Sexista e discriminatória

Há momentos em que, por mais que não queiramos, a estupidez humana realmente se torna mais que infinita, como dizia Einstein.

É o recente caso do comercial estrelado por Gisele Bündchen para a fábrica de lingeries Hope. Nem bem começou a ser veiculada, já é alvo de ataques do fundamentalismo. E da pior espécie de fundamentalismo, aquele que se encobre sob a capa das “políticas públicas de proteção…”.

Deveríamos esperar – ao menos penso que é o que se espera – de alguém que foi alçada ao posto de Ministra da República, mesmo que apenas chefe de uma Secretaria com status de ministério, que usasse de um atributo fundamental (e que parece em falta no Brasil) que é a ponderação.

Ponderar é refletir, buscar o equilíbrio. Ponderar requer calma e, principalmente, analisar todos – ao menos um número grande – os aspectos envolvidos, inclusive o EFETIVO impacto que a campanha teria no público. Mas parece que não foi isso que a Ministra fez. Tomada de impulsos quixotescos na sua batalha em defesa da honra e da dignidade das mulheres brasileiras, sequer ponderou que os efeitos seriam mínimos, pois é de máximos que nossa sociedade anda farta: máximo de pobreza, máximo de corrupção, máximo de falta de segurança e de saúde…

E, também importante, sequer ponderou que somos um povo formado por 76% de analfabetos funcionais, que mal e porcamente conseguem entender uma frase que lêem, que dirá as supostas mensagens de “sexismo” e “discriminação” apontadas no comercial.

Tomou armas com seu Sancho, a Coordenadora Nacional do Comitê Latino-Americano e do Caribe para a Defesa dos Direitos da Mulher, Carmen Hein de Campos, e pediu a suspensão do comercial. Claro que será seguida por um exército…

Se a Ministra e seu séquito tivessem por hábito ponderar, com certeza chegariam a conclusão de que é pela luta por um novo modelo de educação que mudaremos o que pode ser uma característica arraigada nos brasileiros.Não bradando lanças contra calcinhas…

Parodiando Einstein, apenas duas coisas são infinitas: a estupidez humana e a hipocrisia. E eu tenho certeza que as duas são verdadeiras.

 

As mães de Chico Xavier

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AS MÃES DE CHICO XAVIER – Glauber Filho e Halder Gomes

 

Enquanto a tempestade sacudia os Alpes suíços, Victor Frankenstein, ou o moderno Prometeu, teimava em continuar sua experiência no estúdio fétido. Exausto e febril, ele está completamente surdo aos avisos da Natureza que esbraveja contra sua tentativa de se igualar a Deus. Raios e trovões somam-se aos impulsos elétricos que chegam à Criatura, o líquido amniótico borbulha como as águas da chuva que ele vê pela janela. O momento crucial desta narrativa traz ao cume o conceito romântico da relação do indivíduo com a Natureza.

Esta intensa Einfühlung pela Natureza nas narrativas românticas vai além da simples empatia, na verdade, chega à total identificação, como observado por Schelling – mencionado por mim em outro texto no Pensador Selvagem Cinema espírita. O espírito humano é a quintessência da natureza e a natureza é a manifestação do espírito humano, não somos separados.

Em As mães de Chico Xavier de Glauber Filho e Halder Gomes mais uma vez esta característica romântica está presente. A simbiose entre a Natureza e os seres humanos ultrapassa a simples analogia e nos traz, além de imagens arrebatadoras, a sincronicidade dos eventos, como a nos falar sobre a eternidade da vida. No início do filme as imagens da água e uma nebulosidade se misturam e ao abri-la vemos pai e filho pescando num lindo lago; o peixe pescado pelo rapaz, que nem queria estar ali, é seguido de comentário do pai: “você deveria aproveitar mais estes momentos” o qual é ignorado pelo filho. A presença da natureza trazendo um prazer simples não comove o rapaz que não está em harmonia com ela e ele será o próximo fisgado.

A natureza é personagem no filme, como anunciadora ou companheira: a tempestade que cai quando o rapaz é deixado na clínica, o céu que muda a cada acontecimento, as pedrinhas do rio que a mãe guarda com carinho, os pássaros que cantam na porta da escolinha de Theo, os grilos na Casa da Prece de Chico. Incluso o silêncio recheado destes sons naturais tão bem colocados e pontuados faz da narrativa um convite para irmos mais fundo na reflexão. Bem diferente das afobações e necessidades de sustos de outros filmes que falam de desencarnados por aí.

Mesmo sendo, como dito pelo próprio Glauber, um filme que homenageou o centenário de Chico Xavier, não me pareceu um filme doutrinário, mesmo com referências ao Cristianismo (como nas imagens dos peixes) e na prática da caridade kardecista. É ainda um filme em si, uma ficção baseada em fatos reais, mas que com certeza pode ser apreciada por quem não segue os preceitos ali somente mencionados. O entrelace dos personagens, suas experiências, alegrias e dores são humanas e é o que se ressalta no enredo. É como disse Glauber: é um legado e uma produção ligados a causas sociais e humanitárias como vemos nos créditos, mas também é uma obra de arte.

Seu ritmo leve e cadenciado e sua simplicidade profunda lembram as narrativas cinematográficas iranianas, tais como: “A maçã” de Samira Makhmalbaf ou “O balão branco” de Jafar Panahi, só que com mais sofisticação. Este toque fino está, por exemplo, na maneira em que os acidentes foram mostrados: nada de rios de sangue saindo da tela, nada de ver em que estado ficou o corpo, não somente porque a ênfase é o espírito e a passagem, mas também porque o importante ali não é chocar. São mortes que emocionam, mas não massacram a paz do espectador e talvez por isso mesmo doam um tantinho mais…

A sincronicidade que une os personagens faz da narrativa algo mais comovente e próximo a algo com que o espectador pode se identificar rapidamente, já que parece ser assim conosco quando o trágico acontece. O irmão que ouve de Karl sobre Chico Xavier e morre em seguida; Karl que vê em sua ilha de edição cenas do acidente em que estava o irmão; a professorinha que queria abortar e ouve de Elisa como é ter um amor incondicional de mãe.

Outros pontos que colocam este filme fora do alcance das marcações que poderiam podá-lo e mais próximo de um estilo definido de Glauber/Haulder foi o cuidado no figurino e ambientação, mesmo que saibamos que ocorria nos anos 90, para que soasse com algo atemporal, que nos leva e levará os futuros espectadores a sentir esta linda mensagem como eterna. Assim como os closes para captar as emoções dos personagens e os olhos! Ah, os olhos das mães! Nada mais a comentar sobre estes últimos…

Como conversei com Stephanie Celentano em breve bate papo sobre o (talvez) cinema espírita, não me sinto segura para dizer que este já é um gênero cinematográfico brasileiro, mas com certeza é brasileiro. E pode ser um subgênero do que vemos alguns já chamar de cinema transcendental. De qualquer forma, com ou sem rótulos, é um filme lindo, perspicaz, sutil, elegante, profundo sem ser pretencioso. Eleva a alma pelo que diz e pelo o que mostra.

 

 

 

 

Contabilizar o custo da poluição

Durante muito tempo (e ainda hoje) o mundo buscou o crescimento econômico a qualquer custo. A idéia do desenvolvimentismo virou programa eleitoral de políticos que sempre ressaltam os benefícios, mas não contabilizam adequadamente os seus malefícios. Tradicionalmente, o grau de desenvolvimento se mede pela estrutura e o valor do Produto Interno Bruto (PIB). A contabilidade nacional calcula o PIB pela soma do preço de todos os bens e serviços (em termos de valor agregado) produzidos em um determinado território.

Todo o alumínio ou o cimento produzido no país entra no cálculo do PIB, porém a poluição gerada por estas atividades industriais não são contabilizadas. Bens superfluos como os diversos tipos de bebidas alcoólicas, assim como suas propagandas machistas, entram com valor positivo no PIB, embora estas bebidas sejam responsáveis por grande parte das mortes em decorrência da violência interpessoal ou em choques de veículos no país. Em geral, governos em nível local, estadual e nacional comemoram os empregos e impostos gerados por uma fábrica de cerveja ou aguardente, mas não contabilizam nas contas nacionais as vidas subtraídas decorrentes da cirrose, das brigas de bar, da violência sexual e doméstica e dos acidentes de trânsito.

Por exemplo, entra no PIB como investimento os recursos gastos por uma firma ou pessoa física quando desmata (e queima) uma grande área de Cerrado, Mata Atlântica ou Floresta Amazônica para plantar pasto e criar gado. Também entra e faz crescer o PIB os bens produzidos na atividade pecuária como o leite, a carne, o couro, etc. Contudo, a perda da cobertura vegetal e da capacidade de retenção de CO2, a redução da biodiversidade e a poluição gerada pela emissão de diversos gases de efeito estufa, como o metano, não são contabilizados no PIB. A contabilidade macroeconômica permite a indesejada equação: mais economia = menos natureza.

Todos os exemplos acima servem para mostrar que o PIB – tal como ele é contabilizado oficialmente no mundo todo – não é uma boa medida de desenvolvimento, especialmente quando se considera o desenvolvimento humano e sustentável. Por isto, cresce o movimento para se criar um sistema de preços para defender a natureza e eliminar a poluição, o acumulo de gases de efeito estufa e a degradação ambiental. É possível se criar um sistema de preços que aponte para a redução do consumo surpefluo e do uso insustentável dos recursos naturais.

Transformações culturais são sempre necessárias. Mas as mudanças acontecem de forma mais rápida quando se mexe no bolso das pessoas. Taxar a carne bovina pelo desmatamento provocado pela pecuária, pelo gas metano liberado pelo gado e seus efeitos sobre o aquecimento global, em geral, tem resultados mais efetivos do que uma campanha em favor do vegetarianismo. Taxar a gasolina e direcionar os recursos para energias alternativas apresenta resultados mais diretos do que campanhas educacionais, embora estas sejam inquestionavelmente necessárias.

O atual sistema de preços que serve de base para o cálculo do PIB não registra o impacto ambiental das ações econômicas. O custo de quilowatt/hora de uma usina termoelétrica que queima carvão ou petróleo é menor que o custo do quilowatt/hora da energia eólica, quando não se contabiliza a poluição. Assim, pela lógica do mercado, o aproveitamento da força dos ventos – que é uma alternativa renovável e limpa – será deixado de lado e os investimentos serão feitos na energia fóssil que é não-renovável, suja e poluidora.   

Mas se o custo da tonelada de gás carbônico emitido for precificado e incorporado no valor final dos bens e serviços as decisões de investimento serão reconsideradas. Se o custo da poluição dos gases de fonte fóssil queimada pelos automóveis forem precificados haverá estimulo para o uso de fontes alternativas e limpas de energia e desincentivo para comprar carros, especialmente aqueles caros, pesados e de alto consumo. Quando se compra um produto se paga um valor monetário pelos fatores de produção embutidos, mas não se paga o custo não monetário das emissões de CO2 equivalente geradas pelo mesmo.

Precificar e valorizar a natureza, taxando a poluição e a degradação ambiental, pode até ter algum efeito negativo no PIB, mas, sem dúvida, teria um efeito muito positivo para o meio ambiente. Neste sentido, não faria mal se registrar nas Contas Nacionais que uma floresta nativa (isto é, com toda a sua biodiversidade) tem mais valor que uma mesma área de pastagem ou uma floresta replandada uniformemente.

O economista indiano Pavan Sukhdev coordena o projeto “A economia dos ecossistemas e da biodiversidade” (TEEB, na sigla em inglês), vinculado ao Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente da ONU. De acordo com o TEEB, as perdas anuais referentes destruição das florestas, mananciais e da vegetação representam entre 2,5 trilhões e 4,5 trilhões de dólares. Estas perdas não são contabilizadas no PIB.

Taxar as atividades responsáveis pelas emissões de carbono e direcionar estes recursos para as energias renováveis e limpas é uma forma de mitigar o aquecimento global.

Assim, precificar e valorizar a natureza significa reduzir o ritmo de crescimento econômico das atividades poluidoras e estimular as atividades verdes e limpas para evitar um desastre ambiental incontrolável, que pode acontecer em um futuro próximo se nada for feito.

A sensibilidade e a inocência do mal: Hitler, Korn e Black Box Recorder.

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O argumento desse artigo é de que “o mal pode ser sutil e sensível”. A idéia é que uma coisa ruim pode se travestir de inofensiva, como nas armadilhas dos desenhos animados – é só lembrarmos de Coiote e Papa-léguas, quantas vezes o Coiote montou armadilhas para o Papa-léguas lhe oferecendo alpiste (sua comida preferida)? Era uma coisa boa com uma má intenção por trás. Num mundo de aparências como o nosso, não é prudente acreditarmos em tudo o que é belo e bom – (Platão diz que tudo que é belo é bom), quantos casos já não ouvimos de pessoas que param na estrada fingindo estar com problemas mecânicos no carro, alguém para pra ajudar e é surpreendido por um assalto. Ou ainda, pessoas que se oferecem para ajudar idosos para no final assaltá-los, ou até matá-los. A beleza pode esconder muitas coisas, e a bondade muito excessiva também, afinal porque será que existem ditados como “por fora bela viola, por dentro pão bolorento” e “quando a esmola é demais o santo desconfia”? A banda norte-americana Korn e a inglesa Black Box Recorder se utilizaram desses recursos em seus discos de estréia. Da capa a algumas canções, é tudo inofensivo – há diálogos com o mundo infantil, com a inocência, para que as más intenções não sejam percebidas, pois quem irá desconfiar de algo belo e sutil como uma criança? O mesmo artifício usou a bruxa má no conto “A bela adormecida” – travestida de mendiga[1](aparentemente inofensiva) – deu a bela jovem uma maça envenenada. Quem no lugar da moça iria desconfiar de uma velhinha inocente e de seu ato gentil? O mal assume diversas formas, é o caso do Diabo: “a idéia de que o maligno podia assumir qualquer forma que desejasse também foi fortalecida pela comparação de Satanás com a serpente que tentou Adão e Eva”[2] – porém uma das formas mais utilizadas por Satanás é a sua original. Lúcifer foi um dos anjos mais próximos de Deus antes da queda, e o significado de Lúcifer é anjo de luz (ou o “portador da luz”), e como diz Paulo em sua segunda epístola aos Coríntios, “Satanás podia transformar-se num anjo de luz para poder nos ludibriar”[3].

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A capa do primeiro disco do Korn (homônimo), traz uma menina brincando numa balança num parque assustada ao ver uma pessoa que segura algo na mão direita. A pessoa não aparece na fotografia, vemos apenas sua sombra projetada no chão, iluminada pelo sol, mas olhando melhor, a pessoa segura algo nas duas mãos, não apenas na direita. Porém nessa mão o objeto – um estribo de montaria[4] – forma um símbolo ambíguo, que tanto significa o culto ao heavy metal, quanto ao demônio [em outras interpretações]. O encarte do disco do Korn apresenta brinquedos infantis – bonecas – em meio a revistas adultas, numa relação da perversidade da pedofilia, que muitas vezes ocorre pelos próprios pais – figuras de quem a criança não desconfia que irá lhe fazer algo de ruim. Duas músicas em especial demonstram essa perversidade camuflada, a última faixa “Daddy”, possui alguns elementos dessa relação. O começo algo meio sacro, uma levada hipnótica, sugerindo um quarto escuro, vozes, um clima pesado, meio Roman Polanski. A música é bastante tensa, só que não é tão pesada quanto as demais, é mais climática e os vocais de Jonathan Davis são emocionais e ora sussurrados, trazendo a tona uma inocência, ou uma violação dessa inocência. A proposta é de cantar algo macabro e perverso de uma forma sutil, assim como fazem em “Shoots And Ladders”. A música é cheia de referências malignas, de fundo um canto suave, um ritmo cadenciado, levemente pesado [sic]. A letra na primeira estrofe fala de morte (Roda em volta das rosas, bolso cheio de flores, cinzas, cinzas, todo mundo cai), a composição segue a mesma estrutura dos contos infantis, numas das partes a música diz: “três, quatro, feche a porta”, e em outra, diz: “dê um osso ao cachorro, esse velho veio rolando até em casa” – seria a mesma pessoa da capa do disco, perseguindo as crianças desde o parque? Entretanto há duas partes muito sinistras nessa música – e o detalhe, quem ouve a música sem saber o que diz a letra, é levado a pensar que trata-se de algo bom – logo depois da contagem, a canção prossegue com o verso: “A ponte de Londres está caindo, está caindo, está caindo, a ponte de Londres está caindo, minha bela senhorita”, não há como negar que a estrutura não é de músicas infantis. Em seguida, uma assustadora sentença: “Cantigas de crianças são ditas, versos em minha cabeça. Durante a minha infância eles foram ensinados. A violência escondida é revelada, uma obscuridade que parece real. Veja nas páginas a causa de todo esse mal”, essa mesma passagem consta no interior do encarte do disco, ao lado, vê-se um boneca sendo atacada por um escaravelho, numa referência a maldade contra crianças. Shoots And Ladders é uma música que fala sobre morte e pedofilia, sobre a forma como o mal pode estar nas coisas mais inocentes, o encarte ainda explora a faceta mais macabra dos brinquedos infantis, o olhar de assassinas ou de cúmplices das bonecas, tesouras jogadas, como quem esperando uma oportunidade para atacar, aliás, os brinquedos são os melhores amigos das crianças não é?

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O Black Box Recorder também joga com essa questão de inocência e perversidade – os instrumentais de John Moore e Luke Haines são doces e sutis, enquanto que a voz de Sarah Nixey é suave como de uma criança, embala-nos em sonhos amargos e cheios sombras. Assim como o Korn, o Black Box também trouxe referências logo na capa e no encarte do primeiro disco, “England Made Me”. A capa traz uma bela e doce criança deitada numa cama, porém a menina olha para baixo, parece triste, sua tristeza reflete o tom amargo e depressivo da vida do final do século XX (o disco é de 1999). No quadro na parte inferior da capa, vê-se um acidente, um avião caindo no mar – seriam as letras as recordações da caixa preta (black Box) desse avião? – e ao lado um homem, provavelmente um comissário de um trem (se é que existe), que acabou de bater e está em chamas. Lê-se na placa, “Life is Unfair” (A vida é injusta) – ou seja, ocorreu um acidente, e os parentes dos que morreram (ou até mesmo os mortos num outro plano) certamente devem ter se questionado do porque ocorrera, logo com eles, então chegam à conclusão de que a vida é injusta. Porém se juntarmos uma coisa com a outra, depressão e tristeza (da menina) mais morte e desilusão com a vida (quadros da capa), é igual a suicídio. Abrindo o encarte, se vê uma bela paisagem, um penhasco com vista para o mar, abaixo muitas pedras a uma altura imensa – uma sugestão, um convite ao suicídio também, é outra chave dessa questão muito presente na iconografia do Black Box Recorder. “O disco derrubou a crítica no chão por seu excesso depressivo” observou Marcel Plasse[5], canções como “Swinging”, “Hated Sunday” e “It´s Only The End Of The World”, trazem também elementos depressivos, algumas como Hated Sunday, dão a entender que trata-se de uma saudade, de um tempo, ou de uma condição que não se tem mais, é como se alguém tivesse se matado e hoje estivesse relembrando (novamente aqui num suposto outro plano), como em “Memórias Póstumas de Brás Cubas” ou no filme Beleza Americana. Essa mesma impressão se tem ao ouvir a primeira faixa “Girl Singing In The Wreckage” – há um certo desconforto com a vida, uma sensação de fim – A. Alvarez comenta que o suicida “joga sua vida fora para poder, enfim, viver direito”[6]. Outro ponto das canções do Black Box é a sutileza dos instrumentais, “Swinging” é quase uma canção de ninar – talvez a que a menina ouvia na cama na capa do disco – enquanto que “Ideal Home” tem uma levada de pianos de brinquedo, uma atmosfera de quarto de criança, de silêncio inviolável, sem contar a voz de Sarah Nixey, proposital e perversamente infantil. Porém o grande momento do disco fica por conta da sexta faixa do álbum, “Child Psychology”, um tratado sobre a depressão e sobre as vidas destruídas das famílias que se dizem normais. A música “foi banida das rádios inglesas e teve seu clipe vetado na MTV, graças ao refrão: (a vida é injusta, mate-se ou supere isso)”[7] – e mesmo antes da retirada de circulação, a música teve seu refrão censurado. A letra da música fala de uma garota chamada Julie, que levava uma vida tediosa, turbulenta, presenciando brigas de seus pais e a mesmice da vida desses tempos. A menina tinha parado de falar, havia expressado seu desgosto com a vida (não queria ter nada mais a ver com o mundo lá fora), seus pais a levaram a médicos na tentativa de resolver o problema (fonoaudiólogos e psicólogos), mas nada disso adiantou, foi expulsa da escola por sua falta de interesse nas aulas – e talvez no futuro em si – isso nada significou para ela. Essa história foi contada sobre uma base instrumental simples, suave, com pequenos efeitos de sinos de berçário, um fundo tenso e amargo no ar, Sarah contando e não cantando exatamente, exceto no pesado refrão. O Black Box expôs a todos um problema quase oculto na sociedade, o reflexo dos problemas domésticos nas crianças, briga dos pais, violência, problemas financeiros, conflito de gerações, tudo isso acontece, mas as sociedades fecham os olhos para não ver, então quando alguém ou uma banda diz isso dessa forma tão franca e sutil como o Black Box Recorder fez, ou é boicotado ou censurado. Esse tipo de mensagem é quase subliminar, nos diz mas não de forma clara, nas entrelinhas, só que nesses casos aqui citados, a forma utilizada foi a inocência do mundo das crianças, assim como acusam Walt Disney e Xuxa de inserirem mensagens satânicas em seus desenhos e músicas respectivamente, talvez o mal pense que dessa forma não iremos desconfiar, afinal, como pensar que coisas tão belas e encantadas são tão perversas, isso não se passa na cabeça dos pais na hora de escolher um brinquedo ou um filme infantil para seus filhos pequenos.

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Falar de Adolf Hitler hoje tornou-se fácil pela quantidade de biografias, documentos, artigos, filmes e comentários que foram produzidos a seu respeito. Muitos tentaram analisar sua mente e sua vida atrás de pistas que nos levassem a entender como ele foi possível, como pode acontecer tamanha monstruosidade. O mesmo questionamento pode-se dizer de Joe Fritzl – as pessoas jamais desconfiariam que um pai fizesse o que ele fez com uma filha, uma brutalidade, o mesmo se diria então do jovem Hitler se o analisássemos através de suas telas. É sabido pela história que a academia de belas artes de Viena recusou seus quadros e telas por considerarem suas peças insuficientes e de qualidade inferior aos rigores da grande arte e das academias. Porém hoje, sabe-se que suas obras possuem algum valor – foram a leilão algumas telas de sua autoria, valendo cerca de duas mil libras no total. Porém se analisarmos mais atentamente, não está só em questão o fato de ser uma tela de um dos principais personagens da história (para o bem ou para o mal), mas também há qualidade, média segundo Herbert Weidler, dono da Weidler Auction House, promotora do evento (o leilão). Realmente, as telas em questão mostram uma certa sensibilidade no autor, uma visão no mínimo sóbria do mundo, e principalmente num mundo em guerra – algumas dessas telas foram feitas entre as décadas de 10 e 20 do século XX. Os traços de Hitler são leves, porém firmes. Não se vê nos traços a força com que comandaria a Alemanha anos mais tarde, e muito menos o ódio que expressou pelas minorias que tanto lhe desagradava. A aquarela “Farmstead” de 1914, mostra um autor um tanto tradicionalista, pois não há diálogo com as vanguardas artísticas desse século (e dessa época), como a arte de Duchamp ou Mondrian. Pelo contrário, essa aquarela se parece mais com o trabalho de Turner e com ecos no fundo das paisagens de John Constable. Claro que não chega perto desses dois grandes mestres, mas não há como negar um mínimo de ressonância desses no jovem Hitler – provavelmente inconsciente (ou não – sabe-se sobre seu apreço pelas artes). Outra aquarela do jovem Hitler mostra um homem sentado em uma ponte, o quadro é belo e simples, pintado em cores leves, passa uma sensação de paz e tranqüilidade. O especialista em documentos históricos da empresa Mullock´s, Richard Westwood-Brookes, disse: “as pessoas esperam que suas pinturas reflitam imagens agressivas, temas militares, batalhas e gente sendo assassinada, mas não há nada em sua produção que sugira isso”[8], ou seja, se alguém que nascer hoje e não souber da história do autor e for desafiado a imaginar o que alguém que pintou tais telas fez nos seus anos seguintes, provavelmente a resposta não será tornou-se um ditador e comandante de uma das maiores tragédias de todos os tempos – o holocausto. Talvez se fossemos aproximar Hitler de algum artista, olhando pela ótica do que ele fez e do reflexo disso em sua obra – Francis Bacon seria o mais apropriado. Como o mal pode ter sido sensível? Como um artista pode se tornar um megalomaníaco comandante de uma tragédia como o holocausto? Como ele pode se tornar tão perverso, sendo que seus trabalhos artísticos nada revelam sobre essa sua faceta, como disse Westwood-Brookes? Isso nos mostra que o lobo na maioria das vezes vem em pele de cordeiro, e coisas aparentemente boas podem ser ruins na essência. A semente do mal pode ser cultivada sem que percebamos, portanto é necessário estarmos sempre atentos a tudo, ao mundo que nos cerca, as relações humanas, pois as vezes levamos inimigos para casa pensando serem nossos amigos, as vezes compramos gato por lebre e no final da história sempre ocorre algum malefício para quem não percebe o perigo iminente em atos, gestos e conjunturas sociais. Portanto fiquemos atentos aos desenhos de nossas crianças, vejamos o que querem dizer, pois as vezes por trás de rabiscos simples e tortos, estão traços de uma personalidade ruim e maléfica, e assim como não desconfiaríamos de um pintor com a sensibilidade de Hitler ou de letras de música evocativas do universo infantil, não desconfiaremos das crianças, mas veja nas páginas da infância a origem de todo mal.

 

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Notas.

[1] WARNER, Marina. Da Fera à Loira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p.255.

[2] O´GRADY, Joan. Satã, O príncipe das trevas. São Paulo: Mercuryo, 1991. p.55.

[3] Ibid.

[4] BRAGATTO, Marcos. Korn – Música nervosa para pessoas nervosas. Rock Press. Rio de Janeiro, Nº 04, p.25, abril. 2000.

[5] PLASSE, Marcel. Black Box Recorder. Showbizz. São Paulo, Nº 05, Edição 190, p.12, maio. 2001.

[6] ALVAREZ, A. O Deus selvagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1999. p.115.

[7] PLASSE, Marcel. Idem.

[8] Quadros pintados por Hitler são leiloados no Reino Unido. O Estado de São Paulo, São Paulo, 23 de abril. 2009. Caderno 2/Variedades.

 

 

 

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Quem tem medo de Simone de Beauvoir?

Recentemente, tenho lido e ouvido muitos julgamentos, de teor e tom questionáveis, a Simone de Beauvoir. E essas acusações suscitam uma pergunta: por que sua figura e seu pensamento incomodam tanto? Sua bissexualidade, vários e várias amantes, a recusa do casamento e da maternidade, a liberdade e independência em um mundo cada vez mais conservador poderiam ser uma resposta. Mas a considero simplista e insatisfatória.

Simone de Beauvoir nasceu há 113 anos. Suas obras mais influentes foram escritas entre os anos 1940 e meados dos anos 1970. O Segundo Sexo, seu livro mais importante, foi publicado em 1949. Lá se vão mais de 60 anos. Mas tantas décadas parecem não ter sido suficientes para que sua obra fosse compreendida e criticada com propriedade. Ainda hoje, muitas pessoas se recusam a ler Simone de Beauvoir porque ela era “uma libertina”. E repetem-se afirmações forjadas para atribuir a ela tudo aquilo contra o que ela lutou no plano das ideias e no plano da ação. Acusam-na de submissão, de dependência, de pregar o feminismo para as outras mulheres e não praticá-lo.
 
Essa resistência a Simone de Beauvoir esbarra em questões mais profundas sobre nossa sociedade: a condição da mulher, especificamente a mulher intelectual; a relação entre a experiência vivida e a escrita da memória com a subjetividade; as expectativas que recaem sobre os intelectuais. Tentarei abordar brevemente, e de forma não sistemática, alguns desses temas tendo como referência a figura de Simone de Beauvoir.

Experiência vivida, matéria-prima do pensamento

A grande maioria dos julgamentos feitos a Simone de Beauvoir, acredito, baseia-se em erro primário para qualquer reflexão: desconsiderar o fato banal de que intelectuais vivem. Ou seja, toda vida, inclusive a de uma pensadora, é um emaranhado complexo de descobertas, conquistas, falhas, inseguranças, afirmações, sofrimentos, retrocessos, sucessos. E é em meio a essa complexidade que seu pensamento e sua ação no mundo se desenvolvem, obviamente transformando-se. É, portanto, pouco racional deixar de considerar que, aos 20 anos, aquela pessoa, como qualquer um de nós, ainda não tem o terreno de todo seu pensamento arado e cultivado. Como é pouco racional ignorar que esse trabalho exige esforço.

Assim, por exemplo, há quem queira invalidar o pensamento libertário e antissexista de Simone de Beauvoir baseado em sua relação com Sartre. Afirma-se que ela se submeteu a Sartre durante toda a vida e aceitou um modelo de relação que ele impôs. Isso é incorrer no erro mencionado. Então, vamos a alguns fatos sobre essa relação.

Simone de Beauvoir e Sartre tinham 20 e poucos anos quando firmaram um pacto que previa  um relacionamento aberto, cada um dos dois podendo envolver-se com outras pessoas. Quem propôs este pacto foi Sartre. E Simone de Beauvoir o aceitou. Logo depois, eles foram nomeados para lecionar em cidades diferentes da França. O que unia a ambos: o relacionamento sexual, amoroso, e uma afinidade intelectual que provavelmente nenhum de seus críticos ou seguidores jamais experimentou com alguém. A convivência entre ambos era, ao mesmo tempo, afetiva e  instigante. Desejavam estar próximos. Sartre propôs casamento a Simone. Ela recusou. (Muito antes de conhecê-lo, já estava decidida a não se casar e não se submeteu ao desejo dele ou à paixão.)
 
Simone de Beauvoir sempre desejou ser livre, algo que a vida em uma família burguesa empobrecida de Paris – origem que ela jamais negou – nunca lhe permitira. Liberdade de pensamento, que exercia em suas aulas a alunas do ensino médio (ela só deu aulas em universidades durante a guerra). Liberdade sexual, envolvendo-se em alguns relacionamentos pouco mais do que casuais com homens e mulheres. Liberdade intelectual, trabalhando em seus primeiros livros, que não foram finalizados.

Sartre, no início, chocou-se com a bissexualidade de Simone. Depois, se apaixonou por uma de suas amantes, Olga, e propôs, com veemência e insistência, um novo modelo de relacionamento, que eles chamavam “o trio”. Os três aceitaram. Foram jogados em uma situação em que precisaram rever seus preconceitos e moralismos burgueses, em um turbilhão emocional repleto de sofrimento, conflito, meias-verdades, raiva, inveja. O “trio”, ela relatou tanto em A Força da Idade como em A Convidada, foi um fracasso. Todos sofreram mais do que se divertiram, todos os limites de suas liberdades foram testados, em geral ferindo um dos três. Para dizer o mínimo: Sartre era rejeitado por Olga, que provocava ciúmes em Simone, que era invejada por Sartre por ser a preferida da garota. O terceiro elemento na relação, percebia Simone, instaurava inexoravelmente uma barreira extra à liberdade e ao desejo de cada um dos integrantes do “trio”. E todos sofriam, ora por si mesmos, ora por ver pessoas queridas sofrendo. A partir dali, Simone não integraria novos trios, negando-se a manter o arranjo. Os triângulos, tal qual no início do pacto, voltaram a existir, mas as relações a três, não.
 
Há quem entenda o sofrimento de Simone como submissão. Considero uma percepção muito estreita do que é uma experiência de vida. O sofrimento faz parte das relações humanas. Simone nunca se esquivou dessa angústia. Afinal, primeiro como uma amante da liberdade e, depois, como existencialista, ela sabia que a angústia é inevitável. E também sabia que há uma responsabilidade a ser assumida em relação a si mesmo e aos outros.

A única vez que Sartre propôs casamento a outra mulher, sua amante norte-americana, Simone se retirou do relacionamento. Não queria submeter-se novamente aos conflitos e insucessos do “trio”. Ele desistiu do casamento. O amor necessário entre ambos sempre superou os amores contingentes. E isso não é resultado de uma magia romântica e cheia de coraçõezinhos que surgia no ar todas as vezes que um dos dois estava efetivamente envolvido em outras relações. Foram escolhas conscientes e livres de ambos.

Dizem também que Simone não conheceu o prazer sexual com Sartre e que logo ele se desinteressou sexualmente dela. Duas verdades. O que não é verdade é assumir que ela se submeteu a isso como uma vítima. Simone teve vários e várias amantes e encontrou o prazer sexual em várias relações. Quando o desejo sexual de Sartre deixou de existir, ela determinou que não precisariam mais relacionar-se por mera formalidade. Com o escritor Nelson Algren, envolveu-se no amor romantizado e “tradicional” para sua época. Ele a pediu em casamento. Ela recusou. Muitos a condenam. Além de não estar disposta ao casamento e à maternidade – ele queria filhos –, Simone sabia que sua ligação, ainda que fosse apenas intelectual com Sartre, machucava Algren. Novamente, ela era confrontada com a fórmula do “trio”, em outro contexto. Melhor que cada um abraçasse sua liberdade.

Simone de Beauvoir escreveu milhares de páginas em romances, ensaios, memórias abordando esses e outros fatos. Considerada uma das maiores memorialistas do século 20, produziu quatro volumes bem recheados, nenhum deles com menos de 300 páginas. Somente quem ignora totalmente essa produção, ou quem tenha lido sem nada compreender, pode lançar críticas como as que reproduzo aqui.

Há poucos temas que ela não aborde em detalhes em suas memórias, um deles é o processo movido contra ela pelos pais de uma aluna com a qual se envolveu sexual e afetivamente. Nesses e em poucos outros casos, ela opta por não entrar em detalhes pelo simples fato de que as pessoas envolvidas estavam vivas no momento da publicação dos livros, o que poderia criar mais escândalos.

Em cada página das memórias, a honestidade de Simone é invejável. Ela reconhece, por exemplo, as críticas mal-informadas que ela (e Sartre) fizeram a Freud, os enganos que cometeram em algumas avaliações a respeito de personagens e colegas durante a guerra, o fato de que, durante muito tempo, ela e Sartre, embora lutando contra os ideais burgueses, se submeteram totalmente e sem sequer perceber ao estilo de vida que abominavam.

Simone de Beauvoir acreditava que a matéria-prima do intelectual, além da capacidade de compreender e criticar as teorias, é a própria experiência. É a partir daí, pensava, podemos construir nossa relação com o mundo, talhar nossa subjetividade e, assim, produzir uma obra relevante intelectualmente, capaz de abordar assuntos e aspectos ainda inéditos. Simone não se negava a experimentar nada novo ou diferente. Pagava um preço caro por isso: nos anos 1930, em que uma mulher desacompanhada nem sempre era aceita nem mesmo em um café, ela optava por estar só. A solidão era a chave de sua abertura para o mundo. Nos anos 1940, foi duramente criticada por suas obras, nos anos 1950, enxovalhada por O Segundo Sexo e cobrada por não ter “agarrado” o amor de Algren.

Uma intelectual no tempo

Outra crítica comum a Simone de Beauvoir é de que ela era feminista em seus livros, mas não era feminista em seu relacionamento com Sartre. Dizem que ela pregava o feminismo para outras mulheres e não o praticava.

Em suas memórias, Simone de Beauvoir afirma que jamais foi feminista e que O Segundo Sexo, publicado em 1949, nunca foi concebido como um livro feminista. Por isso, quem cobra dela uma postura feminista em todos os episódios de sua vida age de má-fé, tentando invalidar seu pensamento e suas ações de forma falaciosa. Simone de Beauvoir só se alinha ao feminismo nos anos 1970.

Portanto, dizer que ela pregava o feminismo para as outras mulheres e não o praticava é, no mínimo, sucumbir a um banal anacronismo. Não, ela não podia viver a juventude de acordo com algo que ela só reconheceu e valorizou na velhice. Sim, os intelectuais mudam e se transformam ao longo do tempo, e isso não invalida seu pensamento. Quando passou a participar de ações do movimento feminista, ela mesma disse que isso demonstrava que suas ideias haviam se enriquecido e aprimorado.

A mulher e as divindades intelectuais

As críticas inadequadas a Simone de Beauvoir, na minha opinião, mostram como ainda é difícil – para pessoas que cultivam o pensamento pouco aberto a ideias inovadoras, diferentes e sempre em transformação – aceitar o papel de uma mulher intelectual nos dias de hoje. A mulher é sempre o Outro, lembra Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo, o diferente. E o lugar do intelectual, nós sabemos, é o lugar do um, do poder, da dominação. Aceitar que uma mulher ocupe esse lugar implica superar um preconceito. A resistência ao reconhecimento do papel intelectual de uma pensadora é a expressão desse preconceito: só posso atribui-la ao sexismo que é, para dizer o mínimo, uma fraqueza intelectual em qualquer pessoa.

Entretanto, o julgamento que ataca Simone de Beauvoir não é apenas aquele forjado no sexismo. Há um outro substrato nas acusações levianas que enumerei aqui e em outras que não há espaço para detalhar. Esse substrato é a necessidade de fazer de intelectuais verdadeiros deuses, modelos de comportamento, pessoas infalíveis que têm soluções infalíveis e que não podem ser questionadas. Pessoas que sentem essa necessidade não estão em busca de ideias e propostas, muito menos de reflexão. Sua expectativa é de que os intelectuais lhes ofereçam fórmulas prontas. Se esses deuses falham – e os verdadeiros intelectuais sempre falham porque não são os donos da verdade nem das respostas certas, apenas pessoas honestamente dispostas a fazer perguntas – são invalidados, considerados ruins, incompetentes.

Há uma manobra ideológica e outra, inconsciente, por trás disso.

Todas as vezes que acusamos veementemente alguém de ser aquilo que é indesejável, ruim, incompetente, negativo, criamos uma imagem positiva de nós mesmos. Somos exatamente o oposto daquilo que acusamos o Outro. Mas Freud já nos ensinou que, em geral, aquilo de que acusamos o Outro é aquilo que não suportamos constatar em nós mesmos.

Simone e Sartre construíram um sistema de pensamento que enfatiza: todos somos livres e a liberdade nos confronta a cada segundo com a angústia de fazer escolhas e com o sofrimento de nos responsabilizarmos por elas. Esse é um pensamento radical que implica, a quem adotá-lo honestamente, viver na insegurança, na incerteza e em constante contato com sua própria falibilidade e a ambiguidade.

Acredito que essa é a principal causa a todas as críticas levianas feitas a Simone de Beauvoir (e a Sartre). Quando as pessoas se referem a ela (ou a ele) em termos como “rever o passado”, “desconstruir mitos”, “derrubar messias”, na verdade estão fazendo uso de termos ideológicos. Buscam desqualificar o pensamento libertário, radical, transformador que, por definição, se constrói com base na exploração de visões de mundo, atitudes e comportamentos fora dos padrões e na diversidade de ideias e de ação. Nesse sentido, criticar Simone de Beauvoir (e Sartre) é muito mais construir empecilhos para que os intelectuais de hoje se inspirem ou busquem referências em suas ideias e possam pensar algo novo e tão transformador como eles pensaram em suas épocas.

Quem resiste a pensadores como Simone de Beauvoir e Sartre teme que alguém possa continuar a trilhar os caminhos que eles abriram. Teme palavras como liberdade, ambiguidade, imperfeição, descoberta, independência e, principalmente, responsabilidade e consciência. Teme o debate de ideias. Busca fórmulas que sustentem o status quo, o mainstream ou, para dizer de forma simples, “as coisas como elas estão”. Talvez possam encontrar algo assim em alguma religião. Jamais encontrarão isso em pensadores livres e, felizmente, imperfeitos.

Combater a homofobia e defender os direitos dos homossexuais: um desafio para o Brasil

Com as várias notícias recentes de violência contra homossexuais, ficou patente que a homofobia é um problema sério no Brasil.

Isso fica ainda muito mais grave se pensarmos que o poder público vem se omitindo gravemente em relação à questão. Existe um projeto de lei já aprovado na Câmara dos Deputados. O projeto surgiu por iniciativa da deputada Iara Bernardi, do PT-SP, em 2001, durante seu primeiro mandato na casa. As informações sobre a tramitação no site da Câmara indicam que o projeto levou 5 anos para ser aprovado, sendo remetido ao Senado Federal em 2006.

Este é o teor do projeto que saiu da Câmara para o Senado (abre página de download do pdf).

Basicamente o projeto altera o teor do Código Penal e da CLT no assunto sobre punição à discriminação, incluindo o assunto “discriminação por gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero”, junto às questões já tratadas na lei com respeito a discriminação por “raça, cor, etnia, religião, procedência nacional”.

No Senado, o projeto encontra-se atualmente tramitando nas comissões de Assuntos Sociais, Direitos Humanos e Legislação Participativa, e Constituição Justiça e Cidadania. Veja aqui a página de tramitação do projeto.

Nesse meio tempo, o projeto sofreu pressão de líderes religiosos no período eleitoral, misturando demagogia e má-fé, confundindo o eleitor e usando indevidamente o nome de Deus para defender interesses escusos, como bem demonstrei à época em artigo sobre o vídeo do Pastor Pascoal Piragine, da Primeira Igreja Batista de Curitiba.

Não bastasse a demora e as disputas em torno da discussão dessa legislação, a coisa foi complicando à medida em que a Câmara Municipal de São Paulo decidiu polemizar propondo a aprovação de um “dia do orgulho Heterossexual”, projeto de autoria do vereador Carlos Apolinário (DEM). É uma coisa que, de tão ridícula, sequer mereceria comentário. Entretanto, podemos perceber que deixar isso pra lá pode ser perigoso, à medida em que a desinformação das pessoas pode ser usada como arma na disputa política. Daí a importância do texto que escreveu o Ulisses Adirt à época, ou os esclarecimentos de Lola Aronovich, ou ainda a militância de uma advogada lésbica de Belo Horizonte que escreve sob o nick name de Inquietudine.

Nesse meio tempo, enquanto Câmara e Senado arrastam o máximo possível a aprovação de matéria fundamental, enquanto pastores fazem demagogia política, enquanto vereadores tentam defender os coitadinhos dos héteros “perseguidos” pela “ameaça gay”, ao menos o STF vai criando jurisprudência quando provocado, como foi o caso que já celebrei aqui neste editorial. Quando consultado pela Procuradoria Geral da República, nosso tribunal maior definiu que os direitos da união estável são extensivos aos homossexuais.

Outra iniciativa muito importante em tratar da questão veio com uma série de textos no Coletivo Amálgama, num trabalho editorial do Fabiano Camilo, colega aqui nos editoriais e com blog no OPS, além do editor do Amálgama, Daniel Lopes, que também tem blog no OPS. A série completa tem seis artigos, que merecem ser lidos com atenção:

As entranhas da homofobia

Texto no qual Bia Cardoso coloca a questão da dominação masculina e das hierarquias de gênero como ponto principal e gerar a violência contra mulheres e contra homossexuais. Veja um trecho:

Aos “verdadeiros” homens, aqueles que mostram em tudo e sobretudo uma imagem e comportamentos considerados viris, são dados os privilégios da honra, do poder, da colocação das mulheres ou de homossexuais efeminados à disposição doméstica e sexual. Além do direito a realizar agressões e violências.

Casamento e homofobia

Texto do jurista Pádua Fernandes, analisando a teoria jurídica (ou falta dela) que serve de base à manutenção da exclusividade do casamento para heterossexuais. Um trecho:

Em países teocráticos, esse instituto simplesmente não existe. Porém, nos países que desenvolveram essa importante conquista para a pluralidade, o casamento civil, os argumentos para mantê-lo como privilégio de casais de sexo diferente encontram dificuldade de esconder sua origem em preconceitos religiosos – e, portanto, contrários ao espírito do direito de uma sociedade em que Estado e religião estão separados.

Homofobia e transexualidade

Marcelo Caetano e Xênia Mello discorrem sobre a complexidade das identidades de gênero e sobre as dificuldades encontradas por quem constrói uma identidade na contramão das identidades hegemônicas.

Porque os cristãos devem defender os direitos dos homossexuais

Texto meu, tentando explicar porque a intolerância contra os homossexuais não encontra fundamento na teologia cristã, sendo um preconceito que deveria ser combatido e não incentivado pelas igrejas.

Homofobia e universo “psi”

Texto do Ricardo Cabral com uma profunda análise das discussões técnicas sobre homofobia no universo da psicologia, onde o termo surgiu, mas encontra problemas e limitações conceituais nada desprezíveis.Veja este interessante trecho comentando sobre a retirada da homossexualidade dos manuais de doenças e distúrbios das áreas de medicina e psicologia (coisa dos últimos 10 a 30 anos):

Em função desses eventos, o atual discurso da psiquiatria, da psicologia e da psicanálise até que anda afinado, embora infelizmente ainda seja comum encontrar profissionais dessas áreas com posturas patologizantes, o que só confirma o longo caminho a percorrer até o universo “psi” se tornar um bom representante da sociedade mais equânime e justa que precisamos.

Para resumir a história, está ficando claro que a homossexualidade não é doença, a aversão à diversidade de comportamentos sexuais que é. Embora não deva ser tratada apenas como problema individual, mas como uma chaga social, cultural, coletiva.

Este artigo também traz bibliografia, o que é muito útil a quem quiser pesquisar com mais profundidade.

Dominação masculina, homofobia e afetos mutilados

Texto do Fabiano Camilo, citando casos de violência recente em que heterossexuais foram vítimas de atentados violentos por terem sido presumidos como homossexuais, e chamando a atenção para a complexidade do assunto violência contra homossexuais. Corremos o risco de nos tornarmos reféns da pauta da grande mídia, uma vez que o aumento do noticiário vem chamando a atenção para estes casos. Trecho:

Como nossa atenção é atraída não tanto por dados estatísticos de instituições oficiais e órgãos não-governamentais, mas pelos relatos jornalísticos, quando o interesse midiático diminuir, poderemos correr o risco de concluir, erroneamente, que houve uma diminuição da violência.

Numa gigantesca “saída do armário”, para o autor, o aumento da visibilidade da comunidade LGBT em décadas recentes tem provocado reações cada vez mais violentas dos defensores da heteronormatividade.

 

Por uma educação sem hipocrisia

Escrevi hoje, no Faça a sua parte, um post onde questiono a validade do esforço que fazemos para “mudar” o comportamento dos adultos em relação ao meio ambiente. Digo lá, que “Tentar convencer os atuais adultos a mudar é, como se diz aqui no RS, gastar pólvora em chimango. É ser um Dom Quixote ambiental.”.  Concluo que “enquanto nos mantivermos incapazes de formular e aplicar uma nova educação, continuaremos a gastar pólvora em chimango. Conservação do meio ambiente é consequência, não deveria ser a causa da luta. A causa deve ser a educação.”

Pois bem, agora vejo a seguinte notícia: “Frente Parlamentar que combate violência contra a mulher quer mudar cultura machista do RS” (aqui). Lá pelas tantas, o promotor de Justiça, membro da frente, diz: “Temos a ideia equivocada de que a violência doméstica é um problema das mulheres. Nunca vamos terminar com essa chaga se não conversarmos com as famílias, que formam meninos agressivos e meninas submissas.”

Precisamos, e com urgência, é de uma nova educação. Discute-se muito o ensino, sua qualidade, o ENEM e o escambau, mas pouco tenho visto sobre o modelo de educação que se quer. O que temos é a edeucação a que se refere o promotor de Justiça. Uma educação cujo “norte” é destrutivo, consumista, individualista e por aí vai.

Parodiando o promotor, são as famílias que criam corruptos agressivos e sociedade submissa; que cria homofóbicos agressivos e sociedade submissa; que cria verdadeiros assassinos ao volante de um automóvel e autoridades submissas, inertes.

Está mais do que na hora de dar um basta a essa educação hipócrita. Serei louco ao generalisar, mas jamais sairemos do buraco onde estamos se não investirmos em estabelecer um novo modelo de educação. E o momento é agora. Agora que estamos, mesmo que vagarosamente, formando uma identidade. Que o digam os movimentos que afloram país afora, questionando posturas conservadoras originadas nesse modelo hipócrita de educação.

E esses mesmos movimentos devem extrapolar suas causas íntimas e verem que, na realidade, estão formando um novo modelo de educação. Está faltando apenas um movimento para desenvolver um novo modelo de educação para a sociedade, para as famílias. E que possa ser aplicado às crianças de hoje.

Pois de nada adiantará querer preservar o mundo para as gerações futuras se as estou educando como sou. Elas apenas terminarão o que comecei.

Sociedade do conhecimento e economia criativa

A sociedade capitalista (do desenvolvimento econômico a qualquer custo) tem como base a obtenção de lucro por meio da produção contínua e crescente de bens e serviços úteis ou supérfluos. Para incentivar o consumismo desenfreado, o capitalismo montou toda uma máquina de propaganda, não só através da mídia escrita, falada e televisionada, mas também nos outdoors, placas de loja em loja e de bar em bar e até na Internet.

Em uma situação de crescimento populacional, esta máquina de propaganda e consumo fez crescer o PIB do planeta e agora o mundo tem uma pegada ecológica que é 50% maior do que a capacidade que a Terra tem de se recuperar e renovar seus recursos. No ritmo atual, projeta-se que precisaremos de dois planetas para garantir os consumo da humanidade em 2030. O atual modelo é insustentável. Como então garantir a sobrevivência da biosfera (incluindo o ser humano e toda a biodiversidade terrestre)?

Alguns dizem “O mundo tem gente demais” e propõem diminuir a população. Outros dizem “O mundo tem consumo demais” e propõem diminuir o consumo. Há também os que querem diminuir a população e o consumo ao mesmo tempo. Existem ainda aqueles que denunciam as desigualdades e querem uma melhor distribuição da “riqueza”.

Contudo, distribuir simplesmente o consumo não resolve o problema da sustentabilidade ambiental, porque o consumo médio dos habitantes do mundo está acima da capacidade de carga do planeta. Uma coisa é certa: mantendo o atual padrão de produção e de consumo, a humanidade caminha para o suicídio e o ecocídio.

O que fazer então? Existem alternativas?

Serge Latouche, por exemplo, defende a idéia do “decrescimento sustentável”, pois acredita que mesmo a idéia do “desenvolvimento sustentável” é inviável. Ele defende uma vida mais simples, com menor consumo por pessoa e uma sociedade que respeite os limites dos recursos naturais. Ele propõe um ciclo virtuoso de decrescimento, por meio dos seguintes conceitos: reavaliar, reconceitualizar, reestruturar, redistribuir, relocalizar, reutilizar e reciclar.

Autores como Herman Daly e Manfred Max-Neef defendem a idéia da “condição estável” (retomando um antigo conceito econômico do “estado estacionário) e combatem o chamado “crescimento deseconômico”, que é o aumento na produção que provoca um custo em recursos e em bem-estar maior do que o dos itens produzidos.

Sem dúvida, estas idéias que questionam o crescimento ecologicamente insustentável são importantes para se pensar em alternativas ao modelo econômico consumista da atualidade. Reduzir a pegada ecológica do ser humano é uma necessidade inadiável.

Porém, paralelamente à redução do consumo conspícuo e supérfluo e à diminuição das atividades econômica que danificam e poluem o Planeta, pode haver o crescimento de atividades que sejam ecologicamente neutras ou sustentáveis. Refiro-me às atividades culturais, científicas, afetivas e de conhecimento que não são baseadas no consumo material, mas sim na produção intangível e imaterial do conhecimento.

A “sociedade do conhecimento” é uma alternativa à “sociedade do consumo” na medida em que a essência do seu modo de funcionamento tem como base a “massa cinzenta” (cérebro) e não requer fronteiras delimitadas pela propriedade privada local e pelos nacionalismos, já que é uma sociedade desterritorializada. A arte e a sociedade criativa podem cresce sem danificar o meio ambiente.

Para que seja realmente sustentável esta sociedade pós-desenvolvimentista requer a democratização e o livre acesso à informação e ao saber. A inteligência é ilimitada, assim como ilimitado pode ser o seu uso. A sociedade do conhecimento não está sujeita às “leis dos rendimentos decrescentes”. Portanto, o livre conhecimento não restringe e nem é restringido pelos “limites terrenos do crescimento”.

As atividades do livre pensar e o exercício do conhecimento não tem limites e podem crescer de maneira ecologicamente sustentável. A economia criativa, que tem como matéria-prima o intelecto, vai se sustentar no combustível da contribuição voluntária e no prazer de realizar coisas novas e reinventar constantemente o mundo em que vivemos.

 

Economia, população e meio ambiente no “Estado Estacionário”

Os economistas clássicos sabiam que a economia e a população não poderia crescer infinitamente em um Planeta finito. A chamada “lei dos rendimentos decrecentes” não deixa de ser um reconhecimento aos limites da Terra. O progresso técnico pode apenas adiar o decrescimento dos rendimentos marginais do capital, da terra e do trabalho.

Mas, a despeito dos inúmeros alertas da natureza, as atividades humanas cresceram até um ponto que ultrapassaram a capacidade de regeneração do Planeta, conforme mostram os dados da pegada ecológica. Em 2011, o mundo está utilizando cerca de 50% a mais dos recursos compatíveis com a sustentabilidade da Terra. Atualmente, ao invés do crescimento a qualquer custo para enfrentar a crise financeira, a humanidade precisa promover urgentemente um decrescimento daquelas atividades mais agressoras ao meio ambiente, se quiser ampliar seus horizontes de sobrevivência.

A economia é uma ciência em constante evolução. Adam Smith (1723-1790), figura proeminente da fundação da economia moderna, sabia dos limites do crescimento. Mas em seu famoso livro “A riqueza das Nações”, escrito em 1776 – quando a população mundial era muito pobre e contava com menos de 1 bilhão de habitantes – sua preocupação era combater as idéias metalistas do mercantilismo, mostrar que a riqueza de um país depende do valor do trabalho do seu povo e que o desenvolvimento das forças produtivas era fundamental para a redução da pobreza e a melhoria do bem-estar geral.

Dentre os autores clássicos, um economista importante para mostrar os limites do crescimento foi John Stuart Mill (1806-1873), discípulo de Adam Smith e David Ricardo (1772-1823), que escreveu o livro “Princípios de Economia Politica”, em 1848. No capítulo VI, do livro IV, que tem como título: “A condição estacionária”, ele considera que o crescimento ilimitado do Produto Interno Bruto (PIB) e da população é uma impossibilidade histórica e que o “Estado estacionário” irá predominar, mais cedo ou mais tarde no mundo.

Lembremos que Stuart Mill escreveu em meados do século XIX, quanto a população mundial era de 1,4 bilhão de habitantes. O PIB mundial, em 1850, segundo cálculos de Angus Maddison, era 56 vezes menor do que o PIB de 2010. Segundo dados do FMI, o PIB mundial em 2010 (em dólares correntes) foi de 63 trilhões de dólares, para uma populaçao de 6,9 bilhões de habitantes. Assim, a preços de 2010, o PIB mundial era de 1,14 trilhão de dólares, em 1850. Portanto, a renda per capita mundial (a preços constantes) passou de 812 dólares, em 1850, para 9,1 mil dólares em 2010, um crescimento de 11 vezes no poder médio de consumo da população mundial.

Ou seja, mesmo numa época de baixo impacto da economia sobre o meio ambiente, Stuart Mill já falava em “condição estacionária”. Evidentemente, não cabia ao autor falar em decrescimento econômico naquela época. Mas o economista inglês tinha consciência dos limites do crescimento.

Em seu livro, Stuart Mill inicia o capítulo sobre “A Condição Estacionária” (a tradução em português é da editora Abril, 1983) perguntando sobre o estado da humanidade e deixando claro que o fim do crescimento da economia e da população (ou dito de outra forma, o fim do progresso material) seria uma questão de tempo:

Para que ponto último está tendendo a sociedade, com seu progresso industrial? Quando o progresso cessar, em que condição podemos esperar que ele deixará a humanidade? Os economistas políticos sempre devem ter visto, com clareza maior ou menor, que o aumento da riqueza não é ilimitado; que ao final daquilo que denominamos condição progressista está a condição estacionária, que todo aumento de riqueza é apenas um adiamento dessa última condição, e que cada passo para a frente é um aproximar-se dela” (p.251).

Para Stuart Mill, o progresso não é ilimitado, porém seus limites não são fixos, mas móveis, pelo menos enquanto existir regiões não exploradas no mundo. Os limites da naturais de um país já densamente povoado poderiam ser ampliados via progresso técnico ou com o “transbordamento” da produção para países menos povoados:

Os países mais ricos e mais prósperos muito cedo atingiriam a condição estacionária, se não introduzissem mais aperfeiçoamentos das técnicas produtiva, e se houvesse suspensão do processo de transbordamento do capital desses países para as regiões da Terra não cultivadas ou mal cultivadas” (p. 251).

Mas, da mesma forma que o Planeta tem um limite, o crescimento econômico também tem o seu limite. Por isto o “Estado Progressivo” desembocaria no “Estado Estacionário”. Assim, além de prever que a economia irá, algum dia, parar de crescer, Stuart Mill, considera positivo o fim do crescimento quantitativo e critica a competicão econômica desenfreada:

Estou propenso a crer que essa condição estacionária seria, no conjunto, uma enorme melhoria da nossa condição atual. Confesso que não me encanta o ideal de vida defendido por aqueles que pensam que o estado normal dos seres humanos é aquele de sempre lutar para progredir do ponto de vista econômico, que pensam que o atropelar e pisar os outros, o dar cotoveladas, eu uma andar sempre ao encalço do outro (características da vida social de hoje) são o destino mais desejável da espécie humana, quando na realidade não são outra coisa senão os sintomas desagradáveis de uma das fases do progresso industrial ” (p. 252).

A concepção ideal de sociedade para Stuart Mill envolvia uma melhor distribuição da renda e da propriedade e mais tempo para o lazer:

Podemos pensar, por exemplo (conforme sugestão apresentada em um capítulo anterior), em limitar a soma que qualquer pessoa pode adquirir por doação ou por herança ao montante suficiente para proporcionar uma autonomia razoável. Sob essa dupla influência, a sociedade apresentaria as seguintes características dominantes: um conjunto de trabalhadores bem remunerados e afluentes e inexistência de fortunas enormes, a não ser as que fossem ganhas e acumuladas durante uma única vida de existência; em contrapartida, um conjunto, muito maior do que atualmente, de pessoas não apenas livres das ocupações mais duras, mas também dispondo de lazer suficiente, tanto físico quanto mental, para se libertarem de detalhes mecânicos e poderem cultivar livremente os encantos da vida, e para darem exemplos disso às classes menos favorecidas para o cultivo desses valores. Essa condição da sociedade, tão altamente preferível à atual, não apenas é perfeitamente compatível com a condição estacionária, senão que, segundo parece, se coaduna com mais naturalidade com essa condição estacionária do que com qualquer outra” (p. 253).

De certa forma, antecipando-se a Escola de Frankfurt, Stuart Mill faz uma crítica à concepção de progresso material, entendido como um constante crescimento econômico para satisfazer os interesses antropocêntricos. Ele defende o espaço do meio ambiente (e da biodiversidade) da seguinte forma:

Por outro lado, não se sente muita satisfação em contemplar um mundo em que não sobrasse mais espaço para a atividade espontânea da Natureza;  um mundo em que se cultivasse cada rood (1/4 de acre) de terra capaz de produzir alimentos para os seres humanos, um mundo em que toda área agreste e florida, ou pastagem natural, fosse arada, um mundo em que todos os quadrúpedes ou aves não domesticados para o uso humano fossem exterminados como rivais do homem em busca de alimento, um mundo em que cada cerca-viva ou árvore supérflua fossem arrancadas, e raramente sobrasse um lugar onde pudesse crescer um arbusto ou uma flor selvagem, sem serem exterminados como erva daninha, em nome de uma agricultura aprimorada. Se a Terra tiver que perder a grande parte de amenidades que deve a coisas que o aumento ilimitado da riqueza e da população extirpariam dela, simplesmente para possibilitar à terra sustentar uma população maior, mas não uma população melhor ou mais feliz, espero sinceramente, por amor à posteridade, que a população se contente com permanecer estacionária, muito antes que a necessidade a obrigue a isso” (p. 254).

Portanto, numa linguagem atual, poderíamos dizer que Stuart Mill defendeu uma relação harmoniosa entre economia, população e meio ambiente, maior liberdade e autonomia das pessoas, além de combater a visão utilitarista na qual o ser humano tem o direito de ocupar todos os espaços do Planeta. Indubitavelmente, ele já  defendia, à sua maneira, o direito da biodiversidade.

Por fim, Stuart Mill explica que o “Estado Estacionário” não significa o fim da história. Ao contrário, ao controlar o crescimento extensivo da população e da economia, o ser humano estaria trocando o crescimento quantitativo pelo crescimento qualitativo. Vejamos as palavras finais do capítulo:

Dificilmente será necessário observar que uma condição estacionária do capital e da população não implica uma condição estacionária do aperfeiçoamento humano (…) Somente quando, além de instituições justas, o aumento quantitativo da humanidade for guiado de forma planejada pela previsão criteriosa, somente então as conquistas sobre as forças da Natureza conseguidas pelo intelecto e pela energia de pesquisadores científicos poderão transformar-se em propriedade comum da espécie humana, bem como em meio para melhorar e elevar a sorte de todos” (p. 254).

Não seriam estas palavras uma forma antecipada, em mais de 150 anos, de um modelo de desenvolvimento com uma população estabilizada, uma sociedade do conhecimento e uma economia verde, renovável, limpa e inclusiva, onde houvesse crescimento apenas em termos qualitativos e de forma harmônica com o meio ambiente?

11 de setembro e os EUA na guerra errada

Qual é a situação dos Estados Unidos da América (EUA) dez anos depois dos ataques de 11 de setembro de 2001? O mundo mudou? Quem venceu a guerra: EUA ou Al Qaeda?

Cresce a compreensão internacional de que tanto a Al Qaeda quanto os EUA saíram perdendo, pois a China foi a vencedora da competição internacional na primeira década do século XXI.

A Al Qaeda perdeu mesmo antes da morte de Bin Laden. A Primavera Árabe mostrou que o povo do Oriente Médio não deseja seguir os princípios do fundamentalismo muçulmano.

Mas os Estados Unidos também perderam, pois a resposta unilateral levou a duas guerras erradas (Afeganistão e Iraque). Só no Iraque, os EUA perderam mais americanos vítimas mortais dos conflitos do que o número de civis mortos na derrubada do World Trade Center (sem contar as vítimas civis no Afeganistão e no Iraque). Além dos custos humanos e do incentivo ao militarismo internacional, as duas guerras e as medidas de segurança foram responsáveis pela dragagem de cerca de 3 trilhões de dólares.

Esta quantia, para um país rico e líder destacado da comunidade mundial, poderia não parecer tão grande. Mas acontece que os EUA diminuiram de tamanho (em termos relativos) e enfrentam sérias dificuldades com seus enormes déficits (comercial e fiscal), sua enorme dívida pública, perda de competitividade econômica e suas deficiências em infra-estrutura e educação básica. Ou seja, os EUA lutaram a guerra errada e perderam o rumo na primeira década do século XXI. A guerra correta seria lutar pela melhoria da educação, da infra-estrutura e das relações antrópicas com o meio ambiente.

Os EUA vem perdendo espaço para a China, que nestes últimos dez anos, se dedicou ao crescimento acelerado, ao avanço da sua economia e na luta pela redução da pobreza.

De acordo com dados do FMI, o PIB americano (em poder de paridade de compra – ppp), em 2000, era de 10 trilhões de dólares, enquanto o PIB da China (em ppp) era de 3 trilhões de dólares. Portanto, na virada do milênio, a economia dos EUA era 3,3 vezes maior do que a chinesa. Mas, em 2011, o PIB dos EUA deve ficar em 15,2 trilhões de dólares, apenas 1,3 vezes maior do que o PIB da China, de 11,1 trilhões de dólares.

O FMI também projeta que a China será a maior economia do mundo (medida em ppp) já no ano 2016. Além de possuir a industria mais competitiva, a China acumula mais de 3 trilhões de dólares em reservas internacionais e é o maior credor financeiro dos Estados Unidos. A participação da China na economia mundial passou de 7,1%, em 2000, para 13,6%, em 2011, enquanto a participação dos EUA caiu de 24% para 19,3%, no mesmo período.

Além disto, os EUA possuem mais de 14 milhões de pessoas desempregadas e as perspectivas não são boas para os próximos anos. Vários economistas consideram alta a probabilidade de uma nova recessão econômica. O sonho americano está se transformando no pesadelo da mobilidade social descendente para as novas gerações. Pesadelo também em termos de aquecimento global e de degradação ambiental.

O mundo mudou neste início do século XXI e a China, a Índia e os países em desenvolvimento estão reconfigurando a economia internacional. Existe um processo de convergência e de redução das diferenças entre os países ricos e pobres.

Ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam atolados nos conflitos insolúveis do Afeganistão, do Iraque e, recentemente, da Líbia. Internamente, os partidos políticos estão se esforçando para mostrar que a democracia americana é uma ilusão, pois quem dá as cartas é o poder econômico que busca defender os seus interesses egoísticos e não se importa com o acelerado processo de aprofundamento das desigualdades sociais. A democracia americana está ficando “desfuncional”, em decorrência da radicalização política. A correção de rumo torna-se impraticável com o partido Republicano controlando a Câmara de Deputados e o partido Democrata controlando o Senado e a Casa Branca.

Enfim, o 11 de setembro realmente mudou o mundo. E, no novo cenário internacional, os EUA ficaram menores e com menos atrativos econômicos e políticcos. Se, em diversos momentos do passado, foram referência positiva para outros povos, atualmente, os EUA são um modelo a ser evitado.