A população da Nigéria em 2100

map nigeria

A Nigéria pode se tornar, em termos demográficos, o país de maior crescimento absoluto no século XXI. A população nigeriana era de 37,8 milhões de habitantes em 1950 (época em que a população brasileira era de 52 milhões) e chegou a 124 milhões no ano 2000 e a 158 milhões em 2010. Mais que quadruplicou em 60 anos e aumentou em 34 milhões de habitantes somente na última década (o Brasil aumentou 20 milhões, em números redondos, de 170 para 190 milhões de habitantes entre 2000 e 2010)

A divisão de população da ONU estima que a Nigéria terá uma população de 230 milhões de pessoas em 2030, maior, portanto, do que a população brasileira que deve ficar em torno de 210 milhões nesta data. Para o ano de 2050, a Nigéria teve atingir uma população de 348 milhões, na hipótese baixa, de 390 milhões na hipótese média,  e de 504 milhões de habitantes na hipótese alta. Para o final do século as hipóteses são: 505 milhões de habitantes, na hipótese baixa, de 730 milhões, na média, e 1,02 bilhão na hipótese alta.

Ou seja, a população da Nigéria pode variar entre 505 milhões a 1,02 bilhão de habitantes em 2100, dependendo fundamentalmente do comportamento das taxas de fecundidade e um pouco menos da migração. Desta forma, a população da Nigéria que ainda hoje é menor que a população brasileira pode ter um número de habitantes cinco vezes maior do que o Brasil no final do corrente século. Porém, o Brasil tem um território muito maior, assim como maiores recursos naturais.

Em 2010, a densidade demográfica no Brasil era de 23 habitantes por km2, enquanto na Nigéria era de 171 habitantes por km2. Para 2100, a densidade demográfica do Brasil deve cair para 21 hab/km2, enquanto na Nigéria deve chegar a 790 hab/km2. Evidentemente, esta alta densidade demográfica vai dificultar a articulação entre crescimento econômico, inclusão social e proteção ambiental, pois a Nigéria já tinha em 2008 uma pegada ecológica de 1,44 hectares globais (gha) para uma biocapacidade de somente 1,12 gha, de acordo com o relatório Planeta Vivo 2012, da WWF. Ou seja, o país africano mais populoso já possui um déficit ecológico e a situação vai ficar bem pior nas próximas décadas.

A taxa de fecundidade total (TFT) era de 6,4 filhos por mulher no quinquênio 1950-55 e subiu para 6,8 filhos em 1980-85. Esta alta taxa caiu ligeiramente para 5,6 filhos por mulher no quinquênio 2005-10. Isto quer dizer que a Nigéria tem uma estrutura etária jovem e alta proporção de jovens na população. Mesmo com a fecundidade iniciando uma queda mais acentuada, a população ainda vai crescer muito como os dados acima mostraram. A projeção média da ONU indica TFT de 3,4 filhos por mulher em 2045-50 e de 2,2 filhos por mulher em 2100. Portanto, mesmo caindo a fecundidade nigeriana ainda fica em um patamar bem acima do nível de reposição.

O número anual de nascimentos na Nigéria estava na casa de 1,8 milhões de bebês na década de 1950, chegou a 3,7 milhões em 1980-85, a 6 milhões em 2005-10, devendo atingir 10 milhões em meados do século e a 11,2 milhões em 2100. Para efeito de comparação, as estimativas apontam que o Brasil terá menos de 2 milhões de nascimentos por ano em 2100.

Se este número de nascimentos da Nigéria se confirmar na casa de 11 milhões e uma esperança de vida na casa de 76 anos em 2100, então mesmo que a população se estabilize ela ficará em torno de 830 milhões de habitantes. Este número colocará a Nigéria em terceiro lugar em tamanho populacional no mundo, devendo superar toda a população da América Latina e Caribe.

Evidentemente, vai ser muito dificil para a Nigéria garantir uma melhor qualidade de vida para a sua população mantendo este alto crescimento demográfico. Será mais difícil ainda promover a preservação ambiental com o alto crescimento populacional e com o aumento da produção econômica necessária para atender a demanda por uma melhor qualidade de vida de um número crescente de habitantes. Mesmo que a fecundidade caia no ritmo mais rápido (conforme a hipótes baixa da ONU), uma população superior a 500 milhões de habitantes na Nigéria será um enorme desafio e o sofrimento será maior entre a população mais pobre e excluída. Por enquanto, o país conta com certo montante de recursos do  petróleo, mas são fontes fósseis finitas que vão esgotar em breve.

Evidentemente há alternativas para se evitar um agravamento da situação demográfica, econômica e social. Mas as possíveis soluções precisam ser agendadas desde já, para se evitar um desastre humano e ambiental de grandes proporções nas próximas décadas.

Afinal, o que é a tal da sustentabilidade?

São tantos os usos e desusos do termo sustentabilidade que quando vejo escrita a palavra, logo procuro identificar a corrente ideológica e a maneira de pensar de quem a usa. Fico confuso, na verdade pasmo, que esta palavra (ou ideia-força como prefere minha orientadora de doutorado), seja usada por gente que propõe temas verdadeiramente alternativos, sem maiores aprofundamentos. Posso dizer a verdade? Usei o termo em meu doutorado, mas náo gosto dele. Acho obsoleto e já “engolido” e “digerido” pelo sistema. E transformado em que? Na mesma coisa que tudo que é engolido e digerido. 

Começo então uma série de 4 artigos, buscando oferecer uma visão ampla e crítica de como o termo surgiu e é usado e corrompido.

Afinal, o que é a tal da sustentabilidade?

 Sustentabilidade é um conceito amplo, sobre o qual há muitas controvérsias (SÖDERBAUM, 2000; 2008). O conceito do tripple bottom line (tripé da sustentabilidade), cunhado por Elkington (1998) se tornou dominante no sentido de capturar os esforços de países e organizações para uma atuação voltada para reflexões sobre o capital humano e capital natural, além de um capital econômico. Tornou-se expressão também largamente utilizada para a elaboração de padrões de relatórios organizacionais  e nacionais sobre sustentabilidade e para medir a chamada ‘pegada ecológica’.

   A compreensão de sustentabilidade baseada apenas no triple bottomline pode ser reducionista. Söderbaum (2008), por exemplo, elenca seis diferentes dimensões sobre as quais políticas, programas ou projetos de sustentabilidade podem ter efeito: (1) ecológicas ou ambientais; (2) da saúde humana; (3) sociais aqui consideradas inclusive as ligadas a direitos humanos, redução ou aumento da pobreza, justiça, etc.; (4) culturais; (5) estéticas; e (6) monetárias e financeiras. Além destas acredita o autor sueco haver outras três mais amplas ligadas ao conhecimento e experiência ganhos, ou ao poder, ideologia e ética e ainda a questões legais e institucionais.

  Mesmo controverso e disputado por diferentes ideologias, o termo sustentabilidade ganhou ao longo do tempo importância e abrangência. Em termos de definições, o ponto de partida neste trabalho é um conceito de sustentabilidade abrangente, como formulado por Viedermann (1994, p. 5): 

    Sustentabilidade é um processo participativo que cria e persegue uma visão de comunidade que respeita e faz uso prudente de todos os recursos – naturais, humanos, criados pelo homem, sociais, culturais, científicos etc. Sustentabilidade procura garantir, na medida do possível, que as gerações presentes podem obter um determinado grau de segurança econômica e tornar real a democracia e a participação popular no controle de suas comunidades, mantendo ao mesmo tempo a integridade dos sistemas ecológicos dos quais toda a vida e toda a produção dependem. Assumindo também responsabilidade em garantir e fornecer todos os recursos necessários para que as gerações futuras possam realizar suas visões, na esperança de que elas tenham a sabedoria e inteligência de usar estes recursos de forma apropriada.   

  Este conceito pode parecer utópico e vazio em termos de aplicação prática. No entanto, também pode parecer utópico conversar seriamente sobre sustentabilidade com determinadas organizações nas quais questões éticas são constantemente desrespeitadas. Como afirma Santos (2007, p. 332), o único caminho para pensar sobre futuro parece ser a utopia. Por utopia, entende o sociólogo português, explorar novas possibilidades humanas e novas formas de vontade e “[…] a oposição da imaginação à necessidade do que existe, só porque existe, em nome de algo radicalmente melhor por que vale à pena lutar e à que a humanidade tem direito” (SANTOS, 2007, p. 332).O autor português lembra que, apesar da urgência de soluções, este pensamento utópico é hoje um pensamento desacreditado, no embate do que chama o paradigma ecossocialista com o paradigma capitalista expansionista.  

   Explorar a imaginação e novas possibilidades de ação simples e o respeito às ideias das comunidades envolvidas é um processo possível, por meio do caminho participativo e prudente apregoado por Viedermann (1994) acima. OU seja, a ideia por trás da definidação não é, portanto, a de adotar modelos prontos de sustentabilidade e indicadores pré-fabricados (ISE`s etc.), mas construí-los social e localmente.     

   Por trás das dificuldades em definir sustentabilidade se escondem disputas ideológicas e batalhas paradigmáticas, contradições e paradoxos que vão além de diferentes visões econômicas e de embates entre forças políticas de ‘esquerda’ e de ‘direita’. Sustentabilidade tem, diferentes significados para diferentes pessoas, grupos de pessoas, movimentos sociais e organizações, conforme afirma Banerjee (2003).  

  O significado do termo sustentabilidade foi se ampliando ao longo do tempo. No final do século passado as preocupações com o assunto ainda estavam diretamente ligadas aos esforços para conter a progressiva deterioração do meio ambiente físico, causada pelo crescimento econômico. Por exemplo, na compilação de trabalhos editada pela Harvard Business Review, em 2000, com o título Business and the Environment, com escritos que remontam a 1991. Nesta obra a palavra sustentabilidade (sustainability) aparece no título de dois artigos e o termo meio-ambiente (environment) aparece quase sempre como sinônimo para natureza (MAGRETTA, 2000; HART, 2000).

  No artigo de Hart (2000) acima mencionado, se espelha uma relação de causa-efeito bastante comum entre os defensores de um desenvolvimento sustentável no hemisfério norte. Segundo o autor e consultor: “[…] as raízes do problema – crescimento explosivo da população e rápido desenvolvimento econômico nas economias emergentes – são assuntos políticos e sociais que excedem o mandato e capacidade de qualquer corporação”.  Esta maneira de pensar sobre causas e consequencias da questão ambiental pode ser observada também no mundo das relações internacionais. Encontra-se, de um lado, a posição dos países desenvolvidos, de que os grandes problemas do mundo atual seriam ligados a estes pontos: crescimento explosivo da população e rápido desenvolvimento (leia-se crescimento) econômico nas economias emergentes. Isto provocaria fortes pressões por energia, consumo de bens duráveis e não duráveis, a poluição de rios e mares na etapa de produção e na eliminação de lixo doméstico. Do outro lado, a posição dos países emergentes, expressa, por exemplo, na I Conferência Internacional sobre o Petróleo e Ambiente, da qual participaram trinta países em via de desenvolvimento. Segundo a posição defendida pelos países mais pobres, são os países desenvolvidos e industrializados que devem assumir os custos do tratamento dos problemas de poluição por serem eles “que estão na origem da poluição do ambiente desde a Revolução Industrial, há centenas de anos, que lhes permitiu desenvolver-se” (GHANEM, 2008, p. 1). Além disso, a posição defendida pelos países em desenvolvimento é de que os países ricos “recusam-se a assumir a responsabilidade de poluidores, predispondo-se apenas a contribuir na luta contra a poluição” (ibid). 

  Independente de questões ligadas a países ricos e pobres, Shrivastava (1995) propõe que a responsabilidade seja dividida entre três partes: Governo, consumidores e empresas. Os questionamentos feitos pelo sobre o papel das empresas partem de uma assunção que poderia ser considerada falaciosa. A de que unicamente empresas teriam a obrigação de proporcionar ‘amenidades básicas’ (basical amenities) a 11 bilhões de pessoas, referindo-se o autor a amenidades como produtos de consumo e serviços e usando expectativas de população futura. O autor reconhece que a consequência da manutenção de níveis de consumo e dos atuais padrões de produção é insuportável para o planeta e levaria a uma degradação inimaginável, com o consumo de matérias-primas e produtos e a gigantesca geração de resíduos. Não se observa, no entanto, nenhum tipo de crítica reflexiva sobre até que ponto estas mesmas empresas convencem o consumidor sobre o que seriam níveis de ‘conforto mínimo’ e o que são ‘produtos essenciais’. Esta reflexão é necessária pois ações governamentais teriam seus limites, bem como a ação de consumidores individuais, exigindo que as empresas também se engajassem voluntariamente em ações, visando cenários futuros menos sombrios.

   De acordo com esta posição pessoas físicas seriam, portanto, também chamadas a assumir alguma postura ideológica no sentido de Söderbaum (2000) para enfrentar a crise ambiental e climática. Isto desafia a racionalidade fria da economia, em que mercados são vistos apenas como ambientes neutros em que todos os atores dispõe de todas as informações para tomar suas decisões. As incertezas mencionadas por Beck (1992, 2007) sobre possíveis cenários futuros levam cada um a agir segundo sua postura ideológica, segundo meios que imagina para atingir determinados fins desejados, inclusive em relação à sociedade e ao planeta.

   Sneddon (2000) argumenta que as lutas paradigmáticas e geopolíticas até aqui mencionadas, levaram ao rápido aumento do debate sobre sustentabilidade após o Relatório Bruntland (UN, 1987). A partir deste incremento no debate se multiplicaram posições discursivas ou tendências em relação à sustentabilidade, que se transformavam ou não em práticas e ações no campo organizacional.  

  A primeira tendência apontada por Sneddon (2000), alinhada com a posição tecnocêntrica, surge da dimensão unicamente ambiental da sustentabilidade antes mencionada. É uma preocupação e tomada de consciência com a óbvia rápida deterioração em grande escala do meio ambiente físico. A partir desta tendência se desenvolveu uma busca acelerada por inovações tecnológicas ‘verdes’ radicais. 

  Uma segunda tendência discursiva e de ação, também fruto do tecnocentrismo é apontada por Sneddon (2000). Esta, mais ideológica do que de ação profunda, propunha-se a manter a sustentabilidade econômica dos negócios de forma ambígua. Isto se daria pela geração de conhecimentos de propaganda e comunicação, e práticas daí decorrentes, que permitissem ‘reembalar’ os procedimentos de praxe de exploração dos recursos e do ser humano, dando-lhes uma ‘fachada verde’, o chamado greenwashing. Este fenômeno de proteção contra ações dos indivíduos e das coletividades e, por outro lado, a luta contra ele por parte de indivíduos e organizações de defesa dos interesses do consumidor e dos direitos civis deu origem dialeticamente a novas tensões. Fez com que corporações fossem constantemente acusadas por grupos de pressão de enganar consumidores e confrontadas com alegações de uma falsa responsabilidade social e ambiental, colocando sob suspeita sua pretensa integridade ‘holística’.

    Existe ainda uma terceira tendência segundo Sneddon (2000), que é aquela com a qual este trabalho se alinha. Esta tendência entende a sustentabilidade como um problema multicausal, paradoxal, ambíguo e complexo e que exige, portanto, uma abordagem, necessariamente, inter e multidisciplinar e que evite dualismos tradicionais (O´RIORDAN, 1993). Uma vez que é um considerado tópico de estudos por excelência interdisciplinar, requer a quebra de paradigmas e a construção de um conhecimento vivo, em que aspectos da ciência tradicional se unam a formas locais de conhecimento (MURDOCH; CLARK, 1994).

  A seguir, em mais três artigos serão apresentados aspectos do tema sustentabilidade, divididos segundo o chamado tripé da sustentabilidade, mas o desafiando.

Referências

 BANERJEE,  S. B. Who Sustains Whose Development? Sustainable  Development and the Reinvention of Nature, Organization Studies, v. 24, n.1, p. 143–180, 2003

 BECK, U. Risk Society: Towards a New Modernity, London: Sage Publications, 1992 

________. World at Risk. Polity Press: Cambridge, UK, 2007

 GHANEM, C. Discurso: I Conferência Internacional sobre o petróleo e ambiente. Trípoli, 2008, disponível em acesso em 26.03.2010

 HART, L. Beyond Greening: Strategies for a Sustainable World, In: Harvard Business Review on Business and the Environment. Boston MA: Harvard Business School Press, 2000, p. 105-130

 MAGRETTA,  J. Growth through Global Sustainability: An Interview with Monsanto´s CEO, Robert B. Shapiro, In: Harvard Business Review on Business and the Environment. Boston MA: Harvard Business School Press, 2000, p. 59-84

 MURDOCH, J.; CLARK, J. Sustainable Knowledge, Geoforum, v. 25, n. 2, p. 115-132, 1994

 SANTOS, B.de S. A Crítica da Razão Indolente. São Paulo: Cortez Editora, 2007

 SHRIVASTAVA, P.  The Role of Corporations in Achieving Ecological Sustainability, Academy of Management Review, v. 20, n. 4, , p. 936-960, Oct., 1995 

 SNEDDON, S. C. ‘Sustainability’ in ecological economics, ecology and livelihoods: a review, Progress in Human Geography , v. 24, n. 4 , p.. 521–549, 2000

 SÖDERBAUM, P. Ecological Economics: A Political Economics Approach to Environment and Development. London: Earthscan, London, 2000

 ______________. Understanding Sustainability Economics: Towards Pluralism in Economics. London: Earthscan, 2008

 VIEDERMANN, S. A economia da sustentabilidade: desafios, Cadernos de Estudos Sociais, v.11, n.1, p.141-167, jan./jun., Recife, 1995

 

 


       

O pico do petróleo e o pico populacional

pico pet pop

A população mundial era de 1,275 bilhão de habitantes em 1870, chegou ao redor de 1,6 bilhão em 1900 e passou para 7 bilhões em 2011. Um crescimento de 5,5 vezes, em menos de um século e meio. Foi o maior crescimento demográfico de toda evolução da vida humana na Terra. Porém, no mesmo período, a economia mundial (PIB) cresceu 51 vezes, segundo cálculos do eminente economista britânico Angus Maddison. Ou seja, nunca na história do Planeta houve um crescimento demográfico e econômico (demo-econômico) tão grande, propiciando, a despeito das desigualdades, uma significativa melhora no padrão de vida da população.

A esperança de vida média dos habitantes do globo que estava abaixo de 30 anos antes de 1900 subiu para 65 anos no ano 2000 e já está próxima de 70 anos. Houve melhoria das condições de moradia das pessoas, aumento do nível médio da educação, redução do analfabetismo e redução da jornada média de trabalho. O número de pessoas com acesso ao telefone (fixo e celular) e à luz elétrica passou de algo próximo do nada no século XIX para 6 bilhões em 2010. É cada vez maior o número de domicílios com a presença de geladeira, fogão, máquina de lavar, televisão, rádio, computador, Internet, etc. Embora exista muita desigualdade social no mundo, o aumento do padrão de vida médio do ser humano avançou consideravelmente, quando comparado com qualquer período anterior da civilização. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo que vinha crescendo ao longo do século XX, passou de 0,558 em 1980 para 0,682 em 2011, um aumento de 22,2% no espaço de 3 décadas. No mesmo período, houve maior aumento do IDH na Ásia, na Áfric
a e na América Latina e Caribe, diminuindo as desigualdades regionais e possibilitando um certo processo de convergência no índice de desenvolvimento entre as regiões do mundo.

O grande salto da economia e da população foi possível graças a uma fonte de energia abundante e barata que turbinou o crescimento durante o século XX. O petróleo já era conhecido há muito tempo. Mas a indústria de hidrocarbonetos ganhou impulso quando Edwin Laurentine Drake perfurou o primeiro poço nos Estados Unidos para a procura do petróleo em 1859. A produção de óleo cru nos Estados Unidos ganhou escala quando atingiu dez milhões de barris em 1874.

Com sucessivas descobertas a produção mundial cresceu e o preço caiu. Entre 1950 e 1973 os preços do petróleo estavam extremamente baixos, possibilitando o maior crescimento da economia internacional em todos os tempos. Entre 1973 e 1980 os preços subiram devido à instabilidade política no Oriente Médio. Mas entre 1980 e 2000 os preços voltaram a atingir os seus níveis mais baixos do século. O baixo custo da energia possibilitou o crescimento da industria, das cidades, do transporte e da agricultura. Acompanhando a queda do valor do petróleo, o preço real dos alimentos atingiu o seu nível mais baixo na virada do milênio.

Este fato foi fundamental para o crescimento populacional com melhoria das condições nutricionais. Segundo a FAO, houve um aumento de 25% na disponibilidade diária de energia alimentar per capita (kcal/pessoa-dia) da população mundial entre 1960 e 2010. Em consequência, diminuiram as taxas de mortalidade infantil e materna, gerando um rápido aumento do número de habitantes.

Segundo o físico e economista Robert Ayres, no livro The Economic Growth Engine: How Energy and Work Drive Material Prosperity (2009), 75% do crescimento do PIB mundial no século XX pode ser explicado pelo crescimento do uso da energia fóssil, pois o vetor energia foi fundamental na equação do crescimento económico.  Para Ayres, o crescimento populacional e econômico, especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, só foi possível devido à disponibilidade de uma energia barata e abundante (exergy efficiency), que gerou empregos, aumentou a oferta de alimentos e viabilizou o transporte de massas.

Portanto, a elevada disponibilidade de combustíveis fósseis e o baixo preço da energia foram essenciais para o crescimento econômico e populacional, com aumento do padrão de vida médio dos habitantes da Terra. A agricultura e a pecuária não teriam atendido a demanda de alimentos sem o uso intensivo do petróleo. As cidades não teriam se espraiado sem a disponibilidade de carros para transportar as populações dos suburbios e o comércio internacional não seria tão globalizado se não fosse o “milagre” da energia fóssil.

Contudo, as novas descobertas de petróleo estão diminuindo e o ritmo de produção está se aproximando do limite possível. O geólogo americano Marion King Hubbert desenvolveu, nos anos de 1950, um modelo matemático mostrando que a produção de óleo bruto tende a crescer de forma exponencial até atingiu um pico e depois iniciar uma queda também de forma exponencial. Ou seja, a produção de petróleo segue o padrão de uma distribuição normal (curva de Gauss ou curva em forma de sino). A questão em aberto não é saber se vai haver fim do crescimento da produção, mas quando será atingido o “Pico do Petróleo” ou “Pico de Hubbert”.

Alguns autores dizem que o começo do pico do petróleo chegou em 2008, quando o preço do petróleo se elevou e só não continuou aumentando por conta da menor demanda ocorrida em função da crise econômica internacional. Por outro lado, o aumento do preço do petróleo viabilizou a exploração de novas reservas (como em águas profundas) e o uso de novas tecnologias que não eram viáveis economicamente quando o preço era baixo. Portanto, o pico do petróleo pode até ser adiado, porém, a  um custo crescente. Um relatório de 150 páginas do Citigroup, divulgado em setembro de 2012, prevê que a Arábia Saudita deixará de ser exportadora de petróleo antes de 2030, devido à redução da produção e ao aumento da demanda interna, pois a população saudita passou de 3 milhões de habitantes em 1950, para 27 milhões em 2010 e deve chegar a 39 milhões de habitantes em 2030 (um aumento de 13 vezes em 80 anos). O pico da exportação saudita de petróleo aconteceu em 2011.

A despeito destes alertas, outros autores dizem que, mesmo com o aumento da demanda, ainda falta muito tempo para se chegar ao pico da exploração e que o esgotamento das reservas ainda vai demorar um pouco mais. Por exemplo, a produção mundial de hidrocarbonetos pode aumentar com a utilização dos depósitos de “tar sands” (areias betuminosas) e o gás de xisto (shale). Desta forma, pode ser que o “Pico de Hubbert” seja atingido apenas em 2030 ou 2050. O fato é que em algum momento haverá um choque entre a oferta e a demanda de energia fóssil. Evidentemente, até se atingir o ponto crítico pode haver um grande crescimento das energias limpas (solar, eólica, etc.), mudando a matriz energética baseada nos combustíveis fósseis para a utilização da energia renovável e de baixo carbono. Mas para tanto é preciso grandes investimentos nas fontes de energia não fóssil desde já.

Todavia, quanto mais tempo durar a era do petróleo maior será o impacto negativo sobre o ambiente e maiores serão os efeitos do aquecimento global e das mudanças climáticas. Portanto, se o pico do petróleo e do carvão vier logo, provavelmente haverá o fim do crescimento econômico ou haverá algo parecido com o “estado estacionário”. Mas se a exploração de carvão, petróleo e gás continuar no longo prazo as ameaças virão pelo lado ambiental. Em ambos os cenários deve haver aumento do preço da energia e dos alimentos e uma tendência de aumento do desemprego, pressionando as novas gerações.

Nesta situação, uma continuidade do incremento demográfico pode gerar um desequilíbrio entre a oferta e demanda de trabalho e a oferta e a demanda de bens de subsistência, especialmente em um contexto de escassez de água limpa e potável. A dinâmica da produção de energia é diferente da dinâmica populacional, pois após o “Pico de Hubbert” a produção de petróleo deve cair rapidamente, mas a população deve continuar crescendo mesmo após as taxas de fecundidade atingirem o nível de reposição, devido à inércia demográfica.

Assim, se o pico populacional acontecer depois do pico do petróleo pode haver sérios problemas sociais. Esta disjunção pode ser o maior desafio do século XXI. O desequilíbrio será tanto maior quanto mais cedo acontecer o pico do petróleo e quanto mais tarde acontecer o pico populacional.  Todavia, o mundo pode se preparar para uma conjuntura menos traumática se promover a aceleração das transições demográfica (para baixos níveis de fecundidade) e da matriz energética (para baixos níveis de carbono).

O fundamentalismo que mora em nós

“A realidade, mesmo se necessária, não é inteiramente previsível. Aqueles que chegam a conhecer algum pormenor exato sobre a vida de outra pessoa, logo tiram dali consequências que o não são, vendo no fato recém-descoberto, a explicação de coisas que precisamente não têm nenhuma relação com ele.” (Marcel Proust in “Em busca do tempo perdido: A Prisioneira”. Editora: Globo. Volume V, 2011.)

No final de semana, iniciando a releitura deste livro, deparei-me com esse trecho que pode ser entendido como o enfoque proustiano sobre as aflições que precedem os peculiares processos de mutação. No livro, Marcel busca a essência do “eu” de Albertine ao encarcerá-la. Todavia, como uma submissão ao fim, apenas, a encontra acordada pelo curso do tempo. Ao limitar o seu espaço, resigna-se por não aceitar uma nova mulher que se substitui perante o tempo.


De modo imprevisto, Marcel cai das nuvens e acorda no concreto. Prefere acreditar que o amor não tem por objeto um corpo, a não ser quando nele se funde uma emoção, o medo de perdê-lo e a incerteza de reencontrá-lo. Mas no final, com a morte de Albertine, só encontra vários “eus” em si, resultado do silêncio indiferente do tempo.


Penso que na expectativa da segurança, a espera dói e a gravidade também. O caus implica a perda do controle e o resultado do caus seria a mudança imprevisível.  Impede-se, assim, o transcurso do passado e do futuro na sequência do amor.


Antes de referendar os escritos de Proust, penso que as proposições clássicas reafirmam o desejo utópico de um mundo em que as pessoas não mudam a sua essência e que permanecem imunes ao que se sucede. Evidentemente, essas proposições desconsideram a existência das interações humanas e a luta de cada um por si na busca desregrada pela satisfação dos seus desejos. E, por isso, logo se torna improvável que se possa conhecer de forma definitiva qualquer pessoa.


A título de exemplo, percebo  que buscar a estabilidade não se trata de qualquer rompante de incerteza, mas de algo inerente à própria ontologia humana. Quando se renega um espectro mínimo de mudanças, encaro que existe fundamentalismo, descrito no artigo “A Política do Fundamentalismo” como “todo e qualquer movimento religioso, de qualquer que seja a religião, que tende a interpretar a realidade de hoje através dos olhos de antigos preceitos religiosos”, não só na acepção espiritual e política, mas também na emocional, material ou  filosófica.


Com efeito, não entendo o fundamentalismo apenas nos doze anos e meio de solidão de Salman Rushdie, autor de “Os versos satânicos”, ou nas atuais perseguições de grupos terroristas e intolerância de fanáticos. Percebo-o simbolicamente em várias áreas da nossa vida, principalmente, quando temos uma vida fora dos padrões regulares  ou quando somos pletoricamente distinguidos pelo que o outro nos atribui.


Seria a ideia de Proust de “espalhamento”, ou seja, as pessoas não atravessam o tempo sendo elas mesmas, mas sendo o que se tornam. Do mesmo modo, nós vivemos em um mundo que não suporta opinião. Vinculando, por fim, ideias de retaliações das mais rancorosas, apenas a quem deseja mudanças ou um olhar holístico, fora do padrão cartesiano.


Diria que há “fundamentalismo” quando há a tese artificial da estabilidade do outro e a retirada de pólvora da granada. Quando se descredencia o efeito colateral, podendo existir na palavra a ferro e fogo para o terreno pessoal.


Na perspectiva proustiana se o amor fosse estável, a sensação de deslumbramento desaparecia, visto que seria acidental e o futuro não mais aterrorizaria. Seria negar a ação da arte, como um ferimento que não fosse um processo endógeno, de forma que haveria na arte uma realidade mais profunda em que nossa personalidade verdadeira.


Realmente, não há secularização quando negamos um mundo em que somos outros a cada segundo. Lembram os desenhos do Snoopy e a busca pela garotinha ruiva em sua perfeição nos seus sonhos platônicos. Assumem uma postura Nietzscheniana quando afirmam que não deveríamos tentar deter a pedra abaixo, mas a coletividade prefere o padrão e esquece que cada indivíduo é uno e que não há singularidade.


Exercemos, assim, o “fundamentalismo” como regra. Seja ao reafirmar o que se falou sem nenhuma alteração, sem nenhuma concessão. Seja nas nossas decisões imutáveis. Seja na posse definitiva do ser amado, nas nossas amizades, nos nossos bens ou nas nossas ideias. Diria que o ciúme e a posse são os vertentes do fundamentalismo contemporâneo.


Penso também que há a inércia do “fundamentalismo” no fato das pessoas estarem cada vez mais preocupadas apenas com os seus problemas.  Então o inicio e o fim das questões é a razão do absoluto.  Seria um contraponto acreditar na estabilidade quando se passa por momentos difíceis ou não, mas que, em si, alteraram a forma de agir.


Qualquer situação que, de alguma forma, nos faz lembrar o pensamento multifacetado do mundo, descrito no filme Ponto de Mutação de Capra quando os personagens de “marido fracassado, o poeta faminto e o mau professor” mudam a percepção que todo ponto de mutação se revela na transposição do velho para o novo. Penso que renegar as crises que ensejarão as mudanças durante as existência são idiossincrasias indignamente banais.


Na falta de evidências empíricas, há referências milenares sobre a morte quando os personagens tornam-se prisioneiros. Mais ainda: os ângulos duros só levam  as vinhas da ira, escrito por John Steinbeck, pois quando as “teorias mudam e caem por terra, quando as escolas filosóficas, quando os caminhos estreitos e obscuros das concepções nacionais, religiosas, econômicas, se alargam e se desintegram, o homem arrasta-se para diante, sempre para frente, muitas vezes cheio de dores, muitas vezes pelo caminho errado”.


Paus e pedras podem quebrar ossos, mas não a essência.  Porém, tendo dado um passo à frente, pode voltar atrás.  E como fala Proust: “Amor tem muito a ver com insatisfação… É uma espécie de desequilíbrio que, só assim, nos leva à plenitude”.

O fundamentalismo que mora em nós

 “A realidade, mesmo se necessária, não é inteiramente previsível. Aqueles que chegam a conhecer algum pormenor exato sobre a vida de outra pessoa, logo tiram dali consequências que o não são, vendo no fato recém-descoberto, a explicação de coisas que precisamente não têm nenhuma relação com ele.” (Marcel Proust in “Em busca do tempo perdido: A Prisioneira”. Editora: Globo. Volume V, 2011.)

No final de semana, iniciando a releitura deste livro, deparei-me com esse trecho que pode ser entendido como o enfoque proustiano sobre as aflições que precedem os peculiares processos de mutação. No livro, Marcel busca a essência do “eu” de Albertine ao encarcerá-la. Todavia, como uma submissão ao fim, apenas, a encontra acordada pelo curso do tempo. Ao limitar o seu espaço, resigna-se-se por não aceitar uma nova mulher que se substitui perante o tempo. 


De modo imprevisto, Marcel cai das nuvens e acorda no concreto. Prefere acreditar que o amor não tem por objeto um corpo, a não ser quando nele se funde uma emoção, o medo de perdê-lo e a incerteza de reencontrá-lo. Mas no final, com a morte de Albertine, só encontra vários “eus” em si, resultado do silêncio indiferente do tempo.


Penso que na expectativa da segurança, a espera dói e a gravidade também. O caus implica a perda do controle e o resultado do caus seria a mudança imprevisível.  Impede-se, assim, o transcurso do passado e do futuro na sequência do amor.  


Antes de referendar os escritos de Proust, penso que as proposições clássicas reafirmam o desejo utópico de um mundo em que as pessoas não mudam a sua essência e que permanecem imunes ao que se sucede. Evidentemente, essas proposições desconsideram a existência das interações humanas e a luta de cada um por si na busca desregrada pela satisfação dos seus desejos. E, por isso, logo se torna improvável que se possa conhecer de forma definitiva qualquer pessoa.


A título de exemplo, percebo  que buscar a estabilidade não se trata de qualquer rompante de incerteza, mas de algo inerente à própria ontologia humana. Quando se renega um espectro mínimo de mudanças, encaro que existe fundamentalismo, descrito no artigo “A Política do Fundamentalismo” como “todo e qualquer movimento religioso, de qualquer que seja a religião, que tende a interpretar a realidade de hoje através dos olhos de antigos preceitos religiosos”, não só na acepção espiritual e política, mas também na emocional, material ou  filosófica. 


Com efeito, não entendo o fundamentalismo apenas nos doze anos e meio de solidão de Salman Rushdie, autor de “Os versos satânicos”, ou nas atuais perseguições de grupos terroristas e intolerância de fanáticos. Percebo-o simbolicamente em várias áreas da nossa vida, principalmente, quando temos uma vida fora dos padrões regulares  ou quando somos pletoricamente distinguidos pelo que o outro nos atribui.


Seria a ideia de Proust de “espalhamento”, ou seja, as pessoas não atravessam o tempo sendo elas mesmas, mas sendo o que se tornam. Do mesmo modo, nós vivemos em um mundo que não suporta opinião. Vinculando, por fim, ideias de retaliações das mais rancorosas, apenas a quem deseja mudanças ou um olhar holístico, fora do padrão cartesiano.


Diria que há “fundamentalismo” quando há a tese artificial da estabilidade do outro e a retirada de pólvora da granada. Quando se descredencia o efeito colateral, podendo existir na palavra a ferro e fogo para o terreno pessoal. 


Na perspectiva proustiana se o amor fosse estável, a sensação de deslumbramento desaparecia, visto que seria acidental e o futuro não mais aterrorizaria. Seria negar a ação da arte, como um ferimento que não fosse um processo endógeno, de forma que haveria na arte uma realidade mais profunda em que nossa personalidade verdadeira. 


Realmente, não há secularização quando negamos um mundo em que somos outros a cada segundo. Lembram os desenhos do Snoopy e a busca pela garotinha ruiva em sua perfeição nos seus sonhos platônicos. Assumem uma postura Nietzscheniana quando afirmam que não deveríamos tentar deter a pedra abaixo, mas a coletividade prefere o padrão e esquece que cada indivíduo é uno e que não há singularidade.


Exercemos, assim, o “fundamentalismo” como regra. Seja ao reafirmar o que se falou sem nenhuma alteração, sem nenhuma concessão. Seja nas nossas decisões imutáveis. Seja na posse definitiva do ser amado, nas nossas amizades, nos nossos bens ou nas nossas ideias. Diria que o ciúme e a posse são os vertentes do fundamentalismo contemporâneo. 


Penso também que há a inércia do “fundamentalismo” no fato das pessoas estarem cada vez mais preocupadas apenas com os seus problemas.  Então o inicio e o fim das questões é a razão do absoluto.  Seria um contraponto acreditar na estabilidade quando se passa por momentos difíceis ou não, mas que, em si, alteraram a forma de agir.


Qualquer situação que, de alguma forma, nos faz lembrar o pensamento multifacetado do mundo, descrito no filme Ponto de Mutação de Capra quando os personagens de “marido fracassado, o poeta faminto e o mau professor” mudam a percepção que todo ponto de mutação se revela na transposição do velho para o novo. Penso que renegar as crises que ensejarão as mudanças durante as existência são idiossincrasias indignamente banais.


Na falta de evidências empíricas, há referências milenares sobre a morte quando os personagens tornam-se prisioneiros. Mais ainda: os ângulos duros só levam  as vinhas da ira, escrito por John Steinbeck, pois quando as “teorias mudam e caem por terra, quando as escolas filosóficas, quando os caminhos estreitos e obscuros das concepções nacionais, religiosas, econômicas, se alargam e se desintegram, o homem arrasta-se para diante, sempre para frente, muitas vezes cheio de dores, muitas vezes pelo caminho errado”.


Paus e pedras podem quebrar ossos, mas não a essência.  Porém, tendo dado um passo à frente, pode voltar atrás.  E como fala Proust: “Amor tem muito a ver com insatisfação… É uma espécie de desequilíbrio que, só assim, nos leva à plenitude”. 

O fim do Império Americano?

A hegemonia Americana está em declínio. Os Estados Unidos da América (EUA) já não tem mais o poder unilateral de dar as cartas do mundo. Evidentemente, o país ainda continua sendo um poder nacional forte. Mas vai perder o posto de maior economia do Planeta ainda nesta década (para a China) e vai ter que se voltar para a solução de suas debiidades internas, como a alta dívida pública, os altos déficits gêmeos (comercial e fiscal), a deterioração da infraestrutura física e humana, etc. Será o fim do Império Americano?

O grafico abaixo mostra o ciclo de variação das taxas de crescimento do PIB americano nos últimos 70 anos. Nota-se que a recessão de 2008 foi a mais severa das últimas 7 décadas e foi a que teve a pior recuperação. Por exemplo, houve uma pequena recessão em 1990/1991, mas no restante da década de 1990 (no governo Bill Clinton) a economia voltou a crescer a ritmo elevado (4% ao ano) gerando milhões de empregos, aumentando a renda da população e reduzindo os déficits fiscal e comercial. Mesmo a recessão de 2001/2002 apresentou razoável recuperação (mas neste caso, no governo George W Bush) houve aumento dos déficits e da dívida interna.

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Mas a recuperação atual é a mais fraca e a que gerou a menor quantidade de emprego, conforme mostra o gráfico abaixo. Nota-se que a geração de emprego vem caindo década após década desde os anos 1980. Consequentemente a taxa de desemprego aberto está acima de 8% e o desemprego oculto, ou desalento, está cada vez maior.

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A redução do crescimento econômico e o aumento do desemprego se refletem diretamente no péssimo desempenho do comportamento da renda per capita. Nos últimos 70 anos é a primeira vez que a renda per capita continua abaixo do período recessivo por mais de 4 anos. A renda per capita dos EUA em 2012 é menor do que a que havia em 2007, conforme mostra o gráfico abaixo.

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Uma crise permanente da economia dos EUA vai ter várias consequências. Por exemplo, vai diminuir as taxas de imigração e reduzir as taxas de fecundidade. Isto quer dizer que a população americana vai crescer menos e vai envelhecer mais rapidamente. O aumento da razão de dependência demográfica vai dificultar ainda mais o crescimento da produtividade econômica.

Uma consequência positiva, desta situação econômica negativa (com aumento da pobreza e da desigualdade social) é o abrandamento da crise ambiental. A pegada ecológica da população americana está muito acima da biocapacidade do país. Outra consequência pode ser o enfraquecimento do poder de fazer guerras pelo mundo afora.

Nesta nova realidade, os EUA vão ter que rever sua história e os rumos do país, buscando uma forma de convivência pacífica interna, internacional e ambiental.

Referência:
State of the Race, Part 3: Winning by Losing. By Sean Trende – September 21, 2012
http://www.realclearpolitics.com/articles/2012/09/21/state_of_the_race_part_3_winning_by_losing_115526.html

A população do Japão em 2100

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O Japão é um dos exemplos atuais mais significativos de decrescimento demográfico. A população japonesa era de 82,2 milhões de habitantes em 1950 (enquanto o Brasil tinha 52 milhões) e chegou ao seu pico máximo em 126,6 milhões em 2009. Aumentou apenas 50% em 60 anos (período em que a população mundial quase triplicou) e iniciou uma fase de declínio. Tudo indica que, no “Império do Sol”, as duas fases de crescimento e decrescimento populacional vão se conformar, aproximadamente, no formato de uma curva normal (curva de Gauss), que também é o formato do cone perfeito do Monte Fuji.

A divisão de população da ONU estima, para o ano de 2050, uma população de 121,5 milhões na hipótese alta, de 108,5 milhões na hipótese média e de apenas 96,7 milhões na hipótese baixa. Para o final do século as hipóteses são: 141,7 milhões de habitantes, na hipótese alta, de 91,3 milhões, na média, e somente 55,2 milhões na hipótese baixa. Ou seja, o Japão pode ter uma população em 2100 menor do que aquela de 1950.

O Japão que tinha a quinta maior população do mundo, quando o globo  tinha cerca de 2,5 bilhões de habitantes (cerca de 3% dos habitantes do mundo em 1950), deve passar para cerca de 0,5% dos habitantes do mundo no final do século XXI. A densidade demográfica do Japão era de 218 habitantes por km2, passou para 335 hab/km2 em 2010 e deve cair para 242 hab/km2 na projeção média para 2100.

O declínio da população japonesa decorre das baixas taxas de fecundidade total (TFT). Durante a Segunda Guerra, o militarismo japonês incentivou o aumento da fecundidade, mas depois da derrota, o tamanho das famílias caiu e as mulheres já apesentavam uma média de somente 3 filhos no quinquênio 1950-55. Dez anos depois a fecundidade já estava abaixo do nível de reposição e continuou caindo até o limite inferior de 1,3 filhos por mulher no quinquênio 2000-05. A divisão de população da ONU acredita que as taxas de fecundidade vão aumentar até atingir o nível de reposição (2,1 filhos por mulher) no final do atual século. Mas mesmo com as taxas de fecundidade voltando a subir, a população vai continuar caindo, porém, pode cair em ritmo maior ou menor dependendo da recuperação do número de filhos das famílias.

O Japão foi um dos países que apresentou uma das maiores taxas de crescimento econômico e social entre 1950 e 1990, aproveitando de forma exemplar a fase propícia da estrutura etária que, em geral, fornece um bônus demográfico, quando há investimentos corretos em educação, saúde e mercado de trabalho. Foi o primeiro país oriental a entrar no clube dos países desenvolvidos.

O Japão tinha uma taxa de mortalidade infantil de 50 por mil no quinquênio 1950-55 e conseguiu fazer um feito histórico com a redução para 2,6 mortes para cada mil nascimentos, uma das mais baixas do mundo e quase chegando nos limites biológicos de baixa. Para o quinquênio 2045-50 estima-se uma taxa de 2,3 por mil. Esta espetacular queda da mortalidade infantil teve papel fundamental para tornar a esperança de vida da população japonesa a maior do mundo. No quinquênio 1950-55 os japoneses viviam em média 62,2 anos e atingiram uma esperança de vida de 82,7 anos no quinquênio 2005-10, sendo que as mulheres japonesas estavam na liderança mundial vivendo 87,4 anos em média.

O Japão – único país do mundo a sofrer ataques atômicos (em Hiroshima e Nagasaki) – conseguiu uma grande recuperação após a Segunda Guerra Mundial e se tornou a terceira economia do mundo, garantindo um grande padrão de vida para a sua população. Mas o país depende dos recursos naturais do restante do mundo.

Segundo o relatório Planeta Vivo de 2012, da WWF, a população japonesa tinha uma pegada ecológica de 4,17 hectares globais (gha) em 2008, para uma biocapacidade de somente 0,59 gha. Isto quer dizer que o país do sol nascente tem um déficit ambiental de cerca de 600%, embora seja um dos países que apresente grande cobertura florestal em seu montanhoso território.

Uma diminuição da população japonesa nas próximas décadas pode ser muito positivo para a redução do déficit ambiental do país. Mas apenas a diminuição do número de habitantes não resolve o problema da pegada ecológica. Depois desastre ocorrido na usina nuclear de Fukushima, o Japão vai precisar investir bastante em energias renováveis (eólica, solar, das ondas, geotérmica, etc.) para reduzir a dependência da energia nuclear e dos combustíveis fósseis, diminuindo subtancialmente a emissão de gazes de efeito estufa.

Talvez a terra dos Samurais seja o primeiro país a apresentar decrescimento populacional e econômico, nesta primeira metade do século XXI, mas sem prejudicar significativamente a qualidade de vida de seus cidadãos. O Japão pode se tornar um bom laboratório para a perspectiva da “prosperidade sem crescimento” ou até mesmo da “prosperidade com decrescimento”.

Terra, água e estresse hídrico

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A água é um dom do Universo e um bem escasso. Nenhuma espécie animal ou vegetal vive sem água. Porém, o ser humano está maltratando, poluindo e superexplorando as fontes limpas de água doce, além de estar sujando, danificando e acidificando os oceanos. Diversos países do mundo, especialmente no Oriente Médio e a China, estão esgotando suas reservas de água subterrâneas mais rapidamente do que elas podem ser repostas.

As pessoas pensam que a água é um bem abundante porque ela cobre 71% da superfície da Terra. Todavia, o Serviço Geológico dos EUA produziu uma imagem comparando a quantidade de água total, a água doce e o volume na Terra. Na ilustração, a esfera à esquerda representa a Terra com toda a água removida. A esfera azul à direita mostra o volume aproximado de toda a água da Terra. O minúsculo ponto azul na extrema direita representa a água doce disponível no mundo. Ainda segundo o Serviço Geológicos dos EUA, outra maneira de visulisar é representando o tamanho da Terra com uma bola de basquete, toda a água do planeta como uma bola de pingue-pongue e toda a água doce disponível seria menor do que um milho de pipoca.

Quando comparado com os demais planetas, a Terra tem uma riqueza imensa de água. Porém, do total dos recursos hídricos, os oceanos abarcam cerca de 97% do volume, restando apenas 3% de água doce para satisfazer as necessidades de todos os seres vivos do Planeta que não vivem nos oceanos. Desta pequena quantidade de água potável, 2,4% estão congeladas nas geleiras e calotas polares e somente 0,6% encontram-se nos rios, lagos e represas.

Mas a população e a economia continuam crescendo e demandando maiores volumes de água doce ao mesmo tempo em que aumenta a poluição provocada pelos esgotos e resíduos sólidos. O Rio de Janeiro, por exemplo, que é um município que sediou duas Conferências Internacionais sobre o Meio Ambiente (em 1992 e 2012) e mesmo sendo uma cidade que tem “rio” no nome, não tem respeitado os seus cursos dágua, pois transformou o rio Carioca, o rio Maracanã e outros em verdadeiros esgotos a céu aberto. A Baia da Guanabara virou “Pinicão da Guanabara”.

Contudo, ao invés de aprender a lição e reconhecer que a água doce da Terra é uma riqueza limitada, o ser humano tem ido buscar o precioso líquido nas reservas subterrâneas, passando a superexplorar os aquíferos.

Segundo o hidrologista canadense Tom Gleeson existe um aumento do estresse hídrico no Planeta. Dentre os países que mais superexploram suas reservas de água subterrânea estão: Estados Unidos, Índia, China, Paquistão, Irã, Arábia Saudita e México. Os três primeiros são os países mais populosos do mundo e já estão sofrendo as consequências das secas e da falta de água para sustentar as atividades antrópicas e garantir a biodiversidade e a vida selvagem.

O corpo do ser humano é formado por cerca de 60% de água, mas ironicamente, mais de 1 bilhão de pessoas no mundo ainda não tem acesso à água potável. Contudo, segundo a ONU, a extração das reservas subterrâneas de água se multiplicou por três durante os últimos 50 anos, proporcionando cerca da metade da água que se bebe no mundo. Mesmo assim, cerca de 1,7 bilhão de pessoas (25% da população mundial) moram nas regiões onde a água subterrânea é superexplorada.

O Brasil é um dos países mais privilegiados do mundo em termos de recursos hídricos. Mas além das áreas do semi-árido do polígono da seca, até cidades com grandes reservas subterrâneas estão sofrendo com o uso inadequado das águas. Em Ribeirão Preto (SP) a falta de ações efetivas para evitar a atual superexploração do aquífero Guarani pode tornar a situação insustentável em pouco anos. Embora o aquífero seja um dos maiores reservatórios de água doce do mundo, a superexploração pode comprometer o abastecimento de Ribeirão Preto e outras cidades da região.

Além do consumo da população,  atualmente os grandes usuários da água são empresas ligadas ao agronegócio, que têm capacidade de perfuração de grandes poços artesianos. Segundo Paulo Finotti, presidente da Sociedade de Defesa Regional do Meio Ambiente:  “Hoje se sabe que em Ribeirão o consumo é 13 vezes maior que a recarga.” No verão de 2012, moradores de 47 bairros das zonas leste, oeste e norte de Ribeirão Preto sofreram com a falta de água, num clima de mais de 40º centígrafos.

Todos estes exemplos mostram que a água pura e limpa, que é uma riqueza com limites inelásticos, está ficando cada vez mais escassa e mais controlada por interesses do lucro. O mercado da água engarrafada é cada vez maior e a comercialização do líquido assume proporções crescentes na economia. Nas grandes cidades brasileiras, duas garrafinhas de água (de 500 ml) custam mais caro do que um litro de gasolina.

O fato é que a humanidade tem monopolizado os recursos hídricos, transformando-os em commodities, sem respeito aos direitos da água e nem ao direito que as demais espécies vivas da Terra devem ter ao acesso às mesmas fontes da sobrevivência. A incrível disponibilidade de água transforma a Terra em um planeta excepcional. A água é a fonte da vida. Sem água limpa e pura não existe possibilidade de sobrevivência, nem no presente e muito menos no futuro.

Em defesa da conta que chega em partes

“Não importa o quanto você mude, você ainda tem que pagar o preço pelas coisas que fez. Então eu tenho uma longa estrada. Mas eu sei que vou ver você de novo. Neste lado ou no outro.” (Ben Affleck no filme Atração Perigosa)

Nesse final de semana, assisti com a devida distância do lançamento, ao filme “Atração Perigosa”, escrito e dirigido pelo próprio Affleck, cujo contexto destaca um grupo de criminosos com total ausência de emoção quando tudo começa a descarrilhar durante o roubo de um banco.

No filme, inverte-se a lógica de indiferença à vítima e o líder do grupo se apaixona pela refém durante o assalto ao banco, surgindo, assim, um desejo de mudança. Não é um filme que trata de transgressores natos, mas do despojamento do ser humano perante a remissão natural de seus erros.

Percebo que existe uma crença de que as leis da natureza condicionam que as coisas aconteçam de uma única forma, sem enxergamos o livre-arbítrio na questão do arrependimento ou mesmo a sua espacialidade.
Você, eu não tenho ideia, mas eu nunca conheci ninguém que, em um bar, não tenha se incomodado com a divisão de uma conta coletiva quando se pede uma conta parcial. Percebo que quando o garçom entrega a conta, o foco é desviado, gerando desconforto para quem vai embora e para quem fica. Dificilmente não pairam dúvidas sobre o que restou quando não existe um acordo pré-definido.
Analogicamente, penso que acontece algo semelhante com os erros que comentamos em diferentes fases de nossa vida. Independente do que deixamos da conta parcial, que seria o quanto mudamos, o que ficou, gera, ainda, desconforto para o outro, principalmente, porque se percebe uma realidade que  contraria o livre-arbítrio, pois seria involuntário.
Entendo que a nossa pior escolha é esperar o determinismo, ou seja, que o outro entenda a mudança imediata, como se o arrependimento fosse um pagamento adiantado frente às parcelas pendentes da conta.  Logo, o simples fato da promessa da não repetição, não anula o erro.
Nesse sentido, imagino que não é a mudança do outro que permite que a conta seja eleita a conta final. Ademais, percebo, também, que essa questão não está associada a falta de perdão, mas a possibilidade de certeza que o outro deixou de se repetir.

Dificilmente encontramos alguém que não pensa que poderia ter feito diferente. Vejo exemplo no cotidiano quando assume que a amizade, o amor ou qualquer relação resiste a tudo, que deve aceitar as reprises ou colocar o despertador adiantado para não perder a hora e desligar no meio da madrugada, apenas pelo mito da resistência que se é capaz de acordar na hora.
Não se trata de perceber que a vida é justa ou injusta, mas apenas de se desconstruir e flexibilizar frente à frase de Goethe: “de que devemos pagar caro pelos nossos erros se quisermos ver-nos livres deles, e depois podermos até dizer que temos sorte”. Seria algo semelhante a  aprender se aperfeiçoando ao que passou. Não porque a porta estava aberta. Não porque alguém iria pagar um valor maior da conta no final.
Dentro de sua complexidade, os arrependimentos podem permitir mudanças, mas podem  levar a solidão do não poder fazer mais nada. Pode justificar um desenho de um novo caminho de casa, como um sufista, em que as ondas marcam o caminho, mas pode ser marcado pela impossibilidade de se voltar atrás e pegar as mesmas ondas.
E, assim, o arrependimento pode ser um ato de humanismo, mas pode ser retrocesso ou uma rua sem saída. Entendo que não se trata de bater no peito e falar sem humildade que não faria nada diferente, apenas por delimitação de área, mas de colocar, ao lado, as ilusões e aceitar a realidade dos nossos próprios atos.
Em outra perspectiva, seria seguir em frente, com uma aposta na bolsa de valores, depois do recrudescimento da queda de ações, procurando não se vitimizar ou enganar a si próprio por meio do mecanismo do autoengano de ser perdoado 70.000 mil vezes.

Certo dia li uma crônica do Rubem Alves sobre a transformação do milho duro em pipoca macia como uma mudança pela qual as pessoas devem passar para que venham a ser o que elas devem ser. Como uma analogia à fatalidade necessária, a conta em partes seria a passagem do milho para pipoca pelo poder do fogo, pois sem  ele o milho continuaria a ser milho de pipoca, para sempre.
Confesso que levei parte da vida lembrando ações, palavras e missões que chegaram aparentando que eu tinha razão e só me levaram ao enfretamento de pipocas que já tinham perdido o controle do fogo e queimaram.  Só depois de um tempo, entendi o que cantava Renato Russo: “Sinto arrependimento quando não aprendo com meus erros.”

Hoje depois de várias tentativas de monólogos no escuro da plateia, venho tentando atribuir a culpa dos meus erros e infortúnios a mais ninguém, senão a mim. Às vezes me vejo no papel de vítima, mas demoro o mínimo de tempo sem enxergar o preço que devo pagar pelas coisas que fiz.

Isso também não significa que tenho crédito consignado para o erro. Compreendo que em diferentes fases da minha vida, a autocomiseração não fez sentido. Foi colocada como anfitrião, mas vi as luzes se apagarem logo depois da primeira cena. Compreendo que as pessoas não estavam mais dispostas a relevar quando eu perdia perdão a cada dois dias.  E aí comecei a internalizar a conta em partes.

De um lado, o começar de novo parecia algo deslocado da realidade. No entanto, aceitei um mundo de desconcertos ou com possibilidade de refazer o percurso. Entendi que não estava congelada na era do gelo, mas também não estava condenada a ser uma divindade humana, minuciosamente premeditada a passar a vida tentando corrigir os erros. De outro, impedi a cobrança de uma conta que mesmo paga, o tempo vivido não levou ao esquecimento.
Tento não me basear em remake de velhos ditados como “a gente colhe o que planta” ou “quem semeia urtiga não colhe rosas”. Mas, estou disposta a pagar o que ficou da conta, mesmo sem dá 100% de atenção ao tempo passado. Entendo que não existem algozes para o perdão, pois de uma forma ou outra somos escravos de uma situação se não conseguimos nos libertar da mágoa.
Algumas ruas têm que ter mão e contramão, outras apenas uma direção. Logo, a frase de Carl Jung: “erros são, no final das contas, fundamentos da verdade”, não é só uma questão de ponto de vista, mas uma perspectiva de recalcular a conta e pagar os juros, com a certeza do único determinismo que é de liquidar a conta aos poucos.

A população de Bangladesh em 2100

 

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Bangladesh (etimologicamente quer dizer a nação Bengali) fazia parte, junto com o Paquistão da grande civilização da Índia. Em 15 de agosto de 1947, a Índia conseguiu sua independência do domínio britânico, sendo que as zonas de maioria muçulmana se separam para formar um novo país com duas áreas separadas, o Paquistão Ocidental e Oriental. De 1947 a 1971 Bangladesh (parte oriental) e Paquistão (parte ocidental) faziam parte de um só país. Em 1971, depois de uma guerra civil de nove meses, Bangladesh se tornou um país independente.

A área que corresponde hoje a Bangladesh tinha uma população de 37,9 milhões de habitantes em 1950, passando para 148,7 milhões em 2010, quase quadruplicando de tamanho em 60 anos. A divisão de população da ONU estima, para o ano de 2050, uma população de 226,3 milhões na hipótese alta, de 194,4 milhões na hipótese média e de 166 milhões, na hipótese baixa. Para o final do século as hipóteses são: 275,1 milhões de habitantes, na hipótese alta, de 157,1 milhões, na média, e somente 82,3 milhões na hipótese baixa. Ou seja, Bangladesh apresentou um grande crescimento populacional na segunda metade do século XX, ainda vai crescer na primeira metade do século XXI (mesmo que em ritmo menor) e pode ter uma população em declínio na segunda metade do corrente século.

Bangladesh é um dos países com maior densidade demográfica do mundo, pois em 1950 tinha 263 habitantes por km2, passando para 1033 hab/km2,, devendo chegar a 1350 hab/km2 em 2050. Só para comparação, o Japão tinha densidade demográfica de 218 habitantes por km2 em 1950 (praticamente a mesma de Bangladesh na mesma data), passou para 335 hab/km2 em 2010 e deve cair para 287 hab/km2 na projeção média para 2050. Portanto, atualmente, Bangladesh tem uma densidade demográfica 3 vezes maior do que a do Japão.

A taxa de fecundidade total (TFT) estava em 6,4 filhos por mulher no no quinquênio 1950-55 e passou para 2,4 filhos por mulher no quinquênio 2005-10. A divisão de população da ONU acredita que as taxas de fecundidade devem cair para abaixo do nível de reposição no quinquênio 2045-50, devendo ficar em 1,6 filhos por mulher. Na verdade Bangladesh conseguiu implementar um programa de planejamento familiar e de acesso à saúde reprodutiva mais eficaz do que conseguiram a Índia ou o Paquistão.

A redução da fecundidade tem contribuido para a ampliação do bônus demográfico e para a redução das taxas de mortalidade infantil e de mortalidade materna. As taxas de mortalidade infantil estavam em 165 por mil no quinquênio 1950-55, passou para 49 por mil no quinquênio 2005-10 e deve atingir 16 por mil no quinquênio 2045-50. Já a esperança de vida subiu de 45,3 anos, para 67,8 anos e deve atingir 77 anos, nos mesmos quinquênios.

Além da pobreza e da desigualdade social, uma coisa que pode comprometer o futuro da população são as consequências do aquecimento global. Bangladesh é um país com território pouco acima do nível do oceano e possui uma grande planície formada pelo delta dos rios Ganges, Brahmaputra e Meghna. Uma elevação do nível do mar poderá afetar a fertilidade das terras de aluvião que são muito férteis e respondem pela maior parte da oferta de alimentos do país.

Se a taxa de fecundidade continuar caindo no ritmo atual, a população pode ficar estável em torno de 157 milhões de habitantes em 2100, ou ficar em torno de 82 milhões se a taxa de fecundidade cair em ritmo mais rápido. Contudo, Bangladesh ainda vai continuar nas próximas décadas um país pobre, com alta densidade demográfica e alto déficit ecológico.

A pegada ecológica per capita do país era de 0,66 hectares globais (gha) em 2008, de acordo com o relatório Planeta Vivo, da WWF. Porém, a biocapacidade per capita era ainda menor de 0,42 gha. Desta forma, Bangladesh terá um grande desafio nas próximas décadas para promover o crescimento econômico, com aumento da qualidade de vida da população e com a defesa e a recuperação do meio ambiente.

O desenvolvimento sustentável de Bangladesh não será alcançado facilmente, pois será difícil alimentar e melhorar o padrão de vida da população que tinha um Índice de Desenvolvimento Humano de 0,5 em 2011, menos do que a Índia, com IDH de 0,55. Tudo isto dificulta a saida da armadilha da pobreza. Somente com o esforço interno e a cooperação internacional as condições atuais do país podem ser revertidas.