Os blogues do OPS: Biajoni

___Dizer que cada blogueiro tem suas características é começar esta resenha com uma afirmação banal e que só serve para chover no alagado. Mesmo assim, creio eu, ela não só cabe, como é, também, é um pouco importante no caso que vou analisar hoje, o Luiz Biajoni.
___Um tanto anárquico, Biajoni, antes de ser dono de seu blog homônimo, espalhava seus textos por aí.* Tal qual ele ainda o faz, escrevendo, por exemplo, no Amálgama. Portanto, digo, achar que é possível entender um pouco o Bia só pelo que aparece no blog é pura ilusão.
___Mais do que isso, mesmo com textos muito interessantes espalhados pela internet, creio que vale mesmo a pena acompanhar o Biajoni como romancista. Apesar dos títulos pouco convencionais, Sexo Anal e Buceta são aventuras divertidíssimas – que ainda contam com a graça extra de acontecerem em um cenário que eu conheço um pouco, o interior de São Paulo. Seu último livro, Élvis & Madona (esse no Rio de Janeiro), consegue, mais ainda que os outros, mostrar como Biajoni realmente trata seus personagens com uma atenção gigantesca.
___Vale acrescentar, acompanhar o Biajoni agora parece que vai ser mais fácil ainda. Em setembro, sairá em cartaz, por todo o país, o filme que inspirou seu último livro. E mais, Sexo Anal, uma novela marrom, sua primeira obra, será relançado pela editora Os Viralata.

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* Mais ou menos o que é hoje o interessantíssimo Paulo Cândido, que, apesar de não ter um blog (e já ter escrito no maravilhoso e falecido Biscoito Fino), pode ser encontrado no Google Reader, com ótimas indicações e comentários sagazes.

 

“O meio justo está na igual possibilidade dos extremos”

 

A frase foi dita durante o evento “Música: A Fronteira do Futuro – Criatividade, tecnologias e políticas públicas” (aqui, para quem quiser assistir. Ficará no ar por 30 dias, a partir de 25/08) por Gilberto Gil. “Possibilidade dos extremos” é uma expressão que remete, a meu ver, ao cerne das grandes transformações sociais pelas quais não apenas o mundo passa, mas principalmente o Brasil.
 
Possibilidade, salvo melhor juízo, é capacidade, potência, vir a ser. Capacidade de exercer seja lá o que for. A vida, direitos, deveres, vontades. Ou mesmo de não exercer.
 
O embate que vemos cotidianamente na sociedade, sobre os mais diversos temas, é fruto de uma história em que um dos extremos, ao mesmo tempo em que exercia a sua possibilidade de forma plena, negava a existência da possibilidade do extremo oposto. E aquilo que não se conhece, não exerce efeitos sobre nós.
 
São os casos das manifestações sobre homoafetividade, da não inclusão cultural e digital, do não acesso aos serviços mínimos do Estado, da pobreza, da violência, da liberdade da internet e da produção de conteúdo cultural, enfim de todas situações de não reconhecimento da possibilidade, da capacidade.
 
Dia desses, no Twitter, li alguém questionar a razão de uma parada do orgulho gay e comentar de que era possível obter o reconhecimento dos seus direitos sem necessidade de paradas. A questão é que as “paradas” e outras manifestações nada mais são do que um simbolismo da não existência. Para obter o reconhecimento da possibilidade, primeiro é necessário fazer-se reconhecer pela existência, daí as manifestações.
 
Mas não basta ter direitos reconhecidos, isto é, ter sua existência reconhecida. Isso já está na Constituição. O que é preciso é o reconhecimento da possibilidade de um dos extremos, até então negada em sua existência pelo outro extremo que sempre exerceu o poder. Uma vez reconhecido pela sociedade a existência da possibilidade de ambos os extremos – e não de apenas um, o ponto de “igual possibilidade” será atingido, isto é, o justo meio. Mas isso não acontecerá sem alguma dor. À medida que, partindo do reconhecimento da existência, um dos extremos começar a abandonar o simbolismo das paradas e o sentido de vitimização que em geral o acompanha, e partir para transformar potência em ato, o outro extremo reagirá. E reagirá em grau ainda maior do que já tem reagido para reconhecer a existência. Vejam-se as constantes agressões contra homossexuais, as constantes manifestações da grande mídia, as manifestações das igrejas e a dificuldade existente, no Congresso (como bem relatado pela deputada Manuela D’Ávila, que participou do evento), para uma mudança na cultura legal do Brasil.
 
O conceito de justo meio, ao menos com o entendi, parece mais adequado aos tempos atuais do que o tradicional “bem comum”(1), conceito um tanto vago, de diversas definições e que se presta muito mais a ser utilizado pelo extremo ora dominante como forma de se esquivar ao seu dever de aceitar os outros extremos. 
Mas isso é outra reflexão, que talvez deva ser alicerçada em argumentos mais bem fundamentados do que uma mera opinião.

 

(1) “Bem comum é o bem de todos naquilo que todos temos em comum”, conceito que me recordo agora…

820 anos em 15

Thomas Malthus escreveu, em 1798, que a população tendia a crescer mais do que a economia se não houvesse “cheques positivos” para evitar a multiplicação das pessoas. Por “cheques positivos”ele entendia as guerras, a fome e a miséria. Malthus – que era contra o uso de métodos contraceptivos – considerava que só a alta mortalidade poderia interromper o crescimento populacional.

Contudo, os dados mostram que tanto antes, mas principalmente depois das previsões pessimistas do pastor inglês, o crescimento da economia, em média, sempre foi maior do que o crescimento populacional.

Segundo cálculos de Angus Madisson, entre os anos 1000 e 1820 o PIB mundial cresceu 6 vezes e a população cresceu cerca de 4 vezes. Em consequência, ao contrário do que analisou Malthus, a renda per capita mundial cresceu 50% (ou 0,05% ao ano) em 820 anos. Foi um crescimento pequeno, mas positivo.

A população mundial estava em torno de 1 bilhão de habitantes por volta do ano 1800 e o economista pessimista achava que a única forma de controlar a população era manter um salário de subsistência para que a mortalidade mantivesse a população sobre controle.

Contudo, após as Revoluções na Inglaterra (Revolução Gloriosa) nos Estados Unidos (Indepedência em 1776) e na França (queda da Bastilha em 1789) o mundo começou um processo de desenvolvimento que se refletiu em um aumento do crescimento econômico e populacional, sem precedentes no mundo.

Durante a primeira Revolução Industrial, entre 1820 e 1870, o crescimento da economia mundial passou para 0,93% ao ano e a população para 0,4% ao ano. Como consequência a renda per capita aumentou para 0,53% ao ano, rompendo com a quase estagnação dos oito séculos anteriores. Contudo, este aumento foi apenas um prenúncio de crescimentos ainda maiores.

Com a segunda Revolução Industrial (quando se inventou o aço, o motor a combustão, o automóvel, o avião, o telefone, o cinema, etc.) o crescimento do PIB mundial passou para 2,11% ao ano e o crescimento da população subiu para 0,8% ao ano. Em consequência, a renda per capita apresentou um crescimento de 1,31% ao ano, entre 1870 e 1913.

Com a ocorrência das duas grandes guerras mundiais, a economia reduziu o ritmo de crescimento entre 1913 e 1950. Mas o ritmo de crescimento da população continuou crescendo e provocou uma redução da renda per capita mundial em relação ao período anterior.

Após o fim da Segunda Guerra, com a criação da ONU e dos organismos multilaterais, em Bretton Woods, o mundo aproveitou a onda de inovações tecnológicas (inclusive com a redução das taxas de mortalidade) e apresentou as maiores taxas de crescimento da economia e da população de toda a história da humanidade. O crescimento da renda per capita no período 1950-1973 foi de 3% ao ano, ritmo que possibilita que o poder de compra médio dos cidadãos dobre a cada 25 anos e multiplique por 16 vezes, no curto espaço de um século.

A crise do petróleo dos anos de 1970 e a crise da dívida externa de muitos países em desenvolvimento fizeram com que as taxas de crescimento econômico diminuíssem ao mesmo tempo em que a transição demográfica se espalhava pelo mundo. Porém, mesmo com a redução, o ritmo de crescimento da economia e da população foi o segundo maior em todo o milênio, pois o PIB cresceu 3,05% e a população 1,62% ao ano, com aumento anual de 1,43% na renda per capita entre 1973 e 2001.

No início do terceiro milênio a economia voltou a acelerar o ritmo de crescimento enquanto a população continuou a desacelerar seu ritmo. Consequentemente, a renda per capita voltou a apresentar elevado crescimento. A estimativa é que o produto por pessoa cresça a 2,6% ao ano entre 2001 e 2015. Para se ter uma idéia da dimensão da situação atual, o crescimento da renda per capita deve ser de aproximadamente 50% entre 2001 e 2015, o mesmo crescimento da renda per capita dos primeiros 820 anos do segundo milênio. Parafraseando o lema de JK: o mundo deve crescer 820 anos, nos atuais 15 primeiros anos do século XXI.

Estas médias mundiais mostram que a população não foi, em geral, um entrave ao crescimento econômico e que o desenvolvimento científico e tecnológico foi fundamental para o crescimento do poder de compra da população mundial. Mas os dados desagregados por países mostram que o segredo do aumento da renda per capita e da qualidade de vida dos cidadãos foi maior nos países que conseguiram reduzir o ritmo de crescimento da população – inclusive aproveitando as vantagens da mudança da estrutura etária – ao mesmo tempo que aceleravam o ritmo de crescimento econômico. A China atual é o maior exemplo de país de alto crescimento econômico e de baixo crescimento populacional. Ao contrário, alguns países – como o Haiti – caíram na “armadilha da pobreza” e não conseguiram aumentar significativamente a renda per capita.

Os dados dos últimos mil anos mostram que Malthus estava errado. A população cresceu muito, mas não impediu um crescimento ainda maior da economia. A renda per capita mundial cresceu, assim como cresceu a esperança de vida. Em geral, as pessoas vivem mais e melhor hoje em dia do que há 200 anos. O crescimento da renda per capita nas duas primeiras décadas do século XXI será maior do que nos primeiros 820 anos do segundo milênio.

As previsões catastróficas que Malthus fez quanto ao crescimento populacional não se confirmaram. Mas todo este progresso e sucesso do crescimento demográfico e econômico apresentou seu preço via degradação do meio ambiente (mas Malthus não estava preocupado com as questões ambientais). O crescimento da pegada ecológica e do aquecimento global – não previsto pelo pensamento malthusiano – é o preço que a humanidade está pagando pelo crescimento desregrado.

O modelo de desenvolvimento adotado pela humanidade está ameaçando a biodiversidade e a própria continuidade do ser humano na Terra. É preciso dar um rumo diferente para os próximos mil anos. Não se trata de aumentar as taxas de mortalidade, como propunha Malthus. Trata-se de  garantir a vida (com qualidade) das pessoas, dos animais, das plantas e do Planeta.

Referências:
MADDISON, Angus. Contours of the World Economy and the Art of Macro-measurement 1500-2001. Ruggles Lecture, IARIW 28th General Conference, Cork, Ireland, August 2004
UN/ESA: Population Division of the Department of Economic and Social Affairs of the United Nations Secretariat,  
World Population Prospects: The 2010 Revision, http://esa.un.org/unpd/wpp/index.htm
ALVES, J. E. D. . A polêmica Malthus versus Condorcet reavaliada à luz da transição demográfica. Textos para Discussão. Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Rio de Janeiro, v. 4, p. 1-56, 2002. Disponível em:
http://www.ence.ibge.gov.br/publicacoes/textos_para_discussao/default.asp

A transição para a Economia Verde e a Rio + 20

A crise mundial das bolsas de valores e das dívidas é apenas mais um sinal da inviabilidade da forma como se organiza a atual economia internacional. Se o modelo de endividamento crescente tem se tornado inviável economicamente, também tem se tornado inviável ecologicamente. O atual modelo de desenvolvimento “marron” (poluidor), além de insustentável, pode levar a humanidade ao suicídio e ao ecocídio.

Os sinais da insustentabilidade estão por todos os lados. Cresce o número de mortes e deslocamentos humanos forçados  em decorrência de enchentes ou secas extremas, provocadas pelas mundanças climáticas. A erosão dos solos, a desertificação de amplas áreas, o uso e o abuso dos aquíferos, a salinização das águas dos rios e a acidificação dos oceanos diminui a fertilidade das fontes de vida. Além dos danos ambientais, aumenta o preço dos alimentos. Em especial, no leste da África, a seca tem provocado uma epidemia de fome e cenas de crianças esqueléticas pedindo ajuda. As monoculturas uniformes subistituíram a biodiversidade. Dois terços dos recifes de coral e mangues do mundo já foram destruídos. As atividades antropogênicas trouxeram a maior extinção em massa da vida vegetal e animal da nossa história (antropocentro), com cerca de 30 mil espécies sendo extintas a cada ano (3 por hora).

O ser humano mudou a química da terra e do céu, aumentando o dióxido de carbono na atmosfera e provocando o aumento do efeito estufa. Com isto, a elevação do nível das águas dos oceanos ameaça a existência de diversos países insulares e coloca em risco a moradia de milhões de pessoas que vivem nas faixas litorâneas. A falta de saneamento básico nas cidades agrava os problemas da poluição e é um dos principais indicadores da exclusão social e da segregação urbana. O desemprego e a falta de acesso aos direitos de educação e saúde colocam uma grande parcela da população mundial às margens dos benefícios do desenvolvimento.

Porém, se por um lado há fome e exclusão, de outro, há uma ampliação do consumo devido ao crescimento da população e ao aumento das parcelas da denominada classe média mundial, em especial, nos países em desenvolvimento. Mais gente com mais dinheiro significa maior consumo de alimentos, de bens industriais e de serviços, inclusive lazer e turismo. Só a produção mundial de veículos automotores passou de cerca de 50 milhões, em meados dos anos 1990, para a casa dos 80 milhões ao ano em 2011. Segundo a revista WardsAuto existiam 500 milhões de carros em circulação no mundo em 1986 e este número ultrapassou 1 bilhão, em 2010, podendo chegar a 2 bilhões de carros nos próximos 30 anos. Mais automóveis significa mais aço, mais borracha, mais vidro, mais gasolina, mais biocombustíveis, mais estacionamentos, mais ruas asfaltadas, etc. A produção de matérias-primas é crescente no mundo, gera renda e realimenta o ciclo do consumismo desregrado.

Sem dúvida, o modelo de desenvolvimento baseado no crescimento do consumo conspícuo e no acúmulo crescente de lixo não é sustentável ambientalmente. Na prática, o modelo do capitalismo excludente conseguiu adiar o desastre ambiental enquanto atendia apenas a uma parcela pequena da população mundial – situada nos chamados países desenvolvidos e nas elites ricas dos países pobres. Contudo, a insustentabilidade ficou evidente quando este modelo se generalizou e foi adotado e expandido pelos BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e outros países emergentes.

De fato, o modelo de desenvolvimento marron só é ambientalmente sustentável se for socialmente excludente. Mas só é politicamente sustentável se conseguir ampliar o “sonho de consumo” para as classes médias emergentes. Portanto, quando se considera os fatores ambientais e políticos, o atual modelo hegemônico é, no confronto das duas maneiras, inviável.

Qual é a alternativa?

A solução passa pela construção de um modelo que seja ambientalmente e socialmente sustentáveis. Evidentemente, não é fácil caminhar neste sentido. Mas a proposta de uma economia verde e inclusiva é o que há de mais avançado na busca de uma economia de baixo carbono, com menos disperdícios e maior harmonia entre o ser humano e o meio ambiente.

Os documentos da ONU: “Towards a Green Economy: Pathways to Sustainable Development and Poverty Eradication” e “The Great Green Technological Transformation” mostram que o investimento de apenas 2% do PIB global em dez setores-chave pode ser o pontapé inicial de uma transição rumo a uma economia de baixo carbono (economia verde) e inclusiva. Os investimentos seriam nas áreas de energia, agricultura, edifícios, pesca, florestas, produção, turismo, transportes, água e resíduos.

Em certo sentido, a transição para a economia verde já começou de forma localizada no tempo e no espaço, graças às iniciativas isoladas. Mas para que seja uma alternativa global, a ECONOMIA VERDE E INCLUSIVA precisa fazer parte dos acordos e resoluções que vão sair da Rio+20, em 2012. Como disse recentemente a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira:  “Nenhuma iniciativa global terá êxito se os países não têm a capacidade de transformá-los em políticas e planos nacionais. Nosso desafio é, respeitando o legado da Rio-92, criar as condições ideais para superar o déficit de implementação dos acordos multilaterais e construir uma visão compartilhada de sustentabilidade para as próximas décadas”.

Precisamos agir localmente e globalmente. Como disse o escritor Vitor Hugo: “Nenhum poder na Terra pode parar uma idéia cujo tempo chegou”.  A proposta de transição do modelo hegemônico atual para a economia verde e inclusiva, pode não ser a solução mais perfeita de todos os tempos, mas é a idéia contemporânea mais viável e necessária para a sobrevivência do Planeta neste momento. O que não é viável e nem necessário é a continuidade dessa estrutura econômica e política que destrói a natureza e aquece a atmosfera.

Referências:
UNEP. Towards a Green Economy: Pathways to Sustainable Development and Poverty Eradication, 2011: www.unep.org/greeneconomy
DESA. The Great Green Technological Transformation, 2011:
http://www.un.org/en/development/desa/policy/wess/wess_current/2011wess.pdf
EarthTrends. The 6th Extinction and Protected Areas. Disponível em:
http://earthtrends.wri.org/updates/node/356

 

O crepúsculo dos Deuses.

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O que é o limite da vida? Acredito que o limite seja aquele ponto em que a nossa vida chega e que temos apenas a opção de parar tudo que estamos fazendo e da forma como estamos fazendo – pois o próximo passo pode custar à própria vida. Entretanto podemos morrer mesmo vivos, ou como os budistas dizem [principalmente a escola tântrica] – estamos morrendo um pouco a cada dia. Porém qual o objetivo da vida de um artista? Sucesso, fama, dinheiro, reconhecimento, luxo, extravagância ou um misto de tudo isso e mais um pouco? O rock nos oferece em abundância exemplos de artistas que vivem e viveram no limite de tudo, muitos deles pagaram com as próprias vidas, enquanto outros amargam o fundo de um poço que eles mesmos cavaram. Cartola já cantou que “o mundo é um moinho”, um grande triturador de ilusões e sonhos, que é tão implacável quanto o tempo, que devora as coisas e lega a obra [se é que podemos chamar assim em muitos casos] de muitos artistas ao mero esquecimento. Sid Vicious e Kurt Cobain são exemplos de vidas extremas, nas drogas e no sucesso repentino – o primeiro tornou-se símbolo de um movimento [punk] e o segundo de uma geração [os anos 90], ambos, assim como Che Guevara, hoje estampam camisetas de milhares de jovens mundo a fora. O líder do Nirvana tornou-se o grande porta voz da geração sem rumo dos anos 90, cantou o desespero do fin de siécle – disse o que todos queriam dizer, aos pais, aos amigos, ao mundo – suas emoções eram as de qualquer adolescente, em Seatle, em Nova Iorque, em Nova Déli, no Afeganistão, em todos lugares – estavam cheios de um vazio existencial, e o tiro que ceifou a vida de Kurt, tirou também um pedaço da vida de cada jovem. Sid Vicious não, não serviu de arauto para os anos 70 (haviam outros), mas abusou de tudo por nós, nos levou ao limite [mesmo que falsamente, segundo alguns] da desesperança no futuro, nos fez enxergar a porção de lixo que há em cada um de nós, mas foi vencido pelas drogas (overdose no banheiro de sua mãe). “É tão estranho, os bons morrem jovens, assim parece ser[…]”, cantou Renato Russo, como uma profecia mortal, que acometeu Janis Joplin, Jimmy Hendrix e Jim Morrison (o próprio Russo – embora por outros motivos), porém no caso de Vicious e Kurt, trata-se de falibilidade dos ídolos, ou seja, expõe assim a faceta mais humana dessas personas [isso mesmo, pessoas], pois nós as elevamos a condição de seres sobrenaturais, verdadeiros deuses e super-heróis. Será que Kurt Cobain achou que o tirou que transpassou o seu cérebro não o mataria, só aliviaria sua dor? E Viciuos, será que achou que a overdose só atingia os fãs dos Pilstols, mas a ele não? Muitas vezes canalizamos nesses ídolos tudo aquilo que queremos ser, vemos no outro a beleza que não vemos em nós, sofremos com a dor deles, rimos com seus sorrisos e nos realizamos com sua glória, mas eles se machucam também, são deuses de barro, quebram como nós e são finitos. Michael Jackson também é um caso extremo, de rei do pop a bobo de sua própria corte, teve tudo nas mãos, o sucesso, o mundo, a fama, o dinheiro, mas não soube lidar com isso, estragou sua carreira e jogou no ralo todo o prestígio que tinha por caprichos não humanos. Sua majestade brilhou mais do que o ouro de sua coroa, conclusão, tornou-se prisioneiro de sua própria vida, e como num espelho invertido, desejou mais os fãs do que os fãs o desejam no final de sua carreira.

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Vicious, Jackson e Kurt, [os anos 70, 80 e 90 representados] – morreram e mostraram o caminho. Napoleão começou sua decadência após invadir a Rússia no rigoroso inverno [início do século XIX], Hitler fez a mesma coisa no meio do século XX [felizmente]. Karl Marx disse que a história se repete uma vez como tragédia e outra como farsa –  isso soa não só atual, como profético. Amy Winehouse também morreu seguindo a mesma estrada para a perdição que esses predecessores seguiram. E Amy é um caso curioso porque reunia características dos três citados. Amy tinha talento como Michael Jackson. Era auto-destrutiva como Sid Vicious. E era infeliz [suposição minha] como Kurt Cobain. Amy Winehouse pareceu não acreditar na finitude de sua vida, acreditava que conseguiria preservar aquilo que ainda a sustenta, seu talento vocal – veja Jackson por exemplo, não conseguiu no final da carreira repetir o vigor de outrora, até nomes como Caetano Veloso (e Chico Buarque, João Gilberto, entre outros) declinam na qualidade com o passar do tempo (mesmo a qualidade deles ainda sendo superior a da maioria). Amy com alguma certeza iria passar por isso também – pois seu estilo de vida poderia prejudicar tanto sua voz quanto sua capacidade criativa. Milton Nascimento já cantava belamente que “todo artista deve ir onde o povo está”, Amy Winehouse fez muitas vezes o contrário, fogindo dos fãs e ainda os agredindo – o que sempre foi um grande risco, tanto físico [Dimebag Darrell ex-Pantera morreu no palco] quanto para a carreira em si, uma vez que com o declínio da qualidade seu público poderia abandoná-la [Axl Rose do Gun N´Roses é um exemplo]. Lembrando também que Winehouse iria lançar seu terceiro disco – que seria a prova definitiva de sua carreira. Estou querendo dizer que o artista muitas vezes [e principalmente quando não gerencia sua carreira de forma correta], torna-se refém de seu próprio sucesso, e caso o mesmo não chegue, afunda-se ainda mais nas drogas –além da normal perda de poder criativo que chega com o tempo. Talento é parte da capacidade que temos de agradar por longo tempo, agora genialidade é entrar para história, como Mozart e Beethoven (Bach e outros), que jamais morrerão, guardadas as devidas proporções, Kurt, Janis Joplin, Jim Morrison, Hendrix, Lennon, Elvis, Vicious, também não serão esquecidos, pois se neles faltou à genialidade, talento não faltou, para que suas obras se mantivessem vivas até hoje e seus rostos gravados em camisetas em todo mundo, agora te pergunto, será que em 100 anos ainda falaremos de Amy Winehouse ou veremos seu rosto estampado em camisas por todo mundo?

 

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O caminho da solidão e os passos curtos do amor

 Reflexões a partir de Rilke (Cartas ao jovem poeta), Zigmunt Bauman (Amor Líquido) e Aaron Beck (Terapia Cognitiva).

 

“Por isso é tão importante estar sozinho e atento quando se está triste: porque o instante aparentemente parado sem nenhum acontecimento, no qual o nosso futuro entra em nós, está bem mais próximo da vida do que aquele outro ponto, ruidoso e acidental, em que ele acontece como vindo de fora.” Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta, L & PM Pocket.

 

Outro dia, vi um amigo lamentar a solidão com grande pesar. Foram suspiros e agonizantes lamentações de quem tem a saúde mental por um fio delicado de alguma paixão não correspondida do passado e alguma eminente catástrofe escrita no futuro. Tudo por causa do Dia dos Namorados. Em seguida, agora em Agosto, o ouvir gemer em sofreguidão terminal de quem tem a vida ameaçada por doenças purulentas quando se aproximou o Dia do Solteiro. Ainda não liguei para saber notícias, mas pesquisei em alguns sites de relacionamento e um Nick em particular me chamou a atenção: Solteirão_Desesperado_Agoniza quer conhecer você, quase qualquer pessoa.

A internet vem funcionando para alguns como a salvaguarda de relações já fragilizadas, ou acentuação desses vítreos contatos (porque são delicados e não transparentes). Nos labirintos impessoais dela percorrem pessoas existindo com “intenção de ser”, que existem enquanto ideia. Reduzem e aperfeiçoam características irrelevantes, aprimoram mentiras divertidas, entregam o corpo para corromper o grande esforço que parece ser acreditar num relacionamento saudável, ou possível, ou, no mínimo, satisfatório. Então, as expectativas são aceleradas e tentam se tornar reais, encaixando-se forçosamente num espaço (estas ausências que só aumentam quando usamos o desespero de amarmos quem não queremos para preenchê-los) apertado que não comporta nem mesmo seus próprios mistérios. Quem procura desesperadamente quase qualquer amor parte para revelações propositadas numa comunicação desenfreada cujo conteúdo é etéreo, vago, como se falassem de amor-fumaça esperando o início de alguma fagulha. 

Na internet, a capacidade de reinventar-se, ou inventar-se pela primeira vez, é proporcional à oferta de novos produtos a serem adquiridos. Assim, o “amor verdadeiro”, o real, aparentemente intocável, permanece intacto; a impressão é que por não ter dado certo da primeira vez (ou de todas as outras seguintes) não foi verdadeiro, e assim não foi real.

Os solteiros costumam ser injustamente rotulados de inseguros crônicos que, para não afundarem nas profundezas de uma decepção ou rejeição (apenas possível rejeição), evitam relacionamentos ou aproximações com homens e/ou mulheres (ou objetos e bichos que berram). Um solteiro não é uma ilha no pacífico com um vulcão adormecido com amargura e dor borbulhando aquecidas; solteirice ainda pode ser uma escolha, um momento de procurar um outro caminho, de experimentar com os amigos a contemplação de uma vida nova, de repensar valores e conceitos que foram plantadas antes de nem entenderem o que é amor.

Talvez os solteiros estejam buscando investimentos mais apropriados, algo que mantenha o desconforto questionável que pode ser “estar sozinho”, no entanto, continuam a sustentar um bom senso adequado para preparar sua solidão dentro de movimento calmamente decente que é apreciar outra solidão. A solteirice deveria ajudar o sujeito a despender mais tempo, reflexão com recheio de afeto, e não aceitar formulações sobre amor, família, amizade, futuro, emprestadas.

A solidão não será aflitiva se trouxer consigo a possibilidade de reflexão sobre ela própria. Da mesma forma que estar triste só será o massacre de um futuro se não tiver um valor de aprendizado, se não for encarado como um aviso importante de que mudanças precisam ser avaliadas.

Entendi cedo que minha solidão (como oportunidade, não como catástrofe) é um resgate do amor-próprio que deixei morrer em todas as iniciativas românticas falhas que presenciei.  Não foram desastres; apenas diferenças. Ninguém sabe ao certo qual a coisa certa a fazer (que palavras usar, que carinhos iniciar, em que horários deixar o coração ceder, que declarações não nos tornará um amontoado de esperas histéricas e ressecadas), nem o tamanho do presente que se tornará um passado seguinte, a história que não começou, pois “namoro”, “relacionamento perfeito”, “amor” são conceitos formulados e dependem do que cada um pensa sobre eles; depende do entendemos deles.

Ou vai me dizer que você não tem aquele amigo que questiona a função dele no mundo, o sentido íntimo do seu valor no universo só porque chegou o Dia dos Namorados e ele está solteiro?

Procurar o amor ainda é aceitar permanecer sozinho com os próprios mistérios dentro da liberdade de outra solidão apenas compartilhada; uma solidão com repetição de equívocos possíveis, e que permitem o abandono de padrões antigos, formas vencidas de interpretar a vida.

Solidão também é amor enquanto descoberta; é abrir os olhos para uma preparação: a preparação de algo único que recebe em si outras alheias possibilidades, e que se altera, que se permite mudanças esclarecidas, livres, e sempre abertas a outras mudanças.

Penso que, ao contrário do que alguns pensam, solidão não é o abrigo úmido para decepções e frustrações insuperáveis que alguns carregam como fardo. Solidão é, sim, um vasto campo aquecido por decisões preparadas com maturidade e contestações dedicadas que correm livres como redemoinhos espertos que desarrumam a firmeza de qualquer natureza sem arrancar-lhe a beleza.

Tentar inúmeras vezes o amor que se desgasta em nós, cegamente, sem questionar-se, não é uma iniciativa que leva ao sucesso. A ideia de que cada vez que se tenta um novo amor prepara-se com eficiência para o amor seguinte não significa sucesso nas tentativas que virão, pois, na verdade, cada amor que virá, será novo, em outro contexto, e por isso diferente. As águas que lavarão seu amor estacionado no fundo do seu rio turvo serão outras. 

Neste ponto, a questão que merece certa consideração são namoros engatilhados como defesas contra a solidão. Na busca do “ser apenas um com o outro” encaramos a solidão como a próxima guerra que abalará nosso futuro, e então nos preparamos para o combate. Organizamos as linhas de frente com uma armadura de discernimento frágil, carregamo-nos de uma munição pesada de “aceitar a qualquer custo o que vier” e entramos em campo minado, esquecendo, porém, as armadilhas de insatisfação escondida, ainda na superfície de nossas escolhas, que explodirão quando o outro, este que aceitamos como íntimo, mas não único, discorda de nós, não faz ou aceita as escolhas que sustentamos, ou prefere Paula Fernandes ao invés dos concertos de Bach. E vamos sacrificando diálogos que salvam, fuzilando qualquer possibilidade de ajustamento e entendimento. Evitamos a solidão e ainda assim aceleramos um desastre íntimo. 

Penso ainda que o elemento assustador na solidão seja a novidade; é amargar fora das expectativas alimentadas pelos doces conceitos dos outros.

O deprimente “Só é feliz quem namora, então não posso ser feliz sozinho” se torna o eco dos desesperados caindo eternamente no poço sem fundo da solidão que eles não entendem. Não suportamos o desconhecido que cresce em nós rumo ao amanhã, este bicho chamado futuro que vem como mistério e que tentamos decifrá-lo e dominá-lo com a convicção forçada com que tentamos adequar nossa ideia de amor às convenções.

Não me refiro a uma solidão fechada em si, que engole depois de ferozes mordidas nosso amor-próprio (amor-próprio que está longe de ser aquela emboscada que muitos criam enquanto brava resistência ao amor de outras pessoas) e capacidade de compartilhar individualidades, abrindo mão de um compromisso palpável com aqueles que pretendemos apreciar por muito mais tempo. 

Expectativas irreais acerca de um relacionamento ou avaliações negativas extremadas a respeito de ser sozinho podem influenciar em suas atitudes com a solidão. Então, ela pode transformar-se numa repetição de equívocos, quando deveria ser um estado que muda de forma e cor dependendo das iniciativas de quem o experimenta.

(Não quero limitar a ideia de solidão à solteirice. Pois não existem os solteiros convictos que experimentam outras solteirices com o desapego como ferramenta incontestável tanto para regular sua segurança como para ajustar sua sociabilidade?)

Então a tristeza, o amor, a solidão, a decepção não vêm de fora, dos outros; são desconhecimentos que fixaram residência em nós; só não conseguimos precisar o local da morada, não descobrimos que porta escolher para presenciar a revelação, que chave procurar. O futuro, a vida nova, o amor, a solidão: são de dentro pra fora.

Estar sozinho pode ser um exercício. Uma escolha passageira que pode favorecer uma mudança permanente. Dependendo do ponto de vista.

Estar sozinho é um dos caminhos que podemos traçar com sossego, paciência e uma esperança realista até o amor chegar renovado e satisfatório.

(Solteirão_Desesperado_Agoniza acrescenta a seu status: Minha solidão diz que cansou de ser sozinha. Quer outra solidão só pra ela. Todinha.)

 

 

Rompendo o teto de vidro: a revolução silenciosa e o empoderamento das mulheres no século XXI

As mulheres brasileiras conquistaram diversas vitórias parciais no século XX: conquistaram o direito de voto, em 1932, mas não conseguiram ultrapassar o teto de 10% de deputadas na Câmara Federal; conquistaram níveis crescentes de educação e conseguiram ultrapassar os homens em todos os níveis de ensino, mas ainda estão pouco representadas nas ciências exatas e na liderança dos grupos de pesquisa; aumentaram as taxas de participação no mercado de trabalho, mas ainda sofrem com a segregação ocupacional, a discriminação salarial e a dupla jornada de trabalho (no emprego e em casa); conquistaram diversas vitórias na legislação nacional, mas, na prática, ainda não vítimas de discriminações e preconceitos. As mulheres eram 48,5% da população em 1900, chegaram a 50% em 1940 e atingiram 51% da população brasileira em 2010. Em termos de esperança de vida elas vivem, em média, atualmente, 7 anos a mais do que os homens. As mulheres vivem mais e são maioria da população e do eleitorado.

Por tudo isto, cresce a presença feminina em todos os aspectos da vida brasileira. As conquistas femininas aconteceram de forma gradual e progressiva, de maneira quase silenciosa, mas foram efetivas e posicionaram as mulheres para romper com o teto de vidro e atingir o empoderamento no século XXI.

Teto de vidro é o termo utilizado para descrever a barreira invisível que dificulta a subida das mulheres aos degraus superiores dos espaços de poder no mundo público e privado, independentemente das suas qualificações e realizações sociais.

Empoderamento é a tradução do termo inglês empowerment. Denota o processo pelo qual as mulheres ganham poder para expressar e defender seus direitos, conseguir maior igualdade de oportunidades, ampliar sua auto-estima, exercer controle sobre suas relações pessoais e sociais e, sobretudo, compartilhar de forma paritária os espaços de poder.

Revolução silenciosa significa mudança de valores que provocam transformações nas condições de vida de homens e mulheres. Existe uma Revolução Silenciosa acontecendo na cultura, na política e na economia que está transformando as relações entre homens e mulheres na família e na sociedade. A cada geração se reduz as desigualdades de gênero e até crescem as desigualdades reversas (por exemplo, as mulheres já possuem maiores níveis educacionais do que os homens). Não é uma revolução muito visível porque não existe uma liderança que unifique o movimento de cima para baixo. A revolução é silenciosa porque não existe um movimento organizado e unificado, com um porta-voz único que agregue o conjunto das reivindicações. A revolução silenciosa é um processo que começa de baixo para cima e vai conseguindo vitórias parciais, como se fosse uma guerrilha que conquista posições. Na terminologia de Antônio Gramsci é uma “guerra de posição”, mas que deve se tornar uma “guerra de movimento” (conquista do poder) no século XXI.

A revolução silenciosa é responsável pelo processo de desconstrução do patriarcado que vem sendo colocado abaixo de maneira lenta, mas contínua. O patriarcado é um sistema social no qual o homem (no papel de marido ou de pai) é o ator fundamental da organização social, e exerge a autoridade sobre as mulheres, os filhos e os bens materiais e culturais. Em cada país, algumas dimensões do patriarcado predominam sobre as outras, conforme o tipo de organização social e cultural, estabelecidas historicamente. Mas em geral, o patriarcado se caracteriza por ser um sistema onde há o predomínio dos pais e dos maridos (pater families) sobre as mulheres e os filhos, no âmbito da família e da sociedade. No patriarcado tradicional existe uma rigida divisão sexual do trabalho e uma grande segregação social, em geral, com as mulheres ficando confinadas ao mundo doméstico e os homens monopolizando o mundo público. O patriarcado, em termos materiais, possibilita ao homem o controle da propriedade e da renda da família, o contr
ole do trabalho e da mobilidade da mulher e o destino dos filhos. No patriarcado o homem monopoliza o poder.

Resquícios do patriarcado ainda podem ser encontrados nas relações sociais brasileiras, mas as suas bases legais e materiais estão em visível declínio. Este processo não é apenas brasileiro, mas global. Como mostrou o sociólogo Goran Therborn, existe um processo de despatriarcalização da sociedade, que acontece de maneira gradual:

A história do patriarcado no século XX é basicamente a de um declínio gradual, começando em diferentes pontos no tempo pelo mundo. A primeira ruptura ocorreu nos anos 1910, mediante ampla reforma consensual na Escandinávia e violenta revolução na Rússia. O final dos anos 1940 e o início dos anos 1950 proporcionaram outro importante degrau para baixo, nessa época centrado no Leste Asiático – no Japão, sob ocupação americana, e na China por meio da Revolução Comunista. A tomada comunista da Europa Oriental significou que os sinos lá também dobraram pelo patriarcado institucionalizado. Sem ser implementada em curto prazo, a Declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU assinalou importante vitória global e constitucional contra o patriarcado. Finalmente, os anos que se seguiram a ‘1968’, em particular os anos por volta de 1975 (Ano Internacional da Mulher), provocaram uma onda mundial contra os poderes e privilégios especiais de pais e maridos, com as primeiras rupturas vindas da Europa Ocidental e da América do Norte, mas sem deixar nenhuma parte do planeta intocada” (Goran Therborn, Sexo e Poder, 2006, p. 430).

A quarta Conferência Mundial das Mulheres, ocorrida em Beijing, em 1995, foi mais um passo neste processo de despatriarcalização, principalmente ao definir que os direitos das mulheres são direitos humanos, buscando o empoderamento das mulheres e sua plena participação, em condições de igualdade, em todas as esferas sociais, incluindo a participação nos processos de decisão e acesso ao poder, que são fundamentais para o alcance da igualdade, desenvolvimento e o fim da violência.

O escritor Vitor Hugo fez uma constatação histórica que vale para o processo de empoderamento das mulheres: “Nenhum poder na Terra pode parar uma idéia cujo tempo chegou”. É neste sentido que o processo de despatriarcalização é irreversível.

A idéia básica do feminismo pode ser resumida em uma frase: “As mulheres devem ser tão livres quanto os homens e deve haver igualdade de oportunidade entre os sexos na família e na sociedade”. Portanto, faz parte da contemporalidade a luta pelos direitos iguais, contra a discriminação e a segregação entre os sexos, pelo reconhecimento e respeito e pela paridade e isonomia nos espaços de poder, ou seja, pela equidade de gênero. Até agora as vitórias foram parciais, mas foram conquistas acumulativas e irreversíveis. Uma sociedade sem desigualdades sociais de gênero é a meta a ser atingida no século XXI.

 

A hipocrisia do “calar a voz” e a democracia

O recente assassinato de uma juíza tem despertado diversas análises. Uma delas, cometida hoje pela juíza aposentada e ex-deputada federal Denise Fossard (UOL), merece algumas considerações por mostrar o nível de hipocrisia com que alguns membros de poderes julgam a democracia.

Reproduzo frase do texto: “Quando há ameaça, e, principalmente o assassinato de um juiz, abre-se um precedente perigosíssimo, é mais grave [em relação a outros homicídios]: porque é ele quem bate o martelo. É ele quem tem de olhar para o réu e dizer que o condena à pena máxima de prisão. Quando se cala essa voz –e aí não importa o nome juiz –, é a instituição que foi mortalmente atingida”. (grifo meu).

A frase deixa bastante clara a visão, que sempre imperou no Brasil, sobre o que seja democracia: a de que o Estado e seus poderes são mais que a sociedade que os forma e os mantém. Desconte-se o exagero da expressão “mortalmente”, recurso típico do meio em que transita.

E isso não é democracia. Afirmar que “Calar a voz de um juiz é um precedente perigosíssimo para a República. É um golpe na democracia” é no mínimo hipocrisia. Ao dizer que isso “é mais grave”, não sei com que termos qualifico.

Grave, Doutora, são as milhares de vozes caladas cotidianamente nesse país e contra o que pouco tem sido feito. Isso sim fere “mortalmente” a democracia, pois atenta diretamente contra nós, comuns mortais que sequer podemos nos dar ao luxo de “abrir mão da segurança” (como fez a juíza), posto que sequer a temos. Mas parece que a Senhora está mais preocupada em levantar sua voz corporativa do que assumir que pertence a um grupo especial, contra o qual tudo é “mais grave”.

Cada brasileiro morto no trânsito é um atentado à democracia; um atentado a uma instituição que a Senhora deveria saber ser bem maior que as instituições de estado: a sociedade.

Mas é justo o seu pensamento: nós também somos hipócritas e concordamos. Afinal, é mais cômodo…

O malthusianismo e os neomalthusianismos

Thomas Robert Malthus (1766-1834) escreveu o “Ensaio sobre a população”, em 1798, para rebater as idéias progressistas dos iluministas Marquês de Condorcet e William Godwin que defendiam os ideais da Revolução Francesa e consideravam que a “perfectibilidade humana” poderia superar a pobreza e garantir o bem-estar da humanidade.

Malthus era um ideólogo que defendia os interesses dos proprietários de terra, da nobreza e do clero e considerava que a pobreza era uma forma de “inclusão subalterna” a serviço das elites econômicas do antigo regime. Ele considerava que a pobreza era a única forma de manter a população sobre controle de acordo com o seu “princípio de população”, formulado da seguinte maneira: “A população, quando não controlada, cresce numa progressão geométrica, e os meios de subsistência numa progressão aritmética”.

Para Malthus a população tendia a crescer em progressão geométrica em função de uma suposta relação direta entre fecundidade e renda. Na visão malthusiana, se a pobreza fosse reduzida as pessoas teriam mais filhos e o crescimento dos meios de subsistência não acompanharia este crescimento. Para Malthus, o controle da população deveria ocorrer via aumento das taxas de mortalidade, o que ele chamou de “cheques positivos”, isto é, miséria, epidemias e guerras.

Mas porque não reduzir as taxas de fecundidade para impedir o crescimento geométrico da população? Esta seria a solução mais adequada para combinar a redução da pobreza sem pressionar os recursos naturais. Porém, Malthus – que era pastor da Igreja Anglicana – era contra qualquer meio contraceptivo e contra o aborto seguro. Ele considerava que os casais deveriam fazer sexo com a finalidade generativa de acordo com o princípio bíblico “crescei e multiplicai-vos”. Desta forma, Malthus considerava que só a alta mortalidade poderia controlar a população.

Evidentemente, o malthusianismo é uma ideologica insustentável em uma sociedade democrática, pois é impossível para um governo eleito pelo povo propor o aumento da mortalidade (via aumento da miséria, epidemias e guerras) para controlar o aumento populacional. Numa sociedade democrática é preciso ter propostas para diminuir as taxas de mortalidade e aumentar o bem-estar da população.

Foi exatamente depois da Segunda Guerra Mundial, em um ambiente de crescimento da democracia no mundo, que tomou forma a ideologia do neomalthusianismo, que tem como idéia base o controle do crescimento populacional, não pelo aumento da mortalidade, mas pela redução das taxas de fecundidade.

Os neomalthusianos, ao contrário de Malthus, consideram que existe uma relação inversa entre pobreza (renda) e fecundidade. Desta forma, são socialmente muito mais avançados, pois consideram que a pobreza pode ser eliminada, mas para tanto, seria preciso controlar o crescimento exponencial da população. Eles consideravam que um rápido crescimento da população poderia ser um entrave ao desenvolvimento, pois canalizaria a maior parte dos recursos econômicos para as grandes e jovens gerações. Neste sentido, o controle da população (via planejamento familiar) seria um pré-requisito para a decolagem (take off) do desenvolvimento. Portanto, os neomalthusianos são aqueles que defendem que o controle da natalidade seja uma prioridade das políticas públicas.

Existem dois tipos de neomalthusianos: 1) os que defendem um amplo controle da natalidade, se necessário de forma autoritária; e 2) os que defedem incentivos ao controle da natalidade de forma democrática e sem recorrer a meios autoritários.

O primeiro tipo pode ser encontrado na China continental que adotou, a partir de 1979, a política de filho único e obriga os casais a utilizar os métodos contraceptivos reversíveis, a esterilização ou o aborto como forma de atingir o objetivo de um filho por casal.

O segundo tipo de neomalthusianismo é aquele que busca incentivos para o controle da natalidade, buscando reduzir o preço dos meios contraceptivos, aumentar o acesso dos pobres aos métodos de regulação da fecundidade ou até mesmo dar prêmios para a adoção voluntária do controle da natalidade.

Evidentemente, este segundo tipo de neomalthusianismo está muito mais próximos dos idéias aprovados na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada no Cairo em 1994. Como disse Hodgson e Watkins (1999), o “neomalthusianismo democrático” está mais próximo do femininismo e das forças progressistas e pode ser até considerado um aliado contra os malthusianismo ainda existentes nos setores conservadores e no fundamentalismo religioso.

Porém, existe muita confusão entre malthusianismo e neomalthusianismo. As idéias do primeiro são muito mais conservadoras do que as dos segundos. Porém, ambos foram superados pela CIPD/1994 que definiu que todos os casais do mundo podem ter a liberdade de decidir como, quando e quantos filhos querem ter. Este é o princípio dos DIREITOS SEXUAIS E REPRODUTIVOS, que se opõe tanto ao malthusianismo quanto ao neomalthusianismo.

Na Cúpula do Milênio, que definiu os 8 Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), um dos itens que estão em vigor é o de “Universalizar os serviços de saúde sexual e reprodutiva”. Se este objetivo for colocado em prática de maneira democrática e na perspectivia dos direitos humanos, então a polêmica provocada pelos malthusianos e neomalthusianos vai apenas fazer parte da história.

Referências:
ALVES, J. E. D. . A polêmica Malthus versus Condorcet reavaliada à luz da transição demográfica. Textos para Discussão. Escola Nacional de Ciências Estatísticas, Rio de Janeiro, v. 4, p. 1-56, 2002. Disponível em: http://www.ence.ibge.gov.br/publicacoes/textos_para_discussao/default.asp
HODGSON, D.; WATKINS, S. C. Feminists and neo-malthusians: past and present alliances. Population and Development Review, New York, v.23, n.3, p.469-523, Sept., 1999

 

Organizando a parada do dia do orgulho H!!!

Bem, vou quebrar o protocolo desta coluna que tem normalmente um conteúdo cultural, para abordar um outro assunto que tem me deixado inquieto.Uma coluna um tanto quanto mais visceral e sarcástica. Me perdoem os leitores habituais, mas é que a bola está picando, sobre assunto do dia do “Orgulho hetero”, que acaba de ser votado pela câmara de vereadores de São Paulo.

Eu fico pensando numas imagens muito engraçadas, senão irônicas, e que são o principal motivo que me levou a blogar esse assunto…

Então eu faço aos amigos leitores a seguinte proposta:

Iimagine que você mesmo(a) está trabalhando na organização do dia do orgulho H. Uma reunião importantíssima assim, decidindo o futuro da humanidade!

Aí você começa a pensar que estarão talvez milhares ou ao menos centenas de pessoas reunidas na Av. Paulista, e os olhos da imprensa mundial prestando atenção no que será apresentado nesse evento que é inédito… uma idéia assim do novo milênio, uma coisa totalmente inovadora a nível mundial, uma ideia da era de aquário (ah, não não não ! a era de aquário é uma coisa meio boiola… essa não é uma boa idéia para associar com o “movimento hetero”, alguém há de pensar).

Então alguém diz:”Podemos usar umas figuras emblemáticas assim do movimento hetero mundial, ícones assim da liberdade heterossexual…” 

E aí fica aquele silêncio no ambiente durante alguns minutos, longos minutos, e ninguém consegue concatenar direito uma ideia. E segue uma sequencia de  discussões confusas que não chegam num acordo direito sobre “que movimento é esse”, ou “o que é que queremos discutir mesmo” ou “quem será essa pessoa emblemática”???… 

Aí alguém lembra: A Míriam Rios!!! ÊÊÊÊhhhh  que legal! E aí fica decidido: No primeiro carro que desfila, a Miriam Rios junto com o vereador  Carlos Apolinário representando as igrejas e o direito de SER hetero. 

Bem, até ai nenhuma novidade né?

E alguém diz… Podia ter musica né? A Ivete! vamos trazer a Ivete Sangalo! E aí todo mundo se entusiasma! A Ivete num trio elétrico! Até que alguém pensa em voz alta: mas gente! A Ivete pode trazer um monte de bahianos atrás do trio elétrico… Os bahianos não são muito liberais? E se o Movimento gay da Bahia resolver aparecer? Não! Não! Não!  (comoção geral). É verdade , bahiano não dá! 

– Pois é! Fiquei pensando numa coisa mais chocante assim, tipo a Gal com os peitos de fora! (oooooohhhhh! Que legal! Os heteros comemoram a idéia dos peitos de fora!) Tem um cara ali no meio que disfarça, e não comemora muito: Mas a Gal está meio passadinha!

E alguém grita: Para! Para! A Gal vai querer trazer Gil e Caetano. Daí ferrou! Caetano não!!!  (uuuuhhhh !!! Caetano não!)

– Podia ser a XUXA!  vamos chamar a Xuxa! Mas não pode ter crianças, por causa da pedofilia,  né gente?

– Ou podia ser Paula Fernandes! É mais comportadinha, e não ofende ninguém! E ela é mais gostosa! Boa! tá decidido. A Paula Fernandes!

Daí aquele cara que estava menos entusiasmado com o andamento da prosa arrisca: Quando chegar ali na Augusta podíamos soltar uns balóes coloridos, e umas músicas da Lady Gaga e da Madonna! 

Todos se olham com desconfiança, e não dizem claramente o que passou pela cabeça nesse momento… 

E aí pra quebrar o gelo, alguém continua: Não, balóes coloridos não dá, gente! Parece aquela outra parada … Melhor até é todo mundo vestido de preto, prá não lembrar de festa, e nem de coisas alegres… Deixa aquela alegria exacerbada para os gays né? A gente tem que fazer uma coisa  chocante!

– Pô! Isso aqui já tá parecendo funeral… todos de preto…daqui a pouco vai entrar a tropa de elite!

– Vamos trazer a seleção brasileira de futebol, a gente puxa o patrocínio da cerveja e faz um carnaval na avenida!

– Carnaval não! Baile  funk!!!!  Agora pode, pois a Lacraia já morreu!

 E aí essa idéia ganha a atenção de todos por alguns instantes

– E logo atrás do bonde a gente traz um carro com várias mulheres famosas assim da televisão… atrizes da globo dançando funk!

As beatas se olham decepcionadas, pois estavam planejando no cantinho de trazer o Antonio Fagundes e o Fabio Junior, e até o Roberto Carlos! Até que alguém grita a idéia que termina de vez com a reunião numa confusão, que não teve mais fim:

 -Vamos trazer as coelhinhas da Playboy! (Uh terere!!! comoção geral!!)