Os ateus e o preconceito

Li na Zero Hora há uns dias, uma crônica da Martha Medeiros comentando a campanha da ATEA – Associação Brasileira de Ateus e Agnósticos contra o preconceito à Ateus. A campanha está circulando por ai, na traseira dos ônibus de algumas capitais, como Porto Alegre e Salvador. A iniciativa surge num contexto inédito, em que o Ministério Público ajuizou ação civil pública contra o apresentador José Luiz Datena, por ter dito algumas pérolas do tipo:

 “Ateus são pessoas sem limites, por isso matam, cometem essas atrocidades. Pois elas acham que são seu próprio Deus.”

 “É só perguntar para esses bandidos que cometem essas barbaridades pra ver que eles não acreditam em Deus.”

Como nós temos mais de mil ateus? Aposto que muitos desses estão ligando da cadeia.”


Merecido o processo, não é mesmo? É educativo coibir este tipo de manifestação pública, principalmente por atentar contra a verdade histórica. Todo mundo sabe que nada matou mais no mundo do que o “nome de Deus”. 

Mas voltando a campanha da ATEA. Ela não é fato isolado. Em Nova York, católicos e ateus estão se matando à olhos vistos, pelos outdoors da cidade. Enquanto a American Atheists espalha pelos quatro cantos a campanha “You know it´s a myth – This Season celebrate reason” (Você sabe que é um mito – Nesta temporada celebre a razão) a Catholic League contra-ataca em letras garrafais: “You know it´s real – this season celebrate jesus” (Você sabe que é real – nesta temporada celebre jesus).
 
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É tão novidade este tipo de manifestação, que confesso não ter um veredicto final para a coisa toda. Mas creio ser possível fazer alguns apontamentos.

Primeiramente, acredito que estas campanhas podem ter um efeito cultural bastante positivo. 2010 foi um ano inesquecível para os brasileiros em termos de religão e, principalmente, em termos de preconceito. Nos Estados Unidos, a mistura de religião com política é regra e atinge proporções assustadoras. Aí está o documentário “Jesus Camp” (clique aqui para fazer o download com legenda) para não me deixar mentir. No filme, vemos como funcionam os acampamentos evangélicos para crianças, basicamente escolas militares para a formação de quadros e eleitores do Partido Republicano. Coisa para deixar o Tea Party orgulhoso e confiante no futuro da América.

Mas, apesar de todo o potencial, acho que as campanhas pecam pelo enfoque, demasiado individual, das mensagens. Por exemplo, tem sentido discutir o “mito do natal” e não discutir aborto? A união civil de casais do mesmo sexo? As declarações machistas e absurdas do papa sobre o uso da camisinha?

Mesmo no que se refere à libertação dos grilhões da fé, acho que as campanhas não acertam no alvo. Compare por exemplo, a campanha de 2009 da The British Humanist Association com a campanha canadense do “pé-grande”:
 
 
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Acho a campanha briânica extremamente simpática e produtiva. A mensagem toca justamente na experiência opressora da fé. Ela diz: relaxe, não module o seu comportamento por medo ou para ser aprovado por algo que você nem sabe se existe mesmo. “Seja feliz”, diz a campanha britânica. Esta é, de fato, uma grande campanha. Se dirige à milhões de pessoas que se impõem uma série de restrições e pergunta: Você já pensou que poderia ser bem mais feliz de outra maneira?

Já a campanha canadense se aproxima muito da campanha americana sobre o mito do natal. Sei que sou voz dissonante neste aspecto, mas lá vai: para mim, insistir na não existência de Deus é tão estúpido quanto insistir na sua existência. É tão fé quanto o contrário e, logo, igualmente sem razão. Assim, não vejo benefício na campanha canadense, uma campanha que é inegavelmente ridicularizante. Ainda que perguntar “Por que acreditar no Pé Grande é considerado delírio, mas a crença em Deus e em Cristo é respeitada e reverenciada?” faça sentido, acho uma grande perda de tempo. A experiência coletiva da fé e os seus impactos nos costumes e na hegemonia cultural vêm muito antes destas discussões filosóficas sobre a lógica de uma crença ou de outra. Penso que se o elemento restritivo da experiência religiosa fosse eliminado, acreditar em Deus passaria a ser tão inofensivo quanto acreditar no Pé Grande. Para mim, já estava de bom tamanho.

Para finalizar, acredito que a campanha brasileira seja melhor que a americana e que a canadense. Não sei se entendi bem o cartaz que diz: “Se Deus existe, tudo é permitido”. Mas os outros três são muito bons, o que é um saldo positivo para uma campanha que é novidade no Brasil, um país latino e bastante religioso. Vamos ver se as próximas campanhas conseguem evoluir para o que de fato interessa. E torcer para que consigam evoluir, já que na Itália a campanha foi proibida e no Brasil há relatos de prefeituras que se negaram a veicular as mensagens. E olha que o Estado é laico.
 
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Física 2

Quando terminei o meu último trabalho “Princípios da física” lembrei do que me aconteceu qundo era adolescente e que isso também poderia servir de exemplo para o que estava expondo. Mas para não me estender demasiado resolvi reservá-la para um novo trabalho, o de hoje. Vamos lá. Tinha lido os ensinamentos da mecânica do famoso cientista inglês Isaac Newton, (1642-1727), e aprendi que era impossível distinguir se um corpo em movimento uniforme estaria realmente em movimento ou parado. Por exemplo, suponham que estou dentro de um trem em movimento uniforme com todas as janelas fechadas e que a sua via permanente, ou seja, os trilhos, são de tal qualidade que não provocam qualquer balanço ou trepidação, nada que dê ideia que esteja em movimento. Estar assim em  movimento ou parado, para quem está dentro do trem, tem o mesmo significado físico. Não há como distinguir um do outro. Um caso semelhante ocorreu-me nessa altura. Também tudo que vive na superfície da Terra está em movimento acompanhandp a rotação do planeta. No entanto nada nos diz que estamos em movimento exceto a referência externa dos astros. Aliás como Galileo defendeu e foi condenado pela igreja católica. Mas a minha convicção foi abalada pelo que assisti no cinema. Um grupo de patinadoras no gelo formava uma frente, uma ao lado da outra de braços dados. Aí elas começaram a girar em torno de um dos extremos cada vez mais rápido. A moça no centro do giro não saia do seu lugar girando o corpo lentamente, mas as outras tinham que rodar cada vez mais rápido quanto mais afastadas do centro de rotação. A última então rodava o mais rápido que podia para acompanhar as suas companheiras. Então imaginei o seguinte experimento físico: suponhamos um canhão colocado na posição vertical de tal forma que o seu eixo esteja na linha reta passando pelo centro da Terra. Se disparar um projetil ele voltará quando perder o impulso e, pensava eu nessa altura, cairá exatamente no mesmo ponto de onde partiu. Mas aquelas patinadoras diziam precisamente o contrário. À medida que sobe o projetil mantém sempre a mesma velocidade de rotação inicial, ficando cada vez mais atrasado em relação a vertical da posição inicial. E o mesmo acontece quando o projetil cai de volta na Terra, só que se atrasa cada vez menos até chegar ao chão. Quer dizer cairá bem atrás da posição de onde partiu em sentido contrário à rotação da Terra. Mas então, como se faz para colocar um satélite de comunicação estacionário? É preciso lançá-lo não na vertical mas inclinado no sentido da rotação da Terra e fazer com que o missil acelere cada vez mais a sua velocidade horizontal de rotação à medida que sobe. Ou seja, é preciso imprimir ao satelite uma força vetorial horizontal que vai aumentando gradualmente, conjugada com uma força vetorial vertical que vai diminuindo também gradualmente. Como vocês sabem uma força vetorial é uma força que atua numa direção definida, representada por uma seta indicando a direção e com um comprimento equivalente ao valor da força, Para cada posição do satélite no seu movimento até chegar à sua órbita na prumada sobre o local desejado na terra, com o qual manterá a mesma relação para sempre, é possível calcular a combinação dos dois vetores e assim imprimir e controlar a sua subida. Este exemplo de aplicação da análise vetorial a um evento físico mostra bem a importância da matemática no avanço da tecnologia.

Até à próxima.       

 

Uma última pergunta – Entrevista com Augusto Patrini

Algumas pessoas enviaram-me mensagens dizendo que a entrevista com Augusto Patrini ficou com um “gosto de quero mais”. Ele, então, nos respondeu mais uma pergunta:


[Paty] 1. Com o passar dos anos a mobilização GLBT vem crescendo. Com este crescimento, aumentaram os festivais, as mostras, os filmes, vídeos e diversas outras formas de manifestações artísticas que retratam este universo. Como vc enxerga estes crescimentos? Como eles auxiliam no processo de politização do movimento GLBT? Estas obras, um modo de instigar na sociedade uma maior compreensão deste universo dantes extremamente marginalizado?

 

[Augusto] Sinceramente penso que estes festivais de cinema LGBT, do tipo do MixBrasil, pouco contribuem para a melhoria da qualidade de vida da população LGBT no Brasil. Acho mesmo, em particular no caso específico do MixBrasil, que são apenas mais uma manifestação da “espetacularização” da vida, e da comercialização-absorção das manifestações artísticas realmente legítimas. Essas manifestações do “Espetáculo” no sentido que deu Guy Debord em seu célebre livro “A Sociedade do Espetáculo” de 1967 não contribuem em nada para a politização das comunidades humanas, incluídas aí a LGBT, mas ao contrário são mecanismos de promoção do esvaziamento, da fragmentação e da despolitização. Neste tipo de festival não importa a expressão artística, e a qualidade das representações sócio-estéticas, mas apenas o caráter comercial e, principalmente, consumista. Estes festivais comerciais e “espetacularizados”, assim como as grandes exposições, manifestações histéricas de um vazio sócio-psicológico, empobrecem e retiram das obras de arte que apresentam seus possíveis elementos críticos e contestatórios.

 

Talvez a única importância do MixBrasil em particular seja dar alguma visibilidade a expressão homoafetiva dentro de uma sociedade heteronormativa, violenta e repressora como é a brasileira. Entretanto, na forma em que vem acontecendo nos últimos anos tornou-se somente a manifestação do gueto homossexual expandido – o que acaba criando uma falsa e enganosa sensação de liberdade. Essa sensação de falsa liberdade é extremamente prejudicial para a luta dos direitos da comunidade LGBT. Não vejo com bons olhos a “comercialização” da luta por direitos civis e políticos da comunidade LGBT, penso mesmo que o chamado “pink money” é antes um obstáculo para a conquista da liberdade e igualdade do que um fator positivo. O chamado pink money vive justamente do fato terrível que LGBTs precisam nesta sociedade heteronormativa “esconder-se” ou “proteger-se”, ou permanecer um uma “zona de conforto em que contem com uma sensação de falsa-liberdade – em lugares, festivais, shows, peças ou “espetáculos” que carreguem o rótulo “Gay”. Ou seja, o pink money só existe porque existe o preconceito, a homofobia e a discriminação. Quando não existir mais homofobia, não existirão mais festivais ou boates gays, já que a expressão homoatetica será cotidiana e muito mais presente em manifestações midiáticas e artísticas.

 

Além disso, sejamos sinceros, a qualidade dos filmes selecionados por esse festival (Mixbrasil) em particular, é sofrível – com pouquíssimas exceções. Encarnar-se como gay ou lésbico, não é garantia de qualidade estética para nenhum tipo de obra de arte, e não seria diferente para o caso do cinema. Infelizmente a qualidade das manifestações “artísticas” que auto-rotulam como gays – literatura ou filmes – é em termos qualitativos pouco significativa.

Entrevista realizada com Rodrigo Bouillet – Coordenador de Rede do Cine Mais Cultura

Entrevista realizada com Rodrigo Bouillet, Coordenador de Rede do Cine Mais Cultura. Realizada dia 23 de novembro de 2010.

 

[Paty] 1. Como começou seu interesse pelo cinema?

 

[Rodrigo] Não foi um começo glorioso, indo a um cinema de rua de mil lugares assistir algum filme que se tornaria um grande clássico de início de anos 80. Minha dieta cinematográfica até a faculdade sempre consistiu em muita (muita!) Sessão da Tarde e raras idas ao cinema ver algum filme americano de aventura ou terror. Eu só fui surpreendido pelo cinema quando entrei na Universidade Federal Fluminense (UFF). No curso de Publicidade (depois eu fiz Cinema), logo no primeiro semestre, havia uma matéria de tronco comum das habilitações de Comunicação onde o Professor Antonio Serra pediu aos alunos um estudo comparativo entre “Terra em Transe” (filme de Glauber Rocha, do ano de 1967) e “Vidas Secas” (filme de Nelson Pereira dos Santos, do ano de 1963). Foram duas exibições e a aula era de 8 da manhã ao meio-dia. Foi onde tudo mudou. Foi onde vi que podia se fazer, pensar outras coisas com o cinema, e resolvi cair de cabeça nessa história de imagem em movimento.

 

[Paty] 2. Já participou de cineclube antes de ingressar na faculdade de cinema?

 

[Rodrigo] Nem sabia que isso existia. Conheci dentro da faculdade.

 

[Paty] 3. E sua articulação direta no movimento cineclubista, surgiu como?


[Rodrigo] Na faculdade, participei de um cineclube em 2002, projeto do Professor Tunico Amâncio. Fora da faculdade comecei a participar em 2003, no Cineclube Tela Brasilis, com exibições na Cinemateca do MAM-RJ. Neste mesmo ano de 2003, teve a Jornada Cineclubista de rearticulação. Eu não fui, tava totalmente por fora.

Em 2004, teve a primeira Jornada Nacional Cineclubista de fato após uns 15 ou 20 anos sem nenhum encontro deste tipo. Naquele momento as primeiras informações passaram a chegar via e-mail, o número de cineclubes aumentava, as reuniões no Rio entre cineclubistas tornavam-se mais freqüentes, os cineclubistas que foram à Jornada estavam muito entusiasmados e procuravam outros cineclubistas para passar as informações e, por fim, foi fundada a ASCINE-RJ (Associação de Cineclubes do Rio de Janeiro).

Era louco para participar das reuniões da ASCINE-RJ, mas meu cineclube não tinha uma postura clara sobre o que queria ou como poderia colaborar com o movimento cineclubista organizado. No finalzinho de 2005, acertamos os ponteiros internamente e passei a freqüentar os encontros.

Em 2006 fui à jornada nacional (de cineclubes). Até então, a ASCINE-RJ existia como fórum, mas não como Associação. Quero dizer, não tinha diretoria, etc. Voltamos (da jornada cineclubista) com muito gás para tocar a Associação para a frente. Em agosto do mesmo ano já fazia parte da diretoria provisória, como Diretor Administrativo.

Em abril de 2007 fiz parte da primeira diretoria de fato, aí como Diretor Geral. Não cheguei a completar o período de 2 anos, pois em setembro de 2008 fui convidado a participar da ação Cine Mais Cultura, do MinC.

 

[Paty] 4. Toda organização tem fragilidades, quais são os pontos mais frágeis no movimento cineclubista nacional hoje?

 

[Rodrigo] Vejo como maior fragilidade o movimento ter se articulado de cima pra baixo. É engraçado pensar que essa mesma característica foi quem possibilitou toda a reorganização. Afinal, em 2003, como reunir antigos e novos cineclubistas concentrados em poucas iniciativas em algumas das capitais do país, mas sem comunicação entre si? Enfim, tudo tem que começar de algum lugar, não é?

 

Toda preocupação do pessoal da “velha guarda”, de forma muito legítima, foi alargar a base e gerar um conforto para essa base operar. Veio a Programadora Brasil, em 2006. Teve um edital pra equipamento de cineclube, sem coordenadoria ou acompanhamento, no mesmo ano de 2006. Em 2008 veio o Cine Mais Cultura, com equipamentos, oficina, filmes, acompanhamento, enfim, o combo completo. Veio a campanha dos direitos do público. Houve uma grande luta na parte da revisão dos direitos autorais, que o cineclubismo teve grande influencia nesta revisão.

Hoje em dia, existem os cineclubes sem apoio de políticas públicas, como existem os diretamente beneficiados. Tem também os pontos de cultura que exibem e que ganham equipamento multimídia. Existem, também, as praticas cineclubistas que não são cineclubes, como SESC, SESI, centros culturais. Digo isto porque a organização nestas práticas cineclubistas não existe com uma autonomia de organização e programação, é um funcionário que está à frente da ação.

Assim sendo, o alargamento da base com um relativo conforto de exibição deixou o movimento cineclubista grande, disperso, com diversas iniciativas que não estão dialogando. Há várias dificuldades físicas e virtuais a contornar. Acredito que, atualmente, o desafio seja criar algum jeito de juntar essa galera e fazer com que se comuniquem, fazer com que haja ações conjuntas. Há um pequeno grupo de toda essa massa que está conseguindo se encontrar e conversar. Enfim, tudo normal, é algo que se conquista passo a passo.

Além de tornar essa grade quantidade de cineclubes mais organizada, outro desafio do movimento é torná-la mais comprometida com o processo interno de valorização e politização do próprio movimento. O CNC (Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros) assim como as Federações e Associações estaduais, as poucas que existem, têm estatutos. Existe um corpo, uma diretoria e filiados. Acaba que estes estatutos demandam muito da diretoria. Contudo, não há instrumentos estatutários ou de regimento interno que engaje, que dê deveres ao filiado de colaborar com a diretoria. Não existe instrumento que faça com que o filiado beneficiado seja obrigado a colaborar com os esforços do coletivo, justamente para lutar pela manutenção desses mesmos benefícios. Qualquer coisa que exista só garante os deveres à diretoria, ficando tudo em suas costas.

 

[Paty] 5. Algum comentário sobre o ECAD e a nova lei de direitos autorais?

 

[Rodrigo] A consulta pública a proposta da nova Lei do Direito Autoral já encerrou. Então, mobilize seu Deputado Federal, seu Parlamentar, porque o bicho vai pegar no Congresso.


[Paty] 6. Quer deixar algum recado?

 

[Rodrigo] Esse negócio do equipamento de exibição chegar até diversos tipos de grupos, de lugares tão distantes das capitais, sendo que muitos destes grupos nunca praticaram cineclubismo antes de serem contemplados por um edital (como uma associação de moradores, por exemplo), é algo fenomenal. Qualquer um poder organizar seu cineclube, tornar-se protagonista, integrar-se a uma rota de comunicação e apoio, de articulação da cidade, do estado e do país que comporta interesses distintos que se somam, constituindo uma grande frente cidadã.

Acho que, no momento, a grande missão é tornar o movimento mais bem informado sobre as possibilidades de mudanças estruturais do cineclubismo, do audiovisual e da cultura no Brasil para, a partir daí, revisarmos todos os nossos conceitos, pois cada nova contribuição que chega faz a roda continuar a girar.

 

Negociando com os Mortos – parte 4 e última

Esta é a última parte da série de artigos sobre o livro “Negociando com os Mortos”, da escritora canadense Margaret Atwood. Quando me propus a criá-la, pensei numa forma de divulgar este livro que tanto gosto, assim como discutir alguns clichês e outras questões do ato de escrever que nunca são esquecidas. Escrever é sempre estar em dúvida, e talvez dessa dúvida tiremos alguma compreensão. Escrever é buscar a luz, procurar por um friso que ilumine o que está escuro, como comentei na terceira parte.

Para concluir essa sequência, não com chave de ouro, mas apenas com um clique da maçaneta, afinal não penso que o assunto possa ser encerrado enquanto houver um escritor com autoindagações e leitores interessados em seu processo criativo, dou uma pincelada geral sobre “Negociando com os Mortos.”

Capa de Negociando com os MortosA obra surgiu de um ciclo de seis conferências dadas por Atwoood na Universidade de Cambridge em 2000. Chamadas de Conferências de Empson, nome diretamente alusivo a William Empson, estudante da mesma universidade que escreveu em 1930, aos 23 anos de idade, o ensaio crítico “Sete Tipos de Ambiguidade” e que fora expulso ao encontrarem anticoncepcionais em seu quarto, os capítulos são quase transcrições destas, dadas para um público composto de acadêmicos, estudantes, escritores, leitores curiosos e leigos. “Escrever é, em si, sempre penoso”, explica Margaret logo na introdução, “mas escrever sobre nossos escritos é sem dúvida pior, em termos de futilidade.” Todo escritor consciente de seu ofício sabe que esta metafísica do ato de escrever pode muitas vezes, senão sempre, ser cansativa, parecer mastigada, um assunto circular e sem saída. Mas também é um exercício de análise, sobretudo para quem ainda se descobre como artista, ou para quem já se descobriu e quer repensar sua condição como tal. É fútil escrever sobre o escrever? Então nos permitimos a futilidade quando Clarice Lispector, Virginia Woolf, Edward Morgan Forster, Roland Barthes, Milan Kundera, Philip Roth, Umberto Eco, entre dezenas de outros, já tentaram desmembrar a escrita mostrando o criador a partir de sua criatura ou como produto dela, metaforicamente ou não, emocionalmente ou literariamente.

No prólogo, a autora faz um rápido esboço dos capítulos:

O primeiro capítulo é o mais autobiográfico e indica também a extensão das minhas referências: essas duas coisas estão ligadas, uma vez que os escritores tendem a adotar seus enunciados no início de suas vidas de leitura e escrita. O segundo capítulo aborda a dupla consciência do leitor pós-romântico: presumo que ainda estejamos vivendo à sombra projetada pelo Romantismo ou em fragmentos dessa sombra. O terceiro capítulo aborda os conflitos entre os deuses da arte e do comércio que todo escritor que se considera artista continua a sentir. O quarto examina o escritor como ilusionista, artífice e participante do poder político e social. O quinto pesquisa o eterno triângulo: escritor, livro e leitor. E o sexto e último fala da jornada narrativa e dos seus caminhos sombrios e tortuosos.
Em suma, o livro enfrenta alguns conflitos que têm ocupado muitos escritores, tanto os que conheci neste plano terreno, como dizem na Califórnia, quanto os que conheci apenas por intermédio de sua obra. Muita escrita ocorre entre uma rocha e um lugar duro, e aqui temos algumas rochas e alguns lugares duros.

Um livro para ser lido e relido, pensado e discutido. Enquanto houver escrita, haverá loucura. E vice-versa.

2010

Quando comecei a me entender por gente, 2010 era uma coisa bem futurística, de ficção científica. Seria o tempo de Jetsons e Flash Gordons.

Cresci ouvindo pregações escatológicas que não me davam nenhuma esperança de chegar a esses dias.

E, mais do que chegar, 2010 já foi.

E segue tudo como dantes, ou pelo menos o mundo segue sendo mundo. Como já disse um enfastiado Salomão no Eclesiastes, não há nada de novo sob o sol. Ou, pra usar um conceito braudeliano, vemos na história do mundo muitas constâncias, a fazer pensar numa “longa duração” em que as mudanças em séculos ou milênios são bastante superficiais.

Mas, para usar o termo que a nossa presidente eleita gastou no debate televisivo, tergiverso.

O negócio é que eu devia dizer que 2010 foi um ano e tanto, que aconteceu muita coisa boa neste mundo e nesta vida.

O nosso portal aqui, só tem a comemorar, do alto de seus 3 anos recém completados. Cheio de novos colunistas, empolgadíssimos, 2011 promete.

Este editor, também teve um ano agitado, coroado com uma defesa de tese que pareceu que nunca chegaria. Em 2011 é mais do que hora de dar retorno à sociedade por todos os recursos públicos investidos na minha formação.

O Brasil também viveu um grande momento, com duas mulheres somando a maioria absoluta dos votos nas eleições. Uma mudança e tanto para um país ibérico de machismo secular e firmemente arraigado. Que a posse de Dilma no próximo dia 1º simbolize o alvorecer de um novo tempo, com um novo lugar da mulher na sociedade brasileira, e sensíveis melhorias nas relações de gênero.

Para onde minha vista alcança, só posso avaliar o ano que termina como um grande ano. E esperar muito de 2011. Otimismo que eu espero, sinceramente, que seja comungado pelos nossos leitores.

E que sirva, mais do que para ficar numa alegria-de-pasmaceira, para um arregaçar de mangas mobilizador: fazer um mundo cada dia um bocadinho melhor está ao nosso alcance. Começando das nossas relações pessoais e familiares, do nosso trabalho profissional, dos trabalhos colaborativos que fizermos em lugares como o OPS, dos diversos tipos de mobilização social que podemos, cada vez mais, acionar. E que nossa participação política não se resuma aos anos de eleição.

São esses os meus votos – e acredito que posso dizer isso também em nome de todos que fazem o OPS: um grande ano novo!

O Meio Ambiente já morreu e só tu não sabias disso!

Alguém, dentre os leitores, fez a sua árvore de Natal com garrafas pet reclicadas, como esta? Ou, ainda, cosntruiu  uma biclicleta de bambu, como esta (aqui tb), e anda por aí? Apenas dois, dentre milhares de exemplos, de coisas ABSOLUTAMENTE INÚTEIS que são usadas, à exaustão, para que você se anime a “defender o meio ambiente”.

Se o meio ambiente depender disso, estamos ferrados. Se depender de quem ostenta com orgulho a “hortinha caseira de temperos e verduras”, estamos ferrados. Quantas pessoas conhecemos que plantam hortinhas? Isso, um exército da salvação do meio ambiente! Que bom que é uma merreca de gente, pois senão mais ferradas ainda estarão as famílias dos pequenos produtores de temperos e verduras que tiram, disso, a sua subsistência. Bela defesa do meio ambiente essa, não?

O discurso da defesa do meio ambiente está morto! Como tudo nesse mundo de consumo exacerbado, de individualismo exacerbado; num mundo descartável, onde a sobrevida de qualquer coisa não passa de alguns meses, ou poucos anos, o modismo da defesa do meio ambiente também acabou. Virou moda e acabou. Resultou apenas em hortinhas, enfeitezinhos, meia dúzia de baleias salvas, discursos inflamados dos ecochatos (meus inclusive), dos ambientalistas e, claro, em reuniões e mais reuniões inúteis de governos e entidades para, ao fim e ao cabo e depois de muita poluição, dizerem que “ficará para a próxima”…

A verdade é que poucas consciências foram mudadas. Pouca gente conseguiu vencer, em si, o modelo de mundo que vivemos. E me referiro aos que relamente importam, aos poucos que suas crenças no capitalismo, na economia tal como posta, são capazes de destruir o meio ambiente – e o tem feito com indubitável competência.

Não é a visão de mundo do zé da esquina  que temos que mudar. O zé da esquina, nós, só existe como colaborador no processo de exastão da natureza. Sim, NÃO É A INDÚSTRIA QUE POLUI, ela tem consciência do que faz; é o zé da esquina, nós, que não fazemos ABSOLUTAMENTE NADA. Quer ver?

Ontem, domingo pós-feriado, fui ao super. Há três anos só uso sacolas de pano. Pois bem, sem mentira, mas devia ter umas duas mil pessoas lá dentro, de tão cheio. Fiquei duas horas passeando e observando. Ninguém, MAS ABSOLUTAMENTE NINGUÉM, das duas mil pessoas, usava sacolas de pano. E mais, no caixa ainda me olhavam como se olha para um ET.

Mais, assim como eu, as pessoas consumiam toda espécie de produtos. E saí de lá pensando: essa gente é que tem razão. É muita hipocrisia minha! 

Que coragem eu teria para parar ali mesmo, na frente dos caixas e berrar: “PORRA, QUANDO É QUE VOCÊS VÃO PARAR DE USAR SACOLAS DE PLÁSTICO? DEFENDAM O MEIO AMBIENTE!!!!” Nenhuma claro! Sou parte dos que acreditam na “moda de defesa do meio ambiente”.

De que adianta um maluco usar sacolas de pano, para defender meia dúzia de tartaruguinhas, se carrega para casa produtos que poluem desde a sua fabricação? Seria o mínimo que ouviria!

Um ano tem 8.760 horas. Quantas horas eu usei para tentar mostrar para outras pessoas que seria possível viver de outra maneira? Juro que infinitamente menos horas das que gastei plantando e cuidando de um pé de tomate que me rendeu dois tomatinhos. Isso mesmo, dois tomates. Salvei o mundo com meus dois tomates.

A verdade é que ninguém, ou só o cara do exemplo, fez uma árvore de natal de garrafas pet. Foi nisso que resultou de mais de vinte anos de “defesa do meio ambiente”: nada.

É hora de mudar!

O Meio Ambiente já morreu, só tu não sabias disso!

Audição, percepção e erro.

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Recentemente li uma entrevista de Dan Ariely – professor da Duke University e do M.I.T, onde ele dizia que não podemos confiar em nosso cérebro. E eu pude comprovar isso! Eu estava no ônibus com a minha namorada, e ela estava me mostrando algumas músicas em seu celular. Era como um teste – ela colocava a música e pedia para eu adivinhar quem estava cantando. Ouvindo apenas através de um fone de ouvido, eu precisava de atenção redobrada para identificar as vozes. Algumas vozes eu identificava na hora – quanto mais familiar, mas rápida a identificação. É necessário também levar em consideração as mudanças de timbre de um artista a medida em que fica mais velho – isso também ajuda a confundir. Autistas savant têm a capacidade de memorizar instantaneamente qualquer informação e lembrá-las para sempre. Nós – sem essa condição – não temos essa capacidade, mas nossa memória armazena informações de acordo com o impacto do objeto ou com a repetição a que é exposta. De tanto ouvir um artista ou banda, é comum identificarmos o “feeling” de um baterista, ou o toque de um guitarrista mesmo em uma música nova (que nunca ouvimos) ou tocando em outro grupo. Isso se dá pela repetição – de tanto ouvir, aquelas características ficam gravadas na memória. Partindo desse princípio de aprendizado por repetição – como em Skinner, só sob o efeito de drogas (lícitas ou ilícitas) é que se pode explicar o fato de Vanusa errar a letra de uma música de seu próprio repertório – ainda mais sendo uma música que nunca saiu deste, e que ela canta há mais de 30 anos. Sobre o impacto é necessário salientar que há o negativo e o positivo, e em ambos os casos a memória é afetada. Assim que ouvi a canção “Burn It Blue” na trilha sonora do filme “Frida”, logo reconheci a voz que cantava em dueto com Caetano Veloso. Era a mexicana Lila Downs – que havia me impressionado anos antes – após audição de seu disco de estréia “La Sandunga”. Embora não tivesse a ouvido tanto a ponto de fixá-la em minha mente por repetição, a experiência fora tão marcante que assim que a ouvi, disse logo que era ela. Voltando ao ônibus e ao teste com minha namorada – com apenas um fone no ouvido esquerdo, ela colocou uma música e me perguntou: – Com quem o Leoni está cantando? Parei um instante, me concentrei e senti a voz. Naqueles poucos segundos vasculhei minha memória em busca dessa informação. Eu disse: – Luiz Melodia. Ela sorriu, balançou com a cabeça negativamente e disse: – Léo Jaime. Era a música “Fotografia” ao vivo – como eu não a conhecia, não pude acertar. Porém eu fui traído por minha memória. Mas pelo menos naqueles segundos de audição, o som que eu ouvi de Léo Jaime era muito parecido com Luiz Melodia – uma voz rouca, um pouco anasalada, num tom baixo.

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 Eu confesso que ouvi muito pouco o trabalho de Léo Jaime – assim como o de Luiz Melodia – mas ouvi ambos o suficiente para conhecê-los. E o mais incrível é que assim que soube que era o Léo Jaime todo o repertório de informação sobre ele veio à tona. Lembrei de canções de sua carreira solo, de seus sucessos e limpidamente sua voz tornou-se viva em minha mente. Foi como um “gatilho” disparado – assim que ouvi o nome do artista a mente logo o identificou. Como eu disse, o mais estranho é como após obter a informação as coisas ficaram claras. O mesmo timbre, o mesmo som, ouvindo apenas por um dos fones – ou seja, nas mesmas condições de antes da informação – mas agora claro. A voz de Léo Jaime estava o tempo todo em minha mente, apenas num lugar onde por meus próprios esforços em não consegui encontrar naquele momento. Precisei de um estimulo para compreender. Ouvindo apenas no escuro – o som ao penetrar meus tímpanos e através de impulsos nervosos chegar ao meu cérebro, abriu no meu arquivo a pasta errada. Ao invés de abrir a pasta “Léo Jaime”, abriu a pasta “Luiz Melodia” – porque por minhas próprias condições eu não pude lembrar, precisei da informação externa – para aí então abrir a pasta certa. A cada novo artista ouvido, a cada novo livro lido ou filme visto, etc., cria-se uma pasta no cérebro com as informações retidas – e será o impacto ou a repetição que vai determinar a medida da lembrança dessas informações. O cérebro é uma máquina tão fascinante que em micro-segundos corrige nossa percepção – transformando o errado em certo. Mas de fato, não confie cegamente em seu cérebro – tenha sempre a mão numa apresentação ou palestra uma cola, pois nunca se sabe quando ele irá falhar, mas uma coisa é certa – como disse o professor Dan Ariely, nunca confie 100% em seu cérebro.


 

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Cantochão

    Há anos, ainda jovem, trinta e poucos  por aí,  já me havia retirado para um heremitério que finalmente libertar-me-ia dos ilusórios anseios que sempre afligiram minha mocidade, como de resto, a toda a humana idade. Pelo menos era nisso que tolamente cria.  Nunca pretendí ser miraculosamente iluminado como um Buda, aos pés duma figueira ou mesmo dum cajueiro, fruta regional mais apropriada a esta narrativa, não, nunca tive tal pretensão, mais apropriada aos santos e iluminados orientais. Sabia que qualquer mudança mental e espiritual demandaria um bom tempo até ser atingida,  e no meu caso, como sou mais retardado que a maioria, levei quase dez anos até poder dizer:    “Estou medianamente amadurecido”.
   Amadureci mesmo, após uma  dezena de longos anos de vida monástica num sítio de um único habitante, por isso costumo chamá-lo de heremitério. Amadureci.
   Só não sabia que frutos maduros caem, despencam das alturas, esborracham-se no solo e apodrecem…  Nunca mais voltei às cidades, nunca mais…
   Também não virei santo, longe disso, aprendi a deplorar todos os santos e todas as religiões.  No meu cantinho, na minha cela, sobre meu singelo catre aprendi a proteger-me da lascívia e lubricidade com tanto rigor quanto  das virtudes pudicícias humanas.
   Anteriormente a esta fase de reclusão, cultivara uma bela amizade de anos com um jovem também inconformado com as injustiças aparentes desta ilusória realidade. Discutíamos com freqüência sobre assuntos de gravidade, sempre no âmbito das filosofias e das religiões. Um bom amigo, que, na realidade, ajudou-me a suportar o fardo da existência durante alguns penosos anos, hoje percebo.
   Pois bem, durante minha permanência no heremitério, recebi, certa feita, a visita desse amigo que muito me alegrou, e, não osbtante muito  espanto me causou. Havia-me internado naquele monastério individual havia cerca de dois anos, por aí, e como as visitas eram raríssimas, só o fato de ter com quem conversar por alguns dias sobre o que mais gostava, filosofia e música, me enchia de alegria.
   Chegados a este ponto devo fazer uma pequena advertência: porque me refiro àquela reclusão como heremitério, não entendam que vivia circunscrito  a um quarto, rezando, recitando mantras ou praticando outras loucuras místicas, ao contrário, vivia em completa comunhão, ou, pelo menos tentava, com a Natureza  (representação da Força Criadora; o Princípio Essencial; o Correspondente da Realidade no mundo dos fenômenos, como dizia meu avô, depois falo sobre isso).
   Durante essa visita, em pleno período chuvoso, divertimo-nos a valer, pescamos, nadamos, mentimos, bebemos e embriagamo-nos quase diariamente. Por fim, o bom amigo confidenciou-me suas intenções para o futuro, o que foi a razão do meu espanto, como vos declarei acima. Ora, o amigo revelou que resolvera abraçar a vida monástica, não fajutamente como eu próprio o fizera.  Já homem maduro, comerciante, bem estabelecido, resolvera que entraria realmente para uma confraria onde levaria absoluta vida reclusa dedicada aos estudos, à meditação e sem nenhuma compensação financeira.  Pessoalmente, considerei que o amigo ficara louco, uma coisa é você viver num sítio,  realizando técnicas de meditação aqui e acolá, observando o passar das horas, dos dias, escutando a Voz dos Passarins,  filosofando,  balançando-se em fresca rede de algodão,  tocando, escrevendo… Outra é você viver num seminário. Seminário católico. Cativo de normas rígidas, mormente contrárias à  própria natureza humana,  escravo de regras questionáveis e absurdas numa rotina castradora deprimente.   Eu mesmo, durante minha juventude, tive a infeliz oportunidade de estudar em semi-reclusão, num monastério onde funcionava o seminário provençal aqui da minha cidade, seminário católico, onde conhecí  com intimidade  o cotidiano de padres, religiosos, monges e reclusos, tudo isso por conta da educação “causada” por pais, avós, e toda uma parentela de judeus convertidos superficialmente ao Cristianismo e profundamente ao livre-pensar, compungidos que foram pelas suas próprias fogueiras inquisitoriais interiores. Taxei, incontinenti  de loucura,  a pretensão dum livre pensador em abraçar com integralidade a vida monástica católica, sem antes provar-lhe, em  pitadas, o fel!
   Abreviando,  para não enfadá-lo muito, amigo e paciente leitor, devo dizer que o bom amigo, que agora é padre numa capital do Sudeste brasileiro, com várias formaturas e detentor do divino dom da oratória, além da sua admirável inteligência e vasto acervo intelectual, há muito abandonou a reclusão e seus votos de pobreza, se é que algum dia os teve. Vive bem, come bem, veste bem, e já deve ter juntado um bom dinheirinho, pelo menos é o que aparenta, por ocasião de suas visitas anuais aqui à terrinha e à minha pessoa. Muito bem, estás de parabéns Padre (…) bom amigo.
   Quanto a mim, a minha reclusão fajuta cedo findou, ganhei dessa experiência, como bônus,  a adaptação ao campo, coisa que nunca tive, apesar de descender de gente do campo. Hoje me considero, integralmente, cidadão interiorano. Matuto, profundamente matuto, rastreio qualquer criação no mato, e sei, até pelo estado das fezes dele, se o bicho está longe ou perto, se vai, ou se vem, se corre ou se vagueia,  monto qualquer animal e domino no laço, sem dificuldades, qualquer touro ou boi ou burro ou vaca. Bem, pelo menos há até bem pouco tempo, uns dez anos talvez… Bom, pra mim, que na juventude sonhara com as salas de concerto internacionais, montar e dominar, no pêlo, um animal é, no mínimo, um acontecimento extravagante…
    Bem, passaram-se anos até que vislumbrei uma parte da realidade, e parte dessa realidade é que não importa onde estejamos para venerar o Autor da Criação através da meditação:  num templo; numa grande cidade; num belo campo, a sós, em meio à multidão, em qualquer lugar, até mesmo num monastério católico, podemos e devemos estar em eterna comunhão com o Criador através de sua obra,  preferencialmente aquela que nos circunda, e a música, muito mais que doce enlevo para a alma, serve-nos como poderoso auxiliar na elevação espiritual derivada da correta sintonia mental e conseqüênte contato com o criador. Muito mais extraordinário que o momento prazeroso da manipulação de cordas e martelos de teclados, é o momento de criação ou apenas de execução ou ainda, apenas a audição daquilo que nos levará a plagas longínquas e paradoxalmente tão próximas, por íntimas e pessoais que são. E o homem, mormente o homem culto e de gênio, há muito sabe disso.  Não é à toa que secularmente existe, em todo mundo, fruto das mais diversas culturas, antigas e modernas, uma variedade de Músicas escritas e executadas com o fim específico da meditação, na tentativa de comunhão com os Elementos, com os Seres Invisíveis Superiores, enfim, com o Grande Compositor. Chinesas, japonesas, tibetanas, indianas… Para onde se vá, há Música transcendental. Agora, geralmente crê-se que só o  mundo oriental é detentor  dessa característica e, tolamente esquecemos daquela forma ancestral de música ocidental há séculos utilizada, e, com frequência,  em rituais religiosos tradicionais,  uma linda forma coadjuvante ocidental de meditação: “O Canto Gregoriano”. O Cantochão, para ser mais exato. Por sua unicidade vocal, ou seja, pela  monofonia ou linha melódica em uníssono, e pelas suas letras, geralmente trechos das escrituras hebraicas ou até gregas cristãs, criam um ambiente formidável para a prática da meditação, da contemplação, sob qualquer formato e corrente filosófica. É realmente musica transcendental auxiliar na prática meditativa.
   O Canto Gregoriano é a mais antiga forma de expressão musical do mundo ocidental
e teve sua orígem no canon judaico.  Tanach (Mikrá), é este o canon, ou seja, é um conjunto composto pela Torá pelo Neviim e pelo Kethuvim, este último constituido por onze livros, dentre eles, os Salmos, atribuídos a Davi. É o primeiro dos Sifrei Emet ou, livros Poéticos: Salmos; Provérbios e Jó  (Tehillim,Mishlei  e `Iyyov).
   Na verdade eram oraçoes cantadas ou recitadas, em que o principal recitava certo trecho, indicando, em seguida, que tal frase deveria se repetida pelos demais, sempre em uníssono. É música devocional acompanhada de profundo conteúdo mistico.
   O que é extremamente interessante, devemos ressaltar, é que a recitação dos Salmos é, ainda hoje,  prática corrente nas três “religiões mais importantes do planeta” , uma vez que, sendo prática da liturgia  Judaica,  também o é, de forma adaptada, na católica  e mulçumana. Claro que o caráter de estilo fugiu muito da sua estrutura rigida primordial com o passar do tempo e, hoje em dia, exceto em alguma sinagoga, dificilmente recita-se um Salmo em plenitude de pureza  textural, e aí está a semiótica como testemunha formal do que digo. O Cantochão, portanto, desde que foi codificado e estabelecido como canto litúrgico, no Século VI, tem se modificado e se adaptado aos tempos de tal forma que até acompanhamento de instrumentos como o órgão já recebeu, mas, o que pode parecer meio esquisito, uma forma musical originalmente constituída de uma única voz (mesmo porque nem existia o contraponto) ser em determinado momento acompanhada por um belo, sonoro e moderno acorde maior, passa a ser salutar e dignificante, uma vez que, no fundo, estruturalmente o que esta antiga forma musical modernizada pretende é simplesmente a comunhão, ou (mais de acordo com a modernagem), a sintonia vibracional do ser com seu criador, do Criador com sua Criatura. Pode existir conceito, reflexão ou pensamento mais  judaico que este?
  Bem, agora que sabemos que pouco importa o ambiente em que estejamos, e que  realmente importante é nosso estado vibracional, ou seja, nosso estado mental referente a uma determinada posição atingida através do desenvolvimento espiritual, podemos vislumbrar tudo o mais que nos cerca, no mundo fenomênico, com esta sereníssima claridade meridiana que nos diz que a busca do zen Budista pode ser a mesma do seminarista católico, desde que haja, em ambos, elevação espiritual suficiente para a comunhão integral com o Cosmo.
   Como não sei encerrar um texto sem oferecer pelo menos um  exemplo daquilo a que me referí. Na música isso é essencial, ademais não conheço melhor forma de discernir sobre determinada música do que ouvindo-a, não é? Sei que o amigo leitor desta coluna é por demais escolado na lida musical erudita, integralmente e até de sobejo, porém, e só como exemplo (pois sempre há os novos e seus afãs em aprender) deixo a seguir alguns links, disponibilizados graciosamente pelo excelente  christusrex.org.  São Ordinários de Missa Católica. Ordinários são o kirie, gloria, sanctus e agnus utilizados durante as celebrações da liturgia Católica. E aqui já venho novamente  com esse palavreado didático que tanto tento suprimir…
    Fiquem, portanto, com esses pequenos mas excelentes exemplos de Cantochão ou Canto Gregoriano, gravados “ao vivo” no Mosteiro de São Bento SP.   Esperamos que essas transcendentais melodias sirvam como evocação aos elevados seres espirituais, que em uníssono, sempre estão dispostos a acudir-nos, sob qualquer denominação!
   Gloria in excelsis Deo Et in terra pax hominibus bonae voluntatis.

Ecce nomen Domini Emmanuel

Panis angelicus I

Veni Sancte Spiritus

Veni, creator

 

O Natal, a Xuxa e o Clã das Adagas Voadoras

 Aprecio a cálida desmesura avermelhada e a felicidade calculada de luzes coloridas que toma conta das pessoas, e dos seus saldos bancários, no Natal, e, principalmente nos dias que o antecedem.

 

O Natal tornou-se aquela bola cremosa de sorvete colorido vencendo a bravura do calor do dia-a-dia no topo de uma imponente sorveteria, mas, que por ser plástica e artifical, sacia apenas os olhos, mas a sede, a fome, a garganta seca de uma delícia real continua: tudo permanece intacto. Tudo tão espontâneo como o natural piscar estelar da iluminação vendida na época.

A ideia de que Papai Noel, e sua adiposa camada de enriquecimento digno, carrega um saco sem fundo e escraviza animais dóceis me faz pensar em como a ociosidade ativa da cultura é capaz de repetir certos constructos como verdades únicas.

Estamos falando de uma massificação que não deixa de ser um processo cultural, e se é cultura precisou de anos e repetições para adquirir tal consistência e força. Quem se perguntaria a utilidade do Natal? Pecado. E então, os culpados necessitariam comprar mais e torturar a santa paz de seus bolsos com parcelas que liquidariam de vez a sua paciência e bem-estar.

No Natal é comemorada uma data relevante para o calendário cristão, certo? Acho que sim. Mas o mercado tratou logo de “monetarizar” a importância da data e multiplicar por mil, ou seriam milhões? E as pessoas, as mesmas que constroem e são construídas pelos aparentemente inquestionáveis processos culturais, trataram em vender afetos e embrulhá-los em caixas vistosas e papéis de presente que sorriem abençoados em seu reluzir financeiro.

Famílias que se reúnem uma única vez ao ano para abraços de perdão. Não poderia ser outro dia? Não, não. Tem que ser no Natal. Tem que ser? Onde está escrita essa regra que torna sua consciência tão assustada a ponto de experimentar pequenos apocalipses internos?

Minha família nunca foi muito fã de reuniões e ceias natalinas, por motivo de forças inconscientes, guerras particulares, e um instinto antigo e natural para arremessar grandes pedaços de peru defumado na ofensa alheia. Depois que assisti ao filme O Clã das Adagas Voadoras, amadureci uma reflexão que só hoje faz sentido: Minha família foi precursora. Os movimentos eram finos e delicados, porque qualquer passo em falso, qualquer escorregão nas palavras e não-ditos acumulados durante todo o ano colocaria tudo por água abaixo, digo, vinho abaixo. Eu torcia para que o Programa da Xuxa terminasse logo e ela parasse de gemer alucinada naquela sua experiência infanto-sexual que só ela sabia amenizar, para que o cansado Papai Noel descesse logo pela chaminé – e aí eu imaginava que na casa do meu avô, que não tinha chaminé, possuía uma larga e limpa com elevador e tudo, para que ele pousasse confortável na nossa sala – e colocasse logo o presente que eu tanto desejava.

Papai Noel foi falhando com o passar dos anos. Aos nove anos, ele trouxe um carro barulhento em que ele próprio dirigia de forma enervada, como se tivesse usado algum alucinógeno violento para dissolver a responsabilidade de ter que atender tantos pedidos. Pensei “Que velhinho filho-da-mãe (Perdão Nossa Senhora. Ele é seu filho?, me questionava com um medo catastrófico de ser um menino mau) narcisista. Devia ter trocado as cartas. Aos onze anos, pela última vez, ele me deu um presente adulto, mas que inseriu em mim uma paixão: uma câmera fotográfica. Todos os meus amigos formavam grupos felizes para compartilhar seus jogos divertidos, seus bonecos que falavam e davam cambalhotas, trens cantores, robôs que guerreavam com inimigos fantasiosos sem sair do lugar, e eu parado fotografando sozinho aquilo tudo. No ano seguinte, ele parou de descer pela nossa chaminé imaginária. E mamãe disse que eu precisava acordar. E eu descobri os vídeos da Xuxa na internet anos depois.

O Natal, o nascimento de Jesus, a fé, o amor, não têm absolutamente nada relacionado a dinheiro. Surge em mim uma alergia devastadora, que corrói minha paciência, quando vejo alguém rezando a Deus para que envie a grande benção de receber o prêmio da Mega Sena. Se Deus não inventou o dinheiro e a relação afetiva que criamos com a moeda, por que Ele se comprometeria em encher os bolsos e a vaidade dos filhos com concentração de renda?

Vitrines iluminadas com detalhes néon avassaladores, grandes anúncios vendendo espíritos novos e renovados para o ano próximo, presentes engraçados que riem encorajados pela fantasia de uma outra realidade que não é apenas paralela, mas a nossa própria, e que não cabe mais em nosso peito, muito menos no bolso.

 O limite do seu cartão não lhe permite comprar o futuro, outra vida, ou amor.

 Natal é tempo de escolhas e mudanças. O que pode ser iniciado a qualquer momento.

E isso não está à venda.