Lula e o SUS. Ou, não se é presidente por acaso!

Construímos uma civilização que achou por bem diferenciar certas atividades. Dentre elas, as atividades desenvolvidas por “líderes”. A civilização também desenvolveu o conceito de que à liderança cabia um conjunto de valores diferenciado, não necessariamente pelas qualidades pessoais de quem exerce a liderança, mas pelo entendimento básico de que necessitamos dessa liderança. Se somarmos a essa necessidade a capacidade pessoal do líder, ótimo.

A presidência de um país é um caso. Atribuimos valor de liderança a esse conjunto de atividades e a ele associamos valores diferenciados. Por outro lado, não se é presidente por acaso. É preciso demonstrar a posse de valores no mímino correspondentes ao conjunto diferenciado que a sociedade elegeu como sendo valores de um líder.

Uma vez adotados, esses valores tornam-se tácitos, crescemos com eles da mesma forma como crescemos com o valor da higiene, por exemplo. E aqui há algo, também tácito, aparentemente esquecido por tantos quantos levantam a questão do tratamento do Lula: todos, tenham votado nele ou não, concordam que o conjunto de valores associado a um presidente ou ex-presidente é um conjunto de valores diferente do nosso.

E não é porque seja o Lula. Valereia até para o Collor, houvesse ele se mantido… Guardamos em nós a máxima de que “uma vez rei, sempre majestade”. Não há diferenciação entre presidente e ex-presidente.

Dentre os inúmeros valores eleitos – para, e atribuídos à liderança – um dos mais caros é a segurança. Não sei se digo milhões, ou bilhões, mas muito dinheiro é gasto no mundo todo para garantir a segurança dos líderes, em especial dos presidentes (e similares no gênero). E falar em segurança é falar em saúde.

A saúde é o bem maior que um ser humano tem e pode/deve preservar. E é também o bem maior a que a sociedade deve lutar para ter.  Mas daí a querer que o valor líder, por nós eleito como um valor diferenciado, tenha o mesmo tratamento que temos, é muita hipocrisia. Assinamos um contrato com essa cláusula. Rompê-lo é mais do que fazer uma revolução. É trair os valores em que assentamos nossa sociedade. Valores que. lembrando, são do líder, não do Lula, do FHC ou de quem quer que seja que ocupe o cargo.

Não se é presidente por acaso. Tendo votado ou não, num ou noutro, alguém só é presidente (e ex) pela competência de ter demonstrado comunhão dos valores pessoais com os valores que a maioria adota como valores de um líder. E não podemos jogar nossos valores fora como se descartáveis fossem.

O SUS é um desses valores. Há que corrigir caminhos? Sim! Mas não pela exigência de que um ex-presidente se trate por ele. E bem poderia, pois no caso o SUS é referência.

Só me resta agradecer ao Lula, mesmo que por um motivo triste, que tenha nos dado mais essa oportunidade: a oportunidade de que as pessoas mostrem seu mais alto grau de hipocrisia: a hipocrisia de quem sequer dignidade humana tem. E também de ver muita gente com dignidade, mesmo não sendo partidário.

#ForçaLula

Vida (nossa), esta tão “assenhada”.

 alt

Vida (nossa), esta tão “assenhada”. Brevíssimos comentários acerca de alguns elementos das sociedades de controle.

Nossa vida está cada dia mais “assenhada”. Parece até não ser nossa esta vida que só pode ser acessada, a cada instante, a partir de uma (ou várias) senha(s). Das senhas, precisamos delas para acessar bancos, comunidades digitais, escolas, hospitais e porque não, nossa própria casa. – Não entro em minha casa sem antes inserir algo em torno de sete dígitos numa combinação de alfanuméricos em uma maquineta e seus gadgets miraculosos. No dia em que por acaso eu não me lembrar de todas estas senhas terei que dormir na rua. – E isto só vem a se acentuar, na medida em que a ênfase no corpo parece sair de cena (ou se transformar), e a nossa alma passa a ser controlada pelo uso imoderado de senhas. Lembro-me neste momento de passagens em “Post-scriptum sobre as sociedades de controle”, texto visionário, escrito por Deleuze em uma espécie de resposta a Foucault.
Nas sociedades disciplinares, conforme importante análise de Foucault, tudo incidia sobre o corpo – a ser confinado, docilizado, adestrado, higienizado… por fim, disciplinado, e o modelo de centro penitenciário criado por Jeremy Bentham, denominado Panóptico, literalmente “fez escola”, ao inspirar a construção desde o século XVIII de edificações e práticas, que serviram a hospitais, manicômios, igrejas, fábricas e também a escolas. Ainda vemos nos dias de hoje edificações que apresentam as características do Panóptico, que consiste no seu modelo inicial, em uma grande torre de vigilância no centro, cercada por celas ao redor. Quem está dentro das celas tem a constante sensação de estar sendo vigiado por algo ou alguém do alto da torre central, mesmo se não for possível de se assegurar da presença de algo ou alguém a vigiar. E esta sensação, promovida por uma suposição de vigilância centralizada, exerce uma força disciplinadora sobre o corpo, que passa a se moldar ao que, mesmo instintivamente, parece ser mais adequado para escapar de possíveis punições baseadas no olhar atento do vigia. Dispositivos externos ao corpo, funcionando como uma espécie de molde a limitar o que pode um corpo. O modelo prisional, suas práticas e moldes a nos indicar os balizamentos para um corpo. Corpo individual, que desde sua inserção na família, passando à escola, à fábrica, à igreja, de vez em quando ao hospital ou manicômio, podendo ir ao exército ou à prisão, sai de um espaço de confinamento para entrar em outro, sucessivamente, tal como a toupeira e sua relação com a toca. Muito rica a analogia que Deleuze faz ao que ele chamou de o animal das sociedades disciplinares: a toupeira. Animalzinho que não costuma enxergar bem, e que cava a sua própria toca, cuja espessura e profundidade funcionam como um dispositivo externo a disciplinar os movimentos de seu próprio corpo. E sair da cela, digo da toca, para a toupeira, é uma questão de vida ou morte, pois sempre pode haver um predador à espreita, no alto de uma grande torre panóptica central (mesmo que imaginária).
Se Foucault utilizou o modelo Panóptico de Bentham para reforçar a noção de disciplina, Deleuze escolheu trabalhar com outro indicador, a noção paranóica de controle, inspirado em William S. Burroughs, para nos apresentar às sociedades de controle, que irrompem século XX afora. O controle adota uma estratégia, que segundo Deleuze, tende a ser um tanto mais perversa do que a adotada pela disciplina, pois opera sinopticamente, através de um tipo de vigilância descentralizada, fragmentada, quase imperceptível, capaz de monitorar a um só lance de vista as diversas partes de um conjunto.  É como se cada um de nós e os dispositivos que criamos funcionassem como uma célula de controle, como somos muitos, multiplicam-se unidades de controle. Ao invés de uma torre central, o controle se desprega, se descentraliza, perdemos a sua referência, pois ele pode operar de qualquer parte e/ou em lugar nenhum, nos dando até a falsa e eventual sensação de que estamos livres. Deleuze apresenta a serpente como o animal das sociedades de controle, pois este animalzinho, que na grande maioria de suas espécies, também costuma não enxergar bem, passeia a céu aberto, quase sem medo de predadores, sem notar que ao se movimentar, suas velocidades e lentidões são modulados pelos anéis que quase invisíveis recobrem o seu corpo. A serpente carrega consigo, toda orgulhosa, seus anéis de controle. Se a disciplina molda o corpo, o controle modula nossas velocidades e lentidões.
No cenário das sociedades de controle os espaços de confinamento dão lugar a convergências inusitadas, virtualizações radicais e desterritorializações absolutas. As fronteiras entre empresa, casa, igreja, escola se tornam irrelevantes. Você não precisa estar confinado em uma sala de aula, um lugar específico, para aprender, é possível fazê-lo na empresa; você não precisa estar confinado em uma estação de trabalho para produzir, pode fazê-lo em sua casa. Não é a escola que ensina ao mercado, mas este que ensigna, “dá ordens” à escola, apresentando as demandas e conteúdos que merecem estudo e passam a ter relevância. É quando, por exemplo, a fábrica dá lugar à empresa, que por sua vez se torna uma corporação, que se distribui mundo afora, em formato transnacional-multinacional. A linha de produção está numa parte do globo, a montagem n’outra e a entrega dos produtos pode acontecer em qualquer lugar. Caso você esteja insatisfeito, ligue para um número de telefone e converse com uma gravação, isso após digitar senhas intermináveis. As prisões dão lugar a cada vez mais penas substitutivas que através do uso das coleiras digitais, colocam nas ruas prisioneiros fora dos espaços de confinamento dos presídios, em “ressocialização”, a dividirem as mesmas esquinas com indivíduos (supostos cidadãos de bem) que com seus smartphones e iPhones, são também monitorados a céu aberto pelas mesmas tecnologias GPS. Prisioneiros e supostos cidadãos de bem, ligeiramente separados apenas por definições de status social, mas unidos por uma mesma tecnologia, em defesa da sociedade.
Cada tempo surge com suas máquinas e seus problemas, e as maquinetas de hoje e do por vir se conectam a uma infinidade de gadgets sempre miraculosos a encher os nossos olhos de brilho, da luz que emana das telas de touch-screen. Antes, ficávamos cheios de dedos, no sentido de um excessivo cuidado de não sujar a tela de nossas maquinetas vistosas, hoje, você pode tocar a tela a vontade, e haja vontades, sempre aguçadas pelas mágicas de aplicativos que nos parecem necessários, mesmo que depois  de alguns minutos até venhamos a nos esquecer que eles existem.
Podemos estar aqui, acolá e em lugar nenhum, em uma espécie de “estar presente sem estar lá”, conforme apontamentos de Virilio, pois o que importa não é o corpo físico, mas suas velocidades e lentidões. E onde quer que venhamos a estar, nossos movimentos, velocidades e lentidões, são monitorados e modulados por uma espécie de controle a céu aberto. Não importa que haja um corpo e de quem quer que este corpo seja, se a disciplina funciona melhor sobre o indivíduo, indiviso, menor recorte de um social, Deleuze nos sugere o fenômeno da “dividualização”, em que é possível dividir cada indivíduo em porções, cada vez mais fragmentadas. Passamos a ser distribuídos por códigos de mais ou menos valia, cifrados em senhas, que nos transformam em meros dados informacionais.  Um corpo cai em frente ao balcão e atendimento de um hospital, antes de se abrir um prontuário para a internação, pede-se a prontidão de uma senha que faça jorrar fluxos pecuniários para bancar o pronto-atendimento. – O corpo passa a ser secundário, importam mais os dados primários de seu número de cartão de crédito e sua movimentação, seus traços digitais tal como pegadas no deserto da autoestrada informacional que chamamos Internet. Em um cenário como este, o próprio corpo precisa se “assenhar”, no sentido de modificar suas configurações imagéticas, para se adequar a exigências dos tempos em que cirurgias gráficas “photoshop” e médicas “silicone” se fazem exageradamente presentes
Penso que estamos inseridos em um contexto híbrido em que a disciplina e o controle se apresentam, não creio ter havido uma ultrapassagem completa de um modelo de sociedade a outro. Penso que os elementos de ambos os modelos de sociedade se fazem presentes nos dias de hoje, muitas vezes de maneira complementar, a moldar corpos e modular velocidades e lentidões. Fosse Kafka escrever um livro hoje, poderia muito bem se chamar “A senha”, ou de repente “Assenha” e este poderia ser um livro de grande utilidade e de muitos usos, pois conforme Deleuze e Guattari, este escritor de Praga, através de sua literatura, nos inspira a inventar saídas, o que não deixa ser uma espécie de proposta de subversão das senhas.  
 alt

A cidadania é o melhor contraceptivo

Como estabilizar a população mundial?

De acordo com o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o habitante de número 7 bilhões chegará ao mundo no dia 31 de outubro de 2011. A espécie humana chegou a 3,5 bilhões em 1968, a  4 bilhões em 1974, a 5 bilhões em 1987 e a 6 bilhões em 1999. Ou seja, em 43 anos (entre 1968 e 2011), a população global dobrou de tamanho, tendo acrescentado 1 bilhão de pessoas apenas nos últimos 12 anos.

Sete bilhões de pessoas é muito, é pouco ou é suficiente?

Evidentemente, assim como quase tudo que se refere às ciências humanas, não existe uma resposta única. Sempre vão existir aqueles que acham que a Terra tem espaço suficiente, enquanto outros acham que a Terra está superpovoada.

Porém, hoje em dia, é crescente o número de pessoas que consideram que as atividades humanas estão destruindo o Planeta e colocando em risco o futuro da humanidade e das outras espécies vivas da Terra. Mas enquanto algumas pesquisadores responsabilizam o crescimento populacional pelo estresse ambiental, outros responsabilizam o crescimento do consumo.

Os primeiros dizem que o consumo é elevado porque existem muitas pessoas no mundo (overpopulation) e que a demanda por bens e serviços sempre tende a crescer porque as aspirações humanas são infinitas. Os segundos consideram que o alto consumo (overconsumption) ocorre devido à máquina de propaganda mobilizada pelo modelo capitalista de produção e acumulação de lucro.

De fato, a população e o consumo têm crescido de maneira exponencial nos últimos 200 anos. Mesmo países como a China e o Vietnã, que resistiram às ideologias dos países capitalistas ocidentais (inclusive são até hoje dirigidos por partidos comunistas), têm adotado medidas para controlar a população, enquanto promovem o consumo amplo e irrestrito. Cada vez existem mais países em desenvolvimento que querem copiar os “sucessos” da China contemporânea na produção de bens de consumo. Os países em desenvolvimento já são responsáveis pela metade da produção econômica mundial.

Com um número maior ou menor de pessoas, o fato inequívoco é que precisamos mudar o padrão de produção e consumo. Este é o grande desafio do século XXI. Principalmente, é preciso controlar, o consumo desregrado que reduz cada vez mais a capacidade de regeneração do meio ambiente. Inclusive ajuda muito quando as pessoas optam por viver de maneira ambientalmente sustentável e adotam a filosofia de vida baseada na simplicidade voluntária. Mas isto não é excludente com a auto-determinação reprodutiva e autonomia para ter o número de filhos desejados.

Sete bilhões de habitantes no mundo poderia não ser muito se houvesse a adoção de um nível de consumo compatível com a sustentabilidade ambiental. Porém, o consumo médio da população mundial já está acima da capacidade de regeneração do Planeta e a demanda agregada continua crescendo. Um crescimento do PIB de 3,5% ao ano significa dobrar a produção econômica em 20 anos. O crescimento populacional, em última instância, tem funcionado como força impulsora de mais crescimento econômico.

Porém, o Planeta tem os seus limites e os próprios autores da economia clássica já falavam que o crescimento econômico chegaria, algum dia, ao “Estado Estacionário”.

Assim, mais cedo ou mais tarde, a hipótese da estabilização populacional estará colocada no horizonte. Ao invés de uma população crescendo rumo ao infinito, uma estabilidade do número de habitantes poderá ajudar os investimentos em qualidade de vida e bem-estar das pessoas e não em aumentos puramente quantitativos. Ou seja, a estabilização da população mundial pode ser uma forma de valorização do ser humano e do meio ambiente ao mesmo tempo.

A estabilidade da população mundial não requer esforços extraordinários. Já existem países nos quais a população está decrescendo, como: Cuba, Rússia, Japão, Ucrânia, etc. Existem outros que vão ter suas populações caindo num futuro próximo, pois já possuem taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição, tais como: Brasil, Chile, China, Coréia do Sul, Irã, Vietnã, etc. Também há um grande grupo de países que estão em processo de transição de altas para baixas taxas de fecundidade e devem atingir o nível de reposição em um espaço curto de tempo.

O Plano de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada no Cairo em 1994, diz em seu parágrafo 3.14: “Estão se fortalecendo mutuamente os esforços para diminuir o crescimento demográfico, para reduzir a pobreza, para alcançar o progresso econômico, melhorar a proteção ambiental e reduzir sistemas insustentáveis de consumo e de produção. Em muitos países, o crescimento mais lento da população exigiu mais tempo para se ajustar a futuros aumentos demográficos. Isso aumentou a capacidade desses países de atacar a pobreza, proteger e recuperar o meio ambiente e lançar a base de um futuro desenvolvimento sustentável. A simples diferença de uma única década na transição para níveis de estabilização da fecundidade pode ter considerável impacto positivo na qualidade de vida”.

Portanto, a estabilização das taxas de fecundidade pode melhorar o bem-estar do população. Contudo, existem atualmente cerca de 30 países que possuem taxas de fecundidade muito altas e cujos governos apresentam dificuldades para ajudar suas populações a atingir o tamanho de famílias que desejam. Nestes países – que geralmente são pobres e possuem altos índices de violência e insegurança – o fenômeno da gravidez indesejada é muito alto. A maior parte do crescimento populacional projetado até 2.100 está concentrada nestes poucos países (a grande maioria na África ao sul do Saara).

Desta forma, não é tarefa impossível evitar o crescimento populacional não planejado (e não desejado). As populações pobres, de modo geral, e os pobres dos países pobres, em particular, têm muitos filhos por falta de acesso aos métodos de regulação da fecundidade, falta de acesso aos direitos sexuais e reprodutivos e falta de acesso à educação, saúde e trabalho. Existem cerca de 215 milhões de mulheres no mundo sem acesso aos métodos contraceptivos.

Portanto, com inclusão social as famílias tendem a limitar seu tamanho pelos seus próprios meios. A cidadania é o melhor contraceptivo.

Além do mais, como colocado no parágrafo 3.14 da CIPD/1994 do Cairo, quando as taxas de fecundidade começam a cair se reduz, também, a razão de dependência demográfica e se cria uma janela de oportunidade para melhorias na educação, saúde, mercado de trabalho, etc. Em geral, a redução do ritmo de crescimento demográfico e a mudança da estrutura etária cria um círculo virtuoso que tende a contribuir para o bem-estar da população.

Da mesma forma como é impossível o consumo crescer ao infinito, também é impossível que a população cresça infinitamente. Por isto, algum dia, a população vai se estabilizar. Mas devido à estrutura etária jovem prevalencente em uma parcela ampla da população mundial, mesmo com uma queda rápida da fecundidade, o crescimento atual da populaçao vai continuar devido à inércia demográfica. Depois dos 7 bilhões de habitantes de 2011 os 8 bilhões de habitantes já estão encomendados para algum ano entre 2025 e 2030. Entretanto, a população mundial pode parar de crescer antes de chegar aos 9 bilhões de habitantes.

Na verdade, o problema de alto crescimento demográfico é um problema localizado nos citados cerca de três dezenas de países e que pode ser solucionado com vontade política e uma fração dos recursos mundiais gastos com despesas militares. O processo de urbanização do mundo, que vai se aprofundar nas próximas décadas, tende a abrir novas oportunidades para a implementação dos direitos de cidadania.

Para estabilizar a população dos países com alto crescimento demográfico, ainda no século XXI, seria preciso trazer as taxas de fecundidade para o nível de reposição (2,1 filhos por mulher), por meio das seguintes medidas:

1)    Universalizar o ensino fundamental para todas as crianças e jovens do mundo;

2)    Garantir o pleno emprego e o trabalho decente;

3)    Garantir direitos iguais para homens e mulheres (equidade de gênero);

4)    Garantir habitação e serviços adequados de água, esgoto, lixo e luz para todos;

5)    Reduzir a mortalidade infantil e garantir o acesso universal à saúde, à higiene, combatendo as principais causas de epidemias;

6)    Garantir acesso universal à saúde sexual e reprodutiva (o que inclui disponibilidade e variedade de métodos de regulação da fecundidade);

7)    Garantir liberdade de organização, manifestação e acesso à informação;

8)    Garantir a governança nacional e o apoio e a coordenação internacional para implementar, de maneira universal e indivisível, a plenitude dos direitos humanos.

Cibernética

Desta vez vou tratar de um assunto que não é propriamente do âmbito da matemática mas onde ela tem um papel fundamental, a cibernética. Termo criado por Norbert Wiener, (1894-1964), matemático norte-americano, em publicação de 1948, a cibernética é a ciência que estuda as atividades rotineiras do homem que a partir do século 20 se modificaram completamente com a 2ª revolução industrial. Mas não é a invenção das máquinas em si da 1ª revolução industrial ocorrida no século 19 que nos interessa, como por exemplo a máquina a vapor substituindo as carruagens puxadas por cavalos e os barcos à vela singrando os mares. Nos interessa é a invenção das máquinas que comandam e controlam outras máquinas, tarefas que anteriormente só cabiam ao homem pois só ele era capaz de as executar, em parte e com muito menor capacidade. No final do século 20 teve início a era das máquinas que hoje dominam completamente as nossas atividades. Se os pitagóricos de 300 anos a. C. vivessem hoje, diriam que a sua previsão “tudo são números” havia finalmente se realizado. Realmente tudo que fazemos hoje é transformado em números pelas máquinas que dialogam entre si para cumprir as suas tarefas. Não se trata das informações solicitadas por telefone, cujas instruções para  atendimento são fornecidas por um disco dando uma sequência de alternativas a serem tecladas pelo solicitante. Aqui o diálogo não existe e não adianta pedir algo que esteja fora das opções que o disco oferece. Agora o que estou querendo é falar das máquinas como os computadores, os laptops, os notebooks, os celulares etc., etc., além de sistemas como a internet. Comprar, vender, pagar contas, obter informações, cobrar obrigações, dialogar com outras pessoas em qualquer parte do mundo,  enfim todas as nossas atividades estão devidamente ao nosso alcance através das máquinas “pensantes”. Não estou fazendo a apologia da “Inteligência Artificial (IA)”. As máquinas cibernéticas não são inteligentes em si mesmo,  são apenas programadas pelo homem para realizar as tarefas para as quais foram montadas. No entanto temos que admitir que a partir da década de 1950 cientistas das universidades norte-americanas desenvolveram pesquisas baseadas na computação onde se exploram processos complexos inerentes à inteligência humana.  Sócrates, (469-399 a. C.) já se perguntava nos “Diálogos” sobre os “caminhos” misteriosos da mente: “Se procuras algo que não sabes bem o que é, como podes escolher o caminho a seguir? E se encontrares algo novo como sabes que é isso mesmo que procuravas?”. Pensar só é próprio do homem. Sou adepto da famosa frase de Descartes: “Cogito ergo sum”, (“Penso, logo existo”). Isto basta para nos situar. Temos de ter cautela com os exemplos que nos dão sobre Inteligência Artificial. Um programa joga xadrez desafiando os grandes mestres. Vale como exemplo de Inteligência Artificial?  Julgo que não. Este e outros como o da moça que digita no seu computador a venda de produtos da loja, executa algoritmos, isto é, conjuntos finitos de operações bem definidas programados para atingir determinados objetivos. Podemos acrescentar os trêns do metrô que operam automaticamente sem necessidade de operador, os elevadores sincronizados que atuam em grupo, as máquinas que ajudam na montagem dos carros modernos, etc., etc.. Nada disto convence da existência das “máquinas pensantes” mas temos de reconhecer que por vezes os resultados são surpreendentes.

Fico por aqui. Até à próxima.        

 

Extremos demográficos: alto crescimento e decrescimento populacional

Na média, a população mundial tem reduzido o ritmo de crescimento e tende à estabilização na segunda metade do século XXI. Mas os números médios geralmente escondem o que está acontecendo nas extremidades. Os extremos demográficos ficam claros quando consideramos os países com menor e maior fecundidade.

Os 10 países que apresentavam Taxas de Fecundidade Total (TFT) de cerca de 6 filhos por mulher, no quinquênio 2005-10 são: Afeganistão, Burkina Faso, Chade, República do Congo, Malawi, Niger, Somalia, Uganda, Tanzania e Zambia. Em 1950, estes 10 países tinham uma população total de 50 milhões de habitantes (equivalente à população do Brasil na época), passando para 258 milhões em 2010 e, mesmo considerando que a fecundidade venha a cair rápido nas próximas décadas, devem chegar a 640 milhões de habitantes, em 2050. Como a população destes países é muito jovem, o ritmo de crescimento, mesmo diminuindo, deve continuar na segunda metade do século XXI e não é imposível que estes 10 países ultrapassem 1 bilhão de habitantes antes de 2100.

Os 10 países que apresentavam Taxas de Fecundidade Total (TFT) abaixo de 1,5 filho por mulher, no quinquênio 2005-10 são: Alemanha, Japão, Rússia, Grécia, Itália, Portugal, Espanha, Hungria, Coréia do Sul, Romenia. De 1950 a 2010 a população destes países aumentou de 389 milhões para 556 milhões, mas, mesmo na hipótese de aumento da fecundidade, a população vai diminuir até 2050, devendo cair para 488 milhões de habitantes.

O fosso demográfico entre estes 20 países é bastante acentuado. Os países de baixa fecundidade, além de serem de renda média e alta, possuem uma estrutura mais envelhecida e são receptores de migrantes. Já os países de alta fecundidade são pobres, possuem uma estrutura etária jovem e são expulsores de migrantes.

Enquanto os primeiros devem ter um declínio de no mínimo 70 milhões, nos próximos 40 anos, os segundos devem ter um crescimento de quase 400 milhões de habitantes, até 2050. O desafio é duplo, enquanto uns decrescem os outros devem crescer muito rapidamente. Mas a redução populacional pode ser resolvida via a imigração. Contudo, os 400 milhões de habitantes pobres que vão ser acrescentados nestes 10 países terão dificuldades para conseguir níveis adequados de vida.

A alta fecundidade nestes países acontece, em grande parte devido à falta de acesso aos serviços de saúde reprodutiva. Estados e governos falidos (e/ou corruptos) não possuem condições de garantir os direitos de cidadania da população. Portanto, o desafio de resolver os direitos humanos destas populações vai ser muito difícil e mais difícil ainda romper com a “armadilha da pobreza”.

Por conta disto, o resto do mundo e a ONU não devem abandonar estes países de alto crescimento demográfico à própria sorte. É preciso garantir a aplicação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), especialmente garantir a universalização dos serviços de saúde reprodutiva. Não se trata de impor um controle populacional ou violar as liberdades individuais. Diversas pesquisas mostram que existe um alto percentual de gravidez indesejada e de necessidades não-satisfeitas de contracepção nestes países. O que o mundo precisa fazer é dar apoio para que as mulheres e casais – independente do nível de renda – possam ter o número de filhos que desejam, assim como reduzir a fecundidade indesejada. Estes países precisam da efetivação dos direitos reprodutivos, com acesso à informação e aos meios de regulação da fecundidade.

Os estudos econômicos mostram que a redução da fecundidade traz modificações na estrutura etária e cria uma janela de oportunidade ou bônus demográfico, em termos micro e macro econômicos, que – se bem aproveitado – pode ajudar na decolagem do desenvolvimento e na redução da pobreza. A opção preferencial pelos pobres, nestes 10 países de alta fecundidade, significa valorizar a qualidade da vida dos filhos e das pessoas já existentes e não a reprodução de uma elevada quantidade de habitantes para satisfazer o poder de chefes patriarcais.

Referência:
ALVES, J.E.D. O fosso demográfico: países com alta e baixa fecundidade. Aparte, IE/UFRJ, 2011
http://www.ie.ufrj.br/aparte/pdfs/o_fosso_demografico.pdf

Cristina, Dilma e Michelle – juntas?

Cristina Fernandes Kirchner venceu as eleições presidenciais da Argentina, dia 23 de outubro de 2011, com uma avalanche de votos. Aos 58 anos, ela se consagrou como a primeira presidente mulher eleita na Argentina e teve mais votos dos que os 45,29% das eleições de 28 de outubro de 2007.  É também a primeira mulher reeleita presidente na América Latina.

Advogada, ela iniciou sua militância política em La Plata na esteira de grupos que tinham com referência outra mulher, Eva Perón. Ela militava na Juventude Universitária Peronista. Casou-se com Néstor Kirchner, mudaram e passaram a atuar na cidade de Río Gallegos.

Mas Cristina sempreu teve sua atuação política própria. Foi eleita pela primeira vez como deputada estadual em 1989 e reeleita em 1993 e 1995. Depois ingressou no Senado e só saiu para assumir a Presidência em 2007.

Com a reeleição de Cristina, a Argentina se consolida como o país de maior participação feminina na política formal na América Latina. Além da chefia do Executivo, dados da Inter-Parliamentary Union – IPU – para 31 de agosto de 2011, mostram que a Argentina tinha cerca de 40% de mulheres na Câmara de Deputados e 35% no Senado.

Argentina e Brasil – os dois maiores países da América do Sul – permanecerão com mulheres na Presidência da República nos próximos anos. Além disto, a ex-presidenta Michelle Bachelet é a candidata mais bem cotada para as eleições presidenciais do Chile em 2013.

Portanto, pode ser que Cristina, Dilma e Michelle estejam juntas nas Presidências de Argentina, Brasil e Chile, em 2014. Mesmo sem entrar no mérito das posições políticas e ideológicas, este simples fato, já é motivo para que a América do Sul se coloque na vanguarda da participação feminina no Poder Executivo mundial.

Se a presença feminina na política se refletir em políticas para maior equidade de gênero, então a América Latina pode estar dando enormes passos, neste início do século XXI, para superar as desigualdades entre homens e mulheres na sociedade.

 

Qual será a população mundial em 2100?

No século XX, a população mundial passou de 1,56 bilhão, em 1900, para 6,1 bilhões de habitantes, em 2000. Um crescimento de quatro vezes. Este alto crescimento ocorreu em decorrência da transição demográfica, que possibilitou uma grande queda das taxas de mortalidade e uma queda posterior e mais lenta das taxas de fecundidade.

A esperança de vida ao nascer da população mundial estava em torno de 30 anos de idade em 1900 e chegou a cerca de 65 anos no ano 2000. Ou seja, de forma inédita na história da humanidade, a esperança de vida da população mundial mais que dobrou em 100 anos. Este grande salto nunca tinha acontecido antes e provavelmente nunca irá acontecer no futuro, pois a grande conquista foi reduzir significativamente as taxas de mortalidade infantil e, depois de um certo ponto, a longevidade tem limites biológicos.

Como será a dinâmica demográfica no século XXI?

Em maio de 2011, a divisão de população da ONU atualizou os três cenários de projeção para a população mundial no século XXI. Pelo lado da mortalidade, as conquistas vão continuar, mesmo que em ritmo menor, pois a esperança de vida ao nascer, que na média da população mundial, era de 65 anos em 2000, já chegou a 68 anos em 2010 e deve atingir 80 anos em 2100.

A população mundial que vai chegar a 7 bilhões no final de 2011 pode atingir 10,1 bilhões de habitantes ou mesmo 15,8 bilhões em 2100. Ou até mesmo pode cair para 6,2 bilhões de habitantes, em conformidade com os diferentes cenários das taxas de fecundidade. Portanto, a população mundial pode variar de 6,2 bilhões a 15,8 bilhões dependendo do número médio de filhos por mulher e da sua evolução nas próximas décadas.

Pode parecer que esta grande diferença de 6,2 a 15,8 bilhões de habitantes ocorra devido a grandes diferenças nas taxa de fecundidade. Mas, ao contrário, isto é provocado por uma diferença na taxa de fecundidade média de apenas 0,5 (meio filho) por mulher.

No quinquênio 2005-10 a taxa de fecundidade total, na média mundial, estava em 2,52 filhos por mulher. Se esta taxa continuar neste nível a população mundial chegaria a 15,8 bilhões de habitantes em 2100. Se a TFT cair gradualmente em apenas meio filho por mulher (para uma TFT de 2 filhos em 2100) então a população seria 5,7 bilhões a menos, ou seja, de 10,1 bilhões de habitantes em 2100. Se a fecundidade cair mais meio filho abaixo da projeção média (para 1,55 filhos por mulher) então a população mundial ficaria em 6,2 bilhões de habitantes, aproximadamente a mesma população do ano 2000. Nesta hipótese de fecundidade mais baixa, o crescimento demográfico seria zero no século XXI.

Estes três cenários mostram que o tamanho da população mundial em 2100 pode ficar em um leque que varia de 6,2 bilhões a 15,8 bilhões de habitantes. Uma pequena variação média de meio filho por mulher pode fazer a quantidade da população ficar bem acima dos 10,1 bilhões da projeção média ou bem abaixo deste número. Tudo vai depender do comportamento reprodutivos das famílias.

Como é sabido, as taxas de fecundidade estão caindo em quase todo o mundo. O número médio de filhos por mulher cai, em primeiro lugar, porque cai a mortalidade infantil provocando o aumento da sobrevivência do número de filhos em cada família. Assim, com mais filhos vencendo mortalidade infantil, o número ideal de crianças é atingido mais rapidamente e as mulheres e os casais passam a limitar a possibilidade de uma nova gravidez. Além disto, o demanda por filhos se reduz na medida em que o custo das crianças aumenta e os seus benefícios diminuem. Isto acontece devido ao processo de urbanização, do aumento dos níveis de renda e educação, da entrada da mulher no mercado de trabalho, do crescimento dos sistemas de proteção social, etc.

Todos os países do mundo que atualmente possuem alto nível de educação ou alto nível de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) possuem fecundidade abaixo de 2,2 filhos por mulher. Contudo, existem uma certa quantidade de países (especialmente na África Sub-sahariana) que possuem fecundidade acima de 4 fillhos por mulher. Os estudos mostram que a alta fecundidade acontece devido à falta de acesso aos direitos básicos de cidadania (educação, habitação, saúde, liberdades políticas, etc.) e especialmente devido à falta de acesso aos direitos sexuais e reprodutivos. Em geral, a fecundidade é alta onde existe alta percentagem de pessoas pobres e há altas necessidades não-satisfeitas de contracepção.

Os estudos mostram que existe uma relação inversa entre IDH e fecundidade. Quando um sobe a outro cai. Assim, para garantir a continuidade da redução da pobreza e das taxas de mortalidade, a ONU aprovou, no ano 2000, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. As 8 metas dos ODMs são:
# 1. Erradicar a extrema pobreza e a fome
# 2. Atingir o ensino básico universal
# 3. Promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres
# 4. Reduzir a mortalidade na infância
# 5. Melhorar a saúde materna
# 6. Combater o HIV/Aids, a malária e outras doenças
# 7. Garantir a sustentabilidade ambiental
# 8. Estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento

No ano de 2005, a ONU realizou a Cúpula do Milênio + 5 para avaliar o andamento das iniciativas e corrigir eventuais lacunas existentes. Após diversos estudos e avaliações sobre as principais fraquezadas dos ODMs, foi feito um acréscimo fundamental para melhorar a qualidade de vida da população, que é a meta # 5B:  “Alcançar, até 2015, o acesso universal à saúde reprodutiva”.

Acesso à saúde reprodutiva integral é fundamental para se garantir os direitos sexuais e reprodutivos, conforme aprovado na Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada na cidade do Cairo, em 1994. Também é fundamental para a redução da gravidez indesejada.

Infelizmente, a maior parte da população pobre do mundo não tem acesso integral aos serviços de saúde reprodutiva. Os ricos possuem acesso à saúde reprodutiva, pois podem pagar via mercado privado. Mas a população de baixa renda precisa contar com o apoio do Estado, que por seu lado, precisa garantir os direitos de cidadania.

Se os 8 ODMs forem efetivados em todos os países do mundo é de se esperar que as taxas de fecundidade continuem a cair, especialmente naqueles países com menor grau de inclusão social. Quanto mais rápido os países avançarem na qualidade de vida dos seus cidadãos e cidadãs mais rápido as taxas de fecundidade vão ficar próximas de dois filhos por mulher (que é o número mais citado quando se pergunta o número ideal de filhos que as pessoas querem ter).

Desta forma, o avanço da qualidade de vida das pessoas e dos direitos reprodutivos de mulheres e homens, caso se efetive, deve possibilitar a continuidade da queda das taxas de fecundidade e, em consequência, a população mundial, no final do século XXI, pode ficar abaixo de 10 bilhões de habitantes.

Referências:

ALVES, J.E.D. População, bem-estar e tecnologia: debate histórico e perspectivas. Multiciência, UNICAMP, Campinas, maio 2006. Disponível em: http://www.multiciencia.unicamp.br/artigos_06/a_02_6.pdf
Population Division of the Department of Economic and Social Affairs of the United Nations Secretariat, World Population Prospects: The 2010 Revision, http://esa.un.org/unpd/wpp/index.htm

 

Daniel Daibem e a didática da música.

 alt

 

A música se ouve, mas não necessariamente se entende. Há quem possa me indagar a respeito de que não é necessário entender a música para apreciá-la. Pode ser – é como comida, não precisamos entender os processos químicos ou nutricionais dos alimentos para comê-los e saboreá-los, mas todo up grade é sempre bem vindo. Ainda nesse exemplo dos alimentos, reparem bem – todas as embalagens agora trazem as informações dos ingredientes dos produtos, gorduras, sais, vitaminas, etc., entretanto, é uma linguagem que só profissionais dessa área entendem. A primeira pergunta, pra quê serve uma informação se não é compreendida a quem ela se destina? Portanto é necessário “didática”. É preciso fazer com que o outro entenda – e para tal, é necessário transformar o incompreensível e compreensível, tornando clara a mensagem por trás dos códigos de linguagem. Outro desafio, é não cair no reducionismo conceitual, ou seja, não esvaziar o sentido pela linguagem mais simples – isso sim requer grande capacidade. Exemplo, como explicar para um aluno de 8 anos de idade a teoria da relatividade de Einstein, de forma a não perder conteúdo e nem manter a dificuldade para alguém dessa idade? Segunda pergunta, a música é que complicada ou somos nós que a complicamos? Isso discutimos depois. Há quem faça música sem nenhum conhecimento teórico ou passagem por uma escola de música – como Lamartine Babo, entretanto, fazer música – seja erudita ou popular, é um processo que exige ao menos um conhecimento básico das notas musicais e de harmonia. Existe uma escala, com notas com nomes, cada uma delas têm suas funções e sons específicos – imagina para um leigo, como será que ele observa uma partitura? Uma partitura na frente de Chopin faz todo sentido – mas e na frente de um homem comum, o que ele entende? O mundo é dividido entre aqueles que entendem e ensinam e aqueles que não entendem e aprendem – e essa relação nem sempre se dá de forma adequada, justamente porque quem ensina, não leva em consideração as limitações e dificuldades daquele que aprende. Terceira pergunta, eu preciso entender a música? Olha, não necessariamente, mas acredito eu que após conhecer alguns elementos que a constitui e alguns porquês de certas coisas, nossa audição e percepção, e conseqüente apreciação da mesma muda radicalmente. Kant disse que existem duas fontes de conhecimento, a sensibilidade e o entendimento. Através da primeira os objetos nos são dados e através da segunda são pensados. Essa junção, nos ajuda a elucidar as coisas antes obscuras ou pouco claras. Apuramos nosso paladar depois que descobrimos distinguir temperos. Aprender as diferenças entre vinhos, faz com que entendamos justamente qual o vinho que mais nos agrada. Música é como a vida na terra – existem organismos unicelulares, muito simples e mais fáceis de entender seu funcionamento, e existem seres pluricelulares, muito complexos e portanto muito mais difíceis de serem entendidos.

alt

 

Como a maioria das pessoas não gosta de pensar e tende a preferir modelos prontos – o Jazz, a música erudita, o rock progressivo, entre outros estilos, tornam-se chatos. Não é que sejam chatos, é porque não são compreendidos. Entre os profissionais de mídia musical, talvez quem melhor faça essa intermediação e funcione como um verdadeiro professor – embora ele negue tal papel, é Daniel Daibem. Daibem é guitarrista e comandou um programa chamado “Sala dos professores” na antiga rádio Eldorado. O programa tinha uma proposta de explicar o funcionamento da música de uma forma simples e acessível a qualquer um. A primeira grande lição de Daibem, é mostrar que a música é como um esporte e como um idioma. Ele faz uma analogia como futebol: gostamos de futebol porque entendemos as regras – entretanto quanto vemos futebol americano não gostamos, porque não sabemos as regras. Com música é igual – as vezes a música nos soa estranha (e aí dizemos ruim) porque é um idioma que não conhecemos, que não sabemos as regras. Daibem explica o improviso. “No Brasil a palavra improviso têm uma conotação de fazer as coisas de qualquer jeito. Aí as pessoas acham que improviso na música é assim: o cara toca o tema – pá padá padupá padapadupá (Garota de Ipanema), improviso: guigodigoguidogoguigodideó (uma expressão qualquer). Esse ‘guigodigoguidogoguigodideó’ se você botar no lento ali pra ouvir, é uma coleção de palavras, é o vocabulário do músico. E eu procuro mostrar isso pras pessoas”. Realmente, se ninguém vier e te falar que nisso há algum sentido, vamos continuar achando que não há. É preciso que alguém nos mostre, desmistifique as coisas, nos dê o caminho. E Daibem faz isso muito bem. Ele me mostrou que é possível ouvir a música de forma compartimentada. Como assim? Treinar o ouvido para se concentrar em um instrumento de cada vez. Aí você percebe a conversa. Sim, os instrumentos conversam entre si – e a música nada mais é do que uma grande reunião. Mas uma conversa ordenada – e o improviso é também ordenado. Aí é que entra a harmonia, que se compreendida de forma simples, nada mais é (reducionismo, sic) do que todos os falantes da conversa se comunicando no mesmo idioma. Aí todos se entendem e então a comunicação se torna possível. Aí depois que você entender o que cada um ali está falando pro outro, é simples, você junta tudo e têm uma música. Isso faz sentido. Enquanto escrevo estou ouvindo “One For Daddy-O”, faixa 4 do disco “Somethin´Else” de Cannonball Adderley. Nessa música fica muito claro que o fio condutor é a chamada “cozinha” (Baixo – Sam Jones e Bateria – Art Blakey). Daibem explica que o pratinho da bateria sempre fica ali – de fato, e o baixo acompanhando. Eles formam uma cama onde Cannonball no seu Sax Alto ora pergunta e ora responde ao Trompete de Miles Davis. Básico, perguntas nunca são iguais as respostas – então é óbvio que o som que um fará pro outro será diferente, porém não sem sentido. Quando você ouve de qualquer jeito, você não percebe as sutilezas.

alt

 

Eu sempre digo, “As pessoas são todas iguais, exceto nos detalhes”, como música é assim também, são os detalhes que fazem a diferença. Quando se ouve apressado, você nem nota o quão diferentes são os timbres de um Sax Alto e de um Trompete e não consegue apontar na música quando é um e quando é outro. O trabalho de Daibem é como o de um físico de partículas ou um físico quântico – enquanto os físicos clássicos se ocupam da grande matéria, esses se ocupam da estrutura ínfima. Essa arqueologia facilita o processo de entendimento, entretanto é a forma como Daibem explica que faz com que entendamos. Esse método “Daibemniano” não se aplica só ao Jazz não – experimente-o no rock ou no samba que fará o mesmo efeito. Aliás, ele explica que o Samba e o Jazz são idiomas muito parecidos e com a mesma origem (África), ele brinca: “os navios só foram pros lugares diferentes” – ou seja, a mesma forma como se compreende uma, se compreende a outra. E se entendendo ao menos um pouco os dois, se chega a Bossa Nova – que é uma fusão dos dois gêneros. Frank Zappa também fundiu Jazz com Rock – e é possível entendê-lo através desse processo. É básico – se toda música é uma conversa entre instrumentos e toda música é tocada com instrumentos, então se entendendo as partes se compreende o todo. Daibem dá a dica: ao invés de começar ouvindo elucubrações avançadíssimas de um John Coltrane ou de um Charlie Parker, começa do começo (sic) – Big Bands como a de Count Basie ou trios de jazz. Se for no rock, os primórdios, antes de partir em viagens mais ousadas com Pink Floyd ou King Crimson. Lembre-se a vida evoluiu de organismos simples. Acredito que após entender melhor a música a apreciação da mesma também melhorará, e isso vale para tudo. Aos interessados, clique no site: www.territorioeldorado.limao.com.br – e vá ao link programas, lá clique em “sala dos professores” e confira as maravilhosas aulas do professor Daniel Daibem.

 

 

 

 

 

 

Kadafi, Saddam, Bin Laden…

O que estas pessoas têm em comum? Os três foram assassinados. Todos pelo mesmo agente: a defesa da liberdade, da democracia, dos direitos humanos e dos direitos do povos lutarem contra ditadores sanguinários.

Como assim? Kadafi não foi espancado e morto pelos rebeldes? Não está o mundo inteiro indignado com a barbárie cometida pelos rebeldes líbios? Certo! Todos pularam de alegria quando, de forma traiçoeira e sem chances de defesa, os americanos assassinaram Bin Laden. Sim, sim, o mesmo fizeram com Saddam. Claro que de uma forma mais “legal”, tipo, quem fez isso foi um tribunal iraquiano, não nós.

Tenho a impressão que a indignação geral que corre o mundo é por não terem tido a oportunidade, no caso Kadafi, de realizarem a justa justiça: a justiça dos estados, institucionalizada; a justiça que pode matar porque um dia a humanidade resolveu que nós, representados pelo estado podemos matar. E não precisamos nos sentir mal. Afinal, Bin Laden cometeu o erro de matar apenas 3000 americanos, um número ínfimo perto dos milhões que os americanos, os protetores da liberdade, da democracia, dos direitos…, já mataram desde que existem como nação.

Vejam como são as coisas! Acabo de lembrar que os três têm outra coisa em comum: eram amigos do Tio Sam e cia ltda. Kadafi, inclusive, foi perdoado por ter assumido a responsabilidade no caso do avião. Burro mesmo foi o Saddam: não quis entregar o petróleo pro amigo e se deu mal.

Linchado, enforcado ou fuzilado, o fato é que do lado de cá as pessoas só se incomodam quando a barbárie é cometida por punhos visíveis. Idolatramos os punhos invisíveis, mas hiper armados, que defendem a liberdade, a democracia, os direitos…

Estivéssemos lá, insuflados por um sentimento de ódio originado em anos e anos de exploração; se fossemos líbios vendo o “chefe da nação” vivendo na opulência, guardando os recursos originados do petróleo em contas particulares mundo afora. Fossemos rebeldes insuflados e ajudados pela OTAN (lembrei de um parênteses: não precisamos ir muito longe, né? brigamos no trânsito, matamos homossexuais, nosso trânsito mata mais que guerras, só para tomar alguns exemplos…) e teríamos feito a mesma coisa frente a frente com nosso algoz: quem perderia a oportunidade de dar um soco, um empurrão, um ponta-pé, um tiro em Kadafi? Ou em Bin Laden? Ou em Saddam?

Certo, nos dois últimos não. Afinal temos nosso grande protetor da liberdade, da democracia…

Não vi barbárie no assassinato do Kadafi. Vejo barbárie na hipocrisia de uma humanidade que empurra para tribunais aquilo que desde sempre quer fazer com as próprias mãos. A diferença é que os líbios estão tomando activia com johnnie walker para o resto do mundo.

Que atire a primeira pedra quem, no ímtimo, sabe estar livre dessa hipocrisia…

Ocupar Wall Street e um pouco da falsa polêmica Rafinha Bastos.

 Entre discursos de filósofos como o esloveno Slavoj Zizek, até falas de Naomi Klein, surgiu o melhor conceito – retomando um pouco da ideia de Revolução Permanente de Leon Trotsky – acerca dessa retomada muito bem-vinda das manifestações políticas que ocupam espaços públicos. Pensando em Estados Unidos a coisa fica um pouco mais interessante, visto o histórico recente de conservadorismo exacerbado nesse país tão cioso de democracia e liberdade, mesmo que essas palavras normalmente tenham conotações diferentes lá e no resto do mundo. Provavelmente desde a explosiva década de 60, com suas experimentações psicodélicas comportamentais, passando pelos Panteras Negras e Martin Luther King, a ocupação em Wall Street é algo não como um mero sopro de ar fresco, mas talvez uma grande ventania. E por uma característica bem específica.

 

ocupação wall street

 
Na também recente “Primavera Árabe” – como ficaram conhecidas as diversas manifestações em países Árabes contra governos totalitários – principalmente jovens, e sobretudo organizados através da internet, tomaram de assalto o espaço público da cidade. E não qualquer espaço público, mas sim o mítico espaço da praça, lugar político por excelência. No caso das manifestações Árabes havia um objetivo final e específico a ser conquistado, dessa forma, “naturalmente”, como movimentos pós-modernos que surgem e se vão velozmente, assim que tal objetivo fosse conquistado as praças voltariam a ser o ambiente dos pombos. É nesse ponto que chegamos à perspectiva da Ocupação Permanente. Em Wall Street as reinvindicações são amplas, de macroestrutura, o que pode pressupor-se uma longa luta, constante, diária, que não se acaba com a concessão de migalhas. Os altos executivos que passeiam pela Times Square terão sempre que olhar os acampados, os 99% que não fazem parte do jogo quase virtual deles, mas que meche com a humanidade de uma forma ampla. Irreal pensar em uma ocupação permanente no coração do centro econômico da maior potência (?) do mundo? Talvez, mas as condições concretas estão dadas. Trotsky, como dissemos acima, já falava em Revolução Permanente, aquela que não se esgota com pequenas conquistas, e a ideia da permanência é a ideia do não efêmero, daquilo que finca raízes, que risca como tatuagem, a luta constante contra as proibições do “você não pode” até às raias da especulação financeira, essa espécie de videogame espetacularizado.
Parece que algo acorda lá do fundo. Em tempos de Facebook as pessoas tomam as ruas.
Toda força aos acampados, seja Nova Iorque, Roma, Síria ou Atenas.
 
A falsa polêmica Rafinha Bastos.
 
Para além da discussão sobre a piada propriamente dita, a questão é que a repercussão só se deu por envolver a classe que detém o capital. O que preocupa na censura da emissora, pressionada obviamente por esse capital, é a abertura de mais um precedente das proibições. Quem dita o que pode ou não pode ser dito? O marido da Vanessa Camargo? Preocupante. Os precedentes abertos ultimamente são vários e perigosos, começam com inocentes leis para fechar bares mais cedo, proibição do fumo, lei do silêncio. Novamente, quem deve ditar as regras que devemos seguir? Se o Rafinha Bastos incita o racismo, a violência contra mulheres, é porque alguém assiste aquele programa, é porque alguém permitiu que ele sentasse naquela bancada, que aliás conta com mais dois imbecis, um dos quais defende a violência policial contra manifestações estudantis (o “jornalista” Marcelo Tas declarou “polícia nesses vagabundos” na última greve da usp). Agora, quem defende a censura contra ele, não poderá reclamar quando esses mesmos detentores do capital começarem a dizer que horas temos que sair do bar (coisa que na verdade já fazem), a que filmes podemos e não podemos assistir. A falsa polêmica está em venderem para o público que o problema foi a piada. A lógica é bem mais cruel.