores eletrônicos que lembravam coisas como rituais tribais. Vez ou outra Lou declamava algo sem sentido como um pajé exorcizando algum demônio. De repente o show acaba, Lou Reed balbucia que ama todos que estão ali. Os músicos saem do palco e muita gente vai embora entre aliviados e atordoados. Para os que esperaram cerca de 5 minutos veio a surpresa. Lou volta sozinho com a guitarra e é ovacionado pelos seus seguidores fiéis que não arredavam o pé dali, mesmo um pouco confusos.
 
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Lou escolheu “I´ll be your Mirror” para presentear os que ficaram. Uma voz historicamente reconhecível. Aposto que ainda estavam arrepiados quando ele finalmente desapareceu demonstrando certa fragilidade física de quem atravessou o inferno e voltou, e ainda consegue estar por aqui, chocar, e por que não, inovar.
 
A Volta.
 
Quando pus os pés para fora do teatro do SESC não nego que eu era um dos atordoados. Iniciei o caminho de volta e me lembrei do poeta americano Williams Carlos Williams e no conselho que eu daria para aqueles que fossem assistir à apresentação do dia seguinte. Nas palavras de Williams: “Senhoras, levantem as barras de suas saias pois vamos atravessar o inferno”. Um tanto representativo. Segui caminhando e o barulho não menos ensandecido da metrópole me remetia constantemente àquela experiência um tanto difícil de ser classificada ou explicada. Não cabiam definições simplistas como: gostei ou não gostei. Preferi ficar com a definição do folder que nos foi entregue no início do show. Uma espécie de explicação para a palavra barulho e o que Lou Reed talvez pretendesse fazer com ele. (Transcrevo abaixo essa pequena “explicação”). Se foi a isso que ele se propôs, realizou magistralmente.
 
Barulho:
 
Na classificação sistemática do dicionário, a palavra barulho refere-se a algo incômodo, fora da ordem convencional dos padrões estabelecidos. Cientificamente o significado da palavra é relacionado a um som indesejável. Contudo, todas essas definições tornaram-se insuficientes diante das obras de vanguarda do início do século XX, onde o barulho foi incorporado na estética musical de diversos gêneros. Ruídos, distorções, microfonias, transformaram-se em moto criativo na composição de uma música invariavelmente experimental e provocadora. Permitir ao espectador uma fruição diante de zonas de desconforto é a proposição deste recorte conceitual, apresentando um panorama contemporâneo de artistas cujos trabalhos estão centrados no uso criativo de uma estética do ruído. 

100 milhões

Segundo informa o relatório The World Health Report 2008 – primary Health Care (Now More Than Ever), da Organização Mundial da  Saúde (aqui o capítulo que cita – versão em português), “Sempre que as pessoas têm falta de protecção social e têm de pagar os  cuidados de saúde do seu bolso, são confrontadas com despesas catastróficas. Anualmente, mais de 100 milhões de pessoas caem na pobreza porque têm de pagar pelos cuidados de saúde recebidos.

O tema da CPMF veio à baila com a eleição de Dilma Rousseff para a presidência. Segundo as notícias, a maioria dos governadores eleitos se diz favorável ao retono da contribuição. (aqui, por exemplo). Na notícia linkada, podemos ler a afirmção do Governador reeleito do Ceará, Cid Gomes: “É um sacrificiozinho muito pequeno para cada brasileiro em nome de um grande número de brasileiros que precisa dos serviços de saúde e precisa que esses serviços sejam de qualidade”.

A CPMF durou exatos dez anos, de 23 de janeiro de 1997 a 23 de janeiro de 2007. E o que vimos e continuamos a ver? Um grande número de brasileiros que precisa dos serviços públicos de saúde morrendo ou, como diz a OMS, cainda na pobreza porque tem de pagar pelos cuidados de saúde recebidos. Nem vou me dar ao trabalho de colocar aspas.

A CPMF foi criada para o custeio específico da saúde pública, da previdência social e do Fundo de Combate e Erradicação da Pobreza. Os dois últimos acrescentados por leis posteriores. A saúde continua um caos e a população morrendo sem antendimento; a previdência social, dizem, vai de mal a pior, mantendo os trabalhadores em constante estado de insegurança quanto ao futuro; a pobreza, se por um lado diminuiu, por outro, como diz a OMS, parece aumentar justamente por causa da saúde.

Está certo, é um sacrificiozinho muito pequeno (e bota pequeno nisso, pela junção do “inho” com o “muito pequeno”). Tão ínfimo quanto o resultado obtido. Então onde, afinal de contas, foi parar todo o dinheiro arrecadado? Se é para voltar da mesma forma como foi gerido no passdo, penso que deveríamos ser contra.

Em tese, nada contra a contribuição. Faço o meu sacrifíciozinho muito pequeno, desde que os hipócritas não venham a público dizer que ela resolverá o problema. Se a maioria dos governadores a quer, algo há, algo há…

Qualquer coisa, mas com certeza não será saúde!