Sob(re estupro) o Domínio do Medo*

Estupro das Filhas de Leucipo por Peter Paul Rubens

Pintura: Estupro das Filhas de Leucipo por Peter Paul Rubens

 

 

(Trato de impressões. Sem cortes profundos nem muitos temperos. Responsabilidade adoça a vida. Enxergo, sim, a falta de cores em algumas práticas violentas, e deixo-me levar pelas impressões. É com empatia, imaginação, compreensão e bom senso que escrevo. Impossível evitar ter pretensão nas margens de tudo; não estou cego. Se soar pretensioso peço desculpas. Mas tento ver por dentro. Com muito esforço. Permito-me uma viagem dolorosa… Não deixa de ser uma verdade tudo aquilo que se imagina).


Não sei se uma mulher, um homem ou uma criança – e os deixo assim indefinidos – conseguiriam ser os mesmos depois de uma agressão sexual. No entanto, não deveria espantar a ninguém se todas as flores, quaisquer flores, ao redor e as mais próximas dessas vítimas, começassem a perder o visco, ou regredir; semente ou broto sem coragem voltando ao começo, quando nada ainda era início; quando ainda não havia culpa.

As músicas tornam-se abafadas, se conseguem ser ouvidas. O sangue caminha em refluxo, borbulhando, movido à tristeza e desencanto. Foram mil braços, os agressores. Um desejo corrupto, sujo, a comprometer o desejo do outro. As lágrimas percorrem o corpo para purificar, limpar pequenos pedaços; uma gota a cada ameaça. A alegria enferruja em poucos minutos, enquanto durar o ato; um desastre de poucos minutos.

O silêncio é uma ferida. A dor é uma tempestade de fogo, por dentro; existem chances de que tudo – a mesma dor, as lembranças, as palavras secas, as mãos pesadas, o monstro corruptor – seja superado. Como? Quase improvável que um vazio que surge nas vítimas de tal violência como fruto da perversão, ou mais que isso, seja preenchido; é esconder sujeira grossa e cruel embaixo dos tapetes.
 
A impressão que tenho é que acontece um eclipse a cada meio-dia, que todas as estrelas desistem de enfeitar e mergulham nas profundezas do rio mais próximo.

Os conteúdos foram arrancados, e o corpo precisará de novos significados. Impossível apoiar-se apenas em amenidades para seguir adiante. Engole-se um punhado de areia grossa a cada tentativa.

O olhar alheio, e o próprio, são aterrorizantes. Carrega o poder de parar o tempo passado, uma cena, a mesma que desperta ódio, culpa. As lembranças renovam as marcas, engrumecem o sangue, o pouco que resta. Os sorrisos escondem-se nos dedos dos pés, ou nas partes que não foram violadas.
 
O corpo arma-se de estresse após o trauma.A capacidade de amar e perdoar foi arrastada para fora, à força, com golpes de perversidade. Sexo volta a ser tabu, fonte de indecência. A esclerótica escurece de culpa e ressentimento. É vingança o que faz os ossos estalarem. Os velhos conteúdos misturam-se ao caos. Vão e voltam. Vão e voltam. Vão e voltam. Entram e saem.

O corpo, que adquire placas, couraças para cada medo, estremece e faz surgir um terremoto a cada recordação.
 
Qualquer alegria é induzida; as satisfações são plásticas; as cores são emprestadas. Sob a pele, no fundo, se existia alma, inicia-se o nascimento de um Outro, de pura dor e esperança, agarrado na incerteza de que todos, mais do que eles, superem, e que os monstros capazes de destruir uma existência, descubram, livres de si, que o inferno aceita encomendas e orações de inocentes.


* Reflexões a partir da película: Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, Reino Unido/EUA, 1971), filme de Sam Peckinpah.
 
 

Brasil e a migração internacional: refugiados do clima e da crise econômica

Em fevereiro de 2011 escrevi aqui no OPS o artigo “Nova reversão do fluxo da migração internacional do Brasil?”, onde comentava que o Brasil deixou de ser “importador líquido” de pessoas desde 1980 para se tornar “exportador líquido” até recentemente. Mas com a queda das taxas de fecundidade e a retomada do crescimento econômico, poderia haver uma reversão da reversão da migração. Constatei o seguinte: “Se o Brasil tiver uma política macroeconômica que leve o mercado de trabalho a uma situação próxima do pleno emprego, na corrente década, pode haver uma reversão do fluxo migratório internacional, com menos brasileiros querendo sair do país e mais estrangeiros querendo se mudar para as terras tupiniquins”.

No início do ano havia uma esperança de crescimento da economia internacional.  Mas no decorrer de 2011 o horizonte ficou mais escuro e carregado. A luz do fim do túnel está cada vez mais fraca, ofuscada pelas crises econômica e ambiental.

O cenário mais dramático é o da Europa, especialmente dos países mediterrâneos. Os chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) são países de baixa fecundidade e de população bastante envelhecida. Só não existia decrescimento demográfico porque estes países recebiam migrantes da América Latina, África e Ásia.

Mas a crise econômica européia está não só levantando um muro invisível contra a entrada de novas pessoas, mas está se tornando uma catapulta que expulsa não só os imigrantes mais vulneráveis, mas mesmo os nativos europeus que não encontram meios de vida e esperança para continuar residindo no “velho continente”.

Desta forma, existem diversas estimativas populacionais mostrando que os PIIGS já começaram a viver a fase de redução demográfica. O destino preferido dos migrantes e dos cidadãos da Europa mediterrânea é a América Latina e, especialmente, o Brasil, conforme mostra o aumento recente do registro de vistos de trabalho para estrangeiros, segundo estatísticas do governo brasileiro. A taxa de desemprego aberta do IBGE, para o mês de outubro ficou em 5,8%, a mais baixa do século.

O Brasil também pode se tornar um destino para os refugiados do clima (ecomigrantes) e para os refugiados dos acidentes naturais, como é o caso das vítimas do terremoto do Haiti. O derretimento das geleiras dos Andes e a consequente falta de água, pode provocar a migração, por exemplo, de bolivianos para o Brasil. A seca e a insegurança alimentar da África pode ser o gatilho para a migração africana para a América Latina. As populações atingidas pela elevação do nível do mar, como em Tuvalu ou Bangladesh, podem precisar do refúgio brasileiro.

Resta saber se o Brasil estará preparado para receber, do resto do mundo, os refugiados das crises econômica e ambiental.

Dizem que existe “apagão de mão-de-obra” no Brasil. Mas os dados do censo demográfico de 2010 mostram que existia cerca de 100 milhões de pessoas ocupadas no país e 130 milhões de pessoas em idade de trabalhar (15-64 anos). Existe, portanto, um hiato de 30 milhões de pessoas fora do mercado. Mesmo considerando que parte destes 30 milhões estejam estudando ou já aposentados, há um excedente de pessoas em idade ativa que não está conseguindo empregos. Além disto, cerca de metade da população economicamente ativa (PEA) vive na informalidade. Mesmo em um cenário otimista de crescimento da economia brasileira,  a chegada ao pleno emprego ainda é uma estrada que exige uma longa caminhada, debaixo de sol e chuva.

Por fim, o Brasil vai ter que enfrentar o problema dos seus próprios refugiados climáticos. As consequências da seca do Nordeste já foram tratadas nas obras de Graciliano Ramos e nas músicas de Luiz Gonzaga. Mas vamos ter que enfrentar a situação de populações litorâneas deslocadas pela elevação do nível do mar ou pelos problemas ambientais, como o vazamento de petróleo e os seus efeitos sobre a vida marinha. Existem os deslocados em decorrência do crescimento das áreas produtivas tomadas pelo processo de desertificação. Além disto, as populações urbanas em áreas de risco vão ter que mudar em decorrência do aumento das chuvas e das enchentes.

A visão do Brasil como um Eldorado, refúgio de imigrantes e celeiro do mundo pode não corresponder à realidade, cada vez mais crua e nua.

Números complexos

Nos trabalhos anteriores apresentei o sistema numérico desdobrado nas suas diversas categorias, mostrando as insuficiências de cada categoria e como superá-las mediante expansões sucessivas. Iniciando pelos números naturais e anexando o número zero passei aos números inteiros positivos e negativos, aos racionais, algébricos, fracionários, irracionais, transcendentes e finalizando nos números reais. Parecia portanto que a expansão numérica estava completa devido à propriedade dos números reais de apreesentar entre dois números sucessivos sempre um terceiro, por mais póximos que estejam entre si os números escolhidos. É a chamada “hipótese do continuum” da sequência ininterrupta dos números reais sem “saltos” ou descontinuidades de qualquer natureza. Mas vocês devem  lembrar da pequena ressalva que coloquei “pondo de lado os números complexos”. Qual o motivo dessa minha preocupação? De fato os números complexos são números um tanto “estranhos” digamos assim. Eles não deviam existir pois resultam de uma operação impossivel de se realizar, a raiz quadrada de um número inteiro negativo. Por exemplo, a raiz quadrada de 4 é 2 mas a raiz quadrada de –4, 4 com o sinal menos, não pode ser realizada. Nenhum número elevado ao quadrado pode ser negativo. Assim é a regra dos sinais: +2 X +2=+4 mas –2 X –2 é também igual a +4. Mas a raiz quadrada de um número inteiro negativo pode acontecer, como por exemplo na equação x2+1=0 e é por isso que temos que saber como resolver o impasse. Vocês devem ter reparado que todas as vezes que se apresenta a raiz quadrada de uma expressão matemática o símbolo da raiz quadrada vem precedido dos sinais + e – . Isso quer dizer prcisamente que os dois resultados, positivo e negativo, têm de ser considerados. Vejamos a regra dos sinais que diz: mais vezes mais dá mais; menos vezes mais dá menos; menos vezes menos dá mais; e mais vezes menos dá menos. Os compêndios de matemática  geralmente não explicam por que a regra dos sinais é assim. Vejamos a razão. Consideremos o plano cartesiano dividido em quatro quadrantes mediante dois eixos numéricos ortogonais, o eixo horizontal dos xx ou eixo das abcissas e o eixo vertical dos yy ou das ordenadas, cruzando-se no ponto zero inicio da contagem dos nímeros naturais inteiros nos dois eixos. Convencionalmente os quadrantes são ordenados 1º, 2º, 3º e 4º no sentido de rotação positivo, ou seja anti-horário. Para obtermos a regra dos sinais temos de considerar o sentido de rotação dentro de cada quadrante levando em conta que o par de coordenadas de um ponto do plano é sempre (x,y), primeiro a abcissa e depois a ordenada. Poi bem, no 1º quadrante o sentido da rotação é anti-horário ou seja positivo; no 2º quadrante é horário logo negativo; no 3º quadrante volta a ser anti-horário portanto positivo; e no 4º quadrante horário, negativo.
Há cêrca de 100 anos a. C. Heron de Alexandria abordou os números complexos obtendo a solução da raiz quadrada de menos 63. Por sua vez em 1545 Girolamo Cardan apresentou o resultado do produto de 5 mais a raiz quadrada de menos 15 vezes 5 menos a raiz quadrada de menos 15. Realizando os produtos o resultado é dado por 52 + 15 = 25+15 = 40. Volto a manifestar a minha admiração pela profunda capacidade intelectual desses pioneiros que apesar da precaridade do conhecimento conseguiram investigar fundamentos que hoje fazem parte da matemática moderna. Mas para que fosse alcançada a completa interpretação dos números complexos foi necessário esperar por Gauss, (Johann) Carl Friedrich, (1777-1855), matemático alemão considerado um dos grandes  da história da matemática. Gauss colocou os números complexos no plano cartesiano dando-lhes a forma aigébrica a+bi onde “a” e “b” são números reais e “i” a unidade imaginária igual a i 2 = – 1. Os dois eixos ortogonais cruzando-se no ponto 0 são: o eixo horizontal dos números reais “a” chamado de eixo real e o eixo vertical dos números imaginários “bi” chamado de eixo imaginário. As grandezas “a” e “b” são iguais em valor absoluto, tanto no eixo real apresentando a sequência 1, 2, 3, … englobando todos os números reais quanto no eixo imaginário  a sequência 1i, 2i, 3i, …englobando todos os números imaginários. Gauss conseguiu assim obter desta maneira admirável, uma representação geométrica englobando todas as categorias númericas sem exceção encerrando as suas expansões.

Fico por aqui. Até à próxima.
 

O aumento do preço dos alimentos

O índice de preço dos alimentos da FAO (Food and Agriculture Organization) tem apresentado uma tendência de aumento desde o quinquênio 1999-2003 e estudos mostram que estes preços estavam nos níveis mais baixos de todo o século anterior. Durante o iníco do ano de 2011 até setembro o índice da FAO estava em seu nível mais elevado no atual século. Em outubro os preços cairam um pouco devido à crise econômica dos Estados Unidos e da Europa. Mas a tendência é se manter em níveis elevados.

Realmente é surpreendente que o índice de preço dos alimentos, em nível mundial, tenha caído no século passado mesmo com o aumento da população mundial (que cresceu 4 vezes no século XX) e o crescimento da economia mundial (PIB) que cresceu cerca de 18 vezes no século XX. Ou seja, a despeito de um crescimento de 4,5 vezes no poder de consumo per capita da população mundial, o preço dos alimentos apresentou uma tendência de queda. É mesmo surpreendente, pois é sabido que existe muito desperdício e muita especulação na produção e no consumo de alimentos e mesmo assim os preços reais caíram durante décadas.

Desta forma, embora a demanda tenha crescido o índice de preço mundial dos alimentos caíu e se manteve em nível baixo até o ano de 2003. Durante o século XX, o preço dos alimentos aumentou durante as duas Guerras Mundiais e entre o período 1974 e 1981, quando os preços do petróleo atingiram níveis muito altos, devido à instabilidade no Oriente Médio. Com o fim da União Soviética (e da Guerra Fria) os preços do petróleo atingiram os seus níveis mais baixos no final dos anos 1990, o que contribuiu para abaixar também o preço dos alimentos até 2003.

O gráfico 1 mostra o índice real de crescimento anual do PIB, da população, dos preço dos alimentos e do preço do petróleo, no mundo, entre 1990 e 2011. Entre 1990 e 2003 o preço dos alimentos e do petróleo cresceram menos que o aumento da população e da economia (PIB). Porém, a partir de 2004 o preço do petróleo disparou e, em seguida, o preço dos alimentos também subiu, mas em ritmo um pouco menor do que o preço do petróleo. Em 2008 os preços do petróleo e dos alimentos chegaram a um pico elevado, caíram em 2009 devido à crise financeira internacional, voltaram a crescer em 2010 e atingiram um dos índices mais elevados em maio de 2011.

Entre 1990 e 2011 a população mundial cresceu 32%, o PIB mundial cresceu 102%, o preço dos alimentos cresceu 95% e o preço do petróleo cresceu 366% até maio de 2011. Até o ano de 2006 o preço dos alimentos tinha crescido em ritmo menor do que o da população mundial. Mas o preço dos alimentos já vinha crescendo em ritmo mais acelerado do que o da população, o que fica mais evidente a partir de 2007. Se esta tendência dos preços dos alimentos continuar, haverá grande pressão os padrões nutricionais da população.

Porém, o que os dados do gráfico 1 sugerem é que o preço dos alimentos segue mais o preço do petróleo do que diretamente o crescimento da população e da economia. De fato o preço do petróleo influi no preço dos fertillizantes, dos diversos defensivos químicos e nos custos dos transportes. A energia é fundamental para a produção agropecuária. Portanto, se o preço do petróleo continuar crescendo o preço dos alimentos também deve crescer.

O petróleo, segundo diversos estudos, parece ter atingido o “Peak Oil”, em 2008, e a oferta mundial deverá se estabilizar e ficar atrás da demanda nos próximos anos, enquanto a procura mundial deve continuar aumentando. Um acontecimento novo do século XXI é que as economias emergentes (e mais populosas) estão crescendo em velocidade muito superior às economia avançadas. Este processo tende a aumentar muito a demanda de petróleo e alimentos. Se estas tendências continuarem, o mundo terá um grande desafio nas próximas décadas que é lidar com o aumento do preço das diversas commodities, a despeito dos esforços recentes do G-20 contra a volatilidade dos preços.

Como o petróleo é uma fonte não renovável de energia e a oferta vai ter dificuldade de acompanhar a demanda, somente o desenvolvimento de outras fontes de energia (como a energia solar, eólica, das ondas, etc.) poderá aliviar as tendências de alta do preço dos alimentos. O aumento da produção de biocombustíveis pode, por um lado, aliviar o aumento do preço do petróleo, mas, por outro, tende a competir com a produção de meios de subsistência e pode ser um fator a mais de pressão sobre o preço dos alimentos.

No final do mês de junho de 2011 o preço do petróleo teve uma redução, especialmente depois que os Estados Unidos e a Agência Internacional de Energia (AIE) liberaram parte das reservas estratégicas de petróleo, devido à crise na Líbia. Isto deve dar um alívio temporário nos preços e na pressão inflacionária que tem se espalhado por quase todos os países do mundo. Porém, se a economia internacional mantiver o ritmo acelerado de crescimento econômico, os preços das commodities devem voltar a subir. Também o aquecimento global, a degradação das terras agricultáveis e a acidez das águas dos rios e dos oceanos devem afetar a oferta dos produtos de subsistência. A combinação do aumento dos custos de produção dos alimentos com a perda de fertilidade das terras e das águas pode trazer sérias consequências para as condições de sobrevivência dos habitantes do Planeta.

A FAO calcula que até 2050 a produção de alimentos terá de crescer 70% para alimentar os estimados 9 bilhões de habitantes do planeta. Seria necessário uma reforma do sistema agrícola global para aumentar a oferta de comida. Mas em qualquer cenário, o mundo vai ter que enfrentar o aumento do custo da produção, devido ao aumento do preço da energia e devido à combinação de perda de fertilidade das terras e águas, em um quadro de mudanças climáticas.

Assim, se, no longo prazo, os preços dos alimentos mantiverem a tendência da última década, uma parcela expressiva da população mundial vai ter dificuldades para garantir o direito à segurança alimentar. A combinação de escassez do petróleo com degradação ambiental pode indicar um cenário de continuidade do aumento do preço dos alimentos, prejudicando especialmente as parcelas pobres das populações dos países que não possuem auto-suficiência alimentar. Em síntese, a fome no mundo pode aumentar. Este vai ser o grande desafio, para os próximos anos, do brasileiro José Graziano, novo diretor-geral da FAO.

Referências:
Helbling, Thomas &  Roache, Shaun. Rising Prices on the Menu and, FMI, F & D, v. 48, março de 2011
http://www.imf.org/external/pubs/ft/fandd/2011/03/helbling.htm
FMI: http://www.imf.org/external/datamapper/index.php
UN/ESA: http://esa.un.org/unpd/wpp/unpp/panel_population.htm
FAO: http://www.fao.org/worldfoodsituation/wfs-home/foodpricesindex/en/
Index mundi: http://www.indexmundi.com/commodities/?commodity=crude-oil-brent&months=300

A redistribuição da economia internacional e os novos desafios ambientais

Os países ricos e desenvolvidos estão passando por uma enorme crise econômica, desde 2007. Após a desaceleração de 2008 e a grande recessão de 2009, esperava-se que houvesse recuperação nos anos seguintes. Mas o curto fôlego só aconteceu em 2010. Tudo indica que as economias americana e da área do Euro podem cair na recessão novamente, caracterizando a situação de “duplo mergulho”. Na melhor das hipóteses os países desenvolvidos vão crescer pouco enquanto não conseguirem resolver seus problemas de altos déficits, altas dívidas e alto desemprego. Entrementes, a maioria dos países em desenvolvimento, a despeito de serem mais pobres em termos de renda per capita, estão apresentando um melhor desempenho econômico (inclusive os países da África ao sul do Saara).

No início da década de 1990, a região desenvolvida (composta por 34 países e com 1,25 bilhão de habitantes em 2011) representava cerca de 2/3 da economia mundial e a região em desenvolvimento (composta por 150 países e com 5,75 bilhões de habitantes em 2011) representava 1/3 da economia do Planeta, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), medido em poder de paridade de compra (ppp). Até o ano 2000 as percentagens mudaram pouco e passaram para 63% e 37%, respectivamente. Porém, após a virada do milênio os países antes considerados do Terceiro Mundo passaram a crescer em um ritmo muito mais veloz, sendo que em 2010 os países em desenvolvimento pularam para 48% da economia internacional e os países desenvolvidos caíram para 52%. As projeções do FMI mostram que haverá empate em 2012 e que a partir de 2013 os países em desenvolvimento passarão a representar mais da metade da economia global. As projeções para 2016 são de 54% para os países em desenvolvimento e de 46% para os países desenvolvidos. As recentes crises na Europa e nos Estados Unidos apenas confirmam e aceleram a mudança na redistribuição da economia internacional.

O fato é que os países em desenvolvimento,  liderados pela China e pela Índia (que juntos possuem mais de 2,5 bilhões de habitantes) devem liderar o crescimento da economia mundial nestas primeiras décadas do século XXI. Somente os 7 grandes países emergentes (China, Índia, Rússia, Brasil, México, Turquia e Indonésia) já representavam 30% da economia mundial em 2010 e devem chegar a 35% no ano de 2016, superando o grupo dos 7 países mais ricos, o G-7 (EUA, Japão, Alemanha, Reino Unido, França, Itália e Canadá).

A Conferência internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada no Cairo, em 1994, estabeleceu que o desenvolvimento é um direito dos povos. Portanto, os chamados países “emergentes” estão colocando em prática os seus direitos de produzirem cada vez mais bens e serviços. Em termos per capita os países em desenvolvimento ainda estão muito distantes dos países “avançados” (usando a terminologia do FMI). Mas as diferenças de renda estão diminuindo.

O processo de convergência da renda de países pobres e ricos é uma grande novidade e uma boa notícia neste alvorecer do terceiro milênio. Porém, o impacto sobre o meio ambiente pode ser dramático, pois o efeito poluidor de um grupo é tão devastador quanto o do outro. Segundo a revista The Economist (04/08/2011), os países em desenvolvimento já são responsáveis pelo consumo mundial de cerca de 75% do aço, 70% do cobre, 55% do petróleo, 80% dos celulares, 55% dos automóveis, etc. Apenas um dado em destaque é suficiente para se ter uma idéia do efeito sobre o meio ambiente: os países em desenvolvimento já são responsáveis por cerca de 60% da emissões de carbono (CO2) do mundo.

Evidentemente, os países desenvolvidos foram os principais responsáveis pelos grandes danos ambientais durante o século XX e ainda continuam grandes poluidores. Porém, se os países em desenvolvimento continuarem a mimetizar o modelo das “economias avançadas”, o dano ambiental para o Planeta Terra será irremediável.

A solucão passa pelo decrescimento do consumo supérfluo, a diminuição dos desperdícios, a redução dos gastos militares e de guerra, a estabilização da população mundial e a transição de uma economia de alto carbono para um economia de baixo carbono, onde os recursos naturais sejam utilizados de uma maneira sustentável e as outras espécies vivas do Planeta sejam respeitadas.

As redes sociais virtuais, se vistas como agentes transformadores da sociedade, são efetivas?

 

Não tenho medo em afirmar que não. Amenizando um pouco, diria que a efetividade das redes sociais virtuais acontece em alguns casos individuais e isolados. De resto, não passam de conversa jogada fora, proveitosa quando se fala de amizades, mas absolutamente inútil quando falamos, por exemplo, na infinidade de eventos associados às redes sociais virtuais.

Há no mínimo uns 10 anos que acompanho (na verdade há bem mais, mas deixa assim…), sendo sete como blogueiro, os movimentos gerados pela internet: chats, ICQs da vida (sim, sei que já inventaram o MSN), listas de discussão, grupos, Orkut e, mais recentemente, Facebook e Twitter (fora a enorme quantidade de outras “redes” similares). Dessas quase não há o que falar: são o suprassumo da inutilidade social. Efetividade próxima ao zero absoluto. Pra se ter uma ideia, no momento mesmo em que escrevo, o assunto do Twitter é o Lula ter cortado o cabelo e a barba. Fora outras discussões estéreis e torcidas pró e contra a cada tombo de ministro. E isso que não sigo os “famosos”. Um verdadeiro tabloide de fofocas virtuais. Muitíssimo pouco se aproveita.

Mas há um item mais próximo ainda do zero em termos de efetividade: os tais eventos reunindo gente ligada às redes virtuais, sejam eles de que espécies forem: congressos, seminários, encontros, teds,  etc. Esses, sob a capa de transmissão de conhecimentos e experiências, nada mais são do que promoção das mesmas figurinhas carimbadas de sempre. Palestras e mais palestras Brasil e mundo afora, de gente falando sempre as mesmas coisas, prometendo as mesmas revoluções, sempre o mesmo “um novo mundo está chegando”, ou “um novo mundo é possível”, cada qual contribuindo com uma inovaçãozinha na forma de ver o mundo.

Mas, como está o mundo lá fora?

Sequer precisaria lembrar a recente divulgação de dados do Censo 2010 para mostrar o como está o mundo lá fora.

Tomo o período compreendido entre a “bolha” (1995-2000) até hoje: 16 anos e faço algumas perguntas: qualquer cinco ou mais respostas “não” é sinal de que concordam comigo: redes sociais virtuais nada mais são do que grandes botecos: muita conversa boa, muita jogada fora, discussões, paqueras e no fim vai todo mundo dormir, pois amanhã temos que trabalhar. Salvo, claro, o #botequimtuitajoaquim.

Lembrando que falo dos últimos 16/20 anos, pergunto:

1. A par de todos os encontros virtuais para discutir a educação, inclusão digital nas salas de aula, a educação no Brasil mudou alguma coisa? Dito de outra forma: todo esse auê em torno da educação mudou efetivamente nossa educação?

2. Ainda no tema: será que simplesmente colocar um computador para cada aluno vai efetivamente mudar o conceito de educação adotado no Brasil, ou simplesmente significará dar acesso a mais gente ao grande conteúdo de bobagens existentes na internet? As redes sociais virtuais contribuem, na educação, para diminuir os índices do chamado analfabetismo funcional, que anda lá pelos 76%?

3. Mantidas as raras exceções, as redes sociais, além dos tradicionais bate-bocas sobre política, efetivamente estão contribuindo para mudar o quadro político brasileiro? Ou a política segue a mesma desde que oficialmente fomos “descobertos”? (um parênteses: na verdade, o que vemos é o surgimento de alguns “coronéis” virtuais, os apregoados e idolatrados “formadores de opinião”, gente de fácil escrever e que, por isso mesmo, é seguido pela turba)

4. As redes sociais virtuais estão sendo capazes de, ao menos, bloquear o genocídio que cometemos no trânsito? Não quero influenciar na resposta, mas o número de mortes no trânsito só faz aumentar ano a ano…

5. Foram as redes sociais virtuais que tiraram os milhões de brasileiros da miséria?

6. Diminuiu o número de “crianças de rua”?

7. Diminuiu o número de traficantes, vendedores e usuários de drogas?

8. Os governos se tornaram efetivamente transparentes?

9. Alguma vez você levantou dessa cadeira aí e foi agir na realidade presencial por ter lido/visto algo nas redes sociais virtuais?

10. As redes sociais virtuais estão nos tornando melhores seres humanos? (ou apenas reproduzimos nela nosso comportamento hipócrita de sempre?)

Eu respondi “não” para as dez perguntas. Não é pra menos, já comecei o texto sabendo onde queria chegar: redes sociais são muito boas para conversar, brincar ou para fazer palestras, mas não servem para transformar a realidade. Quem transforma a realidade está nas redes reais”…

 

UE: O sonho acabou?

Há vinte anos escrevi um artigo no Jornal do Brasil comentando as iniciativa para a criação da União Européia (UE). O  texto era otimista e finalizava com uma citação de parte da música Imagine, de John Lennon :

Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say,
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will live as one

Para mim, o sonho de uma Europa Unida era o começo do sonho de um continente unido, sem fronteiras nacionais, sem guerras, sem religiões, sem preconceitos e vivendo para o dia de hoje (sem o peso do passado e sem perspectivas de dominação para o futuro) e em harmonia com a natureza.

Depois de milênios de guerras e de desavenças entre os países europeus, o tratado de Maastricht abria a possibilidade de uma integração econômica entre países com diferentes culturas e moedas e que teriam de abrir mão de uma parte da soberania nacional para viabilizar a criação de uma moeda única no continente, o Euro. A União Econômica era entendida como um grande passo para coroar a União Comercial e a União Populacional, com a livre circulação dos cidadãos da UE.

Cheguei a imaginar uma Europa Unida como o começo de uma União Planetária, onde todos os países do mundo poderiam viver em harmonia e colaboração, além de instaurar a “Paz eterna”, tão sonhada por Immanuel Kant.

Porém, a situação atual, como mostrou Moisés Naím, não é nada otimista: “A Europa precisa passar por ajustes dolorosos; é impossível ganhar, a não ser que se produza mais. Começou com uma tragédia grega, continuou com um fado português, hoje estamos assistindo a um melodrama italiano e daqui a pouco a história pode terminar com uma retumbante ópera alemã. A crise econômica europeia cresce, se diversifica e se complica. Se continuar como está indo, pode acabar com o projeto mais inovador da geopolítica mundial: a integração europeia” (FSP, 11/11/11) .

O fim da União Européia e o mergulho na recessão e em futuras décadas perdidas em termos de crescimento econômico não será um decisão consciente para reduzir o padrão de produção e consumo rumo a uma sociedade convivial. Ao contrário, poderá acirrar as disputas internas e a xenofobia interna e internacional. Por exemplo, o decrescimento populacional da Europa era visto como uma oportunidade para uma resposta multifásica ao alto crescimento demográfico da África, que poderia abastecer a Europa com a chamada “migração de reposição”.

Contudo, depois de 20 anos de integração, os ódios e desconfianças entre gregos, italianos, franceses, alemães, etc estão em níveis críticos. O Norte da Europa está em “guerra” cultural e econômica com a Europa do Mediterâneo. O esfacelamento da União Européia não será bom para ninguém e nem para o mundo, mas parece que será um processo irreversível.

Assim como o fim dos Beatles, pode-se dizer: “The dream is over”.

Porém, o fim da famosa banda não foi o fim de carreiras solos de cada Beatle em particular e nem o fim do rico legado musical que eles nos deixaram. O sonho de uma próspera e aberta União Européia parece estar chegando ao fim. Mas não é o fim do mundo. Como diria meu conterâneo mineiro, Milton Nascimento, na música “O que foi feito deverá”:

O que foi feito, amigo,
De tudo que a gente sonhou…

Falo assim sem saudade,
Falo assim por saber
Se muito vale o já feito,
Mais vale o que será

E o que foi feito é preciso
Conhecer para melhor prosseguir…

Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz.

UE: O sonho acabou?

Há vinte anos escrevi um artigo no Jornal do Brasil comentando as iniciativa para a criação da União Européia (UE). O  texto era otimista e finalizava com uma citação de parte da música Imagine, de John Lennon :

Imagine there’s no countries
It isn’t hard to do
Nothing to kill or die for
And no religion too
Imagine all the people
Living life in peace

You may say,
I’m a dreamer
But I’m not the only one
I hope some day
You’ll join us
And the world will live as one

Para mim, o sonho de uma Europa Unida era o começo do sonho de um continente unido, sem fronteiras nacionais, sem guerras, sem religiões, sem preconceitos e vivendo para o dia de hoje (sem o peso do passado e sem perspectivas de dominação para o futuro) e em harmonia com a natureza.

Depois de milênios de guerras e de desavenças entre os países europeus, o tratado de Maastricht abria a possibilidade de uma integração econômica entre países com diferentes culturas e moedas e que teriam de abrir mão de uma parte da soberania nacional para viabilizar a criação de uma moeda única no continente, o Euro. A União Econômica era entendida como um grande passo para coroar a União Comercial e a União Populacional, com a livre circulação dos cidadãos da UE.

Cheguei a imaginar uma Europa Unida como o começo de uma União Planetária, onde todos os países do mundo poderiam viver em harmonia e colaboração, além de instaurar a “Paz eterna”, tão sonhada por Immanuel Kant.

Porém, a situação atual, como mostrou Moisés Naím, não é nada otimista: “A Europa precisa passar por ajustes dolorosos; é impossível ganhar, a não ser que se produza mais. Começou com uma tragédia grega, continuou com um fado português, hoje estamos assistindo a um melodrama italiano e daqui a pouco a história pode terminar com uma retumbante ópera alemã. A crise econômica europeia cresce, se diversifica e se complica. Se continuar como está indo, pode acabar com o projeto mais inovador da geopolítica mundial: a integração europeia” (FSP, 11/11/11) .

O fim da União Européia e o mergulho na recessão e em futuras décadas perdidas em termos de crescimento econômico não será um decisão consciente para reduzir o padrão de produção e consumo rumo a uma sociedade convivial. Ao contrário, poderá acirrar as disputas internas e a xenofobia interna e internacional. Por exemplo, o decrescimento populacional da Europa era visto como uma oportunidade para uma resposta multifásica ao alto crescimento demográfico da África, que poderia abastecer a Europa com a chamada “migração de reposição”.

Contudo, depois de 20 anos de integração, os ódios e desconfianças entre gregos, italianos, franceses, alemães, etc estão em níveis críticos. O Norte da Europa está em “guerra” cultural e econômica com a Europa do Mediterâneo. O esfacelamento da União Européia não será bom para ninguém e nem para o mundo, mas parece que será um processo irreversível.

Assim como o fim dos Beatles, pode-se dizer: “The dream is over”.

Porém, o fim da famosa banda não foi o fim de carreiras solos de cada Beatle em particular e nem o fim do rico legado musical que eles nos deixaram. O sonho de uma próspera e aberta União Européia parece estar chegando ao fim. Mas não é o fim do mundo. Como diria meu conterâneo mineiro, Milton Nascimento, na música “O que foi feito deverá”:

O que foi feito, amigo,
De tudo que a gente sonhou…

Falo assim sem saudade,
Falo assim por saber
Se muito vale o já feito,
Mais vale o que será

E o que foi feito é preciso
Conhecer para melhor prosseguir…

Outros outubros virão
Outras manhãs, plenas de sol e de luz.

Nietzsche e Modigliani: breves comentários acerca de um diálogo possível

 

 Há sempre momentos de ironia ao longo da história. As ressonâncias estão sempre a tecer novos fluxos e, muitas vezes, a produzir diálogos anacrônicos, descontínuos. Assim, essas potências (in) atuais, de natureza explicitamente intempestiva, agem e propiciam – à melhor maneira espinosana – bons encontros.

                Nietzsche e Modigliani estão cronologicamente afastados, estão situados em períodos diferentes; nunca houve, entre eles, qualquer relação direta. Tal afastamento, no entanto, não impossibilita o diálogo e a profunda empatia que há entre as obras desses amigos que se (dês)conhecem e que, por força de uma pathos trágico,  mantêm, de forma visceral, uma singular relação com os domínios mais intensos da vida. A questão mais relevante desse diálogo encontra-se no procedimento que ambos utilizam, cada qual à sua maneira, para se manterem em contínua relação com o “fora”. A pintura de Modigliani parece desdobra-se literalmente em um movimento que, por certo, dar-se-ia em termos lacônicos ou, melhor dizendo, sua obra seria uma espécie de pintura-aforismo.  Estaria ela dotada de uma espontânea liberdade que a faz interpretativa e, a partir disso, poder-se-ia, também, denominá-la como sendo uma pintura-fisiológica. Não seria Modigliani um fisiólogo comum, mas sim um fisiólogo-artista com todos os cuidados e capacidades afetivas e amorais que o tornam um singular interprete do mundo. Essa relação com o mundo – com a potência implícita nos vividos – faz de Modigliani, e de sua obra, um exemplo de imediata relação com o “fora”. Não há, pois, uma latente interioridade, ou mesmo uma relação mediada a custos com o mundo. Os traços estão longe das representações, são, antes, forças que se produzem numa exterioridade. A pintura salta da tela, deseja o que é vida.

                Modigliani encontra-se, quase sempre, em consonância com Nietzsche.  O filósofo, tal qual o pintor, está interessado em uma expressão que se dê mediante movimentos que proporcionem uma interpretação e avaliação do mundo. Os meios encontrados por Nietzsche são, obviamente, diferentes, mas não opostos aos do artista. Nietzsche funda sua escrita em poemas e aforismos – o primeiro tem por intuito fazer emergir sentido(s), ao segundo cabe a avaliação. É nessa perspectiva, por exemplo, que Nietzsche entenderá que cabe ao filósofo do futuro ser artista e médico – ou, em sentido geral, um legislador. O que caracteriza o estilo nietzschiano é justamente o uso desses elementos da escrita e sua relação não mediada, e sim direta, com o fora. Há,assim como na pintura de Modigliani, uma relação com o exterior que não reconhece interioridades. Tanto Maurice Blanchot, quanto Gilles Deleuze reconhecem essa característica no pensamento nietzschiano; é Deleuze, no entanto, quem nos diz:

Com efeito, quando se abre ao acaso um texto de Nietzsche, é uma das primeiras vezes que não passamos mais por uma interioridade, seja a interioridade da alma ou da consciência, a interioridade da alma ou da consciência, a interioridade da essência ou do conceito, ou seja, daquilo que sempre fez o princípio da filosofia. O que faz o estilo da filosofia é o fato de que a relação com o exterior é sempre mediada e dissolvida por uma interioridade, numa interioridade. Nietzsche, ao contrário, funda o pensamento, a escritura, sobre uma relação imediata com o exterior. (DELEUZE, 1985, p.60)

Dessa maneira, por tanto, pode-se compreender que a relação existente entre Modigliani e Nietzsche é, substancialmente, atrelada às intensidades que ambos, cada qual de acordo com suas possibilidades, experimentaram. Nietzsche trabalha a escritura e a faz enquanto intensidade, numa relação entre forças ativas que conduzem a uma vontade que quer na vontade (Vontade de Poder), que não cede aos caprichos das forças reativas. Modigliani, por sua vez, cria, plasticamente, estratégias para escapar das representações. Suas pinturas promovem uma fragmentação do “eu” exposto, figurado. São, sobretudo, figuras-intensivas não representáveis. Modigliani impulsiona, em seu ato criativo, o que há de vital – não apenas o que está em relação mediada com o fora, mas o que dele é parte constituinte e não antes significativa, interiorizada.  Os traços do artista, bem como a escrita do filósofo, buscam um saber novo. Escrita e pintura são maneiras de tornar explícita a potência dos corpos; de fazer com que as intensidades e as forças informais – que constituem os desdobramentos da vida – produzam, mediante um aligeirar-se caótico e criativo, novas singularidades. Assim, pois, poderíamos perguntar com Deleuze:

O que é uma bela pintura ou um desenho muito belo? Há um quadro. Um aforismo também é um enquadrado. Mas a partir de que momento se torna belo o que está no quadro? A partir do momento em que se sabe e se sente que o movimento, que a linha que é enquadrada vem de outro lugar, que ela não começa nos limites do quadro. Ela começou acima, ou ao lado do quadro, e a linha atravessa o quadro. Como no filme de Godard, pinta-se o quadro com a parede. Longe de ser a delimitação da superfície pictórica, o quadro é quase o contrário, é o estabelecimento de uma relação imediata com o exterior. (1985, p.60-61)

Nietzsche e Modigliani produzem obras a-significantes, a-gramaticais e isentas de territorializações. Criam, com isso, suas próprias maneiras de falar sobre as questões que lhe são correntes; dão às suas respectivas obras um caráter de singular beleza.

Ressonâncias biográficas

                A biografia de Nietzsche indica, em quase todo o seu percurso, uma rara capacidade de descolamento de perspectivas.  A avaliação de seus vividos são exemplos claros de uma saúde superior. Modigliani, sob determinados aspectos, também procede por tais deslocamentos; ambos eram instintivamente saudáveis por encontrarem, em suas respectivas doenças, modos de avaliação da vida. 

              Nietzsche, como se sabe, sofria constantes crises; sua saúde era vulnerável e eram recorrentes suas dores de cabeça e perturbações oculares – dentre outros tantos problemas que o impedia de manter atividades regulares, a saber, por exemplo, a leitura. Não se sabe os motivos reais que o levaram, paulatinamente, a uma paralisia geral irreversível, mas esse é, por certo, o momento em que ele perde a capacidade de deslocar perspectivas e é, também, o fim de sua obra. Modigliani também possuía uma saúde frágil, era freqüentemente tomado por crises motivadas por uma tuberculose mal curada. A questão, no entanto, é a maneira como esses artistas da vida souberam tratar seus problemas. Se ambos estão, de alguma maneira, em acordo, é justamente pelo fato de terem – mediante as possibilidades encontradas em suas vidas – experimentado a potência de uma existência transbordante, de uma vida plena. “Um ser tipicamente doente não pode tornar-se são, e menos ainda curar-se a si mesmo; para quem é tipicamente saudável, estar doente pode, pelo contrário, ser mesmo um energético estímulo de vida, de mais vida” (s.d, p.23) escrevera Nietzsche em sua autobiografia. Não faltaram, à Modigliani e a Nietzsche, a delicadeza e a cortesia. Ambos mantiveram-se fiéis às intempestividades, perdições e contingências de uma vida “maldita”. Suas obras são vivências expandidas, ultrapassam o que há de meramente pessoal em uma vida de modo a se produzirem através de formas impessoais, de uma individuação sem sujeito – ou, como diria Deleuze valendo-se de Duns Scot, uma hecceidade. Aforismos, poemas, pinturas: “pacotes de sensações e de relações que sobrevivem àqueles que os vivenciam” (DELEUZE, 2010, p.175).  

                Fica evidente que as obras desses fisiólogos estão sempre à procura de fluxos de intensidades, reconhecendo em seus estados vividos a potência de uma vida imanente. A alegria e o riso estão, a todo instante, a atravessar suas obras – são, em sentido lato, matérias primas para criação de ambos. Não é mera coincidência que esses médicos da civilização tenham, quase sempre, tido uma saúde frágil. Poderíamos dizer, a respeito desse fato que

(…) um artista não pode se contentar com uma vida esgotada, nem com uma vida pessoal. Não se escreve com o seu eu, sua memória e suas doenças. No ato de escrever há a tentativa de fazer da vida algo mais que pessoal, de liberar a vida daquilo que a aprisiona. O artista ou filósofo têm freqüentemente uma saúde frágil, um organismo fraco, um equilíbrio pouco garantido, Espinosa, Nietzsche, Lawrence. Mas não é a morte que os quebra, é antes o excesso de vida que eles viram, provaram, pensaram. (DELEUZE, 2010, p.183)

Em suma, essa admirável relação só pode ser estabelecida, e compreendida em seus limites, a partir daquilo que Nietzsche denominou de amor fati. Nietzsche e Modigliani atacam os dispositivos platônicos que impedem o movimento da vida – Modigliani talvez o faça de maneira inocente, mas não menos efetiva. Ambos estão a experimentar o descentramento do corpo trágico, a alegria do corpo não-orgânico – como o fez, também, Artaud. Ora, “Como será possível alegrarmo-nos com o mundo, a não ser quando nos refugiamos nele?” (1992, p.17) nos pergunta Kafka – notadamente imbuído de um espírito trágico.

As forças dessas singularidades manifestam-se em formas diversas, múltiplas; estão sempre a voltar à superfície – ao lugar onde as coisas acontecem. Esses agentes da transfiguração produziram novos modos de atuação frente às representações apáticas da filosofia e da arte, cujo longo percurso sempre tratou de dar, monótona e linearmente, um certo  embrutecimento às capacidades do corpo-criativo. É nesse sentido que, em acordo com Deleuze, podemos dizer que “Criar não é comunicar mas resistir. Há um liame profundo entre os signos, o acontecimento, a vida, o vitalismo. É a potência de uma vida não orgânica, a que pode existir numa linha de desenho, de escrita ou de música. São os organismos que morrem, não a vida.” (2010, p.183)

Assim, mediante a capacidade extemporânea de suas obras, Nietzsche e Modigliani continuam atuais e a incomodar essa massa passiva de caducos interpretes de um mundo fantasmagórico que reivindica, para si, apenas a tristeza do que é reativo. A pintura modiglianesca, bem como a escrita nietzschiana, são, em primeira e última análise, formas de afirmação da vida em sua pura imanência, conservam em si blocos de sensações, compostos de perceptos e afectos.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

DELEUZE, Gilles. Conversações. São Paulo: Ed.34, 2010.

___________. Pensamento nômade. In: MARTON, Scarllet (Org.). Nietzsche Hoje? São Paulo: Editora Brasiliense S.A, 1985.

KAFKA, Franz. Considerações sobre o pecado, o sofrimento, a esperança e o verdadeiro caminho.  Lisboa: Hiena Editora, 1992. 

NIETZSCHE, Friedrich. Ecce Homo. Lisboa: Edições 70, s.d. 

A Era do Sol/Vento

A era do petróleo está com os dias (ou anos) contatos. O petróleo e demais fontes fósseis de energia são finitas, não-renováveis e poluidoras. O mundo já está chegando ao pico da exploração do chamado “ouro negro” e nas próximas décadas a participação do petróleo na matriz energética mundial vai declinar continuamente.

Mas não precisamos esperar exaurir as reservas de petróleo, gás e carvão para iniciar uma mudança na matriz energética mundial e brasileira. Podemos desde já iniciar a utilização de fontes energéticas que estão à disposição da humanidade e que são infinitas, limpas e ecologicamente sustentáveis. A idade do petróleo pode acabar antes do fim de suas reservas.

A civilização do petróleo, gás e carvão provocou um grande dano ecológico ao Planeta, como as mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global. Porém, a concentração de gases de efeito estufa vai continuar aumentando, mesmo com a redução da queima dos combustíveis fósseis. Assim, quanto mais rápido for feita a mudança da matriz energética, menores serão os custos de uma catastrófe ambiental.

Felizmente, a natureza é prodiga em fontes alternativas de energia. Estas fontes sempre tiveram disponíveis para todos os seres vivos da Terra. O ser humano fez a opção errada de queimar o carbono que a natureza estocou por milhões de anos nas matérias orgânicas.

Agora está na hora de corrigir o erro e começar uma nova Era, na qual a energia solar e a energia eólica vão se tornar as principais fontes de energia na Terra. A idade da pedra não acabou por falta de pedras. Podemos também abreviar o fim da era do petróleo.

O Prêmio Nobel de Química de 1998, Walter Kohn, em palestra na Sociedade Americana de Química, disse que, na última década, a produção mundial de energia fotovoltaica multiplicou-se por um fator de 90, e a energia eólica por um fator de cerca de 10 vezes. Ele considera que crescimento dessas duas fontes energéticas inesgotáveis e limpas, deve se acelerar ainda mais na atual década, possibilitando o surgimento de uma nova era civilizacional, a “Era do Sol/Vento”.

Esta Era já começou a ser construída. Por exemplo, no discurso sobre o Estado da União, dia 25/01/2011, o presidente Obama colocou como meta, para 2035, os Estados Unidos atingir 80% da produção de eletricidade por meio de energias renováveis. A Costa Rica quer ficar livre das energias fósseis nos próximos 15 anos e a Alemanha no máximo até 2050. A China, apesar da alta poluição interna, é o país que mais investe na produção de energia solar e eólica.

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, em discurso no Fórum Econômico Mundial 2011 (WEF), de Davos, reforçou a necessidade de se fazer uma revolução na geração de energia para garantir a sustentabilidade ambiental: “Uma revolução global de energia limpa é essencial para minimizar os riscos climáticos, reduzir a pobreza, melhorar a saúde pública e incentivar o crescimento econômico”.

O futuro da humanidade e da biodiversidade na Terra dependem do auto-controle humano. É preciso uma redução das atividades antropogênicas. A maior ameaça do século XXI é o aquecimento global. Mudar o padrão de produção e consumo que polui e degrada o Planeta é uma tarefa urgente. Sem energia renovável até as esperanças se esgotam. Criar a civilização do sol/vento é uma grande contribuição para se evitar o fim da existência de boa parte das espécies de vida na Terra.