O que herdei dos meus pais e devo deixar para meus filhos?

Pois é,

Pesquisando na internet encontrei um dado de 2004: somente o Brasil produz algo em tormo de 45 milhões de metros de jeans e 204.207.000 de calças jeans. (fonte). A quantidade de água gasta para fabricar uma única calça jeans é de 151,4 litros. (“Segundo o designer da marca, Carl Chiara, o processo de lavagem normal para a fabricação de um jeans poderia gastar até 151,4 litros de água“).Ok! existem vários números por aí. Mas vamos tomar esses como exemplo, mesmo porque são fontes confiáveis, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) e da Levi’s. Ainda segundo a Levi’s, para lavar uma calça jeans gastamos algo como 42 litros de água.

Pois bem, uma ducha normal, de boa qualidade, gasta entre 12 a 18 litros de água por minuto (fonte). Vamos abusar um pouco e usar 18 litros. Para concluir a etapa de dados, um bom e relaxante banho, com ducha a gás, leva em torno de 20 minutos. Agora as contas ficam fáceis.

Só no Brasil são gastos, por ano, para fabricar e lavar as calças jeans (considerando uma lavagem por semana): 30.916.939.800 l (para a fabricação) + 445.988.088.000 l (par lavar pelo uso). Somando, temos 476.905.027.800 litros de água. Isso mesmo, 477 bilhões de litros de água apenas no Brasil.

Euzinho, este que vos fala, gasta nos seus banhos (um por dia, pois vivo em terra fria) algo em torno de 6.570 litros/ano. Ufa! Fiquei tranquilo, pois isso representa apenas 72.588.284,29 dias, ou 198.872,01 anos da minha vida. Como o sol vai explodir somente a daqui 5 bilhões de anos, tenho tempo até lá. Dito de outra forma, o que se gasta para alimentar egos, com a produção brasileira de jeans, daria para 72,6 milhões de pessoas tomarem banho.

E como “Dois terços da população mundial em 2025 não terão acesso à água potável” (fonte), fico pensando: ok, vou fazer a minha parte e economizar água do banho para dar de beber a quem tem sede. Mais, vou fechar a torneira enquanto escovo os dentes ou faço a barba. E vou mijar no banho. Afinal, uma descarga gasta 20 litros. E vou apagar as luzes. Enfim, vou seguir, tim tim por tim tim, o roteiro da formiguinha. Vou preservar o meio ambiente. E, sacrifício dos sacrifícios, vou deixar de comer carne. Quem sabe assim o pum das vacas pare de poluir o ambiente.

Usei apenas um exemplo, o do jeans. Multiplique isso pelos milhões de exemplos onde a água é utilizada e terei que me manter vivo até quase o sol explodir. Pensando bem, até que será um fenômeno interessante, o suficiente para me fazer pensar em realmente mudar meus hábitos.

Mas Afonso, não se trata de economizar, o que queremos é uma mudança na “visão do mundo”; queremos que as pessoas tenham consciência de que estarão deixando um mundo ruim para seus filhos e netos e de que podem fazer alguma coisa para mudar. Sim, claro, lembro bem de 1972. Por sinal, lembro de coisas bem anteriores… Lembro do mundo que meus pais me deixaram.

Meus pais me deixaram à porta de um circo. Minha geração resolveu entrar nesse circo e atuar como os palhaços da vez. É, é como um palhaço que me sinto diante da tentativa de “fazer a minha parte”.  Como me sinto como um palhaço, com todos me olhando, cada vez que desfilo garbosamente pelo supermercado com minhas sacolas de pano, enquanto milhares não estão nem aí! Como me sinto como um palhaço, com todos me olhando, cada vez que coloco meu lixo, cuidadosamente separdo, para que o caminhão do lixo esmague tudo junto. Claro, minha consciência ficou tranquila por imaginar que pessoas poderão sobreviver pelo meu ato.

Cheguei a acreditar nessa baboseira toda. Mentira. As pessoas devem sobreviver pelas ações do poder público, que é pago pelo nosso trabalho. E não fazem. Lixo me sinto  a cada vez que digo “Filha, estás demorando muito no banho! Olha a natureza, deves economizar água!’ Palhaços do lixo e o que somos, todos os que defendemos o fazer a sua parte para que os demais usem e abusem do mundo tal qual querem e podem. E não adianta o argumento de que é mudando uma cabeça de cada vez que chegaremos lá. Antes disso o sol explodirá. Antes disso as empresas e a mídia já terão – como já estão fazendo – tomado conta da “causa ambiental” e vendido tudo quanto é porcaria sob o selo “nós defendemos a natureza”. E as pessoas simplesmente continuarão a acreditar nisso. E por quê? Por que é mais fácil enxergar um elefante que uma formiguinha.

Fazer a minha parte tornou-se gastar pólvora em chimango, como dizermos aqui no Rio Grande do Sul. Certo que continuarei a fazer minhas pequenas ações, mas não por acreditar num projeto, numa ideia, na natureza, mas porque algumas são qualidade de vida para mim e os meus. Ainda não cheguei ao ponto de ser ativo na destruição, mas não me peçam mais para ajudar a conservar.

Não privarei mais minha filha de seus banhos de meia hora enquanto corruptos de todas as espécies roubam meu dinheiro e … tomam seus banhos de meia hora (se fosse só isso…)

Foi esse o circo que meus pais me deixaram e esse será o mundo que deixarei para minhas filhas. Cabe a elas escolher, assim como coube a mim.

Um novo editor provisório

Em maio, a escritora e blogueira Fal Azevedo esteve em Brasília, para a estreia da peça teatral Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite, baseada no romance homônimo de sua autoria. Dois dias antes da estreia, Fal, na companhia do diretor da peça, Arthur Tadeu Curado, participou de um bate-papo a respeito do livro, da adaptação e de outros assuntos. Ela falou um pouco sobre seu blog, Drops da Fal, um dos mais famosos, muito merecidamente, e antigos da blogosfera brasileira, que, em março, completou nove anos. Das palavras de Fal naquela noite, registrei uma passagem em especial. Ela contou que, nos últimos nove anos, a maioria das coisas boas que ocorreram em sua vida estiveram relacionadas, de alguma maneira, ao blog – de oportunidades de trabalho na área de tradução a novos amigos.
Tenho me perguntado: por que blogar? o que pode um blog? A primeira pergunta é subjetiva, pode comportar tantas respostas quantos forem os blogueiros; pode também ser reescrita: por que não blogar? A segunda respondo de modo vago: estamos descobrindo.
Eu mesmo não tenho uma resposta pessoal para a pergunta “por que blogar?”. Passados quase dois anos desde que comecei, ainda não sei por que blogo. Contudo, não tenho vontade de parar. Talvez, suspeito, porque o blog também me trouxe muitas coisas boas – entre as quais, a amizade de Madame Fal, como eu carinhosamente chamo a Fal.
Em uma carta à moda antiga, a uma amiga muito querida, ela também blogueira, autora daquele é, em minha opinião, um dos melhores blogs brasileiros, confessei que, por vezes, questiono se tudo o que escrevemos, movidos por aquilo em que acreditamos, produz efeitos. Ela deseja outro mundo. Eu também. Estou certo de que nós todos, colunistas e blogueiros que somos e fazemos O Pensador Selvagem, desejamos. De nossos desejos não sei o que restará. Tampouco dos milhares de textos que escrevemos. Anseio por um mundo outro, mais belo e justo, muito diferente deste, que não é nem belo nem justo. Não sei se viverei para vê-lo – talvez não. Não sei sequer se esse mundo virá, mesmo que em um futuro demasiado distante. Todavia, se tudo o que escrevemos for em vão, restarão os afetos. Em face do terror deste mundo, a amizade – esse vínculo gerado do gostar, do querer bem e da confiança recíprocos – consubstancia, em si, uma forma de resistência, porque é uma abertura ao outro e um entregar-se a possibilidades.
Um blog não é apenas uma escritura, pode ser também um espaço de encontros, de construção de afetos e envolvimentos. Eis um dos motivos pelos quais blogar, bem como coparticipar na escrita de um blog comentando posts, pode ser uma experiência gratificante.
No último diálogo travado com Kublai Khan, em As cidades invisíveis, de Italo Calvino,Marco Polo diz a seu amigo:
O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço.
* * *
André Egg e Ulisses Adirt conceberam o projeto de uma série de editorais dedicados aos blogs do OPS! e me convidaram a participar da empreitada. Por ora, me considero um editor provisório. Estou neste espaço colaborando com dois amigos. Se me tornarei um editor efetivo, o tempo dirá, muito embora eu não tenha essa pretensão.
Em meu próximo editorial, entrarei na dança. O texto será dedicado ao blog do meu amigo André, Um Drible nas Certezas. Como disse a ele, passarei ao largo somente dos posts sobre futebol, por absoluta falta de competência para discorrer a respeito do tema.
PS: escrevi este editorial na madrugada do dia 20 de julho. Não sabia que dia era, nunca sei, e não me lembrava de que, nessa data, se comemora o Dia do Amigo.

As crises ideológicas do capitalismo ocidental e o “socialismo de mercado”

O capitalismo do Ocidente tem sido moldado pela disputa ideológica entre duas correntes políticas que se confrontam, especialmente nos últimos 60 anos. De uma lado estão os liberais que defendem o Estado mínimo e a predominância da lógica do mercado (lei da oferta e procura, a livre mobilidade do capital, etc.), enquanto do outro lado estão os social democratas que defendem maior regulação do mercado e maior presença do poder público, especialmente na construção de um Estado do Bem-estar Social.

Os Estados Unidos da América (EUA) são os maiores defensores do modelo do Estado mínimo e do Consenso de Washington. Os países europeus, em geral, vão mais na direção da linha ideológica da social democracia e da construção do Estado do Bem-estar Social.

Porém, a despeito das diferenças entre os dois modelos, ambos se encontram em crise, fazendo com que as economias avançadas apresentem baixas taxas de crescimento econômico, altos déficits, altas dívidas, crise fiscal e alto desemprego. Os países ocidentais estão perdendo participação na economia internacional e a mobilidade social ascendente entre as gerações está comprometida. Os jovens da Europa e dos EUA estão tendo pela frente menores oportunidades de emprego, maiores taxas e maiores encargos com as gerações idosas.

A crise dos PIIGS (como são pejorativamente chamados os países: Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Spain) é apenas a ponta do iceberg da crise européia e dos países que adotaram o Euro. O PIB dos 16 países que fazem parte da área do Euro representava pouco mais de 20% do PIB mundial em 1992, mas já caiu para menos de 15% em 2011 e deve ficar abaixo de 10% até 2020. Ou seja, a União Européia e a moeda única – que foram considerados um antídoto para a euroesclerose e uma esperança de recuperação econômica do poder da Europa – não conseguiram reverter o processo de declínio relativo da região. O envelhecimento populacional e a crise do sistema previdenciário tende a agravar a situação européia nas próximas décadas.

A crise econômica dos EUA – que começou em 2008 e provocou um grande declínio do PIB em 2009 –veio para ficar na forma de baixo crescimento econômico e alto desemprego. Os EUA são o país com o maior déficit no comércio internacional, maior déficit público em termos absolutos e maior dívida externa do mundo. Nos últimos 30 anos os EUA cresceram utilizando o déficit gêmeo (fiscal e comercial) e a dívida pública, que chegou ao astronômico número de 14,3 trilhões de dólares em julho de 2011, atingindo o teto determinado pelo Congresso dos EUA. Tanto o governo Obama, quanto a Câmara dos deputados concordaram em reduzir despesas nos próximos 10 anos. Sem o combustível dos déficits e do endividamento crescente espera-se, pelo menos no curto prazo, que haja desvalorização do dólar e continuidade do declínio americano.

Assim, a economia que já carece de estímulo interno e de falta de competitividade externa, deve apresentar crescimento modesto nos próximos anos. De 1980 a 1990, a economia americana representava 25% da economia mundial, enquanto a Chína e a Índia (Chíndia) representavam, em conjunto, apenas 5% da economia mundial em 1980 (segundo dados do FMI em poder de paridade de compra). Em 2011, o PIB dos EUA representava 19,4% do PIB mundial, sendo ultrapassado pela Chíndia que representava 19,9%. A estimativa para 2016 é de uma participação na economia mundial de 17,8% para os EUA e de 24,6% para a Chíndia. Enquanto isto, a população não-branca tem sofrido mais com a crise e a desigualdade de renda tem aumentado nos Estados Unidos. O desemprego tem se mantido em nível elevado.

A crise econômica dos EUA está sendo agravada pela crise política. Os dois partidos que dominam o Congresso não se entendem e não conseguem dar um rumo para o país. Ambos os partidos estão mais preocupados com o curto prazo e com as disputas eleitorais. Para tanto, buscam financiadores entre os grandes grupos econômicos do país. Como escreveu, recentemente, Jeffrey Sachs: “The idea that the Republicans are for the billionaires and the Democrats are for the common man is quaint but outdated. It’s more accurate to say that the Republicans are for Big Oil while the Democrats are for Big Banks”. Por conta disto já existe um movimento buscando uma terceira via para por fim ao bipartidarismo dos EUA.

Enquanto a Europa e os EUA perdem posição na economia mundial, o contrário acontece com a China, que caminha para ser a maior potência econômica mundial (em tamanho do PIB). A China com seu modelo de “socialismo de mercado” tem mostrado mais eficácia do que os EUA nos resultados econômicos e na promoção da produtividade de suas empresas e tem conseguido tirar centenas de milhões de chineses da situação de pobreza, mas sem criar um sistema previdenciário, que possibilitasse tranquilizar sua crescente população de idosos.

O modelo chinês tem combinado liberdade econômica, com falta de direitos trabalhistas, falta de liberdade de manifestação, organização e expressão e forte presença do Estado na economia, mas com pouca despesa na promoção social. Os cidadão chineses são obrigados a manter altos níveis de poupança para garantir o acesso à saúde, educação, moradia, previdência, etc. O governo aproveita esta alta poupança para manter altas taxas de investimento e para promover a infra-estrutura necessária para colocar o país na liderança da economia mundial. O partido comunista do país atua como se fosse uma dinastia que vislumbra, no longo prazo, o fortalecimento do poderio estatal e nacional.

Enquanto o Ocidente promove e defende a liberdade individual, os chineses restringem a liberdade individual e promovem os interesses das empresas, do Estado e da nação. Enquanto o Ocidente ainda debate os princípios do Consenso de Washington, os chineses promovem o Consenso de Beijing, que resumidamente pode ser definido em cinco pontos:

1. Promoção da economia, mas com a propriedade estatal sendo força dominante;
2. Promoção de câmbio competitivo, com mudanças graduais para evitar choques e controle cambial para evitar a especulação;
3. Políticas de promoção das exportações (Export-led growth) com proteção da industria local e dos setores estratégicos do país;
4. Reformas de mercado, mas com controle das instituições políticas e culturais;
5. Centralização das decisões políticas e das estratégias de promoção da soberania nacional.

A china comunista não apoia nem o Estado mínimo e nem o Estado de Bem-estar social. A economia de mercado foi uma forma de garantir a competitividade internacional do país para construir uma economia com forte impulso dos investimentos e liderada pelas exportações. Foi também uma forma de superar a ideologia maoista-rural-comunitária-pobre. Resta saber se o socialismo de mercado vai conseguir manter o seu ritmo de crescimento e redução da miséria ou se o Consenso de Beijing é apenas uma alternativa passageira, que tem como resultado de curto prazo o acirramento da crise ideológica  e prática do capitalismo ocidental.

A China ainda é um país de renda per capita média e não é possível antecipar se vai conseguir avançar para níveis superiores de qualidade de vida para o seu povo e, algum dia, se tornar um exemplo para o resto do mundo. Porém, o caminho adotado de crescimento econômico acelerado tem agravado os problemas ambientais da China, com fortes efeitos no resto do mundo. Do ponto de vista ambiental, o socialismo de mercado já nasceu em crise ideológica. Deste ponto de vista, a crise ideológica é global, pois atinge o Ocidente, o Oriente, o Norte e o Sul.

 

Fecundidade na Itália, Grécia e Espanha: o efeito Easterlin ao reverso

O demógrafo Richard Easterlin encontrou, para os Estados Unidos da América (EUA), uma relação ciclica entre a dinâmica demográfica, as oportunidades de emprego e salários e o número de filhos (fecundidade). Segundo ele “Coortes menores tendem a ter melhores oportunidades no mercado de trabalho e com isto se casariam mais cedo e teriam mais filhos”.
De fato, nos EUA as taxas de fecundidade caíram durante a grande depressão da década de 1930, subiram depois do fim da Segunda Guerra Mundial, cairam novamente entre 1965 e 1985 e subiram novamente entre 1985 e 2007. Com a crise econômica de 2008 e 2009 a fecundidade das mulheres americanas já apresentou um ligeiro declínio, mas ainda não está claro se vai continuar caindo e quanto.

Esta tendência cíclica não foi observada em outros países. Na Europa, os países mediterâneos, Itália, Grécia e Espanha (seguidos por Portugal) apresentaram taxas de fecundidade em declínio desde 1950, sem grandes variações cíclicas, e que atingiram o nível mais baixo na virada do milênio. Estes três países tinham taxas de fecundidade total (TFT) entre 2,5 e 3,0 filhos por mulher em meados do século passado e chegaram a 1,2 e 1,3 filhos por mulher entre 1995 e 2005. Estas taxas super baixas (lowest low fertility) decorrem em parte do “efeito tempo” positivo, isto é, as mulheres adiaram o nascimento do primeiro filho, jogando a TFT para baixo.

No quinquênio 2005-2010, os três países apresentaram aumento da taxas de fecundidade que subiram para algo em torno de 1,4 filho por mulher. O aumento foi pequeno, mas refletiu uma reversão na tendência de queda e apontava para uma recuperação da fecundidade rumo ao nível de reposição. Vários programas de cunho pró-natalistas foram adotados.

Porém, a crise financeira internacional que atingiu o mundo em 2009 e a crise econômica que atingiu especialmente alguns países europeus – os chamados PIIGS: Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Spain – tem dados sinais de que vão interromper a recuperação dos níveis de fecundidade.

Segundo o Easterlin Effect, estes países europeus que possuem coortes populacionais em idade produtiva muito pequenas deveriam apresentar melhorias no mercado de trabalho, elevação dos salários e, consequentemente, a formação de famílias com filhos. Além disto, aquelas mulheres que adiaram o nascimento do primeiro filho, ou do segundo filho, deveriam tê-los antes da menopausa.

Porém, a atual crise econômica européia pode simplesmente provocar um efeito Easterlin ao reverso, pois existe uma espécie de armadilha geracional, já que as gerações mais jovens e de menor tamanho estão tendo de sustentar gerações mais velhas e de maior tamanho. O que estes países têm a oferecer para as crianças que vão nascer é uma carga maior de impostos e transferências intergeracionais cada vez maiores para sustentar as gerações idosas e o sistema previdenciário.

Isto acontece porque o baixo crescimento econômico, as baixas taxas de investimento e o maior poder de barganha das parcelas idosas da população (inclusive com o envelhecimento do eleitorado) tendem a canalizar recursos para o topo da pirâmide e as jovens gerações deixariam de contar com recursos para se comportar de acordo com o Easterlin Effect. Ao invés da mobilidade das gerações, o que tem surgido é o choque de gerações, com as pessoas da base perdendo para o topo da pirâmide populacional.

Ainda é cedo para se ter uma análise do comportamento da fecundidade nestes países europeus. Mas se não houver recuperação das taxas de fecundidade, além da crise econômica, haverá também uma crise de recuperação do dinamismo demográfico. Ou seja, com o agravamento da crise econômica e a falta de emprego para os jovens, as taxas de fecundidade tendem a ficar muito abaixo do nível de reposição.

Por exemplo, com a crise fiscal, os recursos destinados à política pro-natalista foram cortados. Desta forma, se os países europeus com regime “lowest-low fertility” não recuperarem suas economias e investirem mais nos jovens, dificilmente vão conseguir recuperar suas taxas de fecundidade ao nível de reposição.

 

O decrescimento e os limites da Terra

As atividades humanas estão atingindo o  limite imposto pelo Planeta,
dado a tecnologia corrente

Esta frase já foi escrita e reescrita ao longo da história. Ela traz duas tendências conflitantes: por um lado os limites da Terra tendem a interromper o crescimento econômico, mas novas tecnologia tendem a expandir os limites da presença do ser humano no Planeta.

De fato, a inventividade humana tem prolongado constantemente os limites naturais do planeta. A humanidade se expandiu quando passou da coleta extrativista para a economia agrícola e para a domesticação de animais. Depois deu outro grande salto quando iniciou a Revolução Industrial e expandiu a tecnologia e o domínio de novas fontes de energia. Já tivemos a primeira, a segunda e a terceira Revolução Industrial, com grandes avanços na ciência e tecnologia.

A população passou de cerca de 1 bilhão de habitantes em 1800 para 7 bilhões em 2011. Segundo a projeção média da divisão de população da ONU, poderemos chegar a 10 bilhões em 2100. Com novas tecnologias e a produção de mais alimentos poderíamos ter uma população vivendo mais tempo e com melhores condições de vida durante o século XXI. Ou seja, os limites da Terra não são fixos e, em tese, podem ser expandidos.

Mas até quando?

Algumas pessoas consideram que a população mundial pode atingir 11, 12 ou 15 bilhões de habitantes, pois o ser humano sempre encontra formas de expandir suas fronteiras e explorar ao máximo os recursos do Planeta. O PIB mundial cresceu cerca de 18 vezes no século XX. Segundo projeções de consultorias internacionais, o PIB mundial, em valores constantes, deve passar de US$ 70 trilhões em 2009 para US$ 280 trilhões em 2050 e pode chegar a mais de 1 (um) quatrilhão de dólares em 2100. O céu é o limite?

Bem, existem estudos que mostram que o grande crescimento populacional e econômico do século XX só foi possível devido à eficiência energética do petróleo e os baixos preços que predominaram até recentemente. Segundo Ricardo Abramovay, no artigo “Desafios da economia verde” (FSP, 27/06/2011): “Nos anos de 1940, cada unidade de energia investida para produzir petróleo rendia o equivalente a 110 unidades de energia. Ao longo do século 20, esses retornos foram declinando. A estimativa internacional para exploração em plataformas de alto mar, como o pré-sal, hoje, é de um para dez (…) O crescimento demográfico e econômico do século 20 teria sido impossível sem esse escravo barato”.
Portanto, o combustível que possibilitou o grande crescimento populacional e econômico está perdendo eficácia. Energia cara significa preço de alimentos caros. Além disto, o verdadeiro custo do petróleo (assim como do carvão vegetal e mineral) será cobrado no século XXI, pelo efeito do aquecimento global.

Ademais, outras pessoas questionam: vale a pena todo o sucesso e progresso alcançado no século XX? Para que toda esta compulsão pelo crescimento? Todo este desenvolvimento não está sendo feito às custas da pauperização do Planeta?

Diversos estudos mostram que o maior problema contemporâneo é que a espécie humana tem crescido às custas de outras espécies terrestres e da riqueza natural acumulada durante milhões de anos (como no caso das energias fósseis). Criamos cada vez mais animais para satisfazer o apetite das pessoas. Cultivamos cada vez mais plantas para alimentar estes animais domesticados, inclusive o “gorila domesticado”, como Henry Ford se referia ao ser humano. As áreas virgens do Planeta foram de(s)floradas. A pegada ecológica da humanidade não para de agredir o meio ambiente e reduzir as fontes de vida e a biodiversidade.

Será que o homo sapiens está utilizando corretamente a sua inteligência?

Existem muitos estudiosos pensando alternativas para o atual modelo econômico hegemônico. Há uma corrente do pensamento que prega o “Decrescimento” e combate a obsessão humana pelo crescimento da população e da economia. A humaninade sempre se confronta com pelo menos duas alternativas: continuar crescendo ou optar por algum tipo de “sociedade alternativa”. Qual será o nosso futuro?

Videos selecionados do you tube e a incapacidade cultural do nosso país

 
Tem uma propaganda infame rodando na televisão, que me fez pensar muito no papel que a internet está fazendo na vida cultural das pessoas.
 
É uma propaganda de um importante portal da internet (que por sinal vem sobrevivendo através das décadas) e tem um texto mais ou menos assim:
 
“Esta é a fulana. Ela vive em uma pequena cidade de 17.000 habitantes. O seu artista predileto NUNCA vai fazer um show em sua cidade”
 
E isso é anunciado com um conformismo tremendo, que me fez odiar essa dura realidade.
 
Porque afinal, eu mesmo vivo em uma nem tão pequena cidade de 200.000 habitantes aqui no fim do fundo da América do Sul, e esta realidade não é muito diferente…
 
Me faz pensar seriamente na incapacidade das nossas políticas públicas de movimentar a cultura, e trazer para a população shows e espetáculos importantes de artistas nacionais, ou quem dirá internacionais…
 
Não sei quanto tempo faz que não tem um show importante nesta cidade se não contabilizarmos os sertanejos universitários…
 
E aí, isso me fez pensar no papel da internet nisso daí…
 
Imagino que muita gente como eu fica garimpando coisas na internet para preencher essa lacuna cultural.
 
Bem, o objetivo dessa coluna hoje é trazer alguns videozinhos legais que assisti no youtube nos últimos tempos, pois afinal o youtube também está aí para isso… além daqueles vídeos engraçados de bebês e cachorrinhos que aparecem todos os dias.
 
Vamos a eles:
 
Uma performance do YES, em plenos 2003, uns 35 anos depois do auge desta incrível banda dos anos 70! E em plena forma! Andy ou and I.
 
 
Iron & Wine – a banda de um home só, nesta canção linda – Flightless Bird. No começo do vídeo, parece improviso… Mas veja como cresce esta canção!!!
 
 
Midlake – Assunto de uma coluna anterior, grande música, videoclipe impecável!
 
Radiohead ao vivo no excelente “Late… with Jools Holland”
 
O Robert Plant tinha uma Janis Joplin por dentro:
 

 

Enjoy it! 

Noel Rosa – 100 anos do filósofo do samba.

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De quando em quando os gênios aparecem na terra? Difícil responder. Fato mesmo é que nossa era não possui gênios. Afinal, um gênio não nasce assim a todo momento e em qualquer lugar. Temos prodígios, fenômenos, talentos, mas não gênios. O físico Robert Oppenheimer disse que a diferença entre um gênio e um grande gênio, é que o grande gênio sabe a resposta antes da pergunta. Esse gênio a que estou me referindo implicitamente aqui é com certeza um grande gênio, pois sabia muito mesmo, e não pense que aprendeu na universidade não, afinal ele escreveu: “ninguém aprende samba no colégio” (Feitio de Oração): estou falando de Noel Rosa. Esse ano comemorasse o centenário de nascimento do poeta da vila (1911-1937), homenagem justa, porém tímida. O crítico Wallace Fowlie comparou Jim Morrison a Rimbaud em um belo livro analisando a influência do segundo no primeiro (poeticamente falando). Entretanto, é possível também comparar Rimbaud a Noel, não poeticamente (estilos e épocas diferentes), mas em intensidade da obra, no vigor e na brevidade com que tornaram-se gênios. Por exemplo, José Saramago escreveu sua obra-prima (Ensaio sobre a cegueira) aos 73 anos – não que não fosse antes disso um grande escritor, mas tornou-se um gênio das letras após tal obra. O tempo é relativo como disse Einstein, sim, pois a genialidade pode despertar em pontos distintos da vida. Rimbaud por exemplo, já entre os 15 e 18 anos já tinha concluído toda sua obra. Com Noel Rosa ocorreu o mesmo. Morreu aos 26 anos deixando milhares de músicas – entre elas diversas obras-primas não só do samba, mas da canção brasileira. É obviamente considerado um gigante da música, tendo sido celebrado em vida ainda por seus contemporâneos. Suas principais características como poeta são a ironia, a simplicidade e a crônica do cotidiano (talvez a influência mais forte de Noel seja Chico Buarque). Noel embora de classe média, foi um grande boêmio, convivendo com a malandragem do morro quebrando barreiras. Nisso talvez ele e Pixinguinha sejam os dois principais nomes que fizeram a ponte entre o morro e o asfalto, entre a malandragem e a intelectualidade, mas não aquela intelectualidade presunçosa, arrogante. Noel muitas vezes cantava o que não vivia, mas por muitas vezes cantou causos vividos por ele – como o seu romance eterno com Ceci, a protagonista real de a “Dama do Cabaré”. Embora não soubesse ao certo sobre a roupa – o chapéu, o terno branco, sapatos pretos e tradicional cigarro no canto da boca, tornaram-se também graças a ele uma “insígnia” do bom sambista. É preciso também dizer que num momento em que música brasileira passava por muitas transformações, Noel teve papel decisivo.

 

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O samba era marginal e exclusivo dos morros – nos anos 30 torna-se (claro que por motivos políticos) o ritmo oficial do país por Getúlio Vargas. A música nacional tinha uma grande predominância instrumental (só para citar um exemplo, a celebre “Carinhoso” de Pixinguinha era só instrumental, coube a Braguinha pôr uma letra) – sem contar que o choro era o ritmo mais celebrado pelo menos até o fim dos anos 20. A era do rádio levou suas composições país a fora pela voz de gente do calibre de Aracy de Almeida e Francisco Alves, tornando-o conhecido, porém não uma estrela. Aliás, isso longe de acontecer em qualquer época – pois acredite, num país como a Argentina que trata com bem mais devoção seus grandes vultos culturais, Noel seria um deus. Quase ninguém conhece sua obra – para isso eu então recomendo seu “songbook” (Songbook Noel Rosa, Vários Artistas, Lumiar Discos, 1991) – pois além de informativo, traz o fino de sua obra (embora muitas outras grandes canções estejam fora). É uma boa introdução a sua obra. Seus versos simples nos fazem tanto rir quanto refletir, dada sua profundidade, porém como disse, sem afetação acadêmica ou filosofia rebuscada. Mas sim, era um filósofo – chamado o “filósofo do samba”, tendo como grandes escolas os botequins da vida, barracos, rodas de samba, enfim a vida, sua maior matéria-prima. Eu o conheci ainda criança através do meu pai. A canção foi “Último Desejo” na voz de Nelson Gonçalves (fã inconteste de sua obra). A letra logo me encantou, mas só na maturidade é que fui perceber toda sua condição lírica e significado. Além dessa, gosto muito de “Feitiço da Vila”, “Feitio de Oração”, “Quando o Samba acabou”, “Palpite Infeliz”, enfim, muitas outras – inclusive “A Rita” de Chico Buarque é muito “noeliana”. Entretanto, só se terá mesmo a dimensão desse gênio brasileiro ao ouvir sua obra – mais do que ler “Noel Rosa: poeta da vila, cronista do Brasil” de Luiz Carlos Leitão (2009) e ver “Noel – poeta da vila” de Ricardo Van Steen (2006), é preciso ouvir, com alma, coração e sobretudo simplicidade. 

 

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O calote da dívida dos Estados Unidos

Até pouco tempo atrás era comum haver grandes manifestações populares, no Brasil e na América Latina, contra o pagamento da dívida externa. Existia os tais “Tribunais da Dívida Externa” que consideravam a dívida injusta e impagável. Dívida eterna. A única solução seria a moratória, seguida de uma auditoria independente e o calote da dívida externa.

Já os países desenvolvidos acusavam os países do Terceiro Mundo de viverem acima dos seus recursos, além de serem incompetentes e corruptos. Eles diziam: “se pegou emprestado, tem que pagar”. Uma moratoria unilateral levaria a uma crise de confiança e à falta de recursos internacionais para manter o desenvolvimento dos países “caloteiros”. A dívida só reforçava as diferenças e a divisão entre países ricos e pobres.

Com a chegada do novo século e do novo milênio as coisas mudaram. Agora quem ameaça não pagar a dívida externa são os Estados Unidos – exatamente o país que emite a moeda de circulação internacional e que se considera o “grande exemplo” para o mundo livre e o mundo dos negócios.

A nação mais rica do Planeta é também a mais endividada. Atualmente o país gasta 11% a mais do PIB do que arrecada.A dívida pública dos Estados Unidos está em 14,3 trilhões de dólares e boa parte é financiada por países estrangeiros como China, Alemanha, Japão, Arábia Saudita, Brasil, etc. Mas para continuar financiando o déficit público e rolando a dívida o Congresso precisa aprovar a elevação do teto do endividadmento (debt ceiling).

Acontece que o Partido Republicano (GOP), que elevou os gastos militares durante os governos Reagan e Bush e reduziu as receitas com a insenção de impostos para os ricos, não quer aprovar a elevação do teto de endividamento e está chantageando o país com a ameaça de caos e moratoria da dívida externa se o presidente Obama não cortar recursos dos programas sociais e a ajuda aos pobres. Apoiados pelo Tea Party, com o alto falante da Fox News (do magnata internacional da mídia Ruper Murdoch), o GOP defende políticas que aceleram o processo de concentração de renda e o aumento das pessoas em situação de pobreza nos Estados Unidos.

A situação é tão crítica que as agencias de risco que sempre atuaram em conformidade com os interesses dos EUA agora estão rebaixando a nota do próprio país. As agências Moody’s e Standard and Poor’s  avisaram que podem revisar para baixo a classificação de risco da dívida americana, que atualmente tem nota máxima (AAA).

Segundo o presidente do Fed (o Banco Central americano), Ben Bernanke, a falta de acordo para elevar o teto da dívida seria “calamitosa” e provocaria um “choque financeiro muito severo”. Na mesma linha se pronunciou a direção do FMI.

Mas o pior é que o Partido Republicano não aceita aumentar impostos e quer manter elevado o consumo supérfluo dos ricos, que além de contribuir para aumentar o déficit externo agride o meio ambiente. Os EUA são os maiores consumidores de petróleo e só perdem para a China nas emissões de CO2. Como falta dinheiro para investimentos, os EUA não estam investindo o suficiente em energias renováveis e na transição para a economia verde.

A maior economia do mundo está em um processo de desindustrialização, de perda de competitividade e de endividamento crescente. Portanto, o déficit público americano é insustentável economicamente e ecologicamente. Quanto mais crescer a dívida mais provável vai se tornar um calote (nem que seja por meio de emissão de moeda) no médio ou longo prazo. Como já disse Paul Krugman, no artigo “Downhill with the G.O.P.”, os partidos Democrata e Republicano não se entendem e os EUA estão no caminho de se tornar uma República de Bananas

Parece que os EUA vão ter que acatar as diretivas do FMI e entrar na era da austeridade. Aumentar os impostos para os ricos e cortar gastos militares seria a alternativa mais apropriada para a economia e o meio ambiente. Mas estamos em meados de julho de 2011 e o Partido Republicano só pensa em cortar gastos sociais e manter funcionando o complexo industrial-militar, alimentado pela industria da energia fóssil. A patria-mãe do neoliberalismo – onde as teorias neoliberais e a desregulamentação financeira foram aplicadas da forma mais selvagem – está à beira do precipício.

Por ironia, a China comunista, que tem crescido com forte apoio do Estado, está preocupada com a saúde financeira dos EUA e pede para que o país adote medidas mais responsáveis a fim de proteger os interesses dos investidores estrangeiros nos títulos do Tesouro americano (Treasuries). Se as coisas continuarem do jeito que estão, só falta os conservadores americanos irem para as ruas pedir o calote da dívida dos Estados Unidos. Os chineses (e demais credores) que se cuidem.

 

Os blogues do OPS: Ágora com dazibao no meio (2ª parte)

___No último Editorial, o grande André Egg deu início à série que será a pauta dos Editoriais aqui do portal nos próximos meses: “Os blogues do OPS”. Eu, o André e, provavelmente, o Fabiano Camilo –, do Dispersões, Delírios e Divagações –, iremos publicar algum texto sobre cada um dos blogs ativos.
___As publicações devem acontecer semanalmente. A cada nova semana, um dos editores irá publicar seu texto falando de um dos blogs que ainda não foi agraciado ou fazer um bate-bola com o texto que outro editor publicou na semana anterior. E é exatamente essa segunda alternativa o caminho do meu editorial de hoje.

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___Fã que sou dos escritos que o Ricardo Cabral publica no Ágora com dazibao no meio, para mim seria um imenso prazer falar sobre o seu trabalho em uma série sobre os blogs do portal. Porém, como qualquer leitor dos editoriais pode notar, o texto que o André publicou na última semana realmente resenhou o Ágora, teoricamente deixando para mim apenas a opção de partir para outro blog. Como eu sou teimoso, decidi ficar e colocar um pouco mais de açúcar no doce do André.
___Quase tudo que o André falou, eu assino embaixo. Só um paragrafozinho me deixou com vontade de tirar uma pedrinha do sapato. Ei-lo:

“O blogue do Ricardo não é tão lido quanto poderia/deveria. Média de 2000 visitas por mês. Considero que a maior dificuldade de ampliar estes acessos é o fato de o autor escolher títulos que não são amigáveis aos buscadores, justamente por não dizerem praticamente nada sobre o conteúdo dos textos. De modo que meu conselho é: não se acanhe se um título não te chamar a atenção – provavelmente o texto é bem mais importante do que parece.”.

___O comentário do André é preciso (realmente alguns os títulos que o Ricardo escolhe soam estranhos) e o conselho é ótimo (“não se acanhe se o título não te chamar a atenção”), mas, eu teria sido menos bonzinho, até como resenhista. A resenha já dizia que o Ágora é fabuloso, os links que o André escolheu provavam isso. Agora, se algum leitor vai fugir por conta de um título, eu não só deixaria, como ainda daria risada. A mesma gargalhada, vale dizer, que eu daria de alguém que não quisesse comer bicho de pé ou olho de sogra por conta do nome.

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P.S.: Já que o Ágora com dazibao no meio é o assunto, deem uma olhada que coisa mais linda esse “Cordis” que o Ricardo acabou de publicar.

Meia-Noite em Paris

Muito já se escreveu sobre o filme de Woody Allen atualmente em cartaz no Brasil, e tenho dúvidas sobre quanto este texto pode ser útil. Mas decidi, ainda assim, escrever mais um texto sobre o filme, por dois motivos. Primeiro porque Meia-Noite em Paris me pareceu uma obra particularmente importante na filmografia de Allen. Tão famoso por seus personagens neuróticos, o filme faz parte de uma espécie de “fase” recente em que os protagonistas aprendem, finalmente, a enfrentar a neurose. E, nesse filme em particular, a desconstrui-la. Em Meia-Noite em Paris, o diretor traz um personagem que dá o salto que nenhum neurótico e quase nenhum de nós está disposto a dar: o do compromisso com o próprio desejo.

Gil Pender (Owen Wilson), o protagonista da história, é um roteirista de relativo sucesso de Hollywood passando uns dias com a noiva e os pais dela em Paris. Tem dinheiro. É reconhecido por seu trabalho e seus roteiros são desejados pela indústria cinematográfica. Tem uma noiva bonita que o valoriza por tudo isso. É bem verdade que não há muito amor entre eles mas, afinal, o amor é um de nossos desejos mais complicados, e talvez seja melhor, ao menos para um neurótico, não se comprometer em uma relação em que ele fale mais alto.

O personagem tem tudo, mas seu desejo verdadeiro é outro: imagina viver uma vida mais modesta em Paris e escrever romances. Não romances comerciais, como seus roteiros de cinema. Ele quer escrever romances dos bons. Daqueles que entraram para a história com mestres como Ernest Hemingway ou F. Scott Fitzgerald. Romances que tenham um clima das canções de Cole Porter e de prazeres banais como os de uma caminhada pelas ruas de Paris numa noite de chuva. Como desejo, pode-se dizer que este é bastante clichê, romântico, nostálgico demais. E é óbvio que ninguém ao seu redor leva a sério essa “bobagem”.

Uma noite, Gil decide caminhar pela noite parisiense e se vê literalmente perdido entre seu desejo que todos consideram fantasioso e a realidade. É convidado a embarcar na fantasia, sonhar. Ele aceita o convite. É o momento em que decide apostar em seu próprio desejo. Um desejo que o captura à meia-noite em um beco de Paris e o transporta para um passado idealizado. É no estranhamento da linguagem onírica, do passado nunca vivido mas sempre idealizado, da cidade estrangeira, das pessoas reais que para ele eram, ao menos até então, apenas personagens da História, que ele encontra a chave para o compromisso com o presente, transformando-o.

Essa relação com os “estranhos” familiares é muito interessante no filme. Em seu compromisso com o sonho e o desejo – e essas duas coisas não são as mesmas, como fica claro no filme no momento em que Gil se recusa a continuar a viver no passado – que ele encontra seu espaço. Passa a compartilhar o tempo e a interagir com personagens que têm os mesmos interesses que ele, que o compreendem, que o levam a sério e legitimam tudo o que ele ousa desejar. É verdade que não são pessoas de seu tempo. Mas isso já pouco importa. O tempo da fantasia e do desejo perde a lógica cíclica e contínua de “passado/presente/futuro”, transformando-se numa contínua sucessão de experiências sempre atuais, de insights e descobertas que o levam a acreditar e a se dedicar a realizar seu desejo de ser escritor, algo que, até então, era impossível para ele.

Sempre que falamos em uma incapacidade do neurótico em se comprometer com seu desejo, pensamos nesse indivíduo como um coitado insatisfeito, procrastinador, incapaz de dar um passo adiante, vencido, degradado. Esquecemos que a estagnação diante do desejo também é uma satisfação. Esquecemos que a neurose pode estar – e está – presente na vida de grandes realizadores e de pessoas que “têm tudo” o que se pode querer da vida. Esse “tudo”, essa “completude”, em geral traz a satisfação de corresponder àquilo que os outros ao redor esperam dele, de corresponder ao que é valorizado em um contexto social.

Esse é um dos aspectos complicados do desejo: ele nos pede compromisso e fidelidade a tal ponto que implica em deixarmos de lado as exigências dos sogros, dos pais, dos irmãos, dos patrões, do namorado ou da namorada. O compromisso com o desejo implica na quebra de compromisso com aquilo que esses outros esperam – ou, ao menos, gostamos de imaginar que esperam – de nós.
No caso do protagonista da história de Woody Allen, os sogros, a noiva e os amigos esperavam que ele se contentasse em ter uma situação financeira tranquila – capaz de pagar pela mobília cara de uma casa em Malibu –, um trabalho insatisfatório, mas que o colocava ao lado de celebridades, na posição de um profissional desejado na indústria em que atua,  uma vida intelectual medíocre e a uma vida amorosa vazia com uma esposa sexy de fazer inveja aos outros homens. Um kit a que poucas pessoas diriam não e que o próprio cinema, a mídia, as relações sociais contemporâneas, nos mostram que é legítimo, correto e até obrigatório desejar.

Acho que é nesse ponto que está a sutileza deste filme de Woody Allen em particular. Quando o personagem Gil desfaz seu compromisso com essas expectativas do outro, quando ele decide assumir que será escritor e finalizará o romance que todos consideram uma “bobagem”, ele mostra mais do que a superação da neurose pelo compromisso com seu desejo. Ele também mostra que é legítimo dizer “não” àquilo que a sociedade contemporânea insiste em embrulhar com o celofane brilhante do “desejo legítimo”. A sociedade é o outro mais poderoso contra nosso desejo e o que mais expectativas cria sobre nós. É isso que o desejo nos pede, que ousemos quebrar algumas convenções sociais, alguns pactos formais das relações cotidianas. E é isso que torna o desejo transgressor.

A opção dessa transgressão é sempre individual e implica sempre um preço a pagar dentro da economia de trocas simbólicas – para usar livremente uma expressão de Pierre Bourdieu – de que fazemos parte. Comprometer-se com o próprio desejo significa não apenas superar a própria neurose, mas a rede neurótica que sustenta a ideologia por trás das hierarquias e representações sociais. O consenso em relação ao que é valorizado, ao modo de se viver, às conquistas a almejar, à posição social a escalar, tudo isso se dissolve para um indivíduo que, como Gil Pender, ousa transgredir na ação rumo a um desejo que não tem valor na sociedade. É nesse sentido que o neurótico de Woody Allen se transformou em um heroico anti-herói.