Classismo, sexismo, escravismo, racismo, xenofobismo, homofobismo e especismo

O teocentrismo dominou o pensamento ocidental por mais de mil anos. O livro de Gênesis descreve a criação do mundo por Deus da seguinte forma: No primeiro dia, Deus criou a luz. No segundo dia, criou o firmamento. No terceiro dia, separou as águas da terra e mandou a terra fornecer ervas, plantas e árvores frutíferas. No quarto dia, criou luzes no firmamento para separar a luz da escuridão e marcar dias, estações e anos. No quinto dia, mandou o mar se encher de criaturas vivas e os pássaros voarem pelos ares. No sexto dia, mandou a terra produzir criaturas vivas (animais domésticos, répteis e animais selvagens segundo as diversas espécies) e, por último, criou o ser humano (primeiro o homem e depois a mulher) à sua própria imagem e semelhança, ordenando: “Frutificai, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todos os animais que se arrastam sobre a terra.” No sétimo dia Deus descansou.

Esse teocentrismo traz em seu bojo uma visão antropocentrica (teo-antropocentrismo), pois, segundo esse mito do surgimento do mundo, o ser humano foi criado à imagem de Deus, possuindo uma missão de se multiplicar e dominar a Terra e todas as espécies vivas do mundo. Mas, na tradição bíblica, embora o “Homem” tenha sido criado à imagem e semelhança de Deus ele não possui os poderes divinos, já que foi condenado a ter uma vida de sofrimentos na Terra, devido ao Pecado Original que provocou a expulsão de Adão e Eva do Paraíso. Somente pelo esforço, as penitências, as orações, os sacrifícios e muito trabalho o ser humano poderia conseguir a reabilitação divina e atingir, depois da morte, a vida eterna no paraíso perdido. A principal lição do teocentrismo-antropocentrico é que a natureza – criada por uma Força Superior – é imutável  e que o ser humano é incapaz de alterar a ordem natural do mundo e tampouco a sua própria condição na Terra. Além do mais, a ordem hierarquica da natureza se reproduzia na sociedade humana, sendo que os reis (e a nobreza) tinham seus privilégios e riqueza atribuídos à origem divina e o clero tinha os privilégios de quem, supostamente, possuia contato direto com as leis divinas.

O renascimento, o empiricismo e o iluminismo foram movimentos que surgiram, no início da idade moderna, para se contrapor ao teocentrismo e ao poder das religiões sobre os costumes, a organização social e a ciência. Ajudados pela Reforma Protestante e por uma nova classe social que não estava ligada à renda da terra, mas sim ao comércio internacional e à industria, estes movimentos provocaram uma onda de revoluções, cujos eventos mais marcantes foram a Revolução Gloriosa (1688), na Inglaterra, a Independência dos Estados Unidos (1776) e a Revolução Francesa (1789).

Com base no empirismo e no iluminismo os pensadores progressistas dos séculos XVII e XVIII buscaram combater os preconceitos, as superstições e a ordem social do antigo regime. Trocaram o teocentrismo pelo antropocentrismo. Ao invés de uma natureza incontrolável e caótica, passaram a estudar suas leis e entender o seu funcionamento. Associavam o ideal do conhecimento científico com as mudanças sociais e políticas que poderiam propiciar o progresso da humanidade e construir o “paraíso na terra”.

Entre os pensadores iluministas podemos encontrar aqueles que eram contra os privilégios da nobreza (classismo), contra a escravidão (escravismo), contra o racismo, contra os privilégios masculinos sobre os femininos (sexismo) e contra o preconceito contra estrangeiros e migrantes (xenofobismo).

Os pensadores iluministas buscaram substituir o Deus onipresente e onipotente da religião e das superstições populares pela Deusa Razão. Eles acreditavam que semeando razão se colheria progresso. De fato, as idéias iluministas foram fundamentais para o avanço da educação, da ciência e tecnologia e para o desenvolvimento econômico dos povos do mundo. Porém, a forma concreta como isto se deu foi por meio da Revolução Industrial e todas as suas consequências.

Na prática novas relações sociais foram implementadas com o desenvolvimento da sociedade industrial e o classismo, o sexismo, o racismo e o xenofobismo foram reconfigurados. O escravismo foi abolido oficialmente no final do século XIX e o Brasil foi o último país a acabar com a escravidão legal (embora ainda haja escravidão em escala local).

Na verdade, a razão e o progresso não foram implementados para o conjunto da humanidade e muito menos para o conjunto dos seres vivos do Planeta. O novo antropocentrismo passou a utilizar a razão, não como uma fonte substantiva de pensamento finalistico e valorativo, mas sim como uma razão instrumental a serviço da dominação da natureza e das espécies e dos diversos segmentos da população humana. Assim como muitos crimes e guerras foram cometidos em nome de Deus, também muitos crimes e guerras foram cometidos em nome da Deusa Razão.

O mundo continua um lugar perigoso, desigual e sem um rumo razoavelmente definido. Mas entre os avanços conquistados, diveros estão consolidados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Os quatro primeiros artigos da Declaração dizem o seguinte:

1° – Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.

2° – Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação.

3° – Todo indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.

4° – Ninguém será mantido em escravatura ou em servidão; a escravatura e o trato dos escravos, sob todas as formas, são proibidos.

Um item que ainda está longe de conseguir legitimidade e uma legislação adequada é o combate ao homofobismo e a todas as manifestações de homofobia. Mas em outras áreas houve grandes avanços, embora a civilização humana ainda esteje longe de tratar todos os seus membros de forma justa e igualitária. Porém, existem instrumentos para se combater as discriminações adivindas do classismo, escravismo, sexismo, xenofobismo e homofobismo.

Contudo, permanece a velha concepção  antropocêntrica que se manifesta na separação entre natureza e cultura e na falta de instrumentos para combater o especísmo. Ou seja, o ser humano continua a discriminar os animais sencientes, utilizando-os para a alimentação, para diversos usos e a prática da “escravidão animal”. Muitas pessoas ainda acreditam que pelo simples fato de serem humanos e racionais possuem mais direitos e maior poder sobre a vida de outros seres vivos de outras espécies. É a racionalidade instrumental a serviço do egoísmo humano e em nome da dominação e exploração de outras espécies.

Ou seja, é preciso colocar um fim ao especísmo. Os Direitos Humanos não podem estar em contradição e em conflito com os direitos da Terra e os direitos da biodiversidade. A humanidade precisa saber utilizar a sua racionalidade, não para a dominação e a exploração predatória da Terra e das demais espécies vivas, mas é preciso saber utilizar a razão para a convivência pacífica e harmoniosa entre todos os seres vivos do Planeta.

O que tem 2011 a ver com angústia?

Perdoem a petulância da total generalização do texto. Isso significa que farei intercambiáveis a terceira e a primeira pessoas. Quem sabe uma forma de aliviar a angústia seja essa: compartilhar; pensar que aquilo que sinto seja o mesmo que todo mundo sente.

Se há uma palavra que defina 2011, mais que qualquer outro ano, essa palavra é angústia. Não sei o que dizem os dicionários, mas a mim parece ser algo indefinido. E é justamente essa indefinição que a distingue de outras sensações.

Tenho eu o dever, por mais velho que sou, de compreender a ignorãncia? Não teria que, necessariamente, por mais velho que sou, aceitar o fato de que a ignorância (no bom sentido, claro) só aumenta com o passar do tempo, com a influência da mídia institucionalizada e com um sistema educacional cada vez mais raso?

A angústia nasce da dúvida. “Se duvido, penso”, disse Descartes. Eu, se fosse ele, teria dito “se duvido, sinto!” E o que outra coisa nos foi oferecida no ano de 2011 senão dúvidas? E pensamos em 2011? Não creio!

Tenho a impressão de que, para fugir da angústia, permanecemos atores da peça de sempre: reclamamos disso e daquilo, sabendo que, no fim, queremos mesmo é continuar a reclamar… Desde que não nos falte, claro, um bom Deus a nos salvar e uma gelada Cerveja a nos saciar… Que esteja líquida, não congelada!

Assim foi 2011: terminanos sabedores de que ultrapassamos a Inglaterra; terminamos sabedores (daquilo que todos intuíamos) de que também somos um dos países mais corruptos (… e disso sempre soubemos).

Deus? Filósofos? Antropólogos? Cientistas? O Escambau? Ninguém, mas ninguém mesmo, foi capaz de fazer o necessário: ruptura! Uma ruptura real com a “modernidade” e com todos os sistemas criados nela e por ela. Muito papo, muito livro, teorias, cada qual inventando a sua para “interpretar”… Muito encontro, congresso, muito “mais dos mesmos”. Saída, que é bom, nenhuma… Nunca a humanidade teve tanto guru como em 2011. Em todos os campos, principalmente os ligados aos temas da internet, ou da “era digital”.

Não costumo ser do tipo que acha que existe “a verdade”, mas verdade seja dita: o que a humanidade produziu de 1456 pra cá foi só merda! E por favor não me venham com o argumento de que a ciência produziu qualidade de vida, aumento na expectativa de vida, mais saúde, etc. Basta uma simples pergunta: pra quem, cara pálida?

Para os dois bilhões que vivem com fome e sede? Para os dois bilhões que mal e porcamente conseguem sobreviver e acreditam no rótulo de “classe média”? Para os 2 bilhões que vivem abaixo de uma linha imaginária – porém muito real – da “miséria”? Ou será que alguém aqui imagina que o mundo é feito das “redes”?  Sim, a rede matou Bin Laden; matou Kadafi, matou palestinos, matou japoneses, matou peixes asfixiados em petróleo, nos mata a cada dia…

 E adoramos dizer que todo mundo agora tem celular, televisão… mas não tem saneamento básico, saúde, educação, segurança… E terminamos 2011 sem nada disso, ou para muito poucos…Chega a ser inacreditável que no ano de dois mil e onze estejamos no estágio que a humanidade se encontra. O fim do mundo virou meme. Os ismos se exacerbaram, atingindo o que poderia parecer o ápice, mas é tão somente o meio da subida. E por quê? Porque insistimos que colocar quem ainda não está no “consumismo”, no “individualismo”, no “capitalismo”, no “politiquismo”…. Escolham!

Alternativas existem muitas sendo praticadas por aí. E por que não conseguem fazer a necessária ruptura? Porque são exatamente isso, alternativas. E alternativas, via de regra, carregam em si o germe de onde nascem. Não é por menos que tudo é absorvido pelo sistema e passa a ser sistema. Um exemplo paradigmático são os produtos ditos “orgânicos”. Para se tornarem mais baratos, precisam de escala (percebam que até o raciocínio é o do sistema); para terem escala vendem onde? Nos templos do consumimo: os super/hiper mercados. Ou seja, continuamos no mesmo modelo, sem rupturas…

Nosso sistema político de representação; nosso sistema de tripartição de poderes do Estado, nosso sistema jurídico… Tudo velho e carcomido e não vemos possibilidade de rupturas…

Talvez seja essa a angústia que toma conta das pessoas: percebem a necessidade de uma ruptura mas sentem-se impotentes para realizá-la.

E cobrimos nossa angústia com a hipocrisia de achar que está tudo bem. Afinal, já somos a 6ª maior economia do mundo…

A composição dos atos mínimos


A vida hoje exige pedaços cada vez maiores de cada um, de cada coisa (ato, pessoa e objeto). As declarações estão se tornando mais caras: declarações de amor, de bem querer, de desistir, de preferir amanhã o que não se pode ter agora, de permanecer ausente, de precisar de uma proximidade sufocante; declarações de Aniversário, Natal, Ano Novo. Declarações reproduzidas, programadas, incansavelmente pesquisadas na internet. Não se pensa no outro como conteúdo singular. A mesma declaração para qualquer pessoa disponível. A repetição da palavra sem sentido.

Os presentes são grandes, coloridos, roem o valor do bolso e esvaziam a honestidade dos sentimentos. Pessoas que passaram o ano construindo uma indevassável e descomunal muralha de intolerância tentam acentuar a gravidade da maldade escorada em todas as suas atitudes: Um cartão de natal, um abraço opaco. Elas não sabem como recomeçar. Preferem o valor das coisas (ato, pessoa e objeto) à delicadeza que é reconhecer equívocos e aceitar particularidades. 
 
Algumas pessoas desistem do próprio entendimento. Elas não olham para cima pelos pedaços calmos de nuvens que espalham sombras redondas. Não entendem que dentro do peito tem céu. Buscam salvação no valor, no preço, na marca, na facilidade de ter por perto alguém que não precisa ser nada parecido com o que satisfaz sua decência.
 
O natal está quebrado. O amor agora é vidro. E os homens são papel picado ao vento.
 
 
 
E a vida é cheia de atos mínimos que salvam. E poucos executam. Quando digo imensidão o que vem a sua cabeça? A grandeza das coisas não reside no tamanho delas, mas na execução do ato que as compõe, que as constitui, nos espaços que podem ser alimentados, na fome que pode ser preenchida com detalhes.

Alguns gestos sustentam-se nas sombras que projetam, são máculas destoantes presas ao comportamento de alguns homens e mulheres que buscam uma grandiosidade inalcançável. 
 
Não existirá história de amor (histórias de natal, de regresso, de união) sem rascunhos. Poucos aceitam algum risco, correm em direção ao incerto. Correr riscos? Nem pensar. Como andar por linhas tortas sem perder o equilíbrio?
 
Não é um dia de morte. Não é um dia para acreditar nas coisas que não deram certo. O ano todo foi constituído de fragmentos de pequenos desastres. O nosso. Pequenos incidentes que riscaram a dignidade e que não ajudaram na escolha que se seguiu. Ficamos amarrados e desajeitados à expectativa de que enormidades surjam à nossa frente e invadam a costa do nosso porto vazio: que não houvesse discordâncias, que o dinheiro triplicasse seu poder, que o chefe fechasse o ódio e insatisfação dentro de sua arrogância, que o amor viesse inteiro e magnífico, próximo, e repleto de uma majestade inconfundível que não aceita falhas e desvios. 
 
Esperamos um mundo novo começar. 
 
Esquecemos do mesmo mundo, nosso, que sobrevive com minudências. 
 
O amor é um fragmento de bem querer que precisa de tempo para surgir enquanto continente. Ele não se move. Nós vamos até ele.
 
 Amor ancorado em fantasia não vai a lugar algum.
 
Então construa uma árvore de natal dentro dos olhos, e enxergue a vida perdida de alguém que você aceita: Aqui está o Natal. Aí está o futuro
 
 
 

O Manifesto Slow Science

___Em meio a uma conversa, um amigo querido me falou sobre a Slow Science. Eu, que nunca havia ouvido falar, fui me informar sobre o que se tratava. Achei a ideia bem interessante, tanto que acabei por divulgá-la no meu blog.
___Como as ideias da Slow Science parecem combinar com os interesses dos leitores do Ops! (portal que jocosamente tem se chamado de “Um bunker da web 1.0”), achei que valia a pena divulgar o manifesto do movimento por aqui.

alt

###

O MANIFESTO SLOW SCIENCE

Somos cientistas. Não blogamos nem tuitamos. Não temos pressa.

Sem mal entendidos. Somos a favor da ciência acelerada do início do século XXI. Somos a favor do fluxo interminável de revistas com pareceristas anônimos e seu fator de impacto; gostamos de blogs de ciência e mídia, e entendemos as necessidades que relações públicas impõem. Somos a favor da crescente especialização e diversificação em todas as disciplinas. Queremos pesquisas que tragam saúde e prosperidade no futuro. Estamos todos neste barco juntos.

Acreditamos, entretanto, que isto não basta. A ciência precisa de tempo para pensar. A ciência precisa de tempo para ler, e tempo para fracassar. A ciência nem sempre sabe onde ela se encontra neste exato momento. A ciência desenvolve-se de forma instável, através de movimentos bruscos e saltos imprevisíveis à frente.  Ao mesmo tempo, contudo, ela muitas vezes emerge lentamente, e para isso é preciso que haja estímulo e reconhecimento.

Durante séculos, slow science foi praticamente a única ciência concebível; para nós, ela merece ser recuperada e protegida. A sociedade deve dar aos cientistas o tempo de que eles necessitam, e os cientistas precisam ter calma.

Sim, nós precisamos de tempo para pensar. Sim, nós precisamos de tempo para digerir. Sim, nós precisamos de tempo para nos desentender, sobretudo quando fomentamos o diálogo perdido entre as humanidades e as ciências naturais. Não, nem sempre conseguimos explicar a vocês o que é a nossa ciência, para o que ela servirá, simplesmente porque nós não sabemos ainda. A ciência precisa de tempo.

– Tenham paciência conosco, enquanto pensamos.

(Tradução de José Eisenberg; revisão Antonio Engelke. Retirado de http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2011/08/11/manifesto-da-slow-science/)

 

População humana e seus animais humanificados

O ser humano começou a dominar a agricultura e a domesticar os animais durante a chamada “revolução neolítica”, há cerca de 10 mil anos. Com o acesso regular aos grãos e às carnes, houve uma melhora na alimentação, o que possibilitou que o aumento demográfico se mantivesse lento, mas crescente ao longo dos séculos. Calcula-se que no ano 1 da Era Cristã a população mundial estivesse em 250 milhões de habitantes, passando para 500 milhões por volta do ano 1500, um bilhão por volta do ano 1800 e sete bilhões de habitantes em 2011. 

De revolução em revolução, o homo sapiens se espalhou por todos os cantos do Planeta e se tornou uma espécie onipresente. Existem pessoas que consideram que o ser humano é muito “espaçoso” e não se importa com a biodiversidade e a sobrevivência de outras espécies. Inúmeras pesquisadores consideram grave o fato de o ser humano já ter uma pegada ecológica maior do que a Terra pode sustentar. Outros, como a revista National Geographic, acham que, colocados lado a lado, os sete bilhões de habitantes do mundo cabem dentro dos limites de uma cidade grande, como a região metropolitana de São Paulo.

Porém, as pessoas não vivem em pé, lado a lado, e precisam de casas para morar, escolas para estudar, hospitais para se tratar, áreas de lazer, etc. Principalmente, precisam de terras para cultivar grãos, legumes, hortaliças e espalhar os rebanhos que são fontes ricas e fartas de proteína. Desta forma, a ação humana vai muito além dos seus limites físicos. Para medir o impacto ecológico da humanidade é preciso levar em consideração o conjunto das atividades antrópicas.

Vejamos apenas o número dos principais rebanhos terrestres a serviço dos interesses dos sete bilhões de humanos. Segundo dados de 2009 da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) existiam no mundo 19 bilhões de galinhas, 1,4 bilhão de bovinos, 1 bilhão de porcos, 1 bilhão de ovelhas e um número considerável de cabritos, búfalos, coelhos, capivaras, javalis, avestruzes, gansos, perus, patos, etc. Sem contar outros animais domesticados como cavalos, camelos, gatos, cachorros, etc. (há também bilhões de ratos, mas as estatísticas não são precisas sobre estes roedores).

Os dados quantitativos não consideram o lado qualitativo das muitas desigualdades e crueldades existentes, tanto entre os humanos animalizados, quanto entre os animais humanificados. O fim das touradas, em Barcelona, é um pequeno reconhecimento da necessidade de mudança de rumo (mas os rodeios continuam girando milhões no mundo, financiados pelos matadouros e outras empresas que lucram com a comercialização da carne animal).

Ainda segundo dados de 2009 da FAO, a China tinha 4,7 bilhões de galinhas (3,6 por habitante), 451 milhões de porcos, 128 milhões de ovelhas e 80 milhões de vacas e bois. Assim, a China é proprietária dos maiores rebanhos suíno, ovino e avícolo. O Brasil, com o maior rebanho bovino do mundo, tinha 210 milhões de vacas e bois (o Brasil tem mais gado do que gente). Tinha também 1,2 bilhão de galinhas (6,5 por habitante), 40 milhões de porcos e 16 milhões de ovelhas. Os Estados Unidos tinham 2 bilhões de galinhas (6,8 por habitante),  100 milhões de vacas e bois, 65 milhões de porcos e 6 milhões de ovelhas. A Índia também possui consideráveis rebanhos bovino, suíno, ovino e forte avicultura.

Não é preciso muito esforço para imaginar o quanto de terra, água e ar é preciso para alimentar todo estes rebanhos que servem para saciar a fome e até a gula dos seres humanos. O gado bovino, por exemplo, tem um impacto ecológico enorme. Além da grande quantidade de terras necessárias para as pastagens (muitas delas obtidas por meio de desmatamento de florestas, cerrados e savanas), calcula-se que na produção de um quilo de carne bovina são gastos 15 mil litros de água, conforme estimativa do pesquisador John Anthony Allan, que usa a metodologia da chamada “água virtual”, considerando todas as etapas da cadeia produtiva.

Além disto, o boi e a vaca são animais ruminantes, cujo processo digestivo provoca uma fermentação que faz o animal liberar muito gás metano. O metano é o segundo gás que mais contribui para o efeito estufa, sendo 21 vezes mais poluente do que o gás carbônico (CO2). Cada animal bovino adulto  libera cerca de 56 quilos de metano por ano. Portanto, os 1,4 bilhão de bois e vacas do mundo liberam algo em torno de 78 milhões de toneladas de metano por ano, o que é uma contribuição significativa para o aquecimento global.

O impacto ecológico de todos os animais domesticados para uso alimentar (galinhas, vacas e bois, ovelhas, porcos, búfalos, patos, etc) ou para lazer e outros desfrutes (cavalos, cachorros, gatos, etc.) é enorme. Por exemplo, o desmate das franjas da floresta amazônica não está sendo feito tanto pela ocupação propriamente humana, mas sim para a venda de madeiras, a propriedade do solo e a criação de áreas de pastagens para o gado. A densidade demográfica da Amazônia legal é baixa, mas as áreas devastadas, a ferro e fogo, são enormes.

A continuidade do crescimento da população e de seus rebanhos é uma séria ameaça ao meio ambiente e à biodiversidade. Além disto, o consumo excessivo de carnes provoca a obesidade e diversos problemas de saúde. Atualmente, em várias regiões do mundo, a obesidade mata mais do que a fome.

Assim, para minorar o impacto ambiental e melhorar a saúde individual existem campanhas para a diminuição do consumo de carne, tais como: “Um dia sem carne: o planeta agradece!” (Meatless Day). Nestas campanhas se considera que a alimentação sem produtos de origem animal aumenta a disposição e diminui os estragos no planeta, pois ajuda a) Evitar câncer; b) Perder peso; c) Baixar o colesterol.

Além das campanhas de um dia sem carne existe a dieta vegetariana que propõe diminuir ao máximo o uso de carnes e até mesmo evitar qualquer alimento de origem animal. As dietas vegetarianas buscam substituir as proteínas animais por alimentos ricos em carboidratos, fibras dietéticas, magnésio, potássio, etc. Uma alimentação vegetariana adequada pode ser capaz de atender às necessidades nutricionais do organismo, na medida em que se garanta a adequada combinação dos alimentos.

Porém, o vegetarianismo é muito mais do que uma preocupação com o aquecimento global. Antes de tudo é uma filosofia que remonta à antiguidade e se baseia na concepção de respeito aos animais e na negação da suposta superioridade humana. O vegetarianismo filosófico defende a vida animal e condena o consumo de carne por motivos morais e por solidariedade entre as espécies. Entre grandes personalidades vegetarianas da história se destacam Buda, Plutarco, Ovídio, Leonardo da Vinci, Tolstoi, Mahatma Gandhi, etc.

Nesta mesma linha, o Veganismo é uma filosofia de vida motivada por princípios filosóficos e éticos, tendo como base os direitos inalienáveis de todos os animais. Os veganos defendem o boicote a qualquer produto de origem animal ou de produtos que tenham sido testados em animais. O vegano é contra o antropocentrismo e considera que os animais possuem existência própria e não foram feitos para a alimentação ou o desfrute humano. Os animais devem ser sujeitos de direitos, assim com existem os direitos humanos. Os veganos consideram o especismo uma forma de discriminação e também combatem o uso de animais em experiências de laboratórios.

Por tudo isto, pode-se até concordar que ao longo da história a domesticação dos animais tenha provocado uma revolução na economia e na alimentação humana. Porém, se a humanidade, no passado, soube tirar proveito da natureza e dos animais, ganhando densidade, volume e espaços em todos os cantos do mundo, isto se deveu muito mais ao egoísmo e ao desfrute da biodiversidade para interesse próprio, do que do uso da sabedoria, da inteligência e dos princípios ambientais éticos e morais. O ser humano se domesticou domesticando animais. A radicalização desta trajetória leva à substituição de uma possível sinergia pela entropia.

É cada vez maior a percepção de que o domínio humano sobre a natureza e sobre as outras espécies está seguindo uma rota rumo ao precipício. A visão utilitarista do uso indiscriminado do meio ambiente e dos demais seres vivos para consumo próprio pode levar a espécie humana ao suicídio e, pior ainda, ao biocídio (como se diz “o homem é o lobo do homem e o predador de outras espécies”)

A ideia de que o ser humano é a espécie mais avançada do mundo, e até mesmo do universo, se desnuda, a cada dia, ficando cada vez mais parecida com simples arrogância. Para estar no ápice da evolução, uma espécie precisa, antes de tudo, saber respeitar a sua casa (Gaia) e seus vizinhos (biodiversidade). Por meio da dominação e da exploração e sem uma convivência harmoniosa entre todos os seres vivos, o que cresce são os riscos de que a vida sucumba em um futuro cada vez menos distante.

Turquia: entre o Ocidente e o Oriente

A Turquia está exatamente no meio do caminho entre o Ocidente e o Oriente. Istambul ocupa os dois lados do estreito de Bósforo e é uma cidade que se expraia por dois continentes. A maior cidade da Turquia foi fundada em 667 a. C. pelos gregos (o colonizador Bizas) e era conhecida por Bizâncio. Mas estando na confluência da Europa com a Ásia, a cidade foi conquistada e governada pelos Lídios, Pesas, Atenienses e Macedônios.  Alexandre o Grande passou por Bizâncio. A cidade de Tróia fica ao lado. Depois Bizâncio foi conquistada pelos Romanos. Tres séculos depois do início da Era Cristã, o imperador Constantino (324-337) transformou a antiga Bizâncio em capital do Império Romano, rebatizando a cidade de “Nova Roma”. Mas ela ficou conhecida mesmo por Constantinopla.

Mais de mil anos depois de uma rica e conturbada história, Constantinopla foi conquistada pelos Otamanos em 1453 e passou a se chamar Istambul. A conquista de Constantinopla pelos Otomanos é o fato considerado o início da época Moderna. Na verdade, a perda de Constantinopla pelos Europeus rompeu com o fluxo de comércio com a Ásia. Isto forçou à busca de uma novo caminho para as Índias. Daí vieram as grandes navegações e o descobrimento da América. Enfim, por esta cidade histórica passaram grandes líderes mundiais, grandes imperadores, grandes religiosos e grandes cientistas, etc.

Acabo de voltar de uma viagem a Istambul, onde fiquei uma semana e pude visitar seus monumentos e conhecer a agitada cidade (inclusive com enormes engarrafamentos de carros) e o modo de vida de seu povo, assim como compreender um pouco mais a situação atual da Turquia no mundo.

A Turquia é um Estado laico desde a revolução promovida por Mustafá Kemal Attatürk, logo após o fim da I Guerra Mundial. Quando o carismático primeiro-ministro Erdogan chegou ao poder, em 2002, fez do ingresso da Turquia na União Europeia sua meta principal. Seu Partido Justiça e Desenvolvimento, de inspiração muçulmana, tem enfrentado dificuldades para melhorar os direitos das minorias e reduzir as restrições à liberdade de expressão. Existem resistências para colocar a Turquia mais perto dos usos e costumes do Ocidente.

Uma questão chave seria a entrada da Turquia na União Européia. Seria um teste decisivo na integração do continente pois a Turquia é um país muçulmano com 73 milhões de habitantes, em 2010, e deve chegar até 90 milhões, em 2040. Seria, portanto, o país mais populoso na União. Diversos líderes europeus, principalmente de origem católica, se manifestaram contra a entrada da Turquia. Porém, a entrada da Turquia na União Européia seria o teste decisivo, pois se considerava que a economia turca poderia ganhar muito participando de um mercado muito maior. Sempre acreditei que a entrada na Turquia na União Européia seria bom para ambos.

Porém tudo mudou com a crise européia de 2008 e que se agravou em 2011. A União Européia está em frangalhos, com possibilidade de implosão e com um possível fim da moeda comum, o Euro. Concomitantemente, a Turquia tem apresentado taxas de crescimento elevadas, em torno de 8% em 2010 e 2011. Segundo pesquisas de opinião, em 2004, 73% dos turcos achavam que o ingresso na União Européia seria uma boa opção, contra apenas 38%, em 2010.

Ou seja, com a crise européia a Turquia se volta para a Ásia, que é a região do mundo de maior crescimento econômico. Como a Turquia tem grande influência no Oriente Médio isto pode ser um fator de interesse para a China e a Índia. Ou seja, a tomada de Constantinopla, em 1453, foi o início de um novo caminho para as Índias. Agora, no século XXI, a não entrada da Turquia na União Européia, pode ser o reforço para o continente asiático. A perda da Turquia pelos europeus pode ser um ganho para os asiáticos (especilamente China) e mais um passo para a mudança na hegemonia econômica do mundo.

O desafio da reversão das áreas desérticas

A curva do preço dos alimentos no mundo chegou no pico em 2008, caiu em 2009 em decorrência da recessão mundial, e voltou a subir em 2010. A população mundial atingiu 7 bilhões de habitantes em 2011, deve chegar a 8 bilhões em 2025 e precisa ser alimentada. Para tanto precisa da expansão de áreas férteis. Vários analistas dizem que uma das razões das revoltas que estão acontecendo no mundo Árabe (Tunisia, Egito, Iemen, Jordânia, etc) é o aumento do preço dos alimentos e a falta de emprego para os jovens destes países, que vivem com permanente escassez de água.

A desertificação é um fenômeno que corresponde à transformação de uma áreas produtivas em deserto. Segundo a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, este fenômeno ocorre devido “a degradação da terra nas regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas, resultante de vários factores, entre eles as variações climáticas e as atividades humanas”. A ONU adotou o dia 17 de Junho como o Dia Mundial de Combate à Desertificação (ver Wikipédia).

A formação de desertos pode ter causas puramente climáticas ou advir da perda da capacidade produtiva dos ecossistemas causada pela atividade humana que ultrapassa a capacidade de suporte e de sustentabilidade das áreas agricultáveis. Com o sobreuso das atividades antrópicas – e a fragilidade da vegetação e das chuvas – o solo vai ficando árido e sem vida, e os agricultores e criadores de gado são obrigados a procurar outro lugar para viver (em geral nas cidades).

A China, o país mais populoso do mundo, tem uma longa tradição de luta contra o deserto. O governo tem um grande plano de reflorestamento do país, mas calcula-se que serão necessários pelo menos 300 anos para enfrentar o avanço das áreas de deserto. A despeito de algumas vitórias isoladas, a China precisa lidar todos os anos com os “eco-migrantes”, ou pessoas deslocadas em função da desertificação.

No “teto do mundo”, gerações de nômades tibetanos criaram Iaques (espécie de bovino do Tibet) e outros animais nas vastas pradarias do Himalaia. Mas nos últimos anos a vegetação ao redor do platô tibetano foi destruída pelo aumento das temperaturas, excesso de animais e pragas de insetos e roedores. Isto tem provocado o avanço do deserto e a fome e as doenças entre os tibetanos.

Na Índia – que é o segundo país mais populoso do mundo e o que apresenta o maior número de nascimentos a cada ano – a desertificação e as perdas na colheita de algodão, têm provocado o aumento do suicídio entre os agricultores, principalmente em Andra Pradesh e Maharashtra.

Porém, ao invés de provocar o aumento, o ser humano pode reverter o processo de dessertificação do Planeta.

Embora os desertos possam ser os locais mais difíceis e mais inóspitos da Terra, eles também são os locais ideais para a utilização das novíssimas tecnologias verdes, com a aplicação da energia solar e eólica. A Jordânia anunciou recentemente o seu apoio em grande escala ao “Sahara Forest Project”, que reúne a energia solar, eólica e a dessalinização da água do mar para oferecer soluções energéticas sustentáveis a agricultura e à vida em regiões desérticas.

O “Sahara Forest Project”, visa incentivar o uso de energia neutra em carbono, disponibilizando água fresca e comida, ao mesmo tempo que contribui para a florestação das terras desérticas. A capacidade do projeto para aliviar a escassez de alimentos e água é sem dúvida um aspecto importante, especialmente diante dos recentes distúrbios alimentares que atingem a região do Oriente Médio. Governos democráticos vão precisar oferecer alternativas de trabalho e alimentação às suas populações.

Estas e outras iniciativas mostram que a luta para aumentar as áreas férteis do mundo não está perdida. Ao contrário, existem muitas alternativas para transformar o deserto em uma solução e não em um problema. Um mundo verde (das plantas) e azul (da água e do oxigênio) é possível.

Referência:
Jordan Signs Up for Epic ‘Sahara Forest Project’
http://www.greenprophet.com/2011/01/jordan-sahara-forest-project/

Mea Culpa.

 altaltalt

Quando somos jovens demais, geralmente somos mais radicais e mais firmes nas nossas opiniões. Voltar atrás, dar o braço a torcer, jamais. O jovem não consegue ter a dimensão exata da palavra “nunca”. Quantas vezes eu já não disse, “eu nunca isso”, “eu nunca aquilo” – e hoje, só hoje consigo ver o quanto fui precipitado. O título desse artigo é bem proposital, uma vez que aqui eu faço justiça a coisas que eu disse há algum tempo atrás. Eu certa vez (no passado) não dei méritos artísticos a Beyoncé e a Lady Gaga. Disse que eram medíocres e meras copiadoras de outras artistas – no caso aqui, respectivamente de Mariah Carey e Madonna. Disse a época com convicção, mas com a convicção dos rasos, dos superficiais. Não tinha analisado nada feito por elas, apenas me deixei levar pelo estilo e por minhas preferências musicais. Claro que hoje eu continuo não ouvindo a música feita por elas, mas nem por isso deixo de reconhecer méritos e qualidade em suas devidas produções artísticas. Por conta da minha antipatia pelo R&B, sempre achei a Beyoncé “mais do mesmo”. Um mulherão moldado pela indústria para entreter marmanjos e fazer patricinhas dançarem. Cheguei em um artigo (De Ella Fitzgerald à Beyoncé: a música negra feminina contemporânea em três atos, 19.10.2009), a dizer que a música negra feminina estava mal representada por nomes com Beyoncé e Rihana. Pois bem. Quando Beyonce Knowles veio ao Brasil pela primeira vez, logo tornou-se presa fácil dos programas de TV, que passaram a exibi-la muito mais do que antes. “Single Ladies” virou um hit gigantesco e entrou até para o panteão da cultura pop do século XXI. E em meio a toda essa euforia, eu fui dar uma olhada mais afundo na ficha técnica dos discos da pop star. Conclui que Beyoncé não é estrela assim à toa. Ela têm talento sim. Insisto aqui em dizer, continuo não ouvindo suas músicas, mas reconheço seu talento. Ela cria todas as coreografias complicadíssimas do seu show. Palpita em tudo, na produção dos discos e dos shows, figurino, repertório, iluminação, divulgação, arte de capa e é peça fundamental nos contratos de publicidade envolvendo seu nome. Além disso tudo é compositora. Olha, as músicas podem não ser geniais, mas pelo menos ela compõe e faz sucesso com seus méritos, não se limita a usar a criação dos outros (não que não regrave nada). Vi trechos do seu show aqui do Brasil e pude vê-la cantando (não fazendo playback), dançando muito e com muito vigor, além de ser simpática com o público. Isso me fez mudar de ideia em relação a sua figura como artista (e chamá-la assim), pois muitos assim se acham, mas poucos o são. Seus vídeos também são muito bem feitos e produzidos – e a meu ver seu maior mérito – já que os grandes artistas também possuem um quê de visionários, foi sua bem sucedida parceria com Lady Gaga. Ao invés de abrir competição e arriscar perder mercado, Beyoncé preferiu reparti-lo, juntando-se com outra artista com visão aguçada.

alt

Lady Gaga era uma completa desconhecida até dois, três anos atrás. Hoje é uma marca rentável no mundo inteiro, chegando a ser top 10 inclusive na Oceania. Eu a considerava uma boa oportunista copiadora de Madonna. Hoje a vejo como uma visionária artista que sabe muito bem explorar a tecnologia, a globalização e o marketing. Minha visão começou a mudar a partir do momento que vi pela primeira vez o vídeo de “Alejandro”. Considerei-o uma grande obra e um dos melhores vídeos dessa década – com uma fotografia e um jogo de câmera simplesmente impecáveis e esteticamente belos. Continuo achando as letras das músicas de Gaga superficiais, mas depois de ler algumas entrevistas dela, reconsiderei. Gaga faz o que o mercado quer e sabe da efemeridade das celebridades e das cantoras pop. Se mostrou inteligente, culta e visionária em muitas de suas respostas, principalmente em reconhecer o potencial da moda e suas conexões com a música e de como pode usar a internet em tempos de “youtube” a seu favor. Seus modelitos fashion e a grande vitrine em que transformou seus vídeos (para marcas e grifes), renderam-lhe fama, respeito e fortuna. O que Lady Gaga conseguiu em sei lá, dois anos, poucos conseguem em uma carreira inteira (claro, dadas as condições desse tempo). Analisando sua obra, pude perceber um certo vigor, lógica e refrões calculados, quase matematicamente. Assim como disse sobre Amy Winehouse – não sei o quanto Beyoncé e Lady Gaga vão suportar o insaciável apetite destrutivo da indústria. Não sei se em 100 anos (mesmo com a memória eletrônica da internet), ainda falaremos em seus nomes, compraremos seus discos ou usaremos suas camisetas, mas o fato é que no momento presente elas fazem parte da história. Novos nomes vão surgir (vide Adele – mesmo fazendo um som diferente), mas eu não tenho como negar o valor artístico e o vigor apresentado por elas no “hoje”. Embora eu não as ouça, tenho que admitir que se destacam no meio do besteirol (algo semelhante a elas) – e diferente da relação Lady Gaga-Madonna, pois aqui trata-se de mimesis e não de cópia – tocado nas rádios e veiculado nos programas de tevê. Aqui deixo então minha “mea culpa” – meu reconhecimento desses dois nomes como artistas de alguma relevância – não para a cultura ocidental, como os Beatles que serão lembrados daqui a 100, 200 anos – para o momento em que vivemos, afinal temos que tirar sempre algum proveito das crises, e essa não veio no final do século, mas no começo (ou será que se arrasta desde o final do século passado?).

alt

 

 

 

A Física e a Matemática

Para o leigo a Física e a Matemática são campos do conhecimento totalmente independentes um do outro, a Física procurando interpretar os fenômenos naturais do mundo em que vivemos e a Matemática lidando com números e suas expressões numa criação que é apenas da nossa inteligência. Puro engano. Os matemáticos fornecem aos físicos um poderoso instrumento que lhes permite não só pesquisar o planeta Terra como também o próprio Universo. Vejamos como. Mas antes disso se bem que não diga respeito à matemática, convém definir um princípio que muito facilita o entendimento da física: o princípio de causa e efeito. Se a um fenômeno natural perfeitamente definido segue-se  sempre um outro sem nenhuma exceção, também perfeitamente definido, diz-se que os dois fenômenos estão relacionados sendo que o primeiro é a causa do efeito do segundo. Um exemplo elementar é o raio e o correspondente trovão. À descarga elétrica atmosférica segue-se sempre um trovão. É claro que esta relação não pode ser nunca invertida ou seja o efeito não pode ocorrer antes da causa pois isso seria destruir o principio da causalidade que rege todos os fenômenos físicos naturais. Mas vamos ao que interessa. Para se fazer uma abordagem correta da física torna-se necessário quantificar as grandezas físicas, criando as suas unidades e calculando os seus valores. Para isso utilizamos os números. Os sistemas dinâmicos são próprios para isso. O planeta Terra por exemplo. Ele tem dois movimentos, o de rotação em torno de um eixo e o de translação em volta do Sol. O primeiro dá-nos a unidade de tempo, o dia e o segundo a outra unidade do tempo, o ano. Estas duas unidades do tempo estão evidentemente relacionadas entre si. Um ano corresponde a 365 dias, mas não exatamente. O valor de 24 horas para o dia é insuficente e portanto é necessário introduzir o ano bissexto com um dia a mais no mês de fevereiro. A nossa divisão do tempo está portanto vínculada aos movimentos do planeta Terra. Se a sua rotação e a sua órbita fossem diferentes a nossa noção de tempo seria outra. Fica portanto evidente que a grandeza física, o tempo, não é independente pois depende do espaço. Por isso o físico Albert Einstein juntou as duas unidades em uma só, criando o espaço-tempo em sua substituição. Vejamos então como podemos tratar o espaço sideral. Newton descobriu que os corpos celestes se atraiam uns aos outros com uma força à distância algo misteriosa que chamou de força da gravidade. Essa força entre dois corpos era, segundo ele,  diretamente proporcional às suas massas e densidades e inversamente proporcional ao quadrado da distância que os separa. Mas Einstein apresentou uma outra teoria que chamou de teoria da relatividade. A unidade a ser considerada seria a velocidade da luz no vácuo ou no vazio de 300.000 quilômetros por segundo. Uma velocidade fantástica que mesmo assim não conseguiria abranger o universo que seria somente medido em anos-luz, ou seja, um ano-luz seria a dimensão percorrida pela luz em um ano convertido em segundos e multiplicada por 300.000 quilômetros. Uma prova que a dimensão que usamos na Terra, o quilômetro, é manifestamente muito pequena para medir o universo. A teoria da relatividade introduziu também uma alteração importante no conceito de espaço ao considerar a luz como uma onda monocromática de um conjunto de fótons, corpusculos de energia que possuindo massa estão sujeitos à ação da gravidade  Sendo assim a trajetória da luz não é retilinea mas aprsenta uma deflexão ao tangenciar um corpo celeste como o planeta Terra. Tudo se passa como se o espaço fosse curvo à volta do corpo celeste e tanto mais curvo quanto mais próximos da sua superfície estiverem os fótons. A teoria corpuscular da luz deriva da teoria de Max Planck elaborada em 1900, de que os fenômenos físicos somente acontecem quando atingem o “quantum” específico de energia. Este princípio de Planck desempenha um papel fundamental na física moderna. Por último vejamos uma pesquisa científica desenvolvida pelo astrônomo dinamarquês Tycho Brahe, (1546-1601), que durante a maior parte da sua vida anotou diariamente a posição dos cinco planetas visíveis a olho nú Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Depois da sua morte essa espantosa coleção de dados ficou à disposição do matemático alemão Johannes Kepler. (1571-1630). Este então também dedicou a sua vida à análise dos dados de Brahe conseguindo finalmente formular três leis que ficaram conhecidas como as leis de Kepler para  as órbitas dos planetas do sistema solar. Basicamente essas leis resultam da Primeira lei: “Os planetas movem-se em órbitas elíptica em que o Sol ocupa um dos focos”. Temos de admirar a capacidade intelectual desses cientístas, o primeiro, Brahe, em discernir na imensidão do céu estrelado a posição relativa dos planetas. Para tanto utilizou como ponto de referência as estrêlas longínquas que estando tão longe permanecem fixas, imóveis, em relação aos planetas do sistema solar. O segundo, Kepler, por conseguir formalizá-los em leis que até hoje permanecem válidas na astronomia..

Fico por aqui. Até à próxima.       
 

O crescimento exponencial do consumo no século XXI

No ano 2000, a população mundial estava em torno de 6 bilhões de habitantes e o Produto Bruto da economia mundial estava em 42,3 trilhões de dólares, segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para consumir é preciso produzir. Assim, podemos dizer que o consumo (consumo das famílias e das empresas) per capita da humanidade era de 7 mil dólares ao ano. Entre 2000 e 2011 a economia mundial cresceu 3,7% ao ano e a população cresceu 1,2 ao ano. Assim, a população mundial chegou a 7 bilhões de habitantes em 2011 e o PIB mundial chegou a 63 trilhões de dólares. A renda per capita mundial passou para 9 mil dólares, em 2011.

A divisão de população da ONU, em sua projeção média, aponta para uma população de 10 bilhões de habitantes em 2100. Se o PIB mundial continuar crescendo na média de 3,7% ao ano (que foi a média de 2000 a 2011) atingirá o astronômico número de 1.598.662.420.000.000 (um quatrilhão, quinhentos e noventa e oito trilhões e 420 bilhões de dólares). Um crescimento de 38 vezes. A renda per capita mundial chegaria a 160 mil dólares anuais. A renda per capita da população mundial multiplicaria por 23 vezes no século. Ou seja, o poder de consumo médio da humanidade multiplicaria por 23 vezes em 100 anos e o impacto da economia sobre o meio ambiente, ceteris paribus, seria 38 vezes maior.

Sabemos que atualmente a maior parte do consumo está concentrada nos países ricos e nas economias avançadas. Porém, desde o ano 2000, são os países em desenvolvimento que apresentam as maiores taxas de crescimento econômico. A China e a Índia – com mais de 2,5 bilhões de habitantes – são os países que mais crescem economicamente. Segundo o FMI a economia da China vai passar o PIB dos Estados Unidos (em poder de paridade de compra – ppp) em 2016. A Índia deve passar os Estados Unidos por volta de 2040. Isto vai significar um grande poder de consumo das populações destes dois países.

Mesmo os países pobres podem ter um grande aumento do padrão de consumo no século XX, se as altuais tendências econômicas se mantiverem. A África ao sul do Sahara (composta de 44 países), que é a região mais pobre do Planeta, tinha uma população de 635 milhões de pessoas em 2000 e um PIB de 846 bilhões de dólares. A renda per capita era de somente 1.300 dólares ao ano. Em 2010 a população da África sub-saariana passou para 813 milhões de pessoas e o PIB passou para 1,47 trilhão de dólares. A  renda per capita chegou a 1.811 dólares em 2010.

A ONU projeta que a população da África sub-saariana chegará a 3,2 bilhões de habitantes em 2100. Se a economia da região continuar crescendo à taxa de 5,7% ao ano (média de 2000 a 2010), então o PIB chegará a 43,3 trilhões de dólares em 2071 (maior, portanto, do que o PIB mundial do ano 2000) e a 216 trilhões de dólares em 2100. Somente o PIB da região africana ao sul do Saara seria 5 vezes maior do que o PIB mundial em 2000. A renda per capita dos habitantes dos africanos ao sul do Saara chegaria a 67,5 mil dólares em 2100.

Todo este exercício matemático é somente para mostrar que se as tendências atuais de crescimento econômico forem mantidas a renda per capita média mundial chegararia a 160 mil dólares e a renda per capita dos habitantes da África ao sul do Saara chegararia a 67,5 mil dólares. Seria um tremendo poder de consumo para a população mundial e mesmo para a população da região mais pobre do Planeta. No total mundial, o consumo (das famílias e das empresas) aumentaria 38 vezes entre 2000 e 2100.

Acontece que a pegada ecológica da humanidade já tinha ultrapassado a capacidade de regeneração do Planeta no ano 2000. Ou seja, na virada do milênio a humanidade já estava utilizando mais de um Planeta para manter o seu consumo. O que acontecerá no ano 2100 quando a humanidade estiver consumindo (na pressuposição da manutenção do modelo econômico atual) o equivalente a 38 planetas Terra?

Evidentemente, o modelo de crescimento econômico e populacional da atualidade é insustentável. Pequenas taxas de crescimento, quando vistas em termos exponenciais, significam grandes saltos no período de um século. Então, o que fazer?

Parar de crescer?

Mudar a forma de crescimento, privilegiando as atividades intangíveis ao invés do consumo supérfluo?

Decrescer?

O debate esta aberto. Sabemos que o modelo econômico hegemônico chegou ao seu limite diante da degradação ambiental e do aquecimento global. Continuar crescendo da mesma forma é caminhar para o precipício. A humanidade precisa se reinventar para continuar existindo e deixar que as outras espécies do Planeta também existam.