A população dos Estados Unidos em 2100

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A população dos Estados Unidos da América (EUA) era de 157,8 milhões de habitantes em 1950 e chegou a 310 milhões em 2010. Dobrou de tamanho em 60 anos. A divisão de população da ONU estima, para o ano de 2050, uma população de 452,4 milhões na hipótese alta, de 403 milhões na hipótese média e de 357 milhões na hipótese baixa. Para o final do século as hipóteses são: 706 milhões de habitantes, na alta, de 478 milhões, na média, e 310 milhões na hipótese baixa.

Ou seja, a população dos EUA pode variar entre 310 milhões e 706 milhões de habitantes em 2100, dependendo fundamentalmente do comportamento das taxas de fecundidade e da migração. A esperança de vida ao nascer era de 68,6 anos em 1950, passou para 78 anos em 2010, deve chegar a 83 anos em 2050 e alcançar 88 anos em 2100.

A taxa de fecundidade total (TFT) estava acima de 3 filhos por mulher desde o fim da Segunda Guerra até 1965, período conhecido como “baby boom”. Entre 1970 e 2010 a TFT oscilou em torno de 2 filhos por mulher (algo próximo ao nível de reposição). O número de nascimentos por ano estava na casa de 4 milhões na década de 1950 e atingiu o ponto máximo de 4,3 milhões em meados da década de 1960. Depois caiu para um mínimo de 3,4 milhões na década de 1970 e voltou a subir até atingir novamente 4,3 milhões de nascimentos em 2007. Mas com a crise econômica, o número de nascimento voltou a cair e foram registrados 3,96 milhões em 2011. A taxa de fecundidade também caiu para 1,93 filhos por mulher em 2011, segundo o CDC (Center for Disease Control).

Ou seja, mesmo com a população dobrando de tamanho, o número de nascimentos tem permanecido em torno de 4 milhões ao ano. Se este número se mantiver e a esperança de vida permanecer em torno de 80 anos, então, a população poderia se estabilizar em torno de 320 milhões de habitantes (4 milhões vezes 80 anos).

Mas a dinâmica populacional vai depender da migração internacional. Aliás, boa parte do crescimento demográfico ocorrido nas últimas décadas aconteceu pela chegada de imigrantes, especialmente da América Latina e Caribe, que além de aumentar o número de habitantes adultos fez aumentar também o número de nascimentos, pois estes migrantes possuem uma fecundidade mais elevada que os residentes nascidos nos EUA.

Os Estados Unidos são o terceiro país do mundo em extensão territorial e tamanho populacional, possuindo uma área de 9,8 milhões de km2 e uma densidade demográfica relativamente baixa, de 31 habitantes por km2. Em tamanho da economia possuem o maior PIB do mundo, mas não a maior renda per capita e nem os melhores indicadores sociais. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) era de 0,84 em 1980 e passou para 0,91 em 2011, um aumento de 9%, enquanto o mundo teve um aumento médio de 22% no mesmo período. Além disto, os EUA possuem a maior dívida externa do mundo, a dívida interna (já está do mesmo tamanho do PIB) e as desigualdade sociais estão aumentando.

Em termos ambientais, os EUA tinham, em 2008, uma Pegada Ecológia de 7,2 hectares globais (gha) per capita e uma Biocapacidade de 3,86 gha per capita. Isto quer dizer que o país tinha um déficit ecológico de 87%. Como exemplo de comparação, o Brasil tinha uma Pegada Ecológica de 2,93 gha e uma Biocapacidade de 9,63 gha. Ao contrário dos EUA, o Brasil tinha um superávit ambiental de 229% em 2008 (sendo o país com a maior área de biocapacidade do mundo). Em termos de Pegada Ecológica per capita os EUA perdem apenas para Qatar, Kwait e Emirados Árabes e em termos de Pegada Ecológica total só perdem para a China.

Exatamente pelo impacto no Planeta como um todo, é muito preocupante o crescimento da população americana. Considerando que as condições atuais se mantenham (ceteris paribus), o aumento da população para 478 milhões em 2100 – conforme projeção média da ONU – levaria o déficit ecológico dos EUA a 192% e caso a população chegue a 706 milhões em 2100 – conforme projeção alta – o déficit ecológico chegaria a 332%. Ou seja, o crescimento da população americana vai significar uma grande pressão sobre os recursos naturais do Planeta, pressão que já existe nas condições atuais.

Porém, a população dos EUA poderia inclusive ficar abaixo da projeção baixa da ONU (se houver menor fecundidade e menor imigração), reduzindo a demanda por recursos naturais e diminuindo a emissão de gases de efeito estufa. Cada habitante dos EUA tem um impacto ambiental equivalente a 10 paquistaneses. Mas somente uma redução da população não resolveria todos os problemas, pois o déficit ecológico é muito grande. Portanto, além de evitar o crescimento populacional, os EUA precisam mudar seu padrão de produção e consumo para reduzir sua Pegada Ecológica, possibilitando que suas atividades antrópicas caibam dentro de suas fronteiras territoriais.

Rock of ages – Cheesy Rock & Tom Cruise

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 Não vai marcar época, muito menos será divisor de águas. Nem sei se será lembrado. Não posso afirmar se vai virar “cult” no futuro, mas não é e nem será um clássico. Contudo, talvez as pessoas se lembrem de Tom Cruise como Stacee Jaxx… Talvez…

 

A historinha é sofrível como em quase todos os musicais. Dois jovens tentando ser cantores em Los Angeles, Hollywood. Uma mocinha do interior chega na cidade grande e dá de cara com o amor de sua vida, um cantor frustado que trabalha num bar tradicionalmente rock and roll. As aventuras desses dois são regadas a hits antigos misturados com refrões de algo que soa como novo – adivinha qual dos dois a gente gosta mais? – passa pela falta de confiança em si e uma gang de puritanas que querem acabar com o bar. E termina… Bem, você já deve adivinhar como termina, nem vou dar spoiler.

 

A mocinha é uma loirinha com uma voz de pato estridente, chata pra encrenca. Claudia Abreu com sua Chayene daria uma escovada de verde e amarelo nela! E seu namoradinho imberbe e photoshopiado quase canta bem, se não se preocupasse tanto com seu gloss. Os coroas poderiam ter salvo o filme – Catherine Zeta Jones já está acostumada a cantar, faz bem, interpreta; Alec Baldwin surpreende com uma voz interessantemente gutural; Paul Giamatti poderia ter sido melhor explorado… – mas não se iludam, pois este não é e nem chega perto de “Mama Mia”. O sucesso de “Mama Mia” foi justamente esse: colocando os coroas para cantar algo da geração deles e os jovens só de fora, acompanhando.

 

Em Rock of Ages eles tentaram fazer um revival pra chamar os velhos e colcaram dois pirralhos que mais pareciam ter saído de High School Musical ou Glee para atrair os jovens, mas percebi que no final ninguém se identifica totalmente com nenhum dos dois e o espectador fica órfão no meio do caminho. Aliás, o casalsinho principal nem sofre, quer dizer, sofre, mas estão sempre rindo. Não consegui saber a diferença de quando riam ou quando choravam, pra ser bem sincera. E por falar em não entender alguém, eu ainda não saquei qual é a do Russel Brand (ex-Katy Perry, que essa sim, apesar de chata, sabe o que faz e pra que veio). Ele é classificado em busca da internete como “comediante” – nunca ri com nada que ele tenha feito até agora! – e como “inglês”… Ele faz um sotaque inglês tão forçado que chega dar vergonha alheia e consegue se tornar um esteriótipo de si mesmo! Porém, o personagem de Baldwin e de Brand rendem uma coisinha engraçada no final…

A história vira uma balbúrdia medíocre, uma gritaria de rock sem roll e ofende até mesmo o cheesy rock, metendo o tal do saxofone no meio! Ninguém faz sentido ali e o único personagem que fala algo que presta em algumas frases soltas é o Stacee Jaxx mesmo, e olha que ele é considerado o “lesado”. Tentam salvar a coisa chamando a poderosa Mary J. Blidge, mas não dá tempo de curtirmos ela, pois ela nem dá um groove, só se joga na gritaria.

Em “Rock of Ages” a surpresa é dele, aliás, é ele, mesmo não sendo o protagonista. Ele canta sim e não é ruim. Sua voz aguda casou bem com cheesy rock dos anos 80. Tom Cruise com seu corpão malhado (5.0, hein? Colocando muito meninão de 20 anos no chinelo!), seu cabelo sempre impecável também ficaram perfeitos na caracterização. Mesmo forçando a sensualidade (não adianta, ele é frio, não tem jeito) ficou bem de novo, como os tipos roqueiros daquela década, porque eles eram mesmo afetados. Sua voz nasalizada ao falar é compensada pelos bonitos “s” que pronuncia e sua lombar está em dia, obrigada! Há muitos cambrés! O take em que ele entra em cena é bom, impactante. O momento alto é Tom cantando “Pour some sugar on me” do Def Leppard. E ele até parece dar um riff de guitarra! Não sei ao certo, estou com preguiça de pesquisar, desculpa.

Não botava fé em Tom Cruise na década de 80, quando ele surgiu. Eu já curtia Johnny Depp, River Phoenix, Gary Oldman, os bonitos novos beatniks underground. E aquele rapaz de beleza de estátua grega, lindo, mas frio, simpático, mas nada sensual, na minha opinião não venceria a década e só faria menos de uma dezena de filminhos para jovens mocinhas apaixonadas. Mas ele insistiu, venceu a dislexia e seguiu se arriscando. Mesmo assim só fui respeitá-lo depois de “Entrevista com Vampiro” e aí pensei: “Epa! Espera. Tom Cruise se expôs, acho que vem coisa interessante por aí”. Antes ele já tinha recebido elogios por “4 de julho”, mas eu não acreditei… Depois de vários desafios que ele demonstrou ter coragem de enfrentar, passei a gostar dele. Ele não é um espanto em atuação, porém tem gente por aí com menos tempo de estrada, mais badalação do que ele, e nenhum talento. Ele é persistente, se arrisca e não perde a pose.

Talvez possa-se até lamentar em não ver o Tom Cruise cantando mais no filme, contudo concluí: acho que isso não foi possível e eles podem ter pensado em não “gastar” todas as cartas da manga sobre o moço. Brincadeirinha! Acho que não era necessário, de verdade… Ah, mas tem mais uma coisa que gostei no filme: o batom que a mocinha usa. Lembrei-me de um que tive na adolescência, o único que tive até hoje da Helena Rubstein e foi maravilhoso! Ainda me lembro do cheiro daquele batom rosa! 

Bem, é um filme pra se ver comendo pipoca – e isso pra mim não é sinal de algo bom, ok? – mas em casa. Se quiser realmente ver, espera sair em DVD, Tela Quente ou SBT.

 

 

 

 

Maria por trás dos rótulos

Vivemos em uma sociedade machista, isso é fato. Somos teoricamente organizados no núcleo familiar padrão com um pai chefe de família, uma mãe resignada e filhos comportados, todos cumpridores da moral e dos bons costumes. Moças que aprendem a cozer, moços que mexem em seus carros, suas motocicletas e trabalham cedo.  Não, não vivemos em um filme americano que retrate os anos 60, felizmente. E nem tudo que critica ou rotula é machismo, o feminismo se aproveita dessa técnica também.

As coisas caminham por uma estrada tortuosa, dentro de um quadro – muitas vezes belo no relance – onde o que não é branco é definitivamente preto. Esquecemos os inúmeros tons que os olhos humanos enxergam quiçá os que nossos humildes olhos não conseguem ver. Ou se é machista, ou feminista. Ponto. Na minha humilde interpretação, de uma mulher, que não se encaixa nesse feminismo ou nesse machismo, os tons de cinza e demais cores parecem muito mais interessantes.

Para definir, elogiar e comentar sobre uma mulher alguns adjetivos são inaceitáveis – para o feminismo de plantão – partes do corpo, aparência física, comportamentos aparentemente resilientes e habilidades como cozer, cozinhar ou bordar são contraindicados. A mulher deixou de ser tudo que foi para ser forte e independente.

Pedir colo, gostar de um carinho, sofrer por desilusão, ser emotiva, sensível, sensitiva, delicada ou atrapalhada e buscar um grande amor não nos cabe mais. Aos homens não cabem os mesmo sentimentos, como nunca couberam. Não há espaço para ser “piriguete”, “monogâmica”, santa nem puta. Não queremos ser admiradas por sermos mulheres, nem que isso seja positivamente, ou de forma inocente, somos fortes e independentes, assim agora são as mulheres.

Não há porque ter espelhos, vaidades ou medos, fortes e independentes como os homens dos anos 60 nos filmes americanos. A poesia morreu com elas, a dureza da vida feminina ficou mais forte que nossa doçura em potencial, que um riso de Dinorah para Ivan Lins, os olhares das mulheres para Vinícius de Moraes, ou a dor de amor para Chico Buarque.

Todos estes são homens ávidos por compreender o que é ter sobressaltado uma alma feminina, cada um ao seu modo; mas isso não cabe mais, infelizmente. Machistas de plantão não se abalam; nada sustenta mais sarcasmos que um discurso avesso a eles, é provocativo, é disso que eles gostam.

Mas enquanto isso, do outro lado da trincheira homens com femininos gritantes sofrem como as mulheres que trancam em si o feminino execrado pelo amor poligâmico – que nem sempre se acompanha de amor – pela força de não se envolver sentimentalmente, pelo medo atual de chorar, e o pavor de parecer algo diferente do forte e independente.

Sou mulher, sou forte e independente. O gosto não é bom, cada vez que Maria se vê sem os rótulos, está sozinha, é a mesma garota perdida que criou força para não lidar com sentimentos. Invejo os homens sensíveis e não sou vadia, como nossas feministas. Sou livre para amar um homem só, sou livre para me desamarrar dos rótulos que me grudam e aprender a ser mulher a cada dia. Afinal a gente nasce assim, e vem a pintura monocromática nos castrar.

Mulheres dos anos 60, 70, 80, 90, 2000 em diante amam seus clitóris e seus amores, com toda a sensibilidade e companheirismo que podem nos oferecer. Pois sofrer por ser mulher dói menos que continuar tentando ser um homem a moda antiga. As feministas que se vejam, os anos passam, a vida passa, mas a ternura não faz parte da mulher forte e independente, felizmente.

“Se eu não sou eu, quem eu sou?”

A palavra é o meu domínio sobre o mundo.”(Clarice Lispector)

No final de semana, assisti ao filme “Vingador do Futuro (2012)” e encontrei um protagonista que procura o sentido da vida por meio de uma realidade alternativa. Foge da rotina insignificante. Legitima-se no sentido oculto das coisas. Desembarca dentro de si em uma linha distorcida entre a fantasia e realidade. Luta com as ilusões que foram criadas apenas para abrandar a sua memória real. Passa de vilão a mocinho. Procura, enfim, memórias reais na possibilidade de um herói que busca a sua identidade.

Naquele momento de contato com o herói do século XXI, pensei no Super Man que no século XX se escondia em uma identidade falsa. Todavia, lembrei que nunca se percebeu uma manipulação mecânica de palavras na vida real de Super Man. No contraponto, havia no novo herói uma realidade virtual ou o desafogar de frustação de uma vida sem sentido. Fortalecia o empoderamento do significado das palavras ao manipular a realidade.

Independente da reflexão que o longa me proporcionou, considerado uma refilmagem ruim do  clássico de ficção-científica, tenho pensando muito em fronteiras paralelas quando as pessoas as condicionam aos seus avatares nos blogs, facebooks, twitters ou mesmo emails.

Sinto que na atualidade as pessoas buscam uma nova identidade ou querem apenas eliminarem as que as caracterizam nas relações sociais. Talvez criarem um personagem de seus sonhos. Desejam ser outras, diria diferentes. Alteram o entorno para que o mundo ao redor corresponda a um cenário de beleza e prosperidade, principalmente quando não estão felizes ou não entendem o que são.

E como protótipos de tentativas de identidade, idealizam blogs ou perfis que invertem a ordem do São Jorge que mata o Dragão, para o Dragão que vira a mocinha na lua virtual. Mas aí eu me pergunto o que é fantasia? O que é a realidade quando conseguimos evoluir o sentido das palavras para uma comunicação viral? Ou quando descobrimos e convivermos em dois territórios?

Percebo que é mais fácil nos conduzirmos em uma vida virtual que permite que sejamos corajosos, autônomos, felizes, tomadores de decisão, líderes, inteligentes ou carismáticos frente à vida real quando a realidade nos desencoraja, o poder nos cala, o medo nos contagia ou reduzimo-nos de forma assimétrica à autoridade e à obediência.

Aliás, quando não queremos ser descobertos, como Clark Kent. Quando não temos espaços frente aos titãs. Seria uma interessante dicotomia. De diversas maneiras, como disse o Batman, Clark é o mais humano de nós todos. “Então… ele lança fogos dos céus, e é difícil não pensar nele como um deus”.

Sem contar que no território virtual há memes, clichês ou vazão aos comentários dissimuladores ou ofensivos. Protegem-se o exagero e as tolices. Exige-se a atenção do outro, principalmente de forma diferenciada. Há manipulação de imagem e como tal de palavras. Lembrei do dilema  do prisioneiro.

Por um lado, há sem dúvida, uma aproximação foucaultiana na bravata das nossas mensagens virtuais. Diria que mesmo quando sufocamos as palavras ou ficamos sem dinheiro para gasolina no mundo real, nosso mundo paralelo ainda pode provocar um incêndio com uma simples labareda de combustível. Mesmo que não haja lágrimas que transportam a virtualidade, mesmo que os ícones de carinha tentem o feito.

Por outro, há uma recusa em ser o que se é no mundo real, pois no fundo as pessoas são aquilo que elas sonham; há mais de nós nos sonhos do que no que nos projeta. E, assim, conseguimos por meio de palavras, criar, destruir, deturpar ou criar a própria ilusão da nossa ilusão. Seriam palavras que podem ser excessivas, evasivas, íntimas e que podem existir só lá no interior. Aliás, sem posicionamento na realidade, seriam apenas sílabas.

Não penso que todos possuem dois territórios ou que não há realidade no mundo virtual, mas há segredos, fantasias ou até fetiches em ambos lados. Ademais, há palavras que também demandamos na experiência virtual que são como conciliadoras das nossas expectativas. Precisamos do “eu te amo”, precisamos da sensação de pertencimento, ou seja, da premissa de que talvez sejamos verdadeiros conhecedores do eu alheio. Mas será que é possível?

Deve existir engano, aliás, todo mundo engana. E se no mundo real, os governantes usam do discurso como práticas que formam os objetos de que falam, imaginem  à condição paradisíaca  que modela nossa percepção da realidade virtual. Nem o discurso de Sarney sobreviveria à tamanha eloquência.

Como um avatar do mundo real, Michel Foucault hoje seria um provável especialista em “second life”, visto que na “Teoria do Discurso” já retrucava que seria preciso ficar ou se esforçar para ficar na superfície da existência das palavras, das coisas que precisavam ser ditas.  Assim, destacava que era necessário gerir o próprio discurso, deixando-o evidenciar na complexidade.

Olhando o meu notebook, percebo o meu avatar. Como Harry e Sally, feitos um para um para outro.  Causa até confusão. Mas será que esta realidade externa é a realidade que há lá dentro como um estágio meditativo?

E aí a ficção científica de Philip K. Dick permite trazer Marte para a terra, considerando que: “Se você puder controlar o significado das palavras, você pode controlar as pessoas que têm que usar as palavras”, ou seja, a realidade poderá ser a alteração do discurso.

Analogamente nos princípios expostos por Foucault, a realidade seria a “Avenida Brasil”, recheada de falas entre Nina e Carminha, com reais intenções, conteúdos e representações que não são apenas um sentido ou uma verdade, mas uma história, ofuscadas nos e pelos textos, não visíveis, mas evidenciadas pela coragem de se posicionar. De renegar a vergonha ao revelar os seus impulsos ou instintos homicidas.

Seguindo essa receita, estaríamos diante do reino absoluto das palavras e a vida continuaria a seguir porque o discurso a põe em movimento. E a palavra seria mais do que um elemento para ser usado em uma experiência de realidade face a percepção da realidade.

De forma análoga ao filme, “Vingadores do Futuro” o enfoque foucaultiano pode permitir que o discurso seja constitutivo da realidade, mas pode ser necessário, quem sabe um dia, independente  de sua não-linearidade, entender que existem momentos na vida em que não basta apenas o discurso: “Não me pergunte quem sou e não me diga para permanecer o mesmo”.

A frase inicial de Lispector poderia ser atribuída a qualquer politico, publicitário ou religioso dos tempos modernos, mas é a mais perfeita expressão do discurso fictício do admirável mundo novo  quando realidade é algo que se recusa a ir embora, mesmo quando se deixa de acreditar nela, como já declamava Foucault.

Metas demográficas e o Cairo + 20

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Existe um tabu em relação à idéia de metas demográficas. Este tabu é justificável, pois regimes autoritários já colocaram em prática metas de crescimento ou controle da população, com efeitos desastrosos. Ao longo da história, o genocídio sempre foi utilizado como uma arma de guerra. O caso mais dramático do uso da manipulação demográfica e de prática eugênicas ocorreu no Nazismo, quando Hitler incentivava o crescimento demográfico das raças arianas e promovia o controle ou a eliminação de raças indesejadas (vide o Holocausto e a solução final contra os judeus). Em termos de controle da população, um dos casos mais draconianos é o que ocorre atualmente, pois a China tem uma política de filho único que tem gerado grandes violações aos direitos reprodutivos e provocado o fetocídio feminino e o femicídio de crianças. Como resultado prático, a China possui grande desequilíbrio na razão de sexo da população e um grande déficit de mulheres.

Mas ao longo da história, os casos mais frequentes são aqueles de manipulação pró-natalista em favor da grandeza populacional e econômica das nações. O mais consolidado lema dos dirigentes da América Latina sempre foi “governar é povoar”. Capitalistas, militares e religiosos sempre foram a favor de uma população grande com oferta ilimitada de mão-de-obra e jovens para servir de bucha de canhão nas guerras “patrióticas”. Praticamente todos os hinos nacionais falam em “morrer pela pátria” e defendem os territórios conquistados. O controle de um grande mercado interno é o sonho de todos capitalistas, militares e nacionalistas.

Durante a maior parte da história, a humanidade deu prioridade ao crescimento populacional. Isto acontecia porque as taxas de mortalidade eram altas e as sociedades se organizavam para que as mulheres casassem cedo e tivessem muitos filhos, durante o período reprodutivo que era abreviado pelas altas taxas de mortalidade materna e pela baixa esperança de vida.

Porém, tudo mudou com a transição demográfica, que começou com a queda nas taxas brutas de mortalidade e pelo grande aumento da esperança de vida. Como existe um hiato entre a queda da mortalidade e da natalidade, sempre ocorre um período de aceleração da população.

Mas as taxas de fecundidade do mundo começaram a cair e passaram de 5 filhos por mulher em 1950 para 2,5 filhos por mulher em 2010. Metade da população mundial já está com taxas de fecundidade abaixo do nível de reposição. E o mais importante foi que isto aconteceu, em geral, em um quadro de liberdade e de auto-determinação reprodutiva, respeitando-se os direitos reprodutivos. De regra, quanto maior é o grau de cidadania de um país, menor são as taxas de fecundidade.

A Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento (CIPD), realizada em setembro de 1994, na cidade do Cairo, no Egito, aprovou o Plano de Ação (PoA) – valido por 20 anos – que se tornou uma referência fundamental para as políticas de população e para os direitos sexuais e reprodutivos em todo o mundo. Os parágrafos 3.14 e 3.15 colocam claramente que a queda da fecundidade é fundamental para garantir a erradicação da pobreza, para o aumento da qualidade de vida e para a proteção do meio ambiente; colocando também a necessidade de estabilização da população:

“3.14 Estão se fortalecendo mutuamente os esforços para diminuir o crescimento demográfico, para reduzir a pobreza, para alcançar o progresso econômico, melhorar a proteção ambiental e reduzir sistemas insustentáveis de consumo e de produção. Em muitos países, o crescimento mais lento da população exigiu mais tempo para se ajustar a futuros aumentos demográficos. Isso aumentou a capacidade desses países de atacar a pobreza, proteger e recuperar o meio ambiente e lançar a base de um futuro desenvolvimento sustentável. A simples diferença de uma única década na transição para níveis de estabilização da fecundidade pode ter considerável impacto positivo na qualidade de vida. 3.15 O crescimento econômico sustentado é essencial, no conceito de desenvolvimento sustentável, para a erradicação da pobreza. A erradicação da pobreza contribuirá para reduzir a velocidade do crescimento demográfico e para se chegar de imediato, a uma estabilização da população”.

Mas a despeito desta meta demográfica, a população mundial que era de 5,6 bilhões de habitantes, em 1994, deve chegar a 7,2 bilhões em 2014. Portanto, segundo a divisão de população da ONU, em 20 anos, a população mundial terá crescido 1,6 bilhões de habitantes. Isto é mais do que todo o crescimento da história da humanidade até o ano de 1900. Evidentemente, é impossível manter este crescimento exponencial em um Planeta finito. Esta é uma questão que o processo de revisão da CIPD do Cairo + 20 não pode ignorar.

As taxas de fecundidade no mundo cairam pela metade entre 1950 e 2010. Se a parcela minoritária de países que estão com fecundidade muito elevada promoverem a redução da fecundidade para o nível de reposição (2,1 filhos por mulher), então a estabilização da população mundial poderá ocorrer antes de 2050. O crescimento populacional até 8 bilhões de habitantes já está encomendado, devido à inércia demográfica. Mas a estabilização pode vir antes dos 9 bilhões de habitantes, se o tamanho médio das famílias ficar em torno de 2 filhos. Em 1990-95 a taxa de fecundidade do mundo era de 3,1 filhos por mulher e deve ficar em 2,45 no quinquênio 2010-15. Portanto, falta pouco para se chegar ao nível de reposição.

A auto-limitação da população humana representa uma mudança da prioridade do crescimento quantitativo para a prioridade no crescimento da qualidade de vida. Trata-se de fazer a opção da prosperidade sem crescimento, ou seja, ao invés de ter muitos filhos, os casais trocam a quantidade de filhos pela qualidade dos filhos. Do ponto de vista microeconômico, famílias menores possibilitam filhos com maiores níves de educação, mulheres com maior inserção produtiva na vida pública e maior mobilizadade social ascendente. Do ponto de vista macroeconômico, a queda da fecundidade cria um bônus demográfico que possibilita maiores investimentos na qualidade de vida e na proteção social.

A estabilização da população é considerada fundamental para a estabilização da economia mundial. Se a população mundial se estabilizasse, por exemplo, em torno de 9 bilhões de habitantes durante o terceiro milênio, então o foco passaria ser no modelo de produção e consumo para tornar possível a sustentabilidade desta população, em harmonia com a natureza e as outras espécies do Planeta.

O crescimento das atividades antrópicas tem provocado uma grande degradação do meio ambiente. Além da poluição dos rios, lagos, oceanos e do solo, milhares de espécies são extintas todos os anos. Estabilizar a população e o consumo humano é fundamental para salvar o meio ambiente e possibilitar a recurperação dos ambientes degradados. A legislação internacional tornou o genocídio um crime contra a humanidade. Agora falta tornar o ecocídio um crime contra a natureza e o Planeta. Portanto, a estabilização da população mundial e a defesa do meio ambiente são metas que a humanidade precisa abraçar, de forma democrática, livre e com respeito aos direitos humanos, em nome da qualidade de vida não só da humanidade, mas de todos os seres vivos da biodiversidade da Terra.

Música Orgásmica: para refletir, relaxar e gozar.

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A sexualidade (e o sexo) sempre foram um tabu. O sexo é o ato, a sexualidade é o complexo conjunto que envolve o gênero dentre outras questões. Os pais conservadores que são, jamais tocam no assunto em casa e dessa forma, os jovens acabam descobrindo tudo através das experiências do mundo. A religião sempre ajudou a tornar o sexo algo ruim. A culpa é comum quando associada a pratica, e a sombra de um Deus vingativo paira sobre os pecadores. Já outras culturas são mais tolerantes em relação ao sexo, porém a temática se dá em torno do prazer, onde apenas o homem pode desfrutar desse momento. A mulher sempre foi vista como o sexo inferior, e na esteira disso uma máquina de reprodução, prazer apenas para o sexo superior, o homem. A palavra orgasmo, é tomada na sociedade tradicional como um palavrão. Sexo também. E o tema vai do trágico ao cômico, ou como disse Aristóteles: “o incongruente leva necessariamente a comédia”. Em casa os pais se horrorizam enquanto que os jovens ao ouvir a palavra “sexo” riem automaticamente. O ser humano a cada ato demonstra mais ser extremista. Ou banaliza ou reprime. Nunca há um caminho alternativo, de autoconhecimento, onde não há uma idade certa para desfrutar dos prazeres do corpo se não aquela em que você se sinta realmente preparado. Dia desses li em algum lugar uma discussão sobre a erotização trazida pelo funk carioca. Analisando melhor a respeito, discordei do termo “erotização”, pois não enxergo ali um jogo de sedução, mas sim a banalização do sexo e da sexualidade, com requintes de promiscuidade.

 

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Logo me veio à mente na relação música x sexo, a questão do orgasmo, e Serge Gainsbourg foi o primeiro nome que lembrei. Como constatou Jim Harrington: “Gainsbourg era conhecido fora da França pelos gemidos de Birkin em “Je T´Aime Moi Non Plus”, ou seja, a explicitude dos bastidores de uma relação sexual penetrou via música pop aos lares puritanos do mundo todo[1]. Nesse aspecto, Serge Gainsbourg foi muito além do pioneirismo pélvico de Elvis ou das taras dos Rolling Stones. De fato a música protagonizada pelo casal Gainsbourg e Birkin chocou, é em termos sonoros o mesmo que o casal Marlon Brando e Maria Schneider em O Último Tango em Paris de Bernardo Bertolucci. Tudo isso só foi possível pela revolução dos costumes sexuais dos anos 60, que trouxeram o tema para o centro do debate público. Outra figura importante foi Freud na virada do século XIX para o XX, e nos anos 50 o também revolucionário Kim Kinsey e seus estudos sobre o comportamento sexual do norte-americano. E a música tem realmente uma ligação importante com o tema. A música ajuda a criar um clima favorável, que toca tanto em motéis quanto em boates, e ambas proporcionam prazer. O celebre relatório Hite, trouxe a seguinte definição sobre o orgasmo: “sensação deliciosa por todo o corpo”.[2] A música causa o mesmo. É como a definição dada por Zeca Camargo sobre a música de Isaac Hayes, “música anti-frigidez”. A música, assim como o sexo, faz o cérebro liberar substâncias como a dopamina e a serotonina, que causam sensações de prazer, sendo que no sexo, o ponto máximo desse prazer é o orgasmo o popular “gozo”. Os mais puristas também devem se esquecer do termo que as empresas utilizam quando um funcionário sai de férias, disse-se, “fulano vai gozar férias”. É o mesmo sentido. 

 

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Porém se Birkin e Gainsbourg fizeram questão de demonstrar prazer e satisfação, PJ Harvey fez justamente o contrário. “Você me deixa seca, acusa Polly Harvey em seu primeiro disco (…) Em Rid Of Me (…) Ela secou de mais ainda. Não esteticamente, e sim no sentido original da canção mesmo. A reclamação de Polly era contra o amante, incapaz de ativar sua produção de fluídos vaginais”.[3] Sim, foi isso mesmo que você leu. Polly Jean Harvey falava sobre o orgasmo feminino, ou como ela gostava de usar, “o gozo feminino”. A base para isso eram muitas guitarras sujas, muralhas de barulho e muitos urros e berros extasiados e insinuantes, ou não. Porém essa dificuldade talvez seja resultado dos rumos que a luta feminista tomou. O emblema disso se resume na frase da grande sexóloga Leonore Tiefer: “o orgasmo não é mais um direito, é um dever”. Daí vêm a reclamação de Polly e de muitas mulheres, que ganharam voz contra seus homens nas canções do disco Rid Of Me. Há nessas canções algo de terapia em grupo, justamente nesse sistema de espelhos que se dá quando muitas mulheres se viram nas letras da cantora inglesa, como atesta Alex Rayner: “esse é o som de Polly Jean Harvey lidando com seus demônios sexuais”.[4] A crueza do som em si não traz nenhuma sensação libidinosa ao ouvinte, mas sim traz o relato, e essa a oposição entre a música orgásmica de PJ Harvey e a de Gainsbourg, como confirma Camille Paglia: “o desejo e a excitação sexuais não podem ser plenamente traduzidos em termos verbais”, ou seja, nem só a letra e os berros de Harvey e nem apenas os gemidos de Birkin e os suspiros e o som mágico criado por Gainsboug são capazes de recriar todo o conjunto de sensações prazerosas e os processos químico-cerebrais envolvidos no ato em si.[5] Ainda sobre Rid Of Me, completa Rayner: “a música que dá título ao álbum é ácida (…), com gritos repetidos de ‘lamba minhas pernas, estou em chamas’, continuam sendo tão impressionantes e arrepiantes quanto na época”.[6] Foi de fato uma ruptura, pois se tolerava Elvis, Mick Jagger,Prince, George Michael, até Madonna não era tão chocante pois suas músicas e performances de palco eram mais teatrais do que retratos de realidade, como comprovados depois. De forma mais discreta, porém não menos contundente, têm o disco “Songs About Fucking”, literalmente “canções sobre fuder” do grupo americano Big Black. Já em uma linguagem bem mais banal, o disco já começa sugestivo logo pela capa, onde exibi um desenho de uma moça suada com expressão de força como que sendo penetrada, o que é comprovado na contracapa. Musicalmente o Big Black resume-se a barulho, não a toa, Steve Albini o líder da banda, é um dos pais do grunge e o produtor de gente como Pixies e a já citada PJ Harvey no álbum também citado. O som da banda nas palavras de Alex Antunes, “estupra ouvidos”, com “vocais que visitam as taras dos EUA”.[7] E qual é a tara dos Estados Unidos? O sexo. Kinsey já havia demonstrado isso nos anos 50 e Hite aprofundou a partir dos anos 70. O tema é tabu ainda hoje. O sexo continua preso nas convenções sociais e banalizado através do desserviço da mídia. A repressão sexual leva ao não conhecimento do corpo, ao não conhecimento do outro e a uma má visão do sexo, como conduta desviante. Sexo é vida, e o prazer não é algo proibido. É claro que não podemos ser escravos disso, pois aí com toda pressão envolvida, a coisa não flui, como dever ser (sic). O orgasmo deve ser encarado como o prêmio final de um jogo de envolvimento com o outro, onde há troca de experiências e onde a união em busca de um momento único se dá através de igualdade. O homem não pode se sobrepor a mulher [Lilith] no sentido amplo da sobreposição, devem ser iguais, numa via de mão dupla – dar e receber prazer. Quando citei acima Isaac Hayes, lembrei-me também dos climas criados por Marvin Gaye e de como ele também se enveredou por áreas erógenas da música – Sade idem. Sensualidade transbordava de sua música, assim como na de Barry White também, assim como em boa parte da musicalidade negra – do blues ao soul, passando pelo funk, pela disco e até pela degeneração do rap e do R&B.

 

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E é nesse mesmo ensejo, que Mick Jagger explorou o sexo nas canções dos Stones. É só perceber pela capa polêmica do disco “Sticky Fingers”, onde claramente vê-se um homem excitado com seu membro duro. Isso é um sinal claro das intenções stoneanas, Luciana Gimenez, Marianne Faithfull e Pamela Des Barres sabem bem disso. E não mais apropriadamente, uma banda com o nome Come[8], resolveu dar sua versão dos fatos: “é ouvindo ‘I´ve Got The Blues’, que se dissipam quaisquer dúvidas quanto a natureza desse atormentado gozo”.[9] O orgasmo do Come é mais lento, arrastado, de longa duração. Pois o som da banda não é dos mais digeríveis, mas de qualquer maneira, eles também abordam a temática. A grande questão se dá pela maneira como se encara o sexo e a chegada ao orgasmo. É tudo um processo natural, e não deve nem ser encarado como obrigação e nem como desvio de caráter, como já ouvi. A vida deve ser aproveitada de maneira plena, e uma das melhores coisas que existem no mundo e que nos dão prazer é o sexo, portanto a maximização do prazer e da felicidade [Epicuro], não pode ser vista de uma maneira negativa [hedonismo], logo o orgasmo deve ser encarado como a cereja do bolo, como o ápice, como o êxtase da festa – pergunte a Baco e você saberá a resposta.

 

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[1] HARRINGTON, Jim. Serge Gainsbourg – Histoire De Melody Nelson. In: DIMERY, Robert. 1001 Discos para ouvir antes de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2007. p. 242.

[2] HITE, Shere. O Relatório Hite sobre sexualidade masculina. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2001. p. 594.

[3] FORASTIERI, André. Hormônio Puro. Showbizz, n. 6, p. 54, junho. 1995.

[4] RAYNER, Alex. PJ Harvey – Rid Of Me. In: DIMERY, Robert. 1001 Discos para ouvir antes de morrer. Rio de Janeiro: Sextante, 2007. p. 715.

[5] PAGLIA, Camille. Sexo, arte e cultura americana. São Paulo: Cia. Das Letras, 1993. p. 63

[6] RAYNER, Alex. Ibidem.

[7] ANTUNES, Alex. Big Black – zoeira a todo volume. Showbizz. São Paulo, n. 4, p. 65, abril. 1993.

[8] “Gozo” em inglês.

[9] COUTO DUARTE, Arthur G. Gozo Violento. Showbizz. São Paulo, n. 6, p. 55, junho. 1995.

 

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10 músicas para fazer sexo [ou amor] e gozar, ou não! [rs] As músicas não seguem uma orde de importância e muito menos de eficácia. Outra coisa, caso você coloque essas músicas para tocar em seu encontro amoroso e nada acontecer só temos três hipóteses: 1. Ela é frigida. 2. Você é frouxo. 3. As duas anteriores.

 

1.Blur – Song 2

2.Maroon 5 – This Love

3.Bjork – Arm of Me

4.Sade – No Ordinary Love

5.Marvin Gaye – Sexual Healing

6.Nine Inch Nails – Closer

7.George Michael – Careless Whisper

8.Beatles – Within You Without You

9.Bryan Ferry – Slave To Love

10.Chris Isaak – Wicked Game

 

 

 

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Café com leite em tempos de coquetel Molotov (*)

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Fotografia de Ana Cecília Romeu
Desde os primórdios, busca-se identificar diferenças entre homens e mulheres, seja pela crítica a essência do feminismo que descreve que há uma natureza específica da mulher, seja por exemplo, ao se afirmar que meninos são inclinados a comportamentos típicos do gênero masculino: as necessidades de intelectualidade, competitividade.

Na contemporaneidade, há clara tendência a estereótipos, mas nem tudo é cultural. Comportamentos psicológicos, dependendo da fase da vida em que o homem se encontra, permitirá mais sonhos, ou mais desejos. A natureza e a criação não poderiam ser excludentes, mas talvez complementares e aí entra o senso de autoria de Dostoleiesviski que diz que o homem é um ser maleável e se acostuma a tudo.

Sob essa perspectiva, os homens são seres potenciais para diversas atitudes, inclusive lidar com a adaptação hedonista. Depende da situação, do papel adotado em cada momento…, sim ‘papel’ o que não significa hipocrisia ou máscara, mas os vários ‘eus’, por exemplo, pai, esposo, amante, profissional, e tantos outros que nem sempre coexistem, dependendo da ocasião.

Em sentido pejorativo seria ir de encontro ao contexto de que a mulher tem necessidade patológica de posse; e o homem, de liberdade. Crer na falácia do sexo declamado como frágil (tolice medieval). No final, as generalizações, independente de comprovações de diferenças entre os gêneros, se apoiam em estatísticas do IBGE que se tornam premissas, esquecendo de que no coração do homem podem existir ursos brigando e que tudo depende do que se alimenta mais.

Qual mulher nunca foi adjetivada como ciumenta, desconfiada ou mesmo paranoica?  Qual homem não foi adjetivado de mentiroso, infiel ou insensível? A conclusão é que a nossa capacidade de se adaptar existe de maneira mais ampla do que em geral supomos. E possível construir identidade, independente de crenças.

Com tantos mitos, a natureza masculina é assim, assume papeis e desejos, também os que estão lá na sétima, oitava gaveta atrás do coração; e os encontros duram o tempo que tem que durar, às vezes, apenas uma noite já será a eternidade. Entendem Platão com naturalidade e sem muito esforço, quando diz que o ser humano busca a imortalidade através da pessoa amada, por meio do sexo.

Diferenças existirão entre os sexos, mas antes de frisá-las, se deve pensar nas diferenças entre vidas, de um indivíduo para outro.

De qualquer forma, o preconceito e o mito das diferenças estão ali no caminho, e talvez tenham sido arremessados do passado, uns metros atrás, ou muitos metros atrás (a ‘metragem’ aqui indica o tempo passado: pretérito imperfeito, ou mais que perfeito), por nós mesmos para frente.

Somos todos potencialmente homens e mulheres, alguns infernos e outros céus. E não dá para concordar com a assertiva de diferenças ou semelhanças, sem o complemento, sem ver a nós mesmos. Pois nós também somos responsáveis pelos infernos que acolhemos, e pelos ‘diabos’ que nos avizinham.

O que pode nos parecer indiferença, ao outro é o máximo que ele pode oferecer, e talvez não sejam palavras como ‘eu te amo’, ‘gosto de ti’, ‘preciso de ti’, mas pode ser até uma palavra não dita, por ser a única maneira com que essa pessoa consegue se exprimir. Então seria justo valorizar quem nos valoriza, e fazer o contrário na mesma medida a quem não o faz, no entanto, como saberemos com exatidão quem nos deu o máximo que podia? Quem se calou, ou quem disse que nos amava?

E no final, seriámos capazes de perceber homens com amor Socrateano, quando sua maior projeção é aquela que diz que o amor faz adotar atitudes nobres para sermos merecedores do amado. Ou mesmo reforçam a frase do filme Ghost: “Muita gente diz ‘eu te amo’ sem querer dizer nada”.

Homens que assumem que não gostam de ficar, gostam da pia cheia, da prestação para pagar e não precisam de entressafra. E, mesmo atormentados pela volúpia de uma paixão não correspondida, falam, lavam a alma, pronto para recomeçar. Essa é a realidade: um mundo diferente, demasiadamente humano, em que se vive com estilo, ironia e longe da falsa moralidade ou idiossincrasia de sinceridade feminina.

Chamamos esse homem de complemento, pois ele acredita na salvação quando se constrói relacionamento sólido, baseado nos limites de cada um. Vê beleza quando está amando. É um homem açucarado e emotivamente natalino. Valoriza a abnegação, tem o amor atrelado à própria carruagem, foge do amor garanhão, egoísta. Limpa a ferrugem da relação e cumpre o expediente do cotidiano. Pensa na pasta de dente que ela gosta e compra o próximo minuto sem riscos para uma nova lua de mel em Paris. Conseguem lembrar a cor do esmalte e possuem amigas.

Mesmo em tempos de coquetel Molotov, relações inflamáveis; homem e mulher com suas diferenças ainda podem ser café com leite matutino: hábito diário que nos faz acordar com cafeína e essência láctea, porque estreia sem ensaio, apresenta sem público, complementa sem aplausos, entra em cena a dois.

(*) Texto elaborado em conjunto com a excritora Ana Cecilia Romeu do Blog HumorEmConto  (anaceciliaromeu.blogspot.com.br)

O pico populacional

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A demografia não costuma definir o tamanho ótimo de uma população, pois existem dúvidas entre os estudiosos se existe um número ideal de pessoas. No entanto, é comum se ouvir a seguinte pergunta: quantos habitantes a Terra pode suportar?

O demógrafo Joel Cohen buscou responder esta pergunta no livro “How Many People Can the Earth Support? (1995)”. Mas a resposta do autor não foi determinística. A quantidade de pessoas que o Planeta pode sustentar depende do padrão de consumo e do estilo de vida.

Se o mundo adotar o padrão e o estilo de vida médio da população dos Estados Unidos, a Terra só poderia manter, de maneira sustentável, cerca de 1,5 bilhão de habitantes. Se for o padrão europeu, a população mundial poderia ficar na casa de 3 bilhões de habitantes. Se for o padrão de vida médio da América Latina, o mundo poderia ser sustentável com uma população de cerca de 5 bilhões. Mas se o padrão de vida médio for o do continente africano, então a Terra seria capaz de manter cerca de 9 bilhões de pessoas de maneira sustentável, segundo a metodologia da Pegada Ecológica.

Ou seja, existem diversos cálculos sobre a quantidade de pessoas que o Planeta pode sustentar no médio e longo prazo. Não existe consenso sobre qual é o número ideal de pessoas no globo. O impacto da população depende do nível e do padrão dos bens e serviços produzidos e consumidos, incluindo o desperdício.

Porém, uma coisa está ficando cada vez mais clara: a humanidade está chegando, já chegou ou vai chegar em breve aos limites do Planeta, pois enquanto a população e a economia mundial crescem, a natureza e as demais espécies murcham e definham.

A divisão de população da ONU estima que a população mundial vai ficar entre 6 e 16 bilhões de habitantes em 2100. Na projeção média, a estimava é de 10 bilhões de habitantes no final do corrente século. Este número representa o pico populacional que a Terra pode suportar?

Talvez. Tudo vai depender da relação entre população e desenvolvimento sustentável. Pode ser que a população chegue a um pico máximo de 9 ou 10 bilhões de habitantes e depois comece a diminuir. Vai depender do comportamento das taxas de fecundidade e também da relação entre o egoísmo e o altruismo humanos, assim como da convivência da civilização com a biodiversidade e os direitos da Mãe Terra.

O fato é que a população mundial nunca cresceu tanto quanto nos último 200 anos. Mas o ritmo de crescimento já está caindo. A estabilidade demográfica não está distante do horizonte. Pode ser que o pico populacional chegue antes dos 10 bilhões de habitantes projetados para o ano de 2100.

Territórios vazios?

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“É sempre bom lembrar,
Que o copo vazio
Está cheio de ar”
Copo Vazio, de Chico Buarque

A história do Brasil é a história da ocupação dos “territórios vazios”. Na época colonial, território vazio era aquele sem a presença dos colonizadores do império Português. Ou dito de outra forma, sem a exploração dos recursos naturais para satisfazer a sede de consumo e lucro das potências européias. Depois da Independência de 1822, os territórios vazios eram aqueles sem a presença e o controle do governo monárquico dos tempos do Império brasileiro (1822-1889).

Quase nada mudou com a República Velha (1889-1930) pois os territórios vazios eram aqueles sem a produção de cana, de borracha, da mineração ou das plantações de café. O modelo econômico primário-exportador usava o território para produzir produtos para atender a demanda de consumo internacional. Uma pessoa que teve papel importante para abrir caminhos nos territórios vazios, desbravando terras, lançando linhas telegráficas, fazendo mapeamentos do terreno e principalmente estabelecendo relações com os índios do Brasil central foi o Marechal Cândido Rondon, que participou junto com os positivistas da Proclamação da República.

Com a Revolução de 1930, além das áreas exportadoras, os espaços vazios (vazios da poluição e da pegada humana) passaram a ser aqueles que não atendiam a demanda interna. Por exemplo, a cidade de Volta Redonda deixou de ser território vazio ao instalar a Companhia Siderurgica Nacional (CSN) e começar a importar o minério de ferro de Minas Gerais para exportar aço para São Paulo, que por sua vez iria exportar produtos industrializados para o restante do país. O Marechal Rondon se tornou colaborador do governo Getúlio Vargas a quem elogiou, em 1942: “por este conduzir a bandeira política e administrativa da Marcha para o Oeste, visando ao alargamento do povoamento do sertão e de seu aproveitamento agropecuário com fundamentos econômicos mais sólidos e eficientes”.

A Marcha para o Oeste deu diversos frutos no processo de ocupação dos espaços vazios na concepção do “Departamento Nacional de Povoamento”. Em 1933 foi fundada a cidade de Goiânia, mas a ocupação do bioma do Cerrado só se ampliou com a fundação de Brasilia, em 1960, pelo governo Juscelino kubitschek. A migração para as áreas de fronteira das regiões Centro-Oeste e Norte foi um grande movimento populacional que, dentre outras coisas, explica a rápida deterioração do cerrado e da floresta amazônica.

O general Golbery do Couto e Silva escreveu o livro Geopolítica do Brasil, em 1955, e se transformou, depois do golpe de 1964, em um grande estrategista militar brasileiro, defendendo a idéia de acelerar o processo de urbanização e industrialização, além de promover o processo de ocupação dos espaços vazios do Oeste e do Norte, completando a integração econômica de todo o território nacional.

Mas como diria Chico Buarque: “o copo vazio está cheio de ar”. Ou seja, os chamados territórios vazios de atividades econômicas estão na verdade cheios de vida e de biodiversidade. A ideologia da ocupação dos territórios vazios pela população humana na verdade é uma herança do mito do progresso infinito difundido pela corrente dos pensadores positivistas, do qual o Marechal Rondon foi um dos participantes no início da República brasileira.

Durante a maior parte do século XX, o Brasil adotou políticas pro-natalistas para aumentar o número de habitantes e incentivar a ocupação dos territórios vazios de gente (embora cheio de vida não-humana) ou políticas migratórias para ocupar as áreas despovoadas. Esta política de ocupação do território, implantada por mais de 500 anos, tem sido um um desastre para o meio ambiente, provocando a destruição do capital natural e a redução da biocapacidade do país.

Mas, não sem surpresa, o povo cansou destes incentivos e iniciou, por conta própria, um processo de transição para modestos níveis  de fecundidade. Isto tem provocado a redução do ritmo de crescimento demográfico e acelerado a transformação da pirâmide populacional rumo ao envelhecimento. Neste contexto, as vozes pro-natalistas já clamam contra o envelhecimento da estrutura etária e uma possível queda da população, argumentando que isto vai enfraquecer a ocupação física do espaço nacional. Já existem pessoas dizendo que o despovoamento de parcelas do território e o aparecimento de vazios populacionais vai enfraquecer a grandeza do país.

Mas esta posição positivista e antropocêntrica desconsidera que um país não é feito só de gente, mas sim da sua riqueza natural e biológica. Além disto, os demais seres vivos deveriam ter direito à vida, mesmo porque a maioria das espécies da flora e fauna brasileira estão aqui no território brasileiro antes da chegada dos seres humanos e, especialmente, antes da chegada dos portugueses que deram o nome ao país.

Portanto, é sempre bom lembrar que o território vazio (de humanos) está cheio de vida e de ar.

Um sociedade sabor de fios e côrte.


Nada se parece, aos meus olhos, mais com a melancolia bucólica dessa nossa parva estratificação social que a vida encontrada na rotina inquestionada e quase contínua das classes abastardas. Mais que uma novela capaz de mostrar o sórdido aos olhos famintos do povo, pela desgraça e finais felizes, não está presa a telinha da TV ou aos antigos folhetins a miséria vivida por essa gente, a miséria de vida repleta de riquezas materiais.

 

Crianças perdidas em diálogos monossilábicos, olhos vidrados em telas, mentes desprezadas e abandonadas do aconchego do que antes essa mesma sociedade chamava de lar; afinal não havia lugar como o lar. Tecnologias que açoitam o dia-a-dia dessa gente invertendo valores, apagando almas, roubando vidas. Não posso, e nem devo, dizer que a tecnologia é a culpada, somos reféns dessa fome insaciável pelo novo, pela ausência de distancias e nos perdemos nos corredores das grandes casas, jardins impecáveis e apartamentos luxuosos.

 

A tela substituiu a conversa, o telefone o colo, e os amigos distantes o afago carinhoso de um boa noite, um abraço sincero e um debate acalorado. Não há mais porque se revoltar, são crianças que não compartilham em casa ou confrontam gerações; são filhos da tecnologia viciante do frenético prazer de consumir e substituir os olhares por…pelo que mesmo?

 

Infâncias sem jogos lúdicos, onde confrontos são problemas de convivência, diferenciais patologias e vidas  controladas por e-mail, SMS e cartões de acesso. Amedronta os amantes da velha coversa ao amanhecer, da troca de conhecimentos e confronto de idéias. Não falaremos mais, será evolução perdemos as cordas vocais?

 

Um tanto apocalíptico, eu sei, mas tenho medo. A sociedade não se divide mais simplesmente pela distribuição de renda, trabalho e geografia; nos dividimos por interesses preservando as crianças e adultos do caloroso debate, risos e dúvidas que tanto alimentaram nossas almas e olhares curiosos ao longo do tempo.

 

Se quebrou, hoje substituímos a ferramenta de socializar por outra mais moderna. As mudanças internas não se encaixam mais dentro da rotina da família abastarda; são todos relacionados por ferramentas maquinarias, como se a máquina desejante de Deleuze e Guatarri não coubesse mais em nossos corpos.

 

Seriamos então ciborgues forçados pela necessidade da máquina desejante? Ou apenas desaprendemos a lidar com a que possuímos “de série”? O esquizoide é o novo padrão de relacionamento social, e o tão amado Édipo de Freud deixou sua trindade cegou-se e tornou-se um oráculo. Resta, pra mim, a esperança de que sua filha deixe sua tecnologia de lado e não terceirize os cuidados de seu pai. Alimente-o, afinal oráculos também precisam comer.