Dubai: cidade ecologicamente insustentável

dubai

Dubai é uma cidade que se vende como se fosse uma grande Itu do deserto. Em Dubai tudo é superlativo: o mais alto prédio do mundo, o hotel mais luxuoso e caro do globo, o maior shopping center, o maior aeroporto, etc. Além disto, construiram uma montanha de neve artificial para esqui, piscinas com ondas, um campo de golf que precisa de milhões de galões de água por dia, restaurante construído em gelo, hóteis feitos em granito, mármore e ouro, etc. E muito, muito automóveis e ar condicionados. Ninguém anda a pé.

Com o dinheiro do petróleo o governo dos Emirados Árabes Unidos investiu na construção de uma cidade totalmente artificial no meio das dunas quentes, como se fosse uma Dineylandia do deserto. Mas não foi uma cidade feita para economizar energia, água ou se adaptar às condições inóspidas do semi-árido, como faziam os antigos beduinos. Ao contrário, criaram uma cidade das Mil e Uma Noites voltada para o luxo, o desperdício, a desigualdade social, a falta de liberdade e a insustentabilidade ambiental.

Aliás o dinheiro do petróleo tem permitido a construção de cidades no Oriente Médio totalmente insustentávei do ponto de vista dos recursos naturais. Qatar é um país de 1,4 milhões de habitantes com uma pegada ecológica per capita de 11,68 hectares globais (gha) e uma biocapacidade per capita de 2,05 gha. O Kwait é um país de 2,5 milhões de habitantes com pegada ecológica de 9,72 gha e biocapacidade de apenas 0,43 gha. Os Emirados Árabes Unidos tem uma população de 8,1 milhões de habitantes, uma pegada ecológica de 8,44 gha e uma biocapacidade de 0,64 gha. Estes são os 3 países com maior pegada ecológica do Planeta e com os maiores déficits ambientais. Isto quer dizer que eles só sobrevivem porque importam alimentos e matérias-primas do resto do mundo.

Mas Dubai é o ícone da insustentabilidade. A Shangri-La do Oriente Médio foi construída do nada em poucas décadas de bolha de crédito,  com supressão de direitos, escravidão e ecocídio. Depois da crise de 2009 os segredos de Dubai e o lado obscuro da cidade estão aparecendo. Enquanto isto algumas ilhas artificiais (construidas em um conjunto em forma de palmeira) estão afundando e os lagos artificiais estão possibilitando a propagação de algas que emitem um odor fétido e atraem mosquitos, ao mesmo tempo que afastam os investidores.

A explosão imobiliária (e a especulação) foi construida com o suor dos trabalhadores estrangeiros, principalmente Filipinos, Etiopes, SriLanka, Paquistaneses e indianos. Vivendo em condições extremamente precárias, passam praticamente a vida toda trabalhando, para mandar dinheiro para casa (remessas) que nao é suficiente e não permite o mínimo de autonomia. A sub-classe de trabalhadores estrangeiros – que construiu a cidade – está escondida das vistas dos turistas em Sonapur (em hindu significa cidade do ouro) que é uma série de edifícios de concreto idênticas, onde 300.000 homens vivem amontoados entre o cheiro de esgoto e suor.

Sem os trabalhadores estrangeiros e sem o petróleo a cidade de Dubai não sobrevive. Pode até ser que o turismo gere alguma fonte de receita, mas as desigualdades sociais e a falta de liberdade política não é um modelo que atraia muita atenção do mundo. A família real se acha dona do país e vê as pessoas como seus servos. Aliás, prativamente toda a população nativa trabalha para o governo, que tem sua fonte de renda no petróleo e na renda de imóveis e terrenos.

Portanto, Dubai pode ser uma boa cidade para se comprovar a capacidade humana de construir obras dignas das Sete Maravilhas do Mundo. Mas como as pirâmides dos Faraós, Dubai também pode se tornar apenas um símbolo de uma cidade ecologicamente insustentável no meio do deserto que será incapaz de sobreviver depois do fim dos combustíveis fósseis e das bolhas imobiliárias.

Até onde vai a queda dos católicos na baixada fluminense?

A proporção de católicos no Brasil caiu de 89% em 1980, para 83% em 1991 e chegou a 64,6% em 2010. Nos últimos 20 anos a perda tem sido quase um por cento ao ano. Neste ritmo os católicos deixam de ter maioria absoluta (mais de 50%) das filiações religiosas no país em 20 anos e podem empatar com os evangélicos em até 30 anos, na média nacional.

Contudo, os católicos já estão perdendo para os evangélicos na Baixada Fluminense.  Tomando o município de Nova Iguaçu como exemplo, podemos ver que os católicos eram 43,1% em 2000 e os evangélicos eram 29,1%. Em apenas 10 anos, os católicos cairam para 33,1% e os evangélicos subiram para 36,9% da população total de Nova Iguaçu em 2010.

rel novaiguacu

Esta inversão de posições é mais acentuada quando se considera os grupos etários, pois os católicos continuam superando os evangélicos nas idades acima de 40 anos, mas perdem nas idades menores de 40 anos.  No grupo etário 0-14 anos, de crianças e adolescentes, os católicos eram 37,7% em 2000 e cairam para 28,3% em 2010, enquanto os evangélicos subiram de 30% para 40,3%, no mesmo período. No grupo de adolescentes e adultos jovens (15-39 anos) os católicos cairam de 42% para 29,6% e os evangélicos subiram de 24,8% para 37% entre 2000 e 2010. Já nos grupos acima de 40 anos os católicos ainda possuem percentual superior aos evangélicos, com destaque para o grupo de idosos (65 anos e +) em que são 47,3% contra 33,1% dos evangélicos, em 2010.

Estes dados mostram que os católicos estão perdendo espaço em todos os grupos etários, mas a perda é maior entre crianças, adolescentes e jovens. Isto que dizer que o processo de sucessão das gerações deve aprofundar ainda mais a inversão da hegemonia religiosa em Nova Iguaçu e nos demais municípios da baixada fluminense que vivenciam o mesmo processo de mudança religiosa.

O fato de os católicos já estarem abaixo de 30% na população abaixo de 40 anos em Nova Iguaçu deve ser encarado como um sinal de alerta para a religião que já chegou a ter o monopólio da fé no país. Os dados estão mostrando que não existe um limite para a queda dos católicos. Se este ritmo continuar vai levar praticamente à extinção dos católicos em Nova Iguaçu e, provavelmente, em toda a Baixada Fluminense. A não ser que haja uma reação e uma mudança nas tendências gerais das filiações religiosas na região.

 

A pedra no caminho do tempo

O que é passado, presente ou futuro, só o tempo atestará. Pois se existe mesmo esse vidro-hoje a separar fatos e pessoas, existe o vidro-afeto a ser quebrado a qualquer momento, não aceitando nem ser refratário, para se tornar apenas pleno em sua invisibilidade.” [ROMEU, A. C. Passado, presente e futuro. Jornal Diário Popular, Pelotas, 21 de jul. de 2012]


Não lembro a fonte do conto “a pedra no caminho”, mas independente do tamanho e tempo da pedra, no decorrer da vida, penso que não existe uma, que não seja possível aproveitá-la para o próprio crescimento espiritual. Acredito que, independente do tempo, a diferença em seguir sonhando, nunca esteve na pedra, mas na capacidade de autorenovação do homem.

Parece claro que existe similitude da pedra no caminho à ideia de um tempo retilíneo, acomodado pela repetição dos fatos, que se movem em torno do mesmo centro e se  encontram partir dos mesmos princípios e eventos ortodoxos. Sob esse olhar platônico, há impossibilidade do movimento e alteração da pedra, ou seja, é inútil mudar a natureza humana, pois não há tempo no qual possa se alterar.  Nunca haverá restauração do tempo.

Qual é sentido de tudo isso? A questão de forma abstrata pode receber várias respostas.  Diria que o homem sempre teve, desde os primórdios, a necessidade de se defender, enquanto a pedra aceita a guerra como um fato da vida. Assim, se contarmos a ligação da pedra e do tempo, poderemos perceber que partes das pedras encontradas no caminho já possuíam legitimidade no tempo das cavernas, mas a vida humana ainda segue curso para o futuro.

Sebastian de Grazia escreveu no livro “Maquiavel no Inferno” que feliz é aquele que se adequa ao modo de proceder ao tempo. Para ele, a ambição que não se entende com o tempo, é uma paixão tão forte no coração do ser humano que, mesmo que galguemos as mais altas posições, nunca nos sentiremos satisfeitos.

Segundo Maquiavel,  “as vezes, nos corpos que giram no céu, em torno da terra, se produz um desvio ou paralaxe.  E com intervalos de tempo muito espaçados, tudo o que há sobre a terra morre em  função do excesso de fogo”. Como tal, a destruição causada determina não somente o fim de uma era, mas o início de um novo ciclo, renovado pelos sobreviventes da erupção que gera as pedras: “quando isso acontece esses povos voltam novamente a ser jovens”.

Existe na minha gaveta uma pedra que me acompanha há vários anos, serve de amuleto para pensar que posso ser tão forte ou manter-me livre. Não é nenhuma jade (pedra associada à imortalidade), mas tem um sentimento de quartzo azul (poder) que domina as minhas inquietações. Sempre que penso que o meu orgulho estar sendo roubado, procuro-a como meio de pensar que o chão nunca pode desmoronar sobre os meus pés.

Mas com tantas pedras no caminho em um tempo em que  eu não posso comandar, sobra pouco espaço para ”vencer sem lutar”. Só que no fundo essa pedra é parte do meu passado, em outro espaço que é o presente, mas que mesmo, assim, tento me agarrar e materializar.

Li, em certa ocasião, no livro “Paz Guerreira” de Talal Husseini que um guerreiro, fundamentalmente, conquista, avança e domina, sendo um eterno inconformado com a injustiça, falsidade e ilusão e que por meio de virtudes, ao se confrontar com vilões, trava a verdadeira guerra, apenas, no interior.

Sob esse prisma, tenho aberto um umbral de grandes proporções, muitas vezes por não saber em quem confiar, mas tentando usar a paz guerreira com desejo de presente e futuro na minha essência de passado. Talvez, tenha o desejo de viver o que Jorge Luís Borges menciona: “O absoluto deseja manifestar-se e manifesta-se no tempo”.

Quando penso em batalhas, não me passa pela cabeça a concepção de campo de guerra que leva os homens aos sentidos mais grotescos e brutais, mas desmitifico uma concepção do homem e do mundo que fica no vão da porta, bloqueando o caminho, além do nosso comando. Seria comandar um Ipad com o controle do desenho dos Flintstones.

Tenho aprendido a ter atitudes de não encanar por nada e controlar os níveis de cortisol nas experiências negativas. Lembro, assim, que algumas batalhas não valem a pena, nem mesmo os sapatos novos que nos machucam, fugindo de autoflagelo ou de episódios semelhantes a série Dexter.

Já usei a teoria Playmobil que alguns chamam de filosofia e eu chamo de resistência. Não tenho dúvidas que o sorriso diante da pedra é a soma das nossas escolhas, cantada e exposta como oráculo da felicidade. Mas, tenho nesses dias pensando nessa teoria como uma armadura. Talvez não uma armadura de ferro ou blindagem, tipo usada por nossos célebres cavaleiros, mas,  um refúgio do bom combate à vida. O sorriso, mesmo debaixo de um mar de lágrimas, revela algo nosso, uma propriedade que não demanda seguro ou ferraduras.

E pergunto como sobrevivemos? Talvez, considerando uma pesquisa que li na Revista Superinteressante, impedindo o mundo de virar monstro ou exercitando a  capacidade de nos adaptarmos aos outros e alinharmos nossas opiniões, pelo menos em parte, como uma questão estrutural: “dependendo do nosso hardware (a estrutura do nosso cérebro), e não tanto do software (o processamento das informações que ocorre ali)”.

Talvez, haja vitória do tempo ao esconder a dor, quando não depositamos todas às fichas em um único local, pertinentes a qualquer tipo de relação profissional, amorosa, pessoal ou de amizade, pois quando a batalha tortura, o tempo parece não passar pelas pedras.

E no final seremos, sempre, solitários, como no filme Natureza Selvagem: “E também sei como é importante na vida, não necessariamente ser forte, mas sentir-se forte.”

[…] Nós temos uma ambição que concordamos. E você pensa que tem que querer mais do que precisa. Até você ter tudo, você não estará livre. Sociedade, sua raça louca. Espero que não esteja solitária sem mim. Acho que preciso encontrar um lugar maior […] (Society interpretada por Eddie Vedder)

Hipocrisia e ditaduras!

De qualquer governante que fique no poder por mais de dois daquilo que poderíamos chamar de “mandatos” pode-se dizer que não seja democrático. Que dizer então de gente que, de uma forma ou outra se perpetua no poder? Ditadores, no mínimo. E não importa o matiz ideológico.
 
Em uma democracia “de verdade”, ninguém conseguiria ficar tanto tempo no poder por conta apenas de “eleições”. Um povo democrático é um povo que possui diversidade e, logo, de uma forma ou outra encontra maneiras dessa diversidade se manifestar no governo, sem que para isso sejam necessárias revoluções ou guerras civis. E da natureza da democracia, e portanto natural, que a diversidade se alterne. Qualquer outra situação jamais poderá ser chamada de democracia. Qualquer outra forma de se manter no poder é antinatural e democratas que se prezam de assim pensar e agir, não podem pactuar com “disfarces” perpetrados mundo afora.
 
A questão que se coloca são as defesas feitas, a essas pessoas e a seus regimes, como se democráticos fossem e por pessoas que alardeiam serem democráticas também. Instado a me manifestar, incondicionalmente, em defesa do regime sírio, em clara guerra civil, fui solenemente acusado de “defensor dos assassinos americanos” e de pactuar com as mentiras propagadas pelo PIG direitoso brasileiro.
 
Esse é um dos problemas da radicalização: joga quatro milhões de anos de desenvolvimento humano no lixo, ao reduzir as opções de solução de conflitos a apenas duas: radicalmente contra ou radicalmente a favor.
 
Espanta-me que em pleno século XXI posturas como essas, típicas dos passados séculos XVIII a XX, ainda existam. Pessoas que ainda defendem cegamente seus matizes ideológicos. Que se recusam a aceitar que ditador é ditador seja ele de esquerda, de centro ou de direita. E mais, que se recusam a aceitar que qualquer um deles se mantém no poder à custa da miséria do povo (enquanto eles vivem no fausto), à custa de muita morte causada ao povo, quanto mais não seja apenas pelos “disfarces” construídos.
 
A desculpa é a que a “democracia americana”, imposta, é pior, pois representa o “imperialismo” contra o qual devemos lutar acima de qualquer outra coisa. Em nome disso criam-se regras, e regras, como já dizia Frank Herbert em seu livro Duna, “constroem satrapias. Um perigoso estado de coisas nos melhores tempos, desastroso durante as crises”.
 
Vivemos em um mundo tão em crise que essa parece será a palavra que os historiadores, no futuro, usarão para chamar o século XXI. Assim como tivemos o Século das Luzes, seremos o Século das Crises.
 
Radicalismo, que só sabe criar regras, nada mais é do que a hipocrisia da ditadura do contra ou a favor!

A sociedade brasileira avança e a igreja Católica fica presa no passado

A igreja Católica chegou ao Brasil junto com Pedro Álvares Cabral. A primeira missa foi rezada por Frei Henrique Coimbra, no sul da Bahia, no dia 26 de abril de 1500. Nos 4 séculos seguintes, a igreja manteve um monopólio de quase 100% sobre a população brasileira.

A igreja Católica reinou no Brasil quando o país era rural, de economia agrária e de subsistência, as famílias eram numerosas e havia baixa mobilidade social e baixo nível de consumo. A família católica típica era formada a partir do matrimônio de mulher virgem com um homem que já tinha alguma experiência sexual (geralmente com prostitutas), os casamentos eram para sempre, pois havia baixo índice de separações e divórcios, o homem trabalha fora e possuia renda, a mulher era apenas dona de casa e tinha como função cuidar dos filhos e do marido. As taxas de fecundidade eram altas, a esperança de vida era baixa, o percentual de pessoas morando sozinhas era pequeno, praticamente não havia aposentadoria e sistemas públicos de proteção social, o índice de analfabetismo era muito elevado, os canais de informação e comunicação eram restritos e a mobilidade espacial e social era limitada. Era forte a ligação da família extensa com a igreja e os padres eram uma referência importante das comunidades.

Porém, este Brasil tradicional ficou para trás na medida em que ia se urbanizando, industrializando e avançando em termos de estrutura produtiva, de padrão de consumo e de qualidade de vida. As taxas de fecundidade cairam, a esperança de vida aumentou, houve quase universalização da educação básica (e laica), o sistema de aposentadoria se genaralizou, cresceram as políticas públicas de proteção social, como o Bolsa Família, além de haver uma ampliação do processo de diversificação familiar. O Brasil tem passado por um processo de laicização e a população se sente menos inclinada a se manter fiél a uma igreja específica ou a uma determinada corrente religiosa. A presença da televisão e de atores e atrizes, nos mais diversos campos da cultura, são referências mais fortes para os jovens do que os padres e pastores.

Nas últimas décadas houve redução da idade inicial da primeira relação sexual tanto para os meninos quanto para as meninas. É crescente o número de jovens que fazem sexo antes do casamento. É crescente também o uso de métodos contraceptivos modernos e o uso da camisinha para o sexo seguro. Um maior número de casamentos terminam em divórcio. Crescem os recasamentos. As mulheres reduziram o número médio de filhos e aumentaram a participação no mercado de trabalho. Aumenta a demanda por maior equidade de gênero na família e na sociedade. Cresce o número de pessoas que assumem os relacionamentos homossexuais. É cada vez mais diversificado e elevado o padrão de consumo médio da população, assim como os níveis de informação. As famílias ficaram menores, mas com maiores níveis de migração e mobilidade na estrutura ocupacional.

Mas a igreja Católica continuou com a mesma doutrina de proibir o sexo de jovens antes do casamento, de negar as separações, de não fazer recasamentos, de defender o papel doméstico das mulheres, de não aceitar os meios de regulação da fecundidade e os preservativos, de condenar a homossexualidade, etc. Os ritos litúrgicos são antigos e pouco atraentes, especialmente para os jovens. E a igreja tem uma relação de antagonismo com a sociedade de consumo de massa, ao contrário da teologia da prosperidade. O crescimento das camadas médias e liberais em termos de costumes tende a reduzir ainda mais o rebanho católico. O trabalho de evangelização é frágil e a igreja Católica não está conseguindo deter a concorrência de outras correntes religiosas e do secularismo.

O resultado é que o número de fiéis ligados ao catolicismo está diminuindo de maneira muito rápida e a igreja mantém um discurso e uma pratica voltada para a família e a sociedade tradicional, enquanto o Brasil caminha para ser um país pós-moderno, mesmo que muito desigual e injusto socialmente. O fato é que, para o bem ou para o mal, a sociedade brasileira tem avançado, mas a igreja Católica não consegue superar as limitações do seu passado concreto, muito menos consegue se adaptar ao processo de modernidade líquida, que acelera o ritmo de vida e transforma tudo o tempo todo.

Ser humano: espécie invasora?

jornada humana

O ser humano é fruto de uma longa evolução das espécies em meio à biodiversidade do Planeta. Isto não quer dizer que somos os animais maiores, mais fortes e mais rápidos da natureza. Ao contrário, o ser humano nasce de maneira bem débil e sem poder caminhar e procurar a sua própria comida. Em geral, o ser humano não pode nadar grandes distâncias e não pode voar. Também não possui em sua constituição física garras para se defender ou atacar e nem venenos para paralisar suas vítimas ou predadores. Não possui nem penas e nem pêlos para se proteger do frio. O ser humano é uma espécie bastante frágil.

Porém, esta espécie natural e biologicamente frágil desenvolveu uma arma poderosíssima que é o cérebro. O homo sapiens (homem sapiente) desenvolveu o raciocínio, a linguagem, a cultura e as civilizações. A inteligência humana também foi fruto de um longo processo de evolução que se aprimorou enfrentando as adversidades da natureza. Para superar suas fragilidades, o homo sapiens passou a construir ferramentas e se transformou em homo faber (homem fabricante). Uma coisa fortaleceu a outra, pois a inteligência permite construir ferramentas e utensílios e a construção destes aparelhos ampliou os limites da inteligência. O cérebro desenvolvido permite a resolução de problemas práticos e a postura ereta do homo erectus (bípede) possibilitara o uso dos braços para manipular objetos, especialmente com a capacidade prensil do polegar. Foi assim que o ser humano conquistou uma grande mobilidade espacial e social.

Primeiro, o ser humano aprendeu a usar a pedra lascada, depois a pedra polida, as lanças, o arco e flexa, as facas, etc. Aprendeu a controlar o fogo para cozinhar, gerar calor e luz. Depois juntou o fogo com o domínio da mineração para construir ferramentas e armas com os avanços da metalurgia. Inventou a roda e os meios de transporte. Criou o zero, o sistema decimal de números e o sistema binário (zeros e uns) que, hoje em dia, são a base da sociedade da informação. Aprendeu a plantar e a domesticar os animais para melhorar sua alimentação. Depois construiu cidades, fábricas, hospitais, escolas, carros, trens, aviões, navios, submarinos, etc. Com isto, o ser humano passou a andar, nadar e voar por todo o planeta e se tornou uma espécie onipresente na Terra. Hoje em dia, os homens e mulheres podem dizer: “está tudo dominado”.

Tudo começou há cerca de duzentos mil anos. Os estudos com o DNA mitocondrial de fósseis humanos mostram que a espécie teve origem na África oriental. A expansão e a migração do homo sapiens para fora do continente africano começou há cerca de cem mil anos.

A primeira diáspora bem sucedida aconteceu entre 90 mil e 85 mil anos, quando um grupo de homo sapiens atravessou o Mar Vermelho e seguiu em direção ao sul da Ásia. Entre 85 mil e 75 mil anos chegaram à Índia, Indonésia e ao sul da China. Entre 65 mil e 50 mil anos, um fluxo chegou à Austrália e outro ao Oriente Médio (até o Bósforo). Entre 50 e 45 mil anos, chegaram à Europa. Entre 45 e 40 mil anos, novos grupos de migrantes chegaram à Ásia Central, Tibet, interior da China, Córeia e Japão. De 40 a 25 mil anos, outros fluxos chegaram à Rússia, ao Circulo Polar Ártico, à Sibéria e ao estreito de Bering. De 25 a 22 mil anos um pequeno grupo chegou à América do Norte. Mas os rigores da Idade do Gelo restringiram a expansão humana. Entre 15 e 12 mil anos a diáspora que começou na África, se espalhou pela América do Norte e chegou à América Central e à América do Sul.

Com o fim da Idade do Gelo, entre 10 mil e 8 mil anos atrás, houve expansão da agricultura e o ser humano se espalhou pelo Globo, ocupando todos os continentes e todas as regiões do mundo. Estima-se que a população mundial passou de poucos milhares de indivíduos há 50 mil anos para 5 milhões de habitantes há 8 mil anos, cerca de 250 milhões de habitantes no ano 1 da era Cristã, algo em torno de 500 milhões no ano de 1500 (descobrimento do Brasil), 1 bilhão em torno do ano 1800 e 7 bilhões de habitantes em 2011. Estima-se que a soma de todas as pessoas nascidas desde o surgimento do homo sapiens chegue na casa de 110 bilhões de pessoas.

Diversos historiadores consideram que a migração humana foi um sucesso e que a humanidade criou uma grande civilização cheia de realizações e invenções geniais. Porém, existem outros historiadores que consideram que o ser humano, a despeito de ter realizado algumas obras geniais, tem causado muitos danos à natureza e ao Planeta. As migrações humanas desde a África trouxeram grandes destruições ambientais e a biodiversidade dos biomas foi alterada.

A natureza do continente americano sofreu muito com a chegada humana, especialmente após o crescimento do volume de pessoas. Por exemplo, as migrações humanas que chegaram à ilha de Páscoa (Rapa Nui), pertencentes atualmente ao Chile, acabaram por destruir a natureza local e a própria civilização da terra dos Moais. A civilização Nasca no Peru, além de fazer as famosas linhas de Nasca, contribuiram para a degradação ambiental ao cortar as árvores locais que resistiam à pouca precipitação pluviométrica.

Mas foi após a chegada de Cristóvão Colombo que os danos ao meio ambiente se intensificaram e a crise ambiental se agravou progressivamente. Em Galápagos, os equatorianos, durante mais de um século, mataram as tartarugas para fazer óleo e iluminar as cidades (como Guayaquil e Quito). Das diversas espécies de tartarugas, uma tem uma dramática extinção, pois só havia sobrado o “solitário George” (último exemplar daespécie), que morreu no mês passado. Além disto, houve a introdução de diversas espécies invasores de plantas e bichos que destruíram grande parte da riqueza natural do arquipélago. Em dimensão bem maior, os Estados Unidos da América (EUA) são campeões mundiais de destruição ambiental e estão afetando, não só o seu território, mas o clima do Planeta.

No Brasil, 93% da Mata Atlântica foi destruída a ferro e fogo. Outros biomas, como o Cerrado, os Pampas e a Amazônia estão indo pelo mesmo triste caminho. Os rios das grandes cidades foram destruídos ou simplesmente viraram canais de esgoto, como os rios Tietê, Carioca e Arrudas, respectivamente, em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Os exemplos do impacto negativo da população humana são muitos e dramáticos. A destruição do solo, das águas e do ar se espalha com grande velocidade, destruindo a riqueza biológica e as espécies nativas e endêmicas.

Por isto, alguns pensadores estão reavaliando o papel das migrações e até considerando o ser humano uma espécie invasora. As espécies invasoras são aquelas oriundas de outra região ou bioma, e que se adaptam e proliferam muito bem no novo ambiente, competindo com as espécies nativas por nutrientes, luz solar e espaço físico. Em geral, elas modificam o ecossistema original e reduzem a biodiversidade. Por falta de predadores naturais, as espécies invasores multiplicam sua presença como uma praga.

Por exemplo, o filósofo britânico John Gray, em entrevista à revista Época (29/05/2006), apresenta um prognóstico pessimista sobre a humanidade: “A espécie humana expandiu-se a tal ponto que ameaça a existência dos outros seres. Tornou-se uma praga que destrói e ameaça o equilíbrio do planeta. E a Terra reagiu. O processo de eliminação da humanidade já está em curso e, a meu ver, é inevitável. Vai se dar pela combinação do agravamento do efeito estufa com desastres climáticos e a escassez de recursos. A boa notícia é que, livre do homem, o planeta poderá se recuperar e seguir seu curso”.

O homo sapiens utilizou o cérebro para construir uma avançada civilização planetária, mas tem utilizado a sua inteligência de maneira instrumental e egoísta. O impacto humano já ultrapassou a capacidade de regeneração de todos os continentes. Não há mais fronteiras para novas migrações. Será que o homo sapiens que se espalhou pelo Planeta (chegando por último ao continente americano) pode ser classificado como uma espécie invasora? Ou haverá uma forma evitar seus efeitos daninhos?

Referência: A jornada da humanidade
www.agp.org.br/wp-content/…/08/A-Jornada-da-Humanidade.pps

Igualdades e Desigualdades

Vocês devem-se lembrar de eu ter dito em trabalho anterior que a álgebra é a generalização da aritmética onde os valores concretos dos números são substituídos pelos valores abstratos das letras minúsculas do nosso alfabeto. Pois bem vejamos as relações mais simples que se podem estabelecer entre esses valores abstratos como sejam as igualdades. Temos então “a=b”, isto é, duas letras ligadas pelo sinal igual representado por dois pequenos traços horizontais um em cima do outro. Mas atenção, não existem dois números que sejam ao mesmo tempo iguais e diferentes. Logo a relação “a=b” só pode ser satisfeita se for “a=a”, isto é, se o número “a” for igual a si mesmo o que obviamente não interessa a ninguém. Mas vejamos o que acontece se em vez dos números naturais passarmos a lidar com os números reais. Lembrem-se que os números reais englobam os números naturais, os números inteiros racionais e irracionais. Vejamos um exemplo, a raiz quadrada de 9, ou seja o número 3. É um número natural mas sendo o resultado de uma raiz quadrada está sujeito aos dois sinais + e -. Sendo assim ao único número natural 3 ou seja ao valor absoluto de 3 que é o número 3 sem os sinais, correspondem dois outros números iguais e diferentes +3 e –3 o que não é nenhuma contradição pois resulta das propriedades dos números reais. Temos então as seguintes identidades +3=+3 e –3=-3. Com as desigualdades não é isso que se observa. Se “a>b”, isto é se “a” for maior que “b” então o inverso é “b”menor que “a”. No entanto são as igualdades que promovem a expansão da matemática, pois as desigualdades têm um campo de aplicação muito limitado. Uma aplicação da desigualdade é o “corte de Dedekind” matemático alemão (1831-1916) que determina que um número irracional infinito como, por exemplo, a raiz quadrada de 2 pode ser representado num eixo numérico pois ele é o número que separa o conjunto dos números menores que ele do conjunto dos números maiores que ele. Voltemos às igualdades, os simples conceitos das igualdades abrem o caminho para o cálculo integral e diferencial. Vejamos o  exemplo – 3+x=0, passando o “-3” para o 2º membro  da igualdade o 3 muda de sinal dando ‘x=+3’, isto é obteve-se o valor da incógnita que soluciona a equação. O número 3 abstraído dos sinais é chamado de “valor absoluto do número” e é representado pelo símbolo de dois traços verticais limitando o número “/3/”.  Vejamos agora um caso interessante de igualdade, “a regra de três”. Suponhamos que um objeto que custa R$300,00 estivesse sendo vendido com um desconto de 20%. Qual teria sido o valor pago pelo comprador? Trata-se de uma igualdade entre duas proporções, ou seja, 100 está para 20 assim como 300 está para x. Como vocês devem saber o produto dos valores extremos é igual ao produto dos valores meio, isto é, o produto do numerador da 1ª fração pelo denominador da 2ª fração (valores extremos) é igual ao produto do denominador da 1ª fração pelo numerador da 2ª fração (valores meio). Temos então 100x=20.300, portanto o desconto na compra foi de R$60,00 e o objeto foi vendido por R$240,00.

Fico por aqui. Até à próxima.
 

Eleições de 2012 e a participação das mulheres nas câmaras municipais

As mulheres conquistaram o direito de voto no Brasil em 1932. Mas não conseguiram avançar na representação municipal nos 60 anos seguintes. Em 1992, o percentual feminino nas Câmaras Municipais ficou em apenas 7,4% do total de vereadores do país.

Para mudar esta situação de déficit democrático de gênero, o Congresso Nacional aprovou em setembro de 1995 – logo após a 4ª Conferência Mundial das Mulheres ocorrida em Beijing, capital da China – uma política de cotas para tentar reverter a exclusão das mulheres brasileiras da política parlamentar.

A Lei 9.100 de 29 de setembro de 1995,  no § 3º do artigo 11º estabelecia o seguinte:

“Vinte por cento, no mínimo, das vagas de cada partido ou coligação deverão ser preenchidas por candidaturas de mulheres”.

Porém, o número candidaturas subiram de 100% para 150% do número de vagas a preencher pelos partidos. Portanto, houve possibilidade de aumento das candidaturas masculinas. E o pior, o partido era obrigado a reservar os 20% das vagas, mas não era obrigado a preenchê-las. Além disto havia sempre a possibilidade de haver crescimento das candidaturas “laranjas” de mulheres.

Dois anos depois houve a aprovação de uma nova Lei eleitoral. O parágrafo terceiro do artigo 10º da Lei 9.504, de 30 de setembro de 1997 ficou assim redigido:

“Do número de vagas resultantes das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação deverá reservar o mínimo de trinta por cento e o máximo de setenta por cento para candidaturas de cada sexo”.

A nova redação da política de cota possibilitou contornar os questionamentos da constitucionalidade do mecanismo anterior e deu um caráter mais universalista à política de cotas, dando o mesmo tratamento para os dois sexos. A nova ação afirmativa garantiu o respeito ao princípio “todos são iguais perante a lei” e apenas estabeleceu regras de representação, ou seja, um mínimo de 30% e um máximo de 70% para cada sexo.

Porém, como na Lei 9100, a nova redação não garantiu o preenchimento das candidaturas femininas. Os partidos reservavam o piso dos 30% e respeitavam o teto de 70% para os homens, mas não preenchiam as vagas femininas. Na prática, a exclusão feminina continuou, pois os partidos políticos continuaram com suas práticas misóginas, mantendo a desigualdade de gênero nas disputas eleitorais. Todos os partidos brasileiros permanecem exercendo a chamada “dominação masculina” (conforme definido por  Pierre Bourdieu) e continuam investindo pouco na formação política das mulheres.

Para forçar os partidos a respeitarem o espírito da Lei de Cotas visando aumentar o número de mulheres candidatas e aumentar a equidade de gênero nas listas de candidaturas, houve uma nova mudança na legislação.  Na Lei 12.034, de 29/09/2009, a nova redação da política de cotas ficou assim redigida:

“Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo”.

A alteração pode parecer pequena, mas a mudança do verbo “reservar” para “preencher” significa uma mudança no sentido de forçar os partidos a dar maiores oportunidades para as mulheres. O ideal é que fosse garantido a paridade de gênero (50% para cada sexo) nas listas de candidaturas. Mas diante do baixo número de mulheres candidatas, a mudança da Lei em vigor já representa um avanço, mesmo que limitado. O resultado já pode ser visto nos números de candidaturas em 2012.

O percentual de candidaturas femininas aumentou de apenas 19,1% em 2000 para 22,1% em 2004 e 2008. Ou seja, a cota de 30% não foi respeitada nas eleições passadas. Porém, os dados preliminares do TSE, para 2012, mostram que – pela primeira vez – a cota foi alcançada para a média nacional. Em 2012 há 274.770 homens candidatos a vereadores (68,8%) e 124.437 mulheres candidatas a vereadoras (31,2%).

cotas 2012

O número de candidaturas femininas por vaga praticamente dobrou, passando de 1,17 candidatas por vaga, em 2000, para 2,32 candidatas por vaga em 2012. Isto quer dizer que o eleitorado vai ter mais opções de escolha entre as candidaturas femininas. Os homens vão encontrar maior concorrência nas eleições do corrente ano. Provavelmente o número e o percentual de mulheres eleitas para as Câmaras Municipais deve aumentar.

O aumento da representação feminina vai depender do apoio que estas mulheres tiverem dos partidos, tanto em termos financeiros, como no espaço no horário de propaganda gratuíta e no apoio partidário. Os estudos estatísticos mostram que o aumento do número de mulheres candidatas tende a aumentar o número de mulheres eleitas. Como o percentual de mulheres candidata passou de 22,1% em 2008 para 31,2% em 2012 é de se esperar que o percentual de mulheres eleitas que foi de 12,5% em 2008 possa chegar em torno de 20% em 2012.

De fato, existe uma situação especial neste ano de 2012, com a nova redação da Lei de Cotas equando se comemora os 80 anos do direito de voto feminino no Brasil. Adicionalmente, ter uma mulher na Presidência da República pode estimular a presença feminina em nível local. Afinal, se Dilma Rousseff pode comandar o país, por que milhares de outras mulheres não poderiam se tornar vereadoras?

O eleitorado brasileiro deu uma demonstração que não discrimina as mulheres na política quando dois terços (2/3) dos eleitores votaram, no primeiro turno, nas duas mulheres (Dilma e Marina) que disputavam as eleições presidenciais com sete homens, no primeiro turno das eleições de 2010. Além disto, pela primeira vez o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) terá uma mulher em sua presidência. A ministra Cármen Lúcia substituiu o ministro Ricardo Lewandowski na presidência do TSE e comandará as eleições municipais de 2012. A ministra foi uma das principais defensoras da Lei da Ficha Limpa, que barra políticos condenados por órgãos colegiados da Justiça. Ela também defende barrar candidaturas por conta de rejeição de contas eleitorais.

Os exemplos de Dilma Rousseff e Cármen Lúcia podem servir de inspiração para os partidos políticos investirem nas candidaturas femininas. Mulheres candidatas não faltam, ao contrário do que alegam os partidos. As eleições de 2012 podem marcar o maior avanço no percentual de mulheres eleitas de toda a história brasileira. Assim mesmo, o país ainda estará distante da paridade entre homens e mulheres na política. Mas poderá estar dando um passo importante na direção de uma maior equidade de gênero nos espaços de poder.

Vivendo sem garantias

 

“[…] Segurar passarinho na concha meio fechada da mão é terrível, é como se tivesse os instantes trêmulos na mão. O passarinho espavorido esbate desordenadamente milhares de asas e de repente se tem na mão semicerrada as asas finas debatendo-se e de repente se torna intolerável e abre-se depressa a mão para libertar a presa leve. Ou se entrega-o depressa ao dono para que ele lhe dê a maior liberdade relativa da gaiola […]” (Lispector, C. Água Viva, Editora Rocco, 1998. )


Tenho impressão que não estamos preparados para vivermos em um mundo sem garantias. Não falo de magia pink da Rosane Collor, de um mundo que não segue uma ordem moral transcendente no abuso sexual da Xuxa ou da volta ghost train de Demóstenes Torres as funções de procurador de Justiça no Ministério Público de Goiás. Falo da vida ínfima, em algum momento, de nos mantermos distantes da gaiola que sempre foi paralisante, mas confortável ao pensarmos no imprevisível das mãos.


Alguns nos toleram, outros nos entendem, outros nos desejam. Outros nos idolatram. Outros nem nos percebem, mas respeitam. Outros convivem.Outros apenas sufocam. Alguns nos libertam. Mas aí estar o sentido da ruptura da gaiola ou da sensação de pertencimento das mãos para os nossos sons ou silêncios.


Algumas relações podem regidas não pela felicidade, mas pela oportunidade de chegar lá. Esse entendimento pode ultrapassar a mera definição de se conviver o instante, sem a avassaladora promessa de entregar-se para sempre.


Por um lado, essas relações podem ser gaiolas não nocivas ou podem ser componentes do efeito borboleta ou teoria do caos, podendo influenciar o curso natural das coisas e, assim, ocasionar um tufão do outro lado do mundo, apenas com o bater das asas, alijando, refutando os que confortam. Ainda que sejam um pouco livres há medo, escolha ou talvez ou modelo represente o movimento ondulatório da física e um tempo que pode ser relativo.


Por outro lado, olhar e enxergar o vazio da gaiola é talvez a mais dura lição em aprender que o nosso controle é parcial. Não existe lógica na frustração garantida da prisão involuntária. Mas também não existe lógica em correntes esfaceladas. Existe sim a possibilidade de perceber o jogo de dados, seja para o seis ou para o nada. Às vezes jogamos com a sorte, perdemos tudo, ganhamos algo ou dividimos para a razão.


Já acorrentei e fui acorrentada. E aí vejo a equação exata. Talvez continue com as mesmas correntes para uns ou sendo alvo de ser fisgada por outros. Mas não tenho a certeza de vivenciar eternamente a mesma página, apenas o fato de nunca chegar à parte alguma por dias incontáveis.


Talvez menospreze a frase de Ruben Alves no livro “Variações sobre o Prazer”: “preciso viver a vida com sabedoria para que ela não seja estragada pela loucura que nos cerca.” Mas, entendo essa questão como uma prerrogativa de uma sintonia para a vida ser apenas interessante.


Em vários patamares, pode-se se sentir presa nos grilhões, seja nas amizades de décadas que apenas continuam lá; seja nos padrões sociais em que devemos figurar; seja nas atividades rotineiras de trabalho; seja nas fotografias em que necessitamos constar ou nas relações familiares que não dependem de felicidade para se estar lá. Já me senti assim.


Diria um esforço para manter as leis das clássicas frases feitas que podem demonstrar a previsibilidade de um sistema fechado em estado de graça, mas vítimas da indisposição social, sintoma de nossa insensibilidade ao outro. Morte de um mundo em que já fui um néscio, mesmo antes de nascer.


Diria que há prisão perpétua quando se percebe a mentira, a indiferença ou a falta de interesse em envolvimento. Mas é o chamado. E não se estar lá, é descansar na melancolia.


A razão não permite entender o porquê de tanto gostar de um e tanta resignação para outros quando a gaiola é a mesma, quando se permite ter apenas olhares e vontades diferentes. Seria não perceber as inúmeras possibilidades de uma oliveira, dispensando a azeitona quando não é ideal para um azeite extra-virgem, mas perfeito para uma classificação de azeite refinado.


Tudo depende do ato de generosidade, mas é preciso se entregar sem garantias. Tentar uma dança de salão sem a imposição de um ao outro, apenas deixar a melodia se definir, como Slow Dancing in a Burning Room de Jonh Mayer.


Quando penso nos pontos de interrogação, percebo-os como sinônimos de ausência dos gritos dos pássaros e das algazarras das crianças da rua esburacada. Comparo a um vácuo de um pote de sorvete em um mundo que parece gelado para sempre. É a mentira para se convencer. É fugir da verdade desagradável, é tentar algo parecido a Ensaio pela Cegueira de Saramago, como um sentimento do sonâmbulo que se acorda em um mundo branco, sem tela e sem luz. Algo semelhante aos pedaços de esperança que se dividem diante de um mar de cor cinza, sem o branco das ondas, sem o cais a deriva, sem o cair do entardecer, sem as adversidades ou ondas sem contornos.


Gabriel García Márquez em Cem Anos de Solidão mencionou como é fácil uma população inteira perder a memória, trancar-se por décadas numa casa escura e se guiar para um mundo invisível, mesmo quando a vida continua passando, mesmo quando não se quer ou se tem vontade de ver além de um espesso bosque de flores. É o salvo-conduto ou o passaporte para quem vive ou se deixa à deriva para o vazio da presença coletiva, ou na projeção naqueles que irão arrastá-los para fora do vazio em que se encontram.


Se a levitação dos pássaros é a incongruência, somos alcançados pelo efeito paradoxal da creatina. Há dor, solidão pela sobrevida a dois, mas há perfeita analogia para quem realiza exercício físico de intensidade muito alta. Existe a suplementação que promete fornecer energia quando ultrapassamos o limiar anaeróbico. Mas não adianta tomar doses maciças esperando uma exacerbação no rendimento esportivo. Não falo de placebo, mas da creatina natural que já existe lá e é despercebida.


Sem uma bússola certa, pode-se narrar a história sem subjetividade, ainda que haja uma felicidade encomendada, sem ignorância ao desejar que as relações se eternizem, que a alegria se apresente em dia certo, que a confiança seja de escoteiro ou mesmo que perenizem as verdades absolutas. Que as amizades sejam feitas para durar, pois lá no fundo, é importante aprender dançar sozinho, sendo o seguro saúde ou de vida de si mesmo.


Tudo é uma possibilidade.E sem garantias definidas, é preciso trilhar os roteiros e, talvez, chegar a plenitude de amadurecer de maneira mais leve, sem tentar mudar a natureza humana, mas apenas compreendê-la. E se a vida fizer sentido que seja na sequência que envolva as mãos e nunca o final do livre-arbítrio.

 

Crescimento econômico e populacional e redução da biocapacidade

A humanidade já ultrapassou os limites da sustentabilidade, conforme mostra os estudos mais recentes. A pegada ecológica da população mundial ultrapassou a biocapacidade do Planeta.  A Pegada Ecológica serve para avaliar o impacto que o ser humano exerce sobre a biosfera. A Biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecosistema à demanda humana por consumo, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza. Contudo, existe uma grande disparidade entre a situação dos países, como mostra as informações do relatório Planeta Vivo, de 2012,  da WWF (com base nos dados de 2008). Vejamos alguns exemplos.

O Japão é um país com alto déficit ambiental (pegada ecológica maior do que a biocapacidade), mas como é um país muito desenvolvido tecnologicamente, pode exportar bens industriais e serviços e importar matérias-primas e alimentos para manter o alto padrão de vida de seus habitantes. O país do “sol nascente” depende da biocapacidade de outras regiões. Porém, a população japonesa já está diminuindo de tamanho e deve apresentar uma grande redução ao longo do século XXI, aliviando a pegada ecológica global do país.

Australia e Nova Zelândia são países de baixa densidade demográfica e que possuem alta pegada ecológica per capita (6,68 gha e 4,31 gha, respectivamente), mas também uma alta biocapacidade per capita (14,57 gha e 10,19 gha). Portanto, são países com alto nível de renda e de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), mas superavitários em termos ambientais (com biocapacidade maior do que a pegada ecológica). Possuem ainda baixo crescimento demográfico.

Quase todos os países da América Latina e Caribe são também ambientalmente superavitários e a região está em estágio avançado da transição demográfica. A grande exceção é o Haiti que embora tenha uma pegada ecológica muito baixa, de apenas 0,60 hectares globais (gha), possui uma biocapacidade ainda menor, de meros 0,31 gha. Sendo um país sem capacidade de exportar bens e serviços não tem como importar matérias primas e alimentos. Atualmente, o Haiti depende muito de ajuda internacional para evitar uma epidemia de fome. Como a população é uma das que mais cresce na região, uma alternativa é a emigração dos seus habitantes.

Estados Unidos (EUA), Canadá e Europa Ocidental são exemplos de países com alta pegada ecológia em relação à biocapacidade e possuem alto déficit ambiental (pegada ecológica per capita maior do que a biocapacidade). Estes países desenvolvidos só podem manter o alto padrão de vida de suas populações na medida em que importam matérias-primas e commodities do resto do mundo. Mas em termos populacionais possuem fecundidade abaixo do nível de reposição e, como nos EUA, a população só não está caindo por conta da imigração.

Na África existem vários países com superávit ambiental, como Angola com população de 18 milhões de habitantes, pegada ecológica per capita de 0,89 gha e biocapacidade de 2,98; Moçambique com 22,3 milhões de habitantes, pegada ecológica de 0,78 gha e biocapacidade de 2,21 gha e Congo com 3,8 milhões de habitantes, pegada de 1,09 gha e biocapacidade de 12,2 gha. Todos estes países possuem baixa densidade demográfica e têm espaço para um moderado crescimento populacional.

Situação menos confortável tem a República Democrática do Congo, que possui uma população de 62,5 milhões de habitantes, uma pegada ecológica de 0,76 gha e uma biocapacidade de 3,1 gha. Contudo, o alto crescimento populacional previsto no país vai reduzir a biocapacidade per capita e, havendo melhorias mínimas no padrão de vida, vai haver aumento da pegada ecológica. Portanto, não é improvável que o país passe de uma situação de superávit ambiental para uma situação de déficit, em poucas décadas.

Porém, os casos mais dramáticos são de países que possuem baixíssima pegada ecológica (baixos níveis de vida e de IDH), baixíssima biocapacidade e alto crescimento populacional. Vejamos alguns casos: Egito, com população de 78,3 milhões de habitantes, pegada ecológica per capita de 2,06 gha e biocapaciade per capita de 0,65 gha; Etiópia com 79,4 milhões de habitantes, pegada de 1,13 gha e biocapacidade de 0,65 gha; Quênia com 38,5 milhões de habitantes, pegada de 0,95 gha e biocapacidade de 0,53 gha; Malawi com 14 milhões de habitantes, pegada de 0,78 gha e biocapacidade de 0,67 gha e Ruanda com população de 10 milhões de habitantes, pegada ecológica per capita de 0,71 gha e biocapacidade per capita de 0,52 gha.

Em resumo, existem países ricos e desenvolvidos que possuem alto déficit ambiental e importam recursos do resto do mundo. Existem alguns países – como o Brasil – que possuem alto superávit ambiental (pegada ecológica per capita menor do que a biocapacidade) e são exportadores de recursos naturais. Porém, existem países que são pobres e com baixos níveis de cidadania e que possuem alto crescimento demográfico e alto déficit ambiental.

Do ponto de vista do Planeta, a situação dos primeiros é mais preocupante, mas do ponto de vista das necessidades nacionais a situação dos últimos é dramática. A migração dos países pobres com déficit ambiental para os países ricos (também com déficit) pode minorar o stress demográfico e social nestes países de origem, mas tende a agravar o problema da pegada ecológica nos países de destino e aumenta o déficit ambiental global.

Tudo isto, é um bom tema para se discutir no processo de revisão da Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD) do Cairo, também conhecido como “CIPD além de 2014”. A humanidade precisa repensar o ritmo de crescimento econômico e demográfico dos últimos 200 anos, pois vivemos em um planeta finito e os avanços tecnológicos não têm evitado o aumento da degradação ambiental e a redução da biodiversidade.