Governo Dilma – já dá para avaliar?

Estão se completando 3 meses de governo Dilma. Já dá para avaliar o governo? Já dá pra saber para onde apontam os rumos?

Não sei. Mas o Amálgama, portal irmão do OPS, iniciou uma empreitada nesta direção. Começou ontem, e seguirá pelos próximos dias, uma série de textos sobre o governo Dilma, escritos pelos colaboradores lá do portal – vários deles com blogs aqui no OPS. O primeiro texto da série já saiu:

Sob Dilma, pragmatismo econômico dá lugar à ideologia (Felipe Salto)

Neste primeiro texto da série, uma avaliação sobre as decisões econômicas do novo governo, e a preocupação do autor com a ameaça inflacionária e teimosia do governo em manter uma política expansionista.

Vale a pena ficar de olho.

Semana passada o Ulisses Adirt comentou aqui sobre o fim do blog O biscoito fino e a massa. Bem, a última coisa que o Idelber tinha feito antes de fechar o blog, era um guia da Reforma Política, segundo ele o grande nó do novo governo no Congresso. As comissões já estão montadas, e o assunto merece ser acompanhado de perto.

P.S.:

Como o Ulisses já tinha comentado semana passada aqui no Editorial, Idelber Avelar mencionou especificamente vários blogueiros aqui do OPS como parceiros na jornada do seu blog: André Egg, Lelec, Serbão, Diego Viana, Ulisses Adirt, Gugala , Felipe de Amorim, Fabiano Camilo e Rodrigo Cássio. Eu acho que ele esqueceu que a Camila Pavanelli também é do OPS, porque ela é muito próxima do Idelber. O Daniel Lopes também foi mencionado à parte, por ser o editor do Amálgama. Ricardo Cabral também foi mencionado lá, à parte, pela amizade pessoal.

Do mesmo modo, o Amálgama é editado por Daniel Lopes, e tem colaboradores daqui do OPS, como André Egg, Diego Viana, Camila Pavanelli, Ju Dacoregio, Luiz Biajoni.

De modo que, o que saiu por lá, é quase como se fosse daqui.

Zequinha de Abreu, Mário Mascarenhas e o Acordeom

   Costumo declarar que hoje em dia, só nas horas da angustia e da saudade ouso escrever minhas bobagens e soltá-las aos quatro ventos, em busca de vossos ouvidos amistosos e complacentes. Poupando-vos, no mais das vezes, dessas coisinhas tão insignificantes. Insignificantes como gotinhas de lágrimas que, no entanto, se agigantam quando de nossas faces rolam, transmutando-se em oceanos imensuráveis…
   Quando menino, lá em casa, ou melhor, no Conservatório Leonie Ehret, éramos levados a tudo estudar: Piano, Violino, Flauta… até Acordeom, isso na música, pois também aprendíamos Desenho, Pintura, e até Artesanato. Praticava-se um bocado, de tudo um pouco. Mas, tudo isso, só o fazíamos se nos desse prazer. Era essa a lei, essa a ordem única, tudo por amor ao Belo, ao Transcendental, à Arte, ao Pensamento. Cultuávamos o pensar, e, por excelência, o livre-pensar desde pequenos.    Agora, cada um que escolhesse o que quisesse para se especializar e rumasse seu caminho. Escolhi o meu, todos sabem, mas, não sem passar por essas generalidades que citei acima, inclusive o Acordeom. Sim, o velho Acordeom pra mim sempre fora uma brincadeira de muito mau gosto, naquele tempo estava na moda, levado aos píncaros da fama graças ao grande acordeonista Mário Mascarenhas, mas para mim, sempre foi uma brincadeira. Achava-o um troço meio desajeitado, grande demais para uma criança, (um Scandalli de 120 baixos, se não me engano, da minha mãe, que deus a tenha).
   O que mais me irritava nos Acordeons eram as teclas esquerdas, ou melhor, os botões da mão esquerda, que trazem os acordes prontinhos. Por essa época já não gostava muito da polifonia (sempre preferi o contraponto, desde pequeno). E, o tal instrumento estava fadado eternamente a polifonia pelo menos estruturalmente, já que na realidade,  tive oportunidade de ouvir gente fazer verdadeiras peripécias malabarísticas. Peripécias malabarísticas contrapontísticas! Tocar uma fuga de Bach num acordeom pra mim, parece mais mágica que outra coisa! Miraculosa peripécia, devo dizer.
   Pois bem, hoje, mexendo inadvertidamente em meus parcos alfarrábios, que escaparam ilesos do último auto de fé do qual foram vitimas, acabou caindo em minhas mãos um livro de Zequinha de Abreu: Partituras de Zequinha de Abreu transcritas para acordeom por Mário Mascarenhas. Pronto, era o que faltava, Zequinha de Abreu e Mário Mascarenhas.
  Nascido José Gomes de Abreu na distante Santa Rita do Passa Quatro, em São Paulo, no distante 1880, o ilustre maestro Zequinha de Abreu tornou-se reconhecido mesmo, pela exuberante coleção de Choros que compôs. Quem não conhece o Tico-Tico no Fubá imortalizado pela portuguesa/brasileira Carmem Miranda? A obra musical do grande músico é magnífica e permeou toda minha infância, desde as mais singelas como “Os Pintinhos no Terreiro” até as extremamente evocativas e sentimentais como “Tardes em Lindóia”. E Mário Mascarenhas? Que dizer do maior acordeonista do planeta? Nada que se diga acerca do grande músico será fidedigno ao seu talento. Será antes mera vaidade crítica, portanto, devo calar. Calar e invocar o pensamento de M. Naimy: “Em cada mil palavras que se escrevem, às vezes só há uma, que verdadeiramente é necessário escrever! As restantes são somente tinta e papel desperdiçados e minutos aos quais se deu pés de chumbo em vez de asas de luz. Como é difícil, oh! como é difícil escrever a palavra que realmente deve ser escrita!”
   Bem, o que ocorreu comigo, naquele momento em que incauto fucei velhos papeis,  me deparando com aquele velho livro de partituras de Zequinha de Abreu transcritas por Mário Mascarenhas foi algo realmente  muito insólito, vítima, mais uma vez, de uma viagem astral inesperada, fui, subitamente transportado ao passado, aos meus tempos de menino, àquela enorme caixa preta, cujo interior encerrava um magnífico Scandalli escarlate, repleto de detalhes dourados e prateados, com um lindo teclado em  marfim de um lado, e do outro, uma galeria de nada menos que cento e vinte botões de um negro profundamente brilhante. Separados por um indescritível  fole encarnado rutilante, tendo em cada um de seus plissados, a arredondar-lhe os cantos, um lindo contorno de metal prateado, conferindo-lhe nobreza e dignidade…
   Que visão elegante e nobre acabo de ter. Que sensação auspiciosa e sutil acaba de invadir todo meu ser… Aquele Instrumento, outrora desengonçado, que para mim fora brincadeira chula, reveste-se hoje de nobreza em magnitude imensurável. Ah! O que não daria para ouvir mais uma vez um mero acorde daquele tão nobre instrumento…

 

Sete bilhões de habitantes em 2011

O mundo deve alcançar 7.000.000.000 (7 bilhões) de habitantes em 2011.

Esta é a projeção da divisão de população da ONU. O mundo alcançou o seu primeiro bilhão de habitantes por volta de 1804. A humanidade levou milhões de anos de evolução para chegar a este número.  O segundo bilhão de habitantes aconteceu em 1924. Portanto, gastou-se 118 anos para se acrescentar mais um bilhão de pessoas. O terceiro bilhão de habitantes do mundo aconteceu em 1959, 37 anos depois do segundo bilhão. O quarto bilhão de habitantes aconteceu em 1974, 15 anos depois do terceiro bilhão. O quinto bilhão de habitantes do mundo aconteceu em 1987, 13 anos depois do  quarto bilhão. O sexto bilhão aconteceu em 1999, 12 anos depois do quinto bilhão. O sétimo bilhão de habitantes do mundo deve ser atingido no quarto trimestre de 2011, também 12 anos depois do bilhão anterior (Global Population Profile, US Census Bureau).

Em 2010, nasceram, no ano,  132 milhões de crianças e morreram 56 milhões de pessoas no mundo. Isto significa um incremento natural de 76 milhões de pessoas (quase uma Alemanha) durante o ano de 2010. Ou 6,3 milhões por mês (um Paraguai). Ou 209 mil por dia (quase uma Islândia). Ou 8,7 mil novos habitantes por hora (quase o tamanho de Tuvalu), ou 145 pessoas por minuto, ou 2,4 pessoas por segundo (World Vital Eventes – Census Bureau)

A maior parte do incremento natural tem acontecido nos países menos desenvolvidos e mais pobres. Infelizmente, muitos dos filhos que nascem no mundo são frutos de uma gravidez indesejada ou até mesmo de relações sexuais forçadas e violentas. Em geral, os países com fecundidade mais elevada são aqueles onde as mulheres e os casais carecem de serviços de saúde sexual e reprodutiva e são grandes as necessidades não satisfeitas de contracepção. Para muitas mulheres, a interrupção da gravidez se torna uma alternativa perigosa, pois, quando recorrem ao aborto inseguro, acabam aumentando as estatísticas da mortalidade materna.

O fato é que são os países mais pobres, especialmente alguns africanos e asiáticos, que apresentam as maiores taxas de crescimento demográfico. A África tem cerca de 1 bilhão de habitantes atualmente. Deve passar para 2 bilhões em 2050 e pode chegar a 3 bilhões antes do final do século XXI. O impacto desta população crescente sobre o aquecimento global tem sido baixo, mas a pressão sobre a terra e a água é cada vez maior. Nestes casos, o crescimento populacional elevado tem como resultado o aumento da pobreza, o crescimento da exclusão social e o agravamento dos problemas ambientais e a perda da biodiversidade.

Já os países ricos trocaram o crescimento populacional pelo crescimento do consumo.  Os países do G-7 (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá) com 11% da população mundial detinham 50% do PIB mundial (medido em poder de paridade de compra), em 2000. Esta alta concentração da produção e do consumo em poucos países está mudando e a participação do G-7 na economia mundial caiu para cerca de 40% em 2010 e deve chegar a a menos de 30% até 2030. O G-7 vai perder posição relativa, mas o volume absoluto de produção e consumo provavelmente vai continuar aumentando.

O que já está acontecendo e vai continuar acontecendo nas próximas décadas é um aumento elevado da produção e do consumo nos países em desenvolvimento, especialmente na China e na Índia (na chamada Chíndia). O aumento da renda e da economia nos países em desenvolvimento é bom para o combate  à pobreza, quando acompanhado de políticas sociais de inclusão social. Mas a pressão sobre o meio ambiente pode se tornar insuportável.

A China, por exemplo, tinha uma população muito grande, mas um consumo per capita muito baixo até 1970. Isto quer dizer que a Pegada Ecológica da China era baixa. Mas desde as reformas lideradas por Deng Xiaoping, a China optou pelo baixo crescimento populacional e pelo alto crescimento da economia e do consumo. Assim, a China sozinha vai precisar, dentro de pouco tempo, de um Planeta inteiro para atender sua febre de produção e consumo.

Algo parecido está acontecendo com a Índia que está seguindo o modelo chinês de crescimento da produção e do consumo. Mas com uma diferença: a população da Índia continua crescendo, vai ultrapassar a população da China até o ano de 2028, quando ambos os países terão por volta de 1,46 bilhão de habitantes. Mas a China vai ter declínio da população a partir da década de 2030 e a população da Índia deve continuar crescendo (se não houver uma queda signifcativa da fecundidade) e pode chegar a 2 bilhões de habitantes ainda no século XXI. A pressão do consumo crescente destes dois países, que são os dois mais populosos do mundo, vai significar um impacto incalculável sobre o meio ambiente.

O Brasil tem uma situação demográfica privilegiada, pois tem um território grande e uma densidade demográfica de apenas 23 habitantes por km2 (contra 51 hab/km2 do mundo em 2010) e uma população que vai se estabilizar ou começar a declinar já na década de 2030. As pressões sobre o meio ambiente do país não são tão grandes como nos países citados anteriormente. Mas o Brasil precisa cuidar do padrão de produção e consumo para reduzir a sua Pegada Ecológica e garantir a sustentabilidade ambiental, pois o país está longe de uma situação ideal.

O Brasil é um grande país e tem muita terra e água disponíveis, mas também tem muita gente vivendo em assentamentos precários e em áreas de risco. As trajédias climáticas que estão se repetindo e se agravando a cada ano no país são, “naturalmente”, frutos da falta de planejamento e controle urbano e da degradação dos recursos naturais. O problema mais sério do Brasil não é, evidentemente, o tamanho da sua população, mas as suas condições sociais, sua distribuição espacial e a capacidade de governança de seus dirigentes.

O mundo chegar a 7 bilhões de habitantes com aumento da esperança de vida da população não deixa de ser uma grande vitória contra a mortalidade precoce. Mas a continuidade do crescimento demográfico desregrado e o agravamento das condições ambientais é um perigo que deve ser evitado. Muitas espécies vegetais e animais pagaram com a extinção o “sucesso” das atividades humanas na Terra. Mais importante do que ter uma população grande é ter a grandeza de saber compartilhar o nosso habitat comum, cuidar da saúde do Planeta e conviver em paz e harmonia com todos os seres vivos do mundo.

Referências:
Global Population Profile 2002 – US Census Bureau
http://www.census.gov/prod/2004pubs/wp-02.pdf
World Vital Events
http://www.census.gov/cgi-bin/ipc/pcwe
7 Billion and Counting
http://dotearth.blogs.nytimes.com/2011/01/08/7-billion-and-counting/

Mário Bortolotto e suas canções para tocar no inferno.

Há tempos eu acompanho a obra do Mário Bortolotto. É uma obra que transita tresloucadamente entre a dramaturgia, literatura e a música. Com um pendor um pouco maior, no que diz respeito à quantidade, aos textos para o teatro. Mas Bortolotto é sobretudo um escritor rockeiro, se podemos dizer assim. Ao mesmo tempo que escreve, dirige e atua em suas peças, é vocalista e principal letrista da banda de rock Saco de Ratos. Tá no myspace pra quem quiser conferir.
 
Mas vamos nos ater a algo específico. No mês passado o cara lançou seu primeiro livro de contos intitulado “DJ – Canções para tocar no inferno”. A temática do Mário transita entre o submundo paulistano, as prostitutas, bares, bebedeiras, música. Quem se lembrou do nosso velho safado Bukowski está no caminho certo.
 
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A primeira parte do livro é composta por contos com títulos de canções que vão de Jealous Guy do Lennon até Given the dog a bone do AC/DC, o que explica o nome da coletânea. Mas ao longo dos 22 contos do livro, divido em 3 partes, o que vemos é a habilidade em repetir uma temática, da qual o autor é exímio conhecedor, e por isso se torna inesgotável não caindo na mesmice. Bortolotto domina a arte de narrar a madrugada suja do centro da babilônia.
 
Temos sujeitos solitários que apenas querem um pouco de paz. Temos copos de whisky vagabundo nas mãos de saxofonistas que não sabem para onde ir. Vemos os cachorros uivando para madrugada enquanto tentam um pedaço de comida nas latas de lixo do centro nervoso de São Paulo. Por todos eles notamos anjos flutuando que desceram para terra querendo saber de onde vinham aquelas notas melancólicas, a pedido de um Deus que em algum momento os esqueceu, e quem sabe agora sente uma espécie de remorso.
 
Destaco primeiramente o conto Knockin´on heaven´s door, música de Mr. Dylan, onde o sujeito chega no céu e começa a encontrar figuraças do tipo Paulo Leminski, Vinicius de Moraes e Paulo Francis, e eles bebem em bares e falam sobre os que ainda estão por aqui, sobre poesia e literatura. Segundo destaque vai para uma espécie de trilogia, onde um ex-pugilista, um sujeito enorme e agora massagista de clube de futebol, meio que repassa melancolicamente sua vida triste e solitária tendo como pano de fundo as copas do mundo de 50, 54 e 58.
 
Bortolotto sabe sobre o que escreve, vive na pele essa violência da cidade grande. Violência ora explícita (só lembrar os 3 tiros que levou num bar do teatro Parlapatões há um ano atrás na praça Roosevelt), ora simbólica. Mas essa vivência faz toda diferença de, assim como Bukowski, não fazer da repetição temática um lugar de conforto criativo, mas sim de confronto, um confronto dolorido.  
 
 
 
 

Os colaboradores no novo capitalismo

Outro dia entrei no elevador da empresa e ouvi uma funcionária, que não conheço, comentando com a outra: “Você viu que agora a empresa não nos chama mais de funcionários, só de colaboradores?” “É, virou moda.”

A conversa parou por aí, e se eu não estivesse relendo o livro (já esgotado) A Cultura do novo Capitalismo, de Richard Sennett, talvez também não atentasse para resposta que ele, pelo menos, daria à pergunta. Algo como: “Não é moda, mas o capitalismo flexível dominando o discurso empresarial.”

Richard Sennett faz no livro um belo retrato de como as mudanças no capitalismo influencia a cultura contemporânea global, analisando em especial o ambiente empresarial e a vida dos trabalhadores de hoje.

Embora ele não chegue ao detalhe da diferença entre os termos “funcionário” e “colaborador”, é possível perceber como a troca de uma palavra pela outra é condiznte com as transformações do capitalismo.

O “funcionário”, ele é subordinado à instituição, age sobre seu comando e é, na verdade, um membro da organização e muito de sua autonomia de ação é suprimida na relação com o empregador. Em certa medida, esse tipo de relação cria a dependência do funcionário, que trabalha para a empresa e evoluiu ou não com ela, desenvolvendo suas capacidades na instituição e como integrante dela. Ao dizer “funcionário”, a empresa estabelece pelo discurso uma relação em que é diretamente responsável pelo trabalhador em termos legais, trabalhistas etc. Há uma relação de compromisso mútuo e duradouro.

Já o “colaborador” está em um mesmo patamar na relação com a empresa. O colaborador não trabalha “para” mas “com” a empresa, é o que se ouve dizer comumente. O “colaborador” é um “aliado”, não um “membro da família” e, por isso mesmo, os custos de decidir integrar o “time” recai sobre ele mesmo, não sobre a instituição. Aparentemente, o colaborador é até um cidadão em vantagem, mas na prática, ele se torna o único responsável por si mesmo e pela relação de emprego.

Mesmo no caso em que os colaboradores são profissionais contratados de acordo com o regime CLT, a simples mudança no discurso implica uma forte mudança na relação entre trabalhadores e empregadores. A mensagem implícita é clara: a empresa não é responsável pelo futuro ou pelo presente do colaborador, não tem compromissos com ele. Além disso, não cabe a ela investir na aquisição de capital intelectual pelo profissional.

A mudança pode parecer pequena, mas carrega em simples palavras todas as transformações percebidas no mundo do trabalho a partir de 1990, primeiro nas grandes corporações e agora já extensível a quase todas as organizações. No capitalismo flexível – assim chamado por ser norteado pelas novas tecnologias, pelo fluxo global de capitais, pela terceirização, pela produção de produtos de acordo com ciclos com começo, meio e fim, e não como uma atividade permanente e ininterrupta, funcionários são caros e ultrapassados. Já os colaboradores são tudo o que a empresa precisa. Isso porque ao capitalismo flexível interessam profissionais que possam atender a necessidades específicas, com habilidades e competências adquiridas de modo acelerado e, principalmente, atualizado ao máximo.  Mas a empresa não quer pagar por isso. Substitui, assim, os treinamentos e atualizações de funcionários pela contratação de colaboradores por tarefa, profissionais que já cheguem prontos e com conhecimento adquirido, muito provavelmente, por seu investimento de tempo e recursos individuais em especializações, pós-graduações, cursos técnicos.  Tudo isso é também trabalho, mas a empresa já não se responsabiliza por ele.  Esse tipo de profissional aporta à instituição um tipo de capital imaterial – conhecimento, formação, relações – que em certa medida não é pago pela empresa. Também chega com outro tipo de capital, o conhecimento adquirido em suas relações fora da empresa, muitas vezes até mesmo junto a concorrentes, em universidades, em outros ambientes.

As necessidades produtivas das empresas mudam rapidamente e não há tempo hábil para esperar que o funcionário de hoje – por mais inteligente, dedicado e competente que seja – se adapte em termos de conhecimento e habilidades a essas mudanças. O colaborador já oferece isso pronto, já adquiriu as capacidades necessárias fora e, se não se mantiver atualizado, pode ser descartado com mais facilidade.

Ao substituir o termo “funcionário” pelo termo “colaborador”, a empresa sinaliza isso de forma bem clara: para se manter em seu emprego, integrar novos projetos da empresa, desenvolver sua carreira é preciso que você esteja apto a colaborar em todas as situações com a rapidez que precisamos. Aos funcionários, esses dinossauros da relação trabalhista, restam, quando muito, os cargos menos importantes e as velhas gratificações por serviços prestados.
 

Introdução a Topologia

Chamada inicialmente de “analysis situs” a topologia geral é uma teoria matemática ao mesmo tempo simples e complexa. Simples porque se baseia em conceitos elementares básicos próprios da geometria euclidiana e complexa porque os utiliza de forma completamente diferente. Suponhamos, por exemplo, três tipos de figuras geométricas: um círculo, um triângulo e uma elípse. O que podem ter de comum essas três figuras? O que é possível dizer é que são figuras “fechadas”, isto é, constituidas por linhas contínuas de pontos ininterruptos. Definidas desta forma as três figuras não se distinguem entre si. Topologicamente não há como distinguir entre elas em suas formas e tamanhos, visto que existe um princípio geométrico que as torna todas iguais. Observem que o que estamos propondo é exatamente o método da geometria euclidiana, ou seja, uma teoria baseada nas suas “verdades”, isto é, nos seus axiomas. Sendo assim podemos transformá-las, deformando-as de maneira a se obter a mesma forma e tamanho para todas elas. As transformações são válidas porque obedecem  à “verdade” da teoria, ao seu axioma.  O que interessa então, segundo Riemann, é estudar as propriedades invariantes sob o efeito de transformações biunívocas contínuas. Georg Fiedrich Bernhard Riemann, (1826-1866), matemático alemão, é considerado o criador da topologia geral, apesar de Georg Cantor e Poincaré terem mencionado a possibilidade da sua existência. Basicamente a topologia geral diz-nos que o espaço topologico pode sofrer deformações, desde que essas deformações não destruam as correlações entre as figuras.topológicas. De novo estamos procedendo exatamente como na geometria euclidiana. O plano cartesiano pode ter duas ou três dimensões desde que no espaço tridimensional se mantenham as propriedades do espaço bidimensional. O mesmo critério é aplicado ao espaço topológico. Por exemplo, o plano cartesiano pode ondular, desde que os pontos do espaço ondulado tenham uma correspondência um-a-um com os pontos do espaço cartesiano. Quer dizer desde que se possa aplicar a teoria dos conjuntos.
Com a definição do espaço topológico, os matemáticos procuraram ampliar as noções fundamentais de aberto, fechado, compacto, etc..Além disso como todas as figuras podem ser reduzidas a uma só, a linha reta passou a ser um caso particular da linha curva. Todas as figuras topológicas passaram a ser designadas como “simples linhas curvas”. As principais aplicações específicas da topologia geral dizem respeito à topologia algébrica ou combinatória e à topologia diferencial. Vejamos a topologia algébrica ou combinatória. Consideremos no espaço topológico, uma esfera e um cubo interno, sendo que os oito vértices do cubo são pontos da superfície esférica. Qualquer que seja o raio da esfera escolhido ele cruza a superfície do cubo num único ponto. Existe portanto entre os pontos das duas figuras geométricas, da esfera e do cubo, uma correspodência um-a-um biunívoca. Essa correspondência é idêntica à que ocorre quando se considera, no plano euclidiano, a figura geométrica de um triângulo. Se de um dos vértices traçarmos um segmento de reta ligando-o a qualquer ponto do lado oposto, ele cruzará, em um único ponto, qualquer segmento de reta interno ao triângulo que seja paralelo ao lado oposto. A correspondência entre os pontos dos dois segmentos de reta paralelos é uma correspndência um-a-um biunívoca, tal como a do exemplo no espaço topológico. Como os dois segmentos de reta paralelos têm comprimentos diferentes, fica patente que a correspondência um-a-um só pode existir se admitirmos que os pontos geométricos são adimensionais, isto é, não têm dimensões. Pode-se dizer que são pontos “virtuais”. Convém esclarecer que o conceito de espaço não existe na geometria euclidiana, que admitia tão somente o plano euclidiano. O espaço cartesiano surgiu com Descartes, de dois eixos ortogonais, definindo a partir do ponto zero do seu cruazamento o espaço bidimensioanl. Voltemos ao espaço topológico e às duas figuras da esfera e do cubo. Nesse espaço não interessa as dimensões das figuras, mas apenas  a correspondência um-a-um entre os elementos dos dois conjuntos de pontos. Vejamos uma analogia combinatória entre duas figuras geométricas da geometria euclidiana, aplicável às figuras topológicas da esfera e do cubo. Consideremos um círculo e um quadrado nele inscrito. Já vimos que é possível subdividir sucessivamente os lados do quadrado formando polígonos, sempre inscritos no círculo, com cada vez maior número de lados. O perimetro dos polígonos só atinge a circunferência do círculo quando o polígono desaparecer, isto é, após um número infinito de subdivisões. Com a esfera e o cubo ocorre o mesmo. É possível subdividir o cubo criando poliédros com cada vez mais faces sempre inscritos na esfera. Após um número infinito de subdivisões o poliedro desaparece na superfície esférica. É claro que o plano euclidiano nada tem a vêr com o espaço topológico, mas também o espaço cartesiano não é um espaço topológico. Por isso a  topologia geral é uma teoria matemática específica que se diferencia das demais. Apesar disso está baseada em conceitos que podem ser extrapolados das geometrias euclidiana e cartesiana, permitindo descobrir novos significados de aplicações mais amplas.
      
Fico por aqui. Até à próxima.
      

 

O Biscoito Fino e a Massa

___Eu sei que o meu último editorial foi sobre a morte de um blog que eu gostava, sei que eu provavelmente deveria evitar repetir o assunto – não quero que meus editoriais pareçam epitáfios, nem que urubus rondem minha coluna –, mas não é possível ficar sem falar do fim de um dos melhores blogs de língua portuguesa: O Biscoito Fino e a Massa.
___Idelber Avelar comandou, desde meados de 2004, um blog, nas suas palavras, “de esquerda sobre política, literatura, música e cultura em geral” (procurando nos textos mais antigos, também se encontra bastante futebol). Passear pelos arquivos, diga-se de passagem, é encontrar textos de argumentos fortes, sempre com uma linguagem gostosa de ler e com uma posição política muito bem assumida.
___Se querem minha opinião sincera, a parte mais imperdível do Biscoito foi o trabalho feito sobre a Palestina Ocupada. Foi fabuloso ver o Idelber falando o que quase ninguém falou por aqui por tanto tempo. Até (e principalmente) quem já tem uma opinião formada sobre o assunto deve dar uma lida atenta no que foi dito por lá. 
___Por fim, como isto ainda é o editorial de um portal, vale citar que, em sua despedida, o Biscoito agradeceu a muita gente desta casa. Eu até poderia começar a citá-los, mas acho que vale mais à pena indicar o texto de despedida – tanto para que vocês possam ver os links daqui, como, também, para aproveitar as outras ótimas indicações feitas por ele.
___Fica meu carinhoso abraço ao Idelber.
 

 

Evitando ciladas na compra de imóveis

 No momento de realizar o sonho da casa própria, seja pronta ou na planta, é necessário ter precaução. Para isso a AMSPA – Associação dos Mutuários de São Paulo e Adjacências preparou dicas essenciais, com o intuito de impedir que o comprador caia em ciladas. 

 
De acordo com levantamento feito pelo Secovi-SP, de janeiro a novembro de 2010 foram vendidas 31 mil unidades residenciais na Capital paulista. Para 2011, a projeção de crescimento deve chegar a 5%. 
 
Antes de fechar a compra da casa própria é necessário analisar todos os detalhes, que vão desde a escolha do local até o momento da assinatura do contrato. 
 
O mutuário deve se certificar se a zona escolhida está valorizada, se é abastecida com linhas de transporte, se há trânsito, qual é a metragem do espaço e, no caso da compra de apartamento, o valor do condomínio e a posição em que entra a ventilação, que pode ser motivo de desvalorização, além de conhecer a infraestrutura oferecida no bairro, como pontos de comércio, hospitais, escola e supermercado.  
 
Outro fator essencial é qualidade da obra e o prazo de entrega. Para isso, é importante pedir ao corretor que apresente pelo menos três empreendimentos concluídos no prazo de no mínimo um ano pela construtora. O comprador deve conversar com outros moradores para saber se estão satisfeitos. 
 
A idoneidade da construtora é outra etapa imprescindível: o pedido do CNPJ e a consulta ao Procon são fundamentais. Também é de suma importância pesquisar sobre a incorporação do imóvel; se o engenheiro e o arquiteto estão devidamente registrados no CREA; INSS; ações cíveis, trabalhistas e criminais; débitos junto ao município; a situação do corretor junto ao CRECI e o memorial descritivo registrado. 
 
O memorial deve conter a marca de todos os materiais e equipamentos utilizados na obra, como elevadores, pisos, azulejos, pias, entre outros, valendo a pena pedir auxílio de um especialista para saber da qualidade dos produtos. 
 
Também antes de fechar o contrato, é necessário atentar para a condição financeira da família em pagar as parcelas, já que os financiamento costumam ser longos. 
 
Se o financiamento for feito diretamente com a construtora, o adquirente deve pedir uma projeção da 
primeira até a última parcela; ou uma simulação, se o financiamento for tirado em banco. O ideal é que a prestação não comprometa mais de 30% da renda familiar.          
 
Para aqueles que têm dinheiro guardado, o melhor momento para quitar o financiamento ou fazer abatimentos é quando ocorre a conclusão da obra.  Mas o financiamento deve ser o mínimo, pois quanto maior o tempo e o valor, mais juros incidirão. 
 
Antes de fechar o contrato também é fundamental formalizar a proposta com tudo o que foi conversado e prometido pelo corretor, como preço, prazo, forma de pagamento e reajustes. 
 
Na hora de assinar o termo de compra da casa, não devem faltar a data da entrega da obra; a definição de multa pelo descumprimento; demonstração se há aprovação do financiamento com o banco e quais suas condições; discriminação da forma de pagamento e suas correções; e a metragem do imóvel.    
 
A Associação sugere ainda o registro do contrato mesmo com o imóvel na planta e que o comprador não aceite pagar nenhum valor separado do contrato, devendo ser guardados folders, anúncios, fotos da maquete, do espaço interno da casa, pois poderão servir de provas em uma eventual ação judicial. 

Quero um amor com guarda-chuva

 
 
Todo orgulho será amargamente punido e a nudez inocentada pela minha paixão, que se despiu de vaidade pra te aceitar por mais um mês. (Começo inspirado em Nelson Rodrigues. Não tenho pudores de me sujar com entregas e equívocos).
 
Não lembro mais dos teus movimentos; não com a definição de antes. Ainda recordo, e apenas isso, tuas procuras carinhosas amortecidas na minha gordura acumulada em anos e anos de arrependimento e monotonia. Corro 12 km diariamente, mas minhas faltas, essa carência que me faz bicho estranho, sem asas e diminuído, têm me preenchido quase completamente. E agora, todos os teus detalhes que reluziram pra mim, queimando a vaidade das pupilas e a rigidez pra buscar alguém como eu, são fantasmas.
 
Teus dedos não procuram acarinhar minhas costas flácidas; tua boca sumiu das minhas importâncias. Não restou nem o calor do teu entendimento sobre mim, sobre minha busca; e tua necessidade de me precisar na sexta seguinte já me assusta também porque parece mentira. Está pintado de cinza o sentimento que coloriu nosso encontro inicial.
 
Devias ter aberto teu peito e derramado sobre mim tua saborosa inconstância de vinte e um anos, aquele medo de amar às seis da manhã e ter a verdade de minhas ridicularias expostas pela afirmação que o sol sempre traz, a procura ainda jovem e eterna de não se sabe bem o quê, esse núcleo amorfo que ninguém conhece, mas que só pode ser amor, amor por mim, pelo meu querer, pelas minhas complicações hidratadas, pela minha dança acelerada, meu jeito pop ultrapassado de dançar e escrever com pretensão.
 
Preferiu abrir a camisa. Desabotoou tua alegria e disse que precisava confiar em mim. Se não vens com armas, por que eu usaria escudo?
 
Pediu que eu não falasse nada a ninguém. Que teu corpo é uma escultura que abastece qualquer imaginação com desejo e ternura. Que meus olhos procuram a delicadeza e honestidade das tuas palavras. Porque eu sabia que guardavas tua sinceridade na profundidade dos olhos que só me enxergavam depois da embriaguez.
 
Prefiro teus pedidos e a suposta necessidade que tens da minha disponibilidade pra te querer mais do que hoje por mais alguns meses, do que tuas definições e certezas de que o corpo pede mais por sexo que por minhas ligações no dia seguinte.
 
Teus dentes afastados – talvez por ciúme, talvez por vaidade, semelhantes que pouco se suportam (e não quero acreditar que tua natureza seja essa de ceder à selvageria da vaidade) – lembram uma amiga que me oferece uma verdade sem ensaios, espontaneamente preparada para as descargas do meu sentimentalismo, pois coisa que aceitei cedo foi assumir a falta escabrosa, o relambório afetivo e meloso que se tornou minha vida. E por isso confiei na tua precisão, nas tuas palavras que fugiram pelos dentes separados. Se funcionava com a amiga, deveria funcionar contigo.
 
Não houve nenhum posicionamento desfeito de frivolidade vindo de ti; falo de uma postura eficiente, sem incômodos, desarrumada no orgulho e no receio de me querer outra vez.
 
Não sou teu principezinho de vinte e oito anos. Sou psicólogo comprometido com o sofrimento de outros; e tenho faltas que não saram, nuvens carregadas de dor e insegurança.
 
Confesso desanimado que já afoguei ex-amores com minha torrencialidade, e eles preferiram acreditar que não nasceram pra morrer afogados ou de amor inventado, ao invés de comprarem um guarda-chuva, ou esperarem meu sol nascer.
 
E eu lá trovejando, trovejando, trovejando.
 
Sei que um copo não é suficiente para os dilúvios que ofereço. Jogue fora isso que trazes nas mãos, que eu só comporto adequadamente em corações corajosos.
 
Sou um detalhe de um mundo cheio de super-herois e fantasmas, e que por isso mesmo precisa de um sonho escrito a duas mãos, mas que seja real e possível em sua desmesura.
 
Basta que digas a verdade, honestamente: Quero um homem, não uma tempestade.
 
Que eu vou esperar um guarda-chuva que me acolha e um amor que vista minha paixão nua, que me cubra com um querer dedicado, e enxugue minhas faltas.
 
Vou ficar aqui e esperar um amor com guarda-chuvas.
 
 

O patriarcado

No século XIX, uma mulher que tivesse uma propriedade, ganhasse altos salários,
fizesse sexo fora do casamento, tivesse realizado ou recebido sexo oral,
usado métodos contraceptivos, convivido com homens de outras raças,
dançado, bebido ou tivesse o hábito de caminhar sozinha em público,
além de usar maquiagem, perfume, roupa de estilo –
e não se envergonhosse – era, provavelmente,
uma prostituta”.
Thaddeus Russell (“A Renegade History of the United States”)

O patriarcado é um sistema social no qual o homem (no papel de marido ou de pai) é o ator fundamental da organização social, e exerge a autoridade sobre as mulheres, os filhos e os bens materiais e culturais. Historicamente, o patriarcado pode ser encontrado, com algumas diferenças de estilo, nas civilizações hebraica, grega, romana, indiana, chinesa, etc. Mesmo vindo de longe, o patriarco teve uma profunda influência sobre a maioria dos aspectos da civilização moderna.

O patriarcado puro, isto é, em todas as suas dimensões de segregação, nunca existiu em sua totalidade em uma mesma sociedade. Algumas dimensões do patriarcado predominam sobre as outras, conforme o tipo de organização social e cultural, estabelecidas historicamente. Mas em geral, o patriarcado se caracteriza por ser um sistema onde há o predomínio dos pais e dos maridos (pater families) sobre as mulheres e os filhos, no âmbito da família e da sociedade.

Na antiguidade, segundo a Lei das Doze Tábuas, o pater familias tinha o “poder da vida e da morte” sobre a cônjuge, os descendentes e os escravos. Vem desta época o poder, pela linhagem masculina do: Pai, Patrão, Pastor, Padre, Padrinho, Patrono unidos em um espaço chamado Pátria (terra dos pais) e não Mátria (terra das mães).

No patriarcado tradicional existe uma rigida divisão sexual do trabalho e uma grande segregação social, em geral, com as mulheres ficando confinadas ao mundo doméstico e os homens monopolizando o mundo público. O patriarcado, em termos materiais, possibilita ao homem o controle da propriedade e da renda da família, o controle do trabalho e da mobilidade da mulher e o destino dos filhos.

A ausência de autonomia feminina e o desempoderamento da mulher é maior no sistema que, além de patriarcal, é também patrilocal e patrilenar. No sistema patrilocal a mulher recém-casada segue o marido, passando a morar no local onde ele mora, tendo a obrigação adicional de cuidar dos sogros. Ao casar, geralmente o marido exige um dote e busca romper os laços da esposa com sua família e comunidade de origem. Quanto mais segregada for a mulher casada, maior será o controle masculino sobre a vida e os frutos do trabalho da esposa e dos filhos.

No sistema patrilenear, a sucessão geracional é definida pela linha paterna e, geralmente, só os filhos (masculinos) possuem direito à herança. O sobrenome do pai é que define a linhagem familiar, sendo que o sobrenome da família pode desaparecer se hão houver descendente do sexo masculino. A prática patrilinear é um dos motivos pela preferência por filhos homens e uma base para a prática do “femicídio” ou “gendercídio”.

Nos países patriarcais, patrilocais e patrilineares a forte preferência pelo filho homem aumenta a razão de sexo (relação entre homens e mulheres em cada grupo etário), favorecendo a criação de um superávit de homens na sociedade. Neste e em outros aspectos, a dominação masculina é um fato que permeia toda a vida social.

Por exemplo, no Afeganistão, até hoje, mas principalmente no período do governo Taleban, as mulheres não podiam dirigir carros, entrar na universidade e sair desacompanhada na rua. A segregação da mulher ao espaço doméstico é completado pelo uso da burca (que é uma vestimenta que cobre todo o corpo, até o rosto e os olhos) nos espaços públicos. O patriarcado controla o corpo da mulher e determina os modos de vestimenta e de comportamento feminino em público.

Neste sistema, as concubinas e os filhos “ilegítimos” não possuem os mesmos direitos das esposas e dos filhos “legítimos”, constituindo-se uma das parcelas mais pobres e discriminadas da sociedade. Alguns países patriarcais ou permitem ou toleram a poligamia, mas condenam e punem a poliandria. Alguns países criminalizam a infidelidade feminina, no casamento. Recentemente, o mundo todo se mobilizou contra as autoridades do Irã que condenaram à morte por apedrejamento, a viúva Sakhine Ashtiani, por um suposto crime ter mantido relacões sexuais fora do casamento.

O controle da sexualidade feminina é uma forte característica da sociedade patriarcal. Além da obrigação da mulher casar virgem, existe um rigoroso esquema de controle da sexualidade das esposas e filhas. Em alguns países da África e da Ásia, o costume da Mutilação Genital Feminina (MGF), ou excisão feminina é uma pratica que consiste na amputação do clitóris da mulher de modo a que esta não possa sentir prazer durante o ato sexual. Há ainda a mutilação genital chamada de infibulação, que consiste na costura dos lábios vaginais ou do clítoris.

As organizações de direitos humanos denunciam este costume sócio-cultural que causa danos físicos e psicológicos irreversíveis e, além de ser considerado um ato de tortura e abuso sexual, é responsável por inúmeras mortes de meninas e mulheres.

O patriarcado também considera a sexualidade apenas do ponto de vista das relações heterossexuais. O modelo do homem macho e viril é ensinado como tipo ideal para garantir a continuidade da dominação masculina sobre as mulheres, preservar as relações sexuais generativas e a continuidade da sucessão das gerações. Neste sentido, a homossexualidade é condenada e a homofobia é incentivada. Muitos países ainda hoje condenam à prisão ou a morte as pessoas que aderem à homossexualidade. Outros países, mais tolerantes, simplesmente proibem a união sexual do mesmo sexo e a homoparentalidade.

Em seus aspectos mais dogmáticos, o patriarcado é um sistema que vem perdendo espaço no mundo e tende a ser superado pelas novas dinâmicas familiares e sociais e por uma sociedade com maior igualdade de direitos entre homens e mulheres, assim como pela difusão de novas formas de família e de relacionamentos sexuais entre as pessoas.

O patriarco está em declínio, pois ao longo do século XX, diversos acontecimentos históricos permitiram o avanço de um processo de despatriarcalização no mundo. Mas, assim mesmo, não é dificil encontrar, em maior ou menor grau, as suas marcas no dia a dia das pessoas e nas condições materiais e nas manifestações culturais dos diversos países da comunidade internacional. O desafio para o século XX é construir uma sociedade pós-patriarcal, com equidade de gênero, com liberdade de opção sexual e com igualdade de oportunidade entre homens e mulheres.

Referências:
ALVES, J.E.D, CORREA, S. Igualdade e desigualdade de gênero no Brasil: um panorama preliminar, 15 anos depois do Cairo. In: ABEP, Brasil, 15 anos após a Conferência do Cairo, ABEP/UNFPA, Campinas, 2009. Disponível em:
http://www.abep.nepo.unicamp.br/docs/outraspub/cairo15/Cairo15_3alvescorrea.pdf

Reducing and Reversing Gender Inequalities in Latin America • José Eustáquio Diniz Alves, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); Suzana M. Cavenaghi, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); George Martine, Independent Consultant. Annual meeting of the Population Association of America, March 31 to April 2, 2011, Washington, D.C
http://paa2011.princeton.edu/download.aspx?submissionId=112757