O mundo pode escolher entre 6 e 16 bilhões de habitantes em 2100

6 a 16 bi pop

O futuro é uma página em branco na qual podemos escrever nosso destino, respeitando as limitações e as circustâncias históricas. O futuro da economia e da população depende das decisões que se tomam no presente e das medidas colocadas em prática nas décadas subsequentes.

Em relação ao futuro da população mundial, as projeções da Divisão de População da ONU apontam para três cenários até 2100, que variam de 6 a 16 bilhões de habitantes. O número que será atingido vai depender, fundamentalmente, do comportamento das taxas de fecundidade. A redução das taxas de mortalidade e o aumento da esperança de vida também afetam o resultado final, mas em uma proporção bem menor do que o ritmo dos nascimentos.

A Divisão de População estima  que a esperança de vida média do mundo vai aumentar de 68 anos em 2010 para 81 anos em 2100. O que é um cenário bastante positivo e otimista e mostra que as pessoas devem viver mais tempo e obter maiores retornos dos investimentos em educação e qualidade de vida.

Mas as grandes diferenças nas projeções ocorrem quando se considera as variações nas taxas de fecundidade. Não se trata de grandes variações no número médio de filhos, pois meio filho (0,5 filho) para baixo ou para cima da taxa de reposição (2,1 filhos por mulher) tem como resultado uma variação de cerca de 10 bilhões de habitantes no número a ser atingido em 2100.

A Taxa de Fecundidade Total (TFT) mundial estava em torno de 2,5 filhos por mulher no quinquênio 2005-2010. Se esta taxa permanecer neste nível até o final do século, então a população mundial chegará a cerca de 16 bilhões de habitantes em 2100.

Se a TFT cair meio filho, ou seja, para algo em torno de 2,1 filhos por mulher até 2050 e permanecer neste nível, então a população mundial chegará a 10 bilhões de habitantes em 2100.

Porém, se a queda da fecundidade for mais rápida e mais profunda o resultado será uma diminuição do montante absoluto da população na segunda metade do corrente século. Caso a TFT cai para 2,1 filhos por mulher até 2025 e continue caindo até 1,6 filhos por mulher por volta de 2075, então a população mundial aumentaria até 8 bilhões em meados do corrente século e depois cairia para algo em torno de 6 bilhões em 2100.

Desta forma, a Divisão de População da ONU mostra que no cenário de fecundidade média (2,1 filhos) da projeção a população mundial chegaria a 10 bilhões de habitantes em 2100. No cenário de fecundidade alta (2,5 filhos), a população chegaria a 16 bilhões no final do século. E no cenário de fecundidade baixa (1,6 filhos) a população ficaria em torno de 6 bilhões de habitantes em 2100.

Portanto, as possibilidades são bem variadas e o mundo pode escolher qual o montante de população gostaria de ter, em um leque de opções que varia de 6 a 16 bilhões de habitantes. Em termos de taxas de fecundidade o leque varia entre 1,6 filho e 2,5 filhos por mulher. Se a comunidade internacional optar por um número menor de pessoas terá que colocar em prática a meta 5b dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio que trata da universalização dos serviços de saúde reprodutiva.

O planejamento familiar não tem efeito retroativo, mas possui grande efeito prospectivo.

Evidentemente, qualquer opção tem que ser feita de maneira democrática e respeitando os direitos reprodutivos. Também precisa ser uma escolha discutida e refletida de maneira racional e consciente. Infelizmente, a Rio + 20 não agendou de maneira adequada este tema, pois quando se trata de debater as questões populacionais as ideologias e as crenças religiosas costumam falar mais alto e muitas pessoas preferem o silêncio.

Todavia, as alternativas estão colocadas e são de domínio público. O mundo pode escolher qual o caminho que deseja seguir: se prefere mais gente com menos consumo; menos gente com mais consumo per capita; ou mesmo, menos gente e menos consumo, com menor impacto ambiental.

O leque de opções é amplo. Só não dá para manter o ritmo de crescimento de 78 milhões de pessoas a cada ano e um crescimento ainda maior da produção e do consumo. As atividades antrópicas já ultrapassaram o limite da sustentabilidade do Planeta.

Os atuais governantes dos diversos países do mundo, que vão estar reunidos no Rio de Janeiro, em junho de 2012, não podem usar como desculpa o fato de desconhecerem as alternativas colocadas. Vale a pena lembrar que a inação e a omissão são as piores formas de ação.

O relatório Planeta Vivo e as projeções da Pegada Ecológica

proj pegada

Um dos componentes centrais do relatório Planeta Vivo, da WWF, é a pegada ecológica, que é uma medida utilizada para avaliar a demanda que o ser humano exerce sobre a biosfera (nas diversas escalas), comparando a quantidade de recursos naturais renováveis que as pessoas estão consumindo em comparação com a capacidade de regeneração da Terra ou a sua biocapacidade, medida em área de terra efetivamente disponível para a produção dos recursos naturais renováveis e a absorção das emissões de CO2. A metodologia considera os impactos humanos nas áreas construídas (built-up land), pesqueiros (fishing), florestas (forest), pastagens (grazing), áreas de cultivo (cropland) e carbono (carbon).

Até meados da década de 1970 a humanidade vivia dentro dos limites renováveis do Planeta. Mas, a partir daí, a pegada ecológica da população mundial foi crescendo continuamente na medida em que crescia o número de habitantes e a renda per capita. Em 1961, a pegada ecológica per capita era de 2,4 hectares globais (gha) e a população mundial era de 3,1 bilhões de habitantes, sendo a biocapacidade per capita de 3,7 gha. Desta forma, a humanidade estava utilizando 63% da capacidade regenerativa da Terra, havendo sustentabilidade ambiental. Em 1975, a pegada ecológica e a biocapacidade per capita, respectivamente, passaram para 2,8 gha e 2,9 gha e a população mundial chegou a 4,1 bilhões de habitantes. A humanidade estava usando 97% da capacidade de regeneração, ainda cabendo dentro de um Planeta. A partir desta data as atividades antrópicas ultrapassaram os limites biológicos da Terra.

Em 2008 (último dado disponível) a pegada ecológica per capita ficou em 2,7 gha, a biocapacidade em 1,8 gha e a população chegou a 6,75 bilhões de habitantes. Portanto a humanidade estava usando 1,5 planetas, ou seja, um planeta e meio em 2008. Nota-se que a pegada ecológica per capita não cresceu nas últimas 3 décadas, mas sim o número de habitantes do globo.

As projeções do relatório Planeta Vivo, da WWF, indicam que a humanidade estará utilizando 2 Planetas em 2030 (com 8,3 bilhões de habitantes) e cerca de 3 Planetas em 2050 (com 9,3 bilhões de habitantes). Os maiores fatores para o crescimento da pegada ecológica serão na emissão de carbono, nas áreas de cultivo e nas áreas de pastagem. Portanto, quase 2 planetas, em 2050, serão necessários apenas para absorver a quantidade de CO2 emitido pelas atividades antrópicas, em todas as suas dimensões.

Uma alternativa para reduzir a pegada ecológica é diminuir o uso de combustíveis fósseis e passar a usar fontes renováveis, como energia eólica, solar, geotérmica, das ondas, etc. Mas não basta alterar apenas a matriz energética, pois é preciso construir prédios sustentáveis, dar prioridade ao transporte coletivo, revolucionar a produção pecuária, com a captura de metano, incentivar a dieta vegetariana, fazer uma agricultura menos petroficada, com menos agrotóxicos e mais orgânica, apoiar a aquacultura, além de caminhar rumo a uma sociedade do conhecimento baseada em bens e serviços imateriais e intangíveis.

O fato é que já existe uma discrepância de 50% entre o padrão de vida da humanidade e a capacidade de regeneração da Terra. O ser humano está consumindo o capital natural (acumulado no solo e no sub-solo) ao mesmo tempo que degrada as fontes de vida e aquece o Planeta. Este caminho é insustentável pois a Terra é apenas um planeta e não três, como será a demanda da população mundial em 2050. A se manter esse rumo, o mundo vai dar com os burros n’água (salgada).

O relatório Planeta Vivo e as projeções da Pegada Ecológica

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Um dos componentes centrais do relatório Planeta Vivo, da WWF, é a pegada ecológica, que é uma medida utilizada para avaliar a demanda que o ser humano exerce sobre a biosfera (nas diversas escalas), comparando a quantidade de recursos naturais renováveis que as pessoas estão consumindo em comparação com a capacidade de regeneração da Terra ou a sua biocapacidade, medida em área de terra efetivamente disponível para a produção dos recursos naturais renováveis e a absorção das emissões de CO2. A metodologia considera os impactos humanos nas áreas construídas (built-up land), pesqueiros (fishing), florestas (forest), pastagens (grazing), áreas de cultivo (cropland) e carbono (carbon).

Até meados da década de 1970 a humanidade vivia dentro dos limites renováveis do Planeta. Mas, a partir daí, a pegada ecológica da população mundial foi crescendo continuamente na medida em que crescia o número de habitantes e a renda per capita. Em 1961, a pegada ecológica per capita era de 2,4 hectares globais (gha) e a população mundial era de 3,1 bilhões de habitantes, sendo a biocapacidade per capita de 3,7 gha. Desta forma, a humanidade estava utilizando 63% da capacidade regenerativa da Terra, havendo sustentabilidade ambiental. Em 1975, a pegada ecológica e a biocapacidade per capita, respectivamente, passaram para 2,8 gha e 2,9 gha e a população mundial chegou a 4,1 bilhões de habitantes. A humanidade estava usando 97% da capacidade de regeneração, ainda cabendo dentro de um Planeta. A partir desta data as atividades antrópicas ultrapassaram os limites biológicos da Terra.

Em 2008 (último dado disponível) a pegada ecológica per capita ficou em 2,7 gha, a biocapacidade em 1,8 gha e a população chegou a 6,75 bilhões de habitantes. Portanto a humanidade estava usando 1,5 planetas, ou seja, um planeta e meio em 2008. Nota-se que a pegada ecológica per capita não cresceu nas últimas 3 décadas, mas sim o número de habitantes do globo.

As projeções do relatório Planeta Vivo, da WWF, indicam que a humanidade estará utilizando 2 Planetas em 2030 (com 8,3 bilhões de habitantes) e cerca de 3 Planetas em 2050 (com 9,3 bilhões de habitantes). Os maiores fatores para o crescimento da pegada ecológica serão na emissão de carbono, nas áreas de cultivo e nas áreas de pastagem. Portanto, quase 2 planetas, em 2050, serão necessários apenas para absorver a quantidade de CO2 emitido pelas atividades antrópicas, em todas as suas dimensões.

Uma alternativa para reduzir a pegada ecológica é diminuir o uso de combustíveis fósseis e passar a usar fontes renováveis, como energia eólica, solar, geotérmica, das ondas, etc. Mas não basta alterar apenas a matriz energética, pois é preciso construir prédios sustentáveis, dar prioridade ao transporte coletivo, revolucionar a produção pecuária, com a captura de metano, incentivar a dieta vegetariana, fazer uma agricultura menos petroficada, com menos agrotóxicos e mais orgânica, apoiar a aquacultura, além de caminhar rumo a uma sociedade do conhecimento baseada em bens e serviços imateriais e intangíveis.

O fato é que já existe uma discrepância de 50% entre o padrão de vida da humanidade e a capacidade de regeneração da Terra. O ser humano está consumindo o capital natural (acumulado no solo e no sub-solo) ao mesmo tempo que degrada as fontes de vida e aquece o Planeta. Este caminho é insustentável pois a Terra é apenas um planeta e não três, como será a demanda da população mundial em 2050. A se manter esse rumo, o mundo vai dar com os burros n’água (salgada).

O amor finito e o começo brando das escolhas dignas.

Como se gosta tanto de alguém – quando o sol do amor recente queimava pra valer o que era menor e fraco – e hoje, quando o outro está decidido do novo amor, simplesmente não se sente mais nada? Como é possível superar tanta dor em tão pouco tempo sem o estranhamento de ter que construir uma defesa intransponível que nos exclui de todas as outras possibilidades de nos fazer feliz em outros momentos?

A luz negra, que tornava tudo assombroso, branco e afetado, disfarçava a natureza dos homens que se entregavam ao desejo de ser outro, de ter outra coisa além de si, de possuir o controle da vida e da noite, de superar apegos fracassados que se calaram e engoliram a beleza de ter nas mãos dignidade e amor próprio.

O ex-atual do outro fazia da noite sua perseguição deprimente em minha direção, procurando meus olhos, minhas escolhas, talvez buscando entender por quê eu: ele é tão torto, de altura fingida, tão fácil, dispensável, de cabelos amargos, olhos obtusos, uma oleosidade alvoroçada que parece fulgor de mentira. E esqueceu-se de viver o respeito por si e por seu velho novo amor. Se ele soubesse que meu desejo nem morava mais ali naqueles olhos invertidos, nem naquele local.

Foi libertador observar de longe aquela procura perturbadora e o desespero insaciável dos quais eu me livrei, e que agora impregnavam os movimentos e o tamanho daquele outro homem. Cada vez menor, talvez ele tentasse justificar o início da nova velha relação, o recomeço seu de cada dia, a reconquista que não vai ser diferente, a luz oscilante em curto-circuito no final de um percurso sombrio que o outro faz questão de simular.

Também já havia andado como o outro. Passos curtos, tentando esconder a desmesura; também esperei que nossas mãos se encontrassem apaixonadas, que o frio não passasse de engano, que os cuidados chegassem repentinos, que os olhos e a boca falassem a mesma língua, que ele entendesse que minhas palavras não esmagavam sua sensibilidade calculada, que não tentasse mastigar mistérios que não existiam no meu corpo, na minha vida, na minha busca.

[Alterado pelas forças que só a compaixão recém descoberta é capaz de promover, com os cuidados de nublar quaisquer gestos idiotas ou que beirem a uma busca não resolvida, encarei o ex-atual para que ele se contaminasse com a audácia insolente que produzíamos, e que o tempo em suspensão nos tocasse, e ele buscasse uma resposta, ou tirasse suas conclusões de maneira mágica e como melhor lhe conviesse: EU NÃO PRECISO VIVER ALGO QUE TORNA DEGRADANTE O SIMPLES ATO DE BEM QUERER. Ele estava apaixonado outra vez pela incerteza que o tornava tolo.]

E meu amor não aconteceu outra vez, como algumas pessoas esperavam.

Esperei meu coração dizer Sim Sim Sim, e eu correria para a declaração ao infinito de que o amor não acaba assim, não se entrega tão facilmente, resiste bravamente, recupera-se das torrentes das ofensas e da vaidade. Mas não. Meu coração ficou rindo, gargalhando, agradecido pela liberdade que acabara de descobrir. Eu pedi Vamos, Coração, o que você sente? Quanto você ainda suporta?

A resposta veio num voo silencioso de compaixão e respeito, e eu entendi que a superação veio limpa, inteira, minha maré alta, meu pôr do sol sem medidas, minhas roseiras sem espinhos, o toque e o acalento, amar-me, o despropósito da raiva que me transformava na possibilidade de amar mais e outros e cada vez mais quem tivesse consistência em suas escolhas, que não fizesse da vida o apocalipse a cada tristeza ou desentendimento.

Estava faltando algo. Não eram os olhos luminosos de antes, que combatiam minha solidão, cheios de amor recíproco que eu esperava; aqueles que encontrei no início.

Eu nunca havia desistido de alguém como daquela vez.

Os toques não tinham mais energia, abandonavam a singularidade da sua diferença antes mesmo do suor sinalizar a ansiedade de estar em outro corpo. A alegria em escalas de cinza. Eu ensaiava minhas preferências, chamava-o de meu amor apenas com a memória, sem entender o que isso significava. Tentava recordar o começo, intensificar as necessidades, forçar o corpo, todas as células, a queimar de espontânea paixão. Como no início. Mas não se ressuscita um amor assim, estalando os dedos, tragando insegurança.

E nada aconteceu.

Meu coração sem amarras ou com insípida raiva saltou para as vontades seguintes. Superado.

[Aquela vontade insuficiente de me querer inteiramente (de aceitar minhas cobranças motivadas pelos resquícios de amor passado) foi condescendente com o término da relação em desgaste que se anunciava desde então. Nossa maneira saudável de se articular ardia a cada movimento: se eu dizia querer a proximidade para que os detalhes do amor se tornassem uma existência particular e suficiente era entendido que o que era por mim oferecido se tornaria algo monstruoso dali a alguns dias quando os abismos de ausência começassem a engolir o desejo de satisfazer sua vingança envaidecida. Tudo era grande e pesado. Como se meu amor fosse leviano.]

Recaídas são erros repetidos às vezes. E eu estava livre e inteiro. Feliz e satisfeito. Colorido, sem entre linhas, desarmado. Pela primeira escolha certa, por não ter acreditado desde o primeiro beijo com gosto de eternidade que não combinávamos tanto, que eu era o amor, e do outro lado ele era a busca. Pela aposta no outro amor futuro que sempre está para chegar.

Nada mais.

O passado é cheio de infernos.

Fiquei recheado de medo. Frio. Um vento seco dizendo que a vida é mesmo cheia de gente estranha que não sabe o que quer.

Não sei ao certo o porquê do medo (de não estar me reconhecendo por ter esquecido tão rápido algo que era pra ter sido importante?), mas é como se eu tivesse temperado uma história que tendia ao fracasso desde a primeira entrega.

Como se eu fosse desses homens dissimulados, estreitos, que correm riscos sem acreditar nos próprios abismos. Como se tudo tivesse sido pouco e, comportando na palma da mão, pudesse ser desperdiçado ou jogado fora. Como se azul fosse palidez arrependida. Como se fosse um desdenhar alternativo das coisas que não faziam sentido, das nossas diferenças, dos erros, das desculpas, dos enganos.

Em todos os cantos que eu me instalava a atenção do ex-atual do outro estavam lá. Não entendia também. Uma fiscalização da própria insegurança, e não do amor que nascia pra eles.

Não, o amor não acaba. As nossas pessoas preferidas é que mudam, somem, fingem, fogem, são esquecidas, superadas, outras aparecem. Mas o amor não acaba dentro da gente, algumas pessoas é que morrem e se afogam nos defeitos que são revelados a cada ex namorado que sangra, a cada amigo que reconhece a idiotice arrogante de quem não saber o que quer, de quem não sabe o que é, de quem aumenta os precipícios do dia a dia com suas lágrimas de arrependimento, testemunhando calado o fim de suas possibilidades, pois de dez entre dez dos conhecidos que fingem compreensão suportam por piedade suas descompensações exageradas e mesquinhas.

E não existia mais a falta de antes, porque, quando mesmo de mãos coladas há uma ausência, o amor torna-se uma limitação e quando sentimentos extraordinários são cercados com limites, então o fim é o próximo gosto.

[Não era uma guerra, o nazismo, um muro, ou o fim do amor. Era só algo bom que não deu certo, que foi respeitado, entendido, e esquecido. Não houve armas, nem bombas. Só um fim, e o recomeço de uma vida]

E descubro que o amanhã é nosso melhor amor necessário.

Meu coração, hoje, sopra uma brisa fina, branda, em fim de tarde. Manso. Apaziguado. Observa o começo de tudo que ainda é realmente importante.

E agora eu não estou só.

Estou comigo.


 

 


 

A demografia do decrescimento

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Durante 200 mil anos, desde o surgimento do homo sapiens, houve crescimento do número de habitantes do mundo. Pode ter havido recuos em alguns lugares e até civilizações locais podem ter desaparecido, mas nas contas globais, o crescimento foi contínuo e passou a ser exponencial nos últimos 250 anos. Por conta disto, a demografia é uma ciência que se acostumou com o crescimento.

A pirâmide populacional (formato egípicio) tinha cada grupo etário quinquenal maior do que o imediatamente superior. A estrutura etária jovem fazia com que as políticas públicas se preocupassem somente com a expansão das suas metas. Isto quer dizer maior número de maternidades e pediatrias, mais escolas, mais moradias, mais empregos, mais estradas, mais consumo, etc.

Porém, depois de 200 anos de crescimento econômico e populacional exponencial, o mundo já ultrapassou as fronteiras planetárias e os limites da biocapacidade. A pegada ecológica já é maior do que a capacidade regenerativa da Terra. A humanidade já chegou a um ponto que só se mantém devido aos recursos fósseis ou a riqueza acumulada nos oceanos, terras, florestas, etc. Mas na taxa atual de uso, estas riquezas estão sendo sobreusadas ou degradadas. Desta forma, a possíbilidade de um colapso ambiental global é cada vez mais real.

Se a população se estabilizar e depois iniciar uma fase de declínio, então os estudos populacionais deixarão de ser uma disciplina orientada para a análise das situações de crescimento e surgirá uma demografia do decrescimento. Pode ser o começo de um mundo com menos consumo e menos lixo.

Ao invés de planejar cada vez mais maternidades, escolas e empregos haverá o planejamento de menos nascimentos, menos estudantes e menos trabalhadores entrando na força de trabalho. O déficit habitacional dará lugar à ociosidade dos domicílios e novas formas de uso das moradias.

Mas uma das tarefas mais difíceis será lidar com o sistema de repartição simples da previdência social, pois este sistema pressupõe que haja um fluxo crescente de pessoas em idade de trabalhar para sustentar o fluxo crescente de pessoas idosas e em condições de inatividade econômica. Para manter o mesmo padrão de vida, o grupo de idoso precisa ser sustentado pelo grupo de adultos produtivos. Se estes últimos diminuirem, a única forma de manter o padrão de vida dos idosos é um grande aumento da produtividade do trabalho.

Mas a produtividade, geralmente, depende da expansão da economia. Porém, isto fica cada vez mais difícil com uma população em declínio e com uma carga maior de dependência provocada pelo envelhecimento populacional.

Portanto, a demografia do decrescimento vai ter um grande desafio prático e teórico pela frente. Mas é bom começar a pensar nisto, pois o envelhecimento populacional só será inevitável se alguém descobrir o “elixir da longa vida” (isto é, conseguir manter um crescimento infinito). Quanto mais rápido for o envelhecimento – decorrente de uma maior queda das taxas de fecundidade – maior vai ser o decrescimento futuro da população.

A demografia do decrescimento será o estudo da pirâmide populacional invertida. Isto vai dar o que pensar, assim com será preciso pensar novos objetivos para as políticas públicas, que não seja só crescimento. O “mundo” vai virar de cabeça para baixo.

A borboleta e o desapego

Terminei de ler um livro, escrito por Jorge Luís Borges em 1949, mas reeditado em 2012 pela Companhia das Letras, “Aleph”, considerado uma das suas melhores obras. Destaco uma das frases que melhor acomoda à aceitação  das coisas perdidas entre imagens da lembrança quando nem mais restam as palavras: “Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias. Mais que um decifrador ou um vingador, mais que um sacerdote do deus, é um encarcerado”.

Outra reflexão, em um segundo trecho, me infundiu em uma espécie de vertigem ao apego: “Essa vida é nova para ele, e às vezes atroz, mas já está em seu sangue, pois, assim como os homens de outras nações veneram e pressentem o mar, assim nós (também o homem que entretece estes símbolos) ansiamos pela planície interminável que ressoa sob os cascos”.

Lembro-me de uma estória que me foi contada quando criança sobre o motivo do elefante no circo ficar quieto e não se soltar da estaca cravada no solo, mesmo apresentando força e tamanho. O motivo era elementar, talvez irônico, pois com a força que tinha, poderia derrubar não só a estaca, mas o local inteiro. Todavia, simplesmente, aceitava o seu destino e não escapava porque tinha sido preso à estaca ainda muito pequeno. Talvez, tenha tentando se soltar quando pequeno, mas recuou, pois a estaca era muito pesada. E, assim, amarrado na estaca, aprendeu a esperar eternamente a hora do espetáculo.

Entendo que, assim, como o elefante, nos sobra pouca identidade ou desejo de uma nova morada porque o desapego só acontece contra a vontade e nada escapa a perfeição da lassidão da espera. Após a luta pela permanência do dia, o que resta é a realidade. Diria uma batalha de desfechos e contradições dispensáveis.

Sempre quando lembro a estória, penso em momentos desnecessários ou revoltas imperfeitas. Independentemente dos sentimentos, o apego  é  oco e solitário, pois existe a restrição de ser além do que se é. A essencialidade da temporalidade não se envolve com a simplicidade. A manutenção do presente só existe, além dos fatos.

Entendo que temos dificuldade a qualquer ato que remonte a desmontagem de uma árvore de natal ou mesmo a renegar a cegueira do amor fantasiado. Na maioria das vezes, vivenciamos relações que não fazem mais sentido, mas ficamos lá como se tudo se bastasse em um balanço patrimonial, segurando as despesas do desentendimento, ampliando as receitas da paciência e esperando o patrimônio liquido da estabilidade. Só enxergamos  o lucro absolutamente necessário.

Somos tão renitentes a estridência inesperada do fim que cerramos os punhos ao sinal de qualquer aviso para limpar o guarda-roupa, andar a fila, procurar um novo emprego, trocar o carro ou virar a contramão. Nos arrasamos em lágrimas como parodia à nossa teimosia de seguir buscando a possibilidade do sempre para esquecer-se de se despedir do nunca mais. Vive-se da memória da terra, do sonho, da cultura, da amizade, do amor, da estabilidade, do emprego e do objeto perdido e não se consegue encontrar o próprio destino. E como esquecendo Mario Quintana, não nos lembramos de nos bastar. Estamos encobertos do desejo do dia seguinte.

Por um lado, é como se estivéssemos colorindo a rotina e limitássemos qualquer possibilidade de enxergar as ondas inesperadas na vida para que seja plenamente possível, viver por um milésimo de segundo a mais. Por outro, a mania de achar que o outro é a única ou a última esperança, deixa longo o caminho para se acostumar com a ausência, com o luto e  com a reconstrução de uma nova inspiração.

Algum tempo depois, quando se apega a algo que só traz intensidade à injustiça das dores passadas, erra-se sem encontrar água, deixando o caminho ao arbítrio do cavalo de terceiro. Abre-se um labirinto com intrincadas e confusas circunstâncias, impossíveis de alcançar a melhor maneira de preencher a existência. Não se trata apenas de encerrar ciclos, mas de sermos incapazes de recuperar o abrigo das cavernas. Duvidamos dos mitos e perdemos o resgate.

Assim, perdem-se o fôlego e a paz quando não se desiste da fixação de parar o vento para manter o outono que ainda não aprendeu a esperar o inverno. Seria como ficar no topo do monte e evitar ceder espaço para noite, com contradições e apegos, não se abrindo ao universo paralelo. Bastaria não cruzar ruas que não deveriam ser mencionadas no jornal do dia anterior, mas por estarmos cansados e despreparados, a dor caminha por uma rua de mão única, conforme o mapa comprado na banca do passado.

E mesmo quando o amor já está  morto, permanece-se amando querubins no lugar de nos rendermos a verdade de que somos o que temos. Esperamos a volta das borboletas, olhando com o desdém a mariposa, e depois com temor, como se o tempo não pudesse refazer o que perdemos.

De forma verossímil por retratar a dualidade de todos nós, o apego nos inibe perante a busca da plenitude da mudança, descrita na frase de uma música que me vem a memória do Gabriel o Pensador: “Muda, que quando a gente muda o mundo muda com a gente.”

Somos alérgicos as novas possibilidades, sejam elas, emocionais, pessoais ou funcionais, desconfiamos do genérico da loratadina. Bastaria segurar as emoções do romantismo, não se prendendo aos fragmentos de um passado despedaçado, a uma máquina de escrever enferrujada, a um moletom manchado ou a uma caneta tinteiro.  Bastaria usar o GPS em detrimento da bússola quebrada.

Imaginamos até  o novo, mas preferimos gestos mindlinianos, pois preferirmos sermos enganados pelo contrato sob judice a fechar o balanço, a aceitar o som estrondoso do não.

No final, acreditando em sina, destino ou benção da irrelevância ilusória, procuramos rever o filme com o intuito de notar sinais desapercebidos,  mas nem sempre voltamos à encruzilhada anterior ou desembocamos em outro olhar.

E nessa dificuldade de esperar o próximo instante, não saímos de casa, não deixamos as portas abertas  e a coisa vivida não figura como fantasma, mas espanta o futuro. Fazemos do drama o sentido, da propriedade a certeza e, por mais que tentamos escapar da dúvida, deixamos o próximo passo sem imaginação.

Logo, o apego seria um cárcere profundo. No firmamento do desapego material ou emocional há mudança de pele, pois se descarta o acúmulo das batalhas ainda divididas, mesmo aquelas que não tiveram inscrição de hábito ou se tornaram fraudes de si mesmo.

Mas, podemos ser titulares do destino e transformar as lavras do coração em borboletas. E sempre lembrar que as borboletas duram no máximo 24 horas, tempo suficiente para o acasalamento de seus ovos, não se alimentando, sendo efêmeras, alias desapegadas. Como disse Rubem Alves: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses” .

E no final do dia que as nossas borboletas não se sintam pressionadas a voltarem ao casulo, desabrochando de um modo ou de outro, sem dar sobrevida à dor.

As borboletas e o desapego

Acabo de ler um livro, escrito por Jorge Luís Borges em 1949, mas reeditado em 2012 pela Companhia das Letras, “Aleph”, considerado uma das suas melhores obras. Destaco uma das frases que melhor acomoda à aceitação  das coisas perdidas entre  imagens da lembrança quando nem mais restam as palavras: “Um homem se confunde, gradualmente, com a forma de seu destino; um homem é, afinal, suas circunstâncias. Mais que um decifrador ou um vingador, mais que um sacerdote do deus, é um encarcerado”.

 

Outra reflexão, em um segundo trecho, me infundiu em uma espécie de vertigem ao apego: “Essa vida é nova para ele, e às vezes atroz, mas já está em seu sangue, pois, assim como os homens de outras nações veneram e pressentem o mar, assim nós (também o homem que entretece estes símbolos) ansiamos pela planície interminável que ressoa sob os cascos”.

Lembro-me de uma estória que me foi contada quando criança sobre o motivo do elefante no circo ficar quieto e não se soltar da estaca cravada no solo, mesmo sendo grande e forte. O motivo era elementar, talvez irônico, pois com a força que tinha, poderia derrubar não só a estaca, mas o local inteiro. Todavia, simplesmente, aceitava o seu destino e não escapava porque tinha sido preso à estaca ainda muito pequeno. Talvez, tenha tentando se soltar quando pequeno, mas recuou, pois a estaca era muito pesada. E, assim, amarrado na estaca, aprendeu a esperar eternamente a hora do espetáculo.

 Entendo que, assim como o elefante, nos sobra pouca identidade ou desejo de uma vida porque o desapego só acontece contra a vontade e nada escapa a perfeição da lassidão da espera. Após a luta contra o presente, o que resta é a realidade. Diria uma batalha de desfechos e contradições dispensáveis.

 Sempre quando lembro a estória, penso em lembranças desnecessárias ou revoltas imperfeitas. Daquele momento em diante, o apego  é  oco e solitário, pois existe a restrição de ser além do que se é. Envolve-se com a simplicidade do que restou. Não existe, além dos fatos, independente do que se sente.

Diria que temos dificuldade a qualquer ato que remonte a desmontagem de uma árvore de natal ou mesmo a renegar a cegueira do amor fantasiado. Na maioria das vezes vivenciamos relações que não fazem mais sentido, mas ficamos lá como se tudo se bastasse em um balanço patrimonial, segurando as despesas do desentendimento, ampliando as receitas da paciência e esperando o patrimônio liquido da estabilidade. Só enxergamos  o lucro absolutamente necessário.

Somos tão renitentes a estridência inesperada do fim que cerramos os punhos ao sinal de qualquer aviso para limpar o guarda-roupa, andar a fila, procurar um novo emprego, trocar o carro ou virar a contramäo. Nos arrasamos em lágrimas como parodia à nossa teimosia  em seguir buscando a possibilidade do sempre, apenas, para esquecer-se de se despedir. Vive-se da memória da terra, do sonho, do objeto,  do amor,  da relação, da segurança, da estabilidade ou do emprego perdido e não se consegue encontrar o próprio destino. E como esquecendo Mario Quintana, não nos lembramos de nos bastar.

Por um lado, é como se estivéssemos colorindo a rotina e limitássemos qualquer possibilidade de enxergar as ondas inesperadas na vida para que seja plenamente possível, viver por um milésimo de segundo a mais. Por outro, a mania de achar que o outro é a única ou a última esperança, deixa longo o caminho para se acostumar com a ausência, com o luto e  com a reconstrução de um novo endereço.

Quando se apega a algo que só traz intensidade à injustiça das dores passadas, erra-se sem encontrar água, deixando o caminho ao arbítrio do cavalo de terceiro. Abre-se um labirinto com intrincadas e confusas circunstâncias, impossíveis de alcançar a melhor maneira de preencher a existência. Não se trata apenas de fechar ciclos, mas de sermos incapazes de recuperar o abrigo das cavernas. Aperfeiçomaos aos mitos.

Assim, perdem-se o fôlego e a paz quando não se desiste da fixação de parar o vento para manter o outono que ainda não aprendeu a esperar o inverno. Seria como ficar no topo do monte e evitar ceder espaço para noite, com contradições e apegos, não se abrindo ao diferente universo. Bastaria não cruzar as ruas que não deveriam ser mencionadas nos jornais de ontem, mas por estarmos cansados e despreparados, a dor caminha por uma rua de mão única.

E mesmo quando o amor já está  morto, permanece-se amando querumbins no lugar de nos rendermos a verdade de que somos o que temos. Esperamos a volta das borboletas, olhando com o desdém a mariposa, e depois com temor, como se o tempo não pudesse refazer o que perdemos. Como se a permanência fosse o nosso destino.

De forma verossímil por retratar a dualidade de todos nós, o apego nos inibe perante a busca da plenitude da mudança, descrita na frase da música do Gabriel o Pensador: “Muda, que quando a gente muda, o mundo muda com a gente.”

Somos alérgicos as novas possibilidades, sejam elas, emocionais, pessoais ou funcionais, desconfiamos do genérico da loratadina. Bastaria segurar as emoções do romantismo, não se prendendo aos fragmentos de um passado despedaçado, a uma máquina de escrever enferrujada, a um moletom manchado ou a uma caneta tinteiro. 

Imaginamos até  o novo, mas preferimos gestos mindlinianos, pois preferirmos sermos enganados pelo contrato sob judice a fechar o balanço, a aceitar o som estrondoso do não.

No final, acreditando em sina, destino ou benção da irrelevância ilusória, procuramos rever o filme com o intuito de notar sinais desapercebidos,  mas nem sempre voltamos à encruzilhada anterior ou desembocamos em outro olhar.

E nessa dificuldade de esperar o próximo instante, não saímos de casa, não deixamos as portas abertas  e a coisa vivida não figura como fantasma, mas espanta o futuro. Fazemos do drama o sentido, da propriedade a certeza e, por mais que se tente escapar da dúvida, deixamos o próximo passo sem imaginação.

Logo, o apego seria um cárcere profundo. No firmamento do desapego material ou emocional há mudança de pele, pois se descarta o acúmulo das batalhas ainda divididas, mesmo aquelas que não tiveram inscrição de hábito ou se tornaram fraudes.

Mas, podemos ser titulares do destino e transformar as lavras do coração em borboletas. E sempre lembrar que as borboletas duram no máximo 24 horas, tempo suficiente para o acasalamento de seus ovos, não se alimentando, sendo efêmeras, alias desapegadas. Como disse Rubem Alves: “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses” .

O meu desejo é que  as nossas borboletas não se sintam pressionadas a voltar, desabrochando de um modo ou de outro, sem dar sobrevida à dor.

A decolagem do desenvolvimento econômico e seus impactos ambientais

explosao consumo

Durante milhares de anos o ser humano foi dominado pela natureza e estava sujeito às intempéries do clima e das forças naturais. Porém, o jogo se inverteu após a Revolução Industrial e o início do uso das fontes fósseis de energia em substituição à força humana e animal no processo de produção.

O uso de carvão mineral, petróleo e gás acelerou o crescimento econômico, mas também aumentou a emissão de CO2, com o consequente aumento do aquecimento global. O crescimento econômico elevou o consumo de minerais, de madeiras, de papel e de água. O crescimento da população e da renda per capita aumentou o consumo de peixes, carnes e outros alimentos, tendo um grande impacto no desmatamento, na destruição das fontes de água limpa e na diminuição dos estoques de peixe nos rios, lagos e oceanos.

O crescimento da produção e do consumo significa o uso de mais insumos naturais e o maior descarte de lixo e resíduos na natureza. Uma casa típica hoje em dia possui fogão, geladeira, máquina de lavar roupa, telefone, bicicleta, moto, carro, computador, etc. Quem não tem quer ter. Assim, quanto mais cresce a economia, maior é o impacto negativo sobre o Planeta e a biodiversidade.

Segundo cálculos de Angus Maddison, o PIB mundial cresceu 6,2 vezes entre 1800 e 1950. Neste mesmo período a população mundial cresceu de 1 bilhão de habitantes para 2,5 bilhões de habitantes, aumento de 2,5 vezes em 150 anos. O crescimento da renda per capita foi de 2,5 vezes no período. Foi o maior crescimento econômico e populacional em relação à história anterior da humanidade.

Mas entre 1950 e 2011 o crescimento da economia e da população foi ainda maior, mesmo para um período de tempo menor. Entre 1950 e 2011 o PIB mundial cresceu 10,5 vezes, enquanto a população passou de 2,5 bilhões para 7 bilhões (aumento de 2,8 vezes). O crescimento da renda per capita foi de 3,7 vezes em 61 anos. Nunca o crescimento foi tão grande em tão pouco tempo.

A humanidade pode continuar crescendo desta forma?

Todos os indicadores mostram que não. As atividades antrópicas estão atingindo os limites da Terra e em diversas áreas já superaram em muito a capacidade de recuperação das fontes de recursos do Planeta.

Os positivitas acreditavam que o progresso seria uma estrada que levaria a humanidade ao desenvolvimento infinito das forças produtivas. Porém, hoje em dia, cresce a percepção de que o progresso pode significar aumento do consumo e até do bem-estar humano, mas implica em regresso das condições ambientais. E sem as bases naturais não é possível sustentar os avanços sociais.

O padrão médio da produção e consumo da comunidade internacional já é insustentável. Mas os países ricos querem continuar crescendo e os países pobres querem chegar perto do nível de vida dos países desenvolvidos. Porém, só temos um Planeta para retirar o nosso sustento. Não dá para fazer milagre.

Por tudo isto, seria fundamental que a Rio + 20 chegasse a um acordo para mudar os rumos do modelo de organização econômica excludente e poluidor. Empurrar os problemas “com a barriga” não vai ajudar. Procrastinar não é a solução.  O primeiro passo é reconhecer os problemas para depois agendar as ações necessárias para efetivar um modo de vida humano que seja compatível com a diversidade e a riqueza da vida não-humana que, no passado, reinou soberana na Terra.

A Grécia como elo fraco: a crise da economia européia e do mundo

Não adianta chorar pelos gregos. Não adianta simplesmente culpar o capital financeiro pela crise internacional. As causas dos problemas atuais são muito mais profundas e podem trazer grandes prejuizos e danos para todos, principalmente, para as camadas mais pobres da população mundial. Os países desenvolvidos estão vivendo acima de suas posses e terão que se adaptar aos seus limites. Estamos diante de uma crise do crescimento pelo crescimento.

Tomara que as previsões pessistas (que estou incorporando neste artigo) estejam erradas. Tomara que os problemas atuais sejam passageiros e que a economia mundial possa encontrar um caminho de equilibrio e de bem-estar para todos. Há quem diga que estamos apenas em mais um ciclo de baixa na espiral de prosperidade de longo prazo e que a crise atual não passa de mais uma etapa do revolucionário processo de “destruição criativa”. Tomara que Cassandra esteja errada, que Polyanna esteja certa e que todo mundo possa ficar contente e feliz.

Porém, tudo indica que a Grécia vai abandonar o Euro – o sonho de uma moeda única, forte e próspera. Não é uma questão de vontade, mas sim de falta de opção para todos os lados envolvidos. A reunião do G-8, em Camp David, nos dias 18 e 19 de maio de 2012, reafirmou a vontade de manter a Grécia na zona do Euro. Mas, para a Grécia continuar usando a moeda européia vai precisar aprofundar os cortes nas despesas e nos salários, pois o país é deficitário nas contas públicas e no comércio exterior. Neste caso, os países mais fortes e o FMI precisarão continuar colocando dinheiro no berço da democracia ocidental. Mesmo assim, a recessão não tem prazo para acabar.

Evidentemente, o povo grego não está gostando nada desta história e deve votar nos partidos de oposição que estão dizendo: “Não pagaremos mais nada, chega de sofrimento”. Se as eleições de 17 de junho de 2012 decidirem contra os acordos de austeridade acordados, provavelmente, os países que controlam as finanças européias decidirão não colocar mais dinheiro na Grécia. Enquanto isto, quem tem dinheiro nos bancos em Euro buscam se precaver contra um possível abandono do Euro. Neste quadro fica difícil adotar medidas de estímulo para o crescimento econômico. Em poucos dias ou horas tudo pode mudar.

O quadro de incerteza só acelera a saída da Grécia do Euro, o renascimento da velha Dracma e a retomada da soberania grega sobre a sua política monetária. Para muitos esta é a solução para acabar com o drama da recessão grega que já dura 5 anos e não tem prazo para acabar. Com a nova moeda, o país terá dinheiro para pagar os salários e as despesas governamentais. Mas o problema vai ser a taxa de câmbio. Para tornar a economia grega competitiva, a nova moeda Dracma (se tirar o “c” vira drama) necessitará uma grande desvalorização (o que significará um empobrecimento imediato de todo o povo). A tarefa do novo governo será administrar a inflação (que deve subir) e a retomada da economia como o renascimento da Fênix, depois da autocombustão, a partir das cinzas. Portanto, em qualquer cenário, o sofrimento do povo grego será muito grande, pois se ficar no Euro vai penar no longo prazo e se sair o sofrimento será imediato e de curto prazo. Em ambos os cenários, o futuro é desanimador.

A saída da Grécia do Euro (o cenário mais provável) vai significar um calote na dívida externa, pois o país não terá como pagar suas contas denominadas em Euro, pois a Dracma não terá conversibilidade. Isto vai significar uma grande perda para o Banco Central Europeu, o FMI e para os grandes bancos da Alemanha, França e Reino Unido, etc. Se as coisas ficassem neste ponto, os prejuizos do capital financeiro poderiam ser contabilizados nos passivos, como créditos podres. Porém, o drama não pára na Dracma.

O endividamento grego não é um fenômeno isolado. Outros países, tais como Portugal, Irlanda, Espanha e Itália estão em situação semelhante. O contágio pode ser inevitável. A saída da Grécia do Euro pode provocar uma crise de financiamento nestes outros países, sendo que Portugal seria o próximo a deixar a zona do Euro e repetir o processo de desvalorização de sua nova moeda nacional – o Escudo (seria um escudo contra a crise?). Portugal também ficaria impossibilitado de pagar a dívida externa, o que afetaria os bancos espanhois que são seus principais credores. Mas Grécia e Portugal são países relativamente pequenos. O problema das perdas financeiras vão se agravar sobremaneira se o mesmo acontecer com Espanha e Itália.

Se a “Eurolândia” fosse um Estado soberano disporia de instrumentos para enfrentar a crise, mas ela não é um Estado, pois a integração européia foi parcial. As últimas eleições da França e Grécia mostraram a vontade popular de vencer a austeridade. Mas não é uma tarefa simples adotar políticas keynesianas em países envididados, com déficits internos e externos e sem competitividade internacional. Nestes casos, o mercado costuma falar mais alto do que a democracia.

O fato é que a Europa já está em crise e o processo recessivo deve se aprofundar ao longo de 2012. Se a crise ficasse contida no Vellho Continente o impacto na economia internacional já seria grande. Mas os outros dois motores da locomotiva mundial também estão com problemas. Os Estados Unidos estão completamente endividados, com uma economia em frágil recuperação e com sérios problemas políticos devido à disputa desfuncional entre os dois grandes partidos do país. A China tem buscado um “pouso suave”, ou seja, tem tentado administrar, de maneira controlada, o processo de desaceleração de sua economia. Porém, vai ser dificil evitar um possível efeito dominó: primeiro cairia a Grécia, depois Portugal e demais PIIGS, a Europa entrando em recessão, puxaria para baixo os Estados Unidos e, todos juntos, derrubariam os 30 anos de crescimento chinês.

Uma crise na China prejudicaria o restante do Terceiro Mundo e significaria a queda do preço das commodities, afetando a Ásia, a África e a América Latina. A Índia, outra economia que apresentou altas taxas de crescimento nos últimos 20 anos, já está em processo de desaceleração e também seria muito prejudicada. Ou seja, o mundo poderá repetir a crise de 2008, com forte impacto ao longo de 2013. A Grécia pode ser o elo fraco da corrente que poderá descarillar os vagões do crescimento internacional. Foi assim com o Lehman Brothers em 2008.

Para o Brasil, estes cenários são péssimos, pois a economia já está desacelerada e são altos os déficits em transações correntes e no orçamento público. Todo o projeto nacional do governo Dilma de fazer crescer a “classe média”, reduzir a pobreza e as desigualdades pode ir por água abaixo. O Brasil, com sua enorme dívida social e ambiental, pode ter sua janela de oportunidade demográfica desperdiçada. Diante da crise iminente, os eminentes líderes do Governo Federal estão abaixando as taxas de IPI para a nova classe média comprar mais carros, embora ninguém consiga mais se locomover nas ruas das grandes cidades brasileiras de maneira decente (vide São Paulo). A mobilidade urbana está se tornando imobilidade e os automóveis estão ficando imóveis nos infindáveis congestionamentos. No Brasil se se aplica a fórmula de estímulo ao consumo e quase nada é feito no campo do investimento e da produtividade.

Mas, por outro lado, uma grande crise econômica mundial poderia, em tese, ser bom para o meio ambiente, pois provocaria um decrescimento forçado nas atividades antrópicas. Mas decrescimento econômico com aumento da pobreza tende a agravar os problemas ambientais, pois, por um lado, reduz os investimentos em tecnologias e soluções verdes e, por outro, agrava a dependência geral dos recursos da Mãe Natureza. O decrescimento que protege o meio ambiente tem que ser planejado e consensuado com a sociedade.

Vamos torcer para que este cenário pessimista não se realize e que a repetição da depressão dos anos de 1930 – e suas consequências – seja apenas um pesadelo de uma noite mal dormida e não uma realidade provável. Pode ser também que a saída da Grécia do Euro seja um fenômeno isolado e que não tenha efeitos negativos no continente e no resto do mundo.

As projeções para a economia internacional, do Banco Mundial, de janeiro de 2012 indicavam crescimento de 2,5% em 2012 e 3,1% para 2013. O relatório semestral do FMI, divulgado em abril de 2012 prevê um crescimento da economia mundial de 3,5% em 2012 e 4,1% em 2013, sendo -0,3% em 2012 e 0,9% em 2013 para a área do Euro e 5,7% e 6% para os países emergentes. O relatório econômico da OCDE, de 22 de maio, prevê uma queda de 0,1% na área do Euro em 2012, mas um crescimento de 1,6% em 2012 e de 2,2%, em 2013, para os 34 países da organização. Relatório do Banco Mundial, de 23/05/2012, fala em crescimento de 7,6% para a Ásia em 2012. Portanto, a despeito de todas as notícias ruins dos últimos dias, o Banco Mundial, o FMI e a OCDE acreditam em previsões relativamente otimistas.

Nos próximos meses veremos qual será o desdobramento da situação conjuntural, se o terremoto que está abalando o mar Egeu chegará em terras brasileiras como uma marolinha ou um tsunami.

Pegada Ecológica e Biocapacidade

pegada e biocapacidade

O relatório Planeta Vivo de 2012, da WWF, traz duas medidas úteis para se avaliar o impacto humano sobre o meio ambiente e a disponibilidade de “capital natural” de cada país, região e do mundo. Os dados são para o ano de 2008. A Pegada Ecológica serve para avaliar o impacto que o ser humano exerce sobre a biosfera. A Biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecosistema à demanda humana por consumo, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza.

A população mundial era de 6,74 bilhões de habitantes, em 2008, com uma pegada ecológica de 2,7 hectares globais (gha) per capita, o que significa uma utilização de 18 bilhões de hectares globais. Como o mundo tinha apenas 12 bilhões de gha de terras e águas bioprodutivas, isto significa que a pegada ecológica da população mundial estava gastando 50% além da biocapacidade do Planeta. Ou dito de outra forma, a humanidade estava gastando em 1 ano o que a capacidade regenerativa da natureza só repunha em 1,5 (um e meio) ano.

Isto quer dizer que a população mundial já ultrapassou os limites da sustentabilidade e só mantém o atual padrão de vida em função das riquezas naturais e dos recursos fósseis acumulados há milhões de anos. Quando estes recursos acabarem (especialmente os não renováveis) haverá um grande descompasso entre o capital econômico e o capital natural. Se nada for feito nos próximos anos, o choque de um colapso ambiental poderá ser extremamente doloroso no futuro.

A pegada ecológica e a biocapacidade são diferenciadas de acordo com a escala de análise. Nos países de alta renda (classificados como desenvolvidos) a pegada ecológica estava em 5,6 gha e a biocapacidade em 3 gha per capita. Isto significa que a população do grupo de países mais ricos tinha um déficit ambiental de 84% entre o impacto do consumo e a capacidade regenerativa do território da região (ou sobreconsumo de 84%). O grupo de países de renda média (inclui China, Índia, Brasil, etc.) tinha uma pegada ecológica de 1,92 gha – bem menor do que a do grupo desenvolvido – mas também uma biocapacidade per capita bem menor, de 1,72 gha, resultando em um déficit ambiental de 12% (ou um sobreconsumo de 12%). Já os países de baixa renda tinham tanto uma pegada ecológica quanto a biocapacidade em 1,14 gha, significando consumo baixo, mas baixa biocapacidade e uma situação de equilíbrio entre consumo e ambiente (mas não uma situação desejável em termos sociais).

O continente africano tinha uma pegada ecológica de 1,45 gha e uma biocapacidade de 1,52 gha, com um superávit de apenas 5%. Como a população e a economia da África estão crescendo a taxas elevadas, provavelmente o continente vai entrar em uma situação de déficit ambiental em breve. Mas o maior déficit ambiental acontece no Oriente Médio e Ásia Central (inclui Iraque, Irã, Afeganistão, etc.) que tinha uma pegada ecológica de 2,47 gha e uma biocapacidade de 0,92 gha. Portanto, com um déficit ambiental de 168%, ou dito em outros termos, o consumo desta região estava 2,7 vezes maior do que a capacidade regenerativa do seus recursos naturais. O déficit do Oriente Médio e Ásia Central era maior do que o déficit da América do Norte que tinha uma pegada ecológica maior, de 7,12 gha, mas uma biocapacidade também maior, de 4,95 gha. Ou seja, o déficit ambiental da América do Norte era de 44%.

Outra região com grande déficit (de 111%) era a Europa Ocidental, com pegada ecológica de 4,72 gha e biocapacidade de 2,24 gha. Ou seja, os europeus estavam consumindo pouco mais de 2 vezes a capacidade biológica do seu território. Já a Europa Oriental (que inclui o Leste europeu e a Rússia) apresentava superávit de 17%, com pegada ecológica de 4,05 gha e biocapacidade de 4,88 gha.

Porém, o maior impacto global acontece na Ásia/Pacífico (inclui o leste e sul da Ásia e a Oceania), pois com uma população total de 3,73 bilhões de habitantes tinha uma pegada ecológica, relativamente baixa, de 1,63 gha, mas uma biocapacidade per capita mais baixa ainda, de apenas 0,86 gha, resultando em um déficit ambiental de 90%. Ou seja, mesmo com todos os problemas de pobreza que existe na região, o consumo está quase duas vezes maior do que a capacidade regenerativa da natureza da região. Por conta do alto volume da população, o montante da pegada ecológica da Ásia/Pacífico foi de 6 bilhões de hectares globais (metade dos 12 bilhões de gha do mundo), enquanto o montante da pegada ecológica da América do Norte (EUA e Canadá) foi de 2,4 bilhões de gha (20% do total mundial).

A única região que apresentou grande superávit ambiental em 2008 foi a América Latina, que tinha uma pegada ecológica per capita de 2,7 gha, mas uma biocapacidade de 5,6 gha. Isto significa um superávit ambiental de 107%. Ou seja, mesmo o consumo médio sendo o dobro do consumo africano, a América Latina tinha uma capacidade biológica do seu território pouco mais de duas vezes superior ao nível da pegada ecológica da região. Portanto, a América Latina é a única região do mundo com superávit capaz de ser exportador líquido de biocapacidade. Ou dito em outros termos, a população mundial (especialmente da Europa Ocidental, América do Norte e Ásia/Pacífico) vai depender cada vez mais dos recuros naturais da América Latina.

Em termos de países, os dois com maior impacto negativo no meio ambiente são a China, que utiliza 2,9 bilhões de hectares globais (população de 1,36 bilhões de habitantes multiplicada por uma pegada ecológica de 2,13 gha) e os EUA com 2,2 bilhões de hectares globais (população de 305 milhões vezes 7,2 gha de pegada ecológica). Mas, dos 10 países mais populosos do mundo, aquele com maior déficit ambiental (607%) é o Japão, que tinha pegada ecológica de 4,17 gha, mas uma biocapacidade per capita de apenas 0,59 gha. No outro oposto, o país que apresentou maior superávit ambiental foi o Brasil (229%), com pegada ecológica per capita de 2,93 gha, mas com uma biocapacidade per capita de 9,63 gha. Isto não quer dizer que o Brasil está cuidando de forma excelente do seu meio ambiente, mas apenas quer dizer que o país tem uma população e um consumo relativamente pequenos diante da disponibilidade da biocapacidade do seu território. Se o Brasi cuidar bem do seu meio ambiente ele poderá ajudar muito a população mundial.

Todos estes dados são muito úteis para a compreensão da situação de consumo e das condições ambientais dos países e regiões do mundo, pois os dados da pegada ecológica devem ser vistos em conjunto com a biocapacidade. Por exemplo, é comum se dizer que a pegada ecológica do Paquistão (0,75 gha per capita) é 10 vezes menor do que a pegada ecológica dos Estados Unidos (7,2 gha per capita). Mas a biocapacidade dos EUA (3,86 gha per capita) é também 10 vezes maior do que aquela do Paquistão (0,40 gha per capita). Desta forma, ambos os países – a despeito da dramática diferença do nível de consumo – possuem déficit ambiental de 87% (EUA) e 88% (Paquistão).

Portanto, o grande desafio do mundo nos anos vindouros (além de reduzir as desigualdades de renda e das disparidades das condições de vida) será minimizar os impactos do consumo do alto padrão de vida dos habitantes dos países desenvolvidos e minimizar os impactos do alto crescimento populacional nos países mais pobres. Mas acima de tudo, será preciso que a pegada ecológica da humanidade seja compatível com a biocapacidade da Terra.