Mais do mesmo e mais de coisa nenhuma

___Um dos grandes assuntos deste mês de maio foi o depoimento dado pela professora Amanda Gurgel, na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. Falando com muita propriedade, (algo que não isenta a fala dela de críticas), Amanda dissertou um pouco sobre a péssima situação na qual vivem os professores do país. Para quem não viu, aqui está o link do discurso.

httpv://www.youtube.com/watch?v=yFkt0O7lceA

___Amanda apareceu em canais de televisão, foi compartilhada a torto e a direito pelas redes sociais, deu entrevista para jornais impressos. Mesmo gostando do discurso da moça, não vejo motivo para tanta repercussão. O que foi falado é tão lugar comum, é tão simples, todo mundo já ouviu tantas vezes que equivale a demonstrar espanto por gatos miando, montanhas ficando paradas ou religiosos acreditando em bobagens.
___Não sou só eu que falo isso. A própria Amanda, em fala repercutida pelo RS Urgente, diz “Fico surpresa com toda essa repercussão porque o meu discurso não trazia nada de novo. Qualquer professor conhece aquelas situações descritas.”. Não só qualquer professor. Dificilmente alguém que já frequentou uma escola desconhece essa situação. Blogs de professores falam disso a todo momento. Até o Chico Anysio, fazendo comédia, lembrava: “E o salário, ó!”, enquanto fazia sinal de pequeno com os dedos.

Professor Raimundo e o salário

___Só me chateia muito saber que essa repercussão em cima da fala na Assembleia Legislativa é só revolução de sofá – nada mais vai ser feito além de se comentar o problema. Um dos grandes assuntos deste mês de maio foi o depoimento dado pela professora Amanda Gurgel. Agora, queridos leitores, podem se preparar que o assunto já está pronto para ser esquecido no mês de junho que entra.

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P.S.: No dia 6 de Junho, o Ops! vai sortear dois exemplares autografados de Os anões, de Veronica Stigger – um pelo Facebook, outro pelo Twitter. Para concorrer pelo Facebook, basta curtir a comunidade do Ops! e clicar em “Quero participar” na página da promoção. Para concorrer pelo Twitter, basta seguir o 0ps! e dar retweet em um dos tweets de divulgação do sorteio.

 

Funções

Função é uma relação entre grandezas matemáticas. O caso mais simples é o de duas grandezas que se relacionam entre si, representando uma figura geométrica no plano cartesiano de coordenadas ortogonais. René Descartes (1596-1650) criou as bases da Geometria Analítica, também chamada de Geometria cartesiana, onde a ideia fundamental consistiu em substituir os pontos por números. Os dois eixos numéricos ortogonais dividem o plano cartesiano em quatro quadrantes, convencionalnente chamados de 1º, 2º, 3º e 4º quadrantes, numerados no sentido anti-horário de rotação. O eixo horizontal é o eixo dos xx’s ou das abcissas e o eixo vertical o eixo dos yy’s ou das ordenadas. Os dois eixos cruzam-se no ponto 0 ou o ponto de origem das coordenadas. Os eixos estão divididos em unidades numéricas iguais, em valor absoluto, para ambos os eixos, numa sequência crescente a partir do zero. No eixo dos xx’s a numeração é positiva do zero para a direita e negativa do zero para a esquerda. No eixo dos yy’s a numeração é positiva do zero para cima e negativa do zero para baixo. A numeração de um ponto qualquer do plano cartesiano é denotada convencionalmente (a,b), onde “a” é o valor no eixo dos xx’s “b” o valor no eixo dos yy’s. O ponto (3,4) por exemplo. Vejamos: no 1º quadrante (+3,+4), no 2º quadrante (– 3,+4), no 3º quadrante (–3, –4) e no 4º quadrante (+3, –4). A fórmula geral da função (x.y) é y=f (x) ou seja “y é função de x”. Quer dizer “x” e “y” são duas “variaveis” mas “x” é a variável independente e “y” a variável dependente. Por isso é que se diz que “y” é uma função de “x”. É claro que a relação entre as variáveis uma independente e a outra dependente, não existe sempre. Ela ocorre por exemplo no movimento de um veículo em velocidade uniforme. A variável independente é o tempo decorrido e a dependente a extensão percorrida. Por isso se diz: “o veículo estava a 80 km/hora”. Agora por exemplo se quisermos observar a evolução do estado físico da água, sólido líquido e gasoso, sob a ação simultânea da temperatura e da pressão, uma não depende da outra. Para observar a água sob a ação de uma das variáveis a outra tem de se manter constante. Voltemos às funções. Quando se trata das funções numéricas a referência é em relação aos números reais, pois esses números englobam todas as categorias dos números. Lidando com reais temos a maior abrangência possível, pois os eixos numéricos são contínuos, não existindo “vazios”a serem preechidos. Sendo assim poder-se-ia pensar que não haveria mais nenhuma insuficiência numérica a ser eliminada. Mas não é isso que acontece. Consideremos a equação quadrática x2+1=0. Esta equação não admite nenhuma solução no conjunto dos números reais, pois não existe nenhum número real cujo quadrado seja – 1. No princípio do século XIX Karl Friedrich Gauss, (1777-1855), resolveu o impasse criando os chamados números complexos. Estes números têm dois fatores fundamentais que lhes permitem utilizar o plano cartesiano. Primeiro uma unidade imaginária i=– 1 distribuida no eixo vertical das coordeanadas cartesianas, segundo uma notação álgébrica para os números complexos a+bi onde “a” e “b” são números reais. Desta forma os números complexos são representados no plano cartesiano por dois eixos ortogonais, o eixo horizontal das coordenadas reais, o chamado eixo real, e o eixo vertical das coordenadas imaginárias, o chamado eixo imaginário. O espaçamento das unidades é igual para os dois eixos. Apesar do nome os números imaginários são tão “reais” quanto os números reais.  Portanto com esta representação todas as insuficiências foram eliminadas e os números complexos constituem a representação numérica global incluindo todss as categorias de números. Quer dizer é a representação final global das funções numéricas, onde cada ponto do plano cartesiano é definido por pares de coordenadas (a,b) de números reais.
Fico por aqui. Até à próxima.           
 

O jornalismo-terror da revista ‘Época’ (ou como não fazer pseudojornalismo)

O sociólogo Pierre Bourdieu tem uma visão da sociologia de que gosto muito. Ele compara a sociologia a um “esporte de combate” (vejam o filme), porque serve justamente para explicitar e, a partir disso, combater, dominações, desigualdades, ideologias e violências. Se a sociologia é um esporte de combate, acho que a crítica à ideologia reproduzida pela mídia é uma de suas modalidades. É preciso desconstruir o discurso midiático porque seu objetivo é reforçar e manter as relações sociais exatamente como se apresentam hoje, com seus preconceitos, desigualdades e injustiças.

Acho que não chega a ser novidade para ninguém que os interesses econômicos mais robustos – que andam de mãos dadas com os interesses políticos mais conservadores e dominadores – sustentam a mídia tradicional. Mas contentar-se com essa explicação é ser muito simplista. Essa associação se desdobra em uma infinidade de aspectos do discurso jornalístico.

Assim como no esporte de combate o atleta procura usar a força do adversário como alavanca para sua força. É só explicitando cada um dos aspectos ideológicos do discurso, que constituem a força da produção midiática – a frase torta, a construção ideológica de cada matéria, a argumentação falaciosa perdida no texto – que é possível enfraquecer o poder exercido pelos meios de comunicação.

Ontem estava procrastinando no Twitter quando meu amigo Fabiano Camilo, blogueiro de O Pensador Selvagem, me mandou o link da capa da revista Época desta semana. Oportunidade melhor para exercer o esporte de combate que é a crítica à mídia, impossível.

A capa mostra a presidenta Dilma Rousseff de olhos fechados e em uma pose estática toda cercada por um fundo preto. Pode-se dizer que ela está morta. A reportagem de capa promete desvendar segredos sobre “A saúde de Dilma”, porque a revista diz que “teve acesso a exames, lista de remédios e relatos médicos” e que “seu estado exige atenção”. Expressões que pretendem conotar que: 1 – se existe sigilo, há algo a ser escondido; 2 – se exige atenção, algo não vai bem; 3 – se só a revista teve acesso, só ela pode revelar o que está sendo escondido.

Informações sobre a saúde de um paciente são totalmente sigilosas e, portanto, a revista Época, da editora Globo, obteve as informações de forma ilegal. E desde já acredito que uma investigação deveria ser feita sobre isso. Porque um meio de comunicação que opera ilegalmente não está exercendo a liberdade de imprensa e sim um crime.

Mais do que um crime, o que se percebe no discurso dessa “reportagem” (entre aspas, porque tenho sérias dúvidas sobre a adequação desse termo para o material publicado) é um desejo de criar um fato, sustentá-lo com frases falsamente objetivas e informativas e disseminar uma imagem de que a presidenta é uma mulher à beira da morte.

Destaco entre aspas e em itálico algumas frases do site da revista. Sobre a pneumonia que a presidenta teve no fim de abril, diz o texto: “segundo palavras que ela mesma disse, de acordo com um interlocutor de confiança, teria sido ‘a pior de todas as doenças que já enfrentei’”. Na legenda de duas fotos que mostram Dilma em dois momentos de saúde frágil, a frase atribuída a ela, também citando como fonte “interlocutores” é “a pneumonia foi pior que o câncer”.

Deixando de lado o mérito da citação que vem de um dos interlocutores (e que pode ser falsa, inexata e até mesmo inexistente, pois “interlocutores” não significa nada, pode ser qualquer pessoa, de qualquer grau de relação com Dilma), uma frase como qualquer uma dessas, se foi mesmo dita por Dilma, poderia ser também um mero desabafo. Tanto eu como você quanto qualquer pessoa à nossa volta já usou frases exageradas assim para se referir a uma doença. E isso nada significa. Mas a tentativa da revista de inventar uma situação com a qual o leitor acredite que seja preciso se preocupar é muito mais forte do que o desejo de produzir jornalismo de qualidade. E para perceber isso basta observar que a legenda da foto atribui a Dilma uma frase muito mais terrível do que o texto: “a pneumonia foi pior que o câncer”. Claro, muitas pessoas leem apenas a legenda da foto, os títulos e olhos das reportagens.

Mais adiante, o texto diz que medidas adotadas para combater a pneumonia de Dilma foram “recursos usados em casos graves”. Nenhum – repito – nenhum médico ou especialista em medicamentos é citado como fonte dessa afirmação. Esse é o típico caso da argumentação falaciosa perdida no texto que mencionei acima. Uma afirmação sem o menor indício de ser verdadeira, mas que associada a nomes de substâncias químicas e medicamentos que os leitores desconhecem assume um tom de verdade.

“Assessores próximos contam que a doença afetou a disposição da presidente e seu estado psicológico. Ela sentia cansaço e falta de ar.”
Bem, quem já teve uma gripe forte, por mais saudável que seja, já sentiu tudo isso e até mais. O trecho é só mais uma redundância, técnica básica do jornalismo para reforçar uma ideia quando faltam elementos concretos para comprová-la, no caso a ideia de que temos alguém muito frágil no comando do País.

Um destaque especial da “reportagem” para o quadro com o “coquetel de remédios” (uma expressão por si só carregada de ranço cientificista para significar que o problema de saúde, seja qual for, é sério). Na lista entram curcumina, cartilagem de tubarão, óleo de linhaça, FiberMais que não são medicamentos. Logo, só estão na lista para aumentá-la e torná-la mais impressionante.

O site da revista reproduz trechos de um boletim médico emitido especialmente a pedido de Dilma pelo Hospital Sírio-Libanês que atesta que não há nenhum motivo para preocupação com o estado de saúde da presidenta. E é aí que a própria revista dá uma dica de que tudo o que veio antes é uma grande bobagem: “Mas as informações obtidas por ÉPOCA revelam que a saúde da presidente ainda exige atenção. Não por causa do câncer. Mas em virtude de preocupações naturais para uma mulher de 63 anos. Dilma convive com vários problemas que consomem energia.”

Sim, Dilma exige todos os cuidados de saúde que qualquer mulher (ou homem, diga-se de passagem, mas vou deixar passar essa para o texto não se alongar muito) exige. Então, por que fazer uma matéria de capa? Por que usar uma foto assustadora? Por que divulgar  informações sobre a saúde de uma pessoa que, como paciente, tem o direito de ter todos os resultados de seus exames mantidos em sigilo? (E, só para deixar claro, esse sigilo não se deve ao fato de a pessoa em questão ser chefe de governo e de Estado. Todos nós temos direito a esse sigilo diante de nossos empregadores, familiares, amigos e opinião pública.) Por que ocupar páginas e páginas com elocubrações, conclusões, suposições sem o embasamento de uma única fonte qualificada, isto é, um médico?

É óbvia a tentativa de Época de criar um fato inexistente para desestabilizar não só o governo mas, principalmente, a confiabilidade e a segurança das pessoas em relação à presidenta Dilma e sua atuação. Na minha opinião, a editora Globo só conseguiu uma coisa: mostrar que publica informações irrelevantes, trabalhadas de maneira incompetente até mesmo para seus próprios objetivos, e que age ilegalmente. É o jornalismo-terror que atua sem escrúpulos, sem ética, sem regras. Todos sabemos que os interesses econômicos e políticos mencionados no início do texto não estão satisfeitos com Dilma no poder. Mas até o pseudojornalismo feito para defender tais interesses já produziu material mais consistente em suas falácias. Para Época, nota zero em pseudojornalismo e em credibilidade.
 

Seu gosto é duvidoso?

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O “gosto” é, foi e sempre será um tema espinhoso e um terreno muito pantanoso e escorregadio. É fácil cair no senso comum, fazer generalizações, dar opinião, apontar preferências, mas admitamos, é um tema fascinante e convidativo. Eu acabei meu artigo “Som, Ruído e Música” – publicado aqui em 19.10.2010, dizendo: “Gosto não se discute, porém numa arqueologia do gosto, concluo que se respeita o do outro, porém se admite que há gostos inferiores e gostos superiores”, ou seja, esse trecho admite uma hierarquia do gosto. Mas é estranho tudo isso. Uma vez que há muita subjetividade envolvida nesses processos – por exemplo, se “gosto” está relacionado com prazer, sempre iremos esbarrar na questão de algo te da mais ou menos prazer – mas só que isso é para você e não necessariamente em todos os casos. É o mesmo reducionismo que eu critico na psicologia. Não podemos relacionar que todos os filhos de pais separados serão homicidas – é mais correto dizer que há incidência em muitos casos, mas nunca em todos e essa não pode ser uma padronização. Então o gosto é subjetivo, depende da experiência de cada um, isso a julgar meramente pela sensação. Analisando música de um ponto de vista mais funcionalista, e enquadrando-a num aspecto mais amplo, talvez possamos usar critérios de relevância, assim como se apurarmos pelas questões especificamente técnicas. Só que somos humanos. Dificilmente iremos racionalizar na hora de nos referirmos ao gosto do outro. Essa condição humana – a que chamamos egocentrismo, irá fazer com que coloquemos nosso gosto sempre na frente do gosto do outro, aliás, a denominação o “outro” já soa extremamente impessoal. Até no meio crítico vejo considerações no mínimo imprudentes, como chamar o gosto do outro de “duvidoso”. Aliás, qual é a dúvida? Eu especulo que a dúvida seja no sentido de imaginar como alguém pode gostar “daquilo”. E convenhamos, esse “daquilo” também é bem pejorativo.

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É claro, assumir um gosto necessita de personalidade, pois quando se está ligado a um grupo, se deve ouvir o que o grupo ouve – mesmo que você goste de outras coisas, não soa bem perante o grupo admitir isso. A primeira vista não combina ter no Ipod um Job for a cowboy e um Elton John – mas numa segunda vista eu pergunto, e daí? Não admitir isso é o mesmo que não admitir que há tipos de música para ocasiões e momentos distintos. Sei lá, como eu também analiso a coisa pelo seu viés mercadológico – para o Job for a cowboy não interessa muito se alguém só curte o som deles ou se ouve Roxette também, o que no fundo todos querem é vender – seja o disco, seja o show (e obviamente faturar). Sou a favor de que se ouça um pouco de tudo, principalmente se lhe agradar. Em última instância quem decide é você – e o critério quem decide também é você, aí voltamos a estaca zero, na minha opinião eu ganho mais ouvindo uma ópera do Verdi do que ouvindo um bonde de funk – mas nada impede alguém de ouvir, afinal, isso faz parte da dimensão pessoal de cada um. Informalmente conversando com algumas pessoas, as fiz admitir certos gostos que o “senso comum” ridiculariza. Se dividirmos a sociedade, teremos sempre a “minoria” e a “maioria” – então, se surgir uma banda ou uma música se tornar hit, é comum que ou caia no gosto da maioria ou ao menos poucos gostem, mas dificilmente haverá ignorância. O senso comum (a maioria) impõe regras, jeitos, modos, gostos – logo, quando não se caminha na direção da maioria, você se marginaliza, e automaticamente seu gosto torna-se duvidoso. Como não nos despimos de nossos preconceitos e egocentrismo, se você é alguém que ouve Miles Davis, certamente irá estranhar uma música com um verso: “no hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via, você sofrendo a sorrir” (Amado Batista). Isso para o ouvinte de jazz soa duvidoso. Para alguém que ouve brega (não todos) o jazz não faz sentido algum, ou para pagodeiros (não todos), música erudita é coisa de gente rica (sic) – logo, a dúvida (do gosto duvidoso) se dá dos dois lados. O que essas pessoas com quem eu conversei confessaram?

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Que acham a música “Um anjo veio me falar” do grupo Rouge, linda. Aqueles versos podem não tocar a todos (a maioria), mas toca a algumas pessoas. Aí você torce o nariz e diz: – Rouge! É. E não se trata de gostar do grupo, eles gostam da música, mas mesmo se gostassem do grupo. Citaram “É o amor” de Zezé di Camargo e Luciano. Duvidoso para alguns, para outros uma bela música. Um deles até cantou um trecho: “e fez eu entender que a vida é nada sem você” – dizendo que marcou uma história de amor. É um sertanejo brega – há quem diga que canções de amor são sempre bregas, mas há quem goste. Eu pessoalmente não gosto nem de uma e nem da outra canção, para mim pode ser duvidoso, pois eu não gosto, não me desperta nada, mas e para eles? Muitos conhecidos meus adoram CSS (Cansei de ser sexy), outros adoram Bonde do rolê – é uma música trash, estranha, mas que agrada inclusive aos gringos. Criamos padrões que norteiam nossa vida e definem desde autores de literatura, sapatos, pratos de comida e a pessoa amada. Na música também é assim, determinamos o que nos agrada e que nos desagrada – e buscamos sempre similaridades, tons e acordes que nos remetam ao nosso “gosto” – isso explica a aversão que muitos temos pelo novo. Os entrevistados também citaram “Meu bem” da banda Catedral e “Esperando na janela” do Cogumelo Plutão – duas músicas de FM de fim de tarde, mas que a eles agradam. Aí você as ouve, se agrada, mas não confessa. E porque? Simples, porque não soa bem perante o seu grupo dizer que você gosta “disso” (sic). E o que dizer de Zéu Britto e Rogério Skylab? Que cantam coisas malditas, palavrões e verdades doídas! E veja como é estranho, a mim me agrada: “eu quero ver Soraya queimada, porque Soraya me queimou” (Zéu Britto), entre outras canções dele e de Skylab. Há quem aponte para eles como aberrações, como anti-música, como extremamente duvidosos. O deles pode ser classificado como duvidoso, o meu não, o meu é bom. Então é realmente paradoxal, e pensando melhor, não há isso de duvidoso, pois se trabalharmos com conceitos de totalidade, algo só é ruim se for considerado ruim por todos, pois enquanto alguém achar o contrário, esse algo também será bom. Embora eu ainda considere certas coisas ruins – entre elas funk e sertanejo universitário, concluo que é ruim para mim e nada me dá direito de desqualificar o gosto dos outros, embora eu possa (mas não devo). Então após analisar bem, pode até haver uma hierarquia do gosto – porém ela é pessoal e não universal. Eu posso na minha dimensão pessoal definir o que para mim é bom e o que é ruim, é diferente dos conceitos de certo e errado porque aí eles extrapolam a questão da pessoalidade. Por isso sou contra as imposições da indústria, da mídia, da imprensa musical, e considero que o papel do crítico não é dizer o que é bom e ruim, mas sim dar condições ao ouvinte de fazer ele mesmo sua avaliação. Como é o seu gosto – é duvidoso, ou duvidoso é só o dos outros.

 

 

 

O Esquisito Violino Stroh

   Dando prosseguimento ao assunto da aula anterior, vamos conhecer hoje, na categoria de  estranhos instrumentos, da nossa querida Escola Anormal, o esdrúxulo Violino Stroh.
   Criado por Johannes Matthias Augustus Stroh, daí seu nome, esse violino aparentemente estranho, tem lá sua explicação. Na época das gravações em discos de cera, no tempo dos Phonógrafos e Gramophones, como se sabe, não havia ainda a captação elétrica do som, ou seja, a música produzida pelos instrumentos, ou antes, a vibração produzida pelos instrumentos, atingia a campânula de um grande funil de metal que conduzia esta vibração até uma espécie de diafragma acoplado à uma agulha. Vibrando este diafragma, a agulha, que lhe estava ligada, igualmente vibrava, por conseqüência imprimia, na cera meio amolecida, essas vibrações. Após, era só fazer essa agulha trilhar novamente aqueles sulcos que ela mesma traçara, lá estavam registrados os sons que ela gravara ao vibrar sobre a cera. O resultado? Ora, reproduzia-se a mesma música produzida pelos instrumentos, só que desta vez, reproduzida pela máquina, não é fantástico? Simples, fantástico e Divino, como tudo que o homem inventa com o espírito  voltado tão somente para ideais nobres e elevados como a Música, por exemplo.
 Bem, o certo é que um grupo de instrumentistas, durante a gravação de determinada música, deveria posicionar-se bem próximo à máquina de gravação, a fim de que suas vozes e as vozes de seus instrumentos penetrassem com facilidade o tal funil. Agora, imaginem numa orquestra, aqueles instrumentos cujo volume sonoro (intensidade) geralmente não é assim tão forte, como o violino, dificilmente um som de pouca intensidade atingiria a boca desse funil com a mesma facilidade com que o faria um instrumento potente, do naipe dos metais, como uma Tuba por exemplo. Assim, por conseguinte, é fácil perceber que o som do violino sairia quase inaudível naquela gravação. Foi aí que surgiu o nosso herói Johannes Stroh, que sabiamente substituiu a tradicional caixa de ressonância do violino (o corpo do violino) por uma espécie de corneta. Uma pequena caixa situada abaixo das cordas do instrumento captava o som (as vibrações sonoras) enviando-as para a parte mais cônica de um funil (a corneta) que a amplificava ao liberá-la pelo outro lado, ou seja, pela abertura mais larga, (como foram importantes os funis heim?) este era, portanto, o método de amplificação imaginado por Johannes Stroh. Método completamente mecânico, naturalmente, mas na época, a fina flor da tecnologia.
   O Instrumento era meio estranho, realmente, uma espécie de violino híbrido,do qual saía uma grande e esquisita corneta mas, prestava-se perfeitamente ao papel para o qual fora criado: Amplificar os sons do violino. E, com isso, conseguiu-se fazer gravações maravilhosas em discos de cera, valendo-se deste engraçado artifício. O resultado foi tão bom que perdurou até após o invento do microfone elétrico, chegando ainda a ser usado fora dos estúdios de gravação, em salas de concerto.
   Para termos exemplo real do som deste extravagante instrumento e de uma dessas gravações, no link abaixo você poderá ouvir uma soberba gravação  da Danse Macabre de  Saint-Saëns pela Orquestra da Filadélfia, conduzida por Leopold Stokowski, em 1925. A Gravação é espetacular, não apresenta um chiado sequer e não passou por nenhum tipo de remasterização, está completamente original e é rara!
   Aproveite, portanto, esta bela gravação com esse excêntrico instrumento, CLIQUE AQUI.
   Forte abraço.

Derrubando (ou pintando) paredes

___Tenho publicado no meu blog algumas reflexões sobre pichações e propriedade privada. Sei que parece que eu estou utilizando este Editorial apenas para fazer propaganda do meu trabalho, mas, acredito eu, o debate sobre o tema é bastante válido.
___Alcunhada de “Muros, ironia e espaço público”, a série começa com uma gostosa citação de trechos do livro Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva. Em seguida, na segunda postagem, publiquei fotos que tirei de um muro próximo à minha casa por cerca de dois anos. Para fechar (mesmo que provisoriamente) a reflexão, falei um pouco dos trabalhos em muros feitos pelo Banksy, um dos mais importantes artistas britânicos em atividade, e, finalmente, dei a minha opinião sobre a questão.
___Para não parecer que isso aqui é apenas auto-jabá, tenho uma indicação extra muito boa para quem gosta do tema. O blog Panóptico já apresentou o tema pichação em mais de uma de suas postagens e suas palavras, bem mais duras que as minhas, também merecem atenção. Deem uma olhada, principalmente, nos textos de 2008.

 
 

Insuficiências e Infinidades

A matemática começa pelos números. Sem eles nada feito. Os números expandiram-se nas suas diversas categorias à medida que o nosso conhecimento exigia outras aplicações para além dos números naturais, que são os mais simples de todos. Os números naturais são números inteiros representativos por sí mesmo, próprios para contar quantos elementos formam um conjunto de “coisas”. Daí o seu nome, “naturais” que não é uma designação apropriada. De fato nada na  matemática pode ser considerada “natural”, pois tudo é produto da mente humana, o que é algo extraordinário. A matemática é uma ciência exata que se constrói voltada para si mesmo. No entanto com a sua contribuição, somos capazes de interpretar o mundo em que vivemos. Mas voltemos aos números naturais. Começam com o número 1 e a sua sequência obtém-se adicionando o número 1 ao número anterior, ou seja, 1, 2, 3, …, n, n+1, …. Os números naturais crescem, indefinidamente, isto é, tendem para o infinito. Podiamos até dizer que neste caso têm um infinito “natural”. Sendo este infinito inatingível como podemos afirmar que ele existe? Raciocínando por indução: 1+1 dá 2, 2+1 dá 3, 3+1 dá 4 e assim por diante. Este processo que se repete sempre da mesma maneira, faz “induzir” que a substituição do número 1 pelo número 2, o número 2 pelo número 3  e assim por diante nada altera em relação ao infinito, o que o torna inevitável. Temos aqui portanto a primeira infinidade. Vejamos agora a primeira insuficiência. Os números naturais crescem somando-se uns aos outros e a soma é a sua operação aritmética fundamental. A operação inversa da soma, a subtração,  pode ser realizada mas somente se o diminuidor for menor que o diminuendo. Caso contrário a subtração não existe, pois os números negativos não podem ser considerados por estarmos restritos aos números naturais. Temos portanto a primeira insuficiência. Para eliminá-la temos que introduzir o zero que constitui o início da contagem dos números tanto positivos quanto dos negativos. O zero não é um número natural e a sua incorporação expande a categoria dos números naturais transformando-a na categoria dos números inteiros positivos e negativos. Ou seja passamos para a seguinte sequência: … –1–n, – n, …, –3, –2, –1,,0, +1, +2, +3, …, n, n+1, …. Os números positivos e negativos crescem indefinidamente. Temos portanto dois infinitos, um em cada extremo do que podemos considerar como um eixo numérico. Claro que não existe um infinito positivo e outro negativo. O infinito não tem sinal, é simplesmente infinito nada mais. Mas os números inteiros podem ainda ser insuficientes. Consideremos as operações aritméticas da multiplicação e da divisão. Para a multiplicação muito bem, os números inteiros não apresentam qualquer restrição mas para a divisão já não é assim. As restrições estão sempre nas operações inversas. As operações diretas da soma e da multiplicação são realizadas em conjuntos fechados. Quer dizer, somar e multiplicar numeros inteiros dão sempre resultados em número inteiros. Não há como sair deles. Mas com as operações inversas não é assim. Já vimos que com a subtração temos que introduzir os números negativos, Agora com a divisão temos de passar dos números inteiros para os números racionais. O número racional é o que pode ser expresso pelo quociente de dois números inteiros, dos quais o divisor não é nulo. É a divisão mais simples de todas. Para outros resultados da divisão os números racionais são insuficientes. Temos de passar para os números irracionais que, por sua vez, fazem parte dos números reais. Estes são os que correspondem à máxima expansão numérica cobrindo toda as suas insuficiências. Os números reais têm a propriedade fundamental de existir, entre dois números reais, por mais próximos que estejam, sempre um terceiro número real. Os matmáticos chamam a essa propriedade a “hipotese do continuum”. Significa que no eixo numérico não existem mais “vazios” a serem preenchidos. Assim sendo os números reais são “incontáveis”, isto é, existe um número infinito de números reais, não considerando os números racionais. Um exemplo importante deste caso é o da raiz quadrada de 2. A raiz quadrada de 2 expressa o comprimento da diagonal de um quadrado medido pelo comprimento do seu lado. Essa relação representada pelo teorema de Pitágoras para um triângulo retângulo isósceles diz que a soma de catetos iguais ao quadrado é igual ao quadrado da hipotenusa: 2c2=h2..Ou seja  retirando os quadrados e passando o “c” para o segundo membro da equação, temos que a raiz quadrada de 2 é um número decimal infinito. Euclides provou que esse número não podia ser par nem ímpar, e que se tratava de um número “especial” infinito pois se não era nem par nem ímpar teria que ser infinito. Esta conclusão levou os pitagóricos a uma “crise” por destruir a tese que “tudo são números”. Como era possível que uma figura geométrica tão simples e regular como um quadrado apresentar semelhante discordância? De fato sabemos hoje que a raiz quadrada de 2 em representação decimal é igual ao número infnito 1,41421356237309504… . E pensar que essa propriedade foi descoberta no século IV a. C. Para finalizar convém esclarecer que nesta exposição ficaram de fora os números complexos. Trata-se de outra questão a ser considerada. Fica aguardando uma nova oportunidade.

Fico por aqui. Até à próxima.                    

Escola Anormal – A Trompa

 Tenho, em meus alfarrábios, uma pequena série de artigos que denominei de Escola Anormal, forma de alusão às antigas Escolas Normais, encarregadas de formar professores e que acabaram sendo substituídas pelas atuais escolas de segundo grau ou, sei lá como se chamam hoje em dia… Nesta série, faço pequenas e despretensiosas descrições dos vários instrumentos componentes de uma orquestra (ou não) dando ênfase àqueles mais esquisitos ou, menos comuns, o que, em verdade, acaba abranjendo  todos eles pois, se analisarmos com cuidado, perceberemos que todos apresentam características singularíssimas, resultado, penso eu, da tremenda necessidade que sempre atormentou o homem no seu afã de expressar-se através da arte, principalmente da Música.
 Há, entretanto, neste seleto hall de instrumentos sinfônicos (ou não) realmente, alguns que nos chamam à atenção mais que outros, seja pelas suas esquisitices estruturais, por alguns detalhes construtivos ou até pelo perfeccionismo da boa liuteria.
 Exemplo de um dos mais belos artefatos sonoros criados pelo homem é a Trompa, consiste, este magnífico instrumento de angelical sonoridade, de um tubo metálico com quase quatro metros de comprimento, enrolado em círculos sobre si mesmo, a fim de, diminuindo-lhe o tamanho, possa ser manipulado e executado com relativa facilidade pelo músico, o trompista, facilidade, no caso da Trompa é mera retórica.
  Dotado de chaves, estas são acionadas pela mão esquerda do músico, enquanto a direita controla a intensidade de ar que percorre o instrumento. Este enorme tubo de metal habilmente enrolado tem, numa extremidade o bocal, a embocadura propriamente dita, noutra, o pavilhão, por onde sai o som, amplificado pela sua natural conformação em forma de campânula. O concurso do uso das chaves e da mão direita no interior da campânula, sem esquecer-se do sopro perfeito do trompista, é que faz com que as notas sejam produzidas em diferentes alturas e timbres. É um instrumento realmente muito difícil de tocar, o trompista, além de um ouvido afinadíssimo deve ter uma coordenação motora perfeita para controlar os músculos das mãos direita e esquerda além da própria respiração. O timbre da trompa é muito rico em harmônicos e muito se assemelha à voz humana, a mão dentro da campânula ajuda a produzir uma enorme variação de timbres.
 Trompas aparecem nas 10 últimas sinfonias de Haydn e Mozart, em todas as 9 de Beethoven, nas 4 de Schumann, nas 4 de Brahms, nas 6 de Tchaikovsky, nas 9 completas de Mahler. A partitura da Segunda Sinfonia de Mahler exige dez trompas”.
  Bem alunos, Oops! Quero dizer, bem amigos, esta é nossa querida Trompa, milhões de palavras, entretanto, seriam inúteis para descrevê-la. Como disse o sábio Mikhail Naimy: “Em cada mil palavras que se escrevem, às vezes só há uma, que verdadeiramente é necessário escrever! As restantes são somente tinta e papel desperdiçados e minutos aos quais se deu pés de chumbo em vez de asas de luz. Como é difícil, oh! como é difícil escrever a palavra que realmente deve ser escrita!”
 Sinto-me impossibilitado, pelas minhas inúmeras limitações, a prestar uma justa homenagem a este magnífico instrumento que nos tem embalado com encanto e desvelo durante os séculos da Música. Fiquemos, portanto, por aqui mesmo. Na próxima aula conheceremos um instrumento bem estranho, mistura de cordas friccionadas com uma campânula metálica, um híbrido esquisitíssimo! Meio violino, meio trompa… Refiro-me ao desengonçado  porém adorável Violino Stroh, mas, trataremos dele só na próxima. Até lá.
Forte abraço!

 

O julgamento do STF

Em um dia memorável, o Supremo Tribunal Federal brasileiro julgou e decidiu por unanimidade, na última quinta-feira, que os direitos inerentes à união estável são extensivos aos casais homossexuais. Parabéns aos ministros, mas principalmente parabéns à Procuradoria Geral da República, por ter entrado com o pedido.

O processo foi protocolado em julho de 2007, e sua tramitação completa pode ser vista aqui, no sítio do STF. No mesmo sítio, também está divulgada a decisão final, que apenas informa que o pedido foi acatado. É preciso então consultar a petição inicial para se entender que o que a Procuradoria pediu, e o STF concedeu foi:

que esta Corte declare: (a) que é obrigatório o reconhecimento, no Brasil, da união entre pessoas do mesmo sexo, como entidade familiar, desde que atendidos os requisitos exigidos para a constituição da união estável entre homem e mulher; e (b) que os mesmos direitos e deveres dos companheiros nas uniões estáveis estendem-se aos companheiros nas uniões entre pessoas do mesmo sexo.

A decisão é um grande avanço em vários aspectos.

Primeiro, significa o reconhecimento público de que não cabe legislar nem definir sobre a afetividade das pessoas. Nem o Estado nem as instituições religiosas devem normatizar as relações sexuais consensuais entre adultos. É uma questão de foro íntimo.

Seria muito importante que a partir de agora as energias e as ações com respeito a tratar de comportamentos sexuais se voltassem para a necessidade de previnir e combater a violência sexual dos adultos contra as crianças, e dos homens contra as mulheres. Este é o problema a ser solucionado, e não a questão sobre se é legítimo ou não que duas pessoas do mesmo sexo tenham uma relação afetiva do tipo que reservávamos aos casais heterossexuais.

Do alto de minha ignorância jurídica, me parece que a decisão do STF demonstra que não é mais possível tapar o sol com a peneira. Se o casamento homossexual é uma realidade vivida por muitas pessoas, não é mais o caso de fingir que ele não existe, e sim de estender a ele a normativa existente para a união estável. A própria idéia da união estável já havia sido um avanço na legislação sobre a família no Brasil, ao dar status jurídico aos casos que antes conhecíamos por “amaziados”, “juntados” e outros termos pejorativos para quem não passava papel em cartório antes de viver junto.

Algumas questões pontuais, e textos importantes para se pensar a questão, antes de reclamar ou elogiar a decisão dos ministros:

Está na hora de os evangélicos, e outros religiosos pararem de associar de forma mentirosa a homossexualidade com a pedofilia, como neste vídeo cretino que circulou durante as eleições.

Os evangélicos deveriam ser os primeiros a defender a legitimidade da homoafetividade, por que sua teologia considera legítimo o sexo por prazer – ao contrário da católica que o associa exclusivamente à reprodução e proíbe o prazer e a contracepção.

Aliás, é um escritor evangélico que melhor define a maneira como a igreja usa suas técnicas de manipulação do medo para tratar da questão da união homossexual:

E que ameaça maior do que um mundo em que a união civil entre homossexuais denuncie diariamente o caráter relativo e historicamente determinado de soluções de convívio que a sociedade toma por normativas? O que parecerá mais perturbador do que um mundo em que gente do sexo masculino ouse definir a sua relação mútua pela afetividade e não pela agressividade e pela competição? Um mundo em que mulheres ousem prescindir do homem para encontrar a sua satisfação sexual e emocional? (Paulo Brabo)

NPTO, um blog de política que parece que não existe mais, também tratou da questão certa vez, discordando da necessidade de que certos políticos religiosos de esquerda devessem assumir posturas pró-união de homossexuais. Podemos levantar a mão para o céu, por que a decisão foi no STF, evitando a porcalhada que ia ser uma disputa sobre isso no Congresso Nacional. Com a imprensa que temos, e com os políticos evangélicos (e católicos) que temos, dá pra imaginar o estrago.

O ponto jurídico da questão, aliás, foi tratado por Túlio Vianna em um artigo para a Revista Forum tempos atrás.

E há ainda outro texto clássico, para responder àqueles que pensam, como eu fazia, que os homossexuais deviam lutar para acabar com a figura do casamento patriarcal burguês, e não quererem se casar na igreja. O Fabiano Camilo explicou um pouco sobre as lógicas de se casar demonstrando que a dificuldade em normatizar isso é tão grande quanto a de normatizar a conduta sexual em si.

Enfim, longe de resolver a questão, a decisão do STF é um passo importante, que terá que ser acompanhado por um amadurecimento da sociedade brasileira no trato da questão.

Osama ao mar, Obama nas alturas?

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Osama, Obama, O_ama, uma letra de diferença em duas biografias que não demorarão muito para serem imortalizadas nos cinemas, e que agora, por um capricho da história, poderão figurar sem grandes alardes em uma mesma película, vidas que se cruzam. A caixa preta povoada pelo brilho do feixe de luz que projeta no muro branco uma multiplicidade de imagens. Recordo-me de um sem número de filmes sobre o Vietnam, e a produção de desfechos para uma guerra perdida.
Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, tampouco às alturas,  me espanta a euforia que tomou conta das ruas, especialmente nos Estados Unidos da América do Norte. De fato, foi-se o ícone-mor da recente Guerra ao Terror, mas ao lançar seu corpo ao mar, não se estaria também construindo um már_tir? Não defendo Osama, que já foi defendido por patrocínios de um lado e de outro durante a Guerra Fria e que agora era caçado em todos os cantos. Ouvi dizer por aí que Osama vivo ajudou a reeleger o Bush-filho e que agora Osama morto seria de grande importância para a tentativa de reeleição de Obama.

Existiu mesmo um Osama? Acredito que muitos se lembram da investida ao Iraque promovida durante o governo do Bush-filho, justificada pela produção de armas de destruição em massa, cujas evidências nunca foram encontradas (teriam se auto-destruído?). Um de meus avôs morreu duvidando que o homem havia mesmo pisado na Lua, será que alguns de nós viverão sem acreditar neste corpo supostamente lançado aos tubarões? – Just cause you see it, it doesn’t mean it’s there. Os corpos desaparecem, assim somem as evidências, mas ainda é possível afirmar que houve uma morte (a ser investigada), vide o recente caso Eliza Samúdio. Outro fato que me espanta é a ordem de certos acontecimentos: Osama morre em uma data que não ofusca nem a missa de beatificação do Papa João Paulo II, tampouco o casamento do Príncipe.