O fim do crescimento econômico?

A economia internacional apresentou a maior recessão dos últimos 75 anos em 2009, quando o PIB mundial caiu 0,7%, enquanto a população crescia em torno de 1% ao ano. Muitos analistas passaram a questionar a capacidade de retomada da economia.

Mas no ano de 2010, segundo dados do FMI, a economia mundial cresceu 5,2% e animou os otimistas que viam a recessão de 2009 apenas como um ponto fora da curva. No iníco de 2011 várias consultorias internacionais lançaram relatórios com projeções elevadas de crescimento econômico até 2050. A idéia geral é que a economia internacional cresceria em torno de 4% ao ano, sendo 2,5% para as economias avançadas e 6% ao ano para as economias emergentes.

Neste cenário otimista haveria convergência de renda entre os países ricos e pobres já que os segundos cresceriam bem mais do que os primeiros. Os fatores demográficos ajudariam, pois enquanto as economias avançadas apresentam uma população envelhecida, os países emergentes ainda podem colher os frutos do bônus demográfico de uma estrutura etária jovem.

Porém, o ano de 2011 não apresentou o desempenho esperado e a economia mundial cresceu abaixo de 4%, apresentando forte desaceleração no último trimestre do ano. A crise ficou particularmente forte na Europa e nos países chamados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). Além disto, existe muitas dúvidas sobre a possibilidade de continuidade do Euro. O fim da moeda única na Europa e um agravamento da recessão européia poderia jogar o mundo em uma outra recessão. Ao mesmo tempo, isto frearia a locomotiva chinesa, com efeito no resto do mundo.

Em janeiro de 2012, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em seu relatório semestral, reduziu suas previsões de crescimento da economia mundial, apontando um crescimento abaixo de 3% ao ano. Para os 34 membros da OCDE as previsões passaram para 1,9% em 2011 e 1,6% em 2012, bem abaixo dos 2,3% e 2,8% anteriores. A OCDE alertou para os possíveis efeitos de um default desordenado da dívida pública, ou uma ruptura do euro, que teriam graves consequências em todo o mundo. Para os EUA, a previsão atual é de crescimento de  2% em 2012, ante os 3,1% anteriores.  

Também em janeiro o Banco Mundial apresentou relatório com projeção de crescimento da economia mundial de apenas 2,5% em 2012, já que a crise européia e o menor crescimento dos EUA afetará os países em desenvolvimento, como Brasil, Índia, Rússia, África do Sul e Turquia), além de desacelerar a economia chinesa.

Por fim, no dia 24 de janeiro, o FMI também rebaixou suas previsões de crescimento da economia mundial para 3,3% em 2012, ante mais de 4% do relatório anterior.

Portanto, as principais instituições econômicas internacionais estão prevendo menor crescimento da economia nos próximos anos. Mas, passada a crise, haverá recuperação?

Esta é a questão mais debatida na atualidade. Cada vez surgem mais analistas dizendo que a humanidade já ultrapassou os limites de exploração do Planeta e que o crescimento está ficando “deseconômico”. Neste sentido, continuar aumentando a produção e o consumo apenas vai trazer mais prejuízos e menos beneficios. Será que estamos caminhando para o “Estado Estacionário”? Será o fim do crescimento econômico?

 

Há defesas e defesas, em Pinheirinho

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Há defesas e defesas. Na realidade, uma das grandes jogadas da inteligência humana é criar sistemas de premissas – em casos mais exagerados, dogmas –  que sirvam de base para qualquer tipo de defesa, ou ataque. Muitos, inclusive, servem ao mesmo tempo para defesa e ataque. Sistemas de premissas são suficientemente amplos e orgânicos, de tal sorte que posso escolher um subconjunto de premissas para atacar e outro subconjunto de premissas para defender. Ambas pertencem ao mesmo sistema, o que mantém a lógica toda da coisa.

Simples, banal, todo mundo sabe disso.

Mas como tudo criado pelo ser humano é sempre um sistema aberto, as falhas acontecem; e é possível perceber que subconjuntos de premissas tidos por orgânicos – usados para ataque e defesa – não são assim.

É o caso da recente e ainda quente reintegração de posse de Pinheirinhos, em São José dos Campos, SP, levada a efeito da maneira como todos puderam acompanhar.

O subconjunto de premissas usado também é conhecido como sistema jurídico. É um poderoso sistema de ataque e defesa, contendo, inclusive, potentes premissas de autoproteção, como, por exemplo, o “tudo deve ser feito para manter a segurança jurídica”. Em nome da segurança jurídica usa-se o argumento de que “lei é lei, ordem de juiz é ordem de juiz”.

A Justiça decide e manda o oficial de Justiça fazer o cumprimento da ordem judicial.” Nos informa, a título de defesa, o Governador do Estado de São Paulo, selecionando as premissas… Esquece-se o governador de que poderia utilizar outras…

E assim se defende a propriedade – que, diga-se de passagem, o mesmo sistema dita que deve ter a sua função social – para atacar cidadãos. O mesmo sistema é usado para justificar o uso da força alegando que houve resistência, mas não esqueçamos que o sistema também nos diz que resistir é um direito de todos.

Dois pesos e duas medidas. O mesmo Estado Democrático de Direito, com base nas premissas do sistema jurídico, criou o Estatuto da Criança e do Adolescente e o mesmo Estado descumpre a regra maior. Copio aqui os artigos iniciais do ECA:

Art. 3º A criança e o adolescente gozam de todos os direitos fundamentais inerentes à pessoa humana, sem prejuízo da proteção integral de que trata esta Lei, assegurando-se-lhes, por lei ou por outros meios, todas as oportunidades e facilidades, a fim de lhes facultar o desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade.

Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:

a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;
b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;
c) preferência na formulação e na execução das políticas sociais públicas;
d) destinação privilegiada de recursos públicos nas áreas relacionadas com a proteção à infância e à juventude.

Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Art. 6º Na interpretação desta Lei levar-se-ão em conta os fins sociais a que ela se dirige, as exigências do bem comum, os direitos e deveres individuais e coletivos, e a condição peculiar da criança e do adolescente como pessoas em desenvolvimento.

É um texto forte, originado em mentes sérias, conscientes de que somente com a proteção integral das crianças poderemos ter um país digno de ser chamado de pátria por todos, um dia.

E esse mesmo Estado Democrático de Direito aponta as “armas da lei” contra as crianças. Submete-as a tudo quanto ele, o Estado, nos diz no ECA que não podemos submeter uma criança. Tira-lhes o “desenvolvimento moral, espiritual e social, em condições de liberdade e de dignidade”; tira-lhes a “convivência familiar e comunitária”; trata-as com “violência, crueldade e opressão”.

Falha nosso sistema jurídico e seus operadores; e falham os governantes. Ambos por usarem conjuntos de premissas que todos sabemos não são mais orgânicos. Pinheirinho foi a prova cabal de que desta vez não há defesa!

 

A opressão do Rio Tietê

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento,
mas ninguém diz violentas as margens que o oprimem
”.
Bertolt Brecht

No dia 25 de janeiro de 2012 São Paulo comemora 458 anos sendo a cidade mais populosa e mais rica (em tamanho do PIB) do Brasil. Quando foi inaugurada, em 1554, era apenas uma pequena e pobre vila em torno do colégio jesuíta de Piratininga, instalado entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí, afluentes do Rio Tietê, palavra que na língua Tupi quer dizer “água pura” ou “água verdadeira”.

O Rio Tietê tem uma peculiaridade interessante. Ele nasce bem perto do litoral, mas devido à barreira da Serra do Mar, corre para o interior. Isto possibilitou que, por seu curso, os Bandeirantes conseguissem penetrar o interior do Brasil e expandissem as suas fronteiras. Por exemplo, a atual cidade de Ouro Preto está mais perto do Rio de Janeiro do que de São Paulo, mas foram os Bandeirantes que descobriram o ouro e colonizaram a Vila Rica de Minas Gerais.

Mas, fundamentalmente, o Rio Tietê e seus afluentes foram essenciais para o desenvolvimento da capital paulista na medida em que forneciam – além de peixes – água pura e verdadeira para o crescimento da população, da agricultura, do comércio e da industria da cidade. Também existem diversas represas e usinas geradoras de energia ao longo da bacia hidrográfica. São Paulo é fruto do Tietê, assim como o Egito é fruto do Nilo.

Mas os aniversários de São Paulo foram passando e os únicos presentes que o Rio ganhou foram esgotos, dejetos, lixo e os restos da festa paulistana.

Toda a mata ciliar do rio foi destruída sem dó e piedade. As vargens foram drenadas. As margens foram estreitadas. E o leito original foi reduzido. Com a poluição dos esgotos, dos resíduos sólidos e dos efluentes industriais o Rio Tietê se transformou em um esgoto a céu aberto. Nem os usuários da cracolândia usam o Rio Tietê. Sem oxigênio, virou “rio da morte” que exala mau cheiro e envergonha os cidadãos da cidade, do estado e do país.

Fico pensando como a cidade de São Paulo seria mais alegre, mais bonita, mais agradável e mais convivial se a bacia hidrográfica do Rio Tietê estivesse mínimamente próxima do que já foi no passado: com suas matas ciliares, com as águas limpas, com os peixes, com as demais plantas aquáticas, com as aves, enfim, com a vida em toda a sua diversidade e explendor.

Mas ao invés disto, o que existe é uma selva de pedra, onde o verde foi substituído pelo concreto e pelo asfalto, a especulação imobiliária transformou em lucro cada pedaço de chão e as pessoas normais passam horas presas em engarrafamentos monstruosos, enquanto os ricos se deslocam de helicópetero.

Para complicar a situação, em toda temporada de chuva, São Paulo fica debaixo d’água. Os prejuízos econômicos são enormes. Alguns acusam o pobre rio. Outros dizem que o Rio Tietê transborda e segura as águas pluviais por vingança. Mas, na realidade, o rio não tem esta característica tipicamente racional.

O que acontece todo ano, quando a bacia do Rio Tietê transborda, não é uma retaliação às maldades humanas. É apenas o choro de uma obra da natureza que perdeu a sua beleza e sua pureza original.

 

Como acabar com a fome no mundo?

De acordo com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) existiam 925 milhões de pessoas com fome ou em situação de insegurança alimentar no mundo, em 2010, o que correspondia a 13% da população mundial. A escassez de alimentos e a desnutrição acontece no meio da abundância de bens e serviços na economia internacional. A humanidade já possui todas as armas para vencer a fome e já existem diversas soluções pensadas, mas falta colocar em prática.

Vejamos algumas alternativas para acabar com a fome no mundo:

Uma primeira alternativa seria a eliminação ou, pelo menos, a redução dos gastos militares no mundo que estão na ordem de US$ 1,6 trilhão de dólares ao ano. Este dinheiro seria suficiente não só para acabar com a fome como para reconstruir áreas cultiváveis degradadas. Existem alguns milhões de homens e milhares de mulheres que passam a vida ativa na caserna fazendo trabalhos inúteis ou preparando guerras e ações militares que provocam mortes e danificam o meio ambiente. Se os recursos financeiros e humanos usados em gastos militares forem redirecionados para atividades produtivas a fome poderia ser eliminada, a educação e a saúde poderiam avançar, etc. Além de tudo, o movimento pacifista mundial agradeceria.

Uma segunda alternativa seria utilizar apenas fontes vegetais de nutrientes na alimentação. Os vegetais são seres vivos que produzem a sua própria alimentação (por meio da fotossíntese) e não possuem as capacidades de senciência dos animais. Os vegetais são capazes de fornecer tudo o que o organismo humano precisa para se nutrir: proteínas, carboidratos, lipídios, vitaminas e sais minerais. Portanto, deixar de comer peixes, carnes e derivados não só salvaria a vida de bilhões de seres sencientes que sofrem – na vida e na morte quando vão para os abatedouros – como abriria a possibilidade de transformar as áreas de pastagens, de confinamento de animais e de produção de ração para o gado em áreas de plantação de alimentos saudáveis, orgânicos e nutritivos. Seria uma também alternativa para a evitar a degração ambiental dos solos e da água e para a redução do aquecimento global (o metano é um dos principais gases de efeito estufa). Além disto seria uma alternativa adequada à filosofia do vegetarianismo e do veganismo, além de viabilizar o fim da “escravidão animal”.

Uma terceira alternativa seria eliminar o consumo e a produção de drogas e de bebidas alcoólicas, os jogos de azar, os cassinos e os jogos que utilizam animais como touradas, rodeios, corridas de cavalos, cachorros e camelos, brigas de galos, etc. Estas atividades são prejudiciais para a saúde dos humanos e dos não-humanos e envolvem uma industria – legal ou ilegal – de trilhões de dólares. O fim destas atividades seria suficiente para acabar com a fome e a pobreza extrema no mundo, evitaria muitas mortes por overdose, cirrose e acidentes de trânsito, além de liberar recursos para investimentos na educação, saúde, ciência e tecnologia, recuperação de florestas e ambientes degradados, etc.

Uma quarta alternativa seria proibir a produção de alimentos visando o lucro e eliminar os atravessadores na comercialização da comida e os especuladores que fazem fortunas nos mercados futuros de alimentos. Numa perspectiva socialista ou comunitária, poderia se transformar todas as empresas capitalistas de alimentos em cooperativas sem fins lucraticos, controladas pelos trabalhadores, produtores rurais e pela comunidade e consumidores. Os alimentos seriam produzidos para a vida e não para o lucro.

Uma quinta alternativa seria eliminar ou reduzir ao máximo o desperdício na produção, transporte, armazenamento, comercialização e consumo de alimentos. Somente esta alternativa já seria suficiente para acabar com a fome no mundo. Mas, evidentemente, não é fácil acabar com os desperdícios, pois os alimentos são, em geral, bens perecíveis e de difícil conservação. Evitar a perda na colheita significa investir muito para recuperar as sobras da produção, assim como seria preciso grandes investimentos para evitar perdas em toda a cadeia produtiva. Ajudaria muito promover uma educação para ensinar as pessoas a não deixarem comida no prato, não deixar passar o prazo de validade dos produtos, evitar as perdas nos restaurantes, etc. Para complicar, os desperdícios tendem a aumentar quando o preço dos alimentos caem ou quando a renda das pessoas sobe. Mas o fim do desperdício também seria o fim da fome no mundo.

Uma sexta alternativa seria eliminar ou reduzir ao máximo a gravidez indesejada, pois os dados mostram que a fome atinge em maior proporção as crianças e os países pobres que não possuem meios para universalizar os serviços de saúde sexual e reprodutiva, conforme acertado pelos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM). Segundo o International Food Policy Research Institute (IFPRI) o Índice Global da Fome (IGF) apresenta as categorias alarmante e extremamente alarmante, especialmente naqueles países onde existem altas taxas de fecundidade. A Organização Mundial de Saúde (OMS) mostra que existem 215 milhões de mulheres no mundo que não possuem acesso aos métodos modernos de regulação da fecundidade. O número de nascimentos é de 135 milhões por ano. Além disto, muitas mulheres são vitimas de violência sexual e da segregação de gênero, o que impede que elas tenham autonomia social e econômica e capacidade de autodeterminação reprodutiva. Além disto, alta dependência demográfica nas famílias aumenta a competição por alimento entre os filhos, o que prejudica os mais fracos e necessitados. O fim da gravidez indesejada ajudaria a reduzir a fome.

Uma sétima alternativa seria uma distribuição mais justa dos alimentos. Dos 7 billhões de habitantes do mundo, pouco menos de 1 bilhão passam fome, cerca de 3 bilhões se alimentam de maneira razoável e os outros 3 bilhões consomem alimentos acima do necessário. Se estes 3 bilhões (que representam os ricos e as classes médias) reduzirem em 20% suas dietas alimentares, liberariam comida suficiente para alimentar a parcela dos 13% da população mundial que passa fome. Isto também contribuiria para diminuir a obesidade no mundo.

Uma oitava alternativa seria implementar a meta 1B dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM) que convoca os países a: “Alcançar o pleno emprego produtivo e o trabalho decente para todos, incluindo mulheres e jovens”. Se todas as pessoas do mundo tiverem emprego decente e renda então também terão dinheiro para colocar comida na mesa.

Ou seja, para acabar com a fome do mundo seria preciso a efetivação de pelo menos uma das oito alternativas ou a aplicação combinada de partes delas, vale dizer: reduzir gastos militares, incentivar uma dieta vegetariana, reduzir o consumo de drogas, bebidas alcoólicas e do dinheiro gasto em jogos, combater os atravessadores e especuladores de alimentos, reduzir os desperdícios, reduzir o crescimento populacional não desejado, repartir melhor o pão entre os cidadãos e cidadãs do mundo e criar políticas de pleno emprego com trabalho decente.

Evidentemente, na teoria é fácil acabar com a fome. O difícil é mexer com os inúmeros interesses pessoais, locais, grupais, regionais e nacionais envolvidos. Cada pessoa pode e deve fazer sua parte. Mas sem políticas macroeconômicas e institucionais, envolvendo todos os países do mundo, o problema da fome e da degradação ambiental não será resolvido.

O Rascunho Zero da Rio + 20 fala muito em acabar com a pobreza e a fome no mundo. Só não mostrou o mapa do caminho. Talvez estas óctuplas alternativas possam contribuir para o documento final da Conferência ou, no mínimo, poderá ser pauta de discussão na Cúpula dos Povos da Rio + 20.

Sobre amizades coaguladas e conceitos vencidos


Amizade é um bicho estranhamente necessário. Se correr, ela te pega. Se ficar, ela te preenche. Quem tem amigo sabe como pequenos momentos de partilha e gargalhadas sobre temas banais de mínimas resoluções são capazes de aplacar dores insuportáveis.
 
Sempre precisei de bons amigos que soubessem executar sua presença com competência. Eles vinham com seus detalhes infantis fazer parte da minha carência de filho único. Dividíamos jogos, revistas, livros, sorrisos. Mamãe preparava uma sopa mais colorida que suculenta para garantir que nossa amizade estivesse bem nutrida. Quando os assuntos de adulto foram infiltrando-se na minha consciência adolescente, e uma sombra corrosiva de inadequação começou a invadir minha disposição para uma vida comum, os amigos estavam lá para compartilhar carnavais insuportáveis, programas de TV medíocres e minha morna tentativa de buscar a indiferença; eles também estavam lá (lado, dentro, próximos e profundos) quando eu não conseguia parar de chorar por tudo que não dava certo. Eu estava me tornando uma área alagada com emoções venenosas; mas eles sabiam como mergulhar em mim. 
 
Mas claro que é preciso definir termos e adequar expectativas. A expectativa é aquela força iluminada e também amaldiçoada que te faz esperar sempre mais do que é pequeno e, às vezes, infrutífero. Nem todas as pessoas que dividem com você risadas e opiniões forçadas e pretensiosas sobre seus próprios (e questionáveis) talentos é um grande amigo seu. Eu tenho Sete Grandes Amigos. Uma categoria que inventei quando o peito armazenava tormentas. São categorias de assuntos importantes que comecei a elaborar ainda criança, quando entendi que nem todas as pessoas que experimentam com você uma mesma existência desordenada e um afago ou outro por carência serão seus amigos. Os outros cinco ou seis que entendo presentes também são importantes, com a mesma clareza audaciosa de uma vela de sete dias em noites cheias de breu. 
 
Perdi bons pedaços de tempo responsabilizando outras pessoas por erros que foram meus, culpando-as pelas rejeições que acumulei, atribuindo à minha mãe, por exemplo, o fracasso dos meus sonhos. Eu preciso assumir parcelas de responsabilidade sobre a minha vida, não? Comecei a entender que os tentáculos pegajosos de crenças absurdamente disfuncionais impossibilitavam modestas realizações que me fariam mais satisfeito. Aceitar o incerto, que não há nada que dure por tanto tempo assim, que eu jamais conseguirei ter controle de uma vida cheia de reviravoltas e acontecimentos despadronizados, e que tudo é uma questão de conceito: Não foi algo doce de pôr na ponta da língua para declarar que a vida pode ser mais aceitável. Entendi que vestir a velha e amedrontada fantasia da autocomiseração e apontar as afiadas armas da culpabilização configuram-se um erro dentro de outros erros. 
 
A rejeição é um conceito que eu experimento. Qualquer duelo de olhares caprichosos é motivo de ansiedade para mim. Nada que cause um abalo sísmico na minha capacidade de permanecer com eixos íntegros e dignos. No final da batalha de vaidade, porém, um ferido baixa a guarda e desiste da iniciativa: minha autoestima. Se o cara para quem eu olhava é um escroto vaidoso que alimenta sua arrogância divina com minha tentativa de pertencer ao anoitecer de sua beleza? Claro que não. Os sujeitos não são ruins porque fazem escolhas diferentes da sua, porque possuem perspectivas de outras cores. Acho que talvez você não admita não ser escolhido. Não? Ora, o fato, quem sabe, é que não somos compatíveis com outras pessoas, que não nos adequamos ao ideal de relacionamento do outro, não nos encaixamos na ilusão simpática daquelas pessoas que não nos quiseram, e isso não quer dizer que seremos eternamente rejeitados. (Uma imagem da sua velhice solitária impregnada de naftalina e sorriso cansados, dividindo a cadeira com um gato divorciado de sua independência felina e vendo novelas repetidas deve ter aparecido no meio das suas catástrofes imaginárias. Talvez.)
 
Mergulhei nas águas caudalosas e valentes do reconhecimento de novas necessidades e omissões anteriores, como avaliar minas terrestres em áreas perigosas de países de herança explosiva. Não precisei elaborar uma lista, que seria extensa se estivesse no papel. Bastou uma redefinição de conceitos, intolerâncias, movimentos imprecisos de aceitar qualquer pessoa como um bom partido que completaria meus vazios.
 
Comecei a perceber que a rejeição talvez nem exista; o que permanece é a ideia de que há rejeição em todo canto. E isso é uma construção. O caminho para o conceito de amizade tem os mesmos desvios. Encontramos pessoas que sustentam crenças absolutamente diferentes sobre ser um bom amigo e manter o vínculo. Conheço uma moça que com receio de que um afastamento começasse a brotar no canteiro encantado de uma amizade singela e respeitosa adubada com honestidade, fidelidade e disposição para aceitar deslizes e emoções profundas que ela mantinha, resolveu conceder o título de madrinha de seu filho à amiga: A outra ajudaria a cuidar do filho e elas permaneceriam assim respeitando o amor que salva. O nome disso? Compromisso. Firmar compromisso não é um laço para enfeite, que desatado revela a beleza de algo que será consumido ou acumulado em pilhas nos depósitos de antiguidades do coração. Compromisso é um nó apertado para guardar um segredo, uma mágica, uma salvação.
 
Um dos problemas é (claro que minha percepção é caolha, já que sou um solteirão irremediável): algumas pessoas não estão interessandas em Pessoas, mas, a qualquer custo, começar um relacionamento (e terminá-lo o mais rápido possível, porque o tempo é pouco para conhecer muita gente). Aceita-se humilhação pública, degradação moral, abuso físico e psicológico. Existe uma falta que não cicatriza e um pavor em assumir a solidão como estado; olham para a solteirice como uma maldição que se repetirá até o fim do amor, uma praga que infesta as possibilidades de ser feliz por outros termos. Se há falta, está lá a tentativa, desesperada para alguns, de preenchê-la.
 
E então começa o derramamento de sangue, um verdadeiro massacre de sentimentos importantes, o soterramento de relações frágeis já na sua concepção, inícios fragilizados, capengas, pálidos; vejo algumas pessoas buscando quase sem ar, no topo do seu Everest do Amor que Ainda Existe, Alguém que permaneça mais um dia, rarefeitos em suas certezas de pertencer àquela pessoa que se apresentou ontem, está em dúvidas hoje e talvez não fique até amanhã. Está vencido para alguns sujeitos: O tempo de repensar a vida e os conceitos sobre a constituição da vida, e usar horas vagas para refletir sobre posturas fraturadas num conjunto de decisões arrogantes e sujas. O namoro vem como termo de salvação: Ou você assina e salva sua sanidade, ou estará dentro de uma clausura modorrenta que é a solteirice. 

É interessante ainda observar como o Amor parece tornar as pessoas mais maduras. Aqueles mesmo amigos de antes agora estão mais centrados porque estão namorando. Eles asseguram que há uma mudança forte e quase palpável, como se fosse possível observar o movimento da alteração de padrões. A ideia vigorante parece ser: Se estou namorando, há amor, se há amor significa que fui capaz de derrubar barreiras e superar limitações, portanto Sou maduro. E aí vem outro problema: Os amigos solteiros. Ora, se você está solteiro, há algo de errado com você. Você JAMAIS entenderá as escolhas, as deixas irônicas, as críticas armadas, as ausências coaguladas. Os solteiros passam a ser aquele ponto de conflito, aquelas almas incompreensíveis que cutucam o amor com vara curta, e possuem a energia de um demônio esbaforido lutando contra o alto-astral do amor permanente; Os Namorandos: políticos de Esquerda que aderiram aos ternos caros da Direita.
 
(Já dei minha opinião sobre a solidão aqui ó!).
 
Sujeitos em estado de amor atuante com seus namoros permanentes não possuem um coração mais complacente e uma inteligência mais eficaz. Nem os solteiros. Todos são sujeitos de significados e de reestruturações. São criaturas da falta, mordidas todos os dias pela insatisfação e recusa para entender e aceitar que não teremos controle e certeza sobre o amor do outro e quanto tempo ele apreciará continuar amparando nossas necessidades. É tudo apenas uma questão de perspectiva.
 
No entanto, é preciso coragem para redefinir padrões de funcionamento, organizar expectativas e crenças mais ajustadas sobre tudo. Inclusive sobre Amigos. Será necessária uma dose continental de bom senso. É quando você tentará perceber todas as iniciativas falhas (de aproximação e afastamento) que te mantiveram equivocado e até ridículo em todos os seus anos turbulentos de disparates e deslizamentos. 
 
Muito cômodo para muitas pessoas simplesmente sustentar ausências e distâncias. Muito prático e conveniente o conhecido “Se quiser, apareça” sem uma iniciativa madura de manter a permanência de um amigo, de um amor, do trabalho que satisfaz, de alguém que poderia demorar mais um pouco. Amigos que namoram costumam esvaziar uma postura mais consciente de colocar-se no lugar do amigo solteiro: Sempre é falta de compreensão do amigo solteiro: “Ah! Ele quer sumir?… Ok. Eu tenho meu namorado mesmo!”. Não há nada que dure para sempre: O amor de outrora, por exemplo; nem os conceitos permanecem os mesmos, nem a pretensão e o engodo de sustentar amizade borrada.
 
Nem todo mundo é honesto o suficiente para aceitar sua parcela de responsabilidade dentro das coisas que ficam e dentro das coisas que partem.
 
Mas claro que isso é apenas uma divagação (ou difamação?) inconsistente, já que eu não tenho um namoro na minha agenda de compromissos. Afinal:
 
Raimundo, você não vai entender. Você é solteiro.
 
 

 

Eu e minhas preferências.

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Não vou aqui me atrever a destrinchar os mecanismos por trás das preferências individuais. Mas posso dizer que por trás das preferências existem muitos fatores, psicológicos, emocionais, sociais, afetivos, etc. E o que leva uma pessoa escolher aquilo e não aquilo outro, tanto pode ser uma combinação de todos os fatores, como a sobreposição de um em relação aos outros. Se você ouve uma determinada música – ou um tipo de música, é porque lhe agrada. Ninguém carrega no Ipod músicas que lhes desagradem. O que faz com que tais músicas agradem ou não – são as sensações positivas ou negativas que elas nos trazem. Depois disso vêm os outros fatores – pois primeiro sentimos, para depois pensarmos (isso talvez na maioria das pessoas). Por isso também que a maioria das pessoas age por impulso – primeiro age (sentimentos) e depois pensa no que fez (raciocínio). Isso explica o porquê de mudarmos de gosto, pois se as influências advindas de nossas experiências não fizessem efeito (e abrem-se aí os demais fatores citados acima) – continuaríamos na vida adulta gostando das mesmas coisas de quando criança. O ambiente de convívio, o engajamento em alguma ação, uma posição ideológica, tudo isso contribui para a formação das preferências. Nos anos 60, a juventude engajada, rebelde e ligada à esquerda, preferia a música de protesto de Geraldo Vandré, o samba social de Zé Kéti e Chico Buarque e a Tropicália de Caetano e Gil do que a Jovem Guarda. Crianças que nascem e crescem em periferias – onde o samba, o rap, o pagode e o funk predominam, tendem a permanecer nesse círculo de preferências quando adultos (tendem). Filhos de roqueiros tendem a preferir o rock na juventude e na fase adulta porque foram (de certa forma) condicionados a ouvir esse tipo de música. O ambiente é fator importante – mas, isso não é regra absoluta, porque existe o fenômeno da migração de estilos musicais. Pessoas que crescem ouvindo um tipo de música e depois mudam. Isso é comum, advém não apenas do crescimento físico e cronológico, mas sim do crescimento humano e intelectual. Em fevereiro de 2007, a revista americana Seleções Reader´s Digest, publicou uma matéria sobre esse tema. A matéria trouxe entrevistas de 4 pessoas muito diferentes – advindas de realidades, criações e meios diferentes – e as perguntou sobre seus gostos em geral (musical incluso). Os quatro entrevistados:Angélica (apresentadora), MV Bill (rapper), Márcia Tiburi (filósofa) e Ivo Pitanguy(cirurgião plástico). Como essa revista têm boa circulação, ouvi uma conversa dentro do ônibus a respeito dessa matéria. Eram duas mulheres – uma de meia idade (40 anos) e outra jovem (23 anos) – falando sobre vários assuntos, até que chegaram nesse. O que mais me chamou atenção foi uma das opiniões que dizia que “cirurgiões plásticos, médicos, possuem um gosto refinado por serem de elite”. 

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Achei essa opinião de uma falta de embasamento imensa. Como você pode atribuir a uma classe profissional ou social a exclusividade de um gosto musical? A música é livre – pode tocar a qualquer um, de qualquer idade, cor, sexo, religião ou condição econômica. Na matéria, Ivo Pitanguy diz que seu cd preferido é “The Johann Sebastian Bach Collection” – um dos pilares da música erudita ocidental. É claro que Ivo é de um outro tempo (nasceu em 1926), é um homem de um tempo onde se aprendia francês e piano na escola pública. Do jet set onde freqüenta ao meio onde cresceu, o refinamento e o apreço pelas coisas cultas era (e é) grande. Mas daí a dizer que Bach e Mozart são exclusividades da elite, é uma coisa mais distante. Contrariamente, MV Bill apontou como preferido o cd “Tim Maia disco club”. Tim Maia é um dos pais da soul music no Brasil – e um dos grandes ícones da música negra no país como um todo. A música de Tim, cheia de suingue, de balanço (daí surge o samba rock), lembra justamente o suingue que os pobres e negros tinham (e têm – mas aí se estende ao brasileiro em geral) e que usaram para driblar as adversidades da vida. As musicalidades negras se combinam de certa forma e dialogam entre si – e o rap (estilo de MV Bill) é uma extensão – também de certa forma, de todo um caldeirão de “musicas” negras a partir dos Estados Unidos, mas que aqui tomou vida (e identidade) própria. Não que Bill não possa ouvir (e gostar) de Bach, ou Pitanguy de Tim Maia (que aliás têm grande aceitação nas elites), mas o contexto é altamente influente na formação das preferências – e nesses casos aqui mais ainda. Angélica apontou o disco “Pancadão do Caldeirão do Huck” – mas aqui há uma ambigüidade. Angélica tanto apontou esse disco pelo fato de Luciano Huck ser seu marido (cumplicidade), como pelo fato de (mesmo sendo da elite e freqüentando o jet set) – não ter um gosto apurado, para não dizer refinado. Angélica faz parte de uma burguesia alienada, não me refiro à política, mas sim a cultura. Todo o dinheiro que possuem não necessariamente os conduz a um caminho de leituras mais complexas, filmes de arte e música com conteúdo (não que devessem). Afinal, que tipo de “conteúdo” há num “pancadão”? Já Márcia Tiburi apontou “Dois Quartos” de Ana Carolina como um disco preferido. Essa talvez tenha sido uma escolha propositadamente lógica e não necessariamente emocional – digo, Márcia Tiburi é uma mulher cultíssima, e assim como possui um vasto conhecimento, já demonstrou uma vasta cultura também, então isso nos leva a ideia de que seu gosto musical é mais amplo do que apenas Ana Carolina. Embora Ana Carolina esteja longe de ser superficial, também não é nada excepcional, elevado, etc. Mas a escolha de Márcia se deu mais pela questão sexual e feminina do que propriamente artística. Márcia é notadamente uma defensora dos direitos femininos e de suas liberdades mais amplas – que incluem desde a escolha das roupas ao direito ao aborto. Ana Carolina apesar de cantar músicas sentimentais com letras interessantes, leva consigo a bandeira da discussão do lugar da mulher na sociedade, de seus direitos sexuais, de suas escolhas, etc.

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A escolha de Márcia Tiburi reflete seu escopo intelectual, suas ideias, convicções – e isso não a impede (limita) de ouvir “pancadão” caso queira – assim como Angélica ouve (e gosta) Ana Carolina. Não deve haver exclusivismos, sim escolhas – e dentro delas as relações com o meio e com o querer. E os fatos derrubam essas ideias – orquestras de crianças e jovens de favelas tocando Villa-Lobos e Beethoven (se fosse pela regra geral – como insistem alguns, seria uma orquestra de funk), e jovens de classes média e alta indo a shows do Racionais Mc´s (e lotando os bailes funk). E está aí o poder da música – o de incluir, pois quando a música se fecha em nichos – todos perdemos.

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EUA, China e Índia: disputa de hegemonia e destruição do meio ambiente

A história humana tem sido marcada pela sucessão de impérios e civilizações. No passado, houve  sucessivos Faraós no Egíto, Nabucodonosor na Babilônia, os reinados de Bimbisara e Asoka na Índia, a Dinastia Qing na China, Péricles em Atenas, Alexandre na Macedônia, os Césares em Roma, Carlos Magno na idade média, Império Otomano, Império Austro-Húngaro, etc.

No século XVIII a França chegou a ser a principal potência do mundo (ao lado de China e Índia), mas foi superada pelo Reino Unido no século XIX. Alemanha e Japão bem que tentaram ficar no topo, mas não tiveram força sufiente. A URSS se desintegrou. A Europa Ocidental foi superada pelos Estados Unidos da América (EUA) no século XX e a Rússia não foi páreo. Embora muitos norteamericanos achem que os EUA são excepcionais e estão destinados a ficar no topo da economia do planeta, a história não acabou e a luta pela liderança mundial continua.

No século XXI, a disputa pela hegemonia global ocorre entre os 3 países mais populosos do mundo. Os EUA continuam sendo a principal potência econômica internacional, mas devem ser superados brevemente pela China e um pouco mais na frente pela Índia. Segundo dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) o PIB mundial (em poder de paridade de compra – ppp) estava em torno de 70 trilhões de dólares, em 2010, sendo 14,6 trilhões para os EUA, 10,1 trilhões para a China e 4,1 trilhões para a Índia. A União Européia poderia ser um forte competidor, mas a crise da zona do Euro parece que vai deixar a Europa fora desta disputa mundial, assim com o Japão que já vive 20 anos de estagnação econômica.

Diversas consultorias internacionais como McKinsey, Goldman Sachs e PricewaterhouseCoopers (PwC) projetam uma ultrapassagem da China sobre os EUA e depois da Índia sobre os EUA. Projeções da PwC, apontam para um crescimento do PIB mundial em torno de 3,5% ao ano, o que daria um montante de 280 trilhões de dólares em 2050, quatro vezes maior do que toda a economia mundial em 2010. Em meados do século, a China chegaria a 59,5 trilhões de dólares, a Índa a 43,2 trilhões de dólares e os EUA a 37,9 trilhões de dólares. Portanto, China seria a maior economia, seguida da Índia, com os EUA em terceiro lugar. Somente estes 3 países seriam maiores, na metade do atual século, que o dobro da economia mundial em 2010 e representariam metade do PIB mundial.

Os números acima podem até estar um pouco inflacionados, mas o anseio de grandeza destes paises já se traduz, por exemplo, em aumento dos gastos militares. O presidente Barack Obama, diferentemente das suas propostas de campanha, se mostrou confiável ao complexo industrial-militar americano e aumentou os gastos militares (cerca de 700 bilhões de dólares ao ano), mesmo com o endividamento do país e o aumento do desemprego e das desigualdades sociais. Agora em 2012, Obama apresentou um plano para o orçamento militar de “somente” US$ 650 bilhões ao ano, dizendo que é para ficar mais clean e ágil. A nova doutrina americana, não é de paz, mas de consolidar a hegemonia, ou seja, reconhece que o país só pode tocar uma guerra de cada vez e vai centrar presença na Ásia e no Pacífico (ver documento de referência abaixo).  

A China já protestou contra a nova doutrina americana de guerra e tem aumentado seus investimentos militares para modernizar suas forças armadas, inclusive construindo porta-aviões que vão permitir aumentar a sino presença em diversas partes do mundo. A China também tem investido muito na conquista espacial e pretendem desembarcar na lua no início da próxima década. Até a possibilidade de uma colônia lunar não está descartada, pois os chineses sabem que o país que dominar o espaço dominará a Terra. Segundo a revista The Economist, a China vai ultrapassar os gastos militares dos EUA até 2025.

A índia aposta no crescimento da sua população que deve chegar a 1,7 bilhão, transformando gente em poder de dissuasão. A Índia também investe nas forças armadas para fazer frente ao seus poderosos vizinhos: China e Paquistão. O oceano índico é um dos alvos destas grandes potencias e atrai aliados, como os acordos da Índia com Japão e Austrália para construir bases militares e garantir o fluxo de comércio nesta importante rota de navegação.

Não custa lembrar que EUA, Chína e Índia possuem armas nucleares, com capacidade de destruir várias vezes a Terra.

As guerras entre potências, no passado, foram por disputas por terra e territórios. Atualmente as disputas são por energia e petróleo. No futuro as guerras vão ser pelo controle da água doce. Há ainda as intermináveis guerras religiosas como as que envolvem Israel e os países muçulmanos. As guerras militares são as evidencias mais claras de como a racionalidade instrumental do ser humano pode provocar a destruição em massa. Mas também existe a guerra silenciosa e não declarada à natureza.

A disputa pela hegemonia mundial, além de provocar um novo realinhamento do jogo de nações, tem servido de força para impulsionar a economia destes países e para manter o modelo de desenvolvimento marron, que tem causado tantos danos ao meio ambiente. Dificilmente as grandes potencias vão concordar com cortes profundos na emissão de gases de efeito estufa (GEE) e provavelmente o aquecimento global vai alcançar níveis perigosos. A depleção dos rios e a degradação dos solos nos 3 países deve continuar em ritmo acelerado em função da super exploração do meio ambiiente.

Estes 3 países vão também influenciar no crescimento da economia internacional e na expansão do mercado de bens de consumo industrial de um lado e de aumento da exportação de commodities de outro. Já se prevê que a classe média mundial poderá chegar a mais de 6 bilhões de pessoas até 2050 (segundo a Goldman Sachs) e cerca da metade vai estar nestes 3 países.

No processo de crescimento da economia mundial, o Brasil pode se tornar a 4ª economia global, com um PIB de mais de 8 trilhões de dólares até 2050 (segundo a PwC) e deve continuar sendo o grande fornecedor de minério de ferro, metais, biocombustíveis, soja e outros grãos, além de grande exportador de carnes bovina, suina, ovina e de avicultura. Os principais biomas brasileiros vão estar a serviço da geração de superávits comerciais para que possamos importar os produtos industriais, as inovações de tecnologias computacionais e de comunicações e produtos de luxo para as crescentes camadas afluentes da população brasileira. Se nada mudar, o Brasil vai manter uma relação primário-exportadora, especialmente com China e Índia.

Num cenário de aprofundamento da crise ambiental e de escassez de água, o Brasil pode, inclusive, importar da china industrias de energia solar e fábricas de dessalinização para utilizar a água do mar na produção agro-pecuária, pois, até a metade do século XXI o cerrado e a floresta amazônica (como já aconteceu com a Mata Atlântica) já poderão estar em estágio avançado de degradação. Muitos rios brasileiros deverão estar com pouca água, sendo necessário se recorrer a soluções tecnológicas de transposição das águas dessalinizadas do mar. Provavelmente vai haver reflorestamento com as monoculturas de eucaliptos e pinus e a biodiversidade vai ser apenas ensinada nas escolas, como se ensina sobre as velhas civilizações e impérios do passado.

Enfim, na disputa pela hegemonia mundial entre EUA, China e Índia, o modelo atual de desenvolvimento pode até ser sustentável no longo prazo do ponto de vista estritamente econômico, mas as possibilidades de conflitos militares aumenta, a destruição do meio ambiente deve aumentar, a biodiversidade tenderá a se reduzir drasticamente e, além da instabilidade política, o mundo não vai ser ecologicamente mais agradável do que é hoje.

Referência sobre estratégia militar dos EUA
U.S. Department of Defense. Priorities for 21st Century Defense (pdf), jan 2012
http://www.defense.gov/news/Defense_Strategic_Guidance.pdf

O censo 2010 e o “empobrecimento” dos Estados Unidos

A população dos EUA era de 281,4 milhões de habitantes em 2000 e passou para 308,7 milhões em 01/04/2010. O aumento absoluto foi de 27,3 milhões, mas representou um aumento relativo de 9,7% entre 2000 e 2010 (menor do que os 13,2% da década anterior). Assim como no Brasil, o ritmo  de crescimento populacional nos EUA está se reduzindo. A taxa de fecunidade estava em 1,93 filhos por mulher, de acordo com o CDC dos EUA e de 1,86 filhos por mulher no Brasil, de acordo com o IBGE. Como consequência ambos os países estão em processo de envelhecimento, com a população de 65 anos e mais, dos EUA representando 13% da população e 7,4% no Brasil.

Nos EUA havia 5,3 milhões de mulheres a mais do que homens (50,9%), em 2000, caindo ligeiramente para 5,2 milhões de mulheres (50,8%) em 2010. No Brasil a diferença entre homens e mulheres aumentou na última década de 50,8% para 51% (cerca de 4 milhões de mulheres a mais do que homens).

Do mesmo jeito que o Brasil está ficando mais mestiço – com maior proporção de pessoas pardas e pretas que passaram a ser mais de 50% da população – as minorias “raciais” dos EUA estão crescendo. A população branca (não hispânica) era 194,6 milhões (69,1%) em 2000 e passou para 196,8 milhões (63,7%) em 2010, enquanto a população preta/afro-americana era de 34,7 milhões (12,3%) e passou para 38,9 milhões (12,6%) e a população latina/hispânica foi a que mais cresceu passando de 35,3 milhões (12,5%) para 50,5 milhões (16,3%), no mesmo período. Já entre as crianças, as minorias não-brancas já são maioria.

O dado mais significativo mostrado pelo censo 2010 dos Estados Unidos da América (EUA) foi a queda da renda real média domiciliar do país. Em dólares reais de 2010, a renda domiciliar média dos EUA era de US$ 47.145 em 1980, passou para US$ 51.312 em 1990, para US$54.941 em 2000 e caiu para US$ 50.046 em 2010. A queda da renda foi de quase 9% na primeira década do século XXI e a taxa de pobreza subiu para 15,1%, a mais alta desde 1993. Ao mesmo tempo cresceu a concentração da renda, com o 1% mais rico da população apropriando de uma parcela maior da renda nacional. Não é de estranhar, portanto, o crescimento do movimento “Occupy Wall Street”, que busca ser a voz dos 99% da população que foi prejudicada pelas políticas do presidente republicano George W. Bush (2001-2008).

Para compensar o empobrecimento dos trabalhadores e da “classe média” a solução do mercado financeiro foi liberar crédito barato para o financiamento (estrangulamento) das famílias. Portanto, ao invés de investir em infra-estrutura e educação básica – para melhorar as condições de competitividade da economia, os governos americanos preferiram liberar a farra do endividamento das famílias e do próprio governo.

Analistas mostram que as tendências de declínio relativo do país devem continuar entre 2010 e 2020. Em termos demográficos, os Estados Unidos vão ver a redução da taxa de crescimento demográfico, mantendo uma maioria de mulheres (mas sem aumento da feminização) e ficando mais envelhecido. Se a crise econômica continuar não será improvável que a maior economia do mundo vá ter uma renda per capita menor e uma situação de maiores desigualdades sociais. O processo de mobilidade social ascendente entre as gerações parece que está comprometido assim como o tão comentado “The American way of life”.

Mudem o mapa de Porto Alegre, então! Mas deixem de hipocrisia!

Recente projeto de lei da Câmara Municipal de Porto Alegre, de iniciativa de vereadores do PSOL, dentre eles Pedro Ruas, tentava mudar o nome da avenida de “chegada” em Porto Alegre, Castelo Branco, para Avenida da Legalidade.

Disse Pedro Ruas, em defesa da proposta: “Não temos nada que ficar homenageando ditador. A Argentina prendeu os seus, e nós tratamos com honradez. Foi o período das torturas.” Colocação, aliás, repetida até hoje pelos inconformados .

Ok, talvez esses mesmos inconformados, cegos que estão pela hipocrisia de virem a público bradar contra a recente ditadura, esquecem nossa história. E por ela, deveríamos mudar o nome de grande parte das principais ruas e avenidas de Porto Alegre.

Ou se esquecem que a mais importante avenida de bairro mais conhecido de Porto Alegre, o Menino Deus, homenageia um ditador? Sim, GETÚLIO VARGAS. Ele mesmo. Claro, se é do meu time não conta…

Não paramos por aí: do mesmo grupo de Getúlio Vargas (do qual ele foi herdeiro) temos a principal avenida de Porto Alegre, famosa por sua Esquina Democrática. Isso mesmo, BORGES DE MEDEIROS que, juntamente com as ruas JÚLIO DE CASTILHOS, FLORES DA CUNHA, CARLOS BARBOSA, ASSIS BRASIL, PROTÁSIO ALVES (vice de Borges), RAMIRO BARCELOS  e tantas outras que comandaram o Rio Grande do Sul com “mão de ferro”, por duas revoluções, a Legalista (que matou mais de 10.000 gaúchos) e a de 1923, E POR MUITOS ANOS…

Sim, esses são ícones da história riograndense. Neles não se pode mexes, por mais assassinos que tenham sido. E lembremos que a justificatica para a troca era “foi o período das torturas”.

Vamos mais: DUQUE DE CAXIAS. Esse não vale, né? Afinal, na cota dele parece que só tens uns negros…

E não podemos esquecer da VOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA. Esses, coitados, apenas ajudaram a cometer o maior genocídio da história da América Latina, na Guerra do Paraguai. Mas aí pode render homenagem. Por falar em Guerra do Paraguai, há um que inclusive tem DUAS ruas em Porto Alegre: ALMIRANTE BARROSO e BARÃO DO AMAZONAS. Sim, o Alm. Barroso era o Barão do Amazonas e Amazonas era o nome do navio que ele comandava.

Mais, mais… Mais? Vamos destruir com a nossa hipocrisia as ruas de Porto Alegre. Vamos acabar com as homenagesn aos ditadores, mas também vamos acabar com a homenagem à hipocrisia.

Não defendo a ditadura de 64 e seus ditadores; e sequer é essa a questão em jogo. O que está em jogo é a hipocrisia do oportunismo de uns e outros (outros que defendem e divulgam) em bradarem contra uns e esquecerem que existem OUTRAS RUAS e AVENIDAS…

Avanços, lacunas e a quadratura do círculo do Zero Draft da Rio + 20

A ONU divulgou no dia 10 de janeiro de 2012 o Rascunho Zero do documento base de negociação da Rio + 20, o chamado Zero Draft, que será objeto de discussão nos próximos meses antes de se chegar ao documento final que será aprovado pelos Chefes de Estado, em junho. Evidentemente, o documento final da Rio + 20 vai ser um produto da atual conjuntura mundial e é claro que será uma declaração que vai refletir o nível atual de compromisso da comunidade internacional com a população, a economia e o meio ambiente. Certamente não será um documento revolucionário, mas espera-se que seja um texto avançado.

Logo no Preâmbulo, o documento explicita que os Chefes de Estado estão dispostos a trabalhar juntos por um futuro próspero, seguro e sustentável para o povo e o planeta:

“Reafirmamos a nossa determinação para libertar a humanidade da fome e queremos, por meio da erradicação de todas as formas de pobreza, lutar por sociedades iguais e inclusivas, por estabilidade econômica e crescimento que beneficie a todos”; “Estamos empenhados em empreender todos os esforços para acelerar o progresso na realização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio até 2015, melhorando, assim, a vida das pessoas mais pobres”; “Estamos também empenhados em reforçar a cooperação e abordar as questões atuais e emergentes de uma maneira que aumentará as oportunidades para todos,  centrada no desenvolvimento humano, preservando e protegendo o sistema de suporte de vida da nossa casa comum, o nosso planeta compartilhado”; “Pedimos por ações ousadas e decisivas sobre o objetivo e os temas da conferência. Renovamos nosso compromisso com o desenvolvimento sustentável e expressamos nossa determinação em buscar a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza. Afirmamos
com ainda mais ênfase a nossa vontade de reforçar o quadro institucional para o desenvolvimento sustentável. Em conjunto, nossas ações devem preencher as lacunas de implementação e alcançar uma maior integração entre os três pilares do desenvolvimento sustentável – econômico, social e ambiental” (p.3).

Estes princípios apresentados, logo na definição dos cenários, representam um avanço em relação a documentos anteriores.

A definição inical do Relatório Brundtland (1987) de desenvolvimento sustentável dava ênfase apenas aos aspectos intergeracionais: “o desenvolvimento que satisfaz as necessidades presentes, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de suprir suas próprias necessidades”. Mas o desenvolvimento sustentável precisa ser economicamente inclusivo e socialmente justo. Neste sentido, o Zero Draft dá destaque correto à erradicação da fome e da pobreza no mundo e indica a necessidade de reforçar o quadro institucional para o desenvolvimento sustentável.

Além disto o Zero Draft aponta para a construção da economia verde “aquela que resulta em melhoria do bem-estar das pessoas devido a uma maior preocupação com a equidade social, com os riscos ambientais e com a escassez dos recursos naturais”. A economia verde está relacionada diretamente a mudanças climáticas: produção e consumo com baixo carbono, eficiência energética, energia renovável, cidades sustentáveis, etc. Ou seja, o documento articula o conceito de “economia verde” como um complemento do “desenvolvimento sustentável” em seus 3 pilares – econômico, social e ambiental. Evidentemente, os dois conceitos são entendidos dentro da lógica das relações sociais reguladas pela propriedade privada, que condiciona o modo de produção da vida material em praticamente todos os países que estarão presentes na Rio + 20.

O documento reconhece que a “insegurança alimentar, as alterações climáticas e a perda de biodiversidade têm prejudicado os ganhos de desenvolvimento” e não omite que “Estamos profundamente preocupados com o fato de cerca de 1,4 bilhão de pessoas ainda viverem na pobreza extrema e de um sexto da população mundial ser subnutrida, e com as pandemias e epidemias, que são uma ameaça onipresente” Para enfrentar estes problemas, diz: “Reconhecemos a responsabilidade particular em fomentar padrões de consumo e de produção sustentáveis”. Nas ações para o acompanhamento, o documento destaca as seguintes áreas prioritárias:

– segurança alimentar;

– direito à água potável limpa e segura e ao saneamento e importância crítica dos recursos hídricos para o desenvolvimento sustentável;

– energia Sustentável para Todos;

– abordagem integrada e holística da urbanização e da construção de cidades sustentáveis;

– Empregos verdes e inclusão social;

– conservação, manejo sustentável e distribuição equitativa dos recursos marinhos e dos oceanos;

– redução dos riscos de desastres naturais;

– mudança climática como  um dos maiores desafios da contemporalidade;

– deter e reverter o desmatamento e degradação florestal e promover o uso sustentável e a gestão das florestas, bem como a sua conservação e restauro;

–  as montanhas são extremamente vulneráveis às mudanças globais como as alterações climáticas, e muitas vezes são o lar de comunidades, incluindo dos povos indígenas, que, mesmo tendo desenvolvido utilização sustentável dos seus recursos, ainda são muitas vezes marginalizados;

–  intensificar os esforços no sentido de um regime mais forte, coerente, eficaz e eficiente internacional de produtos químicos durante o seu ciclo de vida;

– acesso por todas as pessoas à educação de qualidade é uma condição essencial para o desenvolvimento sustentável e inclusão social;

–  o desenvolvimento sustentável está ligado e depende de contribuições econômicas das mulheres, tanto formal como informal e da maior equidade de gênero.

Embora esta lista de temas e ações seja grande, existe uma lacuna injustificável no documento que é a ausência do tema POPULAÇÃO (humana e não-humana).

O Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) e a comunidade demográfica mundial fizeram diversos documentos mostrando a necessidade de incorporar as questões da dinâmica demográfica no documento final da Rio + 20. O desenvolvimento sustentável não pode ignorar o número, as características e o comportamento das pessoas e das subpopulações que mais sofrem e daquelas que mais contribuem para a degradação ambiental. Também não se pode ignorar que a percentagem da população urbana vai passar de 50% para 70% nas próximas décadas e que existe cerca de 215 milhões de mulheres em idade fértil, no mundo, sem acesso aos métodos de regulação da fecundidade e sem acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutiva. Somente com ações demográficas e políticas de cidadania se pode vencer a “armadilha da pobreza”.

Em relação à população não-humana, existe uma campanha de mobilização global da Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA) pedindo a inclusão do tema do bem-estar animal na agenda da Rio+20. Além dos direitos dos animais a campanha pretende esclarecer o consumidor sobre a origem do produto que ele consome e as condições como estes animais são tratados. A Carta da Terra, por exemplo, já incorporou os seguintes pontos:

– Impedir crueldades aos animais mantidos em sociedades humanas e protegê-los de sofrimento;

– Proteger animais selvagens de métodos de caça, armadilhas e pesca que causem sofrimento extremo, prolongado ou evitável;

– Evitar ou eliminar ao máximo possível a captura ou destruição de espécies não visadas;

– Tratar todos os seres vivos com respeito e consideração.

Por fim, é preciso fazer duas ressalvas importantes. Primeira ressalva: o documento final da Rio + 20 não tem força de lei, automática, nos diversos países do mundo. O item 9 do Zero Draft diz o seguinte: “Reconhecemos a necessidade de reforçar o desenvolvimento sustentável em nível global por meio de nossos esforços coletivos e nacionais, de acordo com o princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas, e com o princípio do direito soberano dos Estados sobre seus recursos naturais” (p. 3). Desta forma, os recursos naturais dependem da boa vontade dos Estados que possuem soberania nacional e podem, por exemplo, em nome do desenvolvimento econômico, destruir as fontes naturais da vida e da biodiversidade.

A segunda ressalva é mais complexa e envolve uma avaliação mais profunda dos conceitos de desenvolvimento sustentável e economia verde. Até que ponto é possível conciliar desenvolvimento sustentável e verde com o crescimento ilimitado da população e da economia sem afetar os limites naturais do planeta e as bases da biodiversidade?

Ou seja, qualquer continuidade do crescimento econômico do mundo, seja ele marrom ou verde, vai agravar, em menor ou maior grau, os problemas da degradação ambiental e das mudanças climáticas. Conceitos como o de “Estado Estacionário” ou “Decrescimento” nem foram mencionados. Dificilmente o documento final da Rio + 20 vai conseguir vencer o viés antropocêntrico e estabelecer os princípios ecocêntricos, o que, entretanto, não invalida os avanços apresentados.

Neste sentido, o Zero Draft é um documento bem intencionado e que certamente vai contribuir para mitigar os problemas ambientais mais graves do globo. Porém, está longe de apresentar uma solução efetiva para a sobrevivência da vida no Planeta, pois querer resolver os desafios ambientais da Terra dando continuidade ao modelo de crescimento econômico ilimitado da produção e do consumo é como tentar uma fórmula para solucionar o problema da quadratura do círculo, que a matemática já mostrou ser impossível.