O caso dos ciclistas de Porto Alegre

Uma das artes mais difíceis para os seres humanos é a de evitar fazer julgamentos apressados, movidos pelas emoções que as situações despertam. Ter paciência para esperar que todas as circunstâncias apareçam, para daí então, realizar um julgamento o mais racional possível, está cada vez mais complicado.

Tentei fazer fazer isso no caso do atropelamento dos ciclistas, ocorrido semana passada em Porto Alegre, apesar de ter ficado, como todo mundo, extremamente chocado, revoltado e impossibilitado de entender como alguém teve a capacidade de fazer aquilo. O primeiro apelo para a razão é de que o motorista do veículo estivesse drogado ou alcoolizado. Sumiu três dias para evitar o flagrante e a comprovação do estado alterado.

Mas eis que a família e o advogado contratado para defendê-lo se apressam. Em matéria de hoje, 28/02, no portal ClicRBS (aqui) dizem que ele teria agido em “legítima defesa”, pois “ameaçavam virar o caro”. Que fez tudo isso em defesa do filho de 15 anos (uma “criança”, como consta na notícia).

Diz a mãe da “criança”: “Tudo começou com ciclistas que até aparecem nas imagens. Eles quebraram os vidros, bateram no carro. Ele buzinou e saiu, só porque tinha uma criança, meu filho de 15 anos, junto. Não botou por cima, senão tinha matado todo mundo. Ele fugiu das agressões”.

Coincidência, o fato ocorreu na rua José do Patrocínio quase esquina com a Luiz Afonso, rua que brinco dizendo que o nome foi dado em minha homenagem, por volta das 19:30h de sexta-feira. Passo por lá todos os dias ao voltar para casa. A José do Patrocínio é uma via de trânsito intenso, utilizada por linhas de ônibus, lotação e automóveis que se deslocam do centro para os bairros Menino Deus, Azenha e outros dessa região. Mas há alguns detalhes importantes a serem lembrados:

1. mesmo durante a semana “normal”, o fluxo de veículos diminui consideravelmente após às 19 horas;

2. era uma sexta-feira de verão, onde boa parte das pessoas (principalmente as que têm carro), já está a caminho das praias;

3. quem conhece, sabe que mais alguns poucos minutos e o motorista poderia dobrar à esquerda na Luiz Afonso, pegar a João Alfredo e logo pegar a Lopo Gonçalves ou a Joaquim Nabuco e retornar para a José do Patrocínio à frente dos ciclistas;

4. nos diversos vídeos mostrados pela internet (aqui, um bem longo e detalhado, divulgado no blog do movimento – Massa Crítica), é possível ver que até ônibus estavam andando atrás do grupo de ciclistas, esperando pacientemente. Afinal, eles não estavam parados, mas andando a uma marcha talvez até mais rápida daquela a que estão acostumados a andar nos dias de engarrafamento. Ou seja, em questão de não mais do que cinco ou dez minutos, já teriam atigido a Venâncio Aires e aí, muito provavelmente, o motorista poderia continuar seu caminho tranquilo.

Com certeza (??) tudo isso será apurado nas investigações. Mas daí a dizer que fez o que fez “em legítima defesa”? Até Buda, na sua eterna paciência, teria se levantado indignado com uma desculpa dessas! É possível que tenha sido provocado por algum ciclista? Até é. Mesmo entre um grupo que sai às ruas em defesa de um trânsito pacífico podemos encontrar gente “esquentadinha”. Que fosse! Mas teria reagido nem que seja a uma primeira buzinada do impaciente motorista. Justifica fazer o que fez? De forma alguma!

Isso tudo sem citar os aspectos jurídicos da legítima defesa, prevista no artigo 23, II, do Código Penal. O artigo 25 do memso código diz: “Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem”.

Vai ser difícil, esperemos, comprovar que atropelar quase uma dúzia de ciclistas de maneira violenta guarde alguma relação com “usando moderadamente os meios necessários”.

Quando pensei em escrever sobre a hipocrisia cotidiana não imaginava ter um exemplo extremo em tão pouco tempo de coluna. Havia resolvido aguardar o desenrolar das investigações, mantendo a vontade de não mais “julgar” movido pela emoção. Mas diante das manifestações é impossível.

A que ponto chegamos!

Acompanhem o caso no blog Massa Crítica.

[atualização]: os pensamentos ficam remoendo na cabeça e à medida em que a gente vai lendo as notícias e/ou comentários aqui e ali, fica difícil não escrever. Corre solto na internet um questionamento: terá sido culposo ou doloso o crime cometido. É um questionamento prematuro, a meu ver, posto ser uma análise difícil que, esta sim, não pode ser feita à luz das emoções. O dolo envolve a vontade de cometer o ato, consciente ou não. Vai ser complicado demonstrar isso. Mesmo porque, uma vez que tenha afundado o pé no acelerador, provavelmente o motorista também tenha tirado, do seu cérebro, a consciência do que poderia acontecer. Não é de todo implausível a hipótese. Tudo aconteceu em questão de segundos. Será, com toda certeza, um argumento utilizado pela defesa para caracterizar a culpa e não o dolo. E por favor, a análise é objetiva, isenta de emoções.

Por outro lado, todo motorista sabe que possui uma arma em suas mãos e que o seu uso fora das condições normais para a qual foi fabricada implica em consciência do que está fazendo com ela, portanto, na vontade de causar o dano que causou, não importando se a uma ou a uma dúzia de vítimas. Também, uma vez que tenha visto gente rolando por cima do seu carro, qualquer pessoa imediatamente pararia, ao invés de continuar correndo e atropelando mais gente. O que demonstraria, mais uma vez, a consciência de que fugir a qualquer custo era o que importava. Por sinal, comportamento típico de criminosos conscientes do crime que praticam. Fugir. Mais um menos um, nessas horas, é o de menos. Mais ainda se estivesse drogado ou alcoolizado.

Ser culposo ou doloso, vai importar na pena a ser aplicada. O crime foi, no mínimo, de lesão corporal de natureza grave, pois importou em perigo de vida (atr. 129, p. 1º, II). Pode-se tentar argumentar a favor do homicídio tentado, mas isso deve ser deixado para os juristas, não?

[atualização 2] Para registro, o motorista, ao sair do depoimento prestado à Polícia esta tarde, disse: “Eles me agrediram. Eu tive que fazer isso” (daqui). BEm que diz aquela frase “tudo o que você disser poderá ser utilizado contra você”. Ele não “tinha” que fazer isso. Existiam alternativas: ligar para a EPTC, para a Brigada e até parar o veículo, o que chamaria atenção dos demais motoristas para a suposta agressão que estaria sofrendo e, com isso, fazer um furdunço na rua, o que faria cessar a agressão que disse estar sofrendo por parte dos ciclistas. Qualquer coisa, menos “ter” que atropelar, “ter” que usar o automóvel como uma arma. O motorista declarou que “quis” agir assim. Dificilmente escapará (até mesmo porque o caso será permanentemente acompanhado – tanto o Ministério Público, quanto a Justiça –  e haverão de ser cobrados por celeridade) de uma acusação de tentativa de homicídio culposo.

O que até agora não apareceu nas notícias, é se já cassaram a carteira de motorista dele. Vai responder em liberdade dirigindo por aí?

[atualização 3] Pedida a prisão preventiva do motorista pelo Ministério Público. Segundo a notícia, ele “tem multas por dirigir na contramão, em cima da calçada e outras infrações graves” (daqui). Segundo o promotor de Justiça Eugênio Amorin, “o caso foi um crime doloso (com intenção de matar) e duplamente qualificado, por ter sido cometido por motivo fútil e por um meio que impossibilitou defesa das vítimas”. Se condenado, ainda perderá o cargo público que exerce…

A China desafia a esquerda mundial

O mundo está passando por uma grande mudança na hegemonia mundial. Os EUA estão perdendo a liderança internacional e a China está assumindo a primeira posição entre os países mais ricos (em tamanho do PIB) e de maior influência na dinâmica econômica e política mundial.

Desde os tempos da Guerra Fria a esquerda mundial se acostumou a denunciar os Estados Unidos como o país que se beneficia dos acordos de Breton Woods (1944), que domina a moeda internacional, que mais influencia o comércio mundial, que mais investe nos demais países, que atua com grandes empresas multinacionais, que apoia regimes ditatoriais (como a ditadura de Mubarrak no Egito, a família Saudi na Arábia Saudita, etc), que mais polui o meio ambiente e mais contribui para o aquecimento global, etc.

Porém, os EUA – com seus imensos déficits gêmeors – não estão perdendo apenas a hegemonia econômica internacional, estão perdendo também o papel de inimigo número 1 das esquerdas (mesmo que muitas correntes ditas “revolucionárias” ainda não tenham percebido).

A China – mesmo sendo comandada pelo partido comunista – pouco a pouco tem se tornado alvo da crítica das esquerdas e dos setores nacionalistas de inúmeros países.

A maior crítica vem acontecendo em função das crescentes exportações para todos os quadrantes do globo. É geral a reclamação dos setores sindicais reclamando contra a perda de empregos em função da concorrência “desleal” da China.  Muitas fábricas são fechadas ao redor do mundo pois não conseguem competir com as empresas chinesas, geralmente subsidiadas e apoiadas pelo governo. Os trabalhadores industriais do resto do mundo – outrora a vanguarda dos movimentos revolucionários – agora precisam lutar contra a concorrência chinesa para não perderem seus empregos.

Outra grande crítica refere-se ao câmbio, pois a China é acusada de manipular sua moeda para conseguir vantagens comparativas nos mercados exteriores. Existe uma guerra cambial não somente entre a China e os EUA e a Europa, mas em relação aos demais países em desenvolvimento.

No plano político a China apoia regimes ditatoriais de direita que os EUA apoiam, como Arábia Saudita, Iemem, Jordania, etc, mas também regimes autoritários de “esquerda” como Coréia do Norte, Miamar, Cuba, Irã, etc. Na África, o governo chinês apoia regimes opressores e corruptos, como no Sudão, Congo, Nigéria, etc, em troca de acesso a matérias-primas.

No lado das importações, a China passou a ser grande consumidora de commodities e tem mantido uma relação primário-importadora com os demais países, exportando produtos industrializados e importando matérias-primas e recursos naturais do resto do mundo. As recentes revoltas no mundo árabe e o distanciamento da influência dos EUA e da Europa só tem sido possível porque a China passou a ser a principal pareceira comercial do Norte da África e do Oriente Médio.

Com grandes saldos comerciais, a China passou a emprestar grandes quantidades de dinheiro para o Terceiro Mundo e tem promovido grandes investimentos, especialmente para garantir acesso aos recursos naturais em todos os continentes. Assim, a China reproduz o esquema clássico do imperialismo que conquista mercados e endivida seus parceiros para se manter no controle das ações econômicas.

Por fim, a China substituiu os EUA como o maior poluidor do planeta. Não somente as cidades chinesas são as mais poluidas do mundo, mas a China é o maior emissor de gases do efeito estufa e o país que mais tem contribuido para o aquecimento global. Mesmo o esforço que a China tem feito para liderar as tecnologias de energia renovável sejam importantes, uma das metas é conquista mercados externos com esta tecnologia.

Será que a China comunista vai ser o grande inimigo imperialista do mundo no século XXI?

Geraldo Flach (1945-2011)

 

Estive pesquisando esta semana sobre a repercussão na mídia digital da morte do músico Geraldo Flach.
 
Eu fiquei sabendo de sua morte através de uma crônica de Arthur de Faria na Zero Hora, e fui arrebatado por uma grande tristeza.
 
Em diversos portais da internet encontrei uma breve nota que algum órgão de imprensa escreveu dando um resumo da sua vida num parágrafo e citando 3 ou 4 músicas que ele escreveu para cantores famosos, sem fazer muita referência sobre a colaboração real de sua obra instrumental para a música Brasileira. Aquele mesmo release frio e resumido foi repetido por todos os portais mais importantes da internet brasileira, quase como uma obrigação de publicar alguma coisa, mas sem saber o que dizer…
 
Uma página que me chamou a atenção foi o caderno “cotidiano” da Folha, que deu um relato muito próprio daquele caderno,  narrando uns fatos de modo sutil, uma abordagem bem “cotidiana” para a vida dele, mas que não me deixou satisfeito. Fica uma coisa assim, nas entrelinhas: “Oh… a morte, esta coisa tão cotidiana… todos nós chegaremos lá um dia… O cidadão comum que morreu hoje foi Geraldo Flach.”
 
Parece que a passagem deste grande monstro-mestre do jazz e fusion e da criação instrumental Brasileira seria apenas mais um fato “cotidiano” que teria passado despercebido de todos, se não fosse minimamente comovente.
 
Enquanto isso, todos os deslizes e os peitos a mostra da Amy Winehouse no hotel do Rio ganharam as capas e vários minutos nas televisões e jornais do país.
 
É por este motivo, por rebeldia, pela paixão por tudo aquilo que passa despercebido da grande maioria, e que deveria ser a ordem do dia, por todos esses motivos é que existe esta coluna Rotas Alteradas.
 
Creio que a obra do grande Geraldo Flach será redescoberta no ano de 2024 quando os DJs mais “cabeça” estiverem remexendo nos arquivos da música brasileira do passado  atrás de “novos sons” que ficaram nas prateleiras de CDs dos sebos do centro da cidade.
 
Aí então os CDs estarão em extinção, e não os LPs como agora, e o soul-funk-brasileiro-parecido-com-tim-maia já estará saturado nas cabeças dos hypes de plantão.
 
Eu não acredito seriamente nisso, mas gostaria que sim…
 
Bem, eu vi pessoalmente alguns shows de Geraldo Flach aqui em Porto Alegre, e tenho bem nítidas na minha memória algumas marcas pessoais dele no palco.
 
Primeiro, o costume de quebrar o protocolo e falar com a platéia. Mesmo sem microfone, e ali mesmo sentadinho no banquinho do piano, no palco do “Salão de Atos da UFRGS”  ou no “Theatro São Pedro” com toda a pompa e circunstância merecida, Geraldo, no intervalo entre as músicas vira para o lado e conta histórias que só quem está sentado na primeira fila ouve… Mas é isso mesmo! Geraldo dá um ar intimista para sua apresentação como se estivesse ensaiando no estúdio em sua casa. E puxa cada vez mais, com muita humildade, a platéia a conversar e interagir, e ao final estimula as pessoas a cantarem junto com seu piano em voz alta o “Luar do Sertão”. Nessa hora, ouvindo a voz do público que o acompanha, Geraldo tem um enorme sorriso estampado na sua cara de lua…
 
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Esta característica de seu espetáculo está muito ligada com a outra faceta deste músico, que eu considero como a mais importante até: sua música instrumental ao piano transitava livremente entre os estilos do folclore, da música gaúcha, passando rapidamente para o território do jazz, e chegando até os limites do piano clássico.
 
Era uma imbolada!
 
A coisa que eu mais prezo de Geraldo Flach são seus “chamamés”. Ao memso tempo em que parecia que usava as 80 teclas de seu piano com tamanha destreza, o ritmo do chamamé corria delicioso e leve, e a gente tinha vontade de levantar no meio do teatro e sair dançando.
 
E esta faceta ele gostava de explorar tocando junto com seus amigos dos seus quartetos,  músicos como Borghetti, Luiz Carlos Borges ou Yamandu Costa, e o percussionista Fernando do Ó, ou o quarteto argentino “Los cuatro vientos” e tantos, tantos outros.
 
Ah! Esses ares que correm sobre as coxilhas do Rio Grande ainda levam consigo esses sons eternos, de Geraldo!
 

Desigualdades reversas de genero

Com as transições urbana e demográfica, o Brasil passou por uma onda de despatriarcalização, representada por uma longa mudança institucional que propiciou uma disrupção dos privilégios masculinos na família e na sociedade e a concessão de crescentes direitos às esposas e aos filhos. As regras de casamento e de parceria sexual se diversificaram e se tornaram mais equitativas no tocante às relações de gênero, entendidas de maneira não binária. Os casais com filhos deixaram de ser maioria absoluta dos arranjos domiciliares e cresceu o percentual de casais sem filhos, famílias monoparentais, coabitação marital (inclusive do mesmo sexo) e pessoas vivendo sozinhas. A transformação mais marcante do século XX – e que sintetiza as mudanças sociais, econômicas e demográficas – foi a alteração da presença da mulher de coadjuvante das decisões familiares para protagonista da sociedade em termos globais e institucionais, embora a situação esteja longe da paridade.

Em uma perspectiva de longo prazo, o Brasil vem apresentando avanços sociais e nas relações de gênero nas áreas de saúde, educação, esportes, mídia, etc. Nestas áreas as desigualdades de gênero se reduziram bastante ou houve reversão do hiato de gênero (gender gap), como na educação. Na política os ganhos foram menores, pois embora as mulheres tenham se tornado maioria do eleitorado, ainda possuem uma das mais baixas presenças no parlamento entre os países da América Latina. Mas a vitória de Dilma Rousseff colocou o Brasil na frente dos Estados Unidos e da França (países que nunca elegeram uma mulher para a Presidência da República). No mercado de trabalho houve conquista parciais, com uma inserção massiva das mulheres na população economicamente ativa e uma ampliação do leque ocupacional, com redução dos diferenciais de salário e renda entre homens e mulheres. Já o sistema de previdência social tem atuado no sentido de contrabalançar desigualdades do mercado de trabalho e tem favorecido as mulheres das gerações mais velhas que podem contar com aposentadoria, pensões ou benefícios como o BPC/LOAS.

As mudanças demográficas e de gênero contribuíram para o Brasil avançar na luta pela redução da extrema pobreza e a fome. Além disto,  a conjuntura nacional e internacional do período 2004-2008 possibilitou a conjugação de crescimento econômico com crescimento da renda e políticas sociais que aliviaram a extrema pobreza. A crise mundial de 2009 não teve um impacto devastor no país e a economia brasileira se recuperou bem no ano de 2010.

A fome e a desnutrição tiveram grande redução e aumentou a segurança alimentar. De acordo com a Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde (PNDS-2006) a desnutrição infantil crônica no Brasil diminuiu 46% em relação à pesquisa anterior que foi de 1996. Na Região Nordeste, a redução chegou a 74%. No mesmo período, a taxa de mortalidade infantil caiu 43,5% no país. Contudo, cerca de 20% das famílias brasileiras dependem do Programa Bolsa Família, que necessita criar portas de saída da pobreza e se articular melhor com as demais políticas de proteção social, em especial educação e trabalho. Para erradicar a pobreza absoluta – como quer o governo Dilma – é preciso garantir a inclusão produtiva, especialmente das mulheres.

Embora tenha havido avanços em relação às metas da CIPD do Cairo e dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), quanto ao pleno emprego e ao trabalho decente, o Brasil está longe de oferecer trabalho com qualidade para todos os cidadãos do país, especialmente para as mulheres e jovens. A taxa de informalidade vem caindo nos últimos anos, mas é muito elevada. O governo tem elaborado algumas políticas de emprego para jovens e alguns programas de geração de renda (na agricultura familiar, por exemplo), mas as dimensões do problema são muito mais amplas. Talvez este seja o ponto que se requeira maiores investimentos do governo, da sociedade e do setor empresarial no Brasil.

A dinâmica de criação de emprego em cada país depende da política macroeconômica e do ambiente de crescimento econômico internacional. Porém, colocar o pleno emprego produtivo e o trabalho decente como meta central da política econômica é o caminho mais correto para combater a pobreza e promover o bem-estar geral. Um dos grandes desafios é reduzir o desemprego geral e especialmente o desemprego de jovens, particularmente das mulheres jovens que emprego em proporções crescentes. Para aumentar o trabalho formal e regido pelos direitos sociais é preciso reduzir a segregação ocupacional e a discriminação de gênero. É preciso também orogramas de qualificação em geral e programas de qualificação e oportunidades do primeiro emprego para jovens. Uma melhor intermediação do emprego, por meio de instituições como o Sistema Nacional de Emprego (SINE) do Ministério do Trabalho. Questões como a redução dos encargos sobre os salários também está na pauta de discussão. Maior formalização do emprego e maior contribuição à previdência é uma forma de evitar uma crise no, médio prazo, no sistema previdenciário. O importante é o aproveitamento do “bônus demográfico”, decorrente da redução da razão de dependência demográfica no país.

As tranformações na família e a entrada massiva das mulheres no mercado de trabalho tornam muito necessárias as políticas de conciliação de trabalho e família. Além da participação dos homens nos afazeres domésticos, é preciso criar mecanismos de alívio da sobrecarga familiar (desfamilização) e incentivar mecanismos como: a) Creches e educação infantil; b) Restaurantes populares; c) Transporte coletivo adequado para adultos e crianças; d) Jornadas de trabalho flexíveis; e) Espaços públicos de lazer; etc. Pesquisa realizada no Recife, Pernambuco, com as famílias cadastradas no CadÚnico do Programa Bolsa Família (PBF), mostrou que as famílias em melhores condições socioeconômicas são aquelas em que os dois cônjuges trabalham e em que as crianças de zero a seis anos estão na creche ou pré-escola. A inserção da mulher no mercado de trabalho e mecanismos de conciliação emprego e família se mostraram fundamentais para o aumento da autonomia feminina.

A educação brasileira quando olhada pela ótica do aumento das taxas de matrículas e do aumento do número médio de anos de estudo avançou muito nas últimas décadas. Porém, ainda não se chegou à universalização do ensino de 6 a 15 anos que é obrigatório por lei. Além disto, existe uma proposta de tornar obrigatório o ensino de 4 a 17 anos. Isto seria fundamental e necessitaria um esforço nacional, que pode ser ajudado pelo “bônus demográfico educacional” que existe em função da diminuição relativa ou absoluta da população em idade escolar. A expansão das creches é fundamental especialmente para a população pobre. A creche permite o desenvolvimento cognitivo da criança e libera, especialmente, a mãe para entrar no mercado de trabalho e garantir maior nível de renda para a família. No caso da população atendida pelo Programa Bolsa Família a educação infantil é uma pré-condição para a criação de portas de saída da situação de pobreza. O “bônus demográfico educacional” é um fator que colabora para viabilizar a universalização do ensino.

A questão mais essencial da educação brasileira tem a ver com a qualidade do ensino. Mesmo havendo aumento das taxas de matricula e redução da distorção  idade-série a qualidade não progrediu da mesma forma. Atualmente existe no Brasil um hiato de gênero (gender gap) ao revés, pois tem crescido a matricula das mulheres e o sexo feminino supera em muito a matricula do sexo masculino, em especial nos níveis de ensino superiores. Por fim, existe toda uma discussão sobre como aumentar a inclusão social (raça/cor e pobres) na universidade. O Brasil tem passado por uma grande mobilização e discussão sobre políticas de cotas e ações afirmativas para inclusão da população negra e indígena nas universidades.

O Brasil reduziu a mortalidade infantil e já está quase chegando abaixo do patamar de menos de 20 mortes por mil. Porém, as desigualdades regionais são grandes e a região Nordeste possui taxas cerca de 3 vezes maior do que as regiões Sul e Sudeste. O governo Federal tem pactuado ações para redução da mortalidade infantil nas regiões mais carentes, inclusive promovendo o acesso aos métodos contraceptivos para planejar a fecundidade e aumentar o espaçamento entre os filhos. Gravidez precoce na infância e na adolescência é outra causa que aumenta o risco de mortalidade infantil. Neste sentido, ações na área de saúde sexual e reprodutiva ajudam a reduzir a mortalidade infantil.

A esperança de vida tem crescido para ambos os sexos, mas o hiato nas taxas de esperança de vida ao nascer entre homens e mulheres no Brasil é muito grande. Isto se deve em grande parte à sobremoralidade masculina de homens entre 15 e 30 anos por conta das mortes violentas, por homicídios e acidentes de trânsito. Medidas de redução da mortalidade de homens jovens é fundamental. Com o crescente envelhecimento populacional, o percentual de idosos aumenta e as pessoas, especialmente as mulheres à medida que passam a viver mais aumenta também a carga de doença e a incapacidade. Estes fatores oneram muito o custo do sistema de saúde e é um desafio cada vez mais presente ações para garantir uma velhice saudável.

O Brasil já conseguiu reduzir as desigualdades de gênero, em geral, e até conseguir reverte algumas desigualdades. Hoje as mulheres estão à frente dos homens em todos os níveis de educação. Mas o desafio permanente é atingir a igualdade e a equidade em todos os âmbitos da vida social.

Referência:

ALVES, J.E.D, CORREA, S. Igualdade e desigualdade de gênero no Brasil: um panorama preliminar, 15 anos depois do Cairo. In: ABEP, Brasil, 15 anos após a Conferência do Cairo, ABEP/UNFPA, Campinas, 2009. Disponível em:
http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/outraspub/cairo15/Cairo15_3alvescorrea.pdf

O quebra-cabeça da felicidade

Há alguns dias, tive com alguns amigos uma discussão que começou a partir deste vídeo, que mostra como os distúrbios psiquiátricos são banalizados pelo marketing das indústrias de medicamentos. Essa banalização consiste, entre outras coisas, como declara um dos entrevistados, em garantir o maior número de consumidores possível para as drogas psiquiátricas, convencendo pessoas saudáveis de que elas necessitam dessas drogas para terem uma vida mais satisfatória. E as indústrias farmacêuticas disseminam “informações” – na verdade, propagandas disfarçadas – sobre os sintomas das doenças e as drogas com poder de “curá-las”. Jornais, TVs, revistas, livros, todas as mídias entram no ciclo.

O vídeo fala sobre vários transtornos e medicamentos, mas a conversa acabou se concentrando na depressão, talvez por ser o transtorno mais comumente diagnosticado e também o mais “trabalhado” pela mídia. Além, é claro, de praticamente todos nós conhecermos alguém que já foi diagnosticado, correta ou incorretamente, como deprimido.

É claro que existem casos em que o medicamento deve ser prescrito para tratar esses distúrbios. Antidepressivos, por exemplo, que agem diretamente sobre a resposta da serotonina no cérebro, são necessários para pacientes que têm problemas no equilíbrio desse neurotransmissor. Essas pessoas sofrem e enfrentam uma trajetória que vai do diagnóstico difícil ao tratamento medicamentoso complexo, envolvendo a descoberta de dosagens e drogas adequadas, diversas recaídas, crises, sofrimento, preconceito, a alteração da química cerebral e a convivência com incapacidades temporárias de trabalhar e angústias.

Mas e as pessoas que não necessitam deles e os consomem? Aquilo que muitas vezes é diagnosticado como depressão é também uma condição da subjetividade, revelam que o modo de vida predominante não satisfaz a todos nem responde aos questionamentos e necessidades de todos os indivíduos. Pessoas que não precisam de medicamentos, mas são alvo do marketing das empresas farmacêuticas, são transformadas em engrenagens do sistema que gera lucratividade para o capital. Esse fenômeno nos diz algo sobre nossas relações sociais contemporâneas.

Você é um depressivo, mas precisa (e pode) ser feliz
Uma das questões que me parece clara é que na contemporaneidade pessoas estão tão vulneráveis, sobrevivendo em um ambiente de tamanha insegurança e inconsistência das relações (aspectos que Zygmunt Bauman descreve de maneira bem acessível em seus livros) que se tornam alvos fáceis desse diagnóstico enviesado.

Quando a sociedade indica a um indivíduo que sofre de insônia, fadiga, tristeza, vontade de se isolar que ele é um depressivo e precisa curar-se, lhe oferece muito mais do que um diagnóstico. Oferece um olhar e uma demanda precisa, direta, pontual. Isso é quase um conforto para todas as dificuldades que se acumulam na vida cotidiana: essa demanda dá ao indivíduo uma história, um ponto de partida, uma meta de chegada, uma narrativa, um desejo a ser realizado, com o aval de todos a seu redor, uma folga das incertezas, da angústia.

Essa demanda da sociedade chega ao indivíduo pela mídia, pela cultura, pela rede de relações. Quando um colega, um texto ou um programa de TV apresentam “inocentemente” e “na tentativa de ajudar quem sofre” os sintomas e soluções de um transtorno depressivo, estão reproduzindo a ideologia de todo um sistema de dominações, coerções e poderes das relações sociais estabelecidas.

Esse sistema é sustentado por diversos valores, entre eles o da felicidade como a condição natural e positiva dos indivíduos.
Segundo autores como Pascal Bruckner (A Euforia Perpétua – Ensaio sobre o dever de felicidade) e Gilles Lipovetsky (Felicidade Paradoxal), nas sociedades ocidentais, a felicidade e a busca do bem-estar em tempo integral começaram a ser construídas como pilares dos projetos de vida individuais a partir da segunda metade do século 20. Pouco depois, nos anos 1970, a indústria farmacêutica iniciou pesquisas científicas sistemáticas sobre drogas capazes de influenciar o humor, estabilizar e controlar suas variações.

Esses dois fatos – felicidade como um dever e alegria ao alcance de um comprimido – contribuem para uma construção simbólica em que o desprazer não tem espaço e a frustração e o sofrimento são considerados problemas a serem resolvidos, controlados e melhorados o mais rápido possível. A dor emocional, mesmo as mais justificáveis como a decorrente da perda de uma pessoa amada, a destruição de sonhos e projetos de vida, não cabe mais como experiência existencial. Razão e ciência estão aí ao seu dispor, a vida é curta passa rápido demais, você precisa dar conta de excesso de trabalho, estresse e outras preocupações, não há tempo a perder com questões existenciais, expressão da sua subjetividade ou mesmo de seu luto. É preciso ser feliz. Ontem, agora e amanhã. Mas quem dá conta de tanto tempo e tanta felicidade sem uma pílula?

Ser feliz é produzir e consumir
Sob a influência das numerosas pesquisas científicas, nossas emoções mais simples se transformam em sintomas de inadequação a nosso tempo e lugar.  É assim que tristeza que dura mais do que um número arbitrário de dias se transforma logo em depressão, ansiedade se torna hiperatividade, isolamento e rompimento de laços sociais viram fobia social…

Em uma sociedade em que a felicidade é a meta absoluta, é fácil perceber que quem não é alegre, realizado, sorridente, produtivo, bem disposto, sempre de bem com a vida e expansivo perde seu espaço entre os normais e se torna logo um doente. É para essas pessoas que a indústria farmacêutica tem a solução, só muda o nome impresso na caixinha.

Em outras palavras, os medicamentos são também pílulas de produzir conformismo e adaptação. As pessoas que se sentem indispostas, infelizes, incomodadas com o que lhe mundo lhes oferece são vistas como desajustadas e a mensagem que recebem é: o problema não pode estar na lógica dominante, o problema está em você, sofra, fique de fora da “festa”, ou tome um antidepressivo para se encaixar. Para garantir que faça a opção “correta” – isto é, aquela que gera lucro e reproduz o capital e sua ideologia – as indústrias farmacêuticas investem milhões de dólares prometendo que os medicamentos podem “trazê-las de volta” a “normalidade” depois de 15 dias de consumo contínuo de acordo com a prescrição médica.

Sem custos, com lucros
“Normalidade” é uma palavra repleta de carga simbólica. Em uma sociedade qualquer, pessoas “normais” são aquelas adaptadas às regras, sobre as quais a coerção e os valores dominantes operam com perfeição, sem falhas dignas de nota. No caso das sociedades capitalistas, as pessoas que geram menos custos ao capital e mais dão retorno a ele, ou seja: os normais são os trabalhadores que funcionam como um relógio, não faltam ao trabalho por licenças médicas, não ficam meses utilizando o seguro saúde, não têm variações de humor que reduzam sua produtividade e estejam em condições de obter o máximo prazer no consumo de produtos e serviços em abundância.

Na sociedade capitalista contemporânea, todas essas contas são feitas. Pessoas que produzem pouco custam muito, performances abaixo da média custam caro, desprazer constante emperra a máquina. Não há lugar para nada disso no processo produtivo. Em outras palavras, mostra-se “anormal” e “inadaptado” é um passo para a exclusão do espaço mais essencial que você pode ocupar: uma vaga no mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, pessoas que produzem e estão adaptadas à lógica do capital têm acesso a uma de suas maravilhas: o acesso a um mercado de experiências de vida, não apenas a bens materiais, em que são vendidas emoções fortes, aventura, a festa de casamento impecável e também, por que não, a transformação de sua agonia em alegria com uma droga.

Diante do “dever de felicidade”, bela expressão de Bruckner, o depressivo – seja ele o doente, seja ele apenas alguém que eventualmente sofre com intensidade e sem mascarar a dor – é também uma ameaça, um incômodo. Ele é a prova viva da inviabilidade do projeto de vida que norteia a sociabilidade contemporânea. Ele revela que há, sim, tristeza, angústia, infelicidade e que a própria exaltação desmedida do prazer e do bem-estar são sintomas de que a sociedade está mal com suas contradições. Os depressivos nos dizem que o quebra-cabeça da felicidade permanente nunca poderá ser montado por inteiro. Mas ninguém quer ouvir isso.
 

Que é World Music

  Muitos idiotas de narizes empinados, costumam torcê-los diante do que se costuma chamar de World Music, que nada mais é que música de excelente qualidade produzida, amiúde, com marcante característica de  determinada cultura, baseada antes  no acervo folclórico do que nas  tradicionais Escolas eruditas.
   Ora, o que se chama de música World, portanto, simplesmente é, uma peça  musical polifônica, destinada a interpretação instrumental e/ou vocal, muitas vezes  orquestral, não enquadrada em nenhuma corrente tradicional e com fortes  traços culturais da nacionalidade do compositor. Portanto, música de qualidade, dignificante da espécie humana, música que enleva a alma  enquanto eleva, nobilita e enobrece a condição mundana desses seres planetários,  ainda disformes que somos. Claro, a consecução desse mister está  diretamente ligada, tanto mais ou tanto menos, a  situação relativa ao  adiantamento espiritual do compositor, naturalmente, sem falar da  técnica de composição, do talento, da inspiração, da capacidade de  transformar esses surtos em frases musicais, em arranjá-las, orquestrá-las, etc. e etc..
   Posso dizer que, como blogueiro, sou editor bissexto, é fato, e todos já sabem o porquê, como já o expus em outras reportagens em outras páginas. Portanto, juro que não vou mais dizer aqui que só escrevo nas horas da angustia e da saudade, quando ouso soltar palavras aos quatro ventos, em busca de  ouvidos amistosos… Não, não vou mais dizê-lo! Mas, hoje,  fui movido a escrever algumas bobagens, instigado que fui pela leitura de um recado, daqueles deixados nas caixas de mensagens de Sites, por um entendido em música, “um crítico”, a um jovem editor, blogueiro  iniciante.  A verdade é que deploro com veemência, e tenho deplorado por toda  minha miserável existência, como todos já estão fartos de saber, o que  se chama de crítica especializada, que sempre taxei de crítica  desespecializada.
   Ora, vi esse sujeito doidivanas aconselhar o tal jovem a não contaminar seu blog de Música Erudita, com porcarias World Music e New Age.   P… Um caboclo desses, com toda certeza, mal distingue um Baião de Luiz Gonzaga duma fuga de Bach, (Vou logo advertindo que nada tenho contra o grande Luiz Gonzaga, que por sinal adoro, e o meu querido www.pianoclassico.org  está  recheado de sua música)
   Aí, se o jóvem blogueiro iniciante não tiver estrutura anterior bem formada nos meandros da música erudita? Se estiver, como é bem provável, usando o recurso eletrônico através da web para aprender e crescer pessoalmente, enquanto compartilha seu próprio acervo? O que é muito louvável, diga-se  de passagem. Não é muito difícil perceber que o iniciante, em tributo à “grande figura do crítico”, passe incontinenti a torcer suas próprias ventas a tal música world…
   Juro, de pés juntos,  que não digo mais que nasci (literalmente) dentro de um Conservatório. Que a Música Erudita foi meu café da manhã, meu almoço e meu jantar durante mais de meio século, e que me embalou desde o jardim-de-infância até a universidade. Que minha mãe foi pianista, que a avó foi pianista, que o bisavô foi maestro, lá pras bandas da Europa…  
   Eu? Não, pelo menos não nas salas internacionais! Sou é criador de bodes, como já sabem, mas, apesar da minha quase nula erudiçao, tenho uma opinião que me acompanha a mais de meio século, e dela não abro mão, em hipótese alguma, mesmo que seja indiscutivelmente desprovida de qualquer valor e, comprovadamente obra de elucubrações mentais doidivanísticas resultado de meu pensamento profundamente sebastião: Só um louco deixa de ver as “belezuras” de uma música só porque não é erudita, ou antes, não foi rotulada e carimbada convenientemente como  erudita, de Escola tal ou qual. A Música é tão mais espiritual que técnica, nada vale a técnica esmerada sem a divina inspiração. Sem aquela sublime força interior que vez por outra, passa a mover as mãos  do compositor, não poderia haver música somente baseada na técnica.  Compare Pachelbel com J.S.Bach, o que sobrou de técnica naquele, folgou em espiritualidade neste que aliada a imensurável técnica (própria) de composição,  deu no que deu!
    Bem, amigo leitor, abramos, portanto, nossos ouvidos e nossos  corações à toda produção artística honesta e, descubramos por nós  mesmos o que nos agrada ou nos desagrada. O que nos conduz a elevados  patamares. O que nos engrandece a alma e faz-nos pulsar ao ritmo do magnífico balet estelar das cósmicas amplitudes. O que nos arrebata com tranqüilidade a outros níveis vibracionais, e, enfim, ouçamos com o  coração, com o espírito e com os ouvidos bem abertos. Essas são condições sem as quais não se pode discernir sobre a verdadeira qualidade da obra musical que se ouve. Para quem tem, portanto, o espírito elevado (sorte grande, verdadeira mega-sena acumulada) e, se se tem um cérebro compatível (bem dotado, bem programado e bem utilizado), a crítica passa a ser inoportuna, improfícua, inútil, frustrante, imprestável, além de desnecessária.
   Portanto, amigo leitor, se somos assim, (sem falsa modéstia) posso dar-lhe uma pequena dica sobre uma forma segura de profunda análise musical, evitando a chata análise estrutural entre outros recursos mais maçantes: Se gostamos de tal peça musical, “ela é boa”. Se não gostamos do que ouvimos (se ela não nos impressionou positivamente): Não presta, é música de segunda categoria, prejudicial a nossos ouvidos.  A crítica que se dane. A nós, preparados que somos de orígem, basta-nos o sentido da audição. Todo o resto é balela e conversa pseudo-erudita fiada para “bois tolos” dormirem.

 

Fim do Horário de Verão

___Durante o final de semana, terminou, para algumas regiões do país, o Horário de Verão. Eu sei que existem pessoas para quem essa mudança é horrível, que atrapalha o cotidiano, etc.. Eu encaro de outra forma e gostaria de dividi-la. Quem sabe mantenho sorrindo quem gosta da mudança de horário e até mudo um pouco o olhar de quem não aprecia.
___Utilizado, normalmente, com o objetivo de economizar energia (não é à toa que, nos Estados Unidos ele é conhecido como Daylight Saving Time), eu encaro o Horário de Verão como um tributo à vida. O ponto é simples: de um dia para o outro há uma grande mudança de cenário. O maravilhoso céu que você via todo dia quando acordava para ir ao trabalho, aquele céu que talvez você já tivesse esquecido de olhar, muda totalmente de um dia para o outro. Como se tivessem colocado uma pintura nova em uma sala de museu. Uma pintura que esfrega toda a sua beleza no seu rosto.
___Foi fazendo minha graduação, no Departamento de História da USP, que eu aprendi a me maravilhar assim. O prédio do Departamento de História é super estranho e, por um capricho arquitetônico do autor, não tem a parede do fundo, só a da frente. O que há de mais fantástico é que o fundo do prédio é voltado para oeste e, portanto, durante toda a minha graduação eu, estudante do período noturno, pude ver o sol se pôr. Todos os dias. Quando mudava de horário, então, eu via o sol em outro ponto, todo aquele belo pôr-do-sol ficava diferente. Eu, que já ficava boquiaberto, por algumas semanas quedava mais embasbacado ainda. Todo mundo deveria estudar em um lugar assim.
___Além disso, que maravilha é ter mais uma hora de luz por dia durante alguns meses. É possível aproveitar infinitas novas possibilidades de se viver por conta disso. Tanto que adoro como chamam o Horário de Verão na Itália: Hora Legal (Ora Legale). Só que prefiro encará-la não do modo burocrático, mas como uma hora divertida a mais para se aproveitar a vida. Talvez o ponto de gostar ou não do Horário de Verão seja exatamente esse: saber como encarar.

 

Administração aplicada à família: sonhos, educação e autoridade – I

Que a autoridade seja necessária nas organizações de trabalho, não se discute. Afirmo isso mesmo sabendo da quantidade de teorias que inventam todos os dias sobre coisas que na prática não funcionam; servem mais para vender livros e consultoria do que para ajudar as organizações: equipes auto gerenciáveis, trabalho online sem sair de casa etc., etc., etc. O mundo da Administração é muito parecido com o mundo da moda: todo ano aparece uma diferente, no mais das vezes apenas uma velha calça disfarçada de nova…
 
Na família, no entanto, autoridade é o maior de todos os venenos. Grosso modo, poderia dizer que existem dois tipos de autoridade na família: a explícita e a implícita. A segunda é, literalmente, mortal, seja em que dose for.  Relações familiares (casamentos principalmente) acabam, mais dia menos dia, pela aplicação diária de pequenas doses de autoridade implícita.
 
Alguns chamam autoridade de poder. Me permito fazer, aqui, uma pequena, sutil, diferença entre poder e autoridade, naquilo que os conceitos se aplicam às relações familiares.  Nem todo poder confere autoridade a quem o exercita. É o caso da Lei Maria da Penha, por exemplo. As mulheres adquiriram um poder nunca antes imaginado sobre os homens. Permite que elas contraponham o que de mais valioso o homem sempre teve: a força física e o poder de exercitar a violência, a agressão, a mutilação, o medo. Mas esse poder não dá às mulheres, necessariamente, autoridade na família.
 
Todos somos “autoridades”. Boa parte de nós, inclusive, tem um comportamento familiar extremo: somos autoritários. Quem manda nessa casa sou eu, dizem, em geral, os homens. E, também em geral, com mulheres que aceitam a posição subalterna, seja por dependência econômica, seja pela ilusão reinventada pela mídia de que ser “dona de casa” é bom. Não é, nunca foi e nunca será. Ser dona de casa é o pior dos trabalhos; avilta a condição de ser humano da mulher e estabelece a relação de hierarquia e autoridade em uma relação que deveríamos supor de igualdade.
 
Claro que ser apenas dona de casa, nas atuais condições econômicas em que vivemos, é uma das pontas dos extremos. Nesses casos, a autoridade é do tipo explícita. Poderíamos construir um modelo onde o fator econômico fosse preponderante na relação. Muita gente pensa que é assim que as relações funcionam. E na prática até tem sido, justamente por ser o lado mais visível. É comum a expressão, mais usada pelas mulheres, de que “eu não preciso de ti pra nada, tenho o meu trabalho!” (isso antes de ingressarem em juízo pedindo pensão, claro), quando casais brigam. Na verdade, o fator econômico é dependente do grau e da forma com que a autoridade implícita se manifesta.
 
Claro que os conceitos e ideias aqui emitidos não são novidade e, inclusive, passíveis são de discordância. O importante é que sejam explicitados, pois são a base para que possamos entender quais técnicas podem ser aplicadas nas mais diversas situações. Apenas para citar um exemplo, que será desenvolvido mais adiante: conflitos. O conflito é a característica básica das relações familiares (e humanas em geral, diga-se de passagem). No entanto, e apesar de ser algo muito estudado e de existem diversas técnicas para enfrentá-lo, pouquíssimas pessoas e casais se utilizam dessas técnicas no seu dia a dia. Pois o equacionamento de um conflito, e sua eventual resolução, parte justamente de que as partes conheçam profundamente os papéis de autoridade que exercem. E principalmente da explicitação e reconhecimento da autoridade implícita exercida na relação. Por essa razão julgo importante colocar, previamente, esses conceitos.
 
E o que é a autoridade implícita? Na sequência…

Köln hat was zu bieten

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Das gibt es nur in Köln: Das größte Karnevalsfest in Deutschlands, die Veranstaltung des Rosenmontagszuges, wird alljährlich in Köln gefeiert.

Dieses Jahr, also 2011, wird der Zug aus 11.500 Teilnehmern, 130 Musikkapellen und 800 Motivwagen bestehen. Er wird sich in seiner Gesamtlänge von 7 km wie eine gigantische Schlange durch die Kölner Innenstadt bewegen und mehr als 1,3 Millionen Zuschauer werden am Zugweg stehen, sich freuen und Karneval feiern.

Was da von den Motivwagen den Zuschauern zugeworfen wird, ist für einen Brasilianer wahrscheinlich kaum begreif- und schwer nachvollziehbar. Es sind Süßigkeiten in allen Variationen und unvorstellbaren Mengen. Diabetiker haben es an diesem Tage schwer. Etwa 150 Tonnen Bonbons, die man „Kamelle“ nennt, 700.000 Tafeln Schokolade und 200.000 Kisten tausender Pralinen, werden von den Wagen den Zuschauern zugeworfen und verschenkt. Aber auch andere Geschenke wie Bälle, Plüschtiere bis zum Teddybär, Küchenartikel und frische Schnittblumen werden an das lustige Zuschauervolk verteilt.

Nicht nur wegen des unsteten Wetters geht man am besten mit einem Regenschirm und einer Tüte „bewaffnet“ zum Rosemontag. Regnet oder schneit es, kann der Schirm vor der Natur schützen. Aber auch wenn es nicht regnet oder schneit, kann der Schirm als parabole Fanganlage einem die umher fliegenden Schokoladentafeln und „ Stüßje“, also Blumenstäuße, sichern, bevor sie zu Boden fallen und Beute jener Kinder werden, die den Zug wegen der süßen Fracht begleiten.

kolle7Süßwarenindustrie und Handel sorgen dafür, dass Jahr für Jahr genügend „Wurfmaterial“ zur Verfügung steht. Die Naschwaren werden speziell für das Ereignis produziert. Auch deshalb freut man sich an dieser Stelle auf Rosenmontag, wenn auch aus anderen Gründen. Die Teilnehmer am Rosenmontagszug, nämlich die vielen Kölner Karnevalsvereine, besuchen vor dem Fest den Handelshof in Köln-Müngersdorf.

Die Mannschaft des Großhandelsunternehmens Handelshof, Köln Müngesdorf, speziell Nicole Krönke und Halima (Foto) in der Abteilung Süßwaren, sind auf diesen Ansturm gut vorbereitet. Sogar in der Mundsprache, dem „kölschen Dialekt“, werden die Wünsche der Kunden entgegen genommen und zu deren Zufriedenheit erledigt. An Wurfmaterial wird es auch in diesem Jahr nicht fehlen.

Auch vom Handelshof wurde während des Geschäftsbetriebes eine kleine Karnevalsfeier organisiert. Für alles war gesorgt. Vor dem begeisterten Publikum spielte “Aquarela do Brasil” auch eine Musikkapelle. (Foto)

Kölle. Alaaf!

kolleÉ carnaval também na Alemanha!

Qualquer semelhança com o Brasil é pura alucinação

 

O maior carnaval da Alemanha é festejado numa de suas mais charmosas cidades: Colônia. O tema esta ano é: “O que Colonia tem a oferecer”. Como manda a tradição, aqui, os corsos saem pontualmente às 11, 11 minutos todos os anos, na segunda-feira, “Rosenmontagszuges”, diferente do Brasil, quando o ponto alto do carnaval são as comemorações de domingo e o desfile das escolas de samba.

 

Este ano de 2011 esta grande festa popular terá 11.500 participantes, 130 bandinhas e 800 carros alegóricos. O percurso será de 7 km, uma cobra gigante sibila através das ruas centrais da cidade seguida por mais de 1, 3 milhões de expectadores ansiosos pelo que caracteriza o carnaval de Colônia: uma chuva de doces e chocolates cai dos carros alegóricos, assim como num conto de fadas. As estatísticas não são boas para os diabéticos: no carnaval de 2010 foram atiradas dos carros alegóricos, 150 toneladas de guloseimas, sendo 700 mil tabletes de chocolates, 200 mil caixas das mais finas especialidades, doces, balas, aqui chamados de “Kamelle”.

 

Mas dos carros também voam outros objetos, como, por exemplo, uma quantidade imensa de bichinhos de pelúcia, buchas de banho, escovas para cozinhas, flores, etc. A quantidade e qualidade dos presentes distribuídos vai depender do que as pequenas associações, que participam da festa, têm em sua conta bancária. Como no Brasil, onde as escolas de samba se preparam para o carnaval o ano todo, arrecadando dinheiro para organizar seu desfile, aqui, também as associações e foliões, fazem suas festas durante todo o ano para arrecadar dinheiro. Sem falar que elas contam com doações daqueles que admiram a folia. A ideia dos organizadores é de que todos aqueles que compareçam às ruas para apreciar o desfile recebam um presente, independente de sua origem social. Para se assistir e participar da festa não se precisa pagar entradas, a rua por onde passa o desfile é do povo.

 

Para tal evento é bom que se vá para as ruas munido de uma sacola ou… de um guarda chuva. Se não chover, ou nevar, o que é muito comum aqui no inverno, ele poderá ter uma segunda utilidade. É que abertos e colocados ao contrário ficam como uma antena parabólica e as chances de “pescar” as melhores guloseimas atiradas dos carros alegóricos são maiores. Em todo o percurso é ouvido um coro ensurdecedor a gritar : Kamele! Kamele!

 

Aqui, num vídeo amador dá para se ter uma idéia da festa toda. Há chocolate e guloseimas voando em todas as direções. Reparem na… neve. Qualquer semelhança com o carnaval do Brasil é pura… alucinação.

 

 http://www.youtube.com/v/a1cW2Omm4t8

 

 O carnaval aqui movimenta a economia, não somente no ramo de fantasias e adereços, mas principalmente no ramos de guloseimas. Grande parte dos doces “atirados” dos carros alegóricos é comprada em grandes redes distribuidoras. Neste sentido existe um ramo da indústria do carnaval, também aqui que não está voltado somente para os enfeites, confetes e serpentinas. Há pessoas que se dedicam o ano todo a produzir uma quantidade imensa dessas “delicatessen”.

 

E o departamento de doces da uma grande rede distribuidora, a Handelshof, Köln Müngesdorf, chefiada por Nicole Krönke e sua equipe está bem preparado e até o dialeto colonês, o “kölschen Dialekt” é falado, nesta data, para o melhor atender o desejo dos clientes. Nada deve faltar.

Nas semanas que antecedem o carnaval todas as filiais da rede fazem sua festa e o público é convidado a participar, tudo acontece dentro do grande hipermercado. Emocionante foi ouvir a bandinha tocar… Aquarela do Brasil.

 

O que Colônia tem a oferecer? Ah, toneladas de guloseimas e muito bom humor.

Kölle, Allaf!!

 

Fotos: Solange Ayres 

 

Fonte:

Der Kölner Karnaval 2010

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Quelle: Der Kölner Karneval

O custo e estilo da democracia

Sempre acreditei que a frase de Winston Churchill fazia algum sentido: “a democracia é a pior forma de governo, exceto todas as outras”. Para quem viveu as consequências do regime autoritárrio e lutou contra a ditadura militar, a democracia era não só a melhor forma de governo, com um espaço para se respirar, pensar e agir.

Os exemplos internacionais mostram que os países mais desenvolvidos, em ternos econômicos, sociais e culturais, são aqueles que adotam sistemas democráticos de governo. A maior liberdade e qualidade de vida da população são os prêmios de um sistema democrático de organização da vida política de um país.

No confronto direto, as democracias ganham disparado dos regimes autoritários. Porém, não basta ser democracia para ter boa qualidade de vida e progresso social e cultural. Existem também democracias que falham e fracassam.

O Brasil, por exemplo, depois do processo de redemocratização iniciado com a Nova República, em 1985, passou por 10 anos de grande instabilidade e regressão econômica e social. Depois de superar os desastres que foram os governos Sarney e Collor, o Brasil encontrou um certo rumo depois de 1995. O Brasil voltou a crescer e começou um processo de redução da pobreza e das desigualdades.

Mas o Brasil poderia ter avançado muito em termos sociais, se não fosse a corrupção e o estabelecimento de privilégios para uma elite de funcionários públicos e uma elite empresarial que se beneficia dos benesses do Estado. O custo para manter os poderes Judiário, Legislativo e Executivo são enormes.

O aumento dos parlamentares e suas equipes (janeiro de 2011), aprovado pelo Congresso Nacional, através de votação simbólica e em tempo recorde terá grande efeito no orçamento fiscal do país (inclusive com implicações inflacionárias que obrigará o Banco Central elevar os juros e reduzir o nível de emprego da população), além dos efeitos gravíssimos em cascata que afetaram o equilíbrio das contas públicas dos Estados e Municípios.

Segundo levantamento da Ong Transparência Brasil, a Câmara dos Deputados e o Senado Federal deem consumir juntas R$ 6 bilhões dos cofres públicos. Dinheiro este que poderia estar indo para a saúde, para a infra-estrutura ou para o programa de erradicação da pobreza.

A quantidade de advogados que trabalham para prender e soltar ladrões é de assustar. O Brasil tem mais advogados do que engenheiros, pois temos uma cultura patrimonialista e bacharelesca que dá pouca importancia para as soluções práticas da vida, para a construção da estradas, ferrovias, portos e aeroportos e para a solução dos problemas da população mais pobre.

Enquanto o Brasil espalha advogados e concursos públicos para os bacharéis jurídicos, a China forma engenheiros. Um é o país dos advogados e o outro é o país dos engenheiros. Além disto a China tem um estilo de governo que tem como base o chamado “Consenso de Beijing”.

Será que o alto custo da democracia brasileira vai fazer as pessoas pensarem em adotar estilos diferentes de democracia? Ou simplesmente a democracia brasileira vai sucumbir pelo excesso de custos, de corrupção e de benesses para alguns poucos privilegiados?