Morre o Solitário George: desaparece mais uma espécie em Galápagos

solit george

O Solitário George morreu no dia 24 de junho de 2012, dois dias depois do término da Rio + 20. Era o último indivíduo, macho, da subespécie “Chelonoidis nigra abingdoni” de tartarugas gigantes. Lonesome George (nome em inglês) foi descoberto na Ilha de Pinta, no arquipélago de Galápagos, em 1972. Ele era o “Último dos Moicanos”, ou seja, ele era o último exemplar da sua espécie.

O solitário George tornou-se parte de um programa de procriação no Parque Nacional de Galápagos. Durante 15 anos, ele viveu ao lado de uma tartaruga fêmea vinda de um vulcão próximo. Houve acasalamento, mas os ovos não eram férteis. Da mesma forma, ele compartilhou seu espaço com tartarugas fêmeas da Ilha de Espanhola, mas foi biologicamente incapaz de procriar e deixar descendentes.

As tartarugas eram abundantes no arquipélago de Galápagos até o século XIX. As suas diferenças físicas foram um dos elementos usados por Charles Darwin para formular a Teoria da Evolução. Cada ilha de Galápagos tinha a sua espécie própria de tartaruga terrestre. As espécies se diferenciavam à medida em que se adaptavam às condições naturais de cada ilha, propiciando uma riqueza biológica sem comparação.

Mas a maravilha da evolução foi interrompida por uma “espécie invasora” que começou a caçar os indefesos animais, não só para o consumo da carne, mas também para o uso energético. Quito, Guayaquil e outras cidades do Equador utilizavam o óleo de tartaruga para iluminar as casas e as ruas da civilização humana. Como as tartarugas fêmeas eram menores e mais fáceis de carregar, elas foram dizimadas primeiro.

O Solitário George era o símbolo que servia de denúncia contra uma matança indiscriminada que reduziu a biodiversidade de Galápagos. Ele foi o último exemplar vivo de uma espécie que foi vítima do crime de ecocídio. Mas, infelizmente, ele não foi o último mártir, pois este crime continua fazendo milhares de vítimas pelo mundo afora. Para salvar as espécies e a biodiversidade o ecocídio precisa ser erradicado, antes que seja tarde.

Há exatamente um ano, estive no arquipélago de Galápagos e conheci o Solitário George. Foi muito triste ver um indivíduo solitário e centenário, vivendo isolado num parque, sabendo que suas companheiras foram mortas por conta da ganância humana. É muito triste receber a notícia de que este indivíduo morreu e mais uma espécie foi extinta. É mais triste ainda saber que este não será o último solitário a morrer e que diversas outras espécies estão sendo desaparecendo e trilhando o mesmo destino, com a mesma causa mortis.

Morre o Solitário George: daparece mais uma espécie em Galápagos

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O Solitário George morreu no dia 24 de junho de 2012, dois dias depois do término da Rio + 20. Era o último indivíduo, macho, da subespécie “Chelonoidis nigra abingdoni” de tartarugas gigantes. Lonesome George (nome em inglês) foi descoberto na Ilha de Pinta, no arquipélago de Galápagos, em 1972. Ele era o “Último dos Moicanos”, ou seja, ele era o último exemplar da sua espécie.

O solitário George tornou-se parte de um programa de procriação no Parque Nacional de Galápagos. Durante 15 anos, ele viveu ao lado de uma tartaruga fêmea vinda de um vulcão próximo. Houve acasalamento, mas os ovos não eram férteis. Da mesma forma, ele compartilhou seu espaço com tartarugas fêmeas da Ilha de Espanhola, mas foi biologicamente incapaz de procriar e deixar descendentes.

As tartarugas eram abundantes no arquipélago de Galápagos até o século XIX. As suas diferenças físicas foram um dos elementos usados por Charles Darwin para formular a Teoria da Evolução. Cada ilha de Galápagos tinha a sua espécie própria de tartaruga terrestre. As espécies se diferenciavam à medida em que se adaptavam às condições naturais de cada ilha, propiciando uma riqueza biológica sem comparação.

Mas a maravilha da evolução foi interrompida por uma “espécie invasora” que começou a caçar os indefesos animais, não só para o consumo da carne, mas também para o uso energético. Quito, Guayaquil e outras cidades do Equador utilizavam o óleo de tartaruga para iluminar as casas e as ruas da civilização humana. Como as tartarugas fêmeas eram menores e mais fáceis de carregar, elas foram dizimadas primeiro.

O Solitário George era o símbolo que servia de denúncia contra uma matança indiscriminada que reduziu a biodiversidade de Galápagos. Ele foi o último exemplar vivo de uma espécie que foi vítima do crime de ecocídio. Mas, infelizmente, ele não foi o último mártir, pois este crime continua fazendo milhares de vítimas pelo mundo afora. Para salvar as espécies e a biodiversidade o ecocídio precisa ser erradicado, antes que seja tarde.

Há exatamente um ano, estive no arquipélago de Galápagos e conheci o Solitário George. Foi muito triste ver um indivíduo solitário e centenário, vivendo isolado num parque, sabendo que suas companheiras foram mortas por conta da ganância humana. É muito triste receber a notícia de que este indivíduo morreu e mais uma espécie foi extinta. É mais triste ainda saber que este não será o último solitário a morrer e que diversas outras espécies estão sendo desaparecendo e trilhando o mesmo destino, com a mesma causa mortis.

Quando precisamos de ”ilusão photoshop”

Estamos tão acostumados a nos disfarçar para os outros, que, no fim, ficamos disfarçados para nós mesmos.”(François de La Rochefoucauld)

Essa passagem é de um livro de um escritor francês,  não necessariamente otimista com a humanidade, mas que acreditava que a necessidade de admiração do homem se situava por trás de toda atitude de bondade, felicidade, sinceridade ou mesmo de gratidão ao outro.
Justapondo essa questão, essa semana, deparei-me coma seguinte reportagem: “Sem maquiagem, Julia Roberts sai para jantar com o marido”. Na visão moderna da “Medusa Mitológica”, a atriz tinha deixado a magia, o fetiche e o glamour de lado, assustando a si mesmo, pois aparecia em uma foto com detalhes faciais ao natural. A beleza não era posta de lado como coisa gratuita, mas como idolatria a perfeição humana. Pedia-se  a ilusão, o disfarce.

Naquele momento, lembrei do Livro de Naomi Wolf sobre o “Mito da Beleza” que destaca que  o culto à beleza altera a imagem da mulher, oscilando entre a vaidade e o horror, como autoretrato involuntário  à resistência física  que, de certa forma, acomoda as conquistas de anos de embates feministas à insígnias ilusões do retrato.

Neste contexto, como água-viva contemporânea, a beleza versus a aparência da realidade termina sendo usada contra as mulheres. Sem nenhum sentido humano, como se a vida fosse o fracasso da imagem, gerando-se uma antítese à questão filosófica (que, aliás, foi constituída na argumentação sobre o real, rejeição ao ilusório e ao falacioso),  fugindo-se, assim, da  falsa aparência.

Várias perguntas povoaram meu pensamento, entre elas, por que precisamos capturar o instante? Percebo que as fotografias digitais só revelam o que permitimos, pois mesmo no  pior dos mundos, clica-se e posta-se nas redes sociais o melhor das Cinderelas.

É como se a fotografia revelasse a razão imutável do bem-estar, que reina de forma imperativa para se transbordar felicidades. Seria como se tivéssemos que ir, além do espelho para saber quem somos e perguntar se é possível ser feliz ou ser amada ao natural. Como se a fotografia fenomenal e ilusória abrandasse a tristeza ou concedesse passagem ao amor.

Como se coreografia física a um padrão exigido, seja de beleza ou de costumes estereotipados,  bem chatos e carregados de sequências modistas pouco originais,  fossem usados apenas para satisfazer o público. Como um Don Quixote tentando se caracterizar como cavaleiro andante, contrariando a realidade da aldeia. E não suportando a perda, se repete em aventuras imaginárias.

Inversamente, o desejo particular de se preservar é o que  tem sentido na demonstração física da fotografia alterada. O desejo de mostrar para o outro que está tudo bem, mesmo que por trás da vida perfeita esteja a desordem mental, a bagunça, a base ou até a plástica nos sinais.

Vejo nesse desejo a busca pela ignorância, pela ingenuidade da imaginação e do mito perfeito. Levando a ausência do direito de ser, como se é. Como se existir de forma natural fosse à trava de uma função natural a felicidade.

E, assim, o olhar humano determina o papel da ilusão.  Podendo vê-la assumida na popularidade do facebook e do instagram. Diria que conseguimos matar até o Iluminismo, concebido como um instrumento capaz de apresentar a realidade, libertando os homens das trevas da ignorância da imagem.

Outro dia, caminhando na orla da minha cidade, encontrei uma conhecida e falei como o cabelo dela estava bonito e, impulsionada pelo reflexo da conversa que não teria muita continuidade, ela disse: “é porque você não viu como ele estava lindo na foto que postei ontem no facebook”. Achei estranho, pois era como se a imagem do dia não fosse a real.

Lembrei que na minha adolescência já era normal o book de fotos, não para capturar o momento, mas para encontrar a imagem desejada para o porta-retrato. Mas, agora, não se trata de uma simplicidade, mas algo do tipo: não passe por mim sem ver a coleção de imagens ou eventos perfeitos ou só me conheces em circunstâncias determinadas, idealizando-se, assim, uma confusão de identidades.

E como uma convidada de honra aos efeitos mais que especiais, só se divulga o que se gosta. E aí, ser o que se é, só tem a ver com os retratos amarelados que na virtualidade não se curtiriam, mesmo porque não existia, ainda, a escova progressiva.

Sinto falta da revelação da Kodak, pois quando dividimos espaços com a dinastia do photoshop do “Eu sou assim”, penso que representamos o maior perigo do viver, aquele que nos exigem máscaras que só disfarçam  e não permitem voltar à dimensão antiga das nossas lembranças.

Não se trata de fazer apologia a passado, mas retratar o nosso “eu” em fotografias antigas, parecia um lugar seguro. Na atualidade, essa sensação pode ser tão real e tão fantasiosa quando as amizades virtuais, que podem ser intensas sem, revelar o que há de pior em nós.

E com a imagem que se posta no facebook ou instagram, espera-se, sem ambiguidade, que o outro nos escolha como referencial de sucesso. Às vezes, acordados, sem esperança, desamparados no mundo real e magoados com o tempo real, aliviando-se algumas dores com o mundo virtual que é criado. Só que depois do efeito “curtir e comentar”, as dores reais continuam por lá.

Altos e baixos da imagem são semelhantes a um zíper, que permite fazer prevenção do desastre e abrir a passagem como general a um rebobinador de fitas, a um vídeo-cassete. Não geram mais as expectativas da revelação, bem como a aceitação do feio.

Por um lado, as mídias sociais nos concedem um pouco de ilusão para proteger todas aquelas camadas anteriores conflitantes da nossa identidade. Aliás, como um sabonete, feito, em especial, para retirar as marcas do roxo da queda, mas que no final da postagem pode não libertar a decepção da cicratriz.

Por outro, a bela foto poderá até apagar provisoriamente as máscaras que usamos no dia-a-dia. Mas o lado nefasto não revelado nas imagens, continua lá, semelhante a frase que diz que: “A realidade supera qualquer ficção”.

Rio + 20: documento inócuo, platitudes ou um pequeno passo?

charge rio20

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável não esteve à altura das necessidades do momento histórico. Mas tentando superar o pessimismo, pode-se considerar que a Rio + 20 teve, numa conjuntura internacional desfavorável, pelo menos dois pontos positivos: a) mostrou os impasses para se regular o Bem Comum – chamado Terra – e as dificuldades que a ONU e os governos nacionais encontram para mudar o rumo que a civilização humana tomou em direção ao colapso ambiental; b) reafirmou os mais importantes princípios das Conferências anteriores e manifestou, de maneira parcial e de forma tímida, intenções de mudar o modelo atual de produção e consumo insustentáveis. A Rio + 20 não foi um ponto de chegada, quem sabe, ao invés de simples procrastinação, possa se tornar um ponto de partida.

Evidentemente, as propostas discutidas na Cúpula dos Povos ficaram de fora do documento oficial “O futuro que queremos” e falta definir vários meios de implementação dos princípios reafirmados e renovados. Ninguém esperava uma Conferência revolucionária que virasse o mundo de cabeça para baixo. Entendendo os limites deste tipo de evento, existe consenso de que faltou ousadia, embora, com boa vontade, possa se dizer que a Rio + 20 não apresentou retrocesso em relação às conferências anteriores e o documento final, mesmo tímido, é melhor do que o Zero Draft de janeiro de 2012.

Sem dúvida, com as promessas adiadas, o mundo está no começo de uma longa jornada, pois muito terá que ser feito pelos governos, pela sociedade civil e pelos indivíduos nos próximos anos e nas décadas vindouras. Se a Conferência não foi o teto, quem sabe possa ser utilizada como a base para futuros avanços. Vamos então avaliar brevemente alguns pontos positivos, alguns pontos fracos e as principais lacunas dos 283 parágrafos do documento oficial da Rio + 20.

Logo no primeiro parágrafo da Introdução, os Chefes de Estado e de Governo renovam o compromisso com o desenvolvimento sustentável, entendido como a promoção da sustentabilidade econômica, social e ambiental que garanta a saúde do Planeta e das gerações humanas, presentes e futuras. Com destaque, no segundo parágrafo estabelece que: “Erradicar a pobreza é o maior desafio global que o mundo enfrenta hoje, sendo um requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável. Neste sentido estamos comprometidos com a humanidade livre da pobreza e da fome como uma questão de urgência”.

Comentário: Obviamente, erradicar a pobreza e a fome é fundamental. Em negociações subsequentes será preciso definir quais são os indicadores de pobreza e quais serão as medidas para erradicar estas chagas. Eliminar os gastos militares no mundo, da ordem de US$ 1,6 trilhão de dólares ao ano, seria suficiente para erradicar a pobreza e a fome em pouco tempo. Porém, esta medida jamais entraria num documento da ONU assinado pelos diversos governos nacionais do mundo.

O parágrafo 6 reafirma o princípio da Rio/92: “Reconhecemos que as pessoas estão no centro do desenvolvimento sustentável”.

Comentário: Esta afirmação é uma reprodução do que foi decidido em diversas outras Conferência, mas é muito antropocentrica, pois o desenvolvimento só será realmente ambientalmente sustentável se for ecocêntrico, garantindo o futuro sustentável não só dos seres humanos, mas de todas as espécies vivas. Aliás, o documento não tocou na questão dos direitos dos animais e da luta contra o especismo.

O parágrafo 8 diz: “Reafirmamos também a importância da liberdade, da paz e segurança, o respeito pelos direitos humanos, incluindo o direito ao desenvolvimento e o direito a um padrão de vida adequado, incluindo o direito à alimentação, ao Estado de Direito, à igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres”.

Comentário: Direitos humanos e democracia são questões básicas e essenciais. Mas é preciso questionar a idéia do “direito ao desenvolvimento”, especialmente se desenvolvimento for entendido como crescimento econômico ilimitado. Existem várias idéias alternativas que não foram consideradas, tais como “Estado Estacionário”, “Prosperidade sem crescimento”, “Fim do crescimento”, “Decrescimento sustentável”, etc.

No tópico II – Renovação do Compromisso Político – o item A, trata da reafirmação do princípios da Cúpula do Rio de 1992 e os planos de ação do passado:  Declaração da Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano de Estocolmo aprovada em 16 de junho de 1972; Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento de 1992, Agenda 21, o Programa para a Implementação da Agenda 21, o Plano de Implementação da Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável (Declaração de Joanesburgo), o Programa de Ação de Barbados, Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) e Convenção de Combate à Desertificação (UNCCD), etc. Incluiu também o princípio das “responsabilidades comuns mas diferenciadas”.

Comentário: Reafirmar todos os princípios e Declarações já consolidadas é fundamental. O princípio das responsabilidades comuns mas diferenciadas é essencial pois os países desenvolvidos possuem uma dívida histórica com o meio ambiente e com os demais países do mundo. Mas faltou definir a transferência de recursos dos países do “Norte” para ajudar os países do “Sul”, para evitar a repetição dos mesmos erros do passado. Mas quando se trata de dinheiro o desacordo é enorme porque, no geral, os países ricos querem regatear recursos e prorrogar a transferência de fundos financeiros. Não foram definidas as ações concretas para acelerar a implementação dos compromissos já assumidos.

O item B, parágrafo 19 reconhece que “os vinte anos desde a Cúpula da Terra em 1992 registraram um progresso desigual no desenvolvimento sustentável e na erradicação da pobreza, devido, entre outras coisas, ao impacto das crises múltiplas que afetam o mundo contemporâneo. O parágrafo 40 diz:  “Apelamos para abordagens holísticas e integradas para o desenvolvimento sustentável que irá orientar a humanidade a viver em harmonia com a natureza e fazer esforços para restabelecer a saúde e a integridade do ecossistema da Terra”.

Comentário: A atual crise econômica mundial reduz os recursos financeiros para a cooperação internacional e aumenta a competição entre os países. Prometer uma abordagem holística para garantir a integridade dos ecossistemas é ótimo, mas sem recursos financeiros se torna vazia.

O item C trata da forma de envolver os principais grupos e outras partes interessadas na promoção do desenvolvimento sustentável, tais como: os poderes legislativos regionais, nacionais e sub-nacional, os judiciários e todos os principais grupos: mulheres, crianças e jovens, povos indígenas, organizações não-governamentais, autoridades locais, trabalhadores e sindicatos, empresas e indústria, a comunidade científica e tecnológica, os agricultores, os setores público e privado, etc.

Comentário: A ampla participação é fundamental para o desenvolvimento sustentável, mas existe uma grande assimetria entre a participação governamental e a atuação da sociedade civil. Como afirmou Wael Hmaidan, da Climate Action Network International, que discursou em nome do chamado “major group”, o documento aprovado pela diplomacia, intitulado O Futuro que Queremos, está “totalmente fora de contato com a realidade e exigimos que as palavras ‘com plena participação da sociedade civil’ sejam removidas do texto”. Outras ONGs (como Vitae Civilis e Idec) também criticaram o processo de negociação da ONU e pediram mais participação efetiva da sociedade civil nas decisões.

O tópico III trata da economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável ea erradicação da pobreza, entendendo que “existem diferentes abordagens, visões, modelos e ferramentas disponíveis para cada país, de acordo com suas circunstâncias e prioridades nacionais, para alcançar o desenvolvimento sustentável nas suas três dimensões”. O parágrafo 60 diz: “Reconhecemos que a economia verde no contexto do desenvolvimento sustentável e da erradicação da pobreza vai aumentar nossa capacidade de gerir os recursos naturais de forma sustentável e com menores impactos ambientais negativos, além de aumentar a eficiência dos recursos e reduzir o lixo e o desperdício”.

Comentário: A questão da economia verde é um dos temas mais polêmicos do documento. Mas tanto desenvolvimento sustentável como economia verde são termos que podem ser capturados pelos interesses do capitalismo. Evidentemente, existe grande concordância na necessidade de construção de uma sociedade de baixo carbono e na superação do modelo de desenvolvimento marron e poluidor. Retirar os cerca de um trilhão de dólares de subsídios da industria fóssil seria um passo decisivo para a economia verde. Mas não haverá nenhum ganho se a economia verde for entendida como uma forma de gerar uma maquiagem verde para manter o atual modelo insustentável de crescimento da produção e do consumo conspícuo. Se fosse garantido energia limpa e renovável para todos os habitantes do mundo, com produção descentralizada e geração de empregos decentes, já seria um grande passo para a chamada economia verde e inclusiva.

O tópico IV trata do quadro institucional para o desenvolvimento sustentável. O item A, aborda o reforço das três dimensões do desenvolvimento sustentável, adotando uma abordagem de ação orientada para resultados, levando em conta todos os relevantes temas transversais. O item B, trata do reforço dos acordos intergovernamentais, ressaltando a necessidade de fortalecer todo o sistema das Nações Unidas, destacando a criação de um Fórum de alto nível político, para acompanhar a implementação do desenvolvimento sustentável, evitando a sobreposição com as estruturas existentes.

Comentário: O reforço da capacidade da ONU para regular o processo de desenvolvimento sustentável possui muitas resistências das forças capitalistas, assim como existe enorme dificuldade para definir os recursos para o financiamento. Na falta de compromisso financeiro, o fórum de alto nível, vem para fortalecer o PNUMA, aumentando a capacidade de gestão da ONU. Mas isto depende da forma de implementação.

O tópico V trata do quadro de ação e seguimento, abordando as áreas temáticas e questões intersectoriais, tais como: Erradicação da pobreza; Segurança alimentar e nutricional e agricultura sustentável; Água e saneamento; Energia; O turismo sustentável; O transporte sustentável; Cidades sustentáveis e assentamentos humanos; Saúde e população; Promover o pleno emprego produtivo, o trabalho digno para todos e a proteção social; Oceanos e mares; Pequenos Estados insulares em desenvolvimento (SIDS); Países menos desenvolvidos; Países menos desenvolvidos sem litoral; África; Os esforços regionais; Redução do risco de desastres; As mudanças climáticas; Florestas; Biodiversidade; Desertificação degradação do solo, e seca; Montanhas; Produtos químicos e resíduos; Consumo e produção sustentáveis; Mineração e Educação.

Comentário: Todos estes tópicos estão razoavelmente bem colocados e de acordo com as recomendações científicas. Mas também depende da forma de implementação nos anos vindouros.

O tópico “A igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres” reafirma o papel vital das mulheres no processo de desenvolvimento sustentável, levando em consideração a participação plena e igualitária e a implementação dos respectivos compromissos e de acordo com a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres (CEDAW) bem como a Agenda 21, a Plataforma de Ação da Declaração de Pequim e a Declaração do Milênio. O parágrafo 237 afirma: “Apoiamos medidas que priorizem a promoção da igualdade de gênero e o empoderamento das mulheres em todas as esferas de nossas sociedades, incluindo a remoção das barreiras à sua participação plena e igualitária na tomada de decisões e gestão em todos os níveis, e enfatizamos o impacto da definição de metas específicas e implementação de medidas temporárias, conforme apropriado, para aumentar substancialmente o número de mulheres em posições de liderança, com o objectivo de alcançar a paridade de gênero”.

Comentário: A reafirmação da Plataforma de Ação da Conferência de Beijing, de 1995, foi um grande avanço em relação ao Draft Zero de janeiro de 2012, pois a equidade de gênero é fundamental para  o desenvolvimento sustentável e a plena participação social das mulheres. Este tópico foi um avanço também em relação à Cúpula da Terra de 1992. Houve um compromisso de fortalecer a Onu Mulher.

O tópico sobre a “Universalização da saúde reprodutiva” esta assim colocado no artigo 241: “Estamos empenhados em promover a igualdade de acesso das mulheres e meninas à educação, aos serviços básicos, oportunidades econômicas e serviços de saúde, abordando a saúde da mulher sexual e reprodutiva e assegurar o acesso universal aos métodos modernos de planejamento familiar, que sejam seguros, eficazes, aceitáveis e acessíveis. Neste sentido, reafirmamos nosso compromisso de implementar o Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (Cairo 1994) e as ações fundamentais para o prosseguimento da execução do Programa de Ação da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD)”.

Comentário: O movimento feminista considerou que a ausência do termo “direitos sexuais e reprodutivos” foi um recuo e uma moeda de troca entre os negociadores do documento e as forças do fundamentalismo religioso e do conservadorismo moral. Porém, houve avanço em relação ao Draft Zero, pois foram reafirmados os direitos à saúde reprodutiva e os princípios do Programa de Ação da CIPD do Cairo de 1994. Também as questões da dinâmica demográfica foram minimamente consideradas no documento. O tema dos direitos reprodutivos será a grande batalha do Cairo + 20.

O item B, trata da questão dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), uma das novidades do documento. O texto diz:  “Reconhecemos que o desenvolvimento de metas poderia ser útil para prosseguir uma acção coerente e focada no desenvolvimento sustentável. Reconhecemos ainda a importância e a utilidade de um conjunto de objetivos de desenvolvimento sustentável (SDGs em ingles), baseados na Agenda 21, no Plano de Implementação de Joanesburgo e nos Princípios do Rio 1992. Esses objetivos devem abordar e incorporar de forma equilibrada todas as três dimensões do desenvolvimento sustentável e suas interrelações. Eles devem ser coerentes e integrados na Agenda de Desenvolvimento das Nações Unidas para além de 2015, contribuindo assim para a realização do desenvolvimento sustentável e servindo como um guia para a implementação e integração do desenvolvimento sustentável no sistema das Nações Unidas como um todo. O desenvolvimento destas metas não devem desviar a atenção ou o esforço da realização dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio”.

Comentário: A definição dos ODS foi adiada, mas pode se tornar um importante instrumento de ação e de monitoramento do processo de degradação do meio ambiente. Tudo vai depender do processo de definição e de implementação dos indicadores e das metas quantitativas a serem definidas.

O tópico 6 trata dos meios de implementação. Evidentemente este é um dos tópicos mais difíceis, pois diz respeito ao fortalecimento das instituições e à necessidade de recursos financeiros para implementar os princípios e sugestões aprovadas.

Pelo menos três pontos importantes ficaram de fora do documento: a) a falta de compromisso claro para eliminar os subsídios da industria dos combustíveis fósseis; b) a falta de uma defesa clara dos direitos dos animais e da luta pela erradicação do ecocídio; e c) a falta de reconhecimento dos limites do Planeta e a impossibilidade de continuar mantendo um modelo de crescimento indefinido da economia. Assim, pode-se afirmar que o documento final da reunião dos Chefes de Estado da Rio + 20, ocorrida entre 20 a 22 de junho de 2012, não agendou adequadamente as medidas necessárias para evitar o colapso ambiental do Planeta. Enquanto a reunião do G-20, de 18 e 19 de junho no México, injetou bilhões de dólares no FMI para tentar evitar a crise econômica, nenhum dinheiro concreto foi garantido para a crise ambiental.

Porém é preciso ter cuidado com as críticas intempestivas, pois os defensores dos lucros da industria de combustíveis fósseis, os setores conservadores e os céticos do clima sempre são contra qualquer tipo de Conferência da ONU, pois se recusam a aceitar a regulação do mercado e o controle da poluição. Criticas construtivas são sempre bem vindas, mas não dá para ignorar o fato de que hoje em dia cresce a consciência ambiental e os próprios governos são obrigados a lidar com a gravidade da situação. A grande mobilização provocada pela Rio + 20 gerou resultados positivos, pelo menos no que se refere à tomada de consciência da gravidade da situação.

Evidentemente, muita coisa falta ser feita para interromper a marcha rumo ao ecocídio e à destruição da natureza. Foi baixa a dose de ambição e de ação do documento “O futuro que queremos”. Há poucas metas concretas e muitas platitudes. Mas, tentando ser otimista, o resultado final da Rio + 20 pode ser considerado um pequeno passo, entre tantos outros que precisam ser dados. O mundo agora sabe da necessidade de se tomar medidas urgentes para limitar as atividades antrópicas. Os passos decisivos ainda precisam ser dados no sentido de garantir uma base mínima de cidadania, respeitando as fronteiras planetárias. Vale o slogan: “Mais acesso e menos excesso”.

A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável de 2012 foi apenas mais uma etapa de uma luta que passa pela mobilização e a conscientização de todos, mas principalmente passa pelo fortalecimento e empoderamento da sociedade civil, para que na Rio + 40 as discussões e deliberações do Aterro do Flamengo avancem mais do que as formalidades do Riocentro.

“Nós somos o que nos falta” (*)


“Não, não chore; nova esperança, novos sonhos, novos rostos. E a alegria não vivida dos anos que estão por vir vai mostrar que o coração pode enganar o sofrimento. E que os olhos podem as próprias lágrimas iludir”. (ADDISON, C. Cruzando o caminho do sol. Novo Conceito: Ribeirão Preto, 2012, p.49)

Epíteto, filósofo grego, pondera que não devemos pedir que  os acontecimentos ocorram como queremos, mas devemos absorvê-los como ocorrem, pois, assim, a vida poderá ser feliz.  Nesse entendimento, a felicidade implica em aceitar os tropeços, recebendo as coisas como elas são, aproveitando a premissa de que é necessário deslizar pela vida,  principalmente, quando ela  ignora os nossos desejos.  Quando a vida nos falta.

Perante essa concepção filosófica, seria muito mais racional alterar os desejos do que mudar a ordem das coisas, não se debelando contra as situações que pouco se importam com o que passa ao nosso redor. Com bem-aventuranças, as circunstâncias são baluarte apenas de si mesmas, entram pela vida com uma chave única da porta, configurando na saída a meditação do nada, como se cada homem fosse só um pária.

Nem sempre há justiça nas relações, independente da apelação às instâncias máximas. Sentimentos simples podem ganhar uma condição de destaque se ameaçados de extinção, alcançando um valor incomparável, mas nem sempre o desprezo, gera atenção da Corte Suprema. Às vezes, os sentimentos são preciosos por não existirem ou mesmo durarem nos nossos desejos.

Por um lado, o medo do abandono e da solidão não impede de não sermos amados por nossos pais, irmãos, amantes e amigos. E por mais que se lute, agonizando, tentando resgatar uma intimidade que nunca se teve, o outro  continua fingindo,  por estar certo, não por desmerecimento, mas porque não há nada a fazer.

Por outro, erra quem entende que a negação do que falta, torna invisível a dor, a perda e, talvez, a culpa. Não há válvula de escape quando o coração tenta enganar o tempo, pois ele nos encontra onde quer que seja. Esse é o mal de percebemos à vida externa melhor  do que a nossa, rebatendo o drama pessoal, esperando o olhar piedoso para não aprender a passear sozinho.

Epíteto, mesmo escravo de Epafrodito, acreditava que felicidade e realização pessoal eram desdobramentos de atitudes corretas, sendo que desejo e a felicidade não podiam viver juntos.  Não lamentava as injustiças, mas celebrava os triunfos, sem se preocupar com o apego ao dia seguinte, permitindo, assim, tê-lo como descaso.

Em sua concepção, da mesma forma que o desejo vem, ele vai embora, pois as pessoas mudam. E quando o dia acontece, não temos desculpas para não assumirmos os nossos erros ou vivermos a escuridão de nossos problemas.  Não saber lidar com a nossa própria dor, só, deposita a esperança fora de nós.

E a relativa liberdade nos permite a andar devagar, quase parando, esperando que o outro resolva o que é só nosso. Somos “Alzheimer Familiar”, pois no mundo encantado de Bob, queremos as verdades simples de se suportar, somos defensores do esquecimento benigno da estátua que chora quando o sol se põe.

Eternos nostálgicos da frase que o joio se separa do trigo, minimizando o fato de que na vida real, pode existir só o joio. Mas o dia do acerto de conta da produção sempre chega sob a dor ou a raiva, e o tempo não se permite a não passar ou atrasar o pagamento, sem dignidade, mesmo que em breve, esteja esquecido no passado. E, assim, a amargura do dia longo ser transitório, é tão verdadeira como o fato de não sermos amados tanto como gostaríamos.

Talvez essa ânsia pelo amor nos remeta a nossa vulnerabilidade como cantou Renato Russo: […] Os sonhos vêm e os sonhos vão. E o resto é imperfeito […]”

Assim, vivemos apavorados com o que  não nos pertence e demonstramos a fraqueza que só nos conduz a novos desencantos, ignorando o rochedo quando a colisão estar à frente. Quando ela já não nós pertence. Quando não há freio de mão.

Em certa ocasião, escutei de uma conhecida que a frase que contempla que é melhor ter amado e perder do que nunca ter amado, nunca poderia ter sido escrita por aqueles que perderam a quem amaram. Mas, independente, dos que só amam e dos que apenas são amados, na vida real é preciso saber perder vantagens e valores para ganhar outras opções de realidade. Não achar que o correto é pular antes do trem ganhar velocidade.

Já perdi algumas pessoas apenas porque acreditava no controle sobre os desejos alheios. Rebelava-me porque os ciclos de humor não eram oriundos da minha intuição, rondava pela toca, exigindo alegria quando recebia frieza, esperando mais atenção quando recebia efusão. Achava que tudo girava ao meu redor, inclusive o poder sobre os altos e baixos externos. Hoje não tenho entusiasmo com a atenção ou entro em pânico na solidão. Com o tempo ou com os erros, resolvi sair sem sentimentos das relações.

Aprendi a não ver a ação do outro como fruto de maldade, mas de uma opção que só não é a minha. E por mais que a fotografia revele um desejo esperado de perfeição, sigo a instrução de criar uma blindagem contra o sofrimento, mesmo paradoxalmente sofrendo.

Isso talvez nos enlouqueça, mas só, assim, enxergaremos nas ações que não são nossas o início da posição de humano superior em quem verdadeiramente nós somos. Talvez, sejamos tudo e nada, mas por tão pouco esquecemos que em si mesmo nada somos, que tudo se perde na imensidão dos milhares, do vácuo da nossa ignorância humana e do fardo da vantagem de não sermos bobos e por isso vencíveis.

No final, poderemos ser escravos ou reis, mas, com certeza, o fim dos nossos desejos que se voltam contra o outro que compete também pela razão de ser e existir. Talvez Deus tenha se esquecido de nos avisar que não seríamos únicos.  E mesmo esgotados emocionalmente, totalmente exaustos, temos que encontrar uma posição confortável, aceitar  que não há juízo de valor na escolha do outro, mas corroborar com  Lord Byrosn: “ o coração será partido, mas continuará vivendo”.

E sem rejeitar o confinamento dos nossos desejos, ser um bobo, ficar tranquilo, não desconfiar ou desejar, mas ganhar liberdade e sabedoria para continuar vivendo, sem paranoias como se as dificuldades que a vida nos apresenta, tivessem sempre um caráter pedagógico. Não se enganando da pontualidade das circunstâncias e da limitada percepção de nossa compreensão.

E como Clarisse Lispector diz: “É quase impossível evitar o excesso de amor que um bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso de amor E só o amor faz o bobo.”

(*): O título da crônica  é de uma frase de Eduardo Portella para apresentação da crônica: “Perfil de ser eleito” de Clarisse Lispector

Progresso humano e regresso ambiental

graf angeles

É triste pensar que a natureza fala e que a humanidade não a ouve
Victor Hugo

O ser humano conquistou muitas vitórias nos últimos 250 anos, em especial, depois da reconfiguração mundial ocorrida após a Segunda Guerra Mundial. Em 1900, a população mundial – de cerca de 1,6 bilhão de habitantes – tinha uma esperança de vida em torno de 30 anos. Em 2000, a população tinha passado para 6 bilhões, com esperança de vida de 65 anos. Em 2011, a população chegou a 7 bilhões de habitantes e esperança de vida de 68 anos. Portanto, mesmo com o aumento sem precedentes da população, a humanidade não caiu na “armadilha malthusiana”, isto é, não houve limitação demográfica devido aos freios da mortalidade.

Ao contrário das previsões pessimistas, além do aumento do tempo médio de vida, houve melhoria das condições de moradia, aumento do nível médio da educação, redução do analfabetismo e redução da jornada média de trabalho. Em 2008, pela primeira vez na história, mais da metade da população mundial estava vivendo nas áreas urbanas. O número de automóveis passou de zero, em 1900, para 1 bilhão em 2010. O número de pessoas com acesso ao telefone (fixo e celular) e à luz elétrica passou de algo próximo do nada para 6 bilhões em 2010. É cada vez maior o número de domicílios com a presença de geladeira, fogão, máquina de lavar, televisão, rádio, computador, Internet, etc.

Embora exista muita desigualdade social no mundo, o aumento do padrão de vida médio do ser humano avançou consideravelmente, quando comparado com qualquer período anterior da civilização. Ainda que distante de uma situação ideal, nunca houve tantas pessoas com acesso à previdência social, ao sistema de saúde ou cobertas por políticas públicas de proteção social e transferência de renda. Segundo a FAO, houve um aumento de 25% na disponibilidade diária de energia alimentar per capita (kcal/pessoa-dia) da população mundial entre 1960 e 2010. Em consequência de tudo isto, diminuiram, por exemplo, as taxas da mortalidade infantil e materna.

Segundo o Banco Mundial, houve uma redução absoluta e relativa da extrema pobreza no mundo, pois, em 1981, existiam 1,938 bilhão de pessoas vivendo com menos de US$ 1,25 dólares ao dia nos países em desenvolvimento, representando 52,2% da população e caiu para 1,289 bilhão de pessoas, representando 22,4% da população, em 2008. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo passou de 0,558 em 1980 para 0,682 em 2011, um aumento de 22,2% no espaço de tempo de 3 décadas. No mesmo período, o aumento do IDH foi de 38% na Ásia, 34% na África, 26% na América Latina e Caribe, 16% na Europa e 9% nos Estados Unidos e Canadá, mostrando que a despeito das desigualdades, existe um processo de convergência do IDH entre as regiões do mundo.

No campo da democracia, além do processo de descolonização que aconteceu após o fim da Segunda Guerra Mundial, o número de países com parlamentos funcionando, com maior ou menor grau de liberdade, passou de 26 em 1945 para 194 em 2010. O percentual de mulheres deputadas nos diversos países do mundo passou de 3% em 1945 para 22% em 2012. A despeito das desigualdades ainda existentes entre homens e mulheres, houve redução do hiato de gênero no mundo nas últimas décadas. O racismo e a escravidão – mesmo resistindo ao tempo – são considerados ilegais na maioria dos países. Crescem os mecanismos, mesmo que ainda não totalmente eficientes, para monitorar a situação dos direitos humanos, assim como os instrumentos internacionais para promover a cidadania.

Eventos esportivos como a Copa do Mundo de Futebol e as Olimpíadas abarcam cada vez mais países e mais atletas das diversas nacionalidades. Nunca houve tantos turistas no mundo e nem tanto intercâmbio educacional e cultural. Portanto, quando comparado com perídos históricos anteriores, o avanço do processo civilizatório é um fato incontestável. Segundo cálculos de Angus Maddison, o PIB mundial cresceu 506 vezes entre o ano 1 e o ano 2010; 112 vezes entre 1750 e 2010; 28 vezes entre 1900 e 2010 e 10 vezes somente no curto período de 1950 a 2010. Um trabalhor médio do mundo atual ganha em um mês o que um trabalhador médio ganhava em um ano no início do século XIX.

A humanidade deu um grande salto e se tornou uma força em escala planetária. Pode-se dizer, sem dúvidas, que houve progresso humano desde o início da Revolução Industrial, em 1750, especialmente no último século e, mais particularmente, nas 6 décadas passadas. Mas o mesmo não se pode dizer em relação ao meio ambiente, pois o progresso da humanidade aconteceu às custas da regressão das condições ambientais.

As áreas de florestas estão diminuindo para atender a demanda de madeira e a demanda de espaço para a agricultura e a pecuária. Especies invasoras substituem a vegetação original. O mal uso do solo provoca erosão, salinização e desertificação. A poluição dos rios diminui a disponibilidade de água doce e provoca a mortandade de peixes. Lagos, como o mar da Aral estão diminuindo ou secando para atender aos interesses da irrigação. A contaminação química e os agrotóxicos matam indiscriminadamente a vida terrestre e aquática. Aquíferos fósseis estão desaparecendo e os aquíferos renováveis não estão conseguindo manter os níveis de reposição dos estoques. A vida nos oceanos está ameaça pelo processo de acidificação. Os mangues e corais estão sendo destruidos a uma taxa alarmante. Aumentam as taxas de perda da biodiversidade (medida da diversidade de organismos vivos presentes em diferentes ecossistemas), com o aumento da degradação dos ecossistemas e a extinção da vida selvagem. O aumento das emissões de gases de efeito estufa estão provocando o aquecimento global, tendo como consequência o derretimento das geleiras e das camadas de gelo, provocando o aumento do nível dos oceanos. As áreas produtivas da Terra diminuem, enquanto crescem os aterros para receber o crescente volume de lixo e resíduos sólidos.

O relatório da UNEP da ONU “Global Environment Outlook-5: Environment for the future we want” (GEO-5) fornece um quadro dramático da degradação ambiental no mundo. Se a situação atual já está ruim, ela deve piorar devido ao crescimento populacional, da urbanização, do consumo e do lixo. Das 90 metas ambientais mais importantes, apenas quatro estão fazendo progressos significativos. Entre as metas que apresentaram melhoras, estão aquelas para evitar a destruição do ozônio e proporcionar o acesso a abastecimento de água limpa. Mas o documento relatou pouco ou nenhum progresso em 24 metas, tais como mudança climática, esgotamento dos recursos pesqueiros e a expansão da desertificação.

Segundo Marco Aurélio Weissheimer, em Carta Maior: “Apenas no século XX, graças à ação humana, sumiram do planeta metade das áreas pantanosas, 40% das florestas e 30% dos manguezais. Desde a Rio 92, o mundo teve uma perda de biodiversidade de 12% e emitiu 40% mais gases poluentes. Somente entre os anos de 2000 e 2010, perdemos 13 milhões de hectares de florestas. Cerca da metade das reservas de pescas mundiais estão esgotadas; Um terço dos ecossistemas marítimos mais importantes foi destruído; O lixo plástico segue matando a vida marinha e criando áreas de águas litorâneas quase sem oxigênio. Há uma década, o mundo tinha um total de 11 mil espécies ameaçadas de extinção. A ONU estabeleceu então a meta de reduzir significativamente esse número. Não deu certo. Ele aumentou”.

Segundo o relatório Planeta Vivo, da WWF, a biocapacidade da Terra diminuiu de 3,2 hectares globais (gha) per capita, em 1961, para 1,8 gha per capita, em 2008. Ou seja, enquanto aumenta o consumo de bens duráveis e de alimentos para o ser humano, diminui a capacidade de produção biológica do globo.

A questão que se coloca é: pode haver continuidade do progresso humano com a manutenção das tendências de regressão das condições ambientais? O desafio do século XXI será descobrir o xis deste problema, buscando resolver adequadamente esta difícil equação.

Dos 3 pilares do desenvolvimento sustentável – econômico, social e ambiental – o último é o mais frágil e o que ameaça ruir, a não ser que a Rio + 20 produza um documento avançado que interrompa o regresso ambiental.

G-Zero, G-8 e G-20

O mundo está em uma encruzilhada econômica, social e ambiental. Depois da crise da economia internacional de 2008 e 2009, houve uma forte recuperação em 2010, mas uma desaceleração em 2011 e as incertezas são grandes em 2012. Em termos sociais existem 2,5 bilhões de pessoas sem acesso ao esgotamento sanitário, 1,3 bilhão de pessoas abaixo da linha da pobreza de US$ 1,25 ao dia, cerca de 1 bilhão em situação de insegurança alimentar e milhões de desempregados pelo mundo. Em termos ambientais cresce a degradação da natureza, milhares de espécies são extintas e aumenta o aquecimento global.

O mundo precisa de uma governança global para dar conta destes desafios. Porém, não existe um governo global e a ONU não tem delegação e representatividade para resolver estas questões. Depois da Segunda Guerra Mundial os Estados Unidos assumiram o papel de liderança mundial e no máximo tinham que dividir determinados assuntos com a União Soviética. Mas na década de 1970 a crise do petróleo e a complexidade da situação internacional fizeram com que os EUA dividissem as responsabilidade com o G-7, o grupo das 7 maiores economias capitalistas (EUA, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Canadá).

Com o fim da Guerra Fria a Rússia foi integrada no G-7 que passou a G-8 a partir do ano de 1998. Mas o G-8 não deu conta de resolver os problemas da última grande crise econômica internacional (de 2008/2009) e teve de recorrer ao G-20: os 8 paises mais Argentina, Brasil e México, da América Latina, a África do Sul, como único país africano, a Austrália, único país da Oceania, Arábia Saudita, Turquia e Indonésia, países muçulmanos, os grandes emergentes e países mais populosos do mundo China e Índia, além de Coréia do Sul e União Européia.

Mas o G-20 é um grupo de países muito heterogêneo e dificilmente vai conseguir medidas consensuais para redirecionar os problemas econômicos, sociais e ambientais do mundo. O  G-20 não tem tido uma atuação conjunta e coerente na Rio + 20.

A reunião no México, em 18 e 19 de junho, na ante-véspera, da Conferência de Meio Ambiente do Rio, teria que focar nos problemas da economia européia e na busca para um crescimento sustentado e sustentável da economia mundial e do ambiente global. Mas faltam propostas claras e liderança.

Na verdade já há quem fale em G-Zero, pois cada país está atuando por conta própria e sem uma coordenação global. Isto é o que tem defendido Ian Bremmer, no livro: “Every Nation for Itself: Winners and Losers in a G-Zero World”. As mudanças na economia mundial não deixam um único centro de poder ou pólos entre os quais os demais países eram forçados a optar. Para ele, os Estados Unidos continuarão a ser uma única superpotência, mas enfraquecida pelas guerras, pelo subemprego, pelas dívidas interna e externa, pela desigualdade e aumento da pobreza, sendo que tudo isto leva a população americana a rejeitar uma política ativista no exterior. Os europeus não vão preencher o vácuo, pois estão ocupados em salvar a zona euro. China e outras potências emergentes não querem ou não possuem força suficiente para oferecer uma saída para o mundo.

Por conta desta falta de liderança, não se pode esperar muito da Rio + 20 e nem da reunião do G-20 que acontece no México. Não se pode esperar muito também do G-8 e o G-Zero é o mesmo que estaca zero. Com o agravamento da crise econômica nos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) a reunião do G-20, no México, vai ter muito trabalho e dificilmente vai ajudar nas resoluções da Rio + 20, nos dias 20 a 22 de junho. As eleições na Grécia e seus desdobramentos é uma grande interrogação.

Por tudo isto, a situação econômica, social e ambiental do mundo ainda vai ter que esperar por um momento mais favorável, talvez, até o dia em que a sociedade civil possa ter força suficiente para mudar o modelo de produção e consumo do mundo. Modelo que é socialmente excludente e insustentável em termos ambientais. E a situação tende a se agravar sem uma liderança global e sem a mobilização da sociedade civil que aponte um novo rumo para a comunidade internacional.

“Nada é para sempre, exceto o nada”

[…] Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrões de rosas e de pitangas têm cem anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para serem colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens“ (MONTERO, T. Clarisse na Cabeceira. Rio de Janeiro: Rocco, 2010, p.143)

Independente de pensar em amores insatisfeitos, perecíveis ou incompletos penso que é muito difícil se acomodar na primeira pitanga, como no texto acima de Clarisse, pois existe uma glória na liberdade. Além da aparência da colisão, não decidimos pelo fim do amor, aguardamos a esperança da estação para decidir ignorar ou não o calafrio anônimo. Sem depender do tempo, evitamos a desistência dos instintos, só para viver.

Essa semana, um amigo descreveu o resultado que uma infidelidade alcançou em sua relação afetiva, pontuando assim: “o cavalo fica mais esperto quando sente vertigem na beira do abismo”. Encontrei-o imóvel, medindo os passos pela vida em um desfecho que lembrava uma ode ao amor. Falava que as desgraças de um coração inquieto abriram um vazio lavado pelo tempo que sobrelevava os seus desencontros.

Eu tinha acabado de ler a biografia de Pablo Neruda, “Confesso que Vivi” e a combinação do seu inverno siberiano e a sua lucidez destacava algo parecido com a cena dos bombeiros do onze de setembro nos EUA, ou seja, tinha sobrevivido por muito pouco.

Percebi analogamente à história de Neruda, uma única coisa que não o surpreenderia: as duas faces da sua vida, a que o meu amigo desejava, manifestada pela fidelidade do “eterno enquanto dure”, e a outra, secreta e visível, apenas para si; uma vida feita de todas as vidas possíveis. Uma Capri com principio e sem fim.

Desejava um sóbrio café da manhã com pães quentes da mesma padaria, mas repudiava, sem alusão à ressaca, tomar diariamente o mesmo conhaque.  E de gole em gole, não enxergava o túmulo da relação, apenas a pedra do seu status quo ou a promessa que se desgastou. Talvez não tenha começado um novo dia, apenas porque não suportava o estremecimento do dia anterior.

Sou adepta do relativismo de Einstein em várias ações do cotidiano, mas a vacina da dúvida não me convence. Afinal, sempre existirá uma semelhança à crônica de uma traição anunciada. Sobretudo, entendo-a como um crime particular movido pela coragem da reforma de uma casa antes de vendê-la.  E como uma conta-salário aberta, sem depósito mensal, seria uma torneira que pinga a noite inteira e continua, no dia seguinte, como uma ferida não cicratizada, como uma desavença mal resolvida.

Penso que a mudez ou as palavras não dilaceram a culpa. Mas, em algumas situações, o calar para sempre já representa o verdadeiro castigo ao outro. Se existe dor na traição, um arrependimento não pode ser mais que uma distância segura, como ir ao dentista e não esperar a angústia da próxima ida.

Acho lógico que o martírio só exista porque se vive. Penso que o arrependimento é inábil, pois o repensar sobre o que passou até significa aprendizagem, mas nunca sacrificio de nossa animalidade. Quem trai, alcança as honrarias da natureza do ser não confiável e da revés da frase: “não  é flor que se cheire”.

Não entendo o contraditório na falta de arrependimento, independente de posição religiosa, pois talvez a mudança possa refazer a nossa história. Seria pensar que ao se colocar o curativo ou assoprar, outro machado poderá ser cúmplice de um chiclete mastigado.

A história ficaria melhor ao se esperar menos do outro, separando a lucidez da dúvida. Assim, a verdade não se confundiria com aquele alimento que vai para o congelador, apenas para não ser descartado, independente de prazo de validade. Terminado o cheiro de frescor, só restaria a rejeição. Todavia, o descarte nem sempre é restituído e posto a caminho.

Seria como sair rápido da puberdade, enxergando a alternância de parceiros como a liberdade de dirigir antes dos 18 anos, colocando em risco a própria identidade lá dentro de si mesmo. Seria como se repetir o tempo inteiro e quem sabe ter a obrigação de manter os mesmos personagens.

Alguns apostam no poder reparador da borracha que é capaz de apagar as lembranças de um mar profundo e instável, como se o traficante de ilusões ficasse rico pelas promessas de calmaria na noite. E aí, penso que se o silêncio não diz nada, pelo menos não mente e não rabisca um veleiro sem vento.

Logo, prefiro acreditar não em destino ou ações incontroláveis, mas em escolhas e que os denominados “erros ou traições” são singelas passagens, não involuntárias por medo da solidão, mas provisórias certezas. A infidelidade revela o pedágio, deixa prontuários. Atuamos por comandos exclamativos, justificando a pura falta de controle, esquecendo o terreno baldio com gravetos.

Por um lado, acredito que o relacionamento que desliza fora de medida, com amassadas para se assentar não é real, mas um biscoito da sorte quebrado, uma visão pós-apocalíptica da série The Walking Dead. Não me parece que outros laços afetivos são especiais quando a lei da física leva a derrubada do encantamento dos vivos em prol dos zumbis por benevolência ou descuido. Acredito que os freios falham, mas não o coração.

Por outro, nossa ganância por finais felizes nos levam a se distanciar do fim das tentativas, fazendo da traição o ato falho e não a busca pelo que falta, pelo que não nos define, pelo talo da rosa quebrada que agoniza em seus espinhos.

Reedição pode ser uma ofensa ao coração. Perdoar pode ser um desperdício. Continuar pode ser um grande paralelismo entre o inferno e o prazer que suprime a condição desequilibrada na gangorra.

Aliás, o conto de fadas pode já estar esfacelado e, por fim, o coração desabado na tela em branco poderá ser a  eterna porta entreaberta do nada.

Povos resilientes e Planeta resiliente

A ONU lançou, em maio de 2012, a versão em português do relatório do Painel de Alto Nível sobre Sustentabilidade Global intitulado “Povos Resilientes, Planeta Resiliente: um Futuro Digno de Escolha”, com 56 recomendações para que o mundo avance em direção ao desenvolvimento sustentável. O documento, elaborado por 22 renomados especialistas, traz sugestões para serem debatidas com a sociedade civil e com as autoridades governamentais durante a Rio+20.

Logo no inicio o relatório diz: “Elaboramos este relatório durante um período de volatilidade e incerteza global. As economias estão oscilando. A desigualdade está crescendo. Com 7 bilhões vivendo atualmente em nosso planeta, é tempo de refletirmos sobre a nossa trajetória atual. Hoje estamos em uma encruzilhada (p. 1).

O relatório mostra que os objetivos de longo prazo do Painel de Alto Nível sobre Sustentabilidade Global são erradicar a pobreza, reduzir a desigualdade e fazer que o crescimento seja inclusivo e a produção e o consumo sejam mais sustentáveis, ao combater a mudança climática e respeitar os limites planetários. Parafraseando Charles Dickens, o relatório diz: “O nosso planeta e o nosso mundo estão vivendo hoje o melhor dos tempos e o pior dos tempos. O mundo vive uma prosperidade inédita, enquanto o planeta está sob uma pressão sem precedentes” (p. 17). O documento fala da necessidade de integrar as dimensões econômica, social e ambiental do desenvolvimento sustentável, argumentando que a humanidade não é vítima passiva de forças deterministas e que pode escolher seu futuro.

O relatório considera que para se preparar para o futuro é preciso compreender as dimensões do desafio:  “Devemos reconhecer que as causas desse desafio incluem os estilos de vida e padrões de produção e consumo insustentáveis, bem como o impacto do crescimento populacional. À medida que a população global aumentará de 7 para quase 9 bilhões até 2040 e o número de consumidores da classe média aumente em 3 bilhões nos próximos 20 anos, a demanda por recursos aumentará de forma exponencial. Até 2030, o mundo precisará de no mínimo 50% mais alimentos, 45% mais energia e 30% mais água – tudo em um momento no qual os limites ambientais estão impondo novos limites ao suprimento. Isto vale também para a mudança climática, que afeta todos os aspectos da saúde humana e planetária” (p. 18).

Existem diversas pessoas que consideram ser impossível conciliar o desenvolvimento econômico com a proteção ambiental, questionando se a própria idéia de desenvolvimento sustentável seria viável ou inviável. Neste sentido, o relatório não aborda as limitações do modelo hegemônico de produção e consumo no mundo e nem as limitações das negociações internacionais da ONU, no quadro das soberanias nacionais. Dá muita ênfase ao Estado e ao mercado e pouca ênfase à sociedade civil. O relatório também não trata dos direitos dos animais e aborda as questões demográficas e os direitos de cidadania de maneira superficial. Porém, não deixa de ter validade se listar as 56 recomendações do relatório “Povos Resilientes, Planeta Resiliente: um Futuro Digno de Escolha”, conforme apresentado em seguida:

1) Governos e doadores internacionais devem aumentar seus esforços para atingir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio para erradicar a pobreza e reduzir as desigualdades como as principais prioridades para atingir o desenvolvimento sustentável;

2) Os governos devem respeitar, proteger e garantir os direitos humanos, inclusive o direito de  participar do governo diretamente ou por meio de representantes livremente escolhidos como reconhecido na Declaração Universal de Direitos Humanos de 1948 e no Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos de 1966;

3) Os governos devem acelerar a implementação dos compromissos para fazer avançar a igualdade de gênero e direitos das mulheres, inclusive mediante a revogação de leis discriminatórias e eliminação de barreiras formais, reforma de instituições e elaboração e adoção de medidas inovadoras para abordar práticas informais e culturais que atuem como barreiras;

4) Os governos devem considerar o estabelecimento de um fundo global para educação. Esse fundo deve ser destinado a atrair o apoio de governos, organizações não governamentais e do setor privado, evoluir da atual Parceria Global para a Educação do Banco Mundial e receber a tarefa de fechar a lacuna da educação primária até 2015, de modo que haja uma esperança real para a realização do Objetivo 2 de Desenvolvimento do Milênio;

5) Os governos devem aumentar seus esforços para atingir o Objetivo 2 de Desenvolvimento do Milênio em educação primária universal até 2015 e estabelecer a meta de prover acesso universal à educação pós-primária e secundária de qualidade no máximo até 2030, enfatizando as qualificações e o conhecimento necessário para empregos e crescimento sustentáveis;

6) Os governos, o setor privado, a sociedade civil e os parceiros de desenvolvimento internacional relevantes devem trabalhar juntos para prover treinamento vocacional, reciclagem e desenvolvimento profissional no contexto da aprendizagem contínua para toda a vida voltada ao preenchimento das lacunas de qualificações em setores essenciais para o desenvolvimento sustentável. Devem priorizar mulheres, jovens e grupos vulneráveis nesses esforços;

7) Os governos devem adotar e avançar as políticas de “empregos verdes” e de trabalho decente como uma prioridade em seus orçamentos e estratégias de desenvolvimento sustentável, ao mesmo tempo em que criam condições para novos empregos no setor privado;

8) Os governos e empresas devem firmar parcerias e prestar serviços de lançamento de empresas para jovens empreendedores;

9) Os empregadores, governos e sindicatos devem usar uma abordagem abrangente para promover a igualdade no local de trabalho, inclusive pela adoção de princípios de não discriminação; medidas para o avanço de mulheres em funções de liderança; políticas profissionais e de saúde sensíveis ao gênero; educação, treinamento e desenvolvimento profissional, visando às mulheres e minorias; e compromissos para medir o progresso e informa-lo ao público;

10) Os governos e empresas devem reconhecer os benefícios econômicos de possibilitar a participação plena de mulheres na economia pela implementação de políticas econômicas que abordem explicitamente os desafios únicos que limitam as mulheres;

11) Os governos e outras autoridades públicas devem promover processos abertos, transparentes, equilibrados e baseados na ciência para desenvolver esquemas de rotulagem e outros mecanismos que reflitam integralmente o impacto da produção e consumo e trabalhar com o setor privado para assegurar que a rotulagem, a apresentação de relatórios corporativos e as atividades de apoio sejam precisos, eficazes em relação ao custo e confiáveis, de modo a possibilitar que os consumidores façam escolhas informadas, particularmente em áreas de alto impacto sobre sistemas humanos e naturais, sem criar barreiras ao comércio;

12) Os governos devem fazer com que as escolhas sustentáveis sejam mais facilmente disponíveis, acessíveis e atraentes aos consumidores mediante o estabelecimento, junto com o setor privado, de normas para produtos sustentáveis, de acordo com a melhor tecnologia disponível e sem criar barreiras comerciais e pela aplicação de incentivos e desincentivos de preços;

13) O governo e as entidades não governamentais devem promover os conceitos de desenvolvimento sustentável e consumo sustentável e estes devem ser integrados aos currículos da educação primária e secundária;

14) O Painel acolhe as discussões sobre as dimensões éticas do desenvolvimento sustentável na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio +20) em 2012 entre todas as partes interessadas, com base em experiências e instrumentos relevantes, inclusive a Carta da Terra, para subsidiar os governos em seus esforços para a mudança em direção ao desenvolvimento sustentável;

15) Os governos e organizações internacionais devem trabalhar para criar uma nova revolução verde – uma “revolução sempre verde” para o século XXI que vise no mínimo dobrar a produtividade enquanto reduz drasticamente o uso de recursos e evita a perda adicional de biodiversidade, perda do solo e esgotamento e contaminação da água, inclusive mediante a ampliação do investimento em pesquisa e desenvolvimento agrícola, para assegurar que pesquisas avançadas sejam rapidamente levadas do laboratório para o campo. Os governos devem designar a FAO para trabalhar com os parceiros e participantes essenciais para iniciar e coordenar esta tarefa, já que esta organização tem o mandato singular de reduzir o déficit alimentar mundial;

16) Os governos devem trabalhar para chegar a um acordo sobre os princípios globais para negócios sustentáveis e responsáveis de investimento em terras e água, incluindo esforços contínuos para promover o investimento agrícola responsável (IAR), com ênfase particular na proteção dos direitos e sustento de pessoas pobres que dependem desses recursos básicos, ao mesmo em tempo em que asseguram a sustentabilidade ambiental;

17) Os governos devem estabelecer e aumentar os esquemas de gerenciamento integrado de recursos hídricos, tendo em mente que a água tem papéis multifacetados, incluindo bebida, saneamento, indústria, agricultura e energia;

18) Os governos devem se comprometer com o estabelecimento de arcabouços regionais de gestão costeira e dos oceanos nos principais ecossistemas marinhos;

19) Quando as organizações regionais de gestão da pesca estiverem operantes, devem procurar tornar suas políticas e práticas compatíveis com a gestão coordenada dos oceanos regionais, apoiando-o. Organizações regionais de gestão da pesca, governos e gestores marinhos devem concentrar-se em uma abordagem ecossistêmica para a gestão da pesca a fim de proporcionar melhores benefícios econômicos e ambientais;

20) Os governos devem trabalhar em conjunto com as partes interessadas para assegurar o acesso universal à energia sustentável de custo acessível até 2030, bem como buscar dobrar a taxa de melhoria da eficiência energética e da parcela de energia renovável na matriz de energia global. Os governos e organizações internacionais devem promover tecnologias de economia de energia e energia renovável mediante o incentivo à pesquisa e desenvolvimento e investimento neste sentido;

21) Os governos devem trabalhar com as partes interessadas para prover aos cidadãos, especialmente àqueles que se encontram em áreas remotas, acesso às tecnologias, incluindo redes universais de telecomunicações e banda larga, até 2025;

22) Os governos, instituições financeiras internacionais e grandes empresas devem ser estimulados a participarem da cooperação internacional para o desenvolvimento sustentável orientado à inovação e à tecnologia em uma maior escala, melhorando a capacidade tecnológica dos países em desenvolvimento e aproveitando integralmente as funções potenciais desempenhadas por tecnologias que visam reduzir o impacto sobre clima ao lidar com a mudança climática global e ao desenvolver uma economia ecológica. Os acordos obtidos sob a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática em Cancun e Durban representam um bom passo nessa direção;

23) Os países devem trabalhar para assegurar que todos os cidadãos tenham acesso às redes básicas de segurança mediante esforços nacionais apropriados e do fornecimento de capacidades, fundos e tecnologias apropriadas;

24) Os governos devem elaborar e implementar políticas para gerenciar os impactos econômicos e sociais da transição e fortalecer a resiliência – particularmente mediante programas e políticas dirigidos de proteção social e pelo aumento da capacidade humanitária de lidar com o crescente estresse ambiental e os choques potenciais, onde apropriado;

25) Os governos e organizações internacionais devem acelerar seus esforços para produzir avaliações regionais de exposição e vulnerabilidade e estratégias apropriadas de precaução para prevenir impactos adversos sobre sistemas sociais e naturais que estejam totalmente concentrados nas necessidades das pessoas, com prioridade às necessidades especiais da África, países em desenvolvimento que sejam pequenas ilhas, países menos desenvolvidos e países em desenvolvimento sem acesso ao mar;

26) Os governos e organizações internacionais devem aumentar os recursos alocados à adaptação e redução de riscos de desastres e integrar o planejamento para resiliência em seus orçamentos e estratégias de desenvolvimento;

27) Os governos devem estabelecer sinais de preço que valorizem a sustentabilidade para orientar as decisões de consumo e investimento dos domicílios, das empresas e do setor público;

28) Os governos, outras instituições públicas como universidades e organizações internacionais devem desenvolver critérios de desenvolvimento sustentável para suas compras, visando que nos próximos 10 anos as compras se tornem sustentáveis e eficazes em relação ao custo e devem emitir relatórios públicos anuais sobre seu progresso a partir de 2015;

29) Os governos devem desenvolver normas para a produção e extração de recursos para apoiar a transição para uma economia global sustentável. Devem ainda estimular a ampla adoção e incorporação pelas empresas de princípios voluntários de sustentabilidade derivados de acordos e convenções internacionais;

30) Os governos devem promover e incentivar a inclusão de critérios de desenvolvimento sustentável de longo prazo em investimento e transações conduzidas por empresas, incluindo transações financeiras. Grupos empresariais devem trabalhar com os governos e agências internacionais para desenvolver uma estrutura para os relatórios de desenvolvimento sustentável e devem considerar o relatório obrigatório para as empresas com capitalizações de mercado acima de $100 milhões;

31) As empresas devem buscar alinhar suas práticas de negócios aos princípios universalmente aceitos relativos a direitos humanos, mão de obra, sustentabilidade ambiental e combate à corrupção, tais como os estabelecidos no Pacto Global;

32) Devido à importância dos grandes fundos de capital privado e soberano para possibilitar a transição para o desenvolvimento sustentável, instamos as entidades abaixo a explorarem uma série de medidas para aplicação dos critérios de desenvolvimento sustentável;

33) Os governos, instituições internacionais e bancos de desenvolvimento internacionais devem aumentar seus esforços para promover o desenvolvimento sustentável e avaliar e monitorar adequadamente as consequências de suas políticas nas esferas social e ambiental. Bancos de desenvolvimento multilaterais e regionais e agências de crédito de exportação devem aplicar critérios de desenvolvimento sustentável, ao consideram os riscos do país;

34) Os governos e empresas devem firmar parcerias estratégicas entre eles e as comunidades locais para efetuarem investimentos em desenvolvimento sustentável;

35) Os governos, instituições financeiras internacionais e grandes empresas devem trabalhar juntos para criar incentivos para aumentar os investimentos em tecnologias sustentáveis, inovações e infraestruturas, inclusive mediante a adoção de políticas e metas que reduzam a incerteza dos investidores; a promoção de redes público-privadas para apoiar a pesquisa e desenvolvimento; a elaboração de esquemas de garantia de risco e o fornecimento de capital de risco e o financiamento inicial de empresas;

36) Os governos devem usar o investimento público para criar ambientes propícios que catalisem financiamento adicional substancial do setor privado, por exemplo, mediante o fornecimento de infraestrutura, partilha de riscos, financiamento para cobrir os déficits de viabilidade ou compromissos antecipados de compra;

37) Os governos devem buscar incentivar investimentos em desenvolvimento sustentável conformando os cálculos de investidores em relação ao futuro particularmente por meio do maior uso de mecanismos de partilha de riscos e o aumento da certeza sobre o ambiente regulatório e de políticas de longo prazo. As medidas podem incluir metas para energia renovável ou conservação, redução de resíduos, conservação da água, acesso a mercados de carbono por meio do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Quioto ou perspectivas sustentadas para o financiamento público;

38) Os governos e o setor financeiro devem desenvolver parcerias inovadoras para proporcionar capacitação e maior acesso ao capital, como uma maneira de incentivar pequenas e médias empresas e permiti-las participar da nova economia sustentável;

39) Para medir os progressos alcançados no desenvolvimento sustentável, deve ser elaborado um índice de desenvolvimento sustentável ou um conjunto de indicadores até 2014. Para este fim, o Secretário-Geral deve indicar uma força tarefa técnica, incluindo as partes interessadas;

40) Como base para o desenvolvimento sustentável, os governos devem assegurar o estado de direito, a boa governança e os direitos de acesso dos cidadãos a informações oficiais, participação pública em tomada de decisões e acesso igual à justiça;

41) Os governos devem possibilitar a participação e a influência dos jovens nos processos decisórios nos níveis local, nacional e internacional. Ademais, os processos de consulta e diálogo devem ser estimulados para incorporar vozes de redes não convencionais e comunidades de jovens, tais como fóruns da internet e blogs formadores de opinião;

42) Os governos devem adotar abordagens para as questões de desenvolvimento sustentável que incluam todo o governo, sob a liderança do Chefe de Estado ou de Governo, envolvendo todos os ministérios relevantes para tratar dessas questões nos setores;

43) Os governos e parlamentos devem incorporar a perspectiva de desenvolvimento sustentável em suas estratégias, sua legislação e, em particular, nos seus processos orçamentários. Para este fim, devem ser levadas em conta as dimensões econômicas, sociais e ambientais de questões como a erradicação da pobreza, criação de empregos, redução da desigualdade, padrões insustentáveis de consumo e produção, energia, mudança climática, biodiversidade e crescimento verde. Devem explorar maneiras de incorporar considerações específicas de sustentabilidade na supervisão orçamentária, elaborar relatórios públicos sobre as atividades relevantes e disponibilizar os orçamentos a seus cidadãos;

44) Devem ser tomadas medidas para fortalecer a interface entre a formulação de políticas e a ciência para facilitar a tomada de decisões políticas informadas sobre questões relacionadas ao desenvolvimento sustentável. Os representantes da comunidade científica podem ser incluídos como membros ou assessores em órgãos nacionais ou locais relevantes que tratam das questões de desenvolvimento sustentável;

45) O Painel reconhece a aspiração universal de alcançar o desenvolvimento sustentável. Reconhece também a diversidade de circunstâncias nacionais e de desafios sociais, econômicos e ambientais. O Painel insta que se crie um processo para explorar o conceito e aplicação da questão crítica da igualdade em relação ao desenvolvimento sustentável, visando incorporar o resultado no processo da Rio +20 e seus desdobramentos;

46) Os doadores bilaterais, instituições internacionais e bancos de desenvolvimento devem intensificar seus esforços para promover o desenvolvimento sustentável de maneira abrangente e devem monitorar e informar regularmente o impacto das suas políticas de desenvolvimento sustentável;

47) Como a política de desenvolvimento sustentável internacional é fragmentada e, em particular, o pilar ambiental é fraco, o PNUMA deve ser fortalecido;

48) Os governos devem concordar em desenvolver um conjunto de metas básicas universais de desenvolvimento sustentável, incluindo as três dimensões de desenvolvimento sustentável, bem como suas interconexões. Essas metas devem galvanizar a ação individual e coletiva bem como complementar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, ao mesmo tempo em que permitem uma estrutura pós-2015. Um mecanismo especializado deve ser estabelecido pelo Secretário-Geral para detalhar e refinar as metas antes de sua adoção pelos Países-Membros das Nações Unidas;

49) O Painel endossa a iniciativa “Energia Sustentável para Todos” do Secretário-Geral, que deve ser implementada sem demora;

50) O Secretário-Geral deve liderar um esforço conjunto com os chefes das organizações internacionais relevantes, incluindo as agências relevantes das Nações Unidas, instituições financeiras internacionais, setor privado e outras partes interessadas, para preparar um relatório periódico do panorama do desenvolvimento sustentável global que reúna informações e avaliações atualmente dispersas nas instituições e as analise de maneira integrada;

51) Os governos e a comunidade científica devem tomar medidas práticas, inclusive mediante o lançamento de uma grande iniciativa científica global, para fortalecer a interface entre as políticas e a ciência. Isto deve incluir a preparação de avaliações e resumos regulares sobre a base científica de conceitos, como “fronteiras planetárias”, “pontos de inflexão” e “limites ambientais” no contexto do desenvolvimento sustentável. Isto complementaria outros trabalhos científicos na agenda de desenvolvimento sustentável, incluindo seus aspectos econômicos e sociais, para aperfeiçoar os dados e o conhecimento sobre fatores socioeconômicos como a desigualdade. Ademais, o Secretário-Geral deve considerar a nomeação de um assessor científico chefe ou estabelecer um conselho consultor científico com conhecimento e experiência diversificados para assessorá-lo e a outros órgãos das Nações Unidas;

52) Os governos devem considerar a criação de um conselho mundial de desenvolvimento sustentável para melhorar a integração das três dimensões de desenvolvimento sustentável, abordar questões emergentes e rever o progresso da sustentabilidade, com reuniões periódicas ao longo do ano. Esse órgão pode ser um órgão subsidiário da Assembleia Geral e substituiria a Comissão de Desenvolvimento Sustentável. Precisaria ter uma ampla representação geográfica e política e a participação plena das instituições internacionais relevantes – inclusive agências das Nações Unidas e instituições financeiras internacionais – assim como atores não estatais da sociedade civil, do setor privado e da comunidade científica;

53) Esse conselho desenvolveria um mecanismo de revisão por pares que estimularia os Estados, em um espírito construtivo, a explicarem suas políticas, compartilharem experiências e lições aprendidas e cumprirem seus compromissos;

54) Os governos devem também usar as instituições existentes de uma maneira mais dinâmica, inclusive usando o período entre a realização da Rio +20 e 2015 para revisão e experimentação, a fim de incorporar as soluções testadas às estruturas de desenvolvimento pós-2015 e reformas institucionais;

55) O Secretário-Geral deve acelerar o desenvolvimento de uma estratégia de desenvolvimento sustentável para o sistema das Nações Unidas de modo a contribuir à coerência, melhor definir as responsabilidades entre os órgãos das Nações Unidas, reduzir a sobreposição e duplicação de esforços e melhorar a prestação de contas da implementação. A estratégia deve ser revista por todos os órgãos relevantes e conselhos diretores das Nações Unidas, envidando esforços especiais para forjar uma visão unificada entre os países, que seja comum a todos os conselhos e processos;

56) O Secretário-Geral deve fazer pleno uso das Nações Unidas como espaço mundial de reunião, convocando intercâmbios de alto nível sobre desenvolvimento sustentável quando os líderes se reunirem na abertura da nova sessão da Assembleia Geral. Essas reuniões devem ser usadas para estabelecer a agenda e abordar as questões emergentes reunindo os chefes de estado ou de governo, os chefes de instituições internacionais e representantes da sociedade civil e do setor privado.

Referência:
Povos Resilientes, Planeta Resiliente: um Futuro Digno de Escolha www.onu.org.br/docs/gsp-integra.pdf

Declaração (IAP) sobre População e Consumo

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As Academias de Ciências de todos os continentes do globo -115 no total – divulgaram uma Declaração, em 14 de junho de 2012, fazendo um apelo aos líderes mundiais, reunidos na Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (a Rio + 20) no sentido de tomarem medidas urgentes em relação ao crescimento da população e do consumo, mitigando seus efeitos ambientais.

O documento, divulgado pelo IAP – Global Network of Science Academies (rede global de academias de ciência) – argumenta que é preciso agendar, em escala nacional e internacional, os temas de população e consumo, para proteger o Planeta, pois o fracasso na redução dos danos das atividades antrópicas ameaça o mundo natural e as perspectivas para as gerações futuras.

A declaração pública das academias de ciência é, por si só, notável, pois expressou a opinião de cientistas dos países desenvolvidos e dos países em desenvolvimento, superando em grande parte o conflito ideológico entre o Norte e o Sul. Em geral, as pessoas dos países ricos (do Norte) culpam o alto crescimento populacional dos países pobres pelos problemas ambientais, enquanto as pessoas dos países pobres (do Sul) culpam o alto consumo dos ricos pela degradação da natureza. Ambos têm razão.

O crescimento da população e do consumo tem ocorrido às custas do empobrecimento dos recursos naturais. Segundo dados de Angus Maddison, estima-se que entre o ano 1000 e o ano 2030, a população mundial terá crescido 30 vezes e o PIB (indicador do nível de produção e consumo global da economia) terá crescido quase mil vezes. Sendo que a maior parte deste crescimento aconteceu nos últimos 200 anos. Os impactos ambientais deste crescimento são cada vez mais danosos. Tem crescido a consciência que o ritmo de crescimento atual é insustentável, mas as projeções mostram que a população mundial vai crescer mais de um bilhão de habitantes e o PIB mundial deve dobrar de tamanho entre 2010 e 2030. Porém, o mundo já está ultrapassando as fronteiras planetárias. Assim, vai faltar Planeta para tanta população e tanto consumo.

Neste sentido, a Declaração do IAP sobre População e Consumo é uma contribuição essencial para o debate. Os próprios países desenvolvidos já perceberam que é preciso mudar os padrões de produção e consumo insustentáveis (por isto falam em economia verde). E conforme disse Eliya Zulu, diretor executivo do African Institute for Development Policy em Nairóbi: “Muitos países africanos estão sentindo os efeitos do crescimento populacional e estão percebendo que terão de lidar com isso para continuar se desenvolvendo, assim como abordar as questões ambientais”.

Evidentemente, a Declaração não chega a questionar a sustentavilidade do conceito de Desenvolvimento Sustentável, nem aprofunda na crítica da economia verde e muito menos faz uma defesa dos direitos dos animais e dos direitos da biodiversidade, ou leva em consideração as crescentes críticas ao antropocentrismo.  

Todavia, a Declaração do IAP sobre População e Consumo é um documento avançado e que mostra que a comunidade científica internacional está atenta aos principais problemas do desenvolvimento sustentável, em sua tripla dimensão: econômica, populacional e ambiental, conforme pode ser visto a seguir:

IAP Declaração sobre População e Consumo

As academias da ciência do mundo, através do IAP, têm publicado nos últimos 20 anos declarações conjuntas apelando a governos e a organismos internacionais para tomar uma ações decisivas sobre o consumo, a população e o desenvolvimento sustentável. Embora tenha havido progresso em algumas áreas, o desafio de encontrar um caminho para a sustentabilidade global ainda não foi cumprido e se torna mais premente diante das consequências de um fracasso que fica cada vez mais possível. Enquanto os governos e os formuladores de políticas se preparam para a Cúpula da terra – a Rio + 20 – das Nações Unidas, o IAP reanalisa estas questões importantes e novamente pede urgência e ação internacional coordenada para enfrentar esses desafios profundos para humanidade.

Os Desafios

O aumento do crescimento populacional e do consumo insustentável – de maneira conjunta – representam dois dos maiores desafios que o mundo enfrenta. A população mundial é atualmente de cerca de 7 bilhões e a maioria das projeções apontam que um número entre 8 e 11 bilhões de habitantes, em 2050. A maior parte deste aumento populacional ocorrerá em países de baixa renda. Os níveis de consumo globais estão em patamares elevados, em grande parte por causa do alto consumo per capita dos países desenvolvidos. Ao mesmo tempo, 1,3 bilhão de pessoas permanecem na pobreza absoluta, incapazes de terem atendidas até mesmo suas necessidades básicas.

A população e os padrões de consumo devem ser assuntos de grande preocupação para os governos e os formuladores de políticas porque:

• Eles determinam as taxas nas quais os recursos naturais são explorados e a capacidade da terra para fornecer alimento, água, energia e outros recursos necessários por seus habitantes de forma sustentável. Os padrões atuais de consumo, especialmente em países de alta renda, estão minando gravemente o capital natural, em ritmo que é prejudicial aos interesses das gerações futuras;
• A população é um componente importante de uma relação complexa de processos que determinam o desenvolvimento econômico e social de um país. O rápido crescimento populacional pode ser um obstáculo à melhoria dos padrões de vida nos países pobres, para eliminar a pobreza e para reduzir a desigualdade de gênero. Sob as condições certas, medidas que reduzam as taxas de fecundidade, respeitando os direitos humanos, podem estimular e facilitar o desenvolvimento econômico, melhorar os padrões de vida e saúde e aumentar a estabilidade política, social e a segurança pública;
• Mudanças na estrutura etária da população, que ocorrem como resultado da queda das taxas de natalidade e mortalidade, podem ter, potencialmente, importantes implicações sociais, econômicas e ambientais. O envelhecimento populacional está ocorrendo a taxas historicamente sem precedentes na maioria dos países de alta renda, muitos de renda média e em alguns países de baixa renda, enquanto em alguns países de baixa renda, a proporção de crianças e jovens ainda é muito alta;
• O crescimento da população pode contribuir para os movimentos de pessoas (por exemplo, do campo para as cidades ou entre os países). Em 2050, 70% da população mundial deverá viver nas cidades com desafios significativos para o planejamento urbano e a logística. Enquanto a urbanização e as migrações podem apresentar oportunidades para o desenvolvimento econômico e social, e também para a eficiência na utilização de recursos, se for inesperado e não planejado, pode ser economicamente e politicamente perturbadores e com sérios impactos ambientais;
• A combinação de padrões de consumo insustentáveis, especialmente em países de alta renda, e do elevado número de pessoas no planeta, afeta diretamente a capacidade da terra para sustentar a sua biodiversidade natural.

Agendando as questões

População e consumo estão no centro do desenvolvimento sustentável e dos esforços para mover o mundo para o uso de seus recursos naturais de forma sustentável. Ambos são politicamente e eticamente sensíveis, mas é essencial que isso não os tornem negligenciados pelos formuladores de políticas. O mundo precisa adoptar uma abordagem racional e baseada em evidências para responder às questões levantadas pelo crescimento populacional e pelos padrões de consumo insustentáveis, respeitando os direitos humanos e as aspirações legítimas das pessoas e dos países de baixa renda no sentido de melhorar seus padrões de vida e seus níveis de bem-estar;

As Academias de Ciências, reunidas no IAP, recomendam que os formuladores e tomadores de decisão, em nível nacional e internacional, devem agir:

• Para garantir que a população e o consumo sejam considerados em todas as políticas, incluindo as relacionadas com a redução da pobreza, desenvolvimento econômico, governança global, educação, saúde, igualdade de gênero, biodiversidade e o meio ambiente;
• Para fazer com que o consumo global seja sustentável; para reduzir os níveis dos diversos tipos de danos do consumo e desenvolver alternativas mais sustentáveis. Ações são extremamente necessárias em países de alta renda. É também urgente que opções estejam disponíveis e implementadas nos países menos desenvolvidos, para que possam sair da pobreza, melhorar a saúde, aumentar o bem-estar e proteger os seus próprios recursos ambientais;
• Incentivar estratégias de desenvolvimento que ajudem a reduzir o crescimento populacional. Programas que promovam a educação, em particular para mulheres e meninas, devem ser centrais para essas estratégias;
• Garantir que todos tenham acesso universal à saúde reprodutiva e aos programas de planejamento familiar. Estas questão requerem substanciais recursos adicionais e atenção política dos governos e doadores internacionais;
• Para incentivar modos de desenvolvimento que não repitam erros cometidos no passado pelos países hoje desenvolvidos, mas que permitem que países de baixa renda dêem um salto  para padrões sustentáveis de consumo;
• Incentivar as inovações da “economia verde” projetadas simultaneamente para aumentar o bem-estar e reduzir os impactos ambientais.
• Desenvolver políticas que maximizem os benefícios da maior expectativa de vida, que melhoram a qualidade de vida das pessoas idosas e que criem novas oportunidades para a sua contínua contribuição para a sociedade;

• Desenvolver políticas que maximizem os benefícios econômicos e sociais da migração para os países de origem e de destino;
• Reconhecer que o crescimento populacional contínuo contribuirá para o aumento da urbanização e para desenvolver e implementar políticas de planejamento urbano que levem em conta as necessidades de consumo e as tendências demográficas, enquanto capitaliza os potenciais benefícios econômicos, sociais e ambientais da vida urbana.
• Usar o conhecimento existente de forma mais eficaz e dar prioridade à investigação nas ciências naturais e sociais que irão fornecer soluções inovadoras para os desafios da sustentabilidade.

A necessidade de ação urgente

O objetivo comum da Rede Global de Academias de Ciência continua sendo a melhoria da qualidade de vida para todos, para aqueles que vivem agora e no futuro e, em particular, para ajudar a construir a base de conhecimento necessária para atingir esses objetivos. As escolhas feitas sobre a população e a utilização dos recursos ao longo dos próximos cinquenta anos terão efeitos que vão durar por séculos. Há um leque de cenários futuros possíveis. Se agirmos agora, é realista imaginar trajetórias onde o crescimento populacional se estabilize, o consumo se torne sustentável, as mudanças globais induzidas pelas atividades antrópicas sejam mantidas dentro de limites controláveis, e haja aumento do bem-estar humano. A omissão nos colocará no caminho de alternativas futuras com implicações graves e potencialmente catastróficas para o bem-estar. Quanto mais tempo demorar, medidas mais radicais e difíceis serão necessárias. Todo mundo tem um papel a desempenhar: indivíduos, organizações não-governamentais e os setores público e privado. É fundamental que os decisores políticos nacionais e internacionais, atuando individualmente e coletivamente, tomem medidas imediatas para resolver estas difíceis questões, mas de vital importância.

Assinado pelo IAP – a rede global de academias de ciência (www.interacademies.net) – 14 Junho 2012

IAP – a rede global da ciência academias atualmente tem uma adesão de 105 academias científicas de todo o mundo, que incluem ambas academias nacionais/instituições, bem como agrupamentos regionais/global de cientistas. Para mais informações, consulte o Diretório do IAP em: http://www.interacademies.net/Academies.aspx

Referências:
Declaração IAP no crescimento da população (1994)
http://www.interacademies.net/10878/13940.aspx
Declaração IAP sobre a Transição para a Sustentabilidade (2000), http://www.interacademies.net/10878/13933.aspx
Ver também Royal Society (2012), Pessoas e Planeta. Royal Society, em Londres.
http://royalsociety.org/uploadedFiles/Royal_Society_Content/policy/projects/people-planet/2012-04-25-PeoplePlanet.pdf