Escola SESC

___Um dos grandes debates que aconteceram aqui no Ops!, no ano passado, foi sobre um dos meus temas preferidos: Educação. Como faz mais de uma década que sou professor nem tinha como não conhecer o catalisador da conversa, o grande José Pacheco, da Escola da Ponte.
___Só que a famosa escola portuguesa, ainda bem, não é a única diferente que existe. Noutro dia, encontrei, no MSN, uma ex-aluna minha, aqui de São Paulo, e ela veio me contar como era maravilhosa sua nova escola, lá do Rio. Como, acredito, para quem se interessa por Educação, como muitos leitores do Ops!, a conversa é bastante válida, segue uma edição dela abaixo:

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Ela: Professor, q bom ver vc aqui.
Estou morando no RJ, em um colégio interno.
Eu: Oi. Colégio interno? Gosta de morar em um colégio interno?
Ela: Muuuuito! É que o que eu moro é um colégio bem diferenciado.
Eu: Q legal.
Só feminino?
Ela: Não, não. Misto
É um colégio laico.
Eu: Graças a deus. 😉 Q interessante. Qual o colégio?
Ela: Escola Sesc de Ensino Médio (www.escolasesc.com.br)
É muito bom… Se você puder divulgar.
Ele é gratuito.
Eu: Interessante…
Ela: Vale a pena falar sobre ele mesmo. Cada aluno ganha um laptop, o colégio tem muita estrutura…
É um colégio modelo do Brasil. E não paga nada, sabe?
Eu: Puxa, que legal.
O assunto bons colégios sempre me interessa.
Ela: é muito bom mesmo
Eu: Vestibulinho para entrar?
Ela: Aham. Na realidade é assim:
Na primeira etapa, tem uma prova objetiva com redação.
Na segunda etapa há uma entrevista com o estudante que passou na prova  e com os pais.
Na terceira, tem uma dinâmica em grupo.
Então, só depois de aprovado nas três, o aluno poderá ingressar na escola.
Eu: Puxa, q legal… Como só costumo saber de escolas aqui de Sampa, nem conhecia.
Ela: É muito legal, até porque ele não dão valor somente ao acadêmico, mas sim, ao convívio social, responsabilidade e esse tipo de coisa.
Além de tudo, ele é novo. Ano passado se formou a primeira turma.
Eu: Interessante. Adorei saber.
Ela: Ah, só para contar: lá tem gente do Brasil todo, porque tem cota por estado.. Nisso, a gente acaba passando férias na casa dos amigos e etc..
Aí, eu acabo conhecendo outros estados.
Eu: Puxa, mas q bacana… realmente parece q a escola pensou em mil coisas diferentes para fazer.
Ela: A melhor coisa que eu fiz foi ter entrado nessa escola.
Não me arrependo de ter “gastado” todos os meus sábados me matando no vestibulinho
Eu: 🙂 Q bom q ajudou…
Ela: nossa, e como me ajudou.
Eu: Nossa… vc me deixou babando… Fiquei morto de vontade de conhecer a escola…
Dá uma enorme vontade de clicar no “Trabalhe conosco”.
Ela: HAHAHAAH, meu, dá uma pesquisada sobre ela.
porque de verdade, vale a pena.
E assim, eu estudava em escola pública antes.. Os professores, tudo, é muuuuuuuuuuito diferente.
Na minha atual os professores tem um carinho pelos alunos, sempre dispostos a ajudar, tratando a gente como filhos mesmo sabe?
Tem professor que mora na própria escola e tem outros que apenas dão aula.
Eu: Bem… como eu tb entrei em uma das escolas dos meus sonhos há dois anos, não planejo sair…
Mas, q deu vontade, deu…
Uma escola q eu queria mto lecinar é uma portuguesa chamada Escola da Ponte.
Ela: aaah entendi.
Escola da Ponte?
O Zé da Ponte deu uma palestra na minha escola
Ele falou muito e realmente, o projeto é muito legal.
Ele se emocionou ao falar, foi muito bom
Eu: Que máximo. Convidar um cara desses para palestrar para os alunos é realmente admirável.

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___A conversa continuou, mas a parte que interessa para o tema termina mais ou menos aí.
___De qualquer modo, seja como for a Escola SESC de Ensino Médio, só ver uma aluna falando bem assim do lugar em que estuda, já é de encher os olhos. Fica aqui um pouco de divulgação e a dica para quem se interessa por esse tipo de iniciativa.

 

Hibridismos Musicais.

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Certa vez o sociólogo francês Michel Mafessoli disse que o Brasil é um laboratório de pós-modernidade. O sociólogo continuou dizendo que o ambiente brasileiro é dado a muitas misturas e que isso representava uma nova concepção das relações humanas. O Brasil é um país mestiço por condição (ou maldição). Desde a colonização a mistura se dá – e nessa mistura é que a identidade da “nação” se construiu e se constrói. Os eugenistas viam na miscigenação um traço de atraso para as nações – e isso é que diferenciava os desenvolvidos dos não-desenvolvidos. Já para Gilberto Freyre, a mistura, a mestiçagem – fora um elemento importante para o florescimento de nossa cultura e identidade. Como dito acima – a mistura é uma “condição” brasileira – e logo estendida em todas as direções da vida social. Aqui sempre nos identificamos com a irreverência, com a inovação, com o desregramento – porém a influência positivista, primeiro européia e depois americana, nos tornou sistemáticos. O golpe militar de 64 trouxe a ordem ao pé de ferro – e a contracorrente disso tudo foi à Tropicália. A grande contribuição do tropicalismo, é a que é possível misturar tudo – lembremo-nos de Gilberto Gil cantando: “eu vou misturar, Miami com Copacabana, chicletes e misturo com banana, e o meu samba vai ficar assim”. Outras correntes que influenciaram muito a tropicália foram a Bossa Nova (mistura de jazz com samba) e o movimento antropofágico – que previa a incorporação de influências estrangeiras lhes tirando suas principais características e fundindo com elementos nacionais. Essa miscigenação causou um fenômeno chamado “hibridismos musicais”. Entretanto, há que se pontuar um segundo elemento constituinte desse fenômeno (junto com a herança de miscigenação) – as força da indústria fonográfica. As massas precisam ser sempre abastecidas com novidades. Criar coisas originais – totalmente novas, não é assim tão simples. Então nessa lacuna entre um estilo inovador e outro, surgem os hibridismos musicais. São pequenos fenômenos, uns locais e outros mais abrangentes, porém de vida curta – justamente dando espaço para outros estilos dada a saturação natural dos mesmos. As massas desprovidas de qualquer senso crítico ou estético, dão margem para a ascensão de bizarrices e toda sorte de coisas ridículas, estranhas e ruins. Mas é enganoso dizer que emergem desse processo somente coisas ruins – há coisas boas também, mas que igualmente saturam por conta de alta exploração do novo gênero. Um dos primeiros hibridismos musicais que conheci foi o “Agrobrega”. O termo designa uma fusão do sertanejo com o brega – o “agro” aqui vem de agrário, rural, porém com doses de mais mau gosto, tipo: “te deu o sol de teu o mar pra ganhar seu coração, você é raio de saudade, meteoro da paixão”.

 

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Esses versos da música de Luan Santana tão festejado hoje, se fossem cantados por um Odair José ou um Fernando Mendes todos iriam achar ridículo e de péssimo gosto. E veja a conexão – Luan Santana é um dos que mais vendem discos no país. É claro que o termo já designou muito coisa – incluindo aí Zezé di Camargo e Luciano, Daniel, entre outros. Mas o brega ainda foi mais longe nas misturas – encontrou a música eletrônica e nos deu o “flashbrega” e o “tecnobrega”. O flashbrega é uma fusão entre o flashdance americano dos anos 80 com as temáticas de Reginaldo Rossi e congêneres, sendo predominante no norte do país entre o final dos anos 90 e o começo dos anos 2000. Já a segunda metade dos anos 2000 foi dos bregas eletrônicos – principalmente da Banda Dejavú. Letras maliciosas, dançarinas com grandes corpos e batidas programadas. Programas televisivos aqui do sudeste (devido ao grande êxodo das regiões norte e nordeste – o público desses gêneros) exploram muito essas bandas. O brega de sucesso é o chamado “bregapop” – onde o Calypso é o maior expoente. É só perceber o que faz a indústria e como ela alimenta esse processo. O pressuposto é o seguinte: se uma banda de uma região e que faz um determinado tipo de música está agradando, de onde ela veio é possível que hajam mais bandas. Essa busca gera a criação de novas bandas – que exageram na mistura, na estética, em tudo – ou seja, massificam-se, pois é isso que vende. Os bregas eletrônicos mais açucarados, mais exagerados, mais forçados receberam a alcunha de “tecnomelody” – já os mais amorosos, bem apelativos (assim como no pagode), caem na vertente “romance dance”. O romance dance foi muito popular no Amazonas em 2001 – com Dj´s influenciados pela dance italiana, faziam festas a céu aberto onde índios e brancos dançavam e se amavam. Isso sem contar o “Drum ‘n’ Jazz” – mistura de jazz com Drum ‘n’ Bass – assim como a Drum ‘n’ Bossa (Fernanda Porto e DJ Xerxes). Reparem, tiveram seu apogeu mas hoje sumiram. A indústria aproveitou, eles ganharam dinheiro, o público curtiu – é a sazonalidade natural da indústria fonográfica. Dentro das tendências relaxantes na esteira da New Age – o lounge foi sem dúvida o mais expressivo. Uma aberração é a “Bossalounge” – mais do mesmo, nada de diferente, apenas mais um estilo para dar opção à massa (entre no amazon.com e veja a quantidade de títulos nessa tendência). É necessário sermos mais críticos e realistas – tudo isso também é obra do capitalismo, lembram-se: ele cria necessidades para depois supri-las. O povo quer isso, então não é apenas culpa do sistema, mas culpa também do povo. Há, mas o povo é alienado pelo próprio sistema – mas porque existem os que não caem nessa alienação? Isso demonstra que o sistema funciona com a maioria, mas não com todos.

 

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O rap é o estilo mais prolífico dos últimos 15 anos. Digo isso pelo que conseguiram a partir de Tupac – os rappers tiraram dos roqueiros as primeiras posições das paradas (Billboard, MTV, etc.). Como o rap virou a “darling” do momento, as fusões surgiram: rap metal, rap core e rap n´roll – além do “samba rap” (Marcelo D2). O samba também é muito farto em fusões. Seja o festejado “samba rock”, ou o controverso “sambaxé” (Harmonia do Samba), ou até o pegajoso “sambanejo” (Raça Negra). O samba rock conheceu popularidade e prestígio, hoje caiu no ostracismo – já os demais nasceram e morreram em poucas paradas. O estado do Pará talvez seja justamente o laboratório de pós-modernidade a que se referiu Mafessoli – dada a sua ebulição de estilos novos (sem juízo de valor). Foi lá também que surgiu o “fóreggae” (Beto Barbosa) – mistura de forró com reggae. O primeiro típico do nordeste (e popular no norte) o segundo oriundo do Caribe (via Jamaica com ponte em São Luís no Maranhão). A filha direta dessa mistura é a lambada. É justamente por esse caráter experimental que o Brasil se diferencia (mais uma vez aqui – sem juízo de valor, isso cabe a cada um), onde mais iriam fundir Ramones com forró? Os brasilenses do Raimundos o fizeram – e embora os Ramones fossem punks, o estilo criado pelos Raimundos (uns Ramones mezzo nordestinos) – é o “forrócore”. A banda Catapulta (tipo um Sepultura nordestino) seguindo essa esteira, criou algo como “fórrometal”. E por falar em Sepultura – eles embora não tenha criado um estilo, fundiram metal com música indígena e com batuques da Timbalada (no álbum Roots). Seria esse hibridismo mesmo parte de nossas raízes? Para bem ou para mal – esse caráter misto faz parte mesmo da “brasilidade” – e como dito acima (a extensão em outras esferas), essa característica adentra não somente a cultura, mas a política, a religião, as relações sociais, etc. Usando a fórmula binária de Lévi-Strauss para fugir da falta de juízo de valor – na política a brasilidade se dá no nepotismo (ruim), na cultura uma das facetas é o hibridismo musical (no meio), na religião o sincretismo (bom), nas relações sociais o jeitinho (ruim) o casamento inter-racial (bom), ou seja, seja ruim ou seja bom, isso é parte do que somos, pode ser até uma maldição (ou condição), mas temos que admitir não necessariamente aceitar.

 

 

 

 

 

vértebra terceira: a entrega

 “o erótico, para mim, acontece de muitas maneiras, e a primeira é fornecendo o poder que vem de compartilhar intensamente qualquer busca com outra pessoa. a partilha do gozo, seja ele físico, emocional, psíquico ou intelectual, monta uma ponte entre quem compartilha, e essa ponte pode ser a base para a compreensão daquilo que não se compartilha, enquanto, e diminuir o medo da suas diferenças.” 

(audre lorde)
 
coloco-me em movimento na tortuosidade dos caminhos, cada passo descobre novas texturas. não digo que ando, trata-se mais de engatinhar, de arrastar-se beirando o chão, com o máximo de pele roçando a terra, o piso, o lençol ou seus pêlos. o corpo balança, curva-se, pende para os lados, quase cai… acho que o erotismo não curte muito o equilíbrio. eros é uma deusa torta, detesta corpos eretos, colunas alinhadas, músculos rígidos, bases seguras, passos retos e posições estáveis. gosta de movimentos imprevistos, daqueles que acontecem nos esbarrões do acaso, no voar de plumas, nos arrepios dos ventos, no acelerar das pulsações, no beijar de retinas e no tocar de sobrancelhas. são nesses movimentos que me faço seu. já que a entrega é colocar-se em movimento.
 
é por ser da ordem do movimento, que a entrega não é rendição, nem afirmação de uma passividade ou anuncio de uma letra de posse que permite o outro fazer contigo o que quiser. quando digo que sou seu, digo que quero me colocar junto a você nos movimentos do inesperado. é justamente o oposto de ficar parado e ser alvo das suas encenações esperadas. só há entrega porque nem eu e nem você pode me ter ou porque eu só posso tê-lo e você só pode me ter na lógica da inconstância, dos passos trôpegos, das pulsações aceleradas. eu sou seu como o mar é da areia ao cariciá-la, como a língua é da glande ao umidecê-la, como a mão é da carne ao apertá-la.  é nesse anseio veemente de ser seu que chego perto, ao ponto de tatear seus cheiros, sorver sua pele e ser puro desejo no encontro de nossos corpos. a minha vontade de ser seu e sua vontade de ser meu fazem com que, no nosso encontro, nos tornemos outras coisas, outras pessoas,  pessoas outras, transformadas pelos nossos movimentos. para que haja transformação é preciso entrega e o erotismo é a arte da transformação.
 
entregar-me a você é abrir-me às transformações que esse encontro provoca e a cada toque de pêlo, mistura de saliva e mordida de lábios, permitir-me compartilhar e experimentar o novo… e a cada encontro tornar-me seu de outras maneiras.
 
a terceira vértebra é a entrega.
 
a poesia de hoje é de alice ruiz.
 
teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo
 
um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

 
(“teu corpo seja brasa”, alice ruiz)

Estação das Chuvas

Quando pensamos em Angola, vem à mente Luanda e sua história sangrenta. Carros encimados por homens carregados de metralhadoras, linchamentos, explosões, ambição por diamantes, comitês e organizações estudantis que sentem na política seu sangue ferver, a independência colocada acima de vidas e das virtudes dessas vidas; busca por liberdade, por dignidade, por direitos arrancados em função de grandes poderes, e às vezes silenciados como são aqueles que rompem barreiras ideológicas; o racismo e o ostracismo abertos e carnudos como uma flor de ódio regada constantemente pela loucura humana. Sobre tudo isso jaz um escombro de esperança.

Capa de Estação das Chuvas“Estação das Chuvas” (Língua Geral, 344 páginas), segundo romance do escritor angolano José Eduardo Agualusa, mistura uma labiríntica história ficcional de personagens bem-construídos com a assustadora história política da África moderna. Estes dois caminhos, um de rica ficção e outro absolutamente jornalístico, se confundem ao longo do livro, sendo quase impossível saber o que é realidade e o que é imaginação.

O romance é dividido em nove partes, cada parte com uma porção de capítulos curtos, o que torna a narrativa mais saborosa e menos cansativa. A primeira e a segunda, intituladas de “O princípio” e “A poesia” respectivamente, expõem um pouco da vida de Lídia do Carmo Ferreira, personagem central do livro, embora quase ausente. Esta figura é apresentada pelo narrador, um jornalista cujo nome nunca é revelado e que ao longo de toda a história intercala vidas de personagens com quem tem uma ligação direta ou indireta, a sua própria vida e breves trechos de uma entrevista que fez com Lídia em 1990.

Em 1975, ano de independência de Angola, o narrador, com quinze anos de idade, foge de casa para se juntar ao MPLA, o Movimento Popular de Libertação de Angola, um pouco antes de sua família entrar num avião rumo a Portugal. Com o amigo Tito Rico, este futuro jornalista é preso e na prisão descobre e vivencia um dos muitos lados negros da sua época. Tudo isso só acontece na quinta parte, “O dia eterno”, pois  a narrativa não é linear. Agualusa inicia o romance contando a história de Lídia, que 17 anos depois, em 1992, recomeço da guerra civil angolana, desaparece. Ainda em 1975 tanto ela quanto sua poesia são apresentadas, e pelas inúmeras quebras e torções narrativas, descobrimos que enquanto estudante Lídia tornou-se obcecada por António Guilherme Amo, filósofo negro africano, cuja vida e obra foram escolhidas para sua tese de licenciatura. Sua história é contada em parte através da busca pelas poucas informações existentes de Amo, em parte por seu envolvimento nos comitês políticos que lutavam pela libertação de Angola até sua prisão, e finalmente por seus relacionamentos com outros personagens que tiveram também alguma relação com o narrador, cujo principal objetivo no enredo é buscar esclarecimentos para o desaparecimento da poeta.

A maior qualidade de “Estação das Chuvas” é sua tecitura e como, numa primeira leitura inatenta, ela pode parecer confusa. Agualusa uniu um ritmo jornalístico não-linear com períodos curtos e uma grande quantidade de diálogos que se misturam às histórias de vida de cada personagem, e isso faz o romance ter um sabor mais original do que muitos outros com o mesmo tema. Cada novo nome apresenta um segundo que nos leva a outro cenário, até que todos estejam interligados pelo horror da história luandense.

altNão é um livro fácil; tem um peso histórico, político e social, transporta o leitor para uma época sombria, não obstante é guarnecido aqui e ali com imagens poéticas, tanto da própria figura de Lídia (“A vida era mais bela em março/ A chuva trazendo a salalé; febres, e entre o lodo/ e os limos/ pedaços de homens armados (a guerra que nunca coube em mim) … O meu coração está cheio de cansaço. Dorme na lama entre as flores. Morri e ninguém soube de nada.”) quanto da voz do próprio José Eduardo Agualusa através do narrador sem nome (“A jovem riu-se, seu riso ecoou fresco e brilhante como um estilhaçar de vidros.”), que como bom jornalista, passeia pela essência de passados humanos para construir seu romance documental.

Se você tem Twitter, tuíte até o dia 3 de fevereiro a mensagem em negrito para concorrer ao livro “Estação das Chuvas” — que sortearei no dia 4 de fevereiro: Quero ganhar o romance “Estação das Chuvas” (@linguageral), do Agualusa, que @alexsens sorteará em sua coluna no @o_ps: http://kingo.to/s2c.

Para participar é preciso seguir o OPS! no Twitter: @o_ps.

Update (resultado): Quem ganhou o livro foi Felipe Bilharva (@FelipeBilharva). Resultado do sorteio: http://sorteie.me/1DcP3Y.


[Recentemente a Língua Geral lançou “Milagrário Pessoal”, outro romance de Agualusa. Conta a história de Iara, uma jovem que descobre, através de seu trabalho como linguista, que a língua portuguesa está sendo subvertida a nível global, e com a ajuda de um professor angolano viaja para o Brasil em busca de uma misteriosa coleção de palavras que teriam sido roubadas à “língua dos pássaros”; um livro de amor, mas sobretudo com a marca do escritor angolano, cujo foco se dá nos aspectos históricos e geográficos de seus enredos.]

O Plano Nacional de Educação e o bônus demográfico

O objetivo da educação não é encher um balde, mas acender um fogo… porém, é mais fácil acender uma fogueira se há combustível no balde
(N. Kristof, China’s Winning Schools? NYT, 15/01/2011)

O Brasil vive um momento demográfico excepcional, pois a população em idade ativa está crescendo e o número absoluto de crianças e jovens (0-17 anos) está diminuindo. Este fenômeno – que os demógrafos chamam de bônus demográfico – abre a possibilidade de o Brasil dar um salto quantitativo e qualitativo na educação. Mas isto depende da vontade política dos governantes e do engajamento cívico da sociedade, da população, do setor privado, da mídia, do terceiro setor, etc.

O bônus demográfico já tem ajudado no aumento do indicador que mede a média de anos de estudo da população de 15 anos e mais de idade. Os anos médios de estudo da população brasileira era de 5,2 anos, em 1992, e passou para 7,5%, em 2009, aumento de 44% no período. Entre as regiões, o Nordeste apresentou as menores médias de anos de estudo: 3,8 anos em 1992 e 6,3 anos em 2009, mas a variação obtida no período significou um aumento de 65%, bem acima das demais regiões. Em termos de situação de domicílio, as melhores médias são encontradas nas áreas metropolitanas, seguidas das áreas urbanas não metropolitanas e, por último, no meio rural. Porém, foram as áreas rurais que apresentaram o maior aumento, passando de 2,6 anos, em 1992, para 4,8 anos, em 2009, variação de 82% no período, conforme estudo do IPEA (2010).

Em termos de raça/cor, houve melhora geral entre 1992 e 2009, com a população branca passando de 6,1 anos de estudo, para 8,4 anos (aumento de 37%) e a população negra (preta + parda) passando de 5,2 anos para 6,7 anos (aumento de 68%). Existe uma melhora conjunta dos níveis educacionais da população por cor/raça, do Nordeste e das áreas rurais, indicando uma tendência à convergência.

Em termos de desigualdades de gênero, os homens tinham 5,1 anos médios de estudo em 1992 e passaram para 7,4 anos, em 2009 (aumento de 44%). Já as mulheres tinham 5,2 anos de estudo, em 1992, e passaram para 7,7 anos, em 2009 (aumento de 47%). Portanto, as mulheres possuem níveis médios de instrução maiores do que os dos homens e esta diferença está aumentando, a favor das mulheres. Isto é o exemplo clássico de desigualdade reversa, pois as mulheres tiveram maiores dificuldades de acesso à escola na maior parte dos 500 primeiros anos da história do Brasil, mas ultrapassaram os homens e estão ampliando a vantagem conquistada.

Para que um país promova o desenvolvimento social, a educação tem que ser encarada como um investimento (e não como um custo) e, principalmente, como um direito básico de cidadania. O Brasil precisa avançar na educação, reduzindo as desigualdades existentes. Neste sentido, é fundamental a proposta do O Plano Nacional de Educação (PNE), encaminhado pelo Ministério da Educação, com vistas ao cumprimento do disposto no art. 214 da Constituição, estabelece as seguintes diretrizes para a educação nacional no período 2011-2020:

I – erradicação do analfabetismo;
II – universalização do atendimento escolar;
III – superação das desigualdades educacionais;
IV – melhoria da qualidade do ensino;
V – formação para o trabalho;
VI – promoção da sustentabilidade sócio-ambiental;
VII – promoção humanística, científica e tecnológica do País;
VIII – estabelecimento de meta de aplicação de recursos públicos em educação como proporção do produto interno bruto;
IX – valorização dos profissionais da educação; e
X – difusão dos princípios da equidade, do respeito à diversidade e a gestão democrática da educação.

Particularmente importante são as três primeiras metas do PNE que visam ampliar a oferta de creches e universalizar o ensino para as crianças e jovens entre 4 e 17 anos:

•    Meta 1: Universalizar, até 2016, o atendimento escolar da população de 4 e 5 anos, e ampliar, até 2020, a oferta de educação infantil de forma a atender a 50% da população de até 3 anos.
•    Meta 2: Universalizar o ensino fundamental de nove anos para toda população de 6 a 14 anos.
•    Meta 3: Universalizar, até 2016, o atendimento escolar para toda a população de 15 a 17 anos e elevar, até 2020, a taxa líquida de matrículas no ensino médio para 85%, nesta faixa etária.

Referências:
IPEA, Comunicado da Presidência nº 66. PNAD 2009 – Primeiras análises: Situação da educação brasileira – avanços e problemas, 18 de novembro de 2010. Disponível em:
http://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/comunicado/101118_comunicadoipea66.pdf
PNE 2011-2020
http://www.todospelaeducacao.org.br/comunicacao-e-midia/noticias/12514/mec-divulga-plano-nacional-de-educacao-2011-2020

Não sei se a questão é de acreditar ou de não acreditar!

altMas não resumiria a isso apenas. Por exemplo, se alguém me disser que espiritos existem e se comunicam com os vivos, pode ser que não acredite. Mas se me disserem que a simples presença de um vivo em um ambiente pode perturbar a todos os demais, aí acredito. É uma questão de filtor, entendes? Usar o filtro da comprovação da ciência, que me diz que somos energia e que energia se transmite de um corpo para outro. Daí a aceitar que energias negativas se transmitam dessa pessoa “ruim” para as demais, é um pulo.

Claro que isso leva a pensar que também pode ser uma questão de sensibilidade. Assim como eu sou capaz de utilizar a razão para elaborar a energia, outros são capazes de utilizar a sensibilidade para elaborar a presença de espiritos e suas ações no mundo dito “dos vivos”. Mas há uma consequência importante nessas poderações: ou obtemos uma certeza ou não. No primeiro caso, a certeza é “certa”; já no segundo, creio que não. E por quê? Porque no segundo caso, tudo sempre depende de intermediação. Há sempre alguém no meio do caminho e que interferirá, com toda a sua vida, no processo. No primeiro caso, não.

A humanidade desenvolveu conceitos e provas que independem de mim. Se jogar uma pedra para cima ela cai. Quer queira ou não. E onde vai cair e que velocidade, só dependem de coisas outras que não eu: a força, a massa, o ângulo, todas coisas que, se repetidas, resultaram que a pedra cairá sempre no mesmo lugar.

Mas não tem sido assim com os relatos do além. Ou com visões de mundo como a da minha mulher que ontem me disse que as igrejas são lugares cheios de boas energias, sagrados, puros. Tive que discordar, pois um lugar que recebe pessoas não pode ser bom. A não ser que seja um sumidouro de energias negativas, uma espécie de buraco negro da humanidade.

A coisa toda me parece simples: quase que cem por cento de nós somos, em maior ou menor grau, em maior ou menor tempo das nossas vidas, o que há de pior no mundo. Vivemos sacaneando o próximo a todo momento e depois vamos à igreja, ou templos, rezar. Tenho certeza que essas autoridades que descuidam – ou estão se lixando – dos que moram em áreas de risco vão à missa aos domingos. E posam de bons cristãos. Conheço pessoalmente muitos empresários que f@ com os trabalhadores e religiosamente vão à missa! E a templos, e a terreiros e ao escambau. Todo mundo tem um colega louco pra te puxar o tapete. Famílias são coisas lindas, né? Mentira, é só no papel, ou no discurso dos moralistas e defensores seja lá do que for. Família é um atraso na vida de todo mundo. E se colocar algum dindim/bem no meio então…  Aí a coisa toda se mostra. Se alguém me disser que tem uma família como manda o figurino, só posso dizer que é …

Meu bem, meu bem; meus bens, meus bens. Espelho, espelho meu, há no mundo umbigo mais lindo que o meu? Essa é a triste realidade da vida que todos tentamos esconder.

Fora que falamos os celular enquanto dirigimos, estacionamos em local proibido… Ih! A lista é gigantesca e do conhecimento de todos. Desses mesmos todos que entram em igrejas, templos e o escambau…

Então, como podem lugares como esses serem “santos”, se frequentado por todas as maldades do mundo?

Como diz aquela hashtag do Twitter, #prontofalei.

 

(imagem: daqui)

Aprendendo a viver com Kurosawa

Cena do filme Viver, de Kurosawa

Acabo de ver o filme Viver (Ikiru, 1952), de Akira Kurosawa, por indicação de um amigo. O filme conta a história de Watanabe, pai de um filho já adulto, viúvo há muitos anos, e chefe de seção do departamento de negócios públicos da prefeitura. Ao longo de três décadas, ele trabalha na mesma repartição, lidando com os mesmos velhos problemas.

O cargo de chefe de seção concede a ele um poder mediano: usar seu minúsculo carimbo para validar requerimentos, que passam pelas mãos dos muitos funcionários que compõem a administração pública. Mas só ficamos sabendo tudo isso sobre Watanabe ao longo do filme, que começa exatamente quando algo acontece para desestabilizar esse funcionamento racional, previsível, estruturado e formalizado em que ele se insere. Watanabe-san fica gravemente doente. E é seguindo seus passos a partir de então que Kurosawa vai investigar, em belas cenas e diálogos repletos de significados, a burocracia estatal. O diretor mostra, é claro, o Japão do pós-guerra, que acabara de retomar suas relações com os EUA e trabalhava pela recuperação econômica. Várias situações do filme fazem a menção a essa relação com o Ocidente e ao impacto da economia nas vidas das pessoas.

O personagem principal descobre a doença e sai em busca do que existe do lado de fora desse mundo em que ele passou a vida toda. Em sua melancólica busca, ele tenta se transformar, vive encontros, descobre aspectos da vida que jamais conheceu, mergulha em excessos, em ternuras nunca suspeitadas.

Revisitando Weber

A história me levou a lembrar dos escritos de Max Weber sobre a burocracia, aspecto da racionalização na moderna sociedade capitalista. Embora fale do Japão em uma certa época, o filme, visto por olhos ocidentais, é uma referência direta à burocracia, até porque seu modelo de funcionamento é o mesmo em qualquer parte do mundo.

Um membro da burocracia administrativa, nos revela Weber, obtém certo status social: ele passa a integrar o sistema de decisões políticas daquela sociedade. Sua posição ali depende exclusivamente do cumprimento de regras impessoais e da execução de deveres, sempre a partir de critérios técnicos. O burocrata tem funções limitadas e está sempre sujeito ao crivo do funcionário que lhe é superior hierarquicamente. A hierarquia é a estrutura da burocracia e a posição de cada um é definida por suas competências técnicas.

A burocracia é o império do tecnicismo, que domina o cotidiano, como Kurosawa mostra tão bem ao enquadrar os indivíduos cercados por montanhas de papéis, ao incluir na trama cenas em que os problemas são levados de departamento em departamento, sem encontrar a solução, ao retratar os gestos automáticos, as normas de reconhecimento, os indivíduos em  busca de “sonhos e obsessões” para aliviar o peso do técnico, a reprovação a tudo e a todos que se destacam nessa lógica uniforme.

A autonomia de cada indivíduo na burocracia é restrita. O acesso aos recursos que possibilitam qualquer ação é inexistente. Qualquer tipo de critério que não corresponda a uma regra técnica, por mais lógico e justificável que seja, é banido de seu universo. Os únicos compromissos e os únicos critérios de um burocrata são aqueles que atendem à lógica do sistema administrativo. Fugir dessa lógica é um risco elevado, porque ameaça o funcionamento do conjunto e desperta desconfianças e hostilidades de todos que estão à sua volta. A ação individual, se não é impossível, é cerceada por todos os lados.

A burocracia, como se pode perceber, suprime da tomada de decisões um critério problemático: o compromisso com o outro. E tudo isso está ligado a um dos conceitos mais bonitos da sociologia, também criado por Weber, o de “desencantamento do mundo”.

Entre os diversos dilemas que Watanabe-san enfrenta no filme – e que Kurosawa aborda em cada um dos diálogos do personagem principal com o filho, o desconhecido do bar, o paciente na sala de espera, o médico, a colega de trabalho – o mais importante é: como sair dessa lógica indestrutível?

Há saída?

Watanabe-san só encontrará a saída para o mundo burocrático em si mesmo e justamente no elemento que falta a todo esse sistema: o compromisso. Ele decide se dedicar a um caso, o de uma comunidade que pede uma obra de benfeitoria da prefeitura.

Ao se comprometer, ele recupera sua possibilidade de ação, constroi uma nova rede de relações, mas encontra também um sem número de entraves pelo caminho. Para o velho sistema, ele é um Quixote, desperdiçando sua vida numa luta inútil. Isso é exatamente o contrário do que ele mesmo pensa. E são esses questionamentos – o que é viver? o que é desperdiçar a vida? – que o filme nos leva a elaborar. Mesmo porque todos nós, em algum momento, já nos deparamos com os altos muros que a burocracia coloca entre as pessoas.

Watanabe-san encontra uma resposta pessoal para as questões, mas isso tem impacto em todos ao seu redor. Por isso, outro questionamento logo se impõe: que significado tem o comprometimento de um indivíduo para a lógica burocrática? Pode um indivíduo ameaçar uma rede de práticas e relações que oferece vantagens como a redução dos conflitos entre seus membros, a segurança e proteção criadas pelo próprio sistema, a cumplicidade e o reconhecimento internos, além, é claro, da leveza própria da ausência de comprometimento?

Como diz um dos personagens do filme: “o melhor caminho para proteger seu lugar no mundo é não fazer nada”. Uma resposta que a sociologia e correntes filosóficas como o existencialismo se recusam a aceitar. Mas da qual, ao contrário de Watanabe-san, nem todos conseguimos escapar.
 

É preciso pernas para a conquista do mundo?

 
Nasceu com as pernas fracas, só arriscando os primeiros passos aos cinco anos: tinha medo de iniciativas. Mamãe rastejava, agarrava-se aos móveis, pra lá, pra cá, limpando panelas, preparando refeições, reparando na casa crescente lá debaixo de seu mundo operoso. Pernas fracas e finas; “poliomielite reversível”: assustou a mãe e o pai seu primeiro pensamento.
 
Quando então percebeu que as pernas finas sustentavam o corpo inteiro arriscou-se a caminhar. Poderia aprender a ler, escrever, ir pra escola, inventar a história da menina bonita que corre assim que nasce.
 
Foi uma doença o que a feriu. Veio do nada. Escolheu-a, pois, na infância, é mais fácil atacar, e desferir nas pernas o golpe. E ela, sem palavras, choramingando, sem saber o que era consciência das pernas, temia o futuro: não caminhar impediria a coragem de transbordar dos olhos. Olhos verdes. Sem sombra de medo. A compensação do corpo.
 
O irmão mais velho, operante, nunca a julgou. Ensinou-a técnicas de caça, de desbravar quintais, lançamento perfeitos para derrubar jatobá, sem precisar comê-los. Esclareceu que as coisas eram daquele jeito: homens sempre um passo à frente. Ela, com compreensão de quem não caminha e tem apenas cinco anos, balançava a cabeça acatando a inteligência do irmão Carlos, que em pose de rei já era homem para salvar a irmã.
 
Quando aprendeu a caminhar, o receio era de reversão. Tudo que fez dali para adiante foi exagerado: limpava a casa na carreira, voando, com a vassoura em punho, baratinava de um canto a outro, sentindo as pernas reinserindo-a no mundo. Ela vivia, e caminhava. Quando era panela que precisava lavar, pulava sem sair do lugar, rumor de música no sacolejo das pernas; juntos aos movimentos havia os gritos, para que as pernas se mantivessem acordadas, e nunca mais caíssem no sono.
Aprendeu a ser valente: ponta-pé nos arrogantes.
 
Tornou-se decidida e corajosa: “Ahhhhhh, quer quebrar minhas pernas, menino!”
 
Fugia quando os pais plantavam desentendimento em casa. Agarravam-se, as mãos dela e do irmão, e corriam para algum lugar onde o mundo parecesse ser outro. O irmão chorava suplicando justiça, enquanto ela rezava para que as pernas não entristecessem. Abraçava-as. Fazia carinho. Expunha-as ao sol. Coçava-as. Cuidava para que elas não a deixassem sem chão.
 
Cresceu. Passos firmes, mas sem muita direção. Veio um grande amor. E a gravidez a fez sentir-se pesada. As pernas agüentariam. O filho salvaria seu futuro. Ela e ele seriam quatro pernas em busca de terra firme: Eles. Nós.
 
Nunca soube se queria direita ou esquerda; seria abusar das pernas; elas que a levassem para onde quisessem. O futuro não era feito apenas de escolhas tão simples. Poderia errar, cometer absurdos, ensinar o filho a viver, caminhar quilômetros e mais quilômetros, desde de que saísse do lugar: o que uma mulher com pernas não seria capaz de fazer!
 
O filho, eu, nunca aprendeu a caminhar com as próprias pernas; vire e mexe pede os passos da mãe emprestados. Ela cede: retira-os, coloca-os na vida do filho, e fica em casa esperando notícias de um futuro menos ingrato.
 
Queria que o filho tivesse nascido da batata de sua perna magra: fosse mais corajoso o menino. Nasceu mesmo do ventre, nove meses como os outros, molengo e cabeçudo; filho de uma barriga jovem: vai ver por tal causa vive empurrando com a barriga a existência.
 
Caminha sem parar ainda hoje em dia, atualizada. Carrega a eternidade na escassez das pernas. São firmes e sempre escondidas nas mesmas calças: mesmo com coragem não é exibindo-se que a vitória tenta aproximação.
 
As pernas, que de estupidez infantil não desbravaram o mundo ainda cedo, hoje, vivem a sorrir: limpam a casa, vão ao colégio, acompanham o único filho, admiram outras pernas mais torneadas. Alegres, elas até sonham com silicone, mas receiam ofender outra doença. Escolhem continuar mirradas e saudáveis.
 
Hoje, acreditam em Deus. E não abrem mão da felicidade. Sorriem com passos largos as pernas de outrora. E pernas, pra que te quero!
 

Einstein Cearense

    Atualmente, tenho empregado grande parte de meu tempo na consecução tanto de um prefácio, como da crítica ou, deveria antes dizer (já que deploro a Crítica), das notas que estou a fazer, de cada capítulo de um livro de autoria dum filósofo/visionário brasileiro do início do século XIX. Digo visionário, pois que seu estilo, repleto de visões futuristas, vaticínios, prognósticos e premonições, imprimem à sua obra  um ar romanesco fabuloso, como na obra de Júlio Verne, e não poderia ser diferente, haja vista nosso filósofo ser considerado por seus biógrafos, o introdutor, em nossa terra, do romance de cunho filosófico. Só para citar um exemplo, poucos anos após o advento da lâmpada incandescente de Edison, (1879) nosso cientista precognitivo sentenciou que um dia veríamos, como que encerrada em globo de cristal, a luz solar, a substituir a luz do gás, azeite e velas. Não referiu a ampola cujo oxigênio fora evacuado de seu interior e dotada de filamento de carvão, como a de Edison, muito menos à lâmpada de arco voltaico de H. Davy, (1800) contemporânea daquela e igualmente emissora de fortes ondas de calor (3700 Graus Celsius) posto que o autor visionário afirmasse em outro livro, a qualidade não depascente da luz solar no vácuo, ou seja, no ambiente em que estaria “encapsulada” naquele momento, portanto, quando descreve um globo de cristal (ou ampola sem filamentos) a emitir luz fria capaz de iluminar ambientes inteiros, estava referindo, a meu ver, (e só pode ser isto, já que não há até o presente momento, do ano 2011, nenhuma outra forma de emissão de luz fria) aos modernos Light Emitting Diode (diodos semi condutores) ou seja, pequenas ampolas transparentes a emitir luz fria e, atualmente, amplamente utilizadas na iluminação de ambientes. Se bem que já existe, embora ainda em pesquisa, a luz de óxido de zinco, que na verdade é também uma fonte de luz fria em estado sólido “branca, brilhante, agradável ao olho humano e adequada à ilminação de qualquer tipo de ambiente… Os pesquisadores estão produzindo luz branca centrada na parte verde do espectro eletromagnético aplicando um composto à base de enxofre sobre um preparado feito com nanopartículas de óxido de zinco e de fósforo. O fósforo converte as freqüências excitadas de um LED que emite luz na faixa do ultravioleta em uma luz branca e brilhante.”
   Em outra visão mais, digamos, audaciosa, nosso herói afirma que “Dominará, em pleno vigor, a eletricidade como também outra força ainda incipiente ou não conhecida. As fotografias, aperfeiçoadas e com o auxílio dessas forças, retratarão de país a país, as pessoas e as falas, palavra por palavra, ficando assim estabelecida a ubiquação real do pensamento”. Ora, a este enunciado, alguns de seus biógrafos atribuem a premonição da invenção da televisão, o que me parece medianamente correto quando se analisa, em particular, a afirmativa que “a fotografia aperfeiçoada (lembremos que já existia o cinema de Antoine Lumière, de 1895, baseado no cinetoscópio de Edison de 1891) e através da eletricidade retrataria, em todo o mundo, as imagens e o som”. Só um pequeno detalhe faz esta visão afastar-se da invenção da Televisão propriamente dita, como a conhecemos nos dias de hoje: A inclusão do vocábulo “Ubiquação”. O termo “ubiquação do pensamento”, utilizado pelo filósofo, se o analisarmos com imparcialidade e autonomia crítica, muda totalmente o objeto de sua previsão. Vejamos: em qualquer dicionário o verbete Ubiquação é definido como a “Faculdade de estar presente em vários lugares ao mesmo tempo”. Bem, digamos que, estando a televisão em pleno gozo e execução desta onipresença num acontecimento internacional como por exemplo, numa corrida de carros fórmula um ou, numa copa mundial de futebol, pergunto: Onde está a ubiquidade do pensamento nestes eventos meramente esportivos e futebolísticos? Como resposta digo que “não há ubiquidade de idéias (conhecimento) nestes casos”.
   A forma atual de difusão de imagem e de som através da eletricidade, com perfeita ubiquação do pensamento, ou seja, com ênfase na difusão do conhecimento humano, a meu ver, (neste caso singularíssimo) não sendo realmente essa a premissa da Televisão, só pode ser, e creio ser esta idéia a mais exata, a própria rede mundial de computadores. O objeto das visões do cientista filósofo, portanto, só poderia ser a atual Internet, que se utiliza tanto da imagem como do som, com o nobre fim da ubiquação do pensamento humano (pelo menos em tese). Em resumo: imagens, sons e idéias (pensamento) transmitidas em tempo real e com direito a feedback? Para tal acontecimento só conheço um designativo: “Realidade Virtual”.
   Bom, discutir algo como a Internet mais de meio século antes de seu advento, e, quase vinte anos antes da própria Televisão é, a meu ver, simplesmente fascinante.
  Como hoje sabemos, a energia irradiante que são as ondas eletromagnéticas emitidas pelo sol, variam dentro de uma variada gama de freqüências, dentre elas o infravermelho, e para que este infravermelho se transforme em calor, é necessário que ele incida sobre uma superfície que a absorva, como a do nosso Planeta.  Ao emitir, de volta, esse infravermelho em forma de ondas de calor, o efeito estufa causado pela camada de gás carbônico preserva parte dele, aquecendo, desta forma, a atmosfera terrestre. Outra vez nosso herói visionário causa espanto, ao afirmar que a luz do sol (a luz visível) “não é, no vácuo, absolutamente depascente” (termo em desuso mas, muito empregado à época) “e que, somente ao adentrar a atmosfera terrestre adquire esta característica”.
Ora, com esta afirmativa, consignou formalmente e com muita propriedade científica, a estrutura material da luz, e foi mais além, afirmando que ela (a luz) como matéria, sofreria os efeitos gravitacionais de grandes corpos selestes, asseverando que chegaria ao Planeta Terra de forma angular, Angular? É, desta forma está provado que nosso sábio antecipou-se em 14 anos à comprovação, pela equipe de Einstein, do  enunciado: “a luz varia nas proximidades das grandes massas celestes e força e matéria são uma mesma cousa”. Que ocorreu em 29 de maio de 1919. Lê-se em “Há Dialetos no Brasil? Fatores da Unidade política da América Portuguesa – Um Cearense Precursor de Einstein”, de Amora Maciel: “Eddington diz que, para Einstein, o espaço é abstração, é convencional, sendo que pela Teoria Especial da Relatividade, surgida em 1905, o tempo local era o tempo para o observador móvel e que não existia o chamado tempo real, absoluto. A.S.Eddington escreveu ainda que a combinação dos espaços e tempos locais, em um teto de quatro dimensões, foi obra de Minkoswski, em 1908, e que em 1913 Einstein venceu todos os obstáculos, para, afinal, em 1915, publicar a sua Teoria Geral, que somente chegou à Inglaterra um ou dois anos após (1916 ou 1917), constituindo, assim, o objeto principal da obra do mencionado catedrático de Mecânica. Enquanto isso, já em 1907, no Ceará (Brasil), estava concluído o alentado trabalho do pensador cearense, o qual lhe custou 40 anos de meditação”.
   Em um de seus livros, Fragmentos de Filosofia Natural e Especulativa, lê-se: “Que é o Tempo? Uma ficção, sem correspondente na realidade. Não existe Tempo. A Eternidade não tem passado e não tem futuro; é só o presente. Não tem ontem nem amanhã. Hoje somente. As cousas desenvolvem-se simultaneamente no infinito…”
   Não podemos esquecer que o grande Einstein fora doutor em Filosofia, pela universidade de Zurich, por volta da época em que nosso herói publicava, na Europa, suas teorias, em livro cuja primeira edição rapidamente foi esgotada. Nada mais natural afirmar que o jovem e brilhante Einstein estivesse sempre “antenado” às teorias filosóficas e científicas da época não? Talvez, e aí vai uma mera especulação: Teria o Pai da Teoria de Relatividade lido as teorias de nosso cientista Cearense? Creio que é possível sim, afinal, um homem de elevada cultura, detentor de um cérebro extraordinário como Einstein, deveria, com naturalidade, devorar com ânsia intelectual, toda produção filosófico-científica de sua época. Tanto mais aquela publicada tão perto de si, por um filósofo, cientista e, Judeu.
  Bem amigos, logo que consiga concluir esta pequena revisão crítica que está a me ferver os miolos, na tentativa de levá-la a bom termo, e após sua necessária publicação, estarei, imediatamente disponibilizando-a, tanto em meu blog pessoal, o www.pianoclassico.org como em diversos outros sites da Web, naturalmente de forma totalmente graciosa, como é nosso costume e nossa filosofia, mesmo porque, como todos sabem, deploramos a tal Lei de Copyright, e vamos mais além, ao afirmar, estóicos que, “nenhuma forma de arte e cultura pode ser taxada ou a ela tributada qualquer vantagem financeira através dos desprezíveis direitos autorais”.
   Por agora, despeço-me saudando-vos com um forte abraço!

 

 

 

Modigliani: a potência e o delírio de um artista da vida

 “Ele não tinha nada de parecido com alguém no mundo.”

 Ana Akhmátov

Amadeo Modigliani, bem como outros grandes pintores de sua época, é um artista de forças. Sua pintura não é fundada, em primeiro momento, nos aspectos técnicos e na primazia de elementos cromáticos ou em quaisquer que sejam os métodos para composição técnica de uma obra de grandes exigências. Modigliani é – antes mesmo do estilo que imprimi em suas telas – um artista por excelência, cuja vida e obra – e os acontecimentos que a potencializam – estão simbioticamente atreladas.

A pobreza e a não aceitação de sua obra foram fatos recorrentes durante quase toda a vida de Modigliani; fatos que talvez tenham sido, sob aspectos pontuais, fundamentais para o caráter de sua pintura. Modigliani possuía algo comum apenas aos grandes homens, uma radicalidade que se dava em um nível perigoso, sobretudo, em relação a sua maneira de ser. Para preservar-se enquanto artista recusou, durante muito tempo, as possibilidades do mercado evitando, com isso, a corrupção e má apropriação de seu trabalho por parte do precário senso estético dos consumidores de arte – estes, em qualquer época, sempre dispostos a diminuir a potência das obras. Modigliani não era um homem comum e, por isso, seus traços também não eram. Assim, pela não aceitação da vulgaridade, se fez artista.  

Os elementos figurativos de sua pintura fazem menção, quase sempre, a seus vividos. Um dos elementos interessantes de seu trabalho está no aspecto da figuração, que ganha propriedade em seu aspecto narrativo, mas que, porém, se aproxima – diga-se de passagem, por admirável contradição – do que Cézanne chamou de “sensação”. Essa sensação a qual se referia Cézanne é o processo perceptivo onde há ausência de intermediários narrativos, figurativos e conceituais. Esse limiar entre aspectos narrativos e de sensação é uma questão, talvez um jogo de forças que demonstre a singularidade da pintura de Modigliani.  Há, pois, a narrativa que se desenvolve dentro de um trabalho que, sob certos aspectos, se propõe a narrar aspectos comuns às próprias vivências do artista; e há a expressão do corpo que, em muitas obras, dispensa os intermediários figurativos e narrativos – talvez, aí, postos em segundo plano. A dimensão máxima dos aspectos conflitantes citados podem ser analisados nas pinturas em que Modigliani faz referência à sua mulher, Jeanne. Os elementos visuais e narrativos ali presentes encontram-se sob tensão no tocante ao caráter da obra em si. Este limiar, entre aspectos diferentes, que impossibilitaria outros autores por implicação mutua acaba sendo, em Modigliani, um dos seus pontos mais marcantes. Fato é que Modigliani cria a partir da necessidade que tem enquanto artista e, com isso, desenvolve uma pintura singular cujo traço delirante se dá à construção de perceptos – esses “pacotes de sensações e relações que sobrevivem àqueles que os vivenciam.” (DELEUZE, 2010, p.175)

A forma alongada – característica marcante de seu traço – é outro ponto de tensão a ser analisado por seu aspecto representativo – se é que de fato existe enquanto forma de representação. Essa, no entanto, é uma questão que sugere descaminhos cujos perigos talvez agora nos façam tropeçar.

Em última análise, o que se quer aqui é desmistificar a idéia absurda que faz cindir, de forma abusiva, a vida e a obra de Modigliani. Tal idéia consiste num pretensioso, e moralista, modo de julgamento de uma existência marginal, cujos propósitos estéticos – e políticos, também! – sempre mostraram um talento e um exímio tratamento comuns tanto à vida como à arte. Separar a vida e obra de Modigliani é tornar seu traço um borrão e sua vida um mero estampido de imoralidade. Modigliani construiu-se em meio aos delírios e a embriaguez e fez de sua conduta e de sua arte uma máquina contra a vaidade burguesa que contaminava o meio artístico de sua época, por isso o sucesso não lhe parecia atrativo.

É necessário, sobretudo, que se tenha por princípio o respeito aos modos pelos quais se pode potencializar a vida, dessa maneira
O que importa é como se está habituado a temperar sua vida; é uma questão de gosto, se se prefere ter o aumento de potência lento ou súbito, o seguro ou perigoso e temerário – procura-se este ou aquele tempero sempre segundo seu temperamento. (NIETZSCHE, 2006, p.177-178)
           
Ora, se há motivos suficientes que possam fazer do corpo-drogado um artista, a exploração deste é para o homem-artista inevitável – e assim, por risco de frustração e traição do desejo e necessidade criadora. O raxixe e o álcool não foram mais do que temperos para a singularidade de Modigliani, esse homem de coerência, contradições e delírios.
 
 
 
 

BIBLIOGRAFIA:

 

DELEUZE, G. Conversações. São Paulo: Ed.34, 2010.
NIETZSCHE, F. Obras incompletas. São Paulo: Abril, 1996. (Coleção Os Pensadores)